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Amor e Morte: O Destino de Dalya

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ruan silva
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Dalya Elrian

Vazio e frio, eram as sensações que Dalya experimentava a cada passo que dava
para ceifar a vida dos que já não mais existiam. Não havia nenhum vestígio de
emoção ao testemunhar as famílias implorando para que ela não cometesse tal ato,
ajoelhando-se no chão áspero e suplicando pela vida de seus entes queridos. No
entanto, Dalya permanecia indiferente, pois ela não era alguém que se permitia
afeições. Seu destino fora selado no momento em que abraçou sua natureza como a
própria Morte. Embora não sentisse nenhum remorso ou respeito pelas famílias,
ela simplesmente cumpria seu dever e partia, deixando um rastro de dor e lamento.
O som do choro das pessoas e as súplicas para que seus amados fossem poupados
eram como uma cacofonia indesejada para Dalya. A Morte era apenas uma casca
vazia, desprovida de qualquer sentimento. Não adiantava implorar, chorar ou fazer
acordos, pois ninguém escapa do abraço gélido da morte.

Dalya se questionava: "Por que eu nunca sinto remorso por aqueles que se foram,
sejam eles bons ou maus?" Como uma novata, ela estranhava a ausência de
sentimentos. De forma irônica, sendo a personificação da Morte, ela ansiava por
sentir-se viva pelo menos uma vez em sua eternidade. Foi então que Leven
apareceu, com seus longos cabelos ruivos ondulados, olhos verdes suaves, lábios
avermelhados que pareciam doces como morangos. Sua pele pálida e suave era
como porcelana frágil e... suas sardas, aquelas malditas sardas que se espalhavam
pelo seu rosto como constelações em um céu cintilante. Leven vivia em uma vila
pacata próxima ao campo, onde as pessoas condenavam qualquer mulher que se
interessasse por livros e contos de bruxas. Leven teve que esconder seu fascínio por
reencarnação e criaturas mitológicas, mesmo quando o padre negava a existência
dessas coisas.

Dalya foi obrigada a ceifar a vida do pai de Leven, e a pobre garota não tinha
conhecimento de como seu pai havia morrido ou quem havia levado sua alma. Ele
era a única pessoa em sua vida que não a julgava como louca por viver em seu
mundo de fantasia, imaginando-se rodeada por elfos, gnomos e fadas. Leven
sonhava em se tornar uma curandeira, pois naquela vila monótona e sem graça,
salvar vidas era considerado divino.
Enquanto Leven estava às margens do lago, chorando e suplicando pelo retorno de
seu pai, sua aura melancólica atraía os animais da floresta, que a observavam
curiosos. No entanto, uma aura pesada surgiu repentinamente, fazendo com que os
animais fugissem rapidamente. Leven ergueu a cabeça e deu um salto para trás ao
se deparar com o semblante sereno e estranhamente angelical de Dalya. A garota
riu e enxugou suas lágrimas.

- Meu Deus! Você me assustou, moça! - murmurou ela com a voz embargada.

- O que faz aqui neste riacho? Nunca a vi por aqui. - respondeu Dalya com
indiferença em sua voz.

- Peço desculpas por meus soluços incomodarem seus ouvidos, é que... bem, perdi
alguém importante em minha vida. - disse Leven, com a voz levemente trêmula.

Dalya revirou os olhos, não gostando da situação, e estava prestes a se afastar para
seguir seu caminho. No entanto, sentiu seu sobretudo ser puxado pelas mãos
delicadas da camponesa, que a olhava com aqueles olhos inchados, exalando
melancolia e pureza. Por que Leven tinha buscado consolo em uma completa
desconhecida? Por que não deixá-la partir e seguir com seu trabalho? Afinal, a
Morte não deveria se preocupar com uma mera mortal, que havia despertado em
Dalya sentimentos... de amor.

As duas se encontravam regularmente no mesmo riacho, seja de manhã ou à noite.


Leven sempre compartilhava suas histórias sobre os livros que lia, as histórias
contadas por seu pai e os contos de bruxas e elfos. Ela era a personificação da
inocência e pureza, e Dalya se questionava por que a vida podia ser tão generosa
com alguém tão bondoso. Ela jamais imaginou que faria algo oposto ao seu papel
como Morte: salvar uma vida. O relógio acima de Leven sempre voltava ao início,
marcando dois dias, e Leven sempre tentava tirar sua própria vida, apenas para ser
resgatada por Dalya. Era um ciclo de salvação que se repetia.

À medida que os meses passavam, novos moradores chegavam à vila, atraídos pelas
palavras religiosas do padre, que era na verdade um impostor pregando a palavra
de seu "Deus" de maneira ignorante. Apesar das mudanças, a conexão entre Dalya e
Leven só crescia mais intensamente. Um calor intenso surgia no peito de Dalya, um
formigamento na barriga sempre que pensava, tocava ou olhava para Leven. Mas
por que isso aconteceu agora? Por que uma simples camponesa conseguia
despertar esses sentimentos na Morte? Bem, não se pode negar que era amor. Dalya
estava feliz, pois há muito tempo não experimentava essas emoções tão intensas.
Ela até considerava pedir ao seu criador para se tornar mortal e viver ao lado de sua
amada, Leven. Mesmo que esse sentimento não fosse correspondido, tudo que
Dalya desejava era estar perto de sua pequena constelação e sentir emoções
poderosas ao seu lado.

Dentro dos novos moradores que chegaram à vila, estava Louys, um jovem
arrogante e irritante aos olhos de Dalya. Pelo menos era assim que ela o via, pois
Leven mostrava interesse por esse simples mortal. Dalya não podia fazer nada além
de aceitar, afinal, Leven era livre para escolher com quem se relacionar. A Morte
não tinha o direito de sentir ciúmes da garota, mas, sim, é isso mesmo, ciúmes.
Mais uma emoção para a lista da Morte. E junto com o ciúmes, veio o ódio e a
desconfiança.

Louys sempre encontrava um jeito de afastar Leven de Dalya, o que era estranho,
pois ninguém sabia do segredo da mulher, nem mesmo sua amada. As suspeitas da
albina estavam certas. Louys desconfiava que a ruiva era uma espécie de bruxa, e
essa semente maligna foi plantada em sua mente pelo padre Kapłan. Ele usava a
paixão da garota para se beneficiar junto ao padre e ganhar sua confiança para
governar a cidade ao lado dele. Mas, é claro, tudo isso era pura ganância. Os seres
humanos são nojentos por se atreverem a mexer com uma flor tão inocente e pura
como Leven. Dalya põe um basta nisso e finalmente decide contar sua verdadeira
identidade e os planos de Louys com o padre…mas uma grande discussão se inicia.

Leven, perplexa com a acusação de Dalya, não conseguia compreender o motivo de


tanta animosidade em relação a Louys.

— Não entendo por que você está sendo tão dura com Louys, Dalya! Ele é um rapaz
gentil e doce. Por favor, pare com essas acusações sem fundamento! — exclamou a
ruiva, expressando sua frustração.

Dalya, irritada com a falta de compreensão de Leven, respondeu com veemência.

— Será que você não entende? Esse sujeito está tendo encontros secretos com o
padre no convento. Você é a única que parece não ver que esse garoto não é
confiável! Por favor, tente entender minha preocupação! — a albina retrucou,
deixando transparecer sua frustração.
Leven, magoada com as palavras de Dalya, não conseguiu conter sua raiva e lançou
uma alfinetada em resposta.

— Você quer falar sobre compreensão? Logo você? O que você sabe sobre essa
palavra?! — provocou, deixando claro seu descontentamento.

No calor do momento, a raiva tomou conta de Dalya e ela acabou soltando uma
frase que atingiu em cheio Leven.

— Seu pai, com toda certeza, sabe muito bem o que significa compreender, não é
mesmo? — gritou, sem se conter. O impacto das palavras fez Leven dar um passo
para trás, atordoada.

Leven murmurou incrédula, sem conseguir entender como Dalya sabia sobre seu
pai. Ela nunca havia mencionado seu pai para ninguém, temendo a reputação de
lunático que o homem tinha.

— Como você sabe sobre meu pai...? — perguntou, com a voz trêmula. Sentia-se
vulnerável e traída. — Como ousa usar meu pai para me atingir? Quem você pensa
que é?

Dalya, ao presenciar a cena chocante, deu um passo à frente, tentando se explicar


para Leven, mas seus esforços foram interrompidos pelo arrombamento da porta
da cabana. Os moradores da vila os cercaram com expressões enraivecidas,
enquanto Louys adentrava o local, ostentando um sorriso presunçoso. Leven,
inocente nos olhos, aproximou-se dele com um sorriso, mas foi surpreendida
quando ele a estapeou no rosto e a jogou para a multidão.

— Joguem essa bruxa na fogueira! Eu sabia há muito tempo que esse


comportamento "inocente" escondia algo obscuro! — exclamou Louys, revelando
sua verdadeira face.

Leven, atordoada, murmurou com voz trêmula, tentando entender a situação que se
desenrolava diante dela.

— D-do que está falando, Louys? Eu pensei que... que... — suas palavras foram
interrompidas pelo deboche de Louys.
— Que eu correspondia aos seus sentimentos? Não seja tola, Leven. Eu nunca tive
interesse em você. Era apenas uma peça nesse jogo sujo que estou jogando. —
debochou ele, deixando claro suas verdadeiras intenções.

As palavras de Louys foram como um golpe devastador para Leven, que sentiu seu
coração se despedaçar ainda mais. O garoto ordenou que os moradores acendessem
a fogueira, mas antes disso, ele proferiu as últimas palavras que iriam dilacerar
completamente a alma da pobre garota.

— Está vendo sua amiguinha, nossa querida Dalya? Ela é a causa da morte de seu
pai, ela é a própria culpa, aquela que tirou os resquícios de vida que seu adorado pai
possuía. — disse com desdém, lançando suas palavras como facas afiadas. — E
adivinha só? Não havia doença alguma, seu pai era um homem saudável. Dalya
apenas acelerou o processo. Diga a verdade para ela, Morte.

Leven arregalou seus olhos, suas íris esverdeadas tremendo com a revelação
arrebatadora. Uma sensação avassaladora de traição se instalou em seu peito,
deixando-a incapaz de se mover ou falar. Ela foi segurada pelos moradores, seus
olhos fixados em Dalya, agora inundados de lágrimas que refletiam sua dor
emocional insuportável.

Leven, com a voz rouca e carregada de dor, sussurrou as palavras que ecoavam em
seu coração partido.

— Você... você é a causa de minha vida ter se tornado um inferno, Dalya? —


murmurou, mal conseguindo acreditar nas palavras que estava prestes a
pronunciar. — Você realmente tirou tudo de mim e agora vem com essas conversas
falsas depois de ter levado tudo o que eu tinha?!

Dalya, visivelmente abalada com as palavras de Leven, tentou se explicar,


tropeçando nas palavras enquanto procurava desmentir algo que era impossível de
ser contradito.

— N-não é bem assim, Leven. Por favor, me escute. Eu... eu tive que fazer o que
precisava ser feito. Eu... — suas palavras se perderam no ar, sua justificativa soando
vazia e insuficiente. — Eu... eu te amo, Leven. Eu jamais faria algo para te machucar,
mesmo que isso implicasse em colocar meu trabalho em risco.
A resposta de Dalya foi recebida com incredulidade e uma mistura de desprezo por
parte de Leven, que deixou claro seus verdadeiros sentimentos.

— Você... você me ama?! Tem a coragem de usar esse sentimento para tentar fazer
com que eu esqueça tudo o que você fez?! O que você sente por mim parece ser
amor, mas tudo o que eu sinto por você... é desprezo. Eu te odeio, Dalya Elrian!

As últimas palavras de Leven ecoaram nos ouvidos de Dalya, deixando um rastro


de angústia e desespero em seu coração. Antes que pudesse intervir, Leven foi
arrastada pela multidão e amarrada àquela maldita árvore de cerejeira. Dalya
tentou se mover, mas seu corpo parecia congelado, incapaz de responder aos seus
comandos. Ela usou todas as suas habilidades como ceifadora para tentar salvar a
vida de Leven, mas suas chances se esgotaram. Agora, ela só podia observar
impotente enquanto o relógio de Leven marcava os últimos 12 segundos antes que
seu corpo fosse consumido pelas chamas do fogo.

As chamas dançaram ao redor de Leven, devorando sua pele delicada e


derretendo-a lentamente. Dalya testemunhou em agonia o sofrimento da garota
que amava, sabendo que carregaria o fardo da culpa pelo resto de sua existência. As
palavras de Leven ecoariam em seus ouvidos por toda a eternidade, misturadas aos
seus próprios gritos de desespero. Foi assim que Dalya aprendeu da forma mais
dolorosa que o amor verdadeiro pode trazer tragédia, e que suas ações tiveram
consequências irreversíveis.

Embora soubesse que Leven renasceria em algum momento, Dalya não sabia
quando nem em que circunstâncias. No entanto, ela sentia em seu âmago que seu
primeiro amor teria uma segunda chance na vida. E quando chegar o dia em que
Leven cruzar seu caminho novamente, Dalya estará pronta para ir até ela, disposta
a enfrentar as consequências de suas ações passadas e buscar a redenção que tanto
almeja.

“Mas quem iria saber…que A Morte iria amar A Vida…”

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