Memórias de um Caçador Imortal
Memórias de um Caçador Imortal
Eu sou O Vampiro Querçus Leopellis, eu sou imortal, o primeiro de todos os imortais. Estas são as
primeiras linhas do meu livro de memórias, linhas essas que contém minha vida mortal, meus erros, minhas
conquistas e minhas falhas, todas as decisões tortuosas que me colocaram na estrada pelo qual caminho
até os dias de hoje. Enfim, acredito que você esteja se perguntando, “você nem sempre foi imortal? Não
é?”. Não, não fui, já fui um mortal à milênios atrás, um caçador em uma terra simples. Não muitas
primaveras após o primeiro raiar de sol de toda a raça dos homens.
Vivíamos em um pequeno povoado, um dos primeiros grupos de homens que deixaram de ser nômades.
Nossa alimentação era baseada em carne - caça - a plantação não era muito disseminada na época, mas
ainda assim, existia.
É claro, haviam outros povos de homens na região, falávamos línguas parecidas e havia semelhança
nos costumes, rituais de caça, de fertilidade, coisas assim. Mas éramos diferentes uns dos outros o
suficiente para o líder da época, um homem sábio e o mais velho entre nós, declarar que não deveríamos
misturar os povos. Havia medo, e cautela em cada decisão dele, que honestamente, representavam os
interesses de meu povo, tornando-o um grande líder, aclamado por covardes. Um “cidadão” médio de nossa
tribo passava suas horas auxiliando na manutenção da vila, ou de sua própria casa, alguns eram
especializados em horta, outros na arte da medicina, que era extremamente limitada. Existia sim uma
religião, mas uma sem padres, sacerdotes ou clérigos, apenas o conceito que era passado de geração para
geração. Já o grupo de caça eram vistos como figuras heroicas, os valentes, todo jovem viril o suficiente
era posto para aprender a caçar e desbravar além das fronteiras de nossa pacata sociedade para
enfrentar bestas inimagináveis, e também, para evitar a maioria delas.
Haviam em média quinhentas pessoas dentro dos limites da vila, não mais que vinte eram caçadores,
de toda e qualquer maneira, éramos um povo no alvorecer de seus dias.
A região em que vivíamos era fria até em seus dias mais quentes, não me lembro muito de como era
exatamente, apenas de como ficou depois. Meu povo já havia se acostumado com o frio, eu mesmo
raramente o sentia, havíamos nos adaptado.
Acho que você, caro leitor, está bem situado o suficiente agora. Podemos enfim começar.
Gostaria de dramaticamente dar início a minha história e de tudo que eu causei com ela com uma
palavra, uma ideia e não menos importante, uma arma...
”Fogo!” a primeira coisa que eu lembro com clareza, eu lembro até mesmo da sensação, não são
memórias de infância nem a primeira vez que beijei minha mãe, eu sequer me lembro de minha mãe. Eu não
deveria ter mais de 13 primaveras na época que ela foi levada, o que era normal - a morte - era muito
comum viver a vida toda sem ver um inverno sequer (nos dias de hoje também, mas por motivos
diferentes), ser devorado ou morrer de fome, era costumeiro, eu mesmo não acreditava que viveria muito
mais tempo, o que o que me enchia de ódio, a vida tinha que ser mais que isso. Na minha tribo eu não era
muito mais que um caçador, mas queria ser o melhor. E por isso eu almejava a cabeça de uma fera que
muitos homens temiam, e eu a teria pra mim, e por isso que eu lembro do fogo.
O fogo em questão era uma fogueira, éramos quatro ao redor dela, fazia quase uma nova que
estávamos perseguindo e rastreando a temível besta, a fera indomável que patrulhava a área que servia
de território de caça para nós, alguns homens caíram pelas suas presas, e nossa fonte de alimento estava
se esgotando graças a ela, mas eu estava obstinado a terminar isso. Lembro de ouvir um dos nossos
homens rezando pra deusa da caça constantemente, ou era um deus? Tínhamos um panteão de deuses e
espíritos, uma crença baseada em adoração, medo e sacrifício, eu nunca me importei muito, nunca fui um
homem de fé. Eu confiava em mim mesmo, meus companheiros também, e isso bastava. Pois após minha
vigésima primavera já havia conseguido me tornar o melhor caçador da tribo. Eu era ágil, e caçava muito
bem, não era tão glorioso em força bruta e mesmo assim consegui me tornar o Líder do melhor grupo de
caça que havia, apesar disso, após quase trinta noites na mata, sem previsão de retorno, a moral começou
a ficar baixa.
Estávamos longe de casa, caçando a besta de pele pálida, eu só tinha a visto duas vezes o percurso
todo. Sinceramente eu não me lembro como convenci os outros a irem comigo, mas acho que meu orgulho os
envenenou também, aquela fera demoníaca tinha que cair, pelas minhas mãos. E eles queriam ajudar,
fazer parte disso, por algum senso de honra acredito eu.
Eu nunca pensei em desistir, mas meus homens estavam lá por mim, queria que eles pudessem voltar
pra suas famílias, voltar para o conforto de suas casas, pensei várias vezes em dispensá-los, nem que eu
continuasse só. Mas no final da trigésima noite, sob a luz da lua, finalmente encontramos o demônio.
Ele quem estava nos caçando, esse tempo todo, espreitando no escuro, ele nos observou, esperou a
troca de turnos, esperou até a comida ficar escassa e o sono estar abundante, esperou os sinais de
fraqueza aparecerem, esperou o mais frágil de nós ficar na vigília noturna... Se fosse eu fazendo tocaia
naquela noite as coisas teriam sido diferentes.
Em um instante o pescoço do vigia foi arrancado, o sangue banhou a pequena fogueira que colocamos
pra iluminar, acordamos assustados, sem poder reagir e no escuro, em total silêncio.
Meus homens eram disciplinados e muito bem preparados, mas a fera... Ela sabia que éramos
apenas isso, homens. O segundo a ser atacado foi justamente eu, meu joelho esquerdo arrebentado com
uma abocanhada só, eu sequer consegui pensar em revidar, quando me dei conta já estava no chão. Ele
podia ter me matado na hora, nenhum dos meus homens iria conseguir impedir, porém a fera tinha outros
planos, aquele monstro matou os dois na minha frente, os dilacerou com suas garras e dentes, como se
fossem de pano, devorou suas carnes, foram desmembrados membro por membro.
Eu me levantei apoiado na minha lança, conseguia apenas ver o delineado prateado de seu corpo sob
a luz da lua, seus olhos de demônio vermelhos refletindo contra mim. A criatura me observava esperando
algum tipo de reação. Nos encaramos por alguns segundos, minutos, eu não sei, no fim pareceram horas.
A besta avança diretamente a mim, rasgando o ar em um silêncio sobrenatural, e eu ponho tudo que
tenho em um único golpe de lança, a adrenalina toma conta do meu corpo, eu sinto dor e ouço o rosnado
dela, o cheiro de sangue escorrendo pela minha pele, a textura espessa e quente, o impacto de suas garras
contra meu peito, sentir a ponta da minha lança tocar algo no escuro, tudo isso em uma única fração de
segundo.
Tudo que me lembro é de apagar e acordar ao raiar do dia, com a fera morta do meu lado, vejo que
minha lança atravessou sua boca e se perdeu na escuridão de sua garganta.
A besta que matou três dos meus melhores homens, o demônio que quase levou minha alma com ele,
que transformou caçadores em caça. Eu a venci, seu sangue faz parte da minha pele agora, tanto quanto
o meu fez parte dela...
troféu quero que sirva de consolo pra tribo que perdeu seus caçadores, que eram pais e filhos. Eles se
sacrificaram pelo meu desejo, mas agora de nada adianta lamentar suas mortes. Estou sem comida, sem
abrigo e fora da trilha, não sei exatamente como voltar, e o pior de tudo, estou ferido.
Tenho comigo só a pele da besta pra usar de agasalho e uma lança quebrada, não tenho esperança
alguma de sobrevivência, não do jeito que estou sangrando. Sendo assim resolvo andar, no sentido que eu
supostamente vim, foi um grande erro pois definitivamente eu estava no caminho errado, pena que demorei
dois dias pra perceber. Dois dias que me deixaram a beira da morte, eu tentei resistir mas era como se a
fome e o frio devorassem minhas forças, se não fosse a pele do leão eu teria morrido na primeira noite. Eu
já tinha aceitado meu destino, o grande caçador morrendo sozinho e no silêncio dos próprios pensamentos
por puro egoísmo e orgulho, seria a vitória da besta contra mim, sua pele sobre minha carcaça estirada
É então que eu vejo a saída da floresta, uma luz poente rente a mim, eu sigo ela como se minha vida
dependesse disso, toda a força que me resta gasta em alcançar um lugar que não seja uma floresta
mórbida. Me rastejando com minhas feridas abertas e a visão turva, eu consigo chegar.
A vista é de tirar o folego, reconfortante, o sol quente no meu rosto dormente de frio e dor, vejo
colinas verdes e vastas, e não muito distante, no topo da maior das colinas, vejo uma árvore avermelhada
em contraste com o verde vivo que preenche minha visão, na hora a única coisa em minha mente era a
Bom, é claro que eu não esperava acordar sob a árvore avermelhada logo depois de desmaiar
convencido que a morte vinha me buscar. Acordei tonto, ainda com dor, porém minhas feridas estavam
tratadas e em processo de cura, não sei quantos dias eu fiquei inconsciente, mas acordei como se tivessem
sido muitos. A primeira coisa que percebo - além da árvore - é que estou por cima da pele de leão, a
segunda é que a árvore em sí, é uma árvore Bordo, as folhas laranjas avermelhadas cobrem o chão, a
terceira e última coisa que reparo são ervas, plantas, raízes e até flores juntas e amontoadas em pedaços
de casca de árvore, próximo a mim, na hora eu presumi serem remédios pras minhas feridas. Alguém cuidou
Eu tento me levantar procurando algum norte para me localizar, mas eu só vejo colinas e a floresta
pela qual eu vim, nunca estive tão distante de casa, minha maior chance de saber onde estou e como voltar
Minutos se passam, eu não sei como eu não vi de primeira, mas perto de onde eu me deitava, havia
uma Raposa me observando esse tempo todo, ela quase que se camuflava no ambiente, em completo silêncio
ela me observa, então antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa pra fazer — Olá... — a palavra
escapa da minha boca como se eu estivesse tão solitário que ansiava por qualquer tipo de interação, e isso
foi... ridículo, pouco mais de uma nova sozinho e a primeira palavra que solto é em cumprimento a uma
raposa qualquer? Eu achei que demoraria mais pra enlouquecer de solidão. Nem na última noite com meus
A raposa me fita com curiosidade, dá meia volta e vai embora. Eu não sei o que fazer, ainda não
sinto sede, e acho que fui alimentado pelo meu salvador durante meu “coma”, eu resolvo me sentar e tentar
descobrir como voltar pra casa enquanto espero alguém milagrosamente aparecer.
O sol brilhava no topo do céu, e eu novamente me sentia observado, dessa vez não por uma raposa
mas sim por um pássaro, parecia com um Tordo mas não tenho certeza, assim como a raposa, ele se
camuflava entre as folhas, e me observava em completo silêncio.
Mas eu não ia me engraçar com um pássaro, bastasse a raposa, continuei sentado esperando e
pensando no que fazer, se um dia inteiro se passasse, eu iria embora pra alguma direção em busca da
minha tribo. O pássaro continuou ali, parado em um galho próximo. O sol começou a se pôr e minhas
esperanças de conseguir ajuda também. Visto a pele do leão e vou rumo a casa, olho novamente em busca
do pássaro mas sem sinal dele, quando viro novamente pra frente, uma voz suave me diz — Olá pra você
também. — (foi algo assim, ela disse na língua que eu era versado, a única na época) eu olho ao redor e não
vejo absolutamente nada nem ninguém, por um segundo eu acreditei ter enlouquecido, mais ainda graças ao
que aconteceu em seguida.
Do absoluto nada uma mulher alta aparece na minha frente, com a pele pálida como marfim, sardas
pelo corpo todo, cabelos longos e ondulados da cor das folhas de Bordo, da cor da Raposa e do Tordo, com
olhos que eram esmeralda de um ângulo, diamantes em outro e rubí de outro. Na época eu não conhecia
nenhuma dessas palavras ou conceitos, mas hoje, parece apropriado — Foi você quem me ajudou? —
retruquei com a voz confusa — Eu vi você ferido, e pensei em mostrar mais misericórdia do que você
mostrou a esse animal que você usa como roupa — o tom de voz dela denunciava um senso de superioridade
que deveria me ofender, eu não entendi, ela não precisa comer? ela não caça? como ela sobrevive? e essas
plantas que ela sacrificou pra me salvar, ora é muita hipo- — Eu tiro o necessário, e somente o necessário,
você matou um animal que estava apenas vivendo como a natureza o fez — eu fiquei perturbado, ela leu
minha mente? invadiu meus pensamentos como se não fosse nada — Oh céus vocês homens são tão
simples, a primeira vez que vê alguém que não seja da própria raça, aposto que nunca viu nada além de sua
própria tribo? Deve ser a primeira vez que você vê uma árvore diferente da que você tem em casa — disse
ela com desdenho, mas eu não estava com raiva, nem com o orgulho ferido, ela era terrivelmente linda e
tinha uma energia que eu nunca vi antes — Sim, eu, realmente nunca vi nada parecido com você em toda
minha vida — Ela pareceu surpresa, eu espero — Obrigado, por me ajudar, pela hospitalidade também.
— Oh... Me perdoe, fui muito ríspida, eu fiquei curiosa por você... bom, esqueça, já que você precisa ir
pra casa, saiba que não está tão longe quanto pensa, eu posso te levar — sendo sincero eu estava
fascinado por ela, e não queria ir tão cedo, mas não vi motivo lógico pra convencer ela a me deixar ficar
em suas terras — Aceito a companhia, meu nome é-
— Eu sei qual é seu nome, consigo imaginar qual vai ser depois que exibir a pele de leão como troféu.
Optei por ficar em silêncio, ela tinha o direito de se expressar, afinal eu era apenas um convidado.
— Oque é você? — perguntei tentando ser educado — O que é você? — respondeu ela em tom de
afronta.
— Como assim o que sou eu? Eu sou, eu, um caçador, você que é-
— Continue.
— É claro, observei vocês por milhares de primaveras e o que vocês não compreendem acabam
inventando uma divindade nova pra explicar.
— Vi praticamente sua espécie surgir, e acredito que estarei lá quando ela acabar, eu sou antiga,
mas não espero que você consiga entender o que eu sou. Eu sou, eu, e trago comigo a queda das folhas.
— Eu realmente não entendo. Mas, não acho que eu precise. Por enquanto.
— É, eu também acho, quem sabe, você foi o primeiro dos homens que levemente me cativou. Você tem
mais fogo que os outros que vi todo esse tempo.
Caminhamos em silêncio por um tempo enquanto a noite se instalava, seus pés nus no chão
caminhavam lado a lado dos meus, os pés dela mesmo andando sobre a grama e a terra, não carregavam
uma marca sequer, ou sujeira, diferente dos meus. Ela me levou pra debaixo de uma colina onde as raízes
formavam uma passagem, ela me disse que lá eu encontraria o caminho de casa, e depois de tudo que vi,
não tinha motivos para duvidar.
— Novamente, agradeço, foi um prazer conhecer aquela que trás a Queda das Folhas.
— Não há de quê, entendo o motivo pelo qual te chamam de carvalho — Ela não elaborou.
Olho novamente para a passagem e quando me dou conta, estou só mais uma vez. Resolvo entrar,
com bastante receio. Não demoro muito dentro da passagem e eu já encontro luz, o que me surpreende
pois estava indo para baixo esse tempo todo, ao sair por de dentro de raízes, parecidas com as que eu
entrei, vejo o rio que provê água para minha tribo, estou em casa.
Daqui pra frente conheço o caminho. Não demoraria uma hora de caminhada até chegar em casa.
De longe já consigo ver as cabanas, que parecem, desoladas, mais do que eu me lembro. Ao me aproximar
da minha tribo, vejo menos pessoas do que esperava, menos ânimo e todas me recebem com cara de
espanto, primeiramente achei que era por causa da pele da besta pálida que carregava em meus ombros,
mas infelizmente era algo muito pior. Perguntando logo do chefe da tribo, descubro que o mesmo, havia
falecido, à mais de vinte e cinco ciclos lunares. O que, caro leitor, equivalem a pouco mais de duas
primaveras. A situação no povoado era tão drástica que o fato de meses terem durado anos nem entrou
direito na minha cabeça, mesmo assim queria entender o que aconteceu, mesmo supondo já que o túnel
tenha atrasado minha viagem. Com o líder morto, seu filho foi eleito no lugar dele. O primogênito, ele era
muito jovem quando deixei meu povo, o rapaz me aguardava na tenda do chefe, eu precisava saber o que
aconteceu aqui.
Depois de ser recepcionado por olhos fulgazes e sussurros de venenosos, feito as devidas mesuras que
se deve fazer ao atual líder, me sentei pra conversar com ele em busca de entender o que aconteceu nesse
tempo. E tentar explicar o que aconteceu, o que me atrasou.
— Como você deixou nossos melhores homens morrerem? De fome, de doença! — Não sei o motivo pelo
qual foi a primeira coisa que perguntei, mas na época talvez tenha sido pra me livrar do peso das vidas que
o leão levou por minha causa. Confesso que a idéia de tentar explicar a situação morreu assim que me
sentei. Seria mais fácil convencer um peixe a andar na terra do que convencer o garoto que o responsável
pelo meu atraso foi um túnel mágico...
— Você saiu com nossos melhores caçadores, e sumiu por duas primaveras, você não estava aqui
quando meu pai foi acometido por uma doença, não estava aqui quando a praga atacou, você ofendeu os
deuses com sua vaidade, a fera era sagrada e agora a maldição dela nos aflinge. Então você não tem mais
voz aqui, não importa quanto tempo tenha se passado servindo a tribo, sua aventura desprovida de honra
nos custou muito.
— A fera nos causava fome! Comia nossa caça, impedia os animais de se aproximarem. Eu queria
acabar com iss-
— Você queria fama, poder, queria ser aquele que venceu o demônio pálido. E graças a isso nossos
melhores caçadores, estão mortos, suas linhagens encerradas antes mesmo de começarem — atacado
diretamente por um rapaz menor do que uma lança curta, ele tinha razão, mas meu ego falava mais alto,
ele realmente era corajoso, e honesto, mas era fraco e eu usaria isso contra ele. Injustamente, claro.
— Não recai sobre mim o fardo de deixar nosso povo morrer. Seu pai teria nojo de um homem tão
fraco, que queima seus mortos e não faz nada pelo bem estar do seu povo. Que tipo de líder precisa tanto
de quatro homens humildes que sem eles todo seu governo cai em desgraça?! — falei pra que todos ouvissem.
Olhando agora, as decisões dele como líder realmente foram fracas, mas ele era apenas um garoto, um
órfão carregando um fardo maior do que ele, um pivete que eu torcia pra morder a ísca...
— Você não fala pelo meu pai! Eu o desafio, Pele de Leão! — e ele mordeu.
Furioso, ele queria minha cabeça, mas ele não era um assassino, nem um guerreiro, antes no máximo
eu seria expulso, mas agora, ele queria lutar pelo nome do pai... Como um tolo.
— Que seja. Eu aceito — Não foi um dos meus momentos mais gloriosos. Entrar em um duelo com
uma criança. Mas meu povo morreria se não fosse por esse sacrifício... Queria poder lembrar o nome dele.
Não houve raiva, não durou muito também, eu queria que tivesse sido diferente, mas o que fiz, fiz pela
minha gente, o rapaz era jovem e ingênuo, seu pai morreu cedo demais. E talvez, talvez ele tivesse razão,
talvez eu tenha causado tudo isso. Talvez seja punição dos deuses, por culpa do meu ego, a fera devia
mesmo ser sagrada, depois do que vi, tudo é possível. Aquela noite o céu despencou suas lamúrias mais
pesadas sobre nós, o vento era tortuoso e a água pesada. No mínimo assim o sangue dele seria diluído mais
fácil pela chuva.
Foi mais fácil arrancar a cabeça do garoto do que dormir com a culpa.
Capítulo 2: O Urso
Por volta de oito, ou dez primaveras se passaram desde que eu assumi o trono do meu povoado,
alguns grupos nômades se uniram em nossa terra e começaram a viver conosco, povos de terras não muito
distantes, que compartilhavam língua e cultura semelhante à nossa. Nossos assentamentos ficaram
maiores e mais confortáveis, digo com orgulho que eu fui o pioneiro na fundação de uma das primeiras
cidades humanas. Eu ainda usava a pele do leão como símbolo de força, e uma lança de ponta negra
Eu nunca me recuperei do combate que tive com aquele leão, quando enfrentei o antigo líder minhas
feridas ainda estavam em processo de cura e eu nem reparava na dor, tudo doía, mas luas e luas se
passaram, primaveras, e a mordida no meu joelho nunca curou de verdade, eu sentia como se um badalar
de sinos gritante se espalhasse pela minha perna até o estômago, eu sentia enjoo de tamanha dor, quanto
mais parado eu ficava, mais atenção prestava nos meus ossos moídos que se curaram de maneira errada,
minha lança fora mais usada de bengala do que como lança em sí, mas em breve eu teria a chance de
corrigir isso...
brutalidade e no mais baixo nível de cultura, um povo bárbaro que tentava nos sabotar violentamente, e
que respondíamos de acordo, nunca houve tentativa de contato de nenhuma das partes, mas meu povo
estava apreensivo, então imagine minha surpresa quando vinte e quatro luas depois, um emissário vestido
em peles de animais podres, do outro lado dos portões adentra minha casa, meu palácio de madeira,
buscando nada mais, nada menos que uma audiência, e com um sotaque rebuscado de uma língua gutural
— Se o Rei Pálido permitir, gostaria de uma audiência. — Eu senti o fedor de malícia sair da boca
dele.
— Eu me cha-
— Como desejar. Nás últimas três primaveras, nossa relação tem sido muitas coisas, menos pacífica.
Meu senhor, O Grande Urso, aquele quem domina todo o céu azul que está acima de você Rei Pálido... Quer
paz. Um acordo que seja frutífero para ambas as partes, entendemos que não há necessidade de haver
Murmúrios, se espalham pelo o que podemos dizer que era, minha corte. Eu nunca me denominei
“Rei”, muito menos “Rei Pálido”, esse nome veio deles, dos poucos que sobreviveram a minha presença em
grupos de patrulha. Minha ferida ardia incessantemente em meu joelho, era como se as presas da Fera
— Então agora animais buscam paz? — Gargalhadas de bajuladores se espalham pelo meu salão
enquanto o homem se mantem fixado em meu rosto, eu me levanto com um pouco de dificuldade. — Me diga
UM motivo para deixar você sair daqui com sua cabeça ainda colada em seus ombros? — o homem solta
uma gargalhada grande, e longa que se espalha pelo meu palácio inteiro, ecoando pelas paredes.
— Matar um homem desarmado? Em busca de paz? E eu achava que você tinha honra! Há! O REI
Meus homens me olham buscando instrução, e eu em uma tentativa desesperada de ter a última
palavra, digo.
Eu acordo nos primeiros raios de sol numa manhã fria, eu frequentava na época uma fonte termal
que era solitária e calma, nesse tempo, lordes, reis, líderes, conquistavam seu espaço, então eu não
precisava de proteção alguma. Se precisasse eu seria tomado como fraco. Então sim, eu caçava, explorava
e frequentava lugares sozinho a maioria das vezes. Mas o principal motivo pelo qual eu visitava aquela
fonte termal, era pra lembrar da Dama que eu a muito conheci, tentar me conectar com as poucas
memórias que eu tinha dela.
Tentei inúmeras vezes encontrar a passagem próxima ao rio que levaria até ela, mas é como se ela
não estivesse mais lá. Eu sacrificaria até quarenta primaveras pela chance de vê-la mais uma vez, e
mesmo lembrando de seus olhos que mudavam de cor, suas sardas que se espalhavam pelo corpo, a cor de
seu cabelo de chamas, eu simplesmente não consegui lembrar de seu rosto...
— Tenho muitos nomes e nenhum é o meu, mas minhas intenções são nobres. — disse ele com uma voz
doce e suave. Mas aprendi cedo que as aranhas mais coloridas carregam os piores dos venenos. Eu
finalmente me viro para a voz. É um homem encapuzado, um homem de tamanha pouca presença que
mesmo comigo desarmado e nú na sua frente, eu não sinto nada, é como se a mais inocente mosca pudesse
ser mais ameaçadora que ele.
— Significa que eu sei o que te incomoda, essa dor, essa culpa, essa distância... — Olho pra ele
curioso.
— Tenho assuntos mais importantes a tratar do que lidar com um moribundo.
— Ora ora, eu estarei por aí então Rei Leopellis, boa sorte lidando com O Urso, são muitas as coisas
que ele sabe... Sobre você também, como ja percebeu. — Num piscar de olhos ele desapareceu como se
nunca sequer tivesse passado por ali.
Foi um encontro minimamente curioso, e infelizmente eu não tive tempo algum para refletir sobre
isso. Ouvi gritos, e agitação; Estávamos sendo atacados, com morte. Homens moribundos eram
empurrados pra dentro do meu território, alguns nem conseguiam se mexer direito, mas a horda de doença
entrava em meu lar. Deviam ser cinquenta, compostos por homens, mulheres e crianças com a pele em
necrose correndo pra todas as direções, pedindo socorro, clamando por misericórdia.
Quando paro de prestar atenção nos corpos caídos em meus pés. Do alto de uma colina, nos
observando, vejo uma silhueta em cima de um cavalo, todos aqueles cinquenta homens tocados pela praga
haviam sido derrubados em poucos minutos pelos meus soldados, mas eu sabia que a partir daquele
momento, as coisas só iriam piorar.
Nos dias seguintes, figura encapuzada voltava com recorrência em meus pensamentos, o que ele
sabe? Foi ele que contou ao Urso sobre mim? Ele está do lado de quem?
Cinco dias foram o suficiente para que os primeiros doentes aparecessem. Mais cinco dias pra que o
primeiro dos doentes morresse.
— TRÊS NOVAS!
— Eu sei.
— Fazem três novas que a praga nos aflige, nossas crianças morrem ao alvorecer da vida e nossos
homens mais fortes não conseguem levantar das próprias camas, três no-
— Se você dizer novamente, TRÊS NOVAS, eu mesmo faço questão de levar você pra uma cova rasa
antes que a praga o faça! — Era assim que eu estava tentando cuidar das coisas em meu reinado. O povo
falava e sussurrava que nem no regime anterior houve tanto sofrimento. Eles viviam na lama, eu dei a eles
tudo que precisavam pra conquistar um lugar no mundo. E agora a culpa é minha que o ar da doença nos
infecta a três malditas luas?
— Proponha algo então! Vocês todos devem ter ideias incríveis, não? — ficam todos em silêncio. até
que...
— Precisamos de comida, suprimentos, senhor, eles roubam nossa caça sistematicamente, devemos
fazer o mesmo... — A ideia veio de um rapaz jovem que eu nunca havia reparado em toda minha vida, o jeito
que ele falava era calmo e suave, era mais um principio do que uma ideia, mas, era a única coisa que
tinhamos. Eu sabia onde eles se assentavam, cinco dias de viagem, oito, no mais tardar. Metade disso a
cavalo.
— Como nossos homens, fracos e doentes, atacariam um “forte” que só tem uma entrada?
— O senhor é nosso guerreiro mais forte, e a história de como enfrentou a Fera Pálida — me lembro
imediatamente da dor em meu joelho — e mesmo depois de duas primaveras achou sozinho o caminho de
casa, se há alguém aqui capaz, é você... e eu conheço uma entrada.
De acordo com o garoto, que era um caçador, o forte era numa encosta de montanha, mas havia
uma entrada por detrás da mesma. Uma pequena comitiva poderia entrar por lá, resolvi então que o
garoto seria o guia, e mais onze homens incluindo a mim iríamos segui-lo.
Durante todo esse tempo enfrentando esses bárbaros, alguns cavalos deles, foram domados por nós,
duas dúzias no início, que se tornaram apenas uma quando a peste nos obrigou a matar pela carne. Sendo
assim levaríamos os doze cavalos, com doze homens até a entrada secreta, quatro, eu incluso, entraríamos
e pegaríamos os suprimentos, o plano era fazer isso até conseguirmos encher as selas de todos os cavalos,
selas simples pro padrão de hoje, mas suficientes pro nosso plano.
A semana anterior a nossa missão foi repleta de sonhos, iguais ao outro que eu tive antes da praga.
Nesse em específico, eu tinha garras, sentia o cheiro da minha presa, eu me aproximava no silêncio
noturno, era uma casa, eu entrava pela porta da frente como se fosse meu domínio. A minha presa
adormecia, e eu acordei pouco antes de morder seu pescoço. Acordei mais cansado do que o normal, de
madrugada, antes do sol nascer dessa vez. A pele do leão na cadeira me encarava, eu podia jurar que dessa
vez ela respirava.
O jovem caçador autor do plano nos guiou durante quatro dias com os cavalos, conosco foram doze
dos homens que ainda continuavam de pé, tivemos de dar uma volta que nos custou um dia e meio para
chegar na entrada. E lá estava ela, nossa esperança, um túnel profundo, quando avistei a entrada me
lembrei da passagem que me levou pra casa cinco primaveras atrás, a Dama voltava em meus pensamentos
mais uma vez. Nos preparamos pra entrar, o rapaz preferiu ficar la fora, entendo, ele não tinha tanta
força, além de que eu confiava mais nos meus homens mesmo.
Começamos a adentrar o túnel, a entrada era um pouco pequena mas depois de um tempo ficou mais
larga e espaçosa. depois de alguns minutos caminhando eu sinto uma corrente de ar estranha, um calor
começa a surgir do absoluto nada, quando me dou conta meu pé toca grama, olho pro chão e é exatamente
isso, grama, olho pra cima de novo e de repente eu estou em uma colina verde. Eu reconheço esse
lugar, olho pra trás e nenhum dos meus homens está comigo, mas não muito longe, a árvore de Bordo
marca sua presença em contraste ao céu.
Eu voltei, obviamente minhas preocupações eram com o meus homens e minha missão, mas de nada
adiantaria ficar parado esperando voltar, a única coisa sensata a se fazer era correr em direção a
árvore, confesso que estava animado pra vê-la.
— Olá. — disse torcendo pra ser reconhecido imediatamente. O lobo se vira pra mim e rapidamente
se transforma na Dama que eu ansiava reencontrar.
— Como? Fazem quase dez- Não teria como me achar, não lembraria do caminho. Você não poderia
ter voltado pela passagem, ela só funciona com minha permissão. — Tantas perguntas, perguntas que me
deixaram atordoado.
— Ora eu- Então por isso nunca funcionou... Você não deixava...
— Oh... Então você tentou voltar? Por que? — Acho que nessa hora ela quem ficou atordoada.
— Olha não é isso, é que, bom, faz tanto tempo... Eu não sei como vim parar aqui, agora, eu estava
andando dentro de um túnel e apareci aqui, outro túnel. Mas eu não sabia que-
— Silêncio. Como você chegou nesse túnel? — Eu estava, confuso, por que ela se escondeu de mim?
— Tentando atravessar uma encosta, um rapaz, um jovem caçador me informou da passagem. Qual a
importância disso? — Quase dez primaveras e essa é a dúvida dela? Nenhum “como você tem passado?”.
— Você tem certeza disso? Você está fedendo a energia caótica. Essa passagem só poderia ficar
ativa por uma energia assim.
— Mas você não está aqui de verdade, é uma sombra, você ainda está lá, sua consciência está aqui...
— Eu não sei, também não sei como te mandar de volta, é como se você estivesse sonhando. Você só
precisa acordar, depende da sua vontade.
— Mas... eu queria isso faz tempo, queria ver você, não é agora que eu vou acordar.
— Me ver? Eu não te entendo Querçus Leopellis, o que você ganha com isso?
— Eu não preciso ganhar nada, você foi a coisa mais interessante que me aconteceu, eu estava a
beira da morte quando me encontrou, e graças a essa chance de te ver de novo que eu ainda continuo vivo.
— Eu... Ainda não entendo. Você é o primeiro dos homens que é um completo mistério pra mim.
— E você foi a coisa mais única que encontrei nessas terras. Me deixe vir pra você novamente. Assim
poderei ir embora pra terminar minha missão.
— ... Eu não posso, isso está além de você, eu estou muito além de qualquer coisa que você represente.
— Essas palavras me feriram mas eu persisti. Só iria embora dalí sabendo que eu poderia voltar.
— Se é assim, se eu sou tão pequeno pra você, me deixe provar que sou digno — rezei a o que me
ouvisse primeiro pra que desse certo — Se eu não for, irei viver minha vida mortal com mais tranquilidade,
sem jamais lhe incomodar novamente, Dama do Outono.
Ela me olha tentando decidir se eu valho o custo, foi o que pensei — Sendo assim, tudo bem — Sua
mão toca meu rosto, mas é distante, ela estava certa, eu não estava ali — Se você, no fundo do seu ser
acreditar que é digno, acreditar que é puro, acreditar fielmente em sua força de vontade, a passagem se
abrirá, e o levará até mim. Espero que consiga realizar esse feito nos poucos outonos que você ainda tem
pela frente — Fecho os olhos e quando abro, acordo dentro do túnel com meus homens ao redor de mim.
A primeira coisa que sinto ao acordar é meu joelho ardendo violentamente.
Meus homens prontamente se animam ao me ver acordar, e tentam garantir que eu estou bem
mesmo.
— O senhor desmaiou por algumas horas, quase desistimos e voltamos com o senhor pra fora.
— Absoluta, vamos. — Continuamos nossa caminhada, demorou algumas horas para chegarmos, não
tínhamos como saber quantas exatamente. Quando enfim chegamos saímos logo atrás de uma parede de
pedras que era dentro de um casarão, haviam tábuas de madeira no chão, pilares e um teto alto.
Eu fiquei desolado, a inveja possuiu minha alma, como aqueles bárbaros conseguiram tamanho feito?
Um palácio tão... melhor. Meus homens ficaram tão sem palavras quanto eu. Precisávamos achar a
despensa. Mas algo começou a me incomodar, não havia ninguém em nenhum lugar, fizemos silêncio, mas
mesmo assim não vimos ninguém até acharmos a dispensa.
— Longas primaveras o servindo e agora ele só escuta aquele homem, é insanidade eu digo.
Poderíamos ter vindo em paz, mas não, agora temos que racionar a pouca comida que temos por causa de
um plano a longo prazo. Aquele bastardo envenena a mente do meu Grande Urso.
— Quem envenena a mente dele? — Disse eu saindo das sombras. A mulher tomou um susto, derrubou
um saco de rações que se espalharam pelo chão.
— Eu não vou. Onde estão todos os outros? — Ela hesitou antes de responder — Diga logo.
— Eles estão por ai, estavam esperando você. O plano dele realmente deu certo...
Lanço meu cotovelo no meio de seu rosto e quebro seu pescoço em seguida, nunca deveria ter abaixado
a guarda pra um animal. Rapidamente saio da sala em busca de meus homes e encontro um rastro de
sangue. Eu o sigo para o salão principal apenas pra ver dois dos meus homens rendidos por vários
bárbaros e amordaçados, e outro com o pescoço aberto ensopando o chão.
Sinto uma grande dor na lateral de meu pescoço e num flash rápido vou de encontro às tábuas do
piso.
Somos levados pra fora, onde todos os bárbaros se reuniam, e lá estava ele, o mesmo homem
barbado que foi na minha casa pedir paz, na minha frente sem as peles de animais por cima dele, só uma
única pele de urso negro em sua cabeça, como se seu rosto saísse de dentro da boca do animal. Todos eles
gritavam em conjunto — URSO, URSO, URSO — Esse tempo todo, eu sabia quem era meu inimigo, eu só
— O Rei Pálido acordou enfim... — Meu joelho arde com tanta força que eu fico tonto. — Achei que
Não há palavras pra descrever minha fúria. Eu estou amarrado de joelhos sendo segurando e meus
homens estão amarrados em postes de madeira lado a lado, eu estou de frente pra eles. O Urso, joga nos
meus joelhos a cabeça de meu soldado. Os outros dois apanharam tanto que eu me impressiono em como
eles ainda estão acordados. Ele poderia ter me matado bem ali, eu não podia revidar, me defender, mas o
— Me contaram, Pele de Leão, que você foi o melhor caçador de todo seu povo, duas primaveras na
mata, até encontrar sua casa. Fascinante. Venceu a besta pálida, com apenas uma lança. Bom, foi o que
me contaram... — por de trás do Urso, o garoto que nos levou aqui aparece, e com sua presença eu tenho a
— Há! Ainda queima raiva em seu peito Pele de Leão, isso é bom, principalmente pelo o que há por vir.
— com uma força que eu nunca vi, o Urso esmaga com um único soco o crânio de um dos meus homens
— COVARDE!
— Nós dois sabemos que “covardia” é uma ofensa que os fracos inventaram para os fortes. — Disse
ele limpando o sangue da mão no rosto do meu único homem de pé — Essa vai ser divertida.
O Urso pega uma clava com cabo de madeira e uma pedra na ponta e a usa no estômago dele, eu
lembro da força ser tanta que o poste de madeira rangeu. Ele morreu na hora.
— Trabalhar pra você deve ser horrível — disse rindo — quantos já morreram por sua culpa?
— Vai ser difícil manter a contagem depois que eu sair daqui carregando seu cadáver. Quantos vocês
O traidor ri freneticamente como se tivesse sido a maior piada que ele já ouviu. O Urso também
— Você, vai ter sua luta, Rei Manco. — Ele pôe a pele de leão em minha cabeça quase da mesma
forma que ele usa o próprio manto de Urso. — Ou melhor dizendo, Fera Pálida.
Sou desamarrado, e me entregam minha lança, minha ferida dói tanto que é como se a boca do leão
estivesse mastigando meu joelho ainda. O urso solta a clava no chão, convencido de que não precisaria
dela.
— Antes de começar, quero que saiba, SE você vencer, meus homens darão a você um cavalo,
suprimentos pra cinco noites, e UMA lua de vantagem pra se preparar para a vingança do meu povo.
— Nenhuma.
Começamos a andar em círculos, estudando a postura um do outro, ele não tinha guarda alguma,
Novamente eu avanço e ele me derruba com um golpe diretamente na cabeça. Eu caio desnorteado
no chão, mas ainda acordado.
Toda vez que ele me chamava assim eu sentia um ódio crescente, algo querendo sair do meu peito em
chamas... Minha visão ofusca, tudo fica escuro ao redor de mim, eu me sinto adormecer, e escuto o rugido
do leão como se fosse na minha frente. No exato momento recobro minha consciência a tempo de desviar
do punho d’O Urso que rasgava o ar rente ao meu rosto. Por um segundo como se o tempo tivesse parado
eu me vi no lugar do Leão primaveras atrás, com a oportunidade de atacar o ponto de apoio do meu
inimigo. Seu joelho estava exposto pra minha lança. Nesse meio segundo consigo atacar mas quase como se
ele lesse minha mente, sua perna levanta no meio do meu golpe.
O que não impede meu ataque, mas a lança atravessa sua perna em vez do joelho, ele me bate em
reflexo da dor, e eu sou empurrado pra longe. O Grande Urso cai sobre um dos joelhos enquanto arranca
rapidamente a lança de sua perna.
Eu vejo a clava de madeira no chão, do meu lado e agora ele tem minha lança. Pego a clava e ambos
começamos a andar em círculo novamente. Agora ele assumiu uma guarda, e já não sorri mais.
A clava era um cabo de madeira com uma rocha redonda bem presa na ponta, eu a segurei na base
da pedra com minha mão direita atrás de mim, enquanto meu lado esquerdo dominava esperando o ataque
iminente.
Dessa vez ele quem avançou, a lança veio da esquerda do Urso cruzada pela minha direita e eu
consegui aparar por muito pouco, joguei a clava para trás e a segurei mais embaixo, usei toda minha força
num golpe de baixo pra cima no queixo d’O Urso, que pegou em cheio.
Voltei de cima pra baixo com a clava no seu braço pra tirar a lança de sua mão e ter ela de volta
pra mim. Em meu último golpe acertei a perna que eu já havia ferido antes. Depois disso precisei soltar a
clava pra conseguir atravessar a lança com toda a força que me restava através de seu peito. Ele tentou
parar a lança com a mão mas também foi atravessada.
— Essa é a Fera Pálida que eu queria conhecer. — Disse sorrindo e cuspindo sangue.
Tive que fazer muito mais força pra tirar a lança de seu coração do que foi necessária para colocar
ela lá.