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LIBRAS

material sobre linguagem brasileira de sinais
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LINGUA BRASILEIRA DE SINAIS (LIBRAS) SUMARIO INTRODUGAO.... FUNDAMENTOS DA LINGUA BRASILEIRA DE SINAIS (LIBRAS) .. Terminologias... Concepgées de surdez Cultura surda.... Identidade surda.. Abordagens educacionais .. 0 tradutor e intérprete de lingua de sinais (TILS) Tipos de discurso. Cédigo de Etica futuro profissional do tradutor e intérprete de lingua de sinais Legislagao inclusiva .. Documentagao internacional inclusiva Legislagao inclusiva brasileira .. Legislagao para a inclusao de surdos.... Lei Libras: conquista historica. ASPECTOS LINGUISTICOS DA LINGUA BRASILEIRA DE SINAIS (LIBRAS) Iconicidade e arbitrariedade .. Variagées linguisticas.. Fonologia da Lingua Brasileira de Sinais. Morfologia Da Lingua Brasileira De Sinai LIBRAS COMO INSTRUMENTO DE INCLUSAO SOCIAL CONSIDERACOES FINAIS... Referéncias Pagina NOSSA HISTORIA A nossa histéria inicia com a realizagéo do sonho de um grupo de empresdrios, em atender a crescente demanda de alunos para cursos de Graduagao e Pés-Graduagéo. Com isso foi criada a nossa instituigéo, como entidade oferecendo servigos educacionais em nivel superior. A instituigéo tem por objetivo formar diplomados nas diferentes areas de conhecimento, aptos para a insergao em setores profissionais e para a participagéo no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formagao continua. Além de promover a divulgagéo de conhecimentos culturais, cientificos e técnicos que constituem patriménio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicagao ou outras normas de comunicagao. A nossa missdo 6 oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma confiével e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base profissional e ética. Dessa forma, conquistando 0 espago de uma das instituigdes modelo no pais na oferta de cursos, primando sempre pela inovagao tecnolégica, exceléncia no atendimento e valor do servigo oferecido. 3 INTRODUCAO Para Gées (1999), aprender uma lingua significa atribuir significagées ao mundo por meio de uma linguagem, assim sendo, uma crianga surda que vive numa sociedade de maioria ouvinte deve buscar outra linguagem para comunicagao, ja que para os ouvintes a fala é 0 modo hegeménico de comunicagao. Assim, cria-se uma via de mao dupla: os surdos aprendem como a sua primeira lingua a lingua de sinais da sua comunidade, logo, a sua segunda lingua sera a escrita da lingua onde vive. Por sua vez, os ouvintes tém como primeira lingua a lingua falada e escrita pela sua comunidade, jé a lingua de sinais pode tomar-se a sua segunda lingua, se assim desejarem. E essa coexisténcia pode ser saudavel para a sociedade. © campo de conhecimento que propde o estudo da linguagem tem gerado muito debate, pois varios autores tém discutido a respeito da surdez, Libras e do ensino da Lingua Portuguesa para surdos. Cabe ressaltar, no entanto, que ndo ha consenso entre os autores. Um aspecto a ser considerado é que a linguagem humana pertence a todo ser humano, ou seja, no convivio de uma comunidade, os individuos aprendem a sua lingua, e esta linguagem é fundamental para a socializacdo da crianga, jd que é um instrumento importante para a comunicagao, que ocorre de diversos modos: fala, escrita, gestos, expressées faciais etc. Portanto, para o individuo surdo, a lingua de sinais 6 uma linguagem primordial para seu convivio em sociedade, no caso brasileiro, esta lingua de sinais foi consolidada na Libras (Lingua Brasileira de Sinais). Dessa forma, a presente disciplina aspectos da surdez e suas relagdes com a Libras e a Lingua Portuguesa, buscando conhecer o processo histérico que construiu esses conceitos, e como atualmente sao definidas e caracterizadas, assim como a aquisigao dessas linguas pelos surdos e ouvintes, + FUNDAMENTOS DA LINGUA BRASILEIRA DE SINAIS (LIBRAS) Terminologias Antes de iniciarmos os estudos linguisticos da Lingua Brasileira de Sinais (Libras), vamos abordar os contetidos teéricos relacionados aos aspectos culturais e educacionais dos surdos, a fim de que possamos compreender 0 sujeito surdo dotado de subjetividades que compéem a identidade surda. Iniciaremos pelas terminologias. Sassaki (2002) afirma que “os termos séo considerados corretos em funcdo de certos valores e conceitos vigentes em cada sociedade e em cada época’, 0 exemplo disso é a terminologia usada para as pessoas com deficiéncia. Desde a Constituigao Federal de 1988 que as pessoas se reportam a esse grupo como “Portadores de Deficiéncia’, anos depois, passou a serem chamados “Portadores de Necessidades Especiais’, como registrado na primeira versdo da Lei de Diretrizes e Bases da Educagao, e, em 2013 0 termo mudou para “educandos com deficiéncia’, ja que se trata de um documento educacional. A partir da Lei Brasileira de Inclusdo (N° 13.146/15), 0 termo utilizado & “Pessoa com Deficiénci Quanto aos surdos, ha trés termos comumente utilizados erroneamente como sinénimos. O primeiro deles 6 a expressdo “surdo-mudo”. Essa expressdo indica duas especificidades distintas; a surdez — disfungao/limitagao no aparelho auditivo e a mudez — disfungdo/limitagao no aparelho fonoarticulatério, sendo assim, esse termo atribui ao surdo uma caracteristica adicional, que ele ndo tem, como se a surdez estivesse indubitavelmente atrelada a uma disfungéo no aparelho fonoarticulatério, o que é uma inverdade. Estudiosos comprovaram que o aparelho fonoarticulatério dos surdos funciona do mesmo jeito que o dos ouvintes, com raras excegées, e que, seria errado atribuir essa nomenclatura a esse grupo, e os surdos oralizados comprovam esse fato As outras duas terminologias indicam que podemos considerar 0 sujeito surdo partindo de duas definigdes distintas, uma clinica (pessoas com deficiéncia auditiva) @ a outra socioantropolégica (surdos). Em termos legais, “considera-se deficiéncia auditiva a perda bilateral, parcial ou total, de quarenta e um decibéis (dB) ou mais, 5 PaginaD aferida por audiograma (...)" e “considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiéncias visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Lingua Brasileira de Sinais — Libras” (Decreto 5.626/05 - Capitulo 1). Concepgées de surdez ‘As pesquisas indicam que os termos representam duas visées diferentes do sujeito, A mais utilizada delas, tanto no ambito terapéutico e de satide, quanto (ainda) no meio educacional, é a visdo patolégica e reabilitadora, representada pelo termo Pessoa com deficiéncia Auditiva, que denota a necessidade de normalizagao, de ajuste do sujeito para o tornar o mais ‘normal’ possivel Os que defendem essa abordagem acreditam que 0 surdo nao deve ter contato com a lingua de sinais, jé que esse contato com essa lingua, na concepgao deles, trard prejuizo no seu aprendizado da lingua portuguesa, e ¢ dai que surge o uso impreterivel da oralizagéo em detrimento da lingua de sinais, defendido, inclusive, no Congreso de Milo em setembro 1800, quando foi proibido o uso das linguas de sinais pelas comunidades surdas em todo o mundo. Ja a abordagem socioantropoldgica, segundo Cordeiro (2014, p. 37) “compreende a surdez como uma possibilidade diferente de viver, através de experiéncias visuais, construindo sua identidade assentada principalmente nesta diferenga, levando este sujeito a se utilizar de estratégias cognitivas e de manifestagées comportamentais e culturais visuais distintas das pessoas ouvintes Na visdo socioantropolégica o surdo é reconhecido pelo que ele 6, e pela sua subjetividade enquanto sujeito Unico pertencente a um grupo social que tem caracteristicas préprias culturais e identitarias, que devem ser respeitadas e (re) conhecidas por toda sociedade, evitando assim os esteredtipos, preconceitos e discriminagoes. Quando compreendemos essas duas concepgdes sobre a surdez, entendemos a diferenga entre os dois termos e podemos identificar as possibilidades naturais dos surdos em aprender e em se desenvolver social e educacionalmente, deixando de ser a surdez um impedimento para interagao. 8 Cultura surda © conceito de cultura ¢ muito complexo e por isso amplamente discutido pelos estudiosos da area. Em meio a tantos conceitos, vamos ficar, portanto, com o primeiro conceito trazido pelo Dicionario de Conceitos Histéricos (Silva, 2009, p. 85), que afirma que: (..) cultura abrange todas as realizagées materiais © os aspectos espirituais de um povo. Ou seja, em outras palavras, cultura é tudo aquilo produzido pela humanidade, seja no plano concreto ou no plano imaterial, desde artefaios e objetos até ideias e crengas. Cultura € todo complexo de conhecimentos e toda habilidade humana empregada socialmente. Além disso, é também todo comportamento aprendido, de modo independente da questéo biolégica Sendo assim, ndo hd pessoa que ndo tenha cultura, como também nao deveria haver hierarquizagao de cultura, mas um multiculturalismo, Entretanto, Skliar (1998, p.01) adverte que, em relagdo ao ouvinte e ao surdo, ha uma supremacia daquele sobre este, ou seja, a cultura ouvinte se sobrepée a cultura surda e por isso tem um valor maior, consequentemente desvalorizando os aspectos culturais da surdez, que “se diferencia da cultura dos ouvintes por meio de valores, estilos, atitudes e praticas diferentes” Os surdos tém cultura diferenciada da dos ouvintes, j& que possuem uma percepgao diferenciada do mundo, sem o sentido da audigao e a principal caracteristica dessa diferenga ¢ 0 uso de uma outra lingua, no caso do Brasil, a Lingua Brasileira de Sinais. Tavares (2006, p. 37) explica que lingua e cultura séo indissociaveis, ou seja, “uma nao existe sem a outra.” A cultura surda 6 compartilhada por um grupo, que denominamos “comunidade surda” e dela fazem parte surdos e ouvintes, todos os que partilham de metas comuns como bem define Strobel (2008, p. 30 - 31): [..J uma cultura é um conjunto de comportamentos apreendidos de um grupo de pessoas que possuem sua propria lingua, valores, regras de comportamento e tradigdes; uma comunidade é um sistema social geral, no qual um grupo de pessoas vivem juntas, compartilham metas comuns e partilham certas responsabilidades umas com as outras. Para muitos ouvintes ser surdo é apenas nao ouvir, pois néo compreendem a dimensao das experiéncias visuais de um sujeito que ndo ouve. Mas ndo é sé isso. Para Sa (2006, p. 65) a surdez é um trago cultural, e a lingua de sinais “um elemento significante para essa definigao” e, portanto, o surdo “constréi sua identidade 5 calcada principalmente nesta diferenca, utllizando-se de estratégias cognitivas e de manifestagdes comportamentais culturais diferentes das pessoas que ouvem” (p. 67). No livro “Como é ser surdo™, a autora Vera Strnadova, nos da uma viséo ampliada sobre a vivéncia do surdo na sociedade, pois revela que 0 “tnico motivo para escrever este pequeno livro foi o desejo de ajudar as pessoas ouvintes a imaginar a vida e os sentimentos de uma pessoa que vive num mundo sem os sons” (Stmadova, 2000, p. 12). Identidade surda Identidade, por sua vez, também 6 um conceito amplo e de variadas significagdes dependendo do autor e da época histérica em que ¢ discutido. A identidade cultural 6 uma forma de identificagéo de uma nagao, ainda que cada um tenha sua propria identidade (HALL, 1997). Perlin (1998, p. 52) afirma que ha “Identidades plurais, mitltiplas; que se transformam, que nao sao fixas, iméveis, estaticas ou permanentes, que podem até mesmo ser contraditérias" A pesquisadora surda considera que: As identidades surdas sao construidas dentro das representagées possiveis da cullura surda, elas moldam-se de acordo com maior ou menor receptividade cultural assumida pelo sujeito, E dentro dessa receptividade cultural, também surge aquela luta politica ou consciéncia oposicional pela qual o individuo representa a si mesmo, se defende da homogeneizagao, dos aspecios que o tomam corpo menos habitével, da sensagao de invalidez, de incluso entre os deficientes (sic), de menos valia social’ (PERLIN, 2004, p. 77-78). * Diante dessa consideragao, Perlin (1998) classifica as identidades surdas em sete grupos, a partir de observagées das diferengas do modo de vida desses sujeitos. Abaixo identificamos cada grupo identitario e expomos as caracteristicas apontadas pela autora (em itélico) sobre cada classificagao: * Identidade Surda (pura) - Essa identidade ¢ percebida nos sujeitos que se auto identificam puramente como surdos e assumem uma luta politica por sua comunidade. + Sugestdo de leitura para ampliagdo do entendimento de como se processa a vivencia do surdo. PaginaS * Possuem a experiéncia visual que determina formas de comportamento, cultura, lingua, etc.; + Carregam consigo a Lingua de Sinais. Usam sinais sempre, pois ¢ sua forma de expressao. Eles tm um costume bastante presente que os diferencia dos ouvintes e que caracteriza a diferenga Surda: a captagaéo da mensagem é& visual e nao auditiva. O envio de mensagem nao usa o aparelho fonador, usa as maos; * Aceitam-se como surdos, sabem que sao surdos e assumem um comportamento de pessoas surdas. Entram facilmente na politica com identidade surda, onde impera a diferenca: necessidade de intérpretes, de educagao diferenciada, de Lingua de Sinais, etc.; + Passa aos outros surdos sua cultura, sua forma de ser diferente; © Assumem uma posigao de resisténcia; ‘* Assumem uma posigao que avancam em busca de delineagao da identidade cultural; * Assimilam pouco, ou nao conseguem assimilar a ordem da lingua falada, tem dificuldade de entendé-la; + Decodificam todas as mensagens recebidas em Lingua de Sinais; * Aeescrita obedece a estrutura da Lingua de Sinais, pode igualar-se a lingua escrita, com reservas; * Tem suas comunidades, associagées, e/ou érgaos representativos compartilham entre si suas dificuldades, aparigées, utopias; * Usam tecnologia diferenciada: legenda e Sinais na TV, telefone especial, campainha luminosa; * Tém uma diferente forma de relacionar-se com as pessoas e mesmo com animais; + Esta identidade assume caracteristicas bastante diferenciadas e € preciso lembrar aqui que, por exemplo: a identidade Surda genealégica traz sinais vividos e provados durante geragées. 2) Identidades Surdas Hibridas - E inerente ao grupo de sujeitos que nao nasceram surdos, mas perderam sua audigao por algum motivo depois de adquirir a lingua oral e entéo, tém caracteristicas ainda da cultura ouvinte, mas também PaginaD demonstram tragos da cultura surda. * Dependendo da idade em que a surdez chegou, conhecem a estrutura do Portugués falado, decodificam a mensagem em Portugués e o envio ou a captagao da mensagem vez ou outra e na forma da lingua oral; * Usam lingua oral ou lingua de sinais para captar a mensagem. Esta identidade também ¢ bastante diferenciada, alguns néo usam mais a lingua oral e outros usam Sinais sempre; + Assumem um comportamento de pessoas surdas. Ex.: politica da identidade surda usa tecnologia para surdos...; * Convivem pacificamente com as identidades surdas; 3) Identidades Surdas Flutuantes - Sao surdos que conservam a cultura ouvinte ainda dominante por nao terem contato constante com a comunidade surda. Estes possuem caracteristicas particulares: Seguem a representagao da identidade ouvinte; Estdo em dependéncia no mundo dos ouvintes, seguem os seus principios e os respeita como ouvintes, competindo com os mesmos, induzidos no modelo da identidade ouvinte; «Nao participam da comunidade surda, associagées e lutas politicas; + Desconhecem ou rejeitam a presenga do intérprete de lingua de sinais; * Orgulham-se de saber falar “corretamente”; + Demonstram resisténcias a lingua de sinais e a cultura surda visto que isto, para eles, representa esterestipo; * Nao conseguiram identificar-se como surdos, sentem-se sempre inferiores aos ouvintes: isto pode causar muitas vezes depresséo, fuga, suicidios, acusagao aos outros surdos, competicéo com ouvintes, ha alguns que vivem na angtistia no desejo continuo de serem ouvintes; * Sao as vitimas da ideologia oralista, da incluso, da educagdo clinica, do preconceito e do preconceito da surdez; * So surdos. Quer ougam algum som, quer ndo ougam persistem em usar aparelhos auriculares e nao usam tecnologia dos surdos; * Estas identidades surdas flutuantes também apresentam divisées; por exemplo: aqueles que tém contato com a comunidade surda, mas rejeitam- pagina na, os que jamais tiveram contato, etc 10 4) Identidade Surda Embacgada — Estes, apesar de serem surdos, vivem dominados pela cultura ouvinte e negam as representagdes surdas, nao se envolvendo em nada que diz respeito 4 comunidade. Esta identidade nao consegue captar a representagao da identidade surda, nem da identidade ouvinte como fazem os flutuantes; Sua comunicagao é por alguns sinais incompreensiveis as veze Nao tém condigdes de dizer onde mora, seu nome, sua idade, etc...; Nao tém condigdes de usar lingua de sinais, nao Ihe foi ensinada, nem teve contato com a mesma; ‘So pessoas vistas como incapacitadas; Neste ponto, ouvintes determinam seus comportamentos, vida e aprendizados; E uma situagdo de deficiéncia, de incapacidade, de inércia, de revolta; Existem casos de aprisionamento de surdos na familia, seja esteredtipo ou pelo preconceito, fazendo com que alguns surdos se tomem embagados. 5) Identidades Surdas De Transigéo - Esse grupo é formado por sujeitos surdos que ou viveram longe da comunidade surda por questées adversas ou se afastaram desse convivio e, portanto, podem reconhecer sua subjetividade. Vivem no momento transito entre uma identidade para outra; Se a aquisigao da cultura surda ndo se dé na infancia, normalmente a maioria dos surdos precisa passar por este momento de transicdo, visto que grande parte deles filhos de pais ouvintes; No momento em que esses surdos conseguem contato com a comunidade surda, a situagéo muda e eles passam pela des-ouvintizagao, ou seja, rejeigdo da representagao da identidade ouvinte; Embora passando por essa des-ouvintizagdo, os surdos ficam sequelas da representagdo, o que fica evidenciado em sua identidade em construgao; Ha uma passagem da comunicagéo visual/oral para a comunicagao visual/sinalizada; Para os surdos em transigao para a representagao ouvinte, ou seja, a identidade flutuante se dé o contrario. od od 6) Identidades Surdas Diaspora — Essa definigao remete a sujeitos surdos que se deslocaram de uma comunidade para outra, seja por mudanga de pais ou apenas de grupo étnico (mudanga de Estado), ou seja, mudam de identificagao grupal: surdo brasileiro, surdo nordestino, surdo urbano, etc. Esses diferem do grupo onde chegaram pelas identidades étnicas serem muito marcadas. 7) Identidades Intermediarias - Esse grupo se diferencia dos outros, pois nao tem sua vivéncia marcada totalmente pela visualizagao. So geralmente os surdos que tém resquicios de audigao. Sao surdos e se identificam como surdos, mas se utiizam de recursos ouvintes para estar no mundo. * Apresentam alguma porcentagem de surdez, mas levam uma vida de ouvintes; + Para estes sao de importancia os aparelhos de audigéo, de aumento de som; * Assume importancia para eles o treinamento do oral, o resgate dos restos auditivos; * Busca de amplificadores de som; + Nao uso de intérpretes de cultura surda, de lingua de sinais, etc; * Quando presente na comunidade surda, geralmente se posiciona contra uso de intérpretes ou considera 0 surdo como menos dotado e nao entende a necessidade de lingua de sinais de intérpretes; Tem dificuldades de encontrar sua identidade visto que nao é surdo nem ouvinte. Abordagens educacionais Para compreendermos as abordagens usadas na educagao dos surdos, & imprescindivel que fagamos uma retomada histérica para conhecermos assim, 0 plano de fundo contextual dessas abordagens. © sujeito surdo é tao antigo quanto a humanidade. A Biblia, um dos livros mais antigos do mundo, cita a presenga de surdos na sociedade e da interagéo deles por meio da linguagem, embora nao diga de que forma eles se comunicavam. Nessa época os surdos eram tidos como seres amaldigoados, j4 que nao eram vistos pela igreja como “imagem e semelhanga de Deus’. Eram tidos como nao racionais. N od Os estudiosos nos contam que eram “jogados em abismos (Esparta), deixados nas pragas publicas ou arenas a mingua (Atenas), atirados em rios (Roma), exterminados, abandonados, oferecidos aos deuses, conforme a cultura de cada povo” (VELOSO e MAIA FILHO, 2009 apud CORDEIRO, 2014, p. 14). Baseados nos estudos do fildsofo Aristételes, os quais enfatizavam a fala oral como a arte de persuasao, houve no império macedénico a disseminagao da ideia de que sem ouvir ndo tem como aprender e sem falar nao ha como expressar o que conhece. Os gregos e romanos entendiam que os surdos se comparavam aos animais, portanto nao tinham inteligéncia e por isso néo podiam estudar, nem constituir familia ou herdar o que a prépria familia conquistou © Egito era a tinica sociedade que enxergava de certa forma positiva a pessoa do surdo, uma vez que ele era tido como semideus. Para eles, seu siléncio eta devido a nao autorizagéo para se comunicar com humanos, somente com deuses (HONORA e FRIZANCO, 2009) Por ser um periodo teocéntrico, muito tempo se passou de ignorancia acerca da cognigéo dos surdos. A igreja se interessava em promover caridade, embora apenas com surdos filhos de nobres, ¢ a medicina tinha interesse em compreender as causas da surdez. Até que Gerolamo Cardano, no Século XVI, afirmou que os surdos eram doutrinaveis, apés investigar seu préprio filho surdo, e divulgar que, para ensinar conceitos aos surdos, era preciso usar imagens Nesse cenério, o médico Johann Conrad Amman (1669 — 1724), acreditando na capacidade do surdo oralizar, comegou a estudar e desenvolveu técnicas de leitura labial e oralizacdo. Ele era contra os surdos se comunicarem através de gestos e defendia 0 aperfeigoamento dos procedimentos de leitura labial © monge beneditino Pedro Ponce de Leon, por sua vez, comegou a observar a ‘comunicagao gestual’ dos surdos e foi o primeiro a registrar 0 alfabeto de sinais, que embasou muitas pesquisas posteriores sobre linguas de sinais (STOKOE, 1987). Outra personalidade muito relevante para a educagao dos surdos foi o abade francés Charles Michel de L'Epée, dentre as varias minorias com quem trabalhou quando se dedicou aos estudos religiosos, os surdos chamaram sua atengao, o que Ihe rendeu o titulo mundial de “pai dos surdos". Ele acreditava na possibilidade de 13 Pagina 3 aprendizagem do surdo através de sua forma natural de comunicagao: a lingua de sinais e por isso criou a primeira escola piiblica do mundo para Surdos, em Paris, o Instituto Nacional para Surdos-Mudos, em 1760. Seus conhecimentos foram levados para muitos paises e em 1815, 0 professor americano Thomas Hopkins Gallaudet, maravilhado com as descobertas de L'Epée visitou seu instituto como estagidrio e em seguida fundou 0 que hoje é a Unica faculdade para surdos no mundo, conhecida como Universidade Gallaudet, em Washington, (MCCLEARY, 2005). Muitos sucederam o abade L'Epée com contribuigées impares para o progresso dos estudos sobre educagao de surdos, e durante todos esses anos, trés métodos de ensino para surdos foram registrados e até hoje ainda sao utilizados, em menor ou maior escala © Método Oral € 0 principal deles e ainda muito acreditado nos dias atuais. Depois que a ideia de que os surdos eram irracionais foi negada, apostaram na concepgao de que eles podiam falar, e que esta era a melhor forma de se comunicarem e viver mais facilmente em sociedade. Ainda hoje muitos profissionais da satide acreditam que este é 0 melhor método de instrugao para os surdos, isso se deve ao “ll Congreso Mundial de Surdos-Mudos’, que aconteceu em 1880, em Milao, na Italia Nesse congresso, onde apenas um surdo compareceu e foi “convidado” a se retirar, foi decidido quase que unanimemente que 0 oralismo puro seria 0 método mais apropriado para interagao do surdo e, o resultado fatidico desta decisdo foi a proibigao do uso das linguas de sinais pela comunidade surda, por aproximadamente oitenta anos. Varias consequéncias desastrosas decorreram dessa decisdo: desde adverténcias acerca da proibigdo do uso da lingua de sinais a puniges severas, como os surdos terem seus bragos amarrados se insistissem em “gesticular’ A tentativa de ‘normalizagao” dos surdos com a proibigdo do uso das linguas de sinais proporcionou a nao inclusdo de muitos deles na sociedade, e aqueles que no conseguiam interagir por meio de oralizagéo eram considerados incapazes, retardados, sem ser levado em conta, no entanto, as impossibilidades biolégicas do sujeito. oF | Quase cem anos depois do afamado Congresso de Mildo, visto que as linguas de sinais em todo mundo conseguiram subsistir a tentativa de aniquilacao, surge a filosofia da Comunicagao Total ou Método Combinado, criado por Dorothy Shifflet e desenvolvido por Loren Roy Holcom (SA, 1999). De acordo com Goldfeld (1997, p. 35): A filosofia da Comunicagao Total tem como principal preocupagdo os processos comunicativos entre surdos e surdos, e entre surdos e ouvintes. Essa filosofia também se preocupa com a aprendizagem da lingua oral pela crianga surda, mas acredita que os aspectos cognitivos, emocionais & sociais, ndo devem ser deixados de lado em prol do aprendizado exclusivo da lingua oral. Por esse motivo, esta filosofia defende a utlizacdo de recursos espaco-visuais como facilitadores da comunicacao. © uso oficial dessa metodologia perdurou por poucos anos e fortaleceu a volta do uso das linguas de sinais, uma vez que ela causa muita confusdo na comunicagao por permitir 0 uso de qualquer recurso visual ou oral para efetivar a comunicagao. Apesar disso, ainda hoje, quando nao se conhece a lingua de sinais, as pessoas se utilizam da comunicagdo total para se comunicar. A terceira abordagem educacional voltada para o surdo é a Filosofia Bilingue, apoiada pela maioria dos estudiosos contempordneos, é alvo de muitas pesquisas, com indmeras comprovagées de favorecimento ao desenvolvimento educacional do surdo, jé que ¢ seu modo natural de comunicagao. A educagao bilingue consiste em dar possibilidade a crianga surda de aprender as duas linguas (lingua de sinais e lingua oral — necessariamente nessa ordem) desde a tenra idade, Como afirma Cordeiro (2014, p. 22): Discussées iniciadas om 1986 no Brasil ©, apés tantas lutas @ fracassos ligados aos métodos ja mencionados, os surdos poliizados e a comunidade de ouvintes envolvidas com as causas surdas, tm proposto a implantagao do bilinguismo nas escolas regulares, que consiste em que os surdos sejam educados desde a tenra idade nas duas linguas, a sua materna, a lingua de sinals, e uma segunda lingua, neste caso, a Lingua Portuguesa. © bilinguismo tem sido implantado nas escolas brasileiras gradativa e lentamente, no Decreto 5.626 de 22 de Dezembro de 2005 consta que as escolas devem: (...) Il = ofertar, obrigatoriamente, desde a educagao infantil, 0 ensino da Libras e também da Lingua Portuguesa, como segunda lingua para alunos surdos; Ill - prover as escolas com: a) professor de Libras ou instrutor de Libras; b) tradutor e intérprete de Libras - Lingua Portuguesa; ©) professor para o ensino de Lingua Portuguesa como segunda lingua para pessoas surdas; (BRASIL, 2005) 15 pagina 5. A principal e mais recente manifestagao politica dos surdos acerca da implantagao desta categoria de ensino nas escolas brasileiras ¢ 0 movimento intitulado “Setembro Azul’, que defende primordialmente a “Educagdo Bilingue para Surdos" e tem esse nome em alusdo 4 comemoragao do dia do surdo em 26 de setembro. Pagina lL 6 © TRADUTOR E INTERPRETE DE LINGUA DE SINAIS (TILS) Atualmente, com o advento da difuséo da Libras no Brasil 6 comum nos depararmos com pessoas que tiveram acesso a Libras através de um curso e j4 se sentem "um intérprete”. Vocés veréo quando comegarem a estudar sua linguistica, que € muito mais complexa do que imaginamos. Para ser um profissional Tradutor/intérprete de Libras/Lingua Portuguesa ¢ exigido um longo caminho para que alcancemos 0 reconhecimento profissional como estudos, técnicas, formagao especifica, certificagdo de proficiéncia e acima de tudo experiéncia e conhecimento sobre cultura, identidade surda e linguistica tanto da Libras como da Lingua Portuguesa. Este profissional TILS deve estudar e ser capaz de interpretar de uma dada lingua de sinais para outra lingua ou desta outra lingua para uma determinada lingua de sinais, em sua modalidade oral ou escrita (MEC, 2004), no caso do Brasil, da Libras para a Lingua Portuguesa e vice-versa. Diante de varias concepgdes acerca do que vem a ser ética, vamos usar 0 conceito mais encontrado e menos complexo para compreender essa concepgao: Etica € © conjunto de principios e normas que um grupo estabelece para seu exercicio profissional (por exemplo, os cédigos de ética dos médicos, dos advogados, dos psicdlogos, etc.) Assim, partimos do pressuposto que é preciso possuir critérios, valores, e, mais ainda, estabelecer relagées e hierarquias entre esses valores para nortear as nossas agdes em sociedade, seja na familia, seja na escola, seja como profissionais ou como cidadaos comuns. Como a sociedade e seus participantes mudam constantemente, a ética termina por ser um eterno pensar, refletir e construir. Assim como outras reas profissionais reconhecidas, os TILS também tém seu cédigo de ética, expresso através de um documento oficial do Ministério da Educagdo intitulado “O tradutor intérprete de Libras e a Lingua Portuguesa’, que é encarado pelos profissionais da area como seu cédigo de conduta diante da profissao que ele escolheu realizar. Nn od Este profissional foi reconhecido recentemente através da Lei Federal 12.319, de 1° de setembro de 2010, que trata também sobre a formago do TILS e das suas competéncias. Qual a responsabilidade do intérprete quanto ao processo ensino aprendizagem do aluno? Essa é uma das maiores diividas encontradas no ambito educacional sobre a atuagao do intérprete educacional. Costumamos dizer que o intérprete faz 0 papel do aparelho telefénico. E qual a fungao deste dispositive? Apenas estabelecer conexao linguistica entre um sujeito e outro numa ligagdo. Ele serve para transmitir 0 que um e outro falam e nao faz interferéncias nessa interagao. Além do intérprete educacional ter essa fungao de fazer a mediagao ou interpretagao de um cédigo linguistico para o outro, em todas as ocasides que se fizerem necessarias (como em sala de aula, palestra, provas, avisos entre outros), este profissional também possui uma fungao pedagégica, como planejar sua ago nos diversos ambientes escolares, de forma a tornar-se mais didatico, participar de reuniées pedagégicas da escola, contribuir com 0 conselho de classe, colaborar com os professores no sentido de fomecer informagées acerca do universo surdo, etc. E necessario, no entanto, que nem o TILS e nem o professor confunda suas responsabilidades frente ao estudante surdo. O mesmo continua sendo responsabilidade do professor, como qualquer outro estudante, nao importa se ele ouve ou nao. A presenga do TILS em sala de aula é imprescindivel para qualquer aluno surdo que se utiliza da Libras para se comunicar. Abaixo podemos observar, alguns possiveis aspectos favoraveis e desfavordveis da presenga do intérprete em sala de aula, conforme Magalhaes (2013): Aspectos Favoraveis * Qaluno surdo aprende de modo mais facil 0 contetido de cada disciplina; * Oaluno surdo sente-se mais seguro e tem mais chances de compreender e ser compreendido; 00 a O processo de ensino-aprendizagem fica menos exaustivo e mais produtivo para o professor e alunos; * © professor fica com tempo suficiente para atender todos os alunos igualmente; * ALibras passa a ser mais divulgada e utilizada de maneira mais adequada; * © aluno surdo tem melhores condigées de desenvolver-se, favorecendo inclusive seu aprendizado da Lingua Portuguesa (falada e/ou escrita). Aspectos Desfavoraveis: * intérprete pode nao conseguir passar o contetido da mesma forma que o professor esta falando; * © aluno nao presta atengao as agées do professor regente, porque esta atento ao intérprete; + Ha necessidade de pelo menos dois intérpretes por turma porque a atividade 6 exaustiva; * Qs demais alunos ouvintes podem ficar desatentos, porque se distraem olhando para o intérprete; * O professor regente pode sentir-se constrangido em estar sendo interpretado; + O professor nao interage diretamente com o aluno. Conforme preconiza o documento oficial que trata da profissdo do TILS no Brasil (Quadros, 2004, p. 28 - 29): Qual o papel do intérprete? Realizar a interpretagao da lingua falada para a lingua sinalizada e vice-versa observando os seguintes preceitos éticos: * confiabilidade (sigilo profissional); + imparcialidade (0 intérprete deve ser neutro e nao interferir com opiniées proprias); a od discrigdo (0 intérprete deve estabelecer limites no seu envolvimento durante a atuagao); distancia profissional (0 profissional intérprete e sua vida pessoal séo separados); fidelidade (a interpretacéo deve ser fiel, o intérprete ndo pode alterar a informagao por querer ajudar ou ter opiniées a respeito de algum assunto, o objetivo da interpretagao € passar o que realmente foi dito) de profissionais intérpretes? O que acontece quando ha caréns Quando hé caréncia de intérpretes de lingua de sinais, a interagao entre surdos e pessoas que desconhecem a lingua de sinais fica prejudicada. As implicagées disso so, pelo menos, as seguintes: os surdos nao participam de varios tipos de atividades (sociais, educacionais, culturais e politicas); 0s surdos nao conseguem avangar em termos educacionais; 0s surdos ficam desmotivados a participarem de encontros, reunides, etc; os surdos no tém acesso as discussées e informagées veiculadas na lingua falada sendo, portanto, excluido da interacao social, cultural e politica sem direito ao exercicio de sua cidadania; os surdos nao se fazem "ouvir" os ouvintes que nao dominam a lingua de sinais néo conseguem se comunicar com os surdos. O que é possivel fazer? investigagéo sobre todos os servigos de intérpretes existentes oficiais e extraoficiais; criagao de leis sobre o direito ao servigo de intérprete reivindicando que a sociedade assuma a responsabilidade desses servigos; reconhecimento da profissao de intérprete; ° qq * realizagao de pesquisas sobre interpretagdo e as condigées de trabalho dos intérpretes; * formagao sistematica para os intérpretes; * aumento de cursos de linguas de sinais; + criagdo de programas para a formagao de novos intérpretes; * cursos que orientem aos surdos como e quando usarem os servigos do intérprete. Muitas divvidas sobre a atuagao do TILS surgem no decorrer da pratica com a presenga dele em sala de aula. & uma situagao ainda estranha aos professores que até pouco tempo exerciam sua profissao solitariamente em sala de aula. Contudo, a melhor opgéo 6 trabalhar em equipe e colaborar mutuamente pensando no progresso do processo de ensino e aprendizagem dos seus alunos surdos. As leis e documentos oficiais internacionais e brasileiros sao os registros que regulam as nossas agées. Praticamente nada é feito sem uma legislagéo que regulamente a ago. No Brasil, os surdos comegaram a ser escolarizados no Século XVIII com a chegada do francés René Ernest Huet, trazido por D. Pedro Il. Mas apenas os surdos filhos de nobres tinham acesso ao estudo. Conforme Santos (2011, p. 29): [..] Huet inaugurou a primeira escola de surdos, na época chamada de Imperial Instituto de Surdos-Mudos, hoje conhecida como Instituto Nacional de Educacéo de Surdos — INES, onde alunos surdos de todo o pais estudavam em regime de internato com o professor francés e quando retornavam para suas casas multiplicavam seus conhecimentos, 0 que tomou essa escola o berco da cultura surda e difusao da LIBRAS por todo 0 pais. O INES foi fundado no Rio Janeiro e funciona até os dias atuais. Desde entao vemos progresso na educacao de surdos que passou pela educagao especial, a integradora e hoje a educagdo inclusiva, que abrange também a luta por escolas bilingues e que consideram a Libras como principal lingua de instrugao e a Lingua Portuguesa como segunda lingua. d s% Tipos de discurso Considerando os tipos de discurso existentes, apresentamos alguns nos quais o intérprete de lingua de sinais esta constantemente exposto (Callow: 1974:13): + Narrativo - reconta uma série de eventos ordenados mais ou menos de forma cronolégica; + Persuasivo - objetiva influenciar a conduta de alguém; + Explicativo - oferece informagées requeridas em determinado contexto; + Argumentativo - objetiva provar alguma coisa para a audiéncia; + Conversacional - envolve a conversagao entre duas ou mais pessoas; + Procedural - da instrugées para executar uma atividade ou usar algum objeto, Os intérpretes devem criar expectativas em relagdo aos tipos de discurso que alguém ira usar em determinados contextos. Aos poucos se aprende que algumas expressées estdo associadas a um tipo especifico de discurso, por exemplo, "por que” € "tazéio" so frequentemente usados em um discurso persuasivo; "como" e “passos" indicam um discurso procedural; "versus", "ou" e "comparacdo" so palavras tipicas de discursos argumentativos; “estéria” e "conto" sao frequentemente associados com um discurso narrativo; "descrigao” sugere um discurso explicativo. Assim, o intérprete tem condigées de identificar os elementos possiveis que serao apresentados de acordo com o tipo de discurso preparando-se de antemao e dispondo de tais elementos de forma mais pronta e imediata durante a sua atuagao. Cédigo de Etica © cédigo de ética é um instrumento que orienta o profissional intérprete na sua atuagao. A sua existéncia justifica-se a partir do tipo de relagao que o intérprete estabelece com as partes envolvidas na interagao. Os intérpretes esto para intermediar um processo interativo que envolve determinadas _intengdes conversacionais e discursivas. Nestas interagdes, 0 intérprete tem a responsabilidade pela veracidade e fidelidade das informagées. Assim, ética deve estar na esséncia desse profissional. A seguir é descrito 0 cédigo de ética que é ye Pagina2 2 parte integrante do Regimento Interno do Departamento Nacional de Intérpretes (FENE!S). CAPITULO 1 Principios fundamentais Arligo 1° . Sdo deveres fundamentais do intérprete: 1°. O intérprete deve ser uma pessoa de alto carater moral, honesto, consciente, confidente e de equilibrio emocional. Ele guardara informagdes confidenciais e nao poderd trair confidencias, as quais foram confiadas a ele; 2°. O intérprete deve manter uma atitude imparcial durante o transcurso da interpretacdo, evitando interferéncias e opinides préprias, a menos que seja requerido pelo grupo a fazé-lo; 3°. O intérprete deve interpretar fielmente e com o melhor da sua habilidade, sempre transmitindo o pensamento, a intengao e o espirito do palestrante. Ele deve lembrar dos limites de sua fungdo e nao ir além de a responsabilidade; 4°, O intérprete deve reconhecer seu proprio nivel de competéncia e ser prudente em aceitar tarefas, procurando assisténcia de outros intérpretes e/ou profissionais, quando necessario, especialmente em palestras técnicas; 5°. O intérprete deve adotar uma conduta adequada de se vestir, sem aderegos, mantendo a dignidade da profissdo e nao chamando atengdo indevida sobre si mesmo, durante o exercicio da fungao. CAPITULO 2 Relagées com o contratante do servigo 6°. O intérprete deve ser remunerado por servigos prestados e se dispor a providenciar servigos de interpretagao, em situages onde fundos no sao possiveis; 7°, Acordos em niveis profissionais devem ter remuneragao de acordo com a tabela de cada estado, aprovada pela FENEIS. CAPITULO 3 Responsabilidade profissional 8°. 0 intérprete jamais deve encorajar pessoas surdas a buscarem decisdes legais ou outras em seu favor; 9° . O intérprete deve considerar os diversos niveis da Lingua Brasileira de Sinais bem como da Lingua Portuguesa; yx} Pagina2 3 20°. Em casos legais, o intérprete deve informar a autoridade qual nivel de comunicagao da pessoa envolvida, informando quando a interpretagdo literal nao é possivel e o intérprete, entdo tera que parafrasear de modo claro 0 que esté sendo dito a pessoa surda e 0 que ela esté dizendo a autoridade; 11°. 0 intérprete deve procurar manter a dignidade, o respeito e a pureza das linguas envolvidas. Ele também deve estar pronto para aprender e aceitar novos sinais, se isso for necessério para o entendimento; 12°. © intérprete deve esforgar-se para reconhecer os varios tipos de assisténcia ao surdo e fazer o melhor para atender as suas necessidades particulares, CAPITULO 4 Relagées com os colegas 13°. Reconhecendo a necessidade para o seu desenvolvimento profissional, o intérprete deve agrupar-se com colegas profissionais com 0 propésito de dividir novos conhecimentos de vida e desenvolver suas capacidades expressivas e receptivas em interpretagao e tradugao. Pardgrafo tinico. O intérprete deve esclarecer o puiblico no que diz respeito ao. surdo sempre que possivel, reconhecendo que muitos equivocos (ma informagao) tém surgido devido a falta de conhecimento do publico sobre a area da surdez e a comunicagao com o surdo. Diante deste cédigo de ética, apresentar-se-4 a seguir diferentes situagdes que podem ser exemplos do dia-a-dia do profissional intérprete. Tais situagdes exigem um posicionamento ético do profissional intérprete. Sugere-se que, a partir destes contextos, cada intérprete reflita, converse com outros intérpretes e tome decisées em relagdo a seu posicionamento com base nos principios éticos destacados no cédigo de ética. 0 futuro profissional do tradutor e intérprete de lingua de sinais O intérprete de lingua de sinais no Brasil é um profissional com uma carreira promissora. Considerando as conquistas em nivel legal, 0 contexto sécio histérico e © momento politico atual, pode-se projetar um futuro brilhante para os futuros profissionais desta area. Ha varios cursos de capacitagao sendo ministrados em yas Pagina24 diferentes pontos do Brasil. Tais cursos funcionam como cursos de validacao, pois so voltados para aqueles profissionais intérpretes empiricos, ou seja, os intérpretes de lingua de sinais que atuam sistematicamente sem nenhum tipo de formagao formal. Além de tais cursos, estéo sendo propostos cursos sequenciais, ou seja, cursos de formagao em nivel superior com duragdo de dois a dois anos e meio. Esses cursos preveem a formagdo de intérpretes oferecendo disciplinas que contemplam as competéncias ¢ habilidades em relagdo as linguas envolvidas, as competéncias e habilidades técnicas e 0 dominio de conhecimentos especificos em relagdo a tradugao e interpretagao. O profissional intérprete de lingua de sinais sera um profissional altamente qualificado e prestara servigos observando os preceitos éticos e suas competéncias nas areas em que atuaré como intérprete. un q LEGISLAGAO INCLUSIVA Documentagao internacional inclusiva Vejamos abaixo, os documentos que justificam a incluséo dos surdos. Sao indmeros, e por isso esto listados aqui apenas os mais importantes. DECLARAGAO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS - Delineia os direitos humanos basicos e foi adotada pela Organizagao das Nagées Unidas em 10 de dezembro de 1948 (A/RES/217). Esbogada principalmente por John Peters Humphrey, do Canada, mas também com a ajuda de varias pessoas de todo o mundo, DECLARAGAO DE SALAMANCA (1994) - Sobre Principios, Politicas e Praticas na Area das Necessidades Educativas Especiais - O texto, que nao tem efeito de lei, diz que também devem receber atendimento especializado criangas excluidas da escola por motives como trabalho infantil e abuso sexual. As que tém deficiéncias graves devem ser atendidas no mesmo ambiente de ensino que todas as demais. DECRETO N° 3.956, DE 8 DE OUTUBRO DE 2001 - Promulga a Convengao Interamericana para a Eliminagao de Todas as Formas de Discriminagao contra as Pessoas Portadoras de Deficiéncia CONVENGAO SOBRE OS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIENCIA (2009) — A convengao foi aprovada pela ONU e tem o Brasil como um de seus signatarios. Ela afirma que os paises sao responsaveis por garantir um sistema de Educagdo inclusiva em todas as etapas de ensino. Legislacao inclusiva brasileira CONSTITUIGAO DA REPUBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988 - Assegurar 0 exercicio dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a seguranga, 0 bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justia como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social ¢ comprometida, na ordem interna e internacional, com a solugéo pacifica das controvérsias, promulgamos, sob a protegdo de Deus. Estabelece quem é a pessoa Pagina26 com deficiéncia e dispde sobre a integragao dos PcDs a sociedade (Art. 203, Segao IV, itens IV e V), define a educagéo como um direito de todos, garantindo o pleno desenvolvimento da pessoa (Art. 205), estabelece a igualdade de condigées de acesso e permanéncia na escola (Art. 206) e tutela as pessoas com deficiéncia um atendimento educacional especializado por parte do Estado (Art, 208). (CORDEIRO, 2014) LEI N° 9.394, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1996 - Estabelece as Diretrizes & Bases da Educagdo Nacional DECRETO N° 3.298 DE 20 DE DEZEMBRO DE 1999 - Regulamenta a Lei no 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispée sobre a Politica Nacional para a Integracéo da Pessoa com deficiéncia, consolida as normas de protegdo, e da outras providéncias. ABNT NBR — 9050 — Acessibilidade a edificagdes, mobilidrio, espagos e equipamentos urbanos. LEI N° 10.098 DE 19 DE DEZEMBRO DE 2000 - Estabelece normas gerais critérios basicos para a promogao da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiéncia ou com mobilidade reduzida, e dé outras providéncias LEI N° 10.172 DE 9 DE JANEIRO DE 2001 - Aprova o Plano Nacional de Educagao e da outras providéncias. LEI N° 10.845 DE 05 DE MARCO DE 2004 - Institui o Programa de Complementacéo ao Atendimento Educacional Especializado as Pessoas Portadoras de Deficiéncia, e da outras providéncias. DECRETO N° 5.296 DE 02 DE DEZEMBRO DE 2004 - Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro de 2000, que da prioridade de atendimento as pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios basicos para a promogo da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiéncia ou com mobilidade reduzida, e dé outras providéncias. POLITICA NACIONAL DE EDUCACAO ESPECIAL NA PERSPECTIVA DA EDUCAGAO INCLUSIVA (2008) - LEI 13.146 DE 6 DE JULHO DE 2015. Institui a Lei Brasileira de Incluséo da Pessoa com Deficiéncia (Estatuto da Pessoa com Deficiéncia Pagina2 7 Legislagao para a inclusdo de surdos LEI N° 2.089 DE 29 DE SETEMBRO DE 1998 — Institui a obrigatoriedade de insergao, nas pegas publicitérias para veiculagao em emissoras de televisdo, da interpretagdo da mensagem em legenda e na Lingua Brasileira de Sinais — LIBRAS. LEI N° 10.436 DE 24 DE ABRIL DE 2002. Dispée sobre a Lingua Brasileira de Sinais — LIBRAS e dé outras providéncias. DECRETO NV? 5.626, DE 22 DE DEZEMBRO DE 2005 - Regulamenta a Lei n° 10.436, de 24 de abril de 2002. LEI N° 12.319 DE 1° DE SETEMBRO DE 2010 - Regulamenta a profissao de Tradutor e Intérprete da Lingua Brasileira de Sinais — LIBRAS. PROGRAMA NACIONAL DE APOIO A EDUCAGAO DOS SURDOS, ENSINO DE LINGUA PORTUGUESA PARA SURDOS, CAMINHO PARA A PRATICA PEDAGOGICA. Volume | e Volume II, MEC, Brasilia, 2004 Lei Libras: conquista historica Um grande passo foi dado para que a Lingua Brasileira de Sinais (Libras) fosse oficializada como lingua dentro do nosso territério brasileiro. Conforme jé citado anteriormente, a lei que regulamenta a Libras como lingua é a Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002, que a reconhece como meio legal de comunicagao e expressdio. Segundo Karnopp (apud THOMA e LOPES, 2004), essa oficializagao foi resultado da luta da comunidade surda, que durou anos, por intermédio da Federagdo Nacional de Educagao e Integragao ao Surdo (Feneis), de associagées e de instituigdes. Essa lei foi comemorada com entusiasmo pela comunidade surda e por profissionais que trabalham na area. Ela assegura aos surdos que a Libras seja sua lingua materna e que a lingua portuguesa seja sua segunda lingua, na modalidade escrita e/ou oral, por ser a lingua oficial do Brasil. ‘Ad. to € reconhecida como meio legal de comunicagdo © expresso a Lingua Brasileira de Sinais - Libras e outros recursos de expresso a ela associados. Paragrafo unico. Entende-se como Lingua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicacéo @ expresso, em que o sistema linguistico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical propria, constituem um Pagina2& sistema linguistico de transmissao de ideias fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. (BRASIL, 2002) Garante, também, que o poder piblico em geral e empresas concessionarias de servigos piiblicos difundem a Libras como meio de comunicagao objetiva de utilizagdo corrente das comunidades surdas do Brasil. Além disso, inclui o ensino da Libras nos sistemas educacionais de esfera federal, estadual, municipal e do Distrito Federal nos cursos de formagaéo em Educagao Especial, Fonoaudiologia e de Magistério, em seus niveis médio e superior, como parte integrante dos Pardmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Em 2005, essa lei foi regulamentada pelo Decreto n. 5.626, de 22 de dezembro, que também regulamenta o artigo 18 da Lei n. 10.098, de 19 de dezembro de 2000, decreto assinado pelo presidente Luis Inacio Lula da Silva. ‘Att 30 A Libras deve ser inserida como disciplina curricular obrigatéria nos cursos de formagao de professores para o exercicio do magistéria, em nivel médio e superior, e nos cursos de Fonoaudiologia, de instituigées de ensino, ptblicas e privadas, do sistema federal de ensino e dos sistemas de ensino dos Estados, do Distrito Federal e dos Municipios. (BRASIL, 2005) Assim, 0 quadro de docentes do ensino basico e superior passou a ter professor de Libras e, ainda, o ensino da Libras como disciplina curricular, o que devera ocorrer no prazo de dez anos apés a data da publicagao do decreto. Em 2000, a Lei n. 10.098 ja previa a formagao de intérpretes para facilitar a comunicagao entre as pessoas surdas/surdas e surdas/ouvintes. Art. 18. O Poder Publico implementara a formagao de profissionais intérpretes de escrita em braile, linguagem de sinais e de guias-intérpretes, para faciitar qualquer tipo de comunicagao direta & pessoa com deficiéncia sensorial e com dificuldade de comunicagao. (BRASIL, 2000) Recentemente, foi aprovada a Lei n. 12.319, de 1° de setembro de 2010, que regulamenta a profissdo de tradutor e intérprete da Lingua Brasileira de Sinais. ‘At. 1o Esta Lei regulamenta o exercicio da profisséo de Tradutor e Intérprete da Lingua Brasileira de Sinais — Libras. Art. 20 O tradutor e intérprete ter competéncia para realizar interpretagao das 2 (duas) linguas de maneira simultanea ou consecutiva e proficiéncia em tradugdo e interpretagao da Libras e da Lingua Portuguesa. Além disso, criou-se 0 curso de nivel superior (bacharelado ¢ licenciatura) de Letras/Libras no Brasil. Esse curso foi, primeiramente, oferecido pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em modalidade a distancia e presencial. 29 Pagina29 Concentra-se na UFSC grande parte de pesquisadores da drea da educagao de surdos, sendo referéncia para os demais estudiosos da area. © mesmo curso tem sido oferecido pela Universidade Federal de Goids, na Faculdade de Letras, desde 2009, com 40 vagas na cidade de Goiania, abrindo, dessa forma, mais espago no meio universitério para a comunidade surda de Goids. Assim, a Libras esta fortalecendo-se e sendo reconhecida como lingua dentro do pais, de modo a ressaltar que os surdos podem ter uma vida como de uma pessoa ouvinte, desde que se respeite sua singularidade. Essas conquistas apresentadas foram mais impactantes na drea da educagao de surdos, pois sao leis que tratam exclusivamente da comunidade surda. Isso mostra que foi preciso um reconhecimento especifico para garantir ao surdo o direito jusnatural de uma lingua com sua estrutura gramatical prépria, como qualquer lingua, bem como de sua identidade e cultura. A diferenga entre a lingua de sinais e as demais linguas ¢ a sua modalidade gestual-espacial. ° 9 ASPECTOS LINGUISTICOS DA LINGUA BRASILEIRA DE SINAIS (LIBRAS) Durante muito tempo as linguas de sinais eram denominadas linguagem de sinais, mas, a partir de estudos sobre o assunto, foi comprovado seu status linguistico - 0 termo linguagem caiu em desuso, passando-se a consideré-las linguas naturais. Pode-se fundamentar esta afirmagao nas seguintes definig6e [..1 linguagem & uma faculdade humana, uma capacidade que os homens tém para produzir, desenvolver, compreender a lingua e outras manifestagdes simbélicas semelhantes a lingua, A linguagem é heterogénea e multifacetada: ela tem aspectos fisicos, fisiolégicos & psiquicos, e pertence tanto ao dominio individual quanto ao dominio social Para Saussure, é impossivel descobrir a unidade da linguagem. Por isso, ela nao pode ser estucada como uma categoria Unica de fatos humanos. A lingua é diferente. Ela é uma parte bem definida e essencial da faculdade da linguagem. Ela é um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convengdes necessérias, estabelecidas e adotadas por um grupo social para o exercicio da faculdade da linguagem. A lingua é uma unidade por si s6. Para Saussure, ela é a norma para todas as demais manifestagdes da linguagem. Ela é um principio de classificagao, com base no qual é possivel estabelecer uma certa ordem na faculdade da linguagem (SAUSSURE, 1916, p. 114). Nota-se que lingua e linguagem tém definigdes distintas. A primeira 6 um produto social da faculdade da linguagem, enquanto a segunda é a capacidade que © homem tem de produzir conceitos relacionados com uma dada forma, como a misica, a arte, o teatro, a danga. As linguas naturais séo consideradas inerentes ao homem, um sistema linguistico usado por uma comunidade. Elas nao incluem somente as linguas orais - pesquisas linguisticas j4 comprovaram que as linguas de sinais s4o naturais, pois a sua estrutura permite que diferentes conceitos sejam expressos através dela, dependendo da intengéo e necessidade comunicativa do individuo. Karnopp e Quadros conceituam lingua natural como’ uma realzagao espectfica da faculdade de linguagem que se dicotomiza num sistema abstrato de regras finitas, as quais permitem a produgao de um numero ilimitado de frases. Além disso, a utilizagao efetiva desse sistema, com fim social, permite @ comunicagao entre os usuérios (KARNOPP e QUADROS, 2007, p.30) d 2 Brito (1998, p.19) faz a seguinte afirmacdo sobre se considerar linguas de sinais como naturais: {As linguas de sinals so linguas naturals porque como as linguas orais surgiram espontaneamente da interago entre pessoas © porque devido sua estrutura permitem a expressao de qualquer conceito - descritivo, emotivo, racional, literal, metaférico, conereto, abstrato - enfim, permitem a expresso de qualquer significado decorrente da necessidade comunicativa @ expressiva do ser humano (BRITO, 1998, p. 19). Um dos primeiros estudiosos a desenvolver pesquisas acerca das linguas de sinais e a constatar seu status linguistico, Stokoe (apud Quadros & Karnopp, 2004) comprovou a sua complexidade, na medida em que, assim como linguas orais, as linguas de sinais possuem regras gramaticais, léxico, e permitem a expresso conceitos abstratos, e a produgao de uma quantidade infinita de sentengas. Além disso, pode-se ratificar que elas nao séo pantomimas e nem universais - a lingua de sinais americana (ASL) difere da lingua de sinais britanica (BSL) que difere da brasileira e assim por diante. Elas apresentam variagées regionais, e suas estruturas gramaticais na@o dependem das linguas orais. E uma lingua de modalidade gestual-visual, seu canal de comunicagdo se da através das mos, das expressdes faciais e do corpo. No Brasil, a Libras se sustenta em trés pilares 1) social, pois ha uma comunidade de fala da lingua, 2) linguistico, porque ha um sistema linguistico convencionado por essa comunidade e 3) politico, uma vez que pertence ao campo das politicas linguisticas e, principalmente, encontra-se reconhecida oficialmente na Constituigao brasileira através da Lei 10.436 de 24 de abril de 2002, a qual afirma no Paragrafo Unico do artigo 1° que: Enlende-se como Lingua Brasileira de Sinais - Libras a forma de comunicagao e expresso, em que o sistema linguistico de natureza visual- motora, com estrutura gramatical prépria, constituem um sistema linguistico de lransmissao de ideias e fates, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil (BRASIL, 2002). Como j4 mencionado ao longo da discipiina, a lei foi uma grande conquista da comunidade surda brasileira, pois assim, 0 surdo pode ser concebido também a partir das minorias linguisticas e acabar com os estigmas da deficiéncia. Com o reconhecimento da lingua, os surdos tiveram uma maior visibilidade no cenrio social e passaram a ser protagonistas de muitas pesquisas e estudos sobre 32 Pagina 3 2 a lingua de sinais. Gragas a isso, muitas concepgées inadequadas puderam ser desmistificadas. Quadros e Kamopp (2004, p. 31 — 37) descrevem estes mitos: is seri istura de pantomima e uma Mito 1: A lingua de gesticulagao concreta, incapaz de expressar conceitos abstratos. As linguas de sinais séo linguas completas e complexas capazes de expressar qualquer ideia, seja ela concreta ou abstrata. Assim, so formadas por sinais icénicos, 08 quais de acordo com Albres (2013, p. 83) podem ser definidos como “propriedade das palavras ou dos sinais de tomar como base para sua criagéo as caracteristicas fisicas do referente, parte deste ou 0 todo, ou mesmo a relagéo cultural que 0 homem tem com esse referente.” Entende-se entéo que sinais icénicos so aqueles que tém uma semelhanga com o real, como por exemplo, os sinais de TELEFONE e BORBOLETA, conforme as imagens abaixo: ‘Figura Tnauer dossiais de TELEFONE e BORBOLETA sespoctivameats, ‘TELEFONE BORHOLETA, ae Fonte: Cordeiro, Santos e Vale (2017). Mas devemos ressaltar que além da iconicidade, as linguas de sinais também so formadas pela arbitrariedade, Conforme Albres (2013, p. 84): Apesar da possibilidade de alguns sinals terem motivagéo em caracteristicas do que representam, os sinais no s4o os objelos que representam. Dessa forma, cada comunidade linguistica pode, ao se relacionar com esse referente, escolher qualquer parte dele ou qualquer outro signo distante de qualquer associa¢ao/ relago com o referente. Isso significa que a palavra ou sinal de uma lingua nao se prende simplesmente pela sua representatividade, mas depende de uma produgao social-coletiva para a construgo dessa significagdo na lingua, Sendo assim, nao ha a obrigatoriedade dos sinais representarem a forma real do referente, mas também depende da convencionalidade de determinadas 33 Pagina33 comunidades linguisticas. Pode-se definir entéo que os sinais arbitrarios tém significado somente para os falantes da lingua, é 0 caso dos sinais de BISCOITO e NAMORAR. Figura 2: Images dos siais de BISCOITO e NAMORAR BISCOITO NAMORAR an Fonte: Cordeiro, Santos e Vale (2017). 10 2: Haveria uma Gnica e universal lingua de sinais usada por todas. as pessoas surdas. Muitas pessoas acreditam que as linguas de sinais so iguais em todo o mundo. Tal concepgao desconsidera a localizagéo geogréfica e os contextos culturais insignificantes na formagao das linguas e dos itens lexicais. Mesmo nos paises que a lingua oral ¢ a mesma, as linguas de sinais se diferenciam. A lingua de sinais utilizada em Angola néo é a mesma de Portugal, a da Venezuela néo é a mesma da Argentina, do Brasil. Nas figuras abaixo pode-se perceber a diferenga dos itens lexicais utilizados no Brasil e nos Estados Unidos da América. st 2 Figura3:Imagem do inal deBOM dal ingua Brasileira de Sinais BOM -LIBRAS Fonte: Cordeiro, Santos e Vale (2017) ‘Figura (:Imagem do sinal de GOOD da American Siga Lengmage GOOD-ASL Fonte: Cordeiro, Santos e Vale (2017) Pagina35. Mito 3: Haveria uma falha na organizagao gramatical da lingua de sinais, que seria derivada das linguas de sinais, sendo um pidgin sem estrutura prépria, subordinado e inferior as linguas orais. Primeiramente, é importante conceituar o termo pidgin. Hlibowicka-Weglarz (2016, p. 02) afirma que: Os pidgins apareceram em contextos de urgéncia comunicativa, quando os representantes de dois grupos de falantes tiveram necessidade de comunicago imediata. [...] Os pidgins so linguas veiculares simples, de Uso bem restrito, sao linguas acessérias, subsidiarias que ndo substituem a lingua de origem dos que as falam, mas sao usadas em diferentes contextos ¢ situagées de intercémbio. E uma forma de linguagem que facilita a comunicagao imediata entre populagdes heterogéneas. De acordo com a afirmagao acima, pidgin pode ser entendido como a mistura emergencial de duas linguas para que haja comunicagao entre pessoas de grupos diferenciados. Houve tempo em que se acreditava que a lingua de sinais nao era uma lingua propriamente dita por ser uma mistura com a lingua oral, ou seja, um pidgin. Talvez isso acontecesse pelo fato da presenga do alfabeto manual (datilologia), o qual representa letra por letra da lingua oral. Gées e Campos (2013, p.71) afirmam que: Nao se deve pensar que o alfabeto manual é a lingua de sinais, pois ele possui uma fungdo especifica. Na interagdo entre pessoas usudrias da lingua de sinais, ele é utiizado para soletrar nomes préprios de pessoas ou lugares, siglas, elementos técnicos, palavras que ainda nao possuem sinais correspondentes, ou em algumas situagdes de empréstimo de palavras da lingua portuguesa [...] Assim, 0 alfabeto manual nao é a lingua de sinais, mas uma representagao visual da grafia das linguas orais. £ utilizado somente para dizer nomes préprios (pessoas, Estados, paises, enderegos...) que ainda no possuem um sinal, sendo muitas vezes evitado durante a sinalizagao. Outro fato que necessita ser esclarecido € que as linguas sinalizadas nao tém uma dependéncia estrutural das linguas orais, mas possuem uma independéncia gramatical. As linguas de sinais séo linguas naturais e nao so gestos soltos, possuem um sistema linguistico pertencente a uma modalidade visual-espacial. © 2 Mito 4: As linguas de sinais, por serem organizadas espacialmente, estariam representadas no hemisfério direito do cérebro, uma vez que esse hemisfério é responsavel pelo processamento de informagao espacial, enquanto que o esquerdo, pela linguagem. Muitos estudiosos acreditavam que pelo fato das linguas de sinais serem de modalidade visual-espacial, estas se localizavam no hemisfério direito do cérebro, 0 hemisfério responsavel pelas relagées espaciais. Pesquisas com surdos que apresentavam lesdes no hemisfétio direito demonstraram que estes eram capazes de processar as informagées linguisticas da lingua de sinais. J4 os surdos que possuiam lesdes no hemisfério esquerdo nao processavam as. informagdes linguisticas. Estes estudos mostram que embora a lingua de sinais faca parte de uma modalidade visual-espacial, ¢ processada no hemisfério esquerdo, assim como as linguas orais. Isso também nos revela que a linguagem do ser humano independe da modalidade. Essas desmistificagdes séo muito relevantes, como afirma Santos (2017, p. 27) “derrubam a ideia de que as linguas de sinais so inferiores as linguas orais, mudando a concepgao existente nas sociedades ouvintes em relagao a lingua e aos surdos.” Em uma perspectiva linguistica, as linguas sinalizadas so linguas completas que podem ser analisadas a partir de diversos niveis. Com este novo olhar sobre as linguas sinalizadas, estudaremos nas préximas unidades as categorias gramaticais da Lingua Brasileira de Sinais. Iconicidade e arbitrariedade Iconicidade e arbitrariedade do signo linguistico so inerentes as linguas naturais. Reflexdes acerca das definigdes destes fendmenos das linguas ocorreram desde a época de Plato e se estendem até os dias de hoje, Podem-se citar, dentre as reflexes do filésofo grego, questées sobre a linguagem e sobre a relacdo dela com 0 mundo. Cratilo, Hermégenes e Sécrates foram um dos interlocutores que dialogaram acerca desta relacdo, discutindo a ligagao existente entre nome, ideia e coisa. Cratilo defendia 0 conceito de iconicidade; Hermégenes, de arbitrariedade. Sécrates, por seu turno, integrava as duas concepgées, Ia Pagina 7 Para Cratilo, a lingua é 0 espelho do mundo, o que significa que existe uma relacao natural e, portanto, similar ou icénica entre os elementos da lingua e os seres por eles representados. Para Hermdgenes, a lingua 6 arbitraria, isto 6, convencional, pois entre o nome e as ideias ou as coisas designadas ndo ha transparéncias ou similaridade. Sécrates, por sua vez, tem o papel de fazer a integragéo entre os dois pontos de vista (WILSON & MARTELOTTA, p. 71, 2010) Direcionando tais definigdes as linguas de sinais, muitas vezes elas séo consideradas puramente icénicas por serem de uma modalidade diferente, acreditando- se que os sinais sao criados a partir da representagao do referente. E certo que um sinal pode ser realizado de acordo com a caracteristica daquilo que se refere, mas, de acordo com Strobel & Fernandes (1998), isto ndo é uma regra, ja que a maioria dos sinais em Libras é arbitrario, ou seja, néio mantém uma relagao de similitude com o referente. Strobel & Fernandes (1998) também definem os sinais icénicos como aqueles que fazem alusdo a imagem do seu significado, sendo que isto nao implica na igualdade de todos os sinais icdnicos em todas as linguas de sinais, pois cada grupo social absorve aspectos diferentes da imagem do referente convencionando a representagao do sinal. Para os autores, os signos arbitrarios sdo os que nao trazem nenhuma relagdo de semelhanga com o referente Variagées linguisticas A lingua esta em constante evolugdo, é dindmica, um produto social em permanente inconclusdo, “(...) & intrinsecamente heterogénea, multipla, varidvel, instavel e esta sempre em desconstrugao e em reconstrugao” (BAGNO, 2007, p.35, grifos do autor), Devido a este cardter de ordem heterogénea, nas linguas naturais pode ser identificado um fenémeno linguistico denominado variagao. As linguas de sinais, por serem naturais, apresentam tais manifestagdes. Segundo Bagno (2007) existem fatores sociais ou extralinguisticos que podem proporcionar a identificagéo do fenémeno variagao linguistica, so eles: a) Origem geografica: a lingua varia de um lugar para o outro; assim, podemos investigar, por exemplo, a fala caracteristica das diferentes regides brasileiras, dos diferentes estados, de diferentes areas geograficas dentro de um 38 Paginad8 mesmo estado etc.; outro fator importante também é a origem rural ou urbana da pessoa; b) Status socioeconémico: as pessoas que tém um nivel de renda muito baixo nao falam do mesmo modo das que tém um nivel de renda médio ou muito alto, e vice-versa; ¢) Grau de escolarizagao: 0 acesso maior ou menor a educagao formal e, com ele, & cultura letrada, a pratica da leitura e aos usos da escrita, 6 um fator muito importante na configuragao dos usos linguisticos dos diferentes individuos; d) Idade: os adolescentes nao falam do mesmo modo como seus pais, nem estes pais falam do mesmo modo como as pessoas das geragées anteriores; e) Sexo: homens e mulheres fazem usos diferenciados dos recursos que a lingua oferece; f) Mercado de trabalho: o vinculo da pessoa com determinadas profissées e oficios incide na sua atividade linguistica: uma advogada ndo usa os mesmos recursos linguisticos de um encanador, nem este os mesmos de um cortador de cana; 4g) Redes sociais: cada pessoa adota comportamentos semelhantes aos das pessoas com quem convive em sua rede social; entre esses comportamentos esta também o comportamento linguistico. Sobre as variagées linguisticas, Strobel & Fernandes (1998) consideram as variagées regionais e sociais e as mudangas histéricas como fenémenos identificdveis na Lingua Brasileira de Sinais, o que Ihe confirma, mais uma vez, 0 carater natural. A variagao regional refere-se as variagdes de sinais que acontecem nas diferentes regiées do mesmo pais; j4 a social representa as variagées na configuragao de mao e/ou movimento, sem alterar o sentido do sinal, as mudangas histéricas estdo relacionadas com as modificagdes que o sinal pode sofrer, devido aos costumes da geragao que utiliza o sinal. A seguir, alguns exemplos: a 2 eee Figura 5: Variagao regional MAS Sao Paulo Fonte: Sousa, 2010, p. 7 Figura 6: Variacao social AJUDAR Fonte: Sousa, 2010, p. 7 Figura 7: Mudanga historica Fonte: Sousa, 2010, p. 7 Pagina Fonologia da Lingua Brasileira de Sinais Embora as linguas de sinais sejam de modalidade gestual-visual, em que a informagao é percebida pelos olhos e frases, pelos textos e discursos produzidos pelas mos, o termo fonologia tem sido usado ndo somente no contexto das linguas orais, mas nos estudos dos elementos que envolvem a formagao dos sinais. Stokoe (apud QUADROS, 2004) empregava o termo “quirema” as unidades que formam os sinais, e para referirse as combinagées dessas unidades, utilizava o termo “quirologia’. Ao confirmar que a lingua de sinais ¢ uma lingua natural, Stokoe e outros pesquisadores passaram a utilizar os termos fonema e fonologia nos estudos linguisticos das linguas de sinais. Quadros (2004, p.47) define a fonologia das linguas de sinais da seguinte forma: Fonologia das linguas de sinais 6 0 ramo da linguistica que objetiva identifcar a estrutura e a organizagéo dos conslituintes fonolégicos, propondo modelos descritvos e explanatérios. A primeira tarefa da fonologia para lingua de sinais é determinar quais sao as unidades minimas que formam os sinais. A segunda tarefa é estabelecer quals so os padrées possiveis de combinagéo entre essas unidades e as variagSes possiveis no ambiente fonolégico (QUADROS, 2004, p. 47). A anélise da formagéo dos sinais foi estabelecida por Stokoe (apud QUADROS, 2004), ao propor a decomposigdo dos sinais em trés pardmetros principais (configuragao de mao, locagao da mao, movimento da mao), a fim de analisar a constituigéo deles na ASL (Lingua de Sinais Americana), afirmando nao possuirem significado de forma isolada. Posteriormente, outros parametros foram acrescentados as pesquisas da fonologia de sinais, sdo eles: orientagéo da mao, expressées faciais e corporais. A configuragdo de mao (doravante, CM), de acordo com Strobel & Fernandes (1998), € definida como a forma assumida pela mao durante a articulagdo de um sinal, Locagao da mao ou ponto de articulagao é o lugar do corpo onde o sinal sera realizado, JA 0 movimento demonstra deslocamento da mao durante a execugéo do sinal, possuindo diferentes formas e diregdes. Além disso, os sinais podem ter ou nao movimento, O parametro orientagao da mao, de acordo com Quadros (2004), vem ser a diregéo que a palma da mao indica na realizagao do sinal. Os componentes no co pagina 1 manuais, ou seja, as expressées faciais e corporais, distinguem significados entre sinais, Além disso, podem traduzir tristeza, alegria, medo, raiva, magoa, amor, encantamento e desencantamento, entre outros sentimentos. Podem indicar afirmagao, negagao, interrogago e exclamagao, Algumas dessas diferengas serao mostradas nas figuras a seguir: Figura 8: Sinais que diferem quanto a configuragao de mao Fonte: Sousa, 2010, p. 9 igura 9: Sinais com ponto de articulacao em diferentes locais, boca, testa, LARANJA APRENDER A 5 - Fonte: Sousa, 2010, p. 9 Q +t Fonte 10: Sinais que divergem quanto ao movimento ‘GALINHA HOMEM Fonte: Sousa, 2010, p. 9 Morfologia Da Lingua Brasileira De Sinais Morfologia é um ramo da linguistica que estuda a estrutura interna, a formagao e classificagdo das palavras ou sinais, como define Quadros: Morfologia ¢ © estudo da estrutura interna das palavras ou dos sinais, assim como das regras que determinam a formagao das palavras. A palavra morfema deriva do grego morphé, que significa forma, Os morfemas séo as unidades minimas de significado (QUADROS, 2004, p.86, grifos do autor) A partir do conceito supracitado, pode-se afirmar que as formagées dos sinais originam-se da combinagéo dos parametros configuragéo de mao, ponto de articulago, movimento, expresso facial e corporal, agora considerados morfemas, ou seja, unidades minimas com significado, como explica Felipe: Estes cinco pardmetros podem expressar morfemas através de algumas configuragées de mao, de alguns movimentos direcionados, de algumas alteragdes na frequéncia do movimento, de alguns pontos de articulagéo na estrutura morfolégica e de alguma expressao facial ou movimento de cabega concomilante ao sinal, que, alravés de alteragées em suas combinagoes, formam os itens lexicais das linguas de sinais (FELIPE, 2006, p. 202). Ja em relagéo classe de palavrasisinais e as categorias lexicais pertencentes as linguas de sinais, estéo nomes, verbo, advérbio, adjetivo, numeral, conjungao. Direcionado 0 estudo morfoldgico para Libras, a partir de uma breve andlise, encontram-se os seguintes casos: a) Quando se quer diferenciar 0 sexo entre pessoas ou animais, usa-se 0 sinal HOMEM e MULHER para fazer referéncia ao nome, mas geralmente sem Ci) Pagina 3 apresentar flexao de género, como se pode perceber no sinal de AMIG@, que pode ser usado tanto para o sexo masculino ou feminino. Sinais como PAI e MAE nao necessitam dessa marcagdo de género, pois possuem sinais préprios. b) Os adjetivos trazem como caracteristicas a expressao facial e intensificagao do sinal, néo hé marca de género ou niimero. Cita-se como exemplo a sinalizagéo de BONITINHO e de MUITO BONITO, que precisa, cada um & sua maneira, de expresso facial e intensificagéo do sinal, sendo que o segundo necesita também de expresso facial. Essas marcagées linguisticas trazem o significado real do sinal. c) Os pronomes na Libras sao realizados em diferentes pontos no espago, a articulagao do sinal depende da pessoa que se faz referéncia e do ntimero, ou seja, singular e plural. Destacam-se ainda as conjungdes, sendo que as manifestadas em Libras sio MAS, PORQUE (explicativo ¢ interrogativo), COMO e o SE. d) Em relagdo aos numerais, estes sao clasificados em quantidade, cardinal e ordinal, trazendo como parametros de diferenciagao na articulagao dos numeros a configuragao de mao, ponto de articulagaio e movimento, além do contexto. e) A marcagao do tempo verbal é realizada através de itens lexicais ou sinais adverbiais como afirma Brito: “Dessa forma, quando o verbo refere-se a um tempo passado, futuro ou presente, 0 que vai marcar o tempo da a¢do ou do evento serao itens lexicais ou sinais adverbiais como ONTEM, AMANHA, HOJE, SEMANA- PASSADA, SEMANA-QUE-VEM.” (BRITO, 1997, p. 46). A seguir um exemplo de como a marcagao de tempo verbal é realizada em Libras: Figura 11; Realizagao dos sinais adverbiais i jicando ontem e anteontem ONTEM ANTEONTEM Fonte: Sousa, 2010, p. 12 ed Pagina Sintaxe da Lingua Brasileira de Sinais A Libras, assim como a Lingua Portuguesa, apresenta organizagdo na estrutura da frase. De maneira preferencial, a ordem SVO (sujeito+verbotobjeto) é a que se destaca na produgao das frases, 0 que nao invalida 0 uso de outras ordens. De acordo com Brito (1997), na Libras, uma outra forma de produgdo que acontece 6 a topicalizagéo ou tépico-comentario, A topicalizagao, realizada com bastante frequéncia, é definida como a distribuigéo no espaco dos elementos da frase, ou seja, ndo segue a ordem SVO, Pode ser usada desde que nao haja restrigdes que impecam 0 deslocamento de determinados constituintes da sentenga e que altere o sentido da frase. Em relagdo aos verbos em Libras, destacam-se os com concordancia e os sem concordancia, De acordo com a concepgao de Quadros (2004), os sem concordancia so os que néo flexionam em pessoa e ntimero, sendo que alguns podem flexionar em aspecto. Existe ainda uma subdivisdo desta categoria de verbos, podendo ser ainda clasificados em verbos de locomogao/movimento. Dependendo do contexto, o sinal pode ser classificado como substantivo ou verbo, JA 0s verbos com concordancia flexionam em nimero, pessoa e aspecto. Segundo Felipe (2001), estes verbos podem também ser subdivididos em dois: os que possuem concordancia em numero e pessoa, classificadores (Cls) e os que concordam com a localizagao. O primeiro grupo traz 0 parametro orientagéo como destaque, j4 os segundo tém concordancia com a localizagdo e destaca-se o parametro ponto de articulagdo ou locagao, Nos classificadores evidencia-se o parametro configuragdo de mao, o que nao invalida o uso dos outros parametros. Em Libras, através dos fenémenos linguisticos, da sua complexidade e gramatica prépria, pode-se constatar que assim como as linguas orais, as linguas de sinais so naturais. Embora seja uma lingua articulada espacialmente, lugar em que so constituidos seus mecanismos fonolégicos, morfolégicos e sintaticos, certifica-se que as linguas de sinais sao icénicas e arbitrarias, e que as formas icénicas nao so universais. Trata-se, portanto, de uma lingua que possui os mesmos universos linguisticos das linguas orais, caracterizando a formagao dos sinais a partir dos ce) pagina, fonemas e morfemas. Percebe-se ainda, através da sua morfologia e sintaxe, o seu carter flexional, complexo e econémico na produgdo e articulagao das frases. Como afirma Brito (1998), a Libras é regida por principios gerais que a estruturam linguisticamente, permitindo aos seus usuarios 0 emprego da lingua em diferentes contextos, correspondendo as diversas fungées linguisticas que séo manifestadas na interagao no cotidiano Dessa forma, segundo as descrigées feitas sobre Libras, sobretudo as variagées e estruturas linguisticas, reitera seu status de lingua, um produto social em constante evolugao. © t LIBRAS COMO INSTRUMENTO DE INCLUSAO SOCIAL ‘Ao analisar 0 contexto histérico, percebe-se que as pessoas surdas nao tinham o direito de sua lingua, de sua cultura e identidade. Em grande parte da histéria dos surdos, seus educadores valorizavam a oralizagao das pessoas surdas, excluindo totalmente as linguas de sinais, acreditando que atrapalhasse o desenvolvimento social, cognitive, etc. Somente depois de séculos, percebeu-se que, com a oralizagéo apenas, os surdos saiam das escolas subeducados e limitados socialmente, tendo poucas habilidades e formagao de conceitos. A partir de 1971, uma nova filosofia de ensino comega a ser difundida entre aqueles que se preocupavam com a educagao dos surdos: comunicacao total por meio da qual os surdos novamente teriam maior chance de sucesso e avango em sua educagao. Analisando a data do estudo, nota-se que é muito recente o reconhecimento da comunidade surda no que se refere a sua lingua. No Brasil, a questao comegou a ser discutida a partir de 1990. Estudos de pesquisadores da drea e principalmente pesquisadores surdos vém salientando a importancia da lingua de sinais dentro do espago educacional, diferentemente dos educadores do passado, que aboliram 0 jeito de ser surdo. A aprovacao de leis que privilegiam a lingua de sinais aqui no Brasil como lingua oriunda das comunidades surdas acarretou o reconhecimento da sua cultura, identidade, além da regulamentagdo de profissionais intérpretes, etc. Trouxe, também, avangos significativos e, consequentemente, mudangas na rea da educagao especial e também na comunidade escolar. Com relagao a cultura surda, Strobel (2008, p. 22) explica que: Cultura surda é 0 jeito de o sujeto surdo entender 0 mundo e de modificé-lo a fim de se tornd-lo acessivel e habitével ajustando-os com as suas ercepeées visuais, que contribuem para a definigao das identidades surdas @ das ‘almas’ das comunidades surdas, Isto significa que abrange a lingua, as ideias, as crengas, os costumes e os habitos do povo surdo. A aprovagao da Libras como lingua nao foi somente um reconhecimento, mas também a abertura de oportunidades que a comunidade surda poderé usufruir no seu cotidiano. Isso porque essas mudangas causaram impacto ndo somente no contexto escolar, mas também na sociedade de um modo geral. n + A escola tem um papel fundamental para que a Libras possa ser difundida dentro da sociedade, principalmente quando houver alunos surdos dentro dos espagos educacionais. O que se ouve e se vé quando se tem alunos surdos dentro da escola? Na maioria das vezes, sao alunos surdos que nao tém contato com os demais alunos devido a falta de comunicagao. O contato reduz-se a intérpretes ou a algum aluno que saiba ou teve interesse de aproximar-se do surdo e, desse modo, aprendeu um pouco a lingua de sinais para se comunicar dentro da escola. Do mesmo modo que os ouvintes tém contato com a lingua matera desde o nascimento, a crianga surda também precisa ter contato com a lingua de sinais para sua aprendizagem e desenvolvimento social. Dai as varias fungdes que a intérprete, no raro, acaba tomando sobre si, pois os alunos surdos chegam as escolas néo sabendo a Libras. Dessa forma, além de transmitir informagao, a intérprete precisa ensinar a Libras. Strobel (2008, p. 17 e 26), em sua tese de doutorado, expde um pouco da histéria de como adquiriu a Libras como lingua materna e como os seus professores concebiam essa lingua: Eu era revoltada com a minha condigao de surdez, ndo aceitava a surdez achando que era castigo de Deus e me isolava, isto ocorria porque a escola oralista nao me permitia ter identidade surda, procurando fazer com que eu aprendesse e fosse igual 4s pessoas ouvintes minha mae ficou preocupada com a minha revolta e isolagao e ao se informar a respeito do povo surdo descobriu a existéncia de uma associagao de surdos e me levou lé quando eu tinha 15 anos. ‘Ao ter contato com a comunidade surda, o meu mundo abriu as portas e eu pude explorar e expandir para fora tudo o que estava insuportavelmente sufocado dentro de mim, Ll Quando eu comecei a frequentar a associagéo dos surdos, uma professora perguntou a minha mae “vocé val fazer sua filha desaprender a falar’, fico com né na minha garganta quando penso muito nisso. Pois esta mesma professora tinha uma irma surda que era muito reprimida sempre isolada em sua casa e com conflito de identidade e com uma fala dificil de compreender, acredita? Com estes tipos de pessoas eu aprendi_ um sentimento de que era preciso esconder de que sou surda, fingir e imitar os outros que ouvem ¢ isso me fazia ficar mais confusa. Esse depoimento demonstra que nao foi somente em um passado longinquo a proibigdo da Libras nos espagos escolares, a filosofia oral perdurou até um passado mais recente. Os surdos, pelo fato de nao terem sua diferenga cultural e de identidade respeitada, passaram por conflitos que os deixaram muitas vezes ct) Pagina transtornados, revoltados, reprimidos, e isso devido a obrigagao imposta pela escola e pela sociedade de serem “normais”. Dai surgiram esteredtipos de que o surdo & retardado, antisocial, que ndo possui educagao. Por causa de seus conflitos de identidade, 0 surdo passava a ser agressive com as pessoas, achando que era um castigo divino, reprimindo-se, isolando-se das pessoas, vendo-se como uma aberrago, por nao ouvir. Para que nao aconteca essa crise de identidade no meio escolar, é preciso ressaltar_ a importéncia de profissionais surdos (da drea pedagégica e/ou administrativa). Desse modo, os alunos surdos poderiam se identificar e desenvolver uma relagao mais préxima com esses profissionais, que falam em Libras de maneira bem estruturada. A interagdo do surdo somente com um ouvinte, para quem a Libras nao é sua primeira lingua, nao seria o suficiente, pois o ouvinte tem a Libras como uma segunda lingua para sua convivéncia social, enquanto que um surdo utiliza-a como a primeira E importante incluir nas discussées da escola a questo da Libras e da lingua Portuguesa. Quanto mais cedo for proporcionado 0 estudo da Libras e do portugués no espago escolar, melhor serd a comunicagao e a interagdo das pessoas em seu meio, de modo a entenderem e se fazerem entender. Vygotsky (1989), em seus estudos, j4 explicava que os surdos se desenvolvem como qualquer outro sujeito, porém por outros meios, e que é preciso respeitar essa diferenga, alertando o professor para essa peculiaridade e para as condigdes necessarias e mais especificas do ser surdo, Se uma crianga cega ou surda alcanga © mesmo desenvolvimento de uma crianga normal, entao as criangas com deficiéncia alcangam esse desenvol- vimento de um modo diferente, por outra via, com outros meios e para 0 pedagogo ¢ muito importante conhecer essa peculiaridade da via pela qual ele deve conduzir a crianga, A lei da transformagdo e da compensagao proporciona a chave para se chegar a essa peculiaridade. (VYGOTSKY, 1989, p. 07) Ao fazer essas observagées, entende-se que grande parte das estratégias de inclusdo escolar se limita & presenga de intérpretes em sala de aula (isso quando ha intérprete). Assim, questées comegaram a surgir, como: Por que sé 0 intérprete tem contato com os alunos surdos? E a interagao entre as pessoas dentro do espaco escolar, no acontece? Por que os profissionais da escola nao trabalham com a difusdo da Libras na comunidade escolar para uma inclusdo efetiva? Dai partem os ce) Pagina estudos e pesquisas para saber um pouco mais sobre a comunidade surda e qual a importancia da Libras na vida dessas pessoas. A escola como espago de democratizagéo e de busca de conhecimento deveria dar importancia ao ensino de Libras para os demais alunos e profissionais da comunidade escolar. E preciso um trabalho conjunto para que todos tenham acesso 4 comunicagao, principalmente os alunos surdos, que sao a minoria. E necessério discutir, nos espagos escolares, a importancia de aprender a lingua de sinais, tanto pelos alunos, quanto pelos professores e demais profissionais, para que a incluso dos alunos surdos efetive-se integralmente. © surdo tem uma maneira diferente de ver 0 mundo. Enquanto ouvintes aprendem os conceitos, comunicam-se, interagem com outras pessoas por meio da audigao, viséo e fala, os surdos aprendem pelo visual e gestual. O ouvinte, ao interagir com outro ouvinte pela lingua falada, pode apreender ao mesmo tempo varias outras coisas, isso por intermédio da audigao. Todavia, ao contrario do ouvinte, 0 surdo, pelo fato de sua lingua ser de modo visual, precisa focar-se somente em uma pessoa para que possa interagir. Conforme Strobel (2008, p. 59), “[os] sujeitos surdos veem o mundo de maneira diferente em alguns aspectos, Porque suas vidas sao diferentes por terem mais experiéncia visual e por estarem longe da experiéncia auditiva’. Strobel (2008, p. 13) sofreu exclusdo e por esse motivo pode descrever com propriedade o ser surdo e o sofrimento de viver numa sociedade que discrimina o surdo: “Ser surdo, ao longo da histéria, nao foi facil, foram feitas muitas injustigas atrozes contra nés, nao aceitavam o ‘diferente’ e nossas ‘diferengas”. Foucault (apud STROBEL, 2008, p. 13-14) explica como a sociedade afronta as diferentes culturas e: destaca graves problemas que a sociedade humana e as autoridades Piblicas afrontam com as diferentes culturas em seus territrios, os sujeitos diferentes so identificados e socialmente estereotipados e também se tende a generalizar as suas limitagdes e a minimizar as suas limitagdes e os seus potenciais, a diferenca esta téo presente e enfatizada para os que os. cercam que justifica os seus sucessos e fracassos nos seus alos & realizagées. Segundo Perlin e Miranda (2003, p. 217), ser surdo é “olhar a identidade surda dentro dos componentes que constituem as identidades essenciais com as 50 PaginadO

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