Breathe Me - Sia
Meu nome é Isabel Duarte. Eu nasci em um lugar pequeno, um desses onde as ruas são de
terra e a vida parece ter um ritmo que nunca muda. Minha família era simples, mas
amorosa, e minha mãe sempre dizia que eu era feita para algo maior. Desde que me
lembro, meu corpo era meu lar e minha arma; a forma como me movia, saltava,
equilibrava... tudo parecia natural, como se estivesse escrito no meu sangue.
Mas a mesma ambição que me movia era também um peso. Cada vez que alcançava algo,
sentia que não era suficiente. Não para eles, não para mim. Então, quando o circo chegou à
cidade, algo dentro de mim despertou. As luzes, as risadas, o som dos aplausos... Era
como se o destino me chamasse. Aos 16 anos, deixei tudo para trás e me juntei àquela vida
itinerante. No início, foi mágico. Aprendi a andar na corda bamba, a desafiar a gravidade, a
dançar com o vento. Lá, encontrei minha casa — ou pelo menos pensei que sim.
Foi no circo que conheci Helena. Ela era acrobata, dona de uma graça que parecia desafiar
o tempo. Seus movimentos eram poesia viva, e seu sorriso era minha única constante em
um mundo de mudanças. Helena me ensinou a acreditar no amor, algo que eu nunca havia
permitido a mim mesma. Nossos momentos juntas eram feitos de confidências sussurradas
sob as estrelas e promessas de um futuro que, no fundo, sabíamos que poderia nunca
chegar. Mas, por um tempo, fomos felizes. Ela era o meu equilíbrio.
Então Luciana chegou. Havia algo nela que não era deste mundo, algo hipnotizante e
perturbador ao mesmo tempo. Ela falava sobre poderes e rituais antigos, sobre como eu
poderia alcançar o 'equilíbrio perfeito', algo que nenhum outro artista havia conseguido. No
início, ignorei. Eu tinha Helena, e ela era tudo de que eu precisava. Mas as sementes da
dúvida foram plantadas. Luciana era persuasiva, e sua promessa de grandeza ecoava
minha ambição mais profunda. Eu queria ser mais. Mais do que o circo, mais do que a vida
simples que havia deixado para trás.
Helena tentou me avisar. “Não confie nela, Isabel. O que ela oferece tem um preço que
você não quer pagar.” Mas eu estava cega. Cega pela ideia de transcender, de ser algo que
nunca havia existido antes. Cega pelo medo de não ser suficiente, até mesmo para Helena.
Quando Luciana me falou sobre o ritual, hesitei. Mas então ela disse algo que me destruiu:
“Você nunca será a melhor enquanto estiver presa a alguém como ela.” Essas palavras
foram uma punhalada. Elas expuseram minha insegurança mais profunda, minha crença de
que o amor que eu sentia por Helena era também o que me segurava.
Naquela noite, eu escolhi. Eu escolhi o ritual. Helena me implorou para parar, mas eu já
estava tomada pela obsessão. O ritual foi... indescritível. Eu lembro da sensação de flutuar,
de estar presa entre a vida e a morte, como se minha alma estivesse sendo arrancada.
Quando tudo terminou, achei que tinha conseguido. Minhas habilidades estavam além do
que eu podia imaginar. Caminhava no ar, desafiava as leis da física. Meus movimentos não
eram apenas precisos; eram impossíveis.
Mas o preço... O preço foi Helena. Ela me deixou. “Você se perdeu, Isabel. Eu não
reconheço mais você.” Sua partida foi como uma corda rompendo. Eu não podia culpá-la.
Eu havia escolhido o poder em vez do amor, e essa escolha me condenou.
As sombras começaram a surgir pouco depois. Primeiro, eram só sussurros. Depois, eram
visões. Uma realidade distorcida, onde o circo que eu amava era um pesadelo vivo. Os
outros artistas começaram a mudar também. Eles não viam, mas estavam sendo
consumidos, corrompidos por algo que eu havia trazido para dentro de nossas vidas.
E então veio a ruína. O Iluminado usou o que restava de nós para um ritual ainda mais
sombrio. As sombras tomaram o circo, e agora ele é uma prisão de pesadelos, um lugar
onde as risadas foram substituídas por gritos.
Eu me culpo. Não importa o que os outros digam … a culpa é minha. Eu fui a primeira a
acreditar no ritual, a trazer essa maldição para nós. E agora, tudo o que faço é tentar
equilibrar. Não apenas na corda, mas entre o real e o irreal. Entre a culpa e a redenção.
Sei que desfazer isso vai exigir mais de mim do que tenho. Talvez eu não sobreviva. Talvez
já não esteja realmente viva. Mas, se eu puder salvar o circo, talvez, só talvez, eu possa
encontrar um pouco de paz. Mesmo que minha alma esteja perdida para sempre, talvez eu
possa devolver as luzes e as risadas que roubei. Talvez, em algum lugar, Helena também
veja isso. Talvez ela saiba que, no fundo, tudo que fiz foi por querer ser digna do amor que
um dia ela me deu.