Clinch
Clinch
Ninguém.
ALEMANHA, BERLIM.
Eu odiava o ar de superioridade que aquele velho tinha sobre todos que cumprimentava. Na
verdade, eu percebia a cada dia que se passava que não se tratava de laços de sangue para
uma pessoa se tornar o que era. Algumas até se formavam através do dinheiro e a ganância
em possuir cada vez mais riqueza, assim como meu pai.
Todos o conheciam como Senhor Byun, o melhor negociador de ações, já eu o conhecia como
um pai ausente que aparecia de vez em quando na minha vida apenas para jogar na minha
cara, o quanto eu necessitava me tornar a cópia do que ele idealizava ser um filho.
Nunca me importei com suas palavras, nunca fiz questão de engolir seus argumentos inválidos.
Eu vivia as coisas do meu jeito, não do tipo de adolescente cheio de piercings e tatuagens pelo
corpo, o máximo que eu havia chegado disso foi aos quinze anos quanto tentei furar a orelha
pela primeira vez. Porém, ao sentir o quanto a ação era dolorosa, acabei desistindo e cheguei a
conclusão de que minha personalidade passava longe disso, me fazendo ser totalmente
incapaz de me aproximar de objetos cortantes.
E cá estou, aos dezessete anos sendo obrigado a acompanhar meu pai até um dos locais onde
o viciado em apostas fizera questão de me levar de limusine.
Era perturbador a forma como os olhares dos invejosos nos julgaram quando o motorista abriu
a porta do automóvel para que nós finalmente descêssemos. Inúmeros flashes nos seguiram
durante toda a subida das escadas para aquele grande estádio. O acontecimento seria
grandioso, sendo também presenciado por várias celebridades famosas.
Tentei esconder minha expressão séria e entediante, puxando a toca da blusa de moletom da
nuca, minha timidez unida com minha personalidade anti-social não era um atributo
respeitável.
Mesmo com pouca vontade, acompanhei o velho que me olhava torto de canto,
provavelmente amaldiçoando os deuses por ter um filho que não escolhia roupas formais para
ir a um evento como aquele. Desculpa, pai! Mas para começo de conversa estar em um lugar
cheio de homens cheirando a suor e ambição, não estava nos meus planos e ir me buscar no
colégio dizendo que eu seria obrigado a acompanhá-lo não significava que eu aceitaria vestir o
terno que havia me comprado. Não mesmo, sem chances!
Quando finalmente chegamos ao palco principal, deparei-me com muitas cadeiras alinhadas,
muitas delas sem ninguém por conta do show de briguinhas não ter começado. Algumas
garotas com pele demais á mostra desfilavam pelo ambiente com bandejas em mãos,
mostrando serem garçonetes e a grande maioria deixando transparecer que se sujeitariam a
coisas mais íntimas com os velhos empresários que as olhavam com segundas intenções.
Depois de sermos guiados até o número que estava marcado nos ingressos, sentei-me na
cadeira bufando impaciente. Meu pai atrapalhou a conversa com um colega de trabalho ao seu
lado e me olhou para me advertir:
― Pare com esses suspiros irritantes, qualquer garoto da sua idade adoraria estar no seu lugar,
moleque.
É lógico que ele havia tentado dizer aquilo o mais baixo possível para que os outros de sua
gangue de ricos não acabassem reparando que o cara mais influenciado que fazia negócios
com suas empresas, na verdade tinha um filho problemático.
― Ah, claro! Faz todo sentido trocar uma televisão e o conforto de um sofá pra vir nesse pátio
asqueroso cheio de velhos e bebidas que custa um mês de salário.
Meu pai forçou os olhos, buscando algo em sua carteira. Jogou uma boa quantia de dinheiro
em meu colo e disse:
Resmunguei em resposta e guardei o dinheiro em meu bolso, prometendo pra mim mesmo
que daria aquele resto de papel a algum mendigo que encontrasse na rua.
Resmunguei em resposta e guardei o dinheiro em meu bolso, prometendo pra mim mesmo
que daria aquele resto de papel a algum mendigo que encontrasse na rua.
O que tentei fazer no tempo que ainda havia me restado longe de meu pai se resumia a tentar
fugir daquele lugar o mais rápido que eu conseguisse, antes que o inferno começasse, e bem,
não tive muito sucesso quando meu corpo miúdo bateu contra o peitoral de um dos
seguranças que estava próximo. Senhor Byun e seus planinhos sujos!
Por fim, voltei para meu acento, coloquei os fones de ouvido, liguei a playlist de meu celular e
deixei que Nothing Without Love de Nate Ruess me afogasse em solidão e arrependimento em
modo repetitivo.
Arrependia-me de ter nascido sendo julgado como um felizardo pelos pobres, mesmo sabendo
que quando meus olhos se encontravam com o espelho, eu era apenas o Byun Baekhyun, um
garoto sem graça que apenas conhecia o caminho de casa para o colégio e a ida até a praça
para onde eu fugia diariamente para desenhar. O único rabisco imperfeito que eu ainda insistia
em esboçar era de continuar enganando a todos, com um sorriso bobo no rosto de que eu
estava satisfeito por carregar aquele sobrenome.
Conforme os pensamentos vagos me tomavam, não havia percebido que o tempo estava
correndo e que minhas chances de fugir daquele local, tinham se espatifado pelo ar quando
percebi que todos os acentos estavam lotados e os torcedores gritavam o nome de alguém. A
multidão estava agitada, as mesas já se encontravam todas cheias com copos vazios de bebida
alcoólica e os que ainda se encontravam cheios, eram brindados por alguns admiradores do
nome a ser rugido em alto e bom som.
Retirei um dos fones do ouvido e os gritos aglomerados ressoaram em minha audição. "Park
Chanyeol" era o que eles gritavam. E eu me perguntei do que o dono daquele nome era capaz
de fazer para conseguir mobilizar tantos homens daquela forma. Só consegui entender seu
poder de hipnose quando o árbitro surgiu no meio do ringue, tirando a atenção de todos para
anunciar o lutador que logo estaria junto ao inimigo que o esperava com os olhos pegando
fogo.
Primeiro ele detalhou com magnitude o americano que estava ali especialmente para brigar
com Park Chanyeol, deixando claro que este estava determinado a conseguir tirar o posto de
melhor lutador da Alemanha que o Park possuía. Só então, apresentou com orgulho e
imponência o boxeador que encantava o mundo com seus golpes sorrateiros e suas estratégias
incomparáveis.
Sem entender qualquer palavra, ignorei o árbitro e voltei a colocar os fones no ouvido, sentido
a melancólica música roubar minha atenção e pensamento. Eu não queria estar ali, me
perguntava o motivo de precisar estar se tudo emanava ser o contrário de minha quietude. E
em questão de minutos, observei os olhares se virarem para a entrada, concentrados no rapaz
que surgiu assim que o árbitro se retirou do palco.
Da onde eu estava, o máximo que conseguia enxergar era uma bandeira alemã em suas costas,
sendo carregada e erguida ao alto, me deixando notar a presença de tatuagens que envolviam
todo o braço malhado do boxeador. O cabelo parecia bagunçado, cachos indefinidos de
coloração vermelho sangue.
Só consegui contemplar a aparência inteira quando o lutador por fim, subiu no ringue e se
agachou para passar por debaixo das cordas. Depois que assim fez, ficou ereto e deu alguns
pulinhos, concentrando-se em si mesmo a fim de se preparar para a luta que estava a ponto de
começar.
Continuei com a música servindo como trilha sonora de cada movimento que o lutador fazia, e
não posso negar que meus olhos não conseguiam se desviar do corpo magro lotado com
marcas de golpes e os desenhos que julguei serem perfeitos, como se já pertencessem à pele
do rapaz. E eu amava desenhos, e aqueles eram incríveis.
Ele balançou os ombros, exercitando os músculos. Meu olhar passeou por cada minúcia, cada
veia saltada de seus braços, por cada detalhe do que todos denominavam como Chanyeol: o
boxeador extraordinário. E só parei quando me deparei com os olhos marcantes, delineados
com lápis preto e borrado em suas laterais.
Sua expressão estava totalmente concentrada no adversário, sempre sério como se tivesse
perto o suficiente para fazê-lo voar ringue a fora e próximo o suficiente de eliminar o
adversário do convencimento apenas com um golpe quando bem entendesse. Seu ego, eu
podia senti-lo me atingir mesmo distante.
Meu pai se sentou ao meu lado e me cutucou. O encarei e imaginei que ele havia dito algo
como:
Bufei e o respondi:
― Ninguém.
Ele me olhou irritado e saiu para compartilhar sua aposta com os funcionários. E eu fiquei lá,
em meu acento ouvindo Nate Ruess e sua voz caótica, torcendo para o meu ninguém.
Voltei a assistir o que acontecia no palco e por alguns minutos insuportáveis, presenciei
bundas e micro-biquínis passearem pelo ringue levando em mãos uma placa com a contagem
para o início da luta.
Chanyeol estava sentado na cadeira e olhava para as próprias mãos enquanto as enfaixava
como se dependesse apenas delas para viver. E eu não via aquilo como uma vida, quer dizer,
lutar para ser sempre e continuamente o centro das atenções, deixando de perceber que ao
redor inúmeros desconhecidos apostavam em sua capacidade em troca de um troféu que
acabaria empoeirando em algum canto de seu quarto, um tremendo desperdício!
A luta começou assim que o apresentador saiu do campo de visão dos boxeadores e o alvoroço
dos torcedores ao meu lado, aumentou. Rodearam o ringue um pouco antes de o inimigo dar
um murro de direita e Chanyeol, desviar. Socos, golpes certeiros e outros nem tanto. Eu me
impressionava com o quanto a respiração falha e o olhar atento de Chanyeol conseguia com
maestria se livrar de todas as táticas rápidas de seu oponente com um sorriso competidor nos
lábios e as luvas de boxe nas mãos como aliadas.
Já no segundo round, não deixei de expressar minha surpresa quando Chanyeol pegou o
inimigo e o encurralou no chão, cruzando as longas pernas sobre a cabeça do americano e
puxando um dos seus braços para cima, fazendo com que este ficasse cada vez mais sem ar. Os
segundos estavam cada vez mais dolorosos para o oponente, percebia que seu rosto estava
vermelho demais e Chanyeol tinha uma expressão de não desistir tão cedo. O americano sem
chances de continuar com a tentativa de escape, bateu a mão livre contra o chão por três
vezes seguidas, dando assim, a vitória para Park Chanyeol, este que se levantou triunfante e
teve o braço erguido pelo árbitro que anunciava que ele era o ganhador de mais uma luta de
boxe.
Senti meu coração desacelerar, percebendo que tinha ficado extremamente alterado mesmo
sem intenção, e que a luta não havia sido totalmente sem graça assim.
Os que haviam apostado no Park ergueram as mãos e alguns se abraçaram com um sorriso
ganancioso no rosto, pois naquela noite voltariam um pouco mais ricos para suas residências.
Suspirei aliviado acreditando que a ideia de meu pai havia acabado com o final da luta, porém,
fui surpreendido de novo quando este me arrastou até os bastidores do ringue. Lá, me deixou
em um canto e tivemos que esperar até que a conferência com o vencedor terminasse.
Não era apenas na luta que Chanyeol era bom, ele sabia driblar muitas perguntas também. Os
repórteres não paravam um minuto com as questões e quando se orgulhavam por tocar em
algum assunto pessoal da vida do lutador, sentiam-se totalmente presunçosos, mas sempre
eram respondidos com um sorriso simples e a transparência que o rapaz tentava passar.
Todos riram e um repórter baixinho levantou a mão para que pudesse também questioná-lo.
― Você confirma os vários rumores de que vai abandonar o ringue, pois estaria com uma
doença incurável?
Chanyeol pressionou os olhos e engoliu seco, se mostrando incomodado com a pergunta.
Aproximou-se do microfone e respondeu:
― Sabe... as pessoas não deveriam acreditar em tudo que escrevem em jornais ou na internet,
a mídia adora inventar mentiras. E tem mais uma coisa, um lutador só abandona o ringue de
vez, quando a morte o vence.
Todos aplaudiram e Park e seu agente saíram de queixo erguido do local. Antes que este fosse
para seu dormitório, observei o agente apertar a mão estendida de meu pai e perguntar quem
ele era.
Depois de algum tempo, o Senhor Byun me chamou para que os acompanhasse, e assim,
fomos recebidos por Chanyeol e seu agente. Encostei-me um pouco distante dos homens mais
velhos e apenas observei-os de longe.
― Este é meu filho! ― Meu pai apontou em minha direção e senti todos os olhares da sala
posar sobre meu corpo pequeno. ― Ele é o herdeiro da minha empresa, não costuma aparecer
muito na mídia porque ainda estou o treinando.
Ri mentalmente de sua teoria, afinal, eu não considerava suas ações como um treinamento,
mas sim como um veneno que afasta insetos impotentes.
― O fato é que ele precisa aprender a ser um homem viril e eu não conheço outro coreano
que ao mesmo tempo lute tão bem e que saiba falar nossa língua nativa, como você.
Eu estava louco ou meus olhos captaram um sorriso de lado em Chanyeol? Eu queria dizer que
estava, mas não!
― O quê? ― comentei ainda afastado, percebendo que todos voltaram a me olhar ― Pai, você
está louco?
O Senhor Byun fechou os olhos pacientemente tentando manter a calma e não me deu
atenção.
Senti-me totalmente sem vestes quando me julgaram. Meu rosto não estava intacto como era
antes, um dos meus olhos estava inchado e rodeado com uma mancha de tom púrpura,
provando que eu havia recebido alguns socos há poucos dias atrás. Havendo ainda um
pequeno machucado no final de minha sobrancelha e sangue restante no canto de minha
boca.
― Acho que dá para entender o motivo ― o lutador disse ―, ele parece um idiota.
O fitei irritado com uma enorme vontade de jogar qualquer objeto que encontrasse pela
frente, mirando diretamente em seu rosto perfeito para que ele soubesse que eu não seria o
único machucado ali. Porém, ao me lembrar que ele era uma figura bastante conhecida,
escolhi ficar quieto no meu canto apenas protestando em pensamento.
O homem que estava ao lado de Chanyeol, passou a mão no queixo e pensou mais um pouco
antes de dizer:
― Sentimos muito, mas treinar outra pessoa está fora de cogitação. Chanyeol tem a agenda
lotada demais para cuidar de seu...
Bufei e me virei de costas para que não fosse obrigado a encarar aquele cara irritante de voz
beirando a arrogância.
Meu pai se levantou e foi até eles para entregar-lhes um pequeno papel. Segundos depois ouvi
o lutador assoviar e dizer:
― Eu não gosto de me misturar com adolescentes de hoje em dia, eles são complicados
demais.
Não era como se ele fosse tão velho assim, afinal. Vinte e poucos anos não faz dele um
profissional em soluções.
Rangi os dentes e cruzei os braços, ainda de costas para aqueles que pareciam me tratar como
um objeto de aposta. Só faltava meu pai se levantar e perguntar "Quem dá mais?"! E ele o fez,
mas apenas se levantou mesmo para levar outro papel ao lutador. Virei-me para poder
entender sua reação e observei Chanyeol entortar os lábios. Ele olhou para meu pai e
novamente para o papel.
O Senhor Byun nada disse, apenas abaixou a cabeça e veio ao meu encontro para me puxar
para fora daquele lugar.
― Ei! Espere! ― Ouvimos Chanyeol dizer antes de meu pai abrir a porta para sairmos. ― Eu
ainda não o respondi.
― Já sei o que vai dizer. ― meu pai disse ao lutador ― Vai dizer que não quer treinar um
garoto problemático independente da quantia. Você é o cara pelo qual todos apostam suas
vidas, conheço pessoas como você ― Sorriu sarcástico. ― e está escrito na sua cara que está
apenas se divertindo enquanto eu insisto em tentar negociar o meu filho.
Olhei para meu pai e não sabia se concordava com sua afirmação ou se a reprovava por ele
estar me rebaixando naquela situação.
― Mas ― Destacou. ―, eu vou exigir apenas metade disso. ― Levantou o papel e sorriu
simplista.
― Eu não sei o motivo pelo qual não aceita o valor inteiro, mas se assim deseja, então ―
Entregou o papel para o lutador. ― assim será!
Chanyeol sorriu e guardou o papel no bolso antes de se levantar da cadeira e vir ao nosso
encontro.
― Eu não me importo tanto assim com o dinheiro, digamos que esse valor servirá apenas de
contrato entre nós.
Passou por mim e antes de se afastar, colocou um pequeno papel em meu bolso, bateu em
meu ombro com uma das mãos e sussurrou com sua voz rouca em meu ouvido:
― Amanhã, às sete horas nesse endereço, esteja preparado. ― Apontou-me o dedo indicador.
― E, ah! Nada de fones de ouvido, entendeu?
Arregalei os olhos e quando ameacei respondê-lo que não iria fazer as vontades de meu pai,
observei o rapaz de fios avermelhados e a parte de cima do corpo ainda de fora, caminhar com
seus dorsos arqueados e as luvas vermelhas de boxe jogadas sobre as costas, para longe de
toda minha aura que pulsava em discordância.
Prometi a mim mesmo que não permitiria que ele obtivesse posse sobre mim com aquele
acordo. Park Chanyeol podia ser o melhor lutador do universo que eu jamais apostaria que ele
conseguiria me fazer uma ovelha de suas selvagerias. Jamais!
Capítulo 2
Fazendo acordos.
À força, às 06:00 da manhã me jogaram para dentro do carro. Obviamente que não parei de
me debater e tentar fugir nem por um segundo dentro daquele automóvel. Eu estava
sentindo-me nervoso com a expressão rude de meu pai sentado na minha frente, virado o
tempo inteiro em minha direção e com um sorriso irônico de lado, como se ele fosse a pessoa
mais calma do mundo, se divertindo com minha desgraça.
Meus olhos ainda inchados e profundos por conta da noite mal dormida se misturavam com a
púrpura dos socos que havia recebido no dia anterior. Meus fios negros estavam todos
bagunçados e meu moletom azul escuro surrado era acompanhado por minha calça jeans
preta que eu insistia em usar.
O Senhor Byun analisou meu estilo como um jurado profissional, me repreendendo apenas
com o olhar.
― Isso é o que você considera como apresentável? ― Riu debochado com o dedo indicador
batendo contra sua própria barba bem feita.
Bufei impaciente e deixei que apenas os suspiros altos servissem como resposta suficiente
para o passeio indesejado de minha parte.
Chegamos a um grande salão que tinha os dizeres "CTBA - Centro de Treinamento de Boxe da
Alemanha" escritos em três línguas diferentes: alemão, inglês e coreano. As pontas da placa
estavam todas acobertadas de vermelho e ferrugem.
O motorista abriu a porta ao meu lado e pediu educadamente que eu saísse. Fingi não tê-lo
escutado e meu pai me olhou torto.
― Astuto rebelde, saía de uma vez! ― Me empurrou para fora do automóvel e eu apenas o fiz
para segundos depois tentar sair correndo como um trapaceiro inteligente. No entanto,
quando consegui me afastar do veículo, senti meu corpo ser colidido contra outro bem mais
alto e firme que o meu.
Levantei o olhar e deparei-me com o lutador me fitando com um sorriso simplista nos lábios.
Diferente de quando o vi pela primeira vez, ele possuía mais piercings que o normal, já que na
luta, provavelmente não fosse permitido usar aqueles acessórios metálicos. O piercing em sua
narina e no lábio inferior era o que mais me irritavam visualmente. Por sorte minha, ele estava
mais vestido também.
Chanyeol levantou uma sacola até minha visão e a chacoalhou de um lado para outro.
Revirei os olhos e quando ousei driblá-lo e continuar com minha fuga, o Senhor Byun se
aproximou de nós dois, com aquele aspecto de pouca humildade e colocou uma de suas mãos
sobre meu ombro, apertando-me para que eu não o fizesse passar nenhuma vergonha.
― Ele pode ser um pouco difícil no começo, mas... é um bom garoto. ― Bagunçou meu cabelo
e eu o lancei uma expressão insatisfeita.
― Não se preocupe, Senhor Byun, nada nesse mundo é tão difícil a ponto de ser impossível. ―
Sorriu e fitou-me com o olhar competidor no qual tinha habilidade.
Eu apenas desejava gritar àquele lutador de quase dois metros de altura, que eu não era mais
uma de suas lutas no ringue. Eu era apenas alguém que tentava buscar não ser o centro das
atenções o tempo inteiro, que desejava ser apenas o Baekhyun, não o herdeiro de toda a
carreira financeira que meu pai havia construído como um império.
O lutador convidou para que entrássemos com ele no enorme salão, lancei um olhar suplicante
ao meu pai para que ele desistisse daquela ideia enquanto ainda havia tempo, porém, ele me
ignorou e começou a acompanhar o lutador. Enquanto Chanyeol abria o portão e o barulho
irritante de ferro velho ecoava pelo ar, meu pai me puxou pelo braço e sussurrou:
― Não faça essa cara, você está parecendo aquelas crianças mimadas que fazem birra pra ir ao
dentista.
O encarei.
― Olhe pra esse lugar ― Apontei com a cabeça para a rua vazia e abandonada em que
estávamos com apenas o local onde o boxeador treinava, como moradia. ―, acha mesmo que
um dentista pode ser comparado com um lugar onde seus dentes são todos quebrados? ― Ri
falso.
O Senhor Byun, impaciente, me arrastou pelo braço até o salão e lá dentro me surpreendi com
o espaço largo, os inúmeros pôsteres de lutadores famosos estavam colados na parede, a
cama era simples e bem forrada, havia outro colchão fino encostado no canto e no centro, o
ringue pequeno era o ponto mais chamativo.
― É bem... ― Meu pai fez uma expressão de desdém, tentando buscar uma palavra que
traduzisse aquela surpresa.
― Obrigado! ― Chanyeol disse sorrindo ― Não é tão moderno, mas faz milagres.
O rapaz lotado de tatuagens até o pescoço se aproximou do ringue, passou os dedos pelas
cordas e percebi o quanto ele achava mágico cada pedacinho daquele lugar. Ao contrário de
mim, no qual a única magia que havia em minha vida havia se perdido com o tempo.
Eu sabia, mas jamais entenderia o que ele estava sentindo naquele momento, eu era apenas
um vazio de emoções. Quanto mais eu conseguia distinguir admiração e felicidade nos olhos
alheios, percebia o quanto necessitava de pelo menos um pedacinho dessa motivação sobre o
mundo. E eu considerava a minha realidade em que vivia, completamente uma amplidão oca
cercada por muros de impossibilidades.
Chanyeol puxou duas cadeiras e pediu que nos sentássemos. Meu pai negou com a cabeça,
dizendo que não podia ficar, pois tinha um compromisso a comparecer. Bem óbvio vindo da
parte dele, é claro!
Senhor Byun apertou a mão do lutador e se despediu de mim, batendo de leve em minhas
costas. Eu esperei que todos os que me seguravam de fugir dali, estivessem longe o suficiente
e procurei por alguma outra saída daquele salão, porém, não encontrei sequer alguma janela
próxima para que eu tentasse pular, todas estavam altas demais para servirem como
cúmplices, a única saída daquele lugar era por onde eu tinha entrado, no qual Chanyeol se
encontrava despedindo-se do meu pai.
Suspirei profundamente e sem ter o que fazer, subi no ringue, passando por debaixo das
cordas até chegar ao espaço central onde o lutador treinava. Havia dois pares de luvas em
cima das cordas que me rodeavam, ri sarcástico pensando que Chanyeol havia as deixado ali
na intenção de me ensinar a lutar, o que eu devo destacar que ele não conseguiria fazer tão
facilmente.
Enquanto meus olhos julgavam o local, ri quando me deparei com um pôster do Rocky Balboa
na parede. Um tanto quanto óbvio, devo ressaltar.
Chanyeol surgiu ao meu lado, assustando-me com aquela voz grave que possuía.
― Qual o problema? Um bom lutador não pode ser fã de um bom filme como esse?
― Gostos são indiscutíveis. ― Apoiei os cotovelos sobre as cordas, ficando com as costas
arqueadas enquanto observava os outros pôsteres colados na parede.
Chanyeol se aproximou da minha lateral e encostou as costas nas cordas, fitando o lado
contrário de onde eu estava. Conforme cruzava os braços no peito, afirmou:
Concentrei-me apenas no rosto de Sugar Ray Robinson e Mike Tyson na parede, ignorando-o
completamente.
Concentrei-me apenas no rosto de Sugar Ray Robinson e Mike Tyson na parede, ignorando-o
completamente.
Concentrei-me apenas no rosto de Sugar Ray Robinson e Mike Tyson na parede, ignorando-o
completamente.
Continuei em silêncio.
― Seu pai até pode ser um ótimo ator, mas seus olhos não mentem. Você não quer estar aqui,
certo?
Será que ele esperava que eu o parabenizasse ou batesse palmas por ter descoberto algo
histórico? Ah, por favor!
― Gosto da sua sinceridade. ― Riu sozinho. ― É tão nítido que você consegue dizer milhões
de coisas apenas com esse olhar de garoto mimado. Tem sorte, seu pai tem muita paciência
com você.
Bufei, recebendo aquela teoria mais como uma piada do que um julgamento.
― Mas eu não sou seu pai, portanto, se quiser pular essas cordas e sair correndo por aquela
porta ― Apontou para onde eu havia entrado. ―, fique à vontade! Prometo não correr atrás
de você ou ligar pro seu pai para contar sobre sua fuga.
O fitei, surpreso.
Fiquei pensativo por alguns segundos, suspirei fundo e abri a boca para respondê-lo, apontei o
dedo indicador em seu rosto, o deixando curioso para saber com o que eu iria rebatê-lo,
porém, corri de sua vista antes disso, dando um salto alto sobre as cordas apesar da altura
mediana e parei com êxito no chão, em pé, para continuar com minha escapatória até a porta
daquele salão.
Ouvi Chanyeol rir e gritar de longe algo como "Você seria um ótimo concorrente a medalha de
ouro em salto ornamental."
Idiota! Eu não era adepto a ser submisso a ninguém, e não seria aquela situação que me faria
mudar de ideia.
Depois de entrar em minha casa ― pulando o muro para pegar minha mochila ― sem que
ninguém da mansão onde eu moro percebesse, passei a manhã e a tarde inteira fazendo meus
desenhos enquanto estava sentado próximo a uma árvore, no meio de uma praça no qual eu
costumava ficar.
Os únicos rabiscos que havia conseguido colocar no papel eram de duas luvas uma ao lado da
outra, de alguns pôsteres que ficaram gravados em minha mente e dos olhos intensos do
lutador. Pisquei rápido, me dando conta de que estava pensando demais nas coisas que o
rodeavam. Peguei os desenhos e os amassei entre os dedos, jogando-os em uma lixeira
qualquer.
Quando percebi que o horário da escola se aproximava, joguei a mochila nas costas e caminhei
em direção onde ficava o colégio frequentado apenas por estrangeiros, este no qual eu
estudava.
Em passos lerdos, consegui finalmente chegar até o local, mas antes de entrar no ambiente
escolar, senti meu corpo ser jogado contra o gramado e meu material se espalhar pelo chão
instantaneamente com a colisão recebida.
― E aí, bichinha, como está seu olho? Ainda roxo? Se quiser podemos realçar a cor dele pra
você. ― O garoto passou o punho fechado na outra mão e os dois outros cúmplices que o
acompanhavam, sorriram da piada sem graça.
Mesmo com dificuldade, levantei-me, bati as mãos contra os joelhos retirando algumas
sujeiras grudadas em minha roupa e quando me direcionei para juntar meu material, o maior
deles, que supria uma insistente irritação por minha pessoa ― este que era nomeado como Oh
Sehun ―, se aproximou de meu corpo e deu um chute em minha perna direita.
Grunhi de dor, caindo de volta ao chão e passei uma das mãos sobre minha perna,
pressentindo a dor se aprofundar em meus ossos.
― Não importa o que eu quero, você continua sendo uma bichinha de merda que acha que só
porque tem um papai ricaço, é melhor que todos nós.
Os colegas ao lado do agressor concordaram com cada palavra que ele dizia. Um bando de
cachorrinhos obedientes!
Dei uma risada falsa, deixando que esta ecoasse conforme alguns alunos passavam por entre
nós quatro e não surpreendia com a cena do filho do Senhor Byun estar apanhando de um
grupo de bandidinhos.
― Foda-se o que vocês acham de mim ou do meu pai. ― Aumentei minha voz, fitando-os
dessa vez. ― Querem me bater? Ótimo! Vão em frente, seus imundos.
O garoto alto de fios negros e expressão impotente gritou para que os colegas começassem
com os golpes, e assim o fizeram. Murros, socos, chutes, cuspes. Meu corpo ficava cada vez
mais dolorido, minhas pernas já não tinham forças para correr e eu me encolhi em defesa.
Os segundos pareciam uma eternidade. Passei meu olhar rapidamente por debaixo daqueles
agressores e o que consegui detectar do outro lado da calçada, fora uma moto preta
estacionada, com um rapaz de vestes de couro, olhando diretamente em minha direção. O
capacete que o motoqueiro usava não me ajudava no reconhecimento daquele homem
misterioso que me olhava tão profundamente, como se tentasse ler minha mente. No entanto,
quando observei seu pescoço e dedos lotados de tatuagens coloridas, consegui descobrir com
veracidade de quem se tratava aquele curioso.
Tratava-se de Chanyeol.
Foi difícil dormir naquela noite com os olhares do lutador vindo em meu pensamento a cada
vez que eu me virava na cama, à procura de sono.
Na manhã seguinte, acordei com o sangue seco no canto de minha boca, a perna direita ainda
dolorida e os gritos de meu pai na porta de meu quarto, dizendo-me para me levantar que eu
tinha que ir ao treino de luta novamente.
Assim que meu pai se deparou com meu rosto novamente marcado de arranhões e com
sangue, ele me virou para si e começou a gritar que eu era um filho fraco, que não conseguia
nem ao menos dar algum orgulho para ele. Eu o perguntei qual era a novidade naquela
conclusão e ele nada disse, apenas resmungou alguns sermões e saiu antes de me dizer que
me aprontasse logo, pois o motorista estaria me esperando.
A cena que meus olhos presenciaram não poderia me ter feito reagir de forma diferente a não
ser, ficar de queixo caído e olhos arregalados. Bem á minha frente, Chanyeol ― o mesmo
lutador que os repórteres perguntavam quando iria se casar ― estava apertando outro
homem praticamente de seu tamanho, mas de fios loiros, que enfiava a língua na boca do
boxeador com gosto, sendo retribuído pelo beijo feroz.
Tossi para que pausassem as carícias íntimas e percebessem que havia uma presença nova no
local. Quando Chanyeol ouviu-me, me olhou surpreso, assustado com o que eu tinha acabado
de assistir.
O loiro que anteriormente beijava o lutador, o olhou como se o questionasse o que deveria
dizer, já que eu poderia estar muito bem com algo ao meu favor dali pra frente.
Chanyeol passou a mão sobre a testa, retirando alguns fios colados com o suor.
― Eu, intrometido? Fala sério, Chanyeol. Ontem era você mesmo quem estava querendo
modificar meu lado fraco para me transformar num touro em busca de um pano vermelho. E
olhe só pra você ― O julguei com o olhar. ―, cadê toda a virilidade que meu pai te julga,
possuir? Deve estar na boca desse loiro ridículo.
O companheiro do lutador me olhou desafiador e veio em minha direção, pronto para me dar
alguns socos, o que eu estava começando a me acostumar, aliás.
― Não faça isso, Kris! Não vale a pena. ― Chanyeol segurou o loiro pelo braço e o repreendeu
com o olhar.
― Olhe pra esse idiota ― O loiro me apontou. ―, ele se acha muito alto para dizer esses
absurdos.
Chanyeol deu um beijo em sua bochecha, pegou a blusa do tal Kris que estava em cima das
cordas e bateu a veste contra o peito deste, antes de dizer:
― Vá embora, deixa que eu resolvo isso com esse pestinha. ― Sorriu.
Kris passou por mim e deixou que seu ombro se chocasse contra o meu numa ação nada
educada. Afinal, qual era o problema desses costumes desrespeitosos? Só maiores de um
metro e setenta podiam fazer isso? Idiotas!
― Byun, o que está fazendo aqui? ― perguntou calmo, cruzando os braços e me encarando.
― Como se você viesse aqui pra treinar, fala sério, Baekhyun! Por que não fugiu, como sempre
costuma fazer?
― O motorista do meu pai ficou de olho em mim até que eu entrasse. E além do mais, o que
estava fazendo ontem no meu colégio? Como descobriu que eu estudo lá? Você me seguiu?
O boxeador respirou fundo, se afastou e quando pensei em exigir que me respondesse, ele
soltou um fio que estava preso em um prego na parede, liberando assim, um saco de pancadas
do teto que caiu no meio e ficou balançando de um lado para outro.
― Faça de conta que esse heavy bag é aquele cara de porta que te bateu ontem no colégio.
― Me obrigue!
― Se não fizer isso, continuará apanhando todos os dias até que por fim, ele consiga te
mandar para um hospital.
― Foda-se! Eu não me importo. Eu não quero bater em ninguém, isso não levaria a nada
mesmo.
Chanyeol apertou os olhos, ainda me fitando. Cruzou os braços e deu um golpe contra o saco
de pancadas.
― Isso não se trata de aprender a bater nas pessoas, mas sim, a se defender delas. A vida é
assim, Baekhyun, uma luta o tempo inteiro. Mesmo você não sabendo como usar seus punhos,
ela te obriga a enfrentar seus inimigos.
O lutador riu.
― Você só pode estar zoando comigo, não é, garoto? ― Desmanchou o sorriso e ficou sério. ―
Isso não se trata do que você quer. E se prefere assim, sabe o seu futuro como vai ser? Você
não terá, porque estará morto antes disso.
Silêncio.
― Um mês. Treine comigo durante um mês e pode vir aqui quando bem entender, até mesmo
matar aula. Eu prometo não contar nada ao seu pai.
― Não.
― Mas esse seu namorado, como vou saber que ele não estará aqui se agarrando com você?
― Ele quase nunca vem aqui, sou eu quem o visito. Aliás, ficar calado sobre esse assunto
engloba no acordo também, entendeu?
― Livre e pronto para se defender de qualquer pessoa que tentar se intrometer no seu
caminho.
O lutador sorriu claramente vitorioso. Mal sabia o boxeador que uma nova luta estaria
começando. Aturar Baekhyun não é uma tarefa fácil. Boa sorte, Chanyeol!
Capítulo 3
A toda velocidade.
Chanyeol estava jogado em sua cama, comendo alguns biscoitos quando eu resolvi sair do
banheiro vestindo a roupa ridícula que ele tinha me dado. Minha expressão não era uma das
mais felizes. Torci o lábio ao ver que com a claridade do lugar, aquele estilo tinha ficado ainda
mais lamentável em meu corpo.
Eu tinha um par de luvas azuis em ambas as mãos e um daqueles calções especiais para
lutadores, ou também, conhecido como a parte mais vergonhosa do boxe, e por fim, meu
peitoral de fora tomava o ar gelado com descontentamento.
Com o olhar curioso, ele alcançou minha presença de pé em sua direção e praticamente se
engasgou com o que viu.
Ele continuou rindo, jogando o corpo para o lado enquanto se segurava na barriga.
— Você quem escolheu essa merda e agora vem fazer piadinha interna com meu visual?
— Mais respeito com seu mestre. Nada de idiota ou palavreados como merda, ouviu?
Bufei.
Chanyeol piscou rápido, tentando buscar por alguma desculpa esfarrapada para se safar.
— Eu já disse que odeio brigar com adolescentes chatinhos. Agora comece com seu
treinamento e me deixe comer esses biscoitos em paz.
— Se eu soubesse como fazer isso — eu disse —, faria em casa, nem precisaria acordar cedo
pra vir pra cá, sabe?
Chanyeol desviou o olhar e riu de canto. Ainda continuava colocando aquelas porcarias de
biscoitos na boca e eu lá, com fome. Mais injusto do que isso, só se ele me dissesse que eu
teria que treinar sozinho.
— Não fique preocupado, é só ir até o heavy bag e dar uns socos, não tem segredo.
Pisquei rápido e olhei ao meu redor tentando planejar uma fuga de última hora.
— Eu tranquei a porta, se é isso que está pensando em fazer.
Droga!
— Acordos são acordos, certo? — comentou Chanyeol, erguendo uma das sobrancelhas
enquanto colocava mais um biscoito na boca.
Na verdade, o que se seguiu depois disso não foram momentos que eu me orgulho muito em
lembrar. Não eram tão legais na prática os mesmos golpes que eu via em filmes de luta na
televisão, pelo contrário, acabou me causando um rosto todo suado, uma barriga reclamando
de fome e até mesmo, inúmeras vezes que bati em meu próprio rosto na tentativa de acertar o
saco de pancadas.
Suspirei fundo ao ouvir sua risada ecoar pelo salão. Fechei meus olhos e bati minha testa sobre
o saco de pancadas, refletindo comigo todas as possibilidades de matá-lo sem deixar pistas, ou
então, o modo mais fácil de fazer isso sem que eu acabasse sendo espancado antes.
Desmanchei minha posição anterior, ergui minhas mãos até minha visão e quando ameacei
tirar a luva direita para assim seguir para a outra, percebi Chanyeol encostar ao lado do heavy
bag e chamar minha atenção.
O fitei, aborrecido.
Eu tinha o chamado para uma nova luta de filosofias, sabia muito bem disso, pois o lutador
bufou impaciente.
— É aí que você se engana. Que tipo de futuro pretende ter, se não enfrentar seus medos?
Desviei meu olhar para as luvas, pois era a única moradia de meu acanhamento naquele
momento. Não gostava de falar sobre meus assuntos pessoais com ninguém, gostava de
guardá-los apenas para mim, era o suficiente para uma pessoa só suportar tantas mágoas. Por
que eu deveria compartilhá-las com um desconhecido?
— Ele só... isso não tem nada haver com a aula. — Insisti.
— Tem sim, o chute de direita dele é lamentável, só um treinador tão bom quanto eu para
ensiná-lo como é que faz. — Riu soprado. — Nunca seja como aquele cara.
Suspirei alto.
— Qual o problema em enfrentá-lo? Ele te bate, Baekhyun, quer honra mais manchada do que
essa?
Ele ficou em silêncio, como se não entendesse a piada e eu aproveitei a deixa para fitá-lo com
seriedade.
— Não existe honra na época do ensino médio, Chanyeol. Saber lutar no mínimo vai me fazer
levar uma advertência no colégio. Essa é a realidade, entende? Não é como na televisão que
todo mundo levanta, aplaude e pede por mais uma rodada. O meu caso se trata de quem tem
os pais mais influentes.
— Eu estou sendo pago para te ensinar boxe e é isso que eu vou fazer — apenas disse, antes
de sair de minha visão e caminhar até um armário distante.
— Ei? — O chamei e ele continuou de costas. — Que tipo de ensinamento é esse que você fica
deitado enquanto ri de mim?
Chanyeol voltou alguns segundos depois com uma montanha de livros em mãos e alguns
DVD's no topo destes. E antes que eu o questionasse algo, ele encostou os itens em meu
peitoral, forçando-me a carregá-los.
— Leve isso, assista, leia e decore os nomes dos golpes. Tem três dias de folga apenas para
estudo.
— Mas meu pai não vai acreditar em mim quando eu disser isso, vai achar que eu estou dando
uma desculpa para não frequentar as aulas.
Arregalei os olhos.
— Estudar aqui?
Na realidade, todos! Eu odeio estudar perto das pessoas, tanto que adotei aquela praça para
desenhar para justamente passar um tempo sozinho com meus rabiscos imperfeitos.
— Nenhum, mas...
— Então está combinado. — Me cortou, batendo as mãos uma na outra, me assustando com o
barulho.
— Você... — Engoli seco.
Chanyeol me fitou.
— Eu o que?
Abaixei o olhar.
Ele riu baixinho e caminhou até sua cama, pegou o saco de biscoitos e jogou contra mim.
Minha ótima mira fez com que eu pegasse o pacote no ar.
— Uau! Mostrando mais um de seus talentos natos. Parabéns pela rápida percepção. — Sorriu
e jogou seu corpo novamente na cama, puxando um livro da cabeceira para ler, desviando de
minha atenção.
Naquela tarde eu desenhei mais do que os olhos de Chanyeol, eu desenhei também, seus
dentes perfeitamente modulando um sorriso. E isso não era um sinal positivo, afinal, eram nos
conselhos do lutador que eu deveria estar prestando atenção, não em sua aparência.
No quinto dia de treinamento, eu fiquei gabando minha facilidade em decorar tudo que havia
estudado ao calado lutador que tinha como professor. Ele não me parabenizou
demasiadamente nem agiu de forma estranha diferente dos outros dois dias, apenas me olhou
por alguns breves segundos e disse que eu só estava fazendo o meu dever.
Eu me sentia cada vez mais vítima daquela situação. Anteriormente, quando não tinha certa
curiosidade — que estava me possuindo mais do que deveria —, vê-lo desinteressado poderia
ser visto por mim como lucro, porém, ele tinha dito com todas as palavras que iria me ensinar
a lutar, sendo que agora estava ali, quieto no seu canto, me observando apenas quando eu
não me mostrava interessado nele.
Ouvi um barulhinho de mensagem e até pensei que fosse o meu celular, mas eu era anti-social
demais para esse tipo de coisa, no máximo recebia mensagens de operadoras de telefone,
alegando suas melhoras ofertas.
Ele sorriu de lado e eu não entendi porque senti um aperto de curiosidade me incomodar.
Franzi o cenho e me levantei ao vê-lo vestir uma jaqueta que encontrou no armário e retirar
um molho de chaves de lá.
Ele passou por mim e entrou no banheiro, só respondeu depois de ter escovado os dentes.
— Ele não é meu namorado e só é brigão quando se trata de curiosos, o que você está se
mostrando ser até demais ultimamente.
Sorri falso.
— Ainda temos alguns dias pela frente pra você conseguir se livrar de mim. E eu não vou me
encontrar com ele. Quer saber? — Passou a mão sobre o queixo, pensativo. — Por que não
deixa sua vidinha monótona só por hoje e vem comigo pra um lugar incrível?
— Depende do lugar que pretende ir, ainda não confio o suficiente em você.
Pensei comigo, o que eu tinha a perder? Já estava lotado de hematomas e roxos pelo corpo,
fora que minha perna ainda estava dolorida, se fosse para acabar com mais alguns arranhões,
que fosse com a desculpa de que o causador delas havia sido Chanyeol.
Depois de pegar o capacete extra que o lutador possuía, seguimos com sua moto pelas ruas da
cidade e diferente do que eu imaginava, ele não era tão infrator no trânsito quanto sua feição
forte e assustadora aparentava ser.
Era estranho ter que colocar meus braços sobre sua cintura, portanto, optei por agarrar a
parte de trás de sua jaqueta de couro, tentando equilibrar em meu próprio peso durante o
caminho.
Assim que Chanyeol estacionou a moto em um lugar totalmente longe da cidade, onde o chão
era infestado por terra, eu notei que em nossa frente, inúmeros motoqueiros reunidos
estavam em um tipo de encontro. Alguns até velhos demais para aquele tipo de hobbie, outros
se mostrando estar ali apenas para vangloriar a marca de seus automóveis.
— Olhe para minha roupa! Acha mesmo que esse lugar inundado na poeira e roupas de couro
cheirando a mofo combina com esse meu uniforme de estudante?
O lutador desceu da moto e virou em minha direção, me encarando enquanto retirava seu
capacete.
— Mas o que o mocinho esperava? Um restaurante de rico? Se eu contasse, certeza que você
não viria.
— Só duas horas, eu te peço só isso, o.k.? Você vai gostar, vamos lá! — Suplicou.
— Mas... se eles verem meu uniforme vão perceber na hora que estou matando aula para
estar aqui, não quero fazer papel de ridículo.
Chanyeol bufou, pensou por um tempo e antes que eu relutasse contra o lutador retirou sua
jaqueta e me apontou a veste.
— Você reclama demais. Coloque isso por cima da sua camiseta de estudante corretinho.
Ele não sorriu. Impaciente, puxei a jaqueta de suas mãos. Além de seus raros momentos de
sorrisos, naquele dia, eu ainda ficaria com seu cheiro em minha memória. Se isso poderia
piorar? Seria melhor nem pensar muito para não acabar dando ideia.
Chanyeol me apresentou alguns de seus amigos naquele dia, e á todos insistia em dizer que eu
era como um aprendiz de seus conhecimentos no boxe, fazendo com que eles se admirassem
pelo lutador estar naquele nível de profissionalismo. Enquanto eu, em meu canto, achava que
o nome daquilo na verdade era babaquice.
— Tem dois minutos pra me dar um motivo para não ir embora, nem que pra isso, eu tenha
que ir a pé. — Sussurrei a Chanyeol, enquanto estávamos encostados em sua moto e rodeados
por seus amigos.
— E você tem um segundo pra fechar essa boquinha e se responsabilizar pela decisão em me
acompanhar até aqui.
Ergui meu corpo para conseguir alcançar a audição de Chanyeol, afinal, sua altura não ajudava
muito nos cochichos.
— Eu tenho algo ao meu favor. Você não me disse para onde nós iríamos, lembra?
Ele me fitou, deixando a atenção da conversa dos amigos para me aborrecer com suas palavras
de discórdia.
Antes de abrir a boca, um jovem moreno e mais baixo que o lutador, surgiu ao meu lado e
colocou a mão sobre meus ombros.
— Oh! Desculpe se me confundi. Então quer se tornar o meu ficante, gracinha? — Levantou
ambas as sobrancelhas com um sorriso nada inocente nos lábios.
— Qual seu problema, Kai? — Outro rapaz surgiu ao nosso lado, batendo a mão contra a
cabeça do que há pouco tempo, me importunava, fazendo com que este grunhisse de dor.
— Brincadeira é o caramba, agora vê se desencosta dele — respondeu com voz firme, irritado
com a cena que tinha presenciado e o rapaz obedeceu no mesmo instante.
Pisquei sem graça e Chanyeol ao meu lado estava rindo como um louco.
— Oi, garoto? — Me apontou a mão para que eu a apertasse. — Meu nome é Kyungsoo, e o
seu?
Apresentei-me e o rapaz de fios negros puxou o outro de madeixas róseas para seu lado, o
fazendo abraçá-lo à força.
— Esse — Apontou para o que estava abraçando-o. —, é o Kai. É um cachorro, mas não morde,
só late mesmo.
— Justamente por isso, porque são namorados. — Piscou pra mim, se levantou da moto e
colocou o capacete.
— Para onde vai? — o questionei preocupado, já estava me sentindo isolado demais para
perder o único acompanhante de volta para a minha casa.
— Correr. — Explicou.
O lutador montou na moto, acelerou por alguns minutos, fazendo com que o barulho se
misturasse á tantos outros que nos rodeavam. Deixando poeira para trás e um Baekhyun
tossindo horrores por conta do pó, Chanyeol seguiu com sua moto na marcação.
Chanyeol me fitou.
— Com certeza essas pessoas têm mais jeito pra corrida do que você. Vi como anda de moto
na cidade e parece um amador.
O encarei.
— Se eu vencer, você terá que enfrentar o tal do Sehun, independente se com palavras ou
murros, vai ter que ao menos tentar.
— E se você perder?
Bufei alto.
— Eu preciso saber quais são as opções, se você perder o que eu ganho com isso?
Torci os lábios. Eu estava tentado a aceitar, afinal, acordar cedo para espancar um heavy-
alguma-coisa-assim ou ler inúmeros nomes em inglês sobre golpes com o poço sem fundo que
era aquele tema, estavam me causando mais canseira que o normal, fazendo-me até, dormir
nas aulas, coisa que eu não costumava fazer. Não com tanta frequência.
O boxeador levantou a mão e apontou para o pico de uma colina alguns metros de distância de
onde estávamos.
— Subimos até o alto, depois voltamos e paramos exatamente aqui. — Desceu com a mão na
marcação branca onde sua moto estava parada.
Chanyeol sorriu largo e mesmo com o capacete pude perceber seu lado irônico.
Forcei meus olhos, o encarando. Antes de rebater, o técnico da partida mandou que todos se
preparassem e foi então que eu corri para longe de Chanyeol ou acabaria comendo poeira que
os motores das motos soltaram pelo ar.
Ao lado de Kyungsoo, assisti uma moça levantar a bandeira alemã para cima e segundos
depois, abaixá-la, causando um barulho ensurdecedor. Todas as motos aceleraram e deram
início a corrida, indo em direção ao pico com toda adrenalina presa nos pneus. Eu estava louco
ou o nervosismo acabou roubando espaço entre minhas veias? Era divertido assistir, eu tinha
que admitir.
— O seu namorado?
— É ele. — Completou.
Fitei o vazio, pensativo. Eu tinha feito uma aposta antes mesmo de saber qual era sua fama
como motoqueiro, bem espertalhão da minha parte.
Era como aquele velho ditado dizia: não adianta chorar pelo leite derramado, aliás, eu também
derramaria muito do meu sangue assim que tentasse enfrentar Oh Sehun. Eu conseguia
visualizar exatamente o azar que eu acabaria tendo.
— Essa não! — Kyungsoo de repente pareceu preocupado enquanto mirava para o lado oposto
de nós.
— O que foi? — Olhei para a mesma direção que seus olhos apontavam e vi outra moto se
aproximar em alta velocidade.
— Quem é ele?
— E como! — Me cutucou. — Olhe pra ele, como sempre interrompendo a corrida, adora
chegar atrasado e o filho da mãe ainda fica em segundo lugar.
Kyungsoo me fitou.
— Ele não vem aqui pelo primeiro lugar, ele vem aqui por Chanyeol, entende?
Engoli seco. Acho que entendia até demais. Depois da última cena que presenciei dos dois
juntos, era meio impossível não entender.
— Eles têm uma história bastante complicada juntos, é melhor não perguntar isso á ele. Se
bem que da forma como conheço aquele orelhudo, ele não é do tipo que conta as coisas assim
tão facilmente. Acredita que até hoje não admite que tenha um caso com o Kris? — Sorriu. —
Kris é que adora se gabar disso pra gente.
Kyungsoo colocou uma de suas mãos no meu ombro, forçando intimidade comigo.
— O quanto você quer para tirar a sua mão do meu ombro? — O fitei, aborrecido e ele riu de
minha provocação.
Suspirei baixo
— Nem eu sei. — Eu sabia sim, o motivo tinha nome, sobrenome e era dono de muito dinheiro
e influência sobre os empresários, mas eu também o chamava de pai nas horas vagas.
A poeira aumentou quando um barulho de moto se aproximou de todos os torcedores que
estavam à espera do vencedor. E quando este se aproximou freando bruscamente a moto
exatamente na linha branca e as pessoas comemoraram sua vitória, minha admiração
aumentou.
Chanyeol retirou o capacete e deu um sorriso sarcástico em minha direção, satisfeito por ter
me enganado certinho. Eu estava bem fodido!
Depois de receber as felicitações dos outros colegas enquanto me fuzilava com aqueles olhos
marcados pelo lápis preto e um sorriso pretensioso acompanhado do metal no lábio inferior,
Chanyeol correu em minha direção.
— Idiota!
— Lembro é o caralho, por que não me avisou que sempre fica em primeiro lugar?
— Você prometeu.
— O que eu não entendo? A falta de razão de ele bater num cara como você? — comentou,
irônico — É, eu realmente nunca vou entender.
— O que eu não entendo? A falta de razão de ele bater num cara como você? — comentou,
irônico — É, eu realmente nunca vou entender.
Sua voz tinha um tom de indignação enrustida, me fazendo sentir totalmente sem saída.
— Num cara como eu? Você quis dizer num playboyzinho que não é bom em nada, a não ser
em apanhar, é isso que quer dizer, não é? — O confrontei.
— Merda, Baekhyun! — Jogou o capacete que tinha em mãos ao lado de meus pés, irritado. —
Você é... olhe pra si mesmo, é jovem, tem tanta coisa pela frente e ta' se deixando levar por
um idiota em meio a inúmeras pessoas que tem problemas como você, mas ainda assim,
acorda todo dia querendo resolvê-los.
Minhas mãos soavam, estavam formadas até em punho com aquelas palavras que eu era
obrigado a ouvir vindo como facas recém afiadas em meu peito, diretamente da boca do
lutador.
— É exatamente por causa disso que eu não os enfrento, não quero ser como uma presa
provocando um predador, entende?
Chanyeol bufou e me fitou com aquele olhar que eu havia assistido quando enfrentou seu
concorrente na primeira luta que presenciei. Eu temia aqueles olhos, pareciam me inundar em
perguntas que talvez, até ele não saberia me responder.
— Você não é uma presa, Baek. Sabe qual a diferença entre animais e humanos? Animais
agem por instinto, por sobrevivência. Já seres humanos faz o que fazem por pura crueldade.
Sehun não merece a força que tem, um verdadeiro lutador sabe de seus limites e nunca, nunca
usa sua força a favor de sua raiva, mas sim, como modo de defesa. E sim, é diferente!
— A minha grande curiosidade é porque alguém que mesmo no começo tenha se mostrado
desinteressado em luta e agora talvez tenha se surpreendido, se destrói dessa forma quando
poderia estar aprendendo?
Continuei calado, sem saber como reagir ao que tinha ouvido anteriormente.
— O que esse anão está fazendo aqui? Crianças são proibidas em corridas, sabe muito bem
disso.
Chanyeol riu.
— Se fosse assim, você também não estaria aqui. — O provoquei, sem me importar que minha
voz tivesse saído mais arrogante que o normal.
Kris desceu o olhar para a jaqueta que eu estava vestindo e ficou sério, provavelmente
reconhecendo a quem aquela roupa pertencia. Retirou o braço do ombro que apertava
Chanyeol e saiu de perto deste, em silêncio.
— Pode, por favor... me levar pra casa? — Pedi segurando Chanyeol pelo pulso antes que ele
saísse atrás do outro. — Depois você discute com seu namoradinho, eu só... preciso ir resolver
umas coisas.
O boxeador olhou para Kris que se afastava de nós e depois para mim.
— O.k.! Vou me despedir do Kai e do Kyungsoo e você espera aqui, ta' bem?
Concordei com a cabeça e de longe, o assisti se despedir de inúmeros colegas que gritavam
pelo seu nome o relembrando da última luta que havia vencido no ringue. Acenei de longe
para Kyungsoo que me olhou com um sorriso e quando observei Chanyeol tentar beijar Kris,
percebi que este foi ignorado, não tendo outra opção a não ser voltar para minha direção.
No dia seguinte, o lutador me mandou uma mensagem avisando que o treino pela manhã
estava cancelado e eu só fui entender sua pretensão quando na entrada do colégio, avistei na
calçada do outro lado, o boxeador em sua moto estacionada, á minha espera.
— O que está fazendo aqui? — o questionei assim que me aproximei de sua moto, no qual
todos os adolescentes babavam de longe. A sorte era que ele estava de capacete ou então,
inúmeros fãs estariam o rodeando naquele instante.
O bati no ombro.
— Está vendo? — Me apontou. — Você me bateu e se fizer isso com Sehun, só que mil vezes
mais forte, já será um grande avanço, Baekhyun. — Zombou.
— Escuta, Baek!
O fitei novamente.
— Tem dois minutos. Eu permitirei que Sehun faça e diga o que ele bem entender a você
durante esse tempo, depois disso, eu prometo te salvar.
Chanyeol bagunçou meu cabelo, fazendo com que os fios negros se misturassem.
— Eu prometo. Cento e vinte segundos, pode contar nos dedos. — Me fitou com um sorriso
simples.
Eu não sei bem como tomei coragem para fazer aquilo, só sei que quando vi já estava
atravessando a rua com o peito estufado, como se tivesse indo para a guerra e quando virei
para trás em busca do olhar apaziguador de Chanyeol, ele sorriu para mim e era como se
realmente eu estivesse indo em busca da minha morte.
Avistei Sehun e seus colegas de longe. Preparei minha melhor voz — no qual os hormônios não
me ajudavam muito — e fui rumo á minha inexistente sorte. Quando cheguei perto o
suficiente, cutuquei Oh Sehun no ombro e ele se virou para mim, me olhando como se eu
fosse uma formiguinha tentando chamar a atenção de um elefante.
— Veio me lembrar que preciso te bater hoje, Baek? Aliás, faltou ontem por que, hen? Está
fugindo dos meus socos?
Encarei o chão, não tinha outra opção além da grama verde abaixo do ser imprestável que eu
era.
— Eu quero te fazer uma pergunta. — Finalmente uma frase inteira sem gaguejar, talvez, os
incentivos de Chanyeol estivessem me ajudando em algo.
— Sorte a sua que estou de bom humor, vamos lá, manda ver!
Pisquei rápido, respirando com dificuldade. Eu precisava fazer aquilo, não podia fugir para
sempre. Chanyeol tinha razão, aquilo não se tratava de dinheiro, se tratava de mágoas do
passado, de uma declaração para aquele que um dia eu nem imaginaria que acabaria se
tornando a razão dos roxos pelo meu corpo. Sim, eu conhecia Sehun, mas não aquele que
estava parado na minha frente, eu conhecia um Sehun meigo e carinhoso, a melhor e a pior
lembrança de meu passado remoto.
Eu levantei meus olhos, diretamente acertando os de Sehun. Há tanto tempo eu não fazia
aquilo que meu corpo inteiro chegou a tremer quando o fiz. Sehun também pareceu surpreso,
era como se tivesse visto algo que tinha se esquecido de como era. Meus olhos nos seus.
Ele parecia perdido nas palavras que eu ousava dizer. Eu também estava um pouco.
Seus colegas estavam todos calados, se entreolhando como se tivessem ouvindo absurdos. E
estavam, com toda razão. Eu tinha ainda mais absurdos para vomitar em cima de Oh Sehun,
porém, ainda conseguia segurar minha boca por mais alguns segundos. Por favor, Chanyeol,
me diga que já fora ao menos um minuto, eu estou me sentindo como se estivesse em um
precipício.
Tinha minuto, tinha segundo, tinha ainda mais a raiva me fisgando com tanta naturalidade que
só senti meu corpo cair ao chão com o golpe que Sehun deu em meu rosto. Quando meu
corpo incidiu, segurei na grama e a apartei, pronto para fazer algo que nunca tinha feito antes.
Levantei-me.
— Ta' brincando comigo? — Sehun riu alto. — Agora resolveu me enfrentar, fracote? Acha
mesmo que é capaz de me vencer? Eu não sou gay, até parece que gostaria de alguém como
você.
Sorri de lado.
— COVARDE! — Gritei.
Foi o suficiente para que Sehun grunhisse, pronto para lançar seu punho direto em meu rosto,
mas sua mão pausou sobre o ar, mais especificamente falando, sendo impedido por Chanyeol.
— E aí, senhores?
Não respondi, e talvez quando desviei o olhar, ele tenha encarado aquilo como um "sim".
— Qual é mesmo seu nome? Oh Sebabaca? Oh Seimbecil? Não importa! — Bateu a mão sobre
o ar, impedindo Sehun de responder e eu me segurei para não rir da atitude. — Seus chutes
são muito ruins, Baekhyun ficou com a perna doendo no máximo uns dias, sabe do que eu sou
capaz?
Sehun engoliu seco, recebendo as últimas palavras do boxeador como uma ameaça.
— Eu já quebrei a perna de um cara numa luta amadora, e sério, ele nunca mais desejou ouvir
meu nome novamente.
Sim! Os colegas de Sehun saíram correndo em disparada para dentro do colégio, abandonando
seu líder e sua expressão amedrontada para trás, abalados pela voz firme de ordem que
Chanyeol tinha mesmo sem saber de qual presença se tratava aquele rapaz com capacete. Se
descobrissem, claramente sairiam ainda mais aterrorizados.
Sehun estalou a língua, colocou as mãos dentro do bolso e caminhou diretamente para o
colégio, com o queixo erguido depois de me fitar com aquele olhar infeliz de sempre. Aquele
olhar cheio de palavras que seu lado fraco, tentava esconder a todo custo das outras pessoas.
Depois de assistir as costas de Sehun sumir entre outros estudantes, Chanyeol me puxou pelo
braço, me fazendo levantar ás pressas. Pegou minha mochila e me levou até sua moto, onde
retirou seu próprio capacete e me entregou.
— Eu não trouxe um reserva hoje, não sabia que acabaria te raptando.
— É claro que tem. Eu sou seu professor de boxe, lembra? — Sorriu de lado e subiu na moto,
ignorando quando eu o chamava para protestar sua decisão sem meu consentimento.
A única coisa que se seguiu após isso fora Chanyeol acelerando sua moto enquanto meus
pensamentos estavam preenchidos com tudo que Sehun tinha me dito minutos atrás. Tantas
coisas em poucas palavras que eu me perguntava como diminuí-las em minha mente, em
como me fazer mais forte que aqueles sentimentos ainda persistentes em mim.
Eu continuava com meus dedos segurando a aponta da jaqueta de Chanyeol, sem tocá-lo com
intensidade. E foi durante o caminho, que com a cabeça abaixada, eu percebi que as lágrimas
acabaram me pegando de surpresa e quando reparei, já estava aos soluços.
O boxeador percebendo que eu estava aos prantos, estacionou a moto e fez algo que eu
jamais imaginaria que alguém um dia, faria. Colocou os braços para trás e puxou minhas mãos
até sua cintura, fazendo-me ficar abraçado com suas costas. Eu não protestei, não ousei voltar
à posição anterior, naquele momento, me permiti sentir o significado de proteção, do calor de
seu corpo, de alguém para recorrer, em um alguém para me apoiar.
Quando Chanyeol ligou novamente a moto, percebi que além desta, algo também estava veloz
em meu peito. E eu me perguntei em menos de cento e vinte segundos, se um coração
também seria capaz de passar do limite de velocidade.
Capítulo 4
Em toda minha vida, nunca me senti tão frágil como se fosse quebrar, passando horas e
horas chorando. Chanyeol teve que me suportar, é claro. A única coisa que ele conseguiu fazer
com seu jeito desengonçado e quieto, foi tentar me acalmar me dando água e mais tarde,
preparando-me um chá bem quente.
O boxeador me entregou a caneca com o chá e sentou-se em uma cadeira em direção a cama,
esta no qual eu estava praticamente deitado.
— Pronto, parou de chorar? — Fitou meus olhos inchados e avermelhados, enquanto eu ainda
tentava conter os soluços.
— Não é como se o mundo fosse acabar, Baekhyun. Ele só... ele é um porra, entende?
— O cacete que é!
— Baek? — Suspirou fundo e eu continuei o encarando enquanto tomava alguns goles de chá.
— Vocês já tiveram algo? Digo... algum tipo de relacionamento?
— Me responda. — persistiu — Eu ouvi quando você disse que gostava dele. Sehun não te
olhou com raiva nos olhos igual meus adversários me olham quando estou lutando, aquele
olhar foi diferente. Ele parecia...
— Gostou? Não estou falando de passado, estou me referindo ao presente. Ele ainda gosta de
você, é óbvio.
— Ele me soca praticamente todo dia, fazer isso é gostar de alguém? Todos dizem que o amor
machuca, mas eles não queriam dizer no sentido literal da palavra.
Chanyeol não respondeu, ficou em silêncio, sabendo que eu estava certo. Levantou-se e voltou
minutos depois com uma toalha molhada e quente em mãos, e antes de encostar o pano em
minha testa, protestei.
— Não agora. — disse, colocando a toalha em minha testa e eu acabei deitando para que o
pano não acabasse caindo.
— Eu vou ligar para o seu pai, é melhor que durma aqui hoje.
Arregalei os olhos e quando ameacei me levantar para fugir, Chanyeol segurou meus braços
sobre a cama, me fuzilando com o olhar.
— Prefere ser baleado com mil e uma perguntas por ele, depois?
— Acha mesmo que eu deixarei você dormir na única cama que possuo? O ringue seria uma
ótima opção, o que acha?
A canseira por fim, acabou me vencendo e quando menos esperava já tinha me entregado a
sonolência, mesmo que aquele colchão não fosse um dos melhores. E o que eu sonhei não fora
exatamente algo que minha mente criou, mas sim, com uma mistura absurda de lembranças
que eu desejava apagar. Uma lembrança com gosto de primeiro beijo.
Eu tinha apenas cinco anos quando o conheci. Ele era um menino tímido, calado e só sorria
quando sua mãe o perguntava se queria comida. Os cabelos pretos eram rasos, seus lábios
eram onde eu sempre fiz questão de reparar.
Naquele tempo, eu não entendia muita coisa e sempre achei que sua curiosidade simbolizava
as coisas comuns da vida, como a dúvida de qual profissão escolher ou um gosto musical que
ele insistia em dizer ser alternativo. Porém, Sehun nunca ficou confuso com essas pequenas
coisas e eu só fui descobrir do que se referia quando no meu aniversário de quatorze anos, ele
me beijou assim que o relógio deu meia-noite. Foi ali, no meu quarto, que entendi que sua
maturidade era mais clara que a minha e que o derrotou na curiosidade. No começo, eu dizia a
mim mesmo que o fato de Sehun ter me pedido para que aquele fosse nosso segredo, fosse
apenas uma brincadeira de adolescentes descobrindo o próprio corpo, mas não foi bem assim
quando meus pais se separaram e tudo mudou. Especificamente falando, eu tive que me
mudar para a Alemanha ás ordens do meu pai.
Combinamos de nos encontrar para colocar a fuga em ação numa tarde de domingo, porém, o
que me deparei foi com meu pai de malas prontas, a minha espera. Eu não tive tempo de me
despedir da minha mãe e nem de gritar com Sehun por ter me incitado falsas esperanças de
ser alguém melhor. Eu continuei sendo eu mesmo, o garoto que foi obrigado a crescer na
Alemanha, torcendo para acabar não perdendo meu rastro asiático com tantas influências de
diferentes países naquele colégio internacional. Torci para que Sehun não estivesse sofrendo
como eu estava, pois doía demais.
Eu só fui descobrir que ele estava bem quando minha professora de filosofia apresentou um
aluno novo para a sala. Oh Sehun estudaria na mesma sala que a minha.
A expressão de seriedade e as mãos dentro do bolso fora o suficiente para conseguir rápida
admiração de todas as garotas do colégio e formar um grupo mais parecido com uma gangue,
do que com um ciclo de amizades que o perseguia durante o intervalo.
Eu não olhei em seus olhos desde então, seus punhos estavam sempre em meu rosto e eu não
sabia exatamente o motivo para sair roxo de suas provocações.
Que Sehun tinha se transformado no mais valentão do colégio era óbvio, mas já a fama de
mulherengo foi realmente uma surpresa para mim.
Sehun se tornou uma mentira ambulante, sem qualquer resíduo de felicidade que eu
presenciava em nossa infância quando eu implicava dizendo-o que suas bochechas eram
adoráveis. Ele se tornou vazio enquanto eu me tornei alguém lotado de memórias.
Algo gelado tocou minha bochecha e só quando abri os olhos com dificuldade que observei
Chanyeol agachado, ao lado da cama, encostando uma lata em minha pele enquanto ria de
minha reação incomodada.
— Para com isso! — Bati a mão no meu rosto e ela relou em algo molhado. — Mas... o que é
isso?
— Café gelado. Diretamente do mercado, sem riscos de morte se caso eu tentasse fazer seu
café da manhã. — Sorriu e antes que eu o respondesse, o lutador colocou inúmeros pacotes de
salgadinho ao lado do meu travesseiro. — Pra acompanhar o café.
Ri da quantia exagerada.
— Pra que tudo isso? Eu tenho cara de quem come mais de cinco pacotes de salgadinho?
— Eu não sei do que adolescentes da sua idade gostam, então resolvi trazer todos os sabores
que tinham lá.
Sorri de lado e apertei meu rosto no travesseiro, me espreguiçando. Com pouco esforço me
levantei e ouvi Chanyeol rir, ainda me fitando.
O fitei confuso e só entendi a piadinha quando me olhei no espelho e vi meus fios negros
apontando para todos os lados. Corri até o banheiro para tentar me ajeitar, amaldiçoando
Chanyeol ao ouvi-lo rir sem parar.
— Achou mesmo que iria ficar apenas se matando sozinho no heavy bag? — Sorriu largo. —
Você ainda tem muito que sofrer.
Engoli seco e o boxeador se aproximou de mim para dividir o espelho comigo. Abriu um
pequeno pote e retirou seu piercing de lá, colocando-o sobre os lábios sem se importar com
minha presença que o assistia.
— Um o que?
— Um piercing. — Apontou para o acessório metálico. — Você vive olhando pro meu, ou isso é
inveja ou vontade reprimida de experimentar como é... — Pausou para sorrir — beijar alguém
com um.
Eu ainda estava o admirando quando suas palavras atingiram-me. Imitei uma risada tosca e ele
se virou para mim, me fitando cheio de si.
— Qual a graça? Você não fala coreano? Se quiser, posso falar em alemão.
— Responda, Baek!
— Ta' bom. — pausei e quando me virei, irritado, deparei com o lutador apenas alguns
centímetros próximo de mim — Eu já quis colocar um, mas essas coisas não combinam com
alguém como eu, entende?
— Eu também era sem graça antes das tatuagens e dos furos. Olhe pra mim agora, sou muito
gostoso.
— Você é muito chato, sabia disso? — Me encarou, batendo a mão de leve contra meu peito.
— Ás vezes dá vontade de riscar com canetinha essa sua pele... bonitinha, só pra te tirar da
mesmice.
— Mais famoso e não se esquece do lindo também. Agora se me der licença — Me empurrou
de leve para o lado. —, eu preciso trocar essa roupa de dono de casa para o de corrida com o
aprendiz sem graça.
O boxeador saiu minutos depois vestido com uma calça de algodão e uma regata mais larga
que as roupas que costumava usar. Depois de muita insistência, conseguiu me convencer a
correr pelas ruas abandonadas daquele bairro, em plena cinco horas da manhã.
— Chanyeol... eu... não.... aguento... mais. — Comentei, praticamente sem ar enquanto
corríamos no meio da rua.
— Não faz nem dez minutos que começamos a correr, não seja dramático.
Tentei buscar respirar com calma, mas era um pouco complicado quando o sedentarismo era
maior que os exercícios necessários para ser um boxeador em forma.
Ele sorriu largo, virou o corpo na direção contrária da minha e me fitou, correndo de costas.
— Vê isso? Um ótimo atleta consegue ficar horas e horas correndo nessa posição.
— Mentiroso!
— Lembra-se da última vez que duvidou de algo, o que acabou acontecendo, certo?
Desviei o olhar e suspirei alto. Não era uma boa ideia provocá-lo, não mesmo.
— O que você vê nele? Digo... o Sehun não parece dono de muitas qualidades.
— Eu não preciso dizer nada, a noite de ontem disse tudo, você não parava de chorar.
Continuei sem olhá-lo, sabendo que o lutador fitava-me com uma curiosidade estampada no
rosto.
Bufei e pisquei rapidamente, impaciente que ele estivesse tentando entrar na zona de
emoções no qual eu sempre tentava trancar com cadeado.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, mas logo voltou a me importunar:
— Como?