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A Luta de Peter Pan e a Sombra Roubada

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 

76

cachorro cansado. Suava em bicas, um suor muito fedorento.


Tinha mais arranhões pelo corpo e galos pela testa do que
cabelos na cabeça. Em certo momento deteve-se, apavorado, e
gritou:

— "Será que estou lutando contra um demônio? Peter Pan,


diga-me quem é você?"

Peter Pan, como um galinho novo que sacode as asas ao


nascer do sol — respondeu com um grito de atroar os ares:

— "Eu sou a Juventude! Sou a alegria da vida! Sou eterno e


invencível!"

E zás, zás, zás, apertou o velho capitão numa tal roda de


golpes que ele foi recuando, recuando, recuando até que
chegou à beiradinha do navio e...

— Tchibum! Caiu n’água — completou Emília.

— Não. Caiu mas foi bem dentro da goela do crocodilo. O


paciente animal tinha ouvido o barulho da luta e aproximara-se
de mansinho, ficando rente ao navio, de boca aberta, à espera
do resto da mão. E desse modo devorou o famoso chefe dos
piratas, com gancho e tudo...

— Bravos! — exclamou Pedrinho. Eu sabia que ia suceder


isso. Menino protegido pelas fadas acaba sempre vencendo...

Tia Nastácia arregalou os olhos.

— Credo! Imaginem um menino desses aqui no sítio! Era


capaz até de serrar o chifre do Quindim...
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VI

A volta

No dia seguinte, á hora de acender o lampião, o


Visconde apareceu todo cheio de si e disse:

— Descobri tudo. Descobri o ladrão da sombra de tia


Nastácia. Aposto que ela está hoje sem sombra nenhuma.

— Quem é? Quem foi? — indagaram todos.

O Visconde olhou para Emília, que estava de lábios


apertados e olhinhos duros. Quis dizer que era ela, mas não
teve coragem. Por fim, como Dona Benta insistisse, não teve
remédio.

— É a senhora Dona Emília a ladrona da sombra! —


declarou o Visconde corajosamente.

Foi um espanto geral. Todos se voltaram para a boneca,


que apenas sorriu com superioridade e respondeu com uma
pergunta.

— Dona Benta — disse ela — explique ao Visconde o que é


roubar.

— Roubar é tirar uma coisa que pertence a outra pessoa


sem autorização dessa pessoa — ensinou Dona Benta.

— Muito bem — exclamou Emília — Mas se a coisa roubada


continua no poder da dona, alguém pode afirmar que houve
roubo?

— Não, está claro que não. Mas que tem isso com o caso?

— Muita coisa — replicou Emília — e voltando-se para tia


Nastácia: — Acenda o lampião e veja se está mesmo roubada.

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