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cachorro cansado. Suava em bicas, um suor muito fedorento.
Tinha mais arranhões pelo corpo e galos pela testa do que
cabelos na cabeça. Em certo momento deteve-se, apavorado, e
gritou:
— "Será que estou lutando contra um demônio? Peter Pan,
diga-me quem é você?"
Peter Pan, como um galinho novo que sacode as asas ao
nascer do sol — respondeu com um grito de atroar os ares:
— "Eu sou a Juventude! Sou a alegria da vida! Sou eterno e
invencível!"
E zás, zás, zás, apertou o velho capitão numa tal roda de
golpes que ele foi recuando, recuando, recuando até que
chegou à beiradinha do navio e...
— Tchibum! Caiu n’água — completou Emília.
— Não. Caiu mas foi bem dentro da goela do crocodilo. O
paciente animal tinha ouvido o barulho da luta e aproximara-se
de mansinho, ficando rente ao navio, de boca aberta, à espera
do resto da mão. E desse modo devorou o famoso chefe dos
piratas, com gancho e tudo...
— Bravos! — exclamou Pedrinho. Eu sabia que ia suceder
isso. Menino protegido pelas fadas acaba sempre vencendo...
Tia Nastácia arregalou os olhos.
— Credo! Imaginem um menino desses aqui no sítio! Era
capaz até de serrar o chifre do Quindim...
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VI
A volta
No dia seguinte, á hora de acender o lampião, o
Visconde apareceu todo cheio de si e disse:
— Descobri tudo. Descobri o ladrão da sombra de tia
Nastácia. Aposto que ela está hoje sem sombra nenhuma.
— Quem é? Quem foi? — indagaram todos.
O Visconde olhou para Emília, que estava de lábios
apertados e olhinhos duros. Quis dizer que era ela, mas não
teve coragem. Por fim, como Dona Benta insistisse, não teve
remédio.
— É a senhora Dona Emília a ladrona da sombra! —
declarou o Visconde corajosamente.
Foi um espanto geral. Todos se voltaram para a boneca,
que apenas sorriu com superioridade e respondeu com uma
pergunta.
— Dona Benta — disse ela — explique ao Visconde o que é
roubar.
— Roubar é tirar uma coisa que pertence a outra pessoa
sem autorização dessa pessoa — ensinou Dona Benta.
— Muito bem — exclamou Emília — Mas se a coisa roubada
continua no poder da dona, alguém pode afirmar que houve
roubo?
— Não, está claro que não. Mas que tem isso com o caso?
— Muita coisa — replicou Emília — e voltando-se para tia
Nastácia: — Acenda o lampião e veja se está mesmo roubada.