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Tia Nastácia acendeu o lampião e, com grande surpresa,
viu que sua sombra se projetava inteirinha na parede, como
antigamente.
Todos arregalaram os olhos.
— Vejam que sherlock das dúzias é o tal Senhor Visconde!
— gritou Emília, dando uma risada irônica. — Acusou-me de ter
furtado uma coisa que não foi furtada! A sombra de tia Nastácia
está direitinha como sempre foi.
Era a pura verdade. Todos se aproximaram da parede para
examinar o estranho caso. Viram que de fato a sombra fora
cortada em numerosos pedaços, mas que havia sido remendada
de novo. As costuras estavam visíveis.
— Bom — disse Dona Benta. — Desde que a sombra voltou,
não vale a pena insistirmos nisso, mas Emília que não repita a
brincadeira. A sombra grudou muito bem. Mas se não
grudasse? Se a pobre tia Nastácia ficasse aleijada por toda a
vida? Não e não. Basta de tais reinações. Com sombra a gente
não brinca.
Em seguida tomou assento em sua cadeira de pernas
serradas e anunciou o fim da história de Peter Pan e Wendy.
— Depois da derrota do Capitão Gancho — disse ela — os
outros piratas levaram a breca, isto é, morreram afogados. Só
se salvaram dois, um de nome Smee e outro de nome Starkey.
Smee era um pirata irlandês, não tão ruim como os outros;
conseguiu nadar até à praia, salvou-se e acabou marinheiro
muito bem comportado, num navio de guerra inglês.
— E Starkey? — Starkey nunca havia derramado sangue
humano, apesar de ser um grande patife. A sorte o poupou. Foi
aprisionado pelos Peles-Vermelhas e posto lá na tribo
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como ama-seca dos indiozinhos. Para pirata não podia haver
castigo maior.
— E na casa dos pais dos meninos?
— Lá foi uma tristeza sem conta, como vocês podem
imaginar. O Senhor Darling, como castigo de não ter posto mais
tento nos meninos, resolveu viver na casinha da cachorra Nana,
como se fosse cachorro. Todos os dias, depois de voltar do
escritório, ia deitar-se lá e até fazia au! au! Era um homem
muito esquisito — ou "excêntrico", como dizem os ingleses.
— Excêntrico quer dizer esquisito? — indagou Pedrinho.
— Excêntrico quer dizer fora do centro. Aplicado às
pessoas quer dizer uma criatura um tanto fora do comum, um
tanto diferente das outras. Os ingleses são muito diferentes de
nós, por isso nós os consideramos excêntricos.
— E a Senhora Darling? — quis saber a menina.
— A Senhora Darling vivia no desespero. Já se haviam
passado várias semanas sem que os meninos dessem sinal de
si. Os jornais trouxeram artigos sobre o curioso acontecimento
e publicaram o retrato dos três, com promessa duma boa
recompensa para quem lhes indicasse o paradeiro. Tudo inútil.
Certa tarde a infeliz senhora estava ao pé da lareira, muito
triste e desanimada, pensando nos filhos perdidos dum modo
tão misterioso, quando ouviu um rumor de vôo na rua — um
rumor que não era de vôo de coruja, nem de avião. Parecia vôo
humano. Mas não deu importância àquilo e continuou na sua
tristeza. Logo depois ouviu uma voz no quarto das crianças,
que dizia: — "Mamãe!"