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Assim fez. Por meio dum canudinho enfiado pela chaminé,
achou jeito de pingar dentro do vidro de remédio (que estava
desarrolhado) seis gotas do pior veneno que existe. Em seguida
retirou-se, tomando caminho do seu navio, muito contente da
vida, a esfregar as mãos.
— Como? — inquiriu Emília. — Se ele só tinha uma, como
poderia esfregar as mãos?
— Isto é um modo de falar — explicou Dona Benta. —
Quando queremos dizer que Fulano saiu muito contente,
costumamos usar dessa expressão "esfregar as mãos", ainda
que o tal Fulano nem mãos tenha. São modos de dizer:
— Continue, vovó. Não perca tempo com esta
encrenqueira.
— Pois é. O Capitão Gancho envenenou o remédio de Peter
Pan e lá se foi para o seu navio, muito contente da vida. Foi
certo de que o menino tomaria o remédio e morreria a pior das
mortes.
Peter Pan, sozinho na caverna subterrânea, não conseguia
dormir. Pensamentos tristes esvoaçavam pela sua cabeça, como
morcegos. Fechava os olhos com toda a força, contava até mil
— e nada. Nada de o sono chegar. De repente, viu uma
claridade. Era a fada Sininho que chegava, mas tão aflita que
vinha atrapalhando os tlins-tlins todos.
— "Que há, Sininho?" — perguntou ele, erguendo-se da
cama.
A bola de fogo narrou a grande desgraça acontecida aos
meninos, que estavam naquele momento encerrados no escuro
e sujíssimo porão do navio dos piratas.
Peter Pan, num pulo de tigre, correu ao rebolo para amolar
as suas armas. Deixou a espada que nem navalha e fez no seu
punhal de guerra uma ponta fina como a das
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agulhas. Estava ocupado nisso quando notou que a bola de
fogo principiava a empalidecer. Assustou-se.
— "Que é que você tem, Sininho?" — perguntou ele,
inquieto — e quase nem pôde ouvir a resposta, de fracos que
soavam os tlins-tlins da pequenina fada.
Sininho estava morrendo. Percebera que o remédio de
Peter Pan tinha sido envenenado e o bebera, com a idéia de
o salvar. Sacrificara-se por ele, a coitadinha:
— Por quê? Não entendo — disse Narizinho.
— Sininho havia refletido que se o avisasse de que o
remédio estava envenenado, Peter Pan não acreditaria, supondo
que Sininho não queria que ele bebesse o remédio só por ter
sido preparado por Wendy. E resolveu então beber o remédio
antes que ele o tomasse.
Ao ver que a sua querida fada ia morrendo, Peter Pan
sentiu uma dor infinita. Perder Sininho era-lhe pior do que
perder a própria vida. Precisava salvá-la, custasse o que
custasse. Mas como?
Peter Pan franziu a testa com toda a força e teve
imediatamente uma grande idéia. Subiu pelo oco e lá fora
trepou à árvore mais alta. E bem de cima gritou para o mundo,
com toda a força dos pulmões:
— "Quem acreditar em fadas, que bata palmas até não
poder mais! É esse o único meio de salvar a minha querida
Sininho!..."
Tão sincero e sentido foi aquele grito, que todas as
crianças da terra o ouviram — e milhões e milhões de palmas
ressoaram pelo mundo afora. Uma barulhada de atordoar a
gente...
— E o resultado? — perguntou Narizinho, ansiosa.
— Foi ótimo, um verdadeiro milagre. A luz de Sininho
começou a brilhar de novo e os tlins-tlins tornaram-se ainda
mais fortes do que antes. Sininho estava salva!