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Divisão V – A representação nos negócios jurídicos
174. Conceito (pp. 539-542)
I – Infere-se do artigo 258º do C. Civil. A representação traduz-se na prática de um ato jurídico
em nome de outrem, para a esfera desse outrem se produzirem os respetivos efeitos. Nada mais é
necessário para existir a representação; para que ela, todavia, seja eficaz, torna-se necessário que o
representante atue “nos limites dos poderes que lhe competem” (artigo 258º do C. Civil), ou que o
representado realize, supervenientemente, uma ratificação. Os poderes de representação podem ser
atribuídos, por um ato voluntário, pelo representado ao representante: fala-se, então, de representação
voluntária e o acto voluntário atribuidor de poderes representativos chama-se procuração. Podem
resultar os estatutos de uma pessoa coletiva (representação orgânica ou estatutária), ou, verificadas
certas situações, ser concedidos pela lei a representantes legais.
II – Não há contradição entre a representação (o negócio celebrado por um representante) e o
princípio da autonomia privada. A representação voluntária, isto é, assente numa procuração, não
contradiz o princípio da autonomia privada; ao invés traduz um alargamento das possibilidades contidas
na referida autonomia. Não há contradição, desde logo, porque as possibilidades de atuação jurídico-
negocial própria (do representado) não são restringidas pelo facto de se ter passado a outrem uma
procuração. Por outro lado, o negócio do representante com poderes é um aprofundamento coerente da
autonomia privada, também, na medida em que os poderes representativos assentam numa
manifestação da vontade do representado.
Quanto às pessoas coletivas, têm justamente, capacidade de agir por possuírem órgãos que as
podem representar.
Na representação legal (menores, inabilitados, interditos) não se nos depara, igualmente,
qualquer contradição com a autonomia privada.
Através da representação legal, e do representante legal, da capacidade de exercício de direitos,
inexistente no caso dos menores, dos interditos e dos inabilitados, o representante legal atua em nome
destes.
III – Para existir representação basta que o negócio seja concluído em nome do representado,
não sendo já necessário, contrariamente ao que por vezes se supõe, que o seja no interesse do
representado.
IV – Não há, igualmente, coincidência entre as noções de representação e de mandato, há uma
perfeita autonomia entre as duas figuras, pois o mandato é um contrato pelo qual uma das partes se
obriga a praticar um ou mais atos jurídicos por conta da outra (artigo 1157º do C. Civil).
Do confronto entre as duas noções resulta, que:
a) Pode haver mandato sem haver representação, quando o mandatário não recebeu poderes
para agir em nome do mandante; age por conta do mandante, mas em nome próprio;
b) Pode haver representação sem haver mandato, não só na hipótese da representação legal,
mas também no que toca à representação voluntária: a representação voluntária resulta de
um ato – a chamada procuração (artigo 262º do C. Civil) – que pode existir autonomamente
(negócios unilaterais) ou coexistir com um contrato que, normalmente, será o mandato, mas
pode ser outro, como o contrato de trabalho ou o contrato de agência.
175. Espécies (pp. 542)
Pode-se distinguir entre:
a) Representação própria, direta ou imediata e a chamada representação imprópria, indireta ou
mediata. A representação imprópria não é uma verdadeira representação (artigo 258º do C.
Civil).
b) Representação legal e representação voluntária, tendo como critério a fonte donde promanam
os poderes representativos. Na representação legal, o representante é indicado, verificada certa
situação, pela lei, ou por decisão judicial em conformidade com a lei e tem os poderes definidos
pela lei. Na representação voluntária, os poderes do representante e da respetiva extensão
provém da vontade do representado, manifestada na procuração. Esta pode ser geral, isto é,
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abrangendo todos os atos patrimoniais e, neste caso, só legitima para atos de administração
ordinária, ou especial, abrangendo apenas os atos nela referidos e os necessários à sua execução.
c) Representação ativa e representação passiva. A representação ativa é a mais frequente,
consiste na atuação em nome de outrem na emissão de declarações negociais. A representação
passiva consiste em receber declarações negociais em nome de outrem, para se produzirem os
mesmos efeitos que se produziriam se tais declarações fossem recebidas por esse outrem.
176. Confronto com institutos afins (pp. 543-547)
a) Representante e o simples núncio. O representante, ao contrário do núncio, nunca recebe, nem
mesmo quando a procuração é especialíssima, um mandato absolutamente especificado e
imperativo. O representante emite uma declaração em nome de outrem. O núncio transmite
uma declaração de outrem. O representante consuma o núncio transmite o já consumando. A
qualidade de representante ou de núncio afere-se à luz do comportamento do sujeito em face
da contraparte e não em face da vontade do comitente.
Diversidade de tratamento jurídico:
1) O representante (voluntário) não precisa de ter plena capacidade legal, mas carece de
capacidade natural de entender e querer, exigida pela natureza do negócio que haja de
efetuar (artigo 263º do C. Civil). Quanto ao núncio, bastará a capacidade natural para
transmitir a declaração de vontade.
2) Se o representante excede os seus poderes de representação, o negócio é ineficaz em
relação ao representado (artigo 268º do C. Civil), se o núncio transmitir a sua declaração
inexatamente, se não se verificarem os requisitos, exigidos no artigo 250º do C. Civil,
para a relevância, no sentido de a anulabilidade, do erro, na transmissão da declaração.
b) A representação própria e a representação imprópria. Na representação imprópria, não existe
a chamada “contemplatio domini”, embora se atue no interesse ou por conta de outrem, na
representação própria existe a “contemplatio domini” (atuação em nome de outrem).
A representação imprópria ou mediata – na qual, o agente embora atuando no interesse de
outrem, age em nome próprio – é uma forma de mera representação de interesses, que não
torna o “dono do negócio” parte ou sujeito do ato jurídico praticado pelo representante. Este é
que é parte negocial.
c) A representação e as diversas formas de colaboração material ou técnica nos negócios de
outrem – a distinção assenta na contraposição negócio jurídico/ato material; o representante
realiza negócios jurídicos.
d) A representação e os negócios para pessoa a nomear – os contratos para pessoa a nomear
(artigo 452º e seguintes do C. Civil), a lei faz corresponder a este tipo contratos resulta nítida a
distinção entre eles e os casos de representação própria ou imprópria. Assim:
1) Na representação própria o negócio representativo produz efeitos na esfera do
representado, ou na hipótese de falta de legitimação representativa é ineficaz. No contrato
para pessoa a nomear, os direitos e obrigações provenientes do contrato são apropriados,
a partir da celebração do negócio, pela pessoa nomeada.
2) Na representação imprópria (mandato sem representação) o mandatário age em nome
próprio, adquirindo os direitos e obrigações decorrentes dos atos que celebra, e é obrigado
a transferir para o mandante os direitos adquiridos, sendo este obrigado a assumir as
obrigações contraídas pelo mandatário (artigo 1180º, 1181º e 1182º do C. Civil).
Quem contrata com pessoa a nomear assume os riscos da incerteza sobre a pessoa de sua contraparte.
e) A representação e a simples autorização ou consentimento para atos de outrem. O
representante atua e na simples autorização inibe-se ou aprova-se uma iniciativa e uma atuação
de outrem.
f) A representação e os contratos a favor de terceiros. Na representação, o representante não se
torna a titular de quaisquer direitos ou obrigações em face da contraparte do negócio
representativo, sendo sujeitos das relações emergentes do referido negócio o representado e a
outra parte.
g) A representação e as “declarações sob nome de outrem” – na representação, o representante
atua em nome de outra pessoa (representado), que se não confunde com ele, na atuação sob o
nome de outrem, diversamente, o declarante assume o nome de outrem, fazendo-se passar por
essa pessoa. Nas declarações sob o nome de outrem, se este elemento (nome) não assume valor
de identificação do declarante, realizando-se a identificação por outros meios (designadamente
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de forma presencial), as vontades das partes encontram-se efetivamente, pelo que a falsa
indicação do nome será irrelevante.
177. Admissibilidade da representação (pp. 547)
A representação própria é regulada nos artigos 258º e seguintes do C. Civil, enunciando-se
alguns princípios gerais, comuns à representação legal e à representação voluntária, isto é, aquela que
promana do ato voluntário denominado de procuração.
a) Representação legal. A sua admissibilidade e o seu domínio de aplicação resultam das
disposições que a consagram para o efeito de se suprir as incapacidades.
b) Representação voluntária. É admitida nos artigos 262º e seguintes do C. Civil. O mandato
com representação (artigo 1178º do C. Civil), no qual está convolvida uma procuração, é a
fonte mais frequente da representação voluntária.
178. Pressupostos de representação (pp. 548-552)
I – a) Pressupostos de existência (conceituais) da representação:
1) “Contemplatio domini”, isto é, a realização do negócio em nome do representado, para que a
contraparte saiba ou possa saber com quem negoceia.
2) Declaração em menor ou maior escala, de uma vontade própria do representante, e não pura e
simplesmente, de uma vontade do representado.
II – b) Pressuposto de eficácia da representação. O ato deve estar integrado os limites dos poderes
que competem ao representante. O negócio vale em relação ao representado. Não vale em relação ao
representante; este não é parte negocial. Deve existir, por parte do representante, legitimação
representativa, que pode ser originária, isto é, já existente ao tempo do negócio representativo, ou
conferida posteriormente, através de uma ratificação do negócio (legitimação representativa
subsequente).
III – Representação sem poderes e abuso de representação. Os atos praticados por uma
representante sem poderes são ineficazes em relação à pessoa em nome da qual se celebrou o negócio,
salvo se tiver lugar a ratificação (artigo 268º, nº1 do C. Civil). Não havendo ratificação, o representante
sem poderes, verificada culpa sua, como será quase sempre o caso, responde perante a contraparte, com
fundamento em responsabilidade pré-negocial (artigo 227º do C. Civil).
Se o representante sem poderes conhecia a falta de legitimidade representativa a contraparte pode
optar pela indemnização pelo não cumprimento do contrato.
Verificada uma situação de responsabilidade pré-negocial, ou por “culpa in contrahendo”, responde
o representado, seja na representação legal, seja na representação voluntária (artigo 800º, nº1 do C.
Civil).
Haverá abuso de representação quando o representante atuar dentro dos limites formais dos
poderes conferidos, mas de modo substancialmente contrário aos fins da representação. O artigo 269º
do C. Civil, manda aplicar o regime do artigo 268º do C. Civil, à hipótese de abuso de representação, se a
outra parte conhecia o abuso ou este lhe era cognoscível.
O caráter formal ou consensual da ratificação, como, aliás, da procuração, depende das exigências
formais do negócio representativo (artigo 268º, nº2 e artigo 262º, nº2 do C. Civil).
IV – Aparência de poderes de representação: nos casos em que o representante atuou sem poderes
de representação, há que perguntar se o terceiro que contratou com ele – e que confiou numa aparência
jurídica (aparência de titularidade de poderes de representação) – é protegido pela atribuição de efeitos
ao negócio em relação ao representado.
Em princípio, a resposta a dar à questão é negativa, sendo antes ao terceiro que incumbe exigir
ao representante a justificação dos seus poderes representativos (artigo 260º do C. Civil).
Mas a proteção do terceiro pode justificar-se nalguns casos. Assim, pode existir uma “procuração
tolerada” (ou procuração por tolerância), e essa tolerância, segundo a boa fé, pode ser interpretada pela
contraparte no negócio no sentido de que o representante recebeu procuração do representado para agir
por ele.
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Já é mais difícil de aceitar a vinculação do representado em casos de mera “procuração
aparente” (ou “por aparência”), em que o representado “de facto não conhecia a conduta do
representante”, e a contraparte podia de acordo com a boa fé compreender a conduta do representante
no sentido de que ela não teria podido ficar escondida pelo representado com a diligência devida, e que
este, portanto, a tolera.
V – O negócio consigo mesmo: o chamado negócio consigo mesmo é proibido, porque
pretendesse impedir a colisão de interesses, um prejuízo para o representado ou para um dos
representados, aplica-se analogicamente o artigo 261º do C. Civil, a casos de igual colisão de interesses.
Capítulo III – O objeto negocial
179. Noção de objeto do negócio jurídico (pp. 553)
Deve distinguir-se entre:
a) Objeto imediato ou conteúdo – efeitos jurídicos a que o negócio atende.
b) Objeto mediato ou objeto stricto sensu – consiste no quid sobre que incidem os efeitos do
negócio.
Os artigos 280º e seguintes do C. Civil utilizam a expressão objeto negocial neste sentido complexivo,
abrangendo quer o conteúdo quer os efeitos do negócio, quer o objeto propriamente dito ou em sentido
estrito.
180. Exigências legais relativas ao objeto dos negócios jurídicos (pp. 553-559)
I – Os requisitos do objeto negocial são formulados no artigo 280º do C. Civil. Dele se infere
serem condições de validade do negócio jurídico a possibilidade física ou legal, a não contrariedade à lei,
a determinabilidade, a não contrariedade à ordem pública e a conformidade com os bons costumes do
objeto negocial.
II – Determinabilidade
O objeto negocial deve estar individualmente concretizado no momento do negócio, ou pode vir
a ser individualmente determinado, segundo um critério estabelecido no contrato ou na lei. Esta
exigência, refere-se, sobretudo, ao objeto mediato do negócio. Tem interesse, a este respeito, o artigo
400º do C. Civil, acerca da determinação da prestação nos direitos de crédito, pois, com efeito, o objeto
da prestação, nas relações obrigacionais, é, igualmente, o objeto mediato do negócio jurídico donde essas
relações promanam.
Devem considerar-se, portanto nulos, por falta deste requisito, os negócios cujo objeto não foi
determinado nem é determinável, por nem as partes nem a lei terem estabelecido o critério de harmonia
com o qual se deva fazer a individualização do objeto.
III – Possibilidade física
Significa que há qualquer impossibilidade material ou natural (derivada da natureza das coisas)
do objeto do negócio. Será fisicamente impossível o objeto.
O artigo 400º, nº3 do C. Civil, permite concluir que só a impossibilidade (não apenas a mera
dificuldade) objetiva (isto é, para toda a gente) invalida o negócio e não já a simples impossibilidade
subjetiva, isto é, a que se verifica apenas em relação à pessoa do devedor. Bastará a impossibilidade
subjetiva se se tratar de uma prestação de facto não fungível.
A exigência, para a validade do negócio, da possibilidade (física e legal) do respetivo objeto tem,
porém, sido discutida noutras ordens jurídicas, que não a aceitam (o negócio é, antes, válido ab initio,
sendo o credor protegido pelo regime do não cumprimento).
IV – Possibilidade legal e não contrariedade à lei (licitude). O código civil distingue entre
impossibilidade legal e contrariedade à lei (ilicitude), como sendo duas realidades distintas que pode
conhecer o objeto negocial. O que não tem nenhum interesse prático.
Podem existir objetos legalmente impossíveis, como nos negócios jurídicos cujo o objeto seja
constituído por outro negócio jurídico, como por exemplo, nos contratos-promessa (artigo 410º e
seguintes do C. Civil), neste tipo de contrato, que não pode ser validamente concluído, pode dizer-se que
o objeto mediato do contrato-promessa é legalmente impossível.
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Será contrário à lei, ilícito, o objeto de um negócio, quando viola uma disposição da lei, isto é,
quando a lei não permite uma combinação negocial com aqueles efeitos (objeto imediato) ou sobre
aquele objeto mediato. Note-se que devem ser considerados contrários à lei, não só os negócios que
frontalmente a ofendem, mas também, quando se constate, por interpretação, que a lei quis impedir de
todo em todo, um certo resultado, os negócios que procuram contornar uma proibição legal.
V – Não contrariedade à ordem pública e ausência de ofensa aos bons costumes
O objeto dos negócios jurídicos deve ainda ser conforme à ordem pública e aos bons costumes,
segundo a exigência do nº2 do artigo 280º do C. Civil. A ordem pública para este efeito é o conjunto de
princípios fundamentais, subjacentes ao sistema jurídico, que o Estado e a sociedade estão
substancialmente interessados em que prevaleçam e que têm uma acuidade tão forte que devem
prevalecer sobre as convenções privadas.
E quando é que se pode considerar um ato como ofensivo dos bons costumes? O sentido desta
exigência é o mesmo da fórmula “não contrariedade à moral pública”. Os “bons costumes” são uma noção
variável, com os tempos e os lugares, abrangendo o conjunto de regras éticas aceites pelas pessoas
honestas corretas, de boa fé, num dado ambiente e num certo momento.
181. Consequências da inobservância dos requisitos a que deve obedecer o objeto negocial (pp. 559)
A infração de qualquer exigência formulada no artigo 280º do C. Civil à cerca dos requisitos do
objeto negocial, implica a nulidade do negócio jurídico. Esta consequência terá lugar, independentemente
de as partes conhecerem ou deverem conhecer o vício de que padece o objeto negocial. Também poderá
ter lugar, verificados os requisitos do artigo 227º do C. Civil a responsabilidade civil pré-negocial da parte
culpada.
Subtítulo III – Elementos acidentais dos negócios jurídicos (cláusulas acessórias típicas gerais)
Capítulo I – Condição
182. Conceito, natureza e importância da estipulação condicional (pp. 561-562)
I – As noções de condição suspensiva e de condição resolutiva constam do artigo 270º do C.
Civil: subordinação pelas partes a um acontecimento futuro e incerto, ou da produção dos efeitos do
negócio jurídico (condição suspensiva) ou da resolução dos mesmos efeitos (condição resolutiva).
II – Natureza da estipulação condicional: trata-se de uma vontade hipotética, embora atual e
efetiva, exteriorizada numa declaração única e incindível.
III – Razão de ser e importância prática da condição: superação da incerteza objetiva do futuro,
através de um regulamento de interesses apto a, em qualquer hipótese, realizar a representação que os
sujeitos têm do seu interesse.
183. As chamadas condições impróprias (pp. 562-563)
I – Noção geral. Não reúnem todas as qualidades que caraterizam a condição verdadeira e própria: 1º -
evento futuro, ao qual está subordinada a eficácia do negócio; 2º - caráter incerto do evento; 3º -
subordinação resultante da vontade das partes e não diretamente ex lege.
II – Diversas figuras de condições impróprias:
a) Condições referidas ao passado ou ao presente, visto que o evento condicionante não é futuro,
não existe, portanto, incerteza objetiva.
b) Condições necessárias, visto que o evento não é incerto.
c) Condições impossíveis, visto que a não verificação do evento é desde logo, certa.
d) Condições legais.
e) Condição resolutiva tácita ou resolução por inadimplemento. Resulta quanto ao
inadimplemento definitivo (impossibilidade do cumprimento), do artigo 801º, nº2 do C. Civil e,
quanto à mora do artigo 808º, nº1 do C. Civil, que permite a aplicação de normas sobre a falta
de cumprimento.
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A condição resolutiva tácita tem um regime diverso do da condição resolutiva verdadeira e própria,
quanto aos aspetos seguintes:
1º É facultada pela lei e não convencionada pelas partes.
2º Não opera ipso iure (automaticamente), pois apenas dá direito a que, em caso de inadimplemento de
uma parte, a outra parte a invoque (artigo 801º, nº2 do C. Civil).
3º Não tem efeito retroativo em relação a terceiros (artigo 435º do C. Civil), ao contrário do que sucede
com a condição resolutiva verdadeira e própria (artigo 274º do C. Civil).
184. A oponibilidade da condição (pp. 563-564)
I – Princípio geral
A cláusula condicional é um elemento acidental, suscetível de ser inserido na generalidade dos
negócios por força do princípio da liberdade negocial (artigo 405º do C. Civil). Certos negócios, são,
porém, incondicionáveis.
Deve ter-se, igualmente, por incondicionáveis os negócios unilaterais, resultantes do exercício
de um direito potestativo que atinge a esfera de outrem com uma eficácia não vantajosa. Trata-se de não
permitir a incerteza que resultaria da cláusula condicional.
II – Valor de condição oposta a um negócio incondicionável
Em conformidade com o princípio da incindibilidade do negócio condicional, a consequência, da
aposição de uma condição a um negócio incondicionável é a nulidade do negócio, resultará da aplicação
analógica do artigo 271º do C. Civil (efeitos das condições ilícitas ou impossíveis) e até genericamente o
artigo 294º do C. Civil.
185. Classificação das condições (pp. 564-572)
I – Condições suspensivas e condições resolutivas
O critério da distinção nos termos do artigo 270º do C. Civil, é o da influência que a verificação
do evento condicionante tem sobre a eficácia do negócio, a verificação da condição importa a produção
dos efeitos do negócio, não tendo estes, lugar doutro modo, trata-se duma condição suspensiva se a
verificação da condição importa a destruição dos efeitos negociais, aquela diz-se resolutiva.
II – Condições potestativas, casuais e mistas
O critério é o da natureza do evento condicionante, segundo o evento condicionante procede da
vontade de uma das partes ou consiste num acontecimento natural ou de terceiro ou é de caráter misto.
A condição potestativa pode ser arbitrária ou não arbitrária. É arbitrária se o evento
condicionante é um puro querer ou um facto completamente insignificante ou frívolo. É não arbitrária se
o evento condicionante não é um puro querer, mas um facto de certa seriedade ou gravidade em face
dos interesses em causa. A condição potestativa é a parte conforme o evento condicionante for um ato
do credor ou do devedor condicional.
A condição potestativa arbitrária da parte do credor é inútil, e da parte do devedor é inadmissível.
III – Condições possíveis e impossíveis. As chamadas condições ilícitas (contrárias à lei)
Os conceitos de condição impossível (física ou legalmente) e de condição contrária à lei ou à
ordem pública (ilícita por ilegalidade), ou ofensiva dos bons costumes (ilícita por imoralidade), resultam
claramente das considerações acerca dos requisitos legais do objeto negocial.
Como adverte Manuel de Andrade, a condição que consiste num facto ilícito pode ser lícita, se a
cláusula condicional representar um contraestímulo à prática desse ato, só deixará de ser assim, nesta
hipótese, sendo, portanto, nula a condição, se repugnar à lei ou aos bons costumes a ideia de que se
pratique tal ato mediante retribuição.
Por outro lado, sendo embora o evento condicionante lícito, pode a condição ser ilícita, por força
do seu nexo com o restante conteúdo do negócio. É o caso das condições restritivas de liberdade.
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Quanto ao regime das condições impossíveis e ilícitas, haverá que distinguir um regime geral e
um regime especial para as liberdades (testamento, doação).
a) Regime geral: consta do artigo 271º do C. Civil, nos termos do nº1 desta disposição, o negócio
jurídico subordinado a uma condição ilícita (contrária à lei, à ordem pública ou aos bons
costumes) é nulo: a nulidade inquina todo o negócio e não somente a cláusula condicional ilícita,
de acordo com a máxima da incindibilidade do negócio condicional. O nº2 do mesmo artigo,
segundo o qual a oposição de uma condição resolutiva impossível produz apenas a nulidade da
cláusula condicional, mantendo-se o restante conteúdo do negócio (“tem-se a condição por não
escrita”). Compreende-se este regime especial para a condição resolutiva impossível, pois a
situação correspondente a esta figura deve equiparar-se à não verificação da condição resolutiva
e, portanto, deve provocar a consolidação dos efeitos do negócio, como se ab initio não
dependesse de qualquer condição.
b) Regime especial para as doações e testamentos: está formulado diretamente para os
testamentos, artigo 2230º do C. Civil, mas é aplicável, igualmente, às doações, em virtude da
expressa remissão feita pelo artigo 967º do C. Civil para as regras estabelecidas em matéria
testamentária. A condição impossível ou ilícita considera-se, em princípio, não escrita,
mantendo-se válida e eficaz a liberdade testamentária ou inter vivos a que estava aposta. Nos
negócios inter vivos pode ter lugar a nulidade total, pois as partes continuam vivas e, se
pretenderem o negócio sem a condição, podem fazê-lo de novo nesses termos; nos testamentos,
a ineficácia total da disposição impede que a mesma seja reconstruída sem a condição, pois o
testador não pode exprimir de novo a sua vontade, sendo certo que talvez ele preferisse a
manutenção da cláusula testamentária sem a condição, ou, pelo menos, que talvez seja essa a
vontade conjetural, no comum dos casos.
1) Para o comum dos negócios deve ter-se entendido que a solução da nulidade
corresponde à vontade presumível das partes, e, quando assim não tenha acontecido,
estas podem fazer um novo negócio.
2) Para as liberdades:
A. Quanto às condições impossíveis, deve ter-se considerado que, talvez, a
vontade presumível do disponente, nas doações e testamentos, seja no
sentido da manutenção do negócio sem a condição e, daí, ter-se estabelecido
esse regime com caráter supletivo.
B. Quanto às condições ilícitas sancionou-se o mesmo regime com caráter
imperativo, para, deste modo, afastar a possibilidade de o beneficiário do
negócio ser impelido à prática de um ato em si ilícito ou que, embora lícito, se
entende dever ser deliberado no foro da consciência livre dos indivíduos, pelo
desejo de beneficiar da liberdade.
IV – Condições positivas e negativas
O critério desta distinção é o da forma de atuação do evento condicionante. Na condição positiva,
o evento condicionante traduz-se na alteração de um estado de coisas anterior. Na condição negativa, o
facto condicionante consiste na não alteração de uma situação preexistente.
V – Condições perplexas e não perplexas: as primeiras são as condições contraditórias, em que
o evento condicionante é incompatível com o efeito jurídico querido: o negócio é nulo.
186. Verificação e não verificação da condição (pp. 572)
Determinado, por interpretação da vontade das partes, qual seja o facto condicionante, verificar-
se-á a condição se tal acontecimento tiver lugar; nos termos do nº1 do artigo 275º do C. Civil, a certeza
de que a condição se não pode verificar equivale à sua não verificação.
O código estabelece uma limitação a esta doutrina geral, nos casos de “sabotagem” da condição
(artigo 275º, nº2 do C. Civil), isto é, quando a parte a quem a condição prejudicaria impede a sua
verificação contra as regras da boa fé, ou quando a parte a quem ela beneficiaria a faz produzir contra as
referidas regras. Comporta-se contra a boa fé quem não se comporta como se pode esperar, segundo o
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sentido do contrato, de um contraente que pense com lealdade; não é preciso que o contraente vise
dolosamente a verificação da condição; basta que o seu comportamento, de uma forma reconhecível para
ele, não corresponda ao que a outra parte, segundo a boa fé, tem legitimidade para esperar dele.
187. Efeitos da condição suspensiva (pp. 572-575)
I – Na pendência da condição, isto é, enquanto o evento condicionante não se verificou, nem
deixou de se poder verificar. Neste período, o credor condicional não tem ainda um direito exercitável
em relação ao devedor, embora as partes estejam já vinculadas, de tal modo que estão sujeitas à
produção dos efeitos do negócio, uma vez verificado o evento condicionante.
A aquisição de um direito à custa de outrem não pode ser já impedida por esse outrem.
A posição subjetiva do credor sub conditione consiste numa mera expetativa de aquisição
eventual de um direito, com a correspondente obrigação da outra parte. Daí que, se o devedor cumpriu
durante o período de pendência da condição, por supor que o negócio é puro e simples, ou que a condição
já se verificou, possa repetir indevidamente prestado (artigo 476º, nº1 do C. Civil).
Quanto aos requisitos pessoais da eficácia do negócio (capacidade negocial, boa fé do
adquirente, e conhecimento ou cognoscibilidade de determinados factos), é relevante apenas o momento
da celebração do negócio e não o da verificação da condição.
Igualmente se obriga o devedor sob condição suspensiva a abster-se a quaisquer
comportamentos que prejudiquem a integridade do direito que o credor virá a adquirir se se verificar a
condição. Com efeito, o artigo 272º do C. Civil impõe aquele que contrair uma obrigação ou alienar um
direito sob condição suspensiva o dever de agir segundo os ditames da boa fé, isto é, com correção e
lealdade.
II – Verificada a condição
Os efeitos do negócio que estavam suspensos tornam-se efetivos ipso jure e desde a data da
conclusão do negócio, sem mais requisitos. O princípio da retroatividade da condição é afirmado no artigo
276º do C. Civil e considerado como efeito natural da cláusula condicional (não um efeito essencial), pois
os efeitos do preenchimento da condição podem ser, pela vontade das partes ou pela natureza do ato,
reportados a outro momento.
É, todavia, diversa a doutrina do artigo 796º, nº3 do C. Civil. Há exceções ao efeito retroativo da
condição suspensiva, assim nos termos do artigo 277º, nº2 e nº3 do C. Civil, os atos de administração
praticados pelo devedor condicional, na pendência da condição suspensiva, continuam válidos, mesmo
que se verifique a condição, assim como continua a ter direito aos frutos percebidos media tempore, bem
como os frutos pendentes, nos termos estabelecidos em matéria de aquisição de frutos pelo possuidor
de boa fé (artigo 1270º do C. Civil para o qual remete o artigo 277º, nº3 do C. Civil).
III – Não verificada a condição. Neste caso não se produzem os efeitos definitivos a que o negócio
tendia e desaparecem os próprios efeitos provisórios ou preparatórios que tiveram lugar medio tempore.
188. Efeitos da condição resolutiva (pp. 575-576)
I – A situação do devedor no negócio sob condição resolutiva é idêntica à do credor no negócio
sob condição suspensiva, pois a condição resolutiva é suspensiva de dissolução do negócio condicionado.
II – Pendente conditione. O negócio produz os seus efeitos normais, mas está suspensa sobre a
sua eficácia a possibilidade de verificação do evento condicionante. O devedor condicional é titular de
uma expetativa com certa tutela jurídica. Por esse motivo, o credor condicional deve proceder segundo a
boa fé (artigo 272º do C. Civil); o devedor ou alienante condicional pode praticar atos conservatórios
(artigo 273º do C. Civil) e pode até praticar atos de disposição, cuja eficácia fica sujeita à verificação da
condição resolutiva.
III – Verificada a condição. O preenchimento da condição importa a destruição automática e
retroativa dos efeitos do negócio, o que fará perder a eficácia aos atos dispositivos do credor condicional.
Há, contudo, exceções ao princípio supletivo da retroatividade, aplicar-se-ão as disposições
relativas à posse de boa fé (artigo 277º, nº2 e nº3 do C. Civil).
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A lei estabelece, ainda, uma outra exceção para os contratos de execução continuada ou
periódica: nestes, a resolução não abrange, em princípio, as prestações já cumpridas, mas afetá-las-á “se
entre elas e a causa de a resolução existir um vínculo que legitime a resolução de todas elas” (nº2 do
artigo 434º do C. Civil, por força do artigo 277º, nº1 do C. Civil).
IV – Não verificada a condição. Os efeitos do negócio consolidam-se, radicando-se,
definitivamente, a posição do credor sub conditione.
Capítulo II – Termo
189. Conceito (pp. 577)
A cláusula acessória típica pela qual a existência ou exercitabilidade dos efeitos de um negócio
são postas na dependência de um acontecimento futuro, mas certo, de tal modo que os efeitos só
começam ou se tornam exercitáveis a partir de certo momento (termo suspensivo ou inicial) ou começam
desde logo, mas cessam a partir de certo momento (termo resolutivo ou final).
190. Efeitos (pp. 577)
O acontecimento de que dependem os efeitos do negócio é certo (será normalmente um
momento temporal ou um prazo), não se verifica qualquer retroatividade. Haverá, também aqui, uma
obrigação de proceder segundo a boa fé, a cargo de uma das partes, a fim de não comprometer a
integridade do direito da outra, bem como poderá a parte interessada praticar atos conservatórios do seu
direito tal como sucedia na pendência da condição (artigo 278º do C. Civil).
191. Oponibilidade do termo (pp. 577-578)
Em obediência ao princípio da liberdade contratual, as partes gozam da faculdade de inserir esta
cláusula na generalidade dos negócios, o termo pode ser aposto, em princípio, a qualquer negócio
jurídico.
Esta regra tem exceções, visto que há negócios que não admitem termo – negócios inaprazáveis
-, os quais coincidem, em regra, com os negócios incondicionáveis.
Há negócios, que não podem ser celebrados a termo, embora admitam cláusula condiciona,
como sucede com a constituição da propriedade, e, em certos termos, com a instituição de herdeiro e a
nomeação de legatário.
Quanto às consequências da aposição de um termo a um negócio que não admite, a lei, tal como
sucede com a aposição de uma condição a um negócio incondicionável, determina ela mesma, por vezes,
a sanção a aplicar, podendo esta consistir na nulidade do negócio (artigo 848º do C. Civil), ou apenas na
nulidade do termo, mantendo-se válido o negócio (artigos 1618º, nº2 e artigo 2243º do C. Civil).
Se a lei for omissa quanto à sanção a aplicar, parece impor-se a nulidade de todo o negócio, com
base no artigo 294º do C. Civil.
192. Modalidades (pp. 578-580)
I – Termo inicial, suspensivo ou dilatório e termo final, resolutivo ou perentório. Assenta num
critério baseado na influência que a verificação do facto futuro (mas certo) tem sobre a existência ou a
exercitabilidade dos efeitos do negócio. Se os efeitos do negócio só começam ou só se tornam exercitáveis
a partir de certo momento, o termo diz-se suspensivo ou inicial; se começam desde logo, mas cessam a
partir de certo momento, o termo diz-se resolutivo ou final.
II – Termo certo e termo incerto. O termo, como foi referido, refere-se a um acontecimento
futuro, mas certo, pelo que o critério da distinção entre termo certo e incerto não tem a ver com a
verificação do facto – mas com o momento da verificação.
O termo é certo quando se sabe antecipadamente o momento exato em que se verificará, e
incerto quando esse momento é desconhecido.
Chama-se prazo ao período de tempo que decorre entre a realização do negócio e a ocorrência
do termo, embora se possam atribuir outros sentidos àquela expressão.
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III – Termo “expresso” (ou próprio) e termo “tácito” (ou impróprio). O termo, cláusula acessória
do negócio jurídico, existe por vontade das partes. São estas que decidem sobre a oponibilidade de termo
nos negócios que efetuam. Quando assim sucede, estamos perante o termo “expresso” ou próprio.
Pode acontecer, porém, que o termo exista, não por vontade das partes, mas imposição da lei –
termo legal. É o termo dito “tácito” ou impróprio.
IV – Termo essencial e termo não essencial. O termo diz-se essencial quando a prestação deve
ser efetuada até à data estipulada pelas partes (termo próprio) ou até um certo momento, tendo em
conta a natureza do negócio e/ou a lei (termo impróprio). Ultrapassada essa data – termo essencial,
próprio ou impróprio – o não cumprimento é equiparado à impossibilidade da prestação (artigos 801º e
seguintes do C. Civil).
Diz-se não essencial o termo que, depois de ultrapassado, não acarreta logo a impossibilidade da
prestação, apenas gerando uma situação de mora do devedor.
O termo essencial – fixado no momento da celebração do negócio, ou só posteriormente, nos
termos do artigo 808º do C. Civil.
193. Cômputo do termo (pp. 580-581)
Se as partes tiverem fixado um termo que corresponda a um determinado dia do calendário, as
dificuldades desaparecerão ou serão apreciavelmente atenuadas. Mas se se limitarem a estabelecer um
certo período de tempo, após o qual o negócio produzirá os seus efeitos. Algumas dúvidas e interrogações
poderão surgir.
Naturalmente que as partes (ou a lei) podem definir regras próprias destinadas a solucionar
questões desta ordem. Frequentemente, porém, nada estipulam a esse respeito, pelo que se impõe
conhecer as regras – supletivas – aplicáveis, em geral, à fixação do termo e ao modo de proceder à sua
contagem.
Tais regras constam do artigo 279º do C. Civil, que se o termo se referir ao princípio, meio ou fim
do mês, se deve entender como tal, respetivamente, o primeiro dia, o dia 15 e o último dia do mês,
aplicando-se idêntico critério se o termo se referir ao princípio, meio ou fim do ano (alínea a)); na
contagem do prazo não se inclui o próprio dia em que ocorreu o evento a partir do qual começa o prazo
a correr (alínea b)); o prazo que termine em domingo ou dia de feriado transfere-se para o primeiro dia
útil (alínea e)).
Capítulo III – Modo, encargo ou cláusula modal
194. Conceito (pp. 583)
Cláusula acessória típica, pela qual, nas doações e liberdades testamentárias, o disponente
impõe ao beneficiário da liberdade um encargo, isto é, a obrigação e adotar um certo comportamento no
interesse do disponente, de terceiro ou do próprio beneficiário.
Referem-se-lhe os artigos 963º do C. Civil (doações com cláusula modal) e o artigo 2244º do C.
Civil (instituição de herdeiro e nomeação de legatário sujeitas a encargos).
195. Distinção do modo e da condição (pp. 583-585)
I – O modo só pode ser aposto às liberdades, enquanto a cláusula condicional é oponível, salvas
as exceções constantes da lei, a todos os negócios (gratuitos ou onerosos).
Enquanto a cláusula modal se traduz na imposição, ao beneficiário da liberdade, do dever de
adotar uma certa conduta, a condição pode ter como evento condicionante um facto de qualquer das
partes, um facto natural ou de terceiro ou um evento de caráter misto.
II – Se a condição é suspensiva não se produzem imediatamente os efeitos do negócio,
mantendo-se o período da pendência até à verificação ou não verificação do evento condicionante.
A cláusula condicional, cujo evento se traduz em o credor condicional não dar ou não fazer
alguma coisa, é, porém, normalmente uma condição resolutiva (artigo 2234º do C. Civil). Nesta os efeitos
do negócio produzem-se imediatamente, tal como no negócio a que foi aposta uma cláusula modal.
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O preenchimento da condição resolutiva produz a automática resolução do negócio jurídico com
eficácia retroativa, mesmo em relação a terceiros, salva as regras do registo, o não cumprimento culposo
do modo dá, e só em certas circunstâncias adiante explicadas, ao disponente ou aos seus herdeiros a
possibilidade de pedir a resolução da liberdade e sem eficácia retroativa para com terceiros. Quer dizer:
a condição resolutiva resolve automaticamente, mas não obriga e o modo obriga, mas dá apenas o direito
de pedir a resolução.
III – Saber se, num caso concreto, estamos perante uma cláusula modal ou uma cláusula
condicional é um problema de interpretação dos negócios jurídicos.
Em nome do princípio da conservação dos negócios jurídicos, é sustentada pela doutrina a
solução segundo a qual, em caso de dúvida, a estipulação deve ser qualificada antes como modo do que
como condição.
196. Valor do modo impossível ou ilícito (pp. 585-586)
No que toca aos efeitos da cláusula modal impossível ou ilícita, entre doações e testamentos, e,
dentro das doações, consoante o encargo era de natureza patrimonial ou de valor puramente moral. A
nulidade da cláusula modal impossível ou ilícita nunca implicava a nulidade de todo o negócio nos
testamentos, mas já não sucedia assim nas doações, onde tal efeito podia ter lugar, embora não
necessariamente, nem talvez, normalmente.
Os encargos ilícitos têm-se igualmente por não escritos, ainda que o disponente disponha o
contrário.
A nulidade é, portanto, parcial, isto é, mantém-se o restante conteúdo da liberdade, que assim
resulta ampliada, sendo tal regime supletivo no que toca ao modo impossível, e imperativo para o modo
ilícito.
197. Inadimplemento do modo (pp. 586-587)
A doação com encargos, como qualquer outra doação, é um contrato em que, por força da sua
declaração negocial de aceitação, o donatário assume a obrigação de adotar o comportamento a que se
refere a cláusula modal.
Não bastará, portanto, provar, por qualquer meio, que a cláusula modal foi causa impulsiva da
doação, isto é, que o doador a não teria feito se soubesse que o inadimplemento teria lugar; é necessário
que o direito de resolução lhe seja conferido pelo contrato e, portanto, corresponda a uma vontade real
suscetível de desentranhar a sua eficácia em sede interpretativa.
Capítulo IV – Cláusula Penal
198. Conceito e importância prática (pp.589-591)
I – Cláusula penal é a estipulação em que as partes convencionam antecipadamente uma
determinada prestação, normalmente uma quantia em dinheiro, que o devedor terá de satisfazer ao
credor em caso de não cumprimento, ou de não cumprimento perfeito da obrigação. Pode, assim, revestir
duas modalidades: cláusula penal compensatória ou moratória, conforme tenha sido estipulada para o
não cumprimento da obrigação ou para a simples mora do devedor.
A cláusula penal é acessória da obrigação principal, pelo que as vicissitudes desta se refletirão na pena
convencional (designação por que também é conhecida). Assim, se a obrigação principal for nula, nula é
a cláusula penal (artigo 810º do C. Civil)
O credor que pretenda ser indemnizado dos prejuízos resultantes da violação do contrato terá
de fazer a prova, através da ação judicial competente, dos prejuízos sofridos.
A cláusula definida no artigo 800º, nº1 do C. Civil é primeira de liquidação prévia do dano.
199. Espécies de cláusulas penais e respetivo regime (pp. 591-598)
I – Chamamos de cláusula de fixação antecipada da indemnização àquela em que as partes, ao
estipulá-la, visam, tão só, liquidar antecipadamente, o dano futuro.
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II – Uma outra espécie de cláusula modal é aquela em que o escopo é puramente coercitivo e a
sua índole, por isso, exclusivamente compulsivo-sancionatória.
A finalidade da mesma é de ordem exclusivamente compulsória; destina-se, tão-só, a pressionar
o devedor ao cumprimento, não a substituir a indemnização a que houver direito, nos termos gerais.
III – A cláusula penal em sentido estrito, ou cláusula penal propriamente dita. Em sentido
estrito, a pena visa compelir o devedor ao cumprimento – nisto se distingue ela da oena como liquidação
do dano e se aproxima da pena estritamente compulsória.
IV – A cada figura ou espécie da cláusula penal corresponde um regime jurídico próprios. As
soluções consagradas no artigo 811º do C. Civil pressupõe uma dessas espécies, mais exatamente, a
cláusula de fixação antecipada da indemnização. E só neste caso é que a pena, objeto da cláusula, será
uma indemnização predeterminada.
Nos restantes casos, a pena é uma sanção de índole compulsória, podendo acrescer à
indemnização ou, ao invés, substituí-la, em conformidade com o escopo visado. O que não impedirá, em
todo o caso, uma vez verificados os respetivos pressupostos, o recurso ao artigo 812º do C. Civil ainda
que por analogia.
VI – Note-se, por fim, que o credor não fica, no caso de o devedor se recusar a cumprir,
estritamente vinculado à pena estabelecida, podendo optar pelo cumprimento forçado da obrigação,
através da execução específica.
Capítulo V – Cláusulas limitativas e de exclusão de responsabilidade civil
200. Conceito e importância prática (pp. 599-601)
I – Cláusulas limitativas de responsabilidade são estipulações através das quais só os contraentes,
no momento da celebração do contrato – ou posteriormente, desde que antes da verificação do facto
gerador da responsabilidade – acordam em limite, de alguma forma, a responsabilidade do devedor pelo
não cumprimento, cumprimento defeituoso ou mora das obrigações assumidas.
201. Regime (pp. 601-604)
I – Quanto à cláusula limitativa de responsabilidade, pensamos não ser abrangida pela proibição
constante do artigo 809º do C. Civil, norma que impede o credor de renunciar antecipadamente a certos
direitos, entre eles, o de indemnização.
Por outro lado, admite a lei, como vimos, no artigo 810º do C. Civil, a possibilidade de as partes
fixarem por acordo o montante da indemnização exigível.
Capítulo VI – O problema da pressuposição ou da alteração das circunstâncias que fundaram a decisão
de contratar
202. Conceito (pp. 605-606)
A alteração das circunstâncias do negócio implica a não verificação de uma circunstância
pressuposta ou de uma pressuposição, sempre que a evolução do circunstancialismo não foi considerada
pelo declarante.
A noção de pressuposição, consiste na convicção, consciente ou subconsciente, da verificação no
futuro de uma dada circunstância ou estado de coisas, convicção determinante da realização de um
contrato, pois, de outro modo, não se teria celebrado o negócio ou só teria tido lugar a sua realização
noutros termos.
As partes – ou apenas uma delas – tiveram como certa a verificação de um dado acontecimento
ou estado de coisas e, por isso, contrataram.
203. Critérios de relevância da alteração da base do negócio (pp. 606-612)
I – O problema traduz-se, pois, em saber se a alteração das circunstâncias que fundaram a
decisão de contratar, e que foram, consciente ou subconscientemente, consideradas como continuando
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ou vindo a verificar-se no futuro, deve importar uma resolução ou modificação do negócio, ou não deve
afetar os termos em que ele foi realizado.
II – A economia do contrato pode ver-se radicalmente alterada por fatores que, tantas vezes, as
partes não controlam e sobre os quais podem nem sequer ter formado qualquer representação.
III – Às partes pode ser facultada a possibilidade de operarem uma extinção ou modificação das
suas vinculações em certos casos de não verificação da pressuposição, segundo o disposto no artigo 437º,
nº1 do C. Civil.
Tem que se verificar os seguintes pressupostos:
a) Alteração anormal das circunstâncias em que as partes fundamentaram a decisão de
contratar.
b) Manutenção do conteúdo contratual afetando gravemente os princípios da boa fé e não
estando abrangida pela álea própria do contrato.
A alteração das circunstâncias deve, pois, ser uma alteração anormal e com consequências tais
que a exigência do cumprimento inalterado implicaria, cumulativamente, uma ofensa aos princípios da
boa fé e a imposição de uma situação que não corresponderia aos riscos próprios do contrato.
IV – Desde logo, é de assinalar que o fundamento da resolução ou modificação do contrato não
se limita à excessiva onerosidade superveniente da prestação, mas estende-se a outros casos em que esse
resultado igualmente se legitime.
204. Consequências (pp. 612-613)
I – Verificados os requisitos do artigo 437º do C. Civil, a parte lesada tem direito à resolução do
contrato ou à sua modificação, segundo juízos de equidade. A parte contrária pode também, requerida a
resolução, opor-se ao pedido, desde que aceite a recondução do conteúdo contratual aos termos
correspondentes àqueles juízos de equidade (nº2 do artigo 437º do C. Civil).
Capítulo IV – Ineficácia e invalidade dos negócios jurídicos
205. Ineficácia dos negócios jurídicos (lato sensu). Noção. Ineficácia stricto sensu e invalidade. Outras
formas de ineficácia em sentido lato. (pp. 615-616)
A ineficácia em sentido amplo tem lugar sempre que um negócio não produz, por impedimento
decorrente do ordenamento jurídico, no todo ou em parte, os efeitos que tenderia a produzir, segundo o
teor das declarações respetivas.
A invalidade é uma espécie do género ineficácia: enquanto a ineficácia lato sensu compreende
todas as hipóteses em que, por causas intrínsecas ou extrínsecas, o negócio não deve produzir os efeitos
a que tendia, a invalidade é a apenas a ineficácia que provém de uma falta ou irregularidade dos
elementos internos (essenciais, formativos) do negócio.
O conceito de ineficácia em sentido estrito definir-se-á, coerentemente, pela circunstância de
depender, não de uma falta ou irregularidade dos elementos internos do negócio, mas de alguma
circunstância extrínseca que, conjuntamente com o negócio, integra a situação complexa produtiva de
efeitos jurídicos.
Na invalidade, a ausência de produção dos efeitos negociais resulta de vícios ou de deficiências
do negócio, contemporâneos da sua formação.
206. Modalidades de ineficácia em sentido estrito (pp. 616-617)
I – Ineficácia absoluta e Ineficácia relativa. A ineficácia é absoluta quando atua
automaticamente, erga omnes, podendo ser invocada por qualquer interessado. A ineficácia será relativa
se se verificar apenas em relação a certas pessoas (inoponibilidade), só por elas podendo ser invocada (o
negócio embora eficaz noutras direções, é oponível a certas pessoas).
Os negócios feridos de ineficácia relativa produzem, pois, efeitos, mas não estão dotados de
eficácia relativamente a certas pessoas. Daí que sejam, por vezes, apelidados de negócios bifrontes ou
negócios com cabeça de Jano. A ineficácia relativa surge-nos em situações caraterizadas pela existência
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de um direito, de uma expetativa ou de um interesse legítimo de um terceiro, quer seriam prejudicados
pelo negócio de disposição ou de vinculação em causa. O negócio é relativamente ineficaz, por força do
impedimento, resultante daquela posição legítima do terceiro acerca do conteúdo do ato.
II – Ineficácia total e ineficácia parcial. A distinção refere-se à circunstância de o vício impedir a
produção de quaisquer efeitos ou só afetar parte dos efeitos negociais.
207. Inexistência e invalidade (nulidade e anulabilidade) dos negócios jurídicos (pp. 617-620)
I – Inexistência e invalidade. A inexistência é uma figura autónoma, com consequências mais
graves do que a nulidade e a anulabilidade. Quanto à inexistência, afirma-se estarmos perante uma figura
quando nem sequer aparentemente se verifica o corpus de certo negócio jurídico (materialidade
correspondente à noção de tal negócio), ou, existindo embora essa aparência material, a realidade não
corresponde a tal noção. A valoração de um negócio como nulo ou anulável pressupõe, pelo menos, que
o negócio exista, isto é, que se verifiquem os elementos correspondentes ao seu tipo, sem embargo de
ocorrer, nesses elementos, alguma anormalidade.
II – Nulidade e anulabilidade. Invalidades mistas. O negócio nulo não produz, desde o início, por
força da falta de vício de um elemento interno ou formativo, os efeitos a que tendia.
O negócio anulável, não obstante a falta ou vício de um elemento interno ou formativo, produz
os seus efeitos e é tratado como válido, enquanto não for julgada procedente uma ação de anulação.
208. Regime das nulidades (pp. 620-621)
a) Operam “ipso iure” ou “ipsa vi legis”. Não se torna necessário intentar uma ação ou emitir uma
declaração nesse sentido, nem sequer uma sentença judicial prévia, e podem ser decretadas ex
officio pelo tribunal (artigo 286º do C. Civil).
b) São invocáveis por qualquer pessoa interessada, isto é, pelo sujeito de qualquer relação jurídica
afetada, na sua consistência jurídica ou prática, pelos efeitos a que o negócio se dirigia (artigo
286º do C. Civil).
c) São sanáveis pelo decurso do tempo, isto é, são invocáveis a todos o tempo (artigo 286º do C.
Civil).
d) São insanáveis mediante confirmação (artigo 288º do C. Civil). Pode, todavia, ter lugar aqui um
sucedâneo da confirmação: a chamada renovação ou reiteração do negócio nulo. Há algumas
diferenças entre a confirmação e a renovação. A confirmação é um negócio unilateral; a
renovação, nos contratos nulos, é um novo contrato. A confirmação tem efeito retroativo,
mesmo em relação a terceiros; a renovação opera ex nunc, mesmo que o fundamento da
nulidade tenha desaparecido, embora, por estipulação ad hoc, possa ter eficácia retroativa nas
relações inter partes. A renovação pode ter lugar por declaração tácita nos termos gerais, mas
exige o conhecimento da nulidade, ou dúvidas quanto à validade do negócio.
209. Regime da anulabilidade (pp. 621-624)
O negócio anulável é, em princípio, apesar do vício, tratado como válido. Se não for anulado, no
prazo legar e pelas pessoas com legitimidade, passa a ser definitivamente válido, considera-se que os
efeitos visados não se produziram desde o início, como nunca tendo tido lugar.
São as seguintes as caraterísticas da anulabilidade:
a) Têm de ser invocadas pela pessoa dotada de legitimidade. Não podem ser declaradas ex officio
pelo juíz.
b) Só podem ser invocadas por determinadas pessoas e não por qualquer interessado (artigo 278º,
nº1 do C. Civil).
c) São sanáveis pelo decurso do tempo.
d) São sanáveis mediante confirmação (artigo 288º do C. Civil). A confirmação é um negócio
unilateral, pelo qual a pessoa com legitimidade para arguir a anulabilidade declara aprovar o
negócio viciado.
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210. Integração das diversas invalidades em cada uma das categorias (pp. 624-625)
O artigo 287º, nº1 do C. Civil, ao estabelecer que as anulabilidades podem ser arguidas dentro
do ano subsequente à cessação do vício, pressupõe que as invalidades não deixam de existir, por
desaparecer o motivo que as originou.
211. Efeitos da declaração de nulidade e anulação (pp. 625-627)
1) Operam retroativamente (artigo 289º do C. Civil), o que está em perfeita coerência com a ideia
de que a invalidade resulta de um vício intrínseco do negócio e, portanto, contemporâneo da sua
formação. Não se produzem os efeitos jurídicos a que o negócio tendia.
2) Não obstante a retroatividade, há lugar à aplicação das normas sobre a situação do possuidor de
boa fé, em matéria de frutos, benfeitorias, encargos, etc. (artigo 289º, nº3 do C. Civil)
3) Em consonância com a retroatividade, haverá lugar à repristinação das coisas no estado anterior
ao negócio, restituindo-se tudo o que tiver sido prestado ou, se a restituição em espécie não for
possível, o valor correspondente (artigo 289º, nº1 do C. Civil).
212. Invalidade e simples irregularidade (pp. 627)
Enquanto a invalidade importa a destruição dos efeitos negociais, a irregularidade, embora
provenha de um vício interno negocial, tem consequências menos graves, não afetando a eficácia do
negócio, mas dando apenas lugar a sanções especiais.
213. A invalidade e outras formas de cessação dos efeitos negociais (resolução, revogação, caducidade
e renúncia) (pp. 627-632)
I – A resolução do contrato, com fundamento na lei ou em convenção das partes. Verifica-se este
efeito por força da lei. A resolução não resulta de um vício da formação do contrato, mas de um facto
posterior à sua celebração, normalmente um facto que vem ilidir a legítima expetativa de uma parte
contratante, seja um facto da contraparte (inadimplemento de uma obrigação), seja um facto natural ou
social. Os seus efeitos estão regulados nos artigos 433º e seguintes do C. Civil, onde se determina a
equiparação da resolução, quanto a este ponto, à nulidade ou anulabilidade do negócio.
a) A resolução pode fazer-se mediante declaração à outra parte (artigo 436º e seguintes do C.
Civil); a invalidade, ou atua automaticamente (nulidade), ou implica uma ação judicial
(anulabilidade).
b) A resolução tem, em princípio, efeito retroativo entre as partes, mas tal efeito não se verifica
se contrariar a vontade das partes ou a finalidade da resolução.
c) A resolução nunca prejudica os direitos adquiridos por terceiro (artigo 435º do C. Civil), salvo
se o terceiro adquiriu o seu direito posteriormente ao registo da ação de resolução; a
invalidade opera os seus efeitos em relação a terceiros, ressalvada a hipótese contemplada
no artigo 291º do C. Civil (inoponibilidade da invalidade a terceiros de boa fé, adquirentes a
título oneroso).
II – A revogação tem apenas a consequência de extinguir os efeitos do negócio para o futuro (ex
nunc), não opera, portanto, retroativamente.
Pode ter lugar, igualmente, uma revogação dos contratos por comum acordo, eventualmente
com eficácia retroativa inter partes (artigo 406º, nº1 do C. Civil).
III – A cessação dos efeitos negociais pode ter lugar, sem caráter retroativo, sob forma de
caducidade. Tentando pôr em evidência traços específicos da caducidade, a partir das suas manifestações
legais, devemos assinalar:
a) A sua causa é algo objetivo.
b) Atua automaticamente ou de pleno direito.
c) Não tem caráter retroativo.
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IV – A denúncia carateriza-se especificamente por ser a faculdade existente na titularidade de
um contratante de, mediante mera declaração, fazer cessar uma relação contratual ou obrigacional em
sentido amplo, a que está vinculado, emergente de um contrato bilateral ou plurilateral.
214. O problema da redução dos negócios jurídicos (pp. 632-639)
I – Posição do problema. Trata-se de saber se, no caso de um fundamento de invalidade ser
relativo apenas (afetar apenas) a uma parte do conteúdo negocial, o negócio deve valer na parte restante
(não afetada) ou deve ser nulo ou anulável na sua totalidade.
II – Solução do problema. Na doutrina propõe-se, predominantemente, o critério da vontade
hipotética ou conjetural das partes, “não uma vontade real, mas uma vontade como que fingida ou
construída pelo juiz”. Trata-se de averiguar aquilo que as partes teriam querido provavelmente se
soubessem que o negócio se opunha parcialmente a alguma disposição legal e não pudessem realizá-lo
em termos de ser válido na sua integridade.
III – Na nova lei, o problema é tratado genericamente no artigo 292º do C. Civil. Determine-se,
em princípio, a redução dos negócios jurídicos parcialmente nulos ou anuláveis. A invalidade total só
poderá ter lugar, se se provar que o negócio não teria sido concluído sem a parte viciada. No sentido da
redução ou em caso de dúvida – a invalidade parcial não determina a invalidade total.
IV – Por vezes, a redução deve ter lugar, mesmo que a vontade hipotética fosse no sentido da
invalidade total. Assim:
a) Quando a invalidade parcial resultar da infração de uma norma destinada a proteger uma
parte contra a outra, haverá redução, mesmo que haja vontade, hipotética ou real, em
contrário. Trata-se de uma “redução teleológica”, no sentido de ser determinada pela
necessidade de alcançar plenamente as finalidades vidadas pela norma imperativa
infringida.
b) Quando, verificada a invalidade parcial, seja conforme à boa fé, numa apreciação atual, que
o restante conteúdo do negócio se mantenha, ainda que a vontade hipotética, reportada ao
momento da conclusão do negócio, fosse diversa. Trata-se, pois, de apurar se é justo
(conforme a boa fé contratual) que, uma vez concluído o negócio, se mantenha o seu
restante conteúdo, independentemente de ser nesse sentido a vontade hipotética das
partes. Hoje, a redução em conformidade com a boa fé fundar-se-á nos critérios constantes
do artigo 239º do C. Civil.
215. O problema da conversão dos negócios jurídicos (pp. 639-644)
I – Os termos do problema. Trata-se de saber se, declarado nulo ou anulado totalmente um
negócio, este não produzirá quaisquer efeitos negociais ou se, dades certos requisitos, não poderá
reconstituir-se, com os materiais do negócio totalmente inválido, um outro negócio, cujo resultado final
económico-jurídico, embora mais precário, se aproxime do tido em vista pelas partes com a celebração
do contrato totalmente inválido.
II – Requisitos de admissibilidade:
1) É necessário que o negócio inválido contenha os requisitos essenciais de forma e substância
(capacidade, objeto, vontade), necessários para a validade do negócio sucedâneo.
2) Exige-se que a vontade hipotética ou conjetural das partes seja no sentido da conversão. Só
haverá conversão, quando se imponha a conclusão de que as partes teriam querido o
negócio sucedâneo se, na hipótese de se terem apercebido do vício do negócio principal,
não pudessem tê-lo celebrado sem essa deficiência.
3) É frequentemente exigido pela doutrina que o negócio sucedâneo diga respeito ao mesmo
objeto material a que respeitava o negócio principal.
III – Admissibilidade da conversão no nosso direito. A conversão é genericamente regulada no
artigo 293º do C. Civil, onde são formulados os requisitos coincidentes com os enunciados pela doutrina.
A conversão exige a prova da vontade hipotética ou conjetural das partes, não tendo lugar em caso de
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dúvida. A conversão poderá ter lugar, independentemente da vontade hipotética das partes, se a boa fé
o exigir (artigo 239º e 334º do C. Civil).
Para além desta norma que resolve, em geral, o problema da conversão dos negócios jurídicos,
a produção do mesmo fenómeno é, sem atender à vontade hipotética, expressamente determinada em
disposições particulares.
IV – A conversão e certas figuras próximas.
a) A conversão e a validade do negócio dissimulado na simulação relativa: o negócio
dissimulado é realmente querido, enquanto o negócio sucedâneo, na conversão,
corresponde apenas à vontade hipotética das partes.
b) A conversão dos negócios nulos ou anuláveis e a chamada conversão formal dos negócios
jurídicos: nesta última hipótese, mas do simples aproveitamento de um documento, nulo
enquanto documento de certo tipo.
c) A conversão e os negócios jurídicos com vontade alternativa: os negócios jurídicos com
vontade alternativa são negócios em que as partes preveem, desde logo, a hipótese de o
negócio visado, em primeira linha, ser nulo ou ineficaz e manifestam a vontade de, nessa
hipótese, valer um negócio de conteúdo diverso, que, de algum modo, satisfaz, em segunda
linha, o seu interesse; o negócio sucedâneo assenta aqui na vontade real das partes,
enquanto na conversão assenta na vontade hipotética.
Título III – Do Contrato
216. Razão de ser deste título (pp. 645-646)
I – A espécie mais importante de negócio jurídico é o contrato. A teoria do negócio jurídico, é na
via económica e social, importante sobretudo quando aplicável aos negócios jurídicos bilaterais ou
contratos.
Na verdade, a maioria dos negócios jurídicos mais importantes e significativos, designadamente,
na esfera económica são os contratos, e, além disso, é sobretudo em relação a estes que se suscitam
frequentemente problemas jurídicos.
II – Afigura-se importante tratar, em título autónomo, do contrato, ainda que de modo muito
sucinto e restringindo o nosso estudo a breves aspetos. Na verdade, a matéria da sua formação está
incluída na Parte Geral do C. Civil – encontrando-se mesmo, a propósito da declaração negocial,
disposições que se aplicam tão só aos contratos.
217. Regime geral do contrato (em particular, a formação do contrato) (pp. 647-654)
I – O contrato, ou negócio jurídico bilateral, é formado por duas ou mais declarações de vontade,
de conteúdo oposto mais convergente, que se ajustam na sua comum pretensão de produzir resultado
jurídico unitário, embora com um significado para cada parte.
O contrato não é integrado por dois negócios unilaterais; antes cada uma das declarações
(proposta e aceitação) é emitida em vista do acordo. Por outro lado, as declarações podem ser emitidas
separadamente – por exemplo, em documentos autónomos -, desde que traduzam um consenso
contratual. Para o contrato estar concluído, este consenso tem de incluir todas as cláusulas sobre as quais
qualquer delas tenha julgado necessário o acordo (artigo 232º do C. Civil).
II – Na formação do contrato podem discernir-se – senão sempre, pelo menos normalmente –
duas declarações negociais; proposta (ou oferta) e aceitação, que se conciliam num consenso.
Sendo o contato integrado por duas declarações, põe-se o problema de saber qual o momento
da sua perfeição. O problema, que surge quanto aos contratos entre ausentes, é importante, não só para
a localização do contrato no tempo e no espaço, como para o início da produção dos seus efeitos, e,
eventualmente, para o limite da revogabilidade das declarações pelo qual se forma.
Várias doutrinas abordam a questão:
a) Doutrina da aceitação, dita também da exteriorização ou da declaração: o contrato está
perfeito quando o destinatário da proposta declarou aceitar a oferta que lhe foi feita,
admitindo-se, portanto, que o contrato estivesse formado ainda antes de o proponente ter
sequer a possibilidade de conhecimento da aceitação.
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b) Doutrina da perceção (ou da cognição ou da informação): situa-se no extremo temporal
oposto à anterior, pois o contrato só está perfeito quando o proponente tomou
conhecimento efetivo da aceitação.
c) Doutrina da expedição: o contrato está perfeito quando o destinatário expediu, por
qualquer meio, como telegrama, carta.
d) Doutrina da receção: o contrato está perfeito quando a resposta contendo a aceitação chega
à esfera de ação do proponente, isto é, quando o proponente passa a estar em condições de
a conhecer.
III – Quanto à proposta de contrato, é irrevogável depois de recebida pelo destinatário ou de ser
dele conhecida (artigo 230º C. Civil).
A consagração, no nosso direito, da doutrina da irrevogabilidade da proposta significa que esta
só fica sem efeito se o destinatário receber uma retratação do proponente ou dela tiver conhecimento
antes de receber a proposta ou ao mesmo tempo que esta (nº2 do artigo 230º do C. Civil). Não vigora,
pois, a doutrina que admite a revogação da proposta se a referida revogação (retratação) chegar ao
destinatário antes de este ter expedido a aceitação.
A retração ou revogação da proposta ou da aceitação tem lugar – repete-se – se a declaração
revogatória chegou ao poder da outra parte ao mesmo tempo ou antes do que as declarações de proposta
ou de aceitação.
IV – Registe-se que uma proposta contratual só existirá se for suficientemente precisa, dela
resultar a vontade de o seu autor se vincular e houver consciência de se estar a emitir uma verdadeira
declaração negocial. Quando se dirige uma proposta a pessoas indeterminadas, deve entender-se que em
princípio existe apenas um convite para contratar. Não há ainda oferta de contratar. Chama-se também
a atenção para o papel da publicidade na formação do contrato, e a relevância que o nosso legislador lhe
entendeu conferir.
V – Destaque-se, ainda, sobre a formação do contrato, o artigo 227º do C. Civil (“culpa na
formação dos contratos” ou culpa in contrahendo), que manda pautar a conduta das partes pelos
princípios da boa fé, entendida esta num sentido ético, quer durante a fase negociatória, quer durante a
fase decisória (proposta e aceitação) do contrato.
Esta responsabilidade pré-contratual tanto vale no caso de rutura de negociações, como no caso
de o contrato se concluir e vir a ser nulo ou ineficaz, ou, ainda, se, por causa da violação dos ditames da
boa fé por uma parte, vier a ser concluído com um conteúdo diferente.
O dano a ser ressarcido pela responsabilidade pré-contratual é, em princípio, o chamado “dano
da confiança”, resultante da lesão do interesse contratual negativo.
218. As cláusulas contratuais gerais e os contratos de ou por adesão (pp. 654-658)
- ponto irrelevante para Teoria Geral do Direito Civil II aprofundada em Direito Comercial.
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