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Foi recebido com uma gritaria infernal, de entusiasmo, não
só pela surra que dera no Capitão Gancho, como pela
habilidade com que salvara Wendy e também a si próprio.
— "Viva! Viva Peter Pan!" — gritavam todos, pulando e
batendo palmas. — "Viva o menino que não tem medo de nada!"
Todos abraçaram-se, beijaram-se e disseram-se mil coisas.
Pantera Branca narrou a triste história do combate em que seus
índios foram derrotados pelos piratas. Wendy contou a história
do seu vôo amarrada ao rabo do papagaio,
e de como conseguira agarrar-se a uma árvore perto daquele
ponto. Os outros nada contaram, porque nada haviam feito.
A grande aventura do Lago das Sereias tinha acabado
muito bem. Só havia neste ou naquele um ou outro arranhão —
isto sem contar os seis riscos de ganchadas que Wendy
descobriu nas costas de Peter Pan.
— "Vamos depressa para casa" — disse a menina aflita.
— "Preciso preparar um remédio para essas machucaduras."
Dona Benta interrompeu a história nesse ponto, deixando
o resto para o dia seguinte.
Começaram os comentários.
— Só não gostei duma coisa — disse Emília. — Peter Pan
não devia ter deixado os ovos no ninho. Se eu fosse ele, levava-
os para chocar na casinha.
— Chocar omeleta? — disse tia Nastácia. — Aposto que os
ovos ficaram numa pasta! Onde já se viu um meninão como
aquele viajar dentro dum ninho sem quebrar os ovos todos? O
contador da história nunca foi cozinheiro e por isso não
entende de ovos. Mas eu, que sou cozinheira, sei muito bem o
que aconteceu. Virou tudo omeleta...
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O Visconde nada disse. Andava de olhinho aceso,
examinando as poeirinhas do chão e "deduzindo." O que ele
queria saber era uma coisa só: qual o rato que roía a sombra da
negra...
IV
A morada subterrânea
No outro dia, assim que tia Nastácia acendeu o lampião da
sala de jantar, o caso da sombra veio novamente à berlinda. A
negra colocou-se entre a luz e a parede e todos puderam ver
que sua sombra havia diminuído de mais um bom pedaço.
— Veja, Sinhá — dizia ela com o beiço pendurado. — Estou
só com um toco de sombra. Neste andar acabo sem sombra
nenhuma e vai ser uma grande desgraça...
Dona Benta pôs os óculos e viu que era isso mesmo.
— O Visconde ainda não descobriu coisa nenhuma?
— Estou na pista — respondeu o pequeno sherlock. — Já
examinei cuidadosamente o corte e vi que foi feito com
tesoura. Ando agora a examinar o fio de todas as tesouras
existentes nesta casa. Pela comparação hei de descobrir com
qual delas o "rato" anda cortando esta sombra — e depois...
— E depois o quê? — perguntou Emília com carinha de
santa.
— Depois, veremos.