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Ficaram todos desapontadíssimos e Miguel chegou a fazer
cara de choro. Se não chorou de verdade foi porque Bicudo
avistou outra sereia numa rocha mais adiante.
— "Lá está uma sereia-menina, das fáceis de pegar!" —
cochichou ele, apontando. — "Temos que ir com muitas
cautelas."
Era uma sereiazinha das mais lindas que a gente possa
imaginar. Teria aí seus sete anos de idade, já sabia pentear-se
com o seu pentinho de ouro e já começava a cantar as
primeiras cantigas. Tão distraída estava, a seguir os
movimentos dum caranguejo na pedra, que deixou os meninos
se aproximarem até bem perto. Miguel, que vinha na frente, não
se conteve e — zás! — deu um pulo em cima dela.
— Pegou? — quis saber Narizinho, ansiosíssima.
— Desta vez pegou — respondeu Dona Benta — mas não a
segurou bem. As sereias são as criaturas mais lisas que
existem, dez vezes mais que o sabão, de modo que a
sereiazinha escorregou das unhas de Miguel e lá se foi para o
fundo, tal qual a primeira.
— Que pena, vovó! — exclamou Narizinho. — Todas as
histórias de sereias acabam sempre assim. Quando chega a
hora de agarrar uma, acontece isto ou aquilo e elas escapam...
— Hei de fazer uma história diferente — declarou Emília.
Uma história onde todas as sereias sejam agarradas e
amarradas e trazidas para a cidade dentro dum caminhão.
— Pois você errará, Emília, se escrever uma história assim
— disse Dona Benta. — Além de ser uma judiação arrancar do
seu elemento criaturas tão lindas, essa pesca e essa trazida
para a cidade em caminhão viria destruir a beleza e o mistério
das sereias. Sabe o que acontecia? Os jornais davam o retrato
delas impresso em tinta preta (nos
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livros elas aparecem em lindas pinturas de cores macias); os
sábios de óculos vinham estudá-las, isto é, abri-las com as suas
facas chamadas bisturis para ver o que tinham dentro, e mil
outros horrores. Não, Emília. É melhor que ninguém nunca
pegue uma sereia — nem você tampouco. Na sua historinha,
agarre a sereia, mas faça que ela escape no momento de entrar
para o caminhão. Ficará muito mais poética a sua historinha, eu
garanto.
— Credo! disse tia Nastácia. — Os homens são tão
malvados que até eram capazes de picar as coitadas em
pedaços, para vender nos açougues lombo de sereia, entrecosto
de sereia, rabo de sereia, miolo de sereia...
— Continue, vovó — pediu Pedrinho. — A sereiazinha
escapou e...
— E sumiu-se no fundo d’água, indo avisar as outras, de
modo que naquele dia não houve mais sereias na superfície do
lago.
— E os meninos voltaram para a casinha de Wendy...
— Não. Em vez de sereia apareceu ao longe um bote. Os
piratas do Capitão Gancho, que haviam ancorado o seu navio a
uns dez ou doze quilômetros daquele ponto, lá vinham vindo
de bote para o lado dos pegadores de sereias.
Como fosse grande o perigo, a meninada tratou de voltar
para a praia quanto antes. O meio era um só — nadar, e pois
lançaram-se à água e nadaram para terra sem sequer volver os
olhos para trás. Só Peter Pan se animou a fazer isso. Olhou e viu
que Pantera Branca, a chefa dos índios Peles-Vermelhas, vinha
de pé à proa do bote, amarrada com cordas.
Peter Pan franziu a testa. Fazia assim sempre que tinha de
resolver um problema urgente. Parece que com o tal
franzimento de testa ele espremia o cérebro para que