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— Sim — disse Dona Benta — mas repare que é sempre
praga de milhões apenas. Só esse Capitão Gancho usava as tais
pragas de bilhões, e por isso ficou terrível. Um bilhão compõe-
se de mil milhões. Ora, quando ele praguejava com seiscentos
bilhões de demónios, como fez em relação a Peter Pan, esse
número queria dizer seiscentos milhares de milhões, ou
seiscentos montes de mil milhões cada um. Eu até creio que ele
não era forte em aritmética, pois é impossível que haja tantos
demônios assim...
— Credo! — exclamou tia Nastácia persignando-se. — Um
demônio já deixa a gente tonta, como aquele Lúcifer que fez a
revolução dos anjos lá no céu e foi jogado no Inferno.
Imaginem agora seiscentos montes de não sei quantos cada um.
Credo...
— Continue, vovó — pediu Narizinho. — O Capitão Gancho
sentou-se no chapéu-de-sapo e depois?
— Sentou-se e logo deu um pulo,- porque o tal chapéu-de-
sapo estava quente como chapa de fogão. Furioso da vida,
pregou-lhe um tremendo pontapé, fazendo-o voar dali com um
som metálico. Aquele som abriu os olhos do pirata.
— "Hum!" — exclamou ele, percebendo que não era chapéu-
de-sapo natural e sim uma ponta de chaminé que saía de dentro
da terra e tinha a forma de chapéu-de-sapo.
— "Oitocentos bilhões de diabos me assem vivo em todos os
fogos do Inferno, se isto não é arteirice do Senhor Peter Pan e
mais os seus meninos perdidos! Descobri tudo! Eles moram
aqui embaixo, nalgum buraco subterrâneo."
Disse e pôs-se a examinar o terreno, dando pancadas no
solo com a ponta dos dedos, como fazem os médicos para
examinar o pulmão dos doentes. O som era de terra oca
embaixo. O chefe dos piratas ficou radiante. Tinha descoberto o
esconderijo dos meninos e agora iria caçá-los
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como se caçam ratos. Pôs-se a examinar o terreno. Viu que não
havia entrada nenhuma afora os ocos das árvores. Tentou
descer por um deles (justamente o oco de Bicudo) e entalou.
Não cabia. Ficou danado, espirrou mais alguns bilhões de
demônios e teve uma idéia sinistra.
— "Achei o meio!" — exclamou. — "Mando preparar um
grande pão-de-ló bem bonito por fora e bem cheio de veneno
por dentro”. Ponho o pão-de-ló ali naquela pedra e vou ficar
espiando de longe. Os meninos perdidos não têm mães para
ensinar-lhes o que devem e o que não devem comer, de modo
que logo saem da caverna e se lançam sobre o doce como lobos
famintos — e eu terei o gosto de vê-los morrer a pior das
mortes.
Em seguida deu uma ordem ao tenente do bando.
— "Olá, Capacete! Diga ao cozinheiro que prepare um pão-
de-ló bem grande e bem bonito e que ponha dentro..."
Não pôde terminar. Um tique-taque muito seu conhecido
fez-se ouvir perto.
— "O crocodilo!" — berrou o chefe dos piratas, disparando
na fuga a todo galope, seguido pelo bando inteiro — e logo se
sumiram no horizonte dentro duma nuvem de pó. O crocodilo,
tique-taque, os acompanhou sem pressa nenhuma, filosofando
que se daquela vez não o havia apanhado, de outra o
apanharia.
— A senhora falou em nuvem de poeira, vovó. Mas a
floresta não estava coberta de neve? — indagou Narizinho.
— Sim, minha filha. Mas a neve logo que cai, acumula-se
solta como farinha. Se dá o vento, voa como poeira. Ora, os
piratas fugiram ventando como tia Nastácia diz quando a
carreira é séria, e portanto levantavam nuvens de neve em pó.
— E que aconteceu depois? — quis saber Pedrinho.