27
Benta na mão, E deu jeito de cortar a cabeça da sombra de tia
Nastácia, que enrolou e foi guardar no fundo de uma gaveta.
Ninguém percebeu a manobra, mas quando chegou a hora
de se recolherem e tia Nastácia foi apagar o lampião:
— Ué! — exclamou ela espantadíssima, vendo projetar-se
na parede a sua sombra sem cabeça. — Que coisa, Santo Deus!
Será que perdi minha cabeça?
E apalpou-se para verificar se estava mesmo sem cabeça.
Só então se lembrou da passagem contada por Dona Benta, e
viu que alguém lhe havia cortado a cabeça da sombra.
— Isso também é demais! — gritou ela. — É judiação.
Cortar a cabeça da sombra duma pobre negra velha que nunca
fez mal a um mosquito... Mas quem foi o malvado?
Olhou para a cara de Pedrinho, de Narizinho, do Visconde
e da Emília e não viu em nenhum deles o menor ar de
criminoso. Emília, sobretudo, estava com uma carinha que era
só botar num quadro e virava Santa Emília — de tão inocente.
Dona Benta foi de opinião que aquilo só podia ser arteirice
do Peninha, ou talvez do próprio Peter Pan, que houvesse
entrado na sala às escondidas, no momento em que todos
estavam mais distraídos com a história.
A boa negra arrenegou, e lá se foi para a cozinha com a sua
sombra sem cabeça, a coisa mais esquisita e feia que se possa
imaginar.
— A gente não tem sossego neste sítio. — resmungava ela.
— Estes meninos endiabrados não param com as reinações.
Uma sombra que me acompanhava desde criança, tão
direitinha, com a cabeça e tudo — e está agora essa coisa
esquisita, que nem aquela rainha Dona Maria
28
Antonieta que Sinhá Benta contou que perdeu a cabeça na tal
janela da guilhotina... Credo!...
II
A Terra do Nunca
No outro dia, antes de Dona Benta continuar a história de
Peter Pan, tia Nastácia apareceu com a sua sombra diminuída
de mais um pedaço no ombro.
— Parece que é um rato que anda roendo a minha sombra
— disse ela colocando-se entre o lampião de cima da mesa e a
parede branquinha. — Veja, Sinhá — acrescentou apontando
para a sombra projetada na parede.
— Está faltando mais um pedaço, bem no ombro. Neste andar
eu acabo sem sombra nenhuma. Isto é uma desgraça.
— Não acho — disse Narizinho. — Tanto faz você ter
sombra como não ter. De que vale sombra?
— Parece, menina, parece que não vale nada — respondeu
a negra. — Mas o mundo é malvado, e se sabem que eu não
tenho sombra são capazes até de me queimarem viva, como
fizeram com a coitadinha da Joana do Arco.
— Joana d'Arc.
— Ou isso. O mundo dá cabo de toda gente que não é igual
a todos os outros. Dona Joana tinha olhos melhores que os do
resto das gentes e por isso via mais coisas, tinha visões. Eles
foram é queimaram a coitada. Se me enxergarem sem. sombra
são capazes de dizer que sou feiticeira. O mundo é mau,
menina. Credo...