21
— É a lua — disse tia Nastácia. — Já reparei que em tempo
de lua cheia Emília dá para espirrar bobagem que nem torneira
aberta que a gente quer tapar com a mão.
Emílio botou-lhe a língua e Dona Benta prosseguiu:
— Mas vamos ao caso. Vocês me interrompem tanto que a
história não pode chegar ao fim. Peter Pan contou a Wendy
como as fadas nascem, e ao falar em fada lembrou-se da bola
de fogo que havia entrado na gaveta. Era uma fada, essa
bolinha, e muito sua amiga. Uma fada que fazia tudo que as
outras fadas fazem, menos falar. Sua fala não passava daquele
tlin, tlin, tlin, de campainha de prata.
Assim que Peter Pan se lembrou da bola de fogo, ou
Sininho, como era o seu nome, um tlin, tlin zangado se fez
ouvir dentro da gaveta.
— "A pobre!" — exclamou Peter Pan. — "Deve estar furiosa
comigo por ter-me distraído com você e esquecido dela.
Sininho é ciumentíssima."
De fato. Sininho saiu da gaveta furiosa. Esvoaçou pelo
quarto por uns instantes, indo afinal esconder-se num canto,
emburrada. Eram ciúmes de Wendy. Mas a menina não deu
nenhuma importância àqueles maus modos; continuou a
conversar com Peter Pan como se não houvesse visto nada.
— "Vamos, Peter Pan!" — disse ela. "Conte-me mais alguma
coisa da sua vida. Conte onde mora, mas de verdade."
— "Moro com os meninos perdidos."
— "Fiquei na mesma. Quem é essa gentinha? Nunca ouvi
falar em meninos perdidos."
— "Meninos perdidos são os meninos que caem dos
carrinhos nos jardins públicos quando as amas se distraem a
namorar os soldados. Se as mães deles não conseguem
22
encontrá-los no prazo de quinze dias, eles são remetidos para a
Terra do Nunca, onde quem manda sou eu.”
— "Que engraçado!" — exclamou Wendy. — "Terra do
Nunca! Está aí uma terra que eu não sabia que existisse. As
geografias não falam dela. E depois? Que idéia a sua, de
aparecer por cá esta noite?"
— "Eu costumo vir sempre" — respondeu Peter Pan — "para
escutar do lado de fora da janela as histórias tão lindas que sua
mãe conta. Tantas vezes vim que sou capaz de repetir uma por
uma todas as histórias que vocês já ouviram."
— "Mas como é lá na Terra do Nunca?"
— "Oh, uma terra linda, Wendy! Temos piratas terríveis
num grande lago, temos alcatéias de lobos famintos que
percorrem a floresta e temos uma tribo de índios ferozes, os
Peles-Vermelhas, como são chamados. E temos ainda as
sereias."
— "Sereias?" repetiu Wendy batendo palmas. — "Com
cauda?"
— "Com cauda, escamas e tudo. Sereias iguaizinhas a essas
que você vê pintadas nos livros. Uma lindeza, Wendy!"
Wendy não cabia em si de encantamento ante as
maravilhas contadas por Peter Pan: Ele, porém, alegou que era
tarde e tinha de ir-se embora.
— "Os meninos perdidos já devem estar inquietos com a
minha ausência, e ansiosíssimos por ouvir o fim da história que
a Senhora Darling contou hoje. Já sabem a primeira parte. Eu
venho cá, ouço as histórias ali da janela e depois conto-as a
eles direitinho."
— "Não vá ainda!" — pediu Wendy. — "Eu sei mais de cem
histórias, cada qual mais bonita, e se você ficar eu as contarei
todas. Fique."