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Conserto da Sombra de Peter Pan

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 

17

— "Bobo!" — exclamou Wendy rindo-se. — "Com sabão está


claro que não gruda. Sabão só gruda nota velha. Sombra tem
que ser costurada com retrós, quer ver?" — e sem esperar pela
resposta saltou da cama, foi à sua mesinha de costura e trouxe
de lá uma agulha já enfiada. Ajeitou a cabeça da sombra no
resto da sombra e num instante alinhavou-a com retrós preto.
Ficou que ninguém percebia a emenda.

— "Pronto! Vê como está bem agora?"

Peter Pan pulou de contentamento. Deu várias voltas pela


nursery, num verdadeiro namoro com a sua sombra consertada.

— "Eu sou mesmo um danadinho!" — exclamou por fim,


todo cheio de si.

Tamanha gabolice espantou Wendy Ela havia consertado a


sombra e o prosa chamava para si as honras! Já se viu uma
coisa assim?

— "Danado, você?" — disse a menina com ironia. — "Se fui


eu quem costurou a sombra, como o danado pode ser você?"

— "Sim" — disse o menino; — "você ajudou um pouco, não


nego."

— "Ajudou!..." — repetiu Wendy imitando-lhe o tom de voz.


— "Pois nesse caso, passe muito bem! Não gosto de gente
gabola."

Disse e pulou para a cama, deitando-se e cobrindo a


cabeça com a colcha.

Peter Pan desapontou e fez cara de arrependido.

— "Oh, não se ofenda, Wendy! Eu tenho este defeito. Sou


gabola de nascença. Quando qualquer coisa de bom me
acontece, ponho-me sem querer a contar prosa. Seja boa.
 
18

Perdoe-me. Reconheço que uma menina vale mais do que vinte


meninos."

— Isso também não! — protestou Pedrinho. — Só se é lá na


Inglaterra. Aqui no Brasil um menino vale pelo menos duas
meninas.

— Olhem o outro gabola! — exclamou Narizinho. — Vovó já


disse que louvor em boca própria é vitupério.

Wendy — continuou Dona Benta — enterneceu-se com o


tom daquelas palavras e sentou-se de novo na cama,
descobrindo a cabeça. Estava risonha e contente.

— "Peter Pan" — disse ela — "você bem que merece um


beijo. Quer?"

O menino ficou no ar, sem compreender. Menino sem mãe


é assim, nem beijo sabe o que é. Beijo! pensou consigo. Que
seria isso de beijo? Com certeza era aquele copinho de prata
que Wendy tinha posto no dedo quando tomou a agulha para
coser a sua sombra. Não podia ser outra coisa.

— "Quero" — respondeu ele, e foi logo tirando o dedal do


dedo de Wendy e colocando-o no seu, certo de que beijo queria
dizer dedal. Depois, para retribuir a gentileza, perguntou à
menina se ela aceitava um beijo dele.

— "Aceito, sim" — respondeu Wendy, que estava achando


muito curioso aquilo.

— "Pois tome este" — disse Peter Pan, arrancando um dos


botões de seu casaco e apresentando-o com toda a seriedade.

— Já sei — gritou Emília. — Beijo para ele significava


presente, um presente qualquer. Que bobíssimo!

— Wendy — continuou Dona Benta — recebeu o botão e


ficou de olhos postos em Peter Pan. Súbito, perguntou:

— "Que idade você tem, Peter Pan?"

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