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Encontro de Peter Pan e Wendy

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 

15

— Credo! — exclamou tia Nastácia, que estivera cochilando


e acordara naquele ponto. — Não fale assim, Emília, que é mau
agouro.

— Não houve incêndio nenhum — disse Dona Benta. —


Bola de fogo mágica não pega fogo nas coisas.

— Então que aconteceu?

— Nada. A bola ficou na gaveta, e nesse mesmo instante a


janela foi erguida pelo lado de fora. A cabeça dum menino
apareceu. Apareceu, espiou de todos os lados e pulou para
dentro do quarto sem fazer o menor barulho.

— "Sininho, Sininho! Onde está você, Sininho?" — indagou


ele em voz baixa.

— "Tlin, tlin, tlin", — foi a resposta da bola de fogo lá


dentro da gaveta.

O menino dirigiu-se pé ante pé na direção dos tlins, abriu


a gaveta e remexeu-a toda, até encontrar a cabeça da sombra.
Pela cara alegre que fez via-se que era o dono dela.

— Que engraçado! — exclamou Emília. — Só agora noto que


todos nós temos a nossa sombra, que é só nossa, mas não de
gaze, como a desse menino. É de ar preto.

— E que fez ele, vovó, depois de achar a sombra? —


perguntou a menina.

— Que fez? Tirou-a da gaveta, desdobrou-a e tratou de


emendá-la no resto, porque desde que a Senhora Darling desceu
a janela ele ficou com a sombra sem cabeça — ou decapitada.
Mas isso de emendar sombra não é coisa fácil. Exige prática. O
menino tentou primeiro grudá-la com cuspe. Não grudou.
Lembrou-se de a colar com sabão. Também não colou. O
menino sentiu-se atrapalhado.

— Se fosse eu — disse Emília — experimentava uma


bisnaga de Cola-tudo. O que cola tudo, deve colar sombra
também.
 
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— E onde achar a tal bisnaga de Cola-tudo?

— Todas as nurserys devem ter uma bisnaga de Cola-tudo


para colar os brinquedos. Eu, se fosse a Senhora Darling...

— Está bem, Emília, mas pare de falar. Não atrapalhe mais.


Continue vovó.

Dona Benta continuou:

— A. cabeça não colava de jeito nenhum, de modo que o


menino foi tomado de grande desespero. Isso de ter sombra
sem cabeça parece ser uma coisa terrível; pelo menos o era
para aquele menino, pois escondeu a cara nas mãos e, pôs-se a
chorar tão alto que Wendy acordou e sentou-se na cama, muito
admirada.

— "Por que está chorando?" — indagou ela.

Em vez de responder, o menino enxugou depressa os olhos


com as costas da mão e fez um bonito cumprimento com o
gorro vermelho. Depois disse:

— "Há muito tempo que eu ando querendo saber qual é o


seu nome."

— "Meu nome é Wendy Darling" — respondeu a menina.


— "E o seu?"

— "Peter Pan."

— "E onde mora o Senhor Peter Pan?"

— "Moro na rua das casas, número das portas."

Wendy riu-se daquela molecagem e puxou prosa. Conversa


vai, conversa vem, ficou sabendo que Peter Pan era um menino
sem pai nem mãe, que vivia solto pelo mundo e agora estava
muito atrapalhado por ter perdido a cabeça de sua sombra.

— "Não; gruda nem com sabão" — disse ele fazendo bico.

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