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— Credo! — exclamou tia Nastácia, que estivera cochilando
e acordara naquele ponto. — Não fale assim, Emília, que é mau
agouro.
— Não houve incêndio nenhum — disse Dona Benta. —
Bola de fogo mágica não pega fogo nas coisas.
— Então que aconteceu?
— Nada. A bola ficou na gaveta, e nesse mesmo instante a
janela foi erguida pelo lado de fora. A cabeça dum menino
apareceu. Apareceu, espiou de todos os lados e pulou para
dentro do quarto sem fazer o menor barulho.
— "Sininho, Sininho! Onde está você, Sininho?" — indagou
ele em voz baixa.
— "Tlin, tlin, tlin", — foi a resposta da bola de fogo lá
dentro da gaveta.
O menino dirigiu-se pé ante pé na direção dos tlins, abriu
a gaveta e remexeu-a toda, até encontrar a cabeça da sombra.
Pela cara alegre que fez via-se que era o dono dela.
— Que engraçado! — exclamou Emília. — Só agora noto que
todos nós temos a nossa sombra, que é só nossa, mas não de
gaze, como a desse menino. É de ar preto.
— E que fez ele, vovó, depois de achar a sombra? —
perguntou a menina.
— Que fez? Tirou-a da gaveta, desdobrou-a e tratou de
emendá-la no resto, porque desde que a Senhora Darling desceu
a janela ele ficou com a sombra sem cabeça — ou decapitada.
Mas isso de emendar sombra não é coisa fácil. Exige prática. O
menino tentou primeiro grudá-la com cuspe. Não grudou.
Lembrou-se de a colar com sabão. Também não colou. O
menino sentiu-se atrapalhado.
— Se fosse eu — disse Emília — experimentava uma
bisnaga de Cola-tudo. O que cola tudo, deve colar sombra
também.
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— E onde achar a tal bisnaga de Cola-tudo?
— Todas as nurserys devem ter uma bisnaga de Cola-tudo
para colar os brinquedos. Eu, se fosse a Senhora Darling...
— Está bem, Emília, mas pare de falar. Não atrapalhe mais.
Continue vovó.
Dona Benta continuou:
— A. cabeça não colava de jeito nenhum, de modo que o
menino foi tomado de grande desespero. Isso de ter sombra
sem cabeça parece ser uma coisa terrível; pelo menos o era
para aquele menino, pois escondeu a cara nas mãos e, pôs-se a
chorar tão alto que Wendy acordou e sentou-se na cama, muito
admirada.
— "Por que está chorando?" — indagou ela.
Em vez de responder, o menino enxugou depressa os olhos
com as costas da mão e fez um bonito cumprimento com o
gorro vermelho. Depois disse:
— "Há muito tempo que eu ando querendo saber qual é o
seu nome."
— "Meu nome é Wendy Darling" — respondeu a menina.
— "E o seu?"
— "Peter Pan."
— "E onde mora o Senhor Peter Pan?"
— "Moro na rua das casas, número das portas."
Wendy riu-se daquela molecagem e puxou prosa. Conversa
vai, conversa vem, ficou sabendo que Peter Pan era um menino
sem pai nem mãe, que vivia solto pelo mundo e agora estava
muito atrapalhado por ter perdido a cabeça de sua sombra.
— "Não; gruda nem com sabão" — disse ele fazendo bico.