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tratem de dormir." Acendeu urna lamparina de luz muito fraca,
apagou a luz elétrica e ia saindo na ponta dos pés, quando
notou uma sombra esquisita na parede — uma sombra que
vinha da rua. Voltou-se de repente e viu do lado de fora o vulto
dum menino.
Assustou-se, está claro, porque as boas mães se assustam
por qualquer coisinha e correu a fechar a vidraça. Fez isso tão
depressa que a sombra não teve tempo de retirar-se e foi
guilhotinada. Por essa e outras é que as tais vidraças de subir e
descer, como as nossas aqui do sítio, são chamadas "vidraças
de guilhotina".
— E que é guilhotina? — perguntou Emília, que pela
primeira vez ouvia essa palavra.
Dona Benta explicou que era uma certa máquina de cortar
cabeça de gente, inventada por um médico francês de nome
Guillotin. Isso durante o terrível período da Revolução
Francesa, um tempo em que cortar cabeça de gente se tornou a
preocupação mais séria do governo. E Pedrinho, já lido na
História do Mundo, lembrou que o próprio Doutor Guillotin
teve a sua cabeça cortada por essa máquina.
— Bem feito! — exclamou Emília. — Quem manda...
— Bom, chega de guilhotina — gritou Narizinho. —
Continue, vovó. A Senhora Darling guilhotinou a cabeça da
sombra e que fez depois?
— Ao ver cair no chão a cabeça da sombra, como se fosse
um pedaço de gaze negra, ela murmurou: — "Que fato
estranho!" — Depois abaixou-se, pegou a cabeça da sombra e
examinou-a à luz da lamparina, com cara de quem diz: —
"Nunca ouvi contar dum fato semelhante! São dessas coisas que
até parecem invenção". Em seguida dobrou a sombra, bem
dobradinha, guardou-a na gaveta de Wendy e retirou-se do
quarto, pensativa.
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— E os meninos? — indagou Narizinho. — Nada viram?
— Os meninos nada perceberam. Quando a Senhora
Darling deu com a sombra na parede, eles já estavam caindo no
sono.
O quarto ficou mergulhado em silêncio profundo. Todos
dormiam, e até a chama da lamparina parecia cochilar, de tão
quietinha. Mas de repente essa luz tremeu três vezes e apagou-
se.
— Por quê? — indagou Narizinho.
— Algum besouro — sugeriu Emília.
— Não — disse Dona Benta. — É que havia entrado pela
janela uma pequena bola de fogo.
— Como havia entrado pela janela, se a janela estava
fechada? — berrou Emília.
— Isso não sei — disse Dona Benta. — O livro nada conta.
Mas como fosse uma bola de fogo mágica, o caso se torna
possível. Para as bolas de fogo mágicas tanto faz uma janela
estar aberta como fechada. Ela acha sempre jeito de entrar. Do
contrário não valia a pena ser bola mágica. Entrou e começou a
esvoaçar em todas as direções, muito aflitazinha, como quem
anda atrás dalguma coisa.
— Já sei — interrompeu Narizinho. — Estava procurando a
cabeça da sombra.
— Talvez fosse isso, — concordou Dona Benta — porque
depois de várias voltas pelo ar a bola parou defronte do
armário de Wendy e entrou na gaveta pelo buraco da fechadura.
— E houve um incêndio, já sei! — gritou Emília. — Bola de
fogo em gaveta de armário é incêndio certo. A cidade de
Londres vai ser destruída...