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Peter Pan e a Magia das Fadas

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 

19

— "Não sei. Só sei que sou bastante criança. Fugi de casa


no mesmo dia em que nasci."

— "No mesmo dia em que nasceu? Que idéia! E por que,


meu caro?"

— "Porque ouvi uma conversa entre meu pai e minha mãe


sobre o que eu havia de ser quando crescesse. Ora, eu não
queria crescer. Não queria, nem quero nunca virar homem
grande, de bigodeira na cara feito taturana. Muito melhor ficar
sempre menino, não acha? Por isso fugi e fui viver com as
fadas."

Wendy quase perdeu a fala de tanto gosto, ao saber que


estava diante dum menino conhecedor de fadas. Ela ouvia sua
mãe contar histórias de fadas, mas não havia nunca falado com
alguém que as conhecesse pessoalmente.

— "É verdade isso, Peter? Há mesmo fadas ou você está a


mangar comigo?"
— "Verdade, sim, Wendy. Não muitas, mas há."
— "E de onde vêm elas?"

— "Então não sabe, Wendy? Parece incrível! Não há quem


não saiba disso..."
— "Pois eu não sei. Conte."

— "Foi assim. A primeira fada apareceu no mundo do dia


em que a primeira criança nascida deu a primeira risa - dinha."

— "Oh, nesse caso deve haver uma fada para cada criança
no Inundo, porque todas as crianças dão uma primeira
risadinha" — observou Wendy.

— "Assim devia ser" — confirmou Peter Pan, — "se as fadas


não fossem as criaturas mais fáceis de morrer que existem.
Morrem como passarinhos. Cada vez, por exemplo, que uma
criança diz que não acredita em fadas, morre uma."
 
20

Aqui tia Nastácia interrompeu a narrativa para dizer:

— Para mim esse menino estava empulhando Dona Wendy.


Estou velha e só vi fada nas histórias.

— Cale a boca! — berrou Emília. — Você só entende de


cebolas e alhos e vinagres e toicinhos. Está claro que não
poderia nunca ter visto fada porque elas não aparecem para
gente preta. Eu, se fosse Peter Pan, enganava Wendy dizendo
que uma fada morre sempre que vê uma negra beiçuda...

— Mais respeito com os velhos, Emília! — advertiu Dona


Benta. — Não quero que trate Nastácia desse modo. Todos aqui
sabem que ela é preta só por fora.

— É o pigmento — disse o Visconde. — Isso de brancuras e


preturas não passa de maior ou menor quantidade de
pigmentos nas células da pele.

Emília, que não sabia o significado de pigmento, veio logo


com a sua célebre respostinha: — "Pigmento é o seu nariz" —
mas Dona Benta apoiou o Visconde, dizendo que era aquilo
mesmo, que os pretos são pretos porque têm muitos pigmentos
na pele.

— Mas que é esse tal pigmento, vovó?

— Pigmento é como os sábios chamam qualquer


substância colorida que tinge os tecidos duma planta ou dum
organismo animal. A rosa vermelha é vermelha por causa dos
pigmentos vermelhos que tem nas pétalas e os negros são
negros por causa dos pigmentos negros que possuem na pele.

— Quer dizer — observou Emília — que se os pigmentos de


tia Nastácia fossem cor de burro quando foge, ela não seria
negra e sim uma burra fugida...

— Chi, meu Deus do Céu! — exclamou Narizinho. — Como


a Emília está asneirenta hoje...

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