2
4
6
do em seus destinos. Na manhã seguinte, quando acordaram,
algo caiu retinindo no chão, e quando eles pegaram, viram que
eram duas moedas de ouro. Eles as levaram a seu pai, que ficou
perplexo e disse:
– Como isso pode ter acontecido?
No dia seguinte, acharam mais duas moedas, e dali em dian-
te todos os dias encontravam novas moedas. O vassoureiro foi
até seu irmão e contou-lhe o estranho acontecimento. O ouri-
ves percebeu na hora tudo o que havia acontecido, e que as
crianças haviam comido o coração e o fígado do pássaro dou-
rado, e para se vingar, e porque ele era invejoso e maldoso, ele
disse para o pai:
– Seus filhos têm parte com o Diabo, não pegue o ouro de-
les, e não permita que eles fiquem em sua casa, porque estão
em poder do Diabo, e pode ser que Ele lhe tome também.
O pai tinha medo do Diabo e, por mais doloroso que fosse,
levou os gêmeos para a floresta e os deixou lá com o coração
apertado.
E então os meninos andaram pela floresta, e procuraram o
caminho de volta para casa, mas não o puderam achar, e ape-
nas perderam-se cada vez mais. Por fim eles encontraram um
caçador, que perguntou:
– A quem vocês pertencem?
– Nós somos filhos do pobre vassoureiro – responderam
eles, e disseram que o pai não os queria em casa porque toda
manhã surgiam duas moedas de ouro debaixo dos seus traves-
seiros.
– Venham – disse o caçador, – isso não é tão ruim assim, se
vocês se mantiverem honestos e não se tornaram preguiçosos.
8
Eles responderam:
– Agora que nós terminados o aprendizado, queremos co-
nhecer o mundo; permita-nos então ir e viajar.
Então falou o velho cheio de alegria:
– Vocês falam como verdadeiros caçadores! Isso que vocês
pedem sempre foi meu desejo; adiante, pois, e que tudo ocorra
bem com vocês.
Depois comeram e beberam juntos alegremente.
Quando chegou o dia marcado, o pai adotivo presenteou
cada um deles com uma arma e um cão, e deixou que cada um
pegasse o que quisesse das moedas de ouro que haviam guar-
dado. Então ele os acompanhou durante parte do caminho, e,
antes de deixá-los, deu-lhes uma faca brilhante, e disse:
– Se vocês se separarem algum dia, espetem essa faca numa
árvore bem no lugar da separação, e quando um de vocês vol-
tar, poderá ver como o irmão está indo, pois o lado da faca que
aponta para o lado onde ele foi irá enferrujar se ele morrer, mas
ficará brilhante se ele continuar vivo.
Os dois irmãos caminharam mais um tanto, e chegaram a
uma floresta que era tão extensa que era impossível sair dela
em apenas um dia. Eles passaram a noite ali, e comeram o que
haviam trazido de casa nos alforjes. Eles andaram durante todo
o dia seguinte e ainda assim não conseguiram sair da floresta.
Como não tinham mais nada para comer, um deles disse:
– Nós precisamos caçar alguma coisa para nós, do contrário
morreremos de fome.
E preparou sua arma, olhando ao redor. Quando uma velha
lebre passou correndo por perto, ele preparou-se para atirar,
mas a lebre suplicou:
10
“Caro caçador, deixe-me viver,
Dois filhotes a ti eu darei.”
E embrenhou-se imediatamente numa moita, e trouxe duas
jovens lebres. Mas as pequenas criaturas brincavam tão alegre-
mente, e eram tão bonitinhas, que os caçadores nem sequer
pensaram em matá-las. Eles as levaram consigo, e as lebres os
seguiam de perto. Pouco depois, uma raposa passou rastejando;
eles estavam a ponto de acerta-lá quando a raposa suplicou:
“Caro caçador, deixe-me viver,
Dois filhotinhos também eu darei.”
Ela também trouxe dois filhotes, e os caçadores igualmente
não quiseram matá-los, mas os juntaram às lebres, e continua-
ram a viajem. Não muito depois, um lobo saiu da moita; os ca-
çadores se aprontaram para atirar nele, mas ele suplicou:
“Caro caçador, deixe-me viver,
Dois filhotinhos eu também darei.”
Os caçadores colocaram os dois lobinhos ao lado dos ou-
tros bichos, e todos eles seguiam os dois irmãos. Logo apareceu
um urso que queria caminhar mais um pouco por este mundo,
e implorou:
“Caro caçador, deixe-me viver,
Dois pequenos ursos eu te darei.”
Os dois ursinhos foram integrados ao resto, e já haviam oito
deles. E sabem quem chegou por fim? Um leão, sacudindo sua
juba. Mas os caçadores não ficaram apavorados e almejaram
matá-lo, mas o leão também disse:
“Caro caçador, deixe-me viver,
Dois leõezinhos eu te darei.”
E ele trouxe dois filhotes de leão, e agora os caçadores ti-
nham dois leões, dois ursos, dois lobos, duas raposas e duas le-
12
14
duque, e a corte acompanharam-na. De longe ela viu o caçador
na colina do dragão, e pensou que fosse o próprio dragão
aguardando-a, e não queria subir a colina; mas por fim, ela foi
forçada a fazer a infeliz jornada, senão a cidade inteira seria
destruída. O rei e a corte voltaram para casa cheios de dor e
pesar. O duque, no entanto, permaneceu ali, para ver tudo à
distância.
Quando a filha do rei alcançou o topo da colina, viu que
não era o dragão que lá estava, mas o jovem caçador, que a
consolou, e disse que ele a salvaria, e a conduziu para dentro
da capela, e a trancou lá dentro. Pouco depois, o dragão de sete
cabeças chegou ali fazendo muito barulho. Quando notou o
caçador, ficou perplexo e disse-lhe:
– O quê você está fazendo aqui?
O caçador respondeu:
– Vim para lutar com você.
O dragão disse:
– Muitos cavaleiros deixaram suas vidas aqui, eu darei cabo
de você também.
E soltou fogo pelas setes bocas. O fogo teria sufocado o ca-
çador no calor e na fumaça, mas os animais vieram correndo e
apagaram o incêndio. Então o dragão investiu contra o caçador,
mas este ergueu sua espada e decepou três das cabeças do
monstro. Aí o dragão ficou furioso, levantou-se nos ares, e cus-
piu labaredas de fogo sobre o caçador, e estava prestes a se
atirar sobre ele, mas o caçador novamente levantou a espada e
cortou mais três cabeças. O monstro ficou fraco e desceu à
terra, mas se preparava para investir novamente contra o adver-
sário. O caçador, num último esforço, cortou-lhe a cauda. Sem
mais poder lutar, chamou seus animais e ordenou-lhes que fi-
16
O lobo obedeceu, mas estava igualmente cansado, e cha-
mou a raposa e disse-lhe:
– Deite-se aqui ao lado, eu preciso dormir um pouco; mas se
alguém vier, me acorde.
A raposa assim o fez, porém também estava extenuada, e
chamou a lebre e disse-lhe:
– Deite-se aqui ao lado, eu preciso dormir um pouco; mas se
alguém vier, me acorde.
A lebre obedeceu, mas a pobre estava também muito cansa-
da, e não tinha ninguém a quem ordenasse ficar em alerta.
Acabou adormecendo. E agora a princesa, o caçador, o leão, o
urso, o lobo, a raposa e a lebre dormiam profundamente. O du-
que, no entanto, que ficara para ver à distância, quando viu que
o dragão não havia saído voando com a donzela, tomou cora-
gem e subiu a colina. Lá encontrou o dragão morto e cortado
em pedaços, e não longe dali viu a filha do rei com o caçador
e os animais, todos eles dormindo a sono solto. E, como ele era
perverso e malvado, pegou sua espada e decepou a cabeça do
caçador, agarrou a donzela e a carregou colina abaixo. Quando
ela acordou, assustou-se muito, mas o duque disse:
– Você está em minhas mãos, portanto deve dizer que fui eu
quem matou o dragão.
– Eu não posso fazer isso – respondeu ela. – Pois foi um ca-
çador com seus animais que o fizeram.
Mas o duque apontou-lhe a ponta da espada, ameaçando
mata-la se não o obedecesse, e a compeliu a prometer que as-
sim faria. Então ele a levou até o rei, que não sabia como conter
sua alegria quando viu sua filha viva. O duque disse-lhe:
– Eu matei o dragão, e libertei a donzela e todo o reino, por-
tanto exijo-a como esposa, como foi prometido.
18
O rei perguntou à filha:
– É verdade?
– Ah, é sim – respondeu ela. – Com certeza é verdade, mas eu
não consentirei em casar-me antes de um ano e um dia.
Ela pensava que dessa forma teria tempo de saber o que
ocorrera ao seu querido caçador.
Os animais, entretanto, ainda estavam dormindo ao lado de
seu dono decapitado na colina do dragão, até que uma grande
abelha veio pousar no nariz da lebre; a lebre a afastou com a
pata, e voltou a dormir.A abelha pousou uma segunda vez, mas
a lebre a afastou de novo com a pata e voltou a dormir. Então
a abelha pousou pela terceira vez e picou o nariz da lebre,
acordando-a. Assim que despertou, ela chamou a raposa, e a
raposa chamou o lobo, o lobo o urso, e o urso o leão. E quando
o leão acordou e viu que a donzela havia desaparecido e seu
dono decapitado, ele começou a rugir estrondosamente e
chorar:
– Quem fez isso? Urso, por que você não me acordou?
O urso perguntou para o lobo:
– Lobo, por que você não me acordou?
E o lobo para a raposa:
– Por que você não me acordou?
E a raposa para a lebre:
– Por que você não me acordou?
A pobre lebre não sabia o que responder, e a culpa recaiu
sobre ela. Os outros todos queriam matá-la, mas ela disse:
– Não me matem. Eu trarei nosso dono à vida novamente.
Conheço uma montanha onde cresce uma raiz mágica, a qual,
quando colocada na boca de alguém, cura qualquer ferida e
20
22
A lebre arranhou-a pela segunda vez, e a princesa disse no-
vamente:
– Vá embora!
Mas a lebre não desistiu de sua meta, e arranhou-a pela ter-
ceira vez. Aí a princesa deu uma espiada embaixo da cadeira,
e reconheceu a lebre pela coleira, que outrora fora seu colar.
Ela a pegou no colo, levou-a ao seu quarto, e disse-lhe:
– Querida lebre, o que você quer?
A lebre respondeu:
– Meu dono, que matou o dragão, está aqui na cidade, e me
enviou aqui para pedir um pedaço do pão que o rei está co-
mendo.
A princesa encheu-se de alegria, chamou o padeiro e orde-
nou-lhe que trouxesse uma fatia do mesmo pão que o rei co-
mia. A lebre disse então:
– Mas o padeiro é quem deverá levar o pão, para que os cães
não me causem dano.
E assim o padeiro levou o pão até a porta da hospedaria, e
ali a lebre ficou sobre as patas traseiras, pegando o pão com as
dianteiras, e levou-o até o seu dono. O caçador, ao vê-la, disse:
– Veja só, caro hospedeiro, as cem moedas de ouro são mi-
nhas!
O hospedeiro estava perplexo, mas o caçador logo começou
a dizer:
– Sim, caro hospedeiro, eu tenho o pão, mas agora eu terei
igualmente um pouco da carne assada do rei.
O hospedeiro disse:
– Eu gostaria de ver tal coisa – mas ele não apostaria mais
nada.
O caçador chamou a raposa e disse-lhe:
24
A princesa mandou vir o cozinheiro, e ordenou que arran-
jasse um pouco da verdura servida ao rei, e a levasse até a por-
ta da pousada para o lobo. Ali, o lobo pegou o prato e o entre-
gou a seu dono.
– Veja só, caro hospedeiro – disse o caçador – agora eu te-
nho pão, carne e verduras, mas eu terei também a sobremesa
feita para o rei.
Ele chamou o urso e disse-lhe:
– Caro urso, você que gosta de lambiscar doces; vá e traga-
me um dos doces que são servidos ao rei.
O urso correu até o castelo, e todos fugiram de seu caminho;
mas quando passou pelos guardas, estes lhe mostraram os mos-
quetes, e não estavam dispostos a deixa-lo entrar no castelo
real. Mas o urso se levantou sobre as patas traseiras, e com as
suas manoplas distribuiu alguns tapas à direita e à esquerda, de
forma que o esquadrão se abriu e ele pode passar tranqüila-
mente. Ele foi até a princesa, ficou a seu lado e rosnou um pou-
co. Ela então olhou para ele, reconheceu-o, conduziu-o até seu
quarto e perguntou-lhe:
– Querido urso, o que você deseja?
Ele respondeu:
– Meu dono, que matou o dragão, está na cidade, e eu vim
pedir um doce dos que são servidos ao rei.
Então a princesa chamou o doceiro e ordenou que pegasse
um doce da mesa do rei e o levasse até a porta da hospedaria;
o urso pegou o prato e farejou o doce, antes de entrar e entrega-
lo ao dono.
– Veja só, caro hospedeiro – disse o caçador. – Agora eu te-
nho pão, carne, verduras e sobremesa, mas eu também vou be-
ber um pouco do vinho que o rei bebe.
26
Ele chamou o leão e disse:
– Caro leão, bem sei que você que gosta de beber; vá e traga-
me um pouco do vinho que o rei bebe.
Então o leão correu pelas ruas da cidade, e o povo fugia
dele espavorido, e quando ele passou pelos guardas, eles tenta-
ram detê-lo, mas bastou um rugido para que desistissem da
idéia. O leão foi até o quarto da princesa e bateu à porta com
sua cauda. A princesa foi abrir, e assustou-se com o leão, mas
logo reconheceu o fecho de ouro de seu colar, e permitiu que
ele entrasse no quarto, e perguntou-lhe:
– Querido leão, qual é o seu desejo?
Ele respondeu:
– O meu dono, que matou o dragão, está aqui na cidade, e eu
vim pedir um pouco do vinho que o rei bebe.
Então a princesa mandou chamar o copeiro e ordenou-lhe
que desse do vinho real para o leão. Este disse:
– Eu irei com ele até a adega, para ver se ele pega o vinho
certo.
Então ele foi com o copeiro até a adega e, quando estavam
lá embaixo, o copeiro quis dar-lhe um tipo comum de vinho
que era bebido pelos servos, mas o leão interveio:
– Pare. Eu provarei primeiro – e bebeu, mas cuspiu fora após
o primeiro gole. – Não, esse não é o certo.
O copeiro olhou para ele surpreso, e se dirigiu a outro barril,
com o vinho que se servia ao duque.
– Pare. Deixe-me provar primeiro – e bebeu meio copo. –
Este é melhor, mas ainda não é o certo – disse o leão.
Aí o copeiro ficou impaciente e disse:
– Como um animal estúpido como você pode entender de
vinhos?
28
30
– Vá encontrá-lo, que fará bem.
Então o rei foi encontrá-lo e o conduziu para dentro, e os
animais o seguiram. O rei deu-lhe um lugar à mesa perto dele e
da princesa; o duque, que na qualidade de noivo, estava sentado
à frente, não o reconheceu. Naquele exato momento, as sete ca-
beças do dragão eram exibidas como espetáculo, e o rei disse:
– As sete cabeças do dragão foram decepadas pelo duque,
por isso hoje ele está se casando com minha filha.
O caçador se levantou, abriu as sete bocas, e perguntou:
– Onde estão as línguas do dragão?
O duque assustou-se, e ficou pálido, sem encontrar resposta,
até que resolveu dizer:
– Dragões não possuem línguas.
O caçador disse:
– Mentirosos é que não deviam possuir línguas, mas as lín-
guas dos dragões são os troféus do vencedor.
E desembrulhou o lenço, onde estavam as sete línguas. Em
seguida, colocou cada língua em sua respectiva boca, encai-
xando-as perfeitamente. Então pegou o lenço onde estava bor-
dado o nome da princesa e mostrou-o à donzela, perguntando-
lhe a quem ela havia dado aquele lenço. Ela respondeu:
– Eu dei para o homem que matou o dragão.
E então o caçador chamou seus animais e pegou o colar do
pescoço de cada um deles e também o fecho de ouro do leão,
e mostrou-os à donzela, perguntando a quem haviam pertenci-
do. Ela respondeu:
– Eram meus, mas eu os dividi entre os animais que ajuda-
ram a matar o dragão.
O caçador então disse:
– Quando eu, cansado da luta, estava descansando e dor-
32
E ainda lhe deu as mil moedas de ouro.
O jovem príncipe e a princesa viviam muito felizes juntos.
Ele freqüentemente saía para caçar, seu divertimento predileto.
Os animais sempre o acompanhavam. No entanto, havia nas
redondezas uma floresta que diziam ser mal-assombrada, e
quem quer que lá entrasse, nunca mais saía. Mas o jovem prín-
cipe teve uma grande vontade de ir lá, e não deixou o velho rei
em paz até que lhe desse a permissão. Então ele foi com uma
grande comitiva, e logo ao entrar na floresta, viu um cervo bran-
co como a neve. Então ele disse:
– Aguardem aqui o meu retorno, eu quero alcançar aquela
bela criatura.
E correu atrás do bicho, seguido apenas pelos animais. Os da
comitiva ficaram esperando até o anoitecer, mas ele não voltou;
resolveram retornar ao castelo e contar à princesa que o prínci-
pe havia ido atrás do cervo branco na floresta encantada e não
mais voltara. Ela ficou muito preocupada. Ele, entretanto, conti-
nuou a perseguir a presa, mas não conseguia capturá-la; por ve-
zes chegava bem perto, mas sempre o cervo escapava com faci-
lidade, e desaparecia na distância. Até que o príncipe percebeu
que entrara muito na floresta, e tocou a trombeta, mas não rece-
beu resposta, pois sua comitiva estava muito longe e não podia
ouvi-lo. E como a noite estava chegando, ele viu que não pode-
ria voltar para casa naquele mesmo dia; desmontou do cavalo,
acendeu uma pequena fogueira perto de uma árvore, e decidiu
passar a noite ali. Enquanto estava sentado ao lado do fogo, com
seus animais por perto, pareceu-lhe ouvir uma voz humana.
Olhou ao redor, mas não encontrou nada. Pouco depois, ele ou-
viu um gemido vindo de cima, e olhou para o alto; viu então
uma velha sentada num galho da árvore, que choramingava:
34
– Oh, oh, oh, como sinto frio!
Ele disse:
– Venha cá, e aqueça-se no fogo, se está com frio.
Mas ela disse:
– Não, os seus animais vão me morder.
Ele respondeu:
– Eles não te farão mal algum, mã[Link] cá.
Ela, entretanto, era uma bruxa, e disse:
– Eu jogarei uma varinha aí embaixo, e se você tocar com ela
no lombo dos animais, aí sim eles não me farão mal nenhum.
Ela jogou a varinha. Mal ele tocou o dorso dos animais com
ela, imediatamente eles se transformaram em pedra. A bruxa,
vendo-se salva dos animais, desceu da árvore, pegou a varinha,
e transformou também o príncipe em pedra. Depois, dando
uma gargalhada, carregou o príncipe e os animais para dentro
de um fosso onde havia muitas outras pedras.
Como o príncipe não voltava, a angústia e a preocupação da
princesa só aumentavam. E aconteceu então que, naquele tem-
po, o outro irmão – que rumara para o leste quando haviam se
separado -, chegou àquele reino. Ele havia procurado emprego,
mas não encontrara nenhum, e andara viajando para lá e para
cá, e vivia de apresentar seus animais em público. Veio-lhe à
mente que poderia ir ver como estava a faca que haviam enfia-
do no tronco de uma árvore quando se separaram. Quando
chegou lá, viu que um lado da faca estava metade enferrujada
e metade brilhante. Assustado, pensou: “Uma grande desgraça
aconteceu a meu irmão, mas talvez eu possa salva-lo, já que
metade da faca ainda não está enferrujada.” Ele e seus animais
viajaram para o oeste, e logo que cruzou o portão da cidade,
um guarda veio recebê-lo, perguntando se devia anunciar sua
36
38
– Seu irmão e os animais estão em um fosso, transformados
em pedra.
Então o caçador exigiu que ela lhe levasse até o dito fosso e,
lá chegando, pôs-se a ameaça-la, dizendo:
– Velha maldita, faça meu irmão e todos os que estão aí vol-
tarem à vida, senão você irá para a fogueira.
Ela pegou a varinha e tocou todas as pedras, e logo o irmão
do caçador e seus animais voltaram à vida, bem como muitos
outros: mercadores, artesãos, e pastores, que agradeceram ao
caçador pela libertação e foram para suas casas. Mas quando
os irmãos gêmeos se viram, eles se abraçaram e se alegraram
muito. Então agarraram a bruxa, amarram-na e lançaram-na ao
fogo, e quando ela foi reduzida a cinzas, toda a floresta clareou
e ficou mais luminosa, e dava até para ver o castelo dali, a três
horas de distância.
Os dois irmãos voltaram juntos para casa, e durante o cami-
nho cada um contou suas aventuras. E quando o mais novo
relatou que ele era o governante de todo o país, e herdeiro do
rei, o outro observou:
– Isso eu notei bem, pois quando cheguei na cidade, fui to-
mado por ti, e me prestaram todas as honras reais; até a prince-
sa achou que eu fosse você, e tive de comer ao lado dela e
deitar-me com ela.
Quando o outro ouviu tal coisa, ficou tão ciumento e raivoso
que tirou a espada e degolou seu irmão. Mas quando o viu cair
morto e seu sangue jorrar, arrependeu-se profundamente.
– Meu irmão salvou minha vida – lamentou ele – e em troca
eu o matei.
Então a lebre se ofereceu a ir buscar a raiz mágica da vida, e
40
42
44