Impactos Econômicos da 1ª GM nos EUA
Impactos Econômicos da 1ª GM nos EUA
Mesmo os países
vencedores, não são vencedores do ponto de vista económico, pelo contrário, França,
RU, para não falar da Alemanha perderam grande parte da sua capacidade industrial
durante a 1ºGM. Quem é que ficou com os mercados, sobretudo externos, perdidos
pela Alemanha, pela França e pela Grã-Bretanha durante a 1ºGM? Temos esta tabela
que nos mostra a distribuição do produto industrial mundial em 1913 e em meados do
séc. XX. Com esta tabela vemos claramente que não foi o resto do mundo, o Japão sim
conseguiu subir a sua % em 1,3%, mas quando somamos os pontos percentuais
perdidos pela Alemanha, Grã-Bretanha e França, vemos que no essencial são os EUA
que acabam por mobilizar essa parte do produto industrial, que era produzido nas 3
principais potências europeias, ou seja, quem são os perdedores da 1ºGM? São as
grandes potências industriais europeias, inclusive as que venceram nos campos de
batalha, ou seja, a Grã-Bretanha e a França. Os EUA aparecem assim como o grande
vencedor da 1ºGM. Vamos ver a relação entre esta vitória quase unilateral dos EUA na
1ºGM e a Grande Depressão.
(slide 5) O mais importante é partirmos do que acontece nos EUA nos famosos anos
20. Enquanto vencedores da 1ºGM, os EUA acabaram por experimentar uma expansão
muito grande da sua economia, em especial dos mercados de capitais. Os EUA durante
a fase liberal fora um país que estava aberto ao investimento europeu, foram
europeus que tinham investido nos caminhos de ferro americanos. Os EUA não era um
país exportador de capital até à 1ºGM, pelo contrário, era um país que na sua balança
de capitais via entrar sobretudo capitais alemães, ingleses e, em menor grau,
franceses. Ora bem, todas essas dívidas que os EUA tinham, todos os ativos
americanos, dentro da economia americana, que estavam na mão de estrangeiros
acabam por se tornar americanos a seguir à guerra, seja porque os alemães
necessitam de liquidar os seus investimentos para pagarem aos aliados, seja os
próprios ativos são confiscados durante a declaração de guerra, seja porque os
franceses e os ingleses tem de vender os seus ativos aos EUA para poderem pagar as
dívidas aos EUA. Ou seja, subitamente os EUA torna-se não só uma grande potência
industrial, mas também um grande mercado de capitais. Nova Iorque acaba por
suplantar Londres e Paris com a grande praça financeira do mundo, e claro isto deve-se
essencialmente à 1ºGM, que tornou os EUA num país abundante em capital. Além de
receber capitais financeiros, também recebeu capitais físicos: locomotivas, patentes,
máquinas. A melhor tecnologia europeia acaba por acorrer aos EUA. O que é que isso
permite à economia americana? Permite-lhe ter um crescimento muito rápido, são os
loucos anos 20, com uma grande prosperidade, um retorno muito mais elevado dos
capitais, portanto um juro elevado dos investimentos. E claro como sempre acontece
quando o capital é abundante, taxas relativamente aos outros países baixas. Ora bem,
é esta estrutura económica que está por trás dos famosos loucos anos 20.
(slide 6) Em meados do séc. XX, quando parece haver uma certa recuperação
americana e quando há uma redução da dívida por parte dos alemães, ou seja, os
alemães conseguem negociar junto dos seus credores estrangeiros um plano de
pagamentos mais suaves, ora bem, os financeiros americanos, os banqueiros e
investidores, começam a olhar para a Europa, como já deveriam ter começado em
condições normais muitos anos antes. A Europa é carente de capital, que os EUA têm
em grande abundância. E assim surge um fluxo modesto, mas claro no contexto de
desglobalização acaba por ser importante, de investimentos americanos que financiam
governos da Europa e da América do Sul. Como é evidente do ponto de vista
económico, do ponto de vista de globalização, este fluxo faz sentido. Porquê? Porque
os países, seja por serem mais pobres, com é o caso dos países da América do Sul, e
por terem parte das suas infraestruturas destruídas pela guerra, são enfim países
atraentes para o capital, já que são países onde o capital sendo escasso, permite obter
um grande juro, além de mais, a própria situação de guerra fazia com que houvesse
grandes investimentos a fazer, reconstruir as pontes, os portos, etc. E portanto temos
uma situação que parece ser análoga à fase liberal, ou seja, o capital está a fluir das
economias onde é abundante para as economias onde era escasso.
(slide 14) Ora bem, como resolver isto? A discussão é grande mas em 1929/1930
prevalece, por parte dos responsáveis americanos, a ideia de que a melhor solução
para uma crise é deixar que os preços, do trabalho, dos bens, ou seja, que o mercado
encontre novos pontos de equilíbrio, preços de equilíbrio, e portanto que a produção
volte ao normal e que volte a haver atividade económica ao nível semelhante ao
normal. No entanto, nada disto acontece. O que temos aqui são os números do
desemprego, portanto vimos que de 1929 a 1933 há esta queda gravíssima do índice
do produto industrial, e claro ao mesmo tempo que temos esta queda, o desemprego
sobe em flecha, fixando-se assim, no final de 31 nos 25%. Ou seja, cerca de ¼ da
população ativa não pode trabalhar, porque as fabricas não estão a abrir, não estão a
expandir-se, pelo contrário, estão a contrair-se, estão a produzir cada vez menos, a
desenvolver cada vez menos produtos, etc. Ora bem, e assim se instala a Grande
Depressão.
(slide 15/17) Como é que se podia resolver a Grande Depressão? Atenção para a
quarta coluna de dados, que nos dá a taxa de desconto da reserva federal americana,
ou seja, a taxa que o banco central americano ou a FED cobra aos bancos para fazer
empréstimos, que devido a sua importância estratégica acaba por definir, em termos
práticos, o preço do capital. Como vemos, ela tornou-se mais elevada em 1929 que em
1928, terá contribuído para o Crash, e continuou a um nível elevado, mesmo quando
desce, ela desce muito devagar. Ora bem, como sabemos na atualidade as taxas de
jura da FED estão abaixo do 1%. Ora bem, é uma taxa relativamente alta, e sobretudo
durante os primeiros anos quando há todas aquelas crises e todas aquelas destruições
de capitais, a FED não baixa a taxa de juro. Porquê? Bem, a ideia é necessário atrair o
capital aos bancos, ou seja, é preciso seduzir os depositantes, o publico, para em vez
de tirar os seus depósitos, colocar nos bancos os seus depósitos, é essa a ideia de uma
taxa de juro alta. No entanto, como vemos isso não resultou, e claro uma taxa de juro
tem influência nas decisões de outros agentes económicos, alem dos depositantes,
taxa de juro tem uma influencia muito grande nos bancos. Os bancos com uma taxa de
juro elevada, vão emprestar, mas a juros ainda mais elevados, é o chamado Spread
(“o spread é "uma componente da taxa de juro, definida pelo
banco, contrato a contrato, quando concede um empréstimo".
Numa definição simples, o spread não é mais do que o lucro do
banco quando concede um empréstimo”). Ora bem, num contexto, em
que o desemprego é muito elevado, a taxa de inflação é negativa, ou seja, há deflação,
qual é a empresa, que quando vê os preços a cair, vê os consumidores afetados pelo
desemprego, vai pedir dinheiro emprestado a uma taxa de juro elevado? Bem,
dificilmente podemos esperar que isto seja uma decisão racional por parte de todas as
empresas. Então o que é que acontece? Acontece aqui uma “desmotivação mútua”
entre os consumidores e os investidores. Os consumidores percebem que os
investidores não estão a investir, não estão a contratar, não estão a fazer investigação,
não estão a expandir os negócios, pelo contrário, estão a despedir, estão a contrair a
atividade, etc. Portanto os consumidores tem uma falta de confiança muito grande, os
consumidores adiam o seu consumo, ainda por cima, claro, há deflação, os preços
estão a descer, mais uma razão para adiar o consumo, sobretudo dos bens não
essenciais, dos bens industriais. Ou seja, não deixam de se alimentar claro, mas adiam
decisões sobre compra de eletrodomésticos, compra do carro e outros bens duráveis.
Ora bem, vendo a falta de animo do lado dos consumidores, do lado da procura, os
investidores também exitam em investir, ainda por cima, as taxas de juro estão altas, e
como estas estão altas é difícil encontrar negócios suficientemente rentáveis para
pagar o valor do capital. E, portanto, há aqui se quisermos uma paralisia da economia
americana, os consumidores estão à espera que os preços baixem mais e estão com
expectativas más, portanto poupam bastante, ainda por cima as taxas de juro estão
altas e portanto o capital vai para os bancos, onde recebe um juro confortável. Da
parte dos investidores, enfim até há capital disponível, mas o juro confortável que ele
ganha no banco desmotiva o investidor a arriscar, ainda por cima, num contexto em
que os consumidores, em que a procura é muito fraca porque há 25% de desemprego,
os investidores abdicam de investir, ou se quisermos numa perspetiva mais
macroeconómica, não exercem a sua função de investir recursos e de contratar
trabalhadores. Simultaneamente, os trabalhadores não tem motivação para consumir
e estão arredados do mercado de trabalho, ou seja, gera-se aqui uma situação de
grande depressão, que pelo menos os preços dos bens não resolvem, os preços
descem e a América continua a tem um problema de Depressão., continua a ter um
desemprego elevado, nem com preços mais baixos os consumidores voltam a ter a
predisposição para consumir.
(slide 18) Qual é a reação americana, política? Bem, como referido essencialmente do
ponto de vista da política económica, nos primeiros anos, não há grande reação, a
ideia é que os preços iriam conduzir a economia de volta ao crescimento, mas do
ponto de vista político há uma reação. O que é que os EUA fazem? Bem,
essencialmente agravam o protecionismo, que já era muito desde a 1ºGM. Os EUA
aprovam tarifas sobre os produtos importados, e os outros países acabam por retaliar,
particularmente importante é a famosa tarifa de “Smoot-Hawley”, portanto o 2º
aumento tarifário dos EUA pós 1ºGM. Esta tarifa, que estava a ser discutida na altura
do Crash, e há quem diga que incentivou as pessoas a vender, cria um certo
pessimismo relativamente ao que ia acontecer no futuro. Mas a verdade é que logo no
início de 30, os EUA tornam-se ainda mais protecionistas. Ao mesmo tempo, os EUA
agravam a partir dos anos 30, a limitação à entrada de estrangeiros, de emigrantes. Os
EUA em 1933 acabam mesmo por abandonar o padrão-ouro e proíbem a saída de
capitais. Ora bem, porque é que o protecionismo é tão influente na Grande
Depressão? Bem, porque o protecionismo acaba por tornar a Grande Depressão não
apenas um problema americano, mas também mundial. Porquê? Porque todos os
países que são afetados por estas tarifas americanas acabam por retaliar, e tornam-se
mais protecionistas ainda, e vêm os preços dos produtos importados a tornarem-se
muito superiores. Ora bem, em toda a Europa, portanto acaba por haver problemas
semelhantes aos EUA, destroem-se mercados externos, ou seja, os EUA, Espanha,
Áustria, Inglaterra, a França, ou seja, vários países que até eram relativamente liberais,
tornam-se ainda mais protecionistas, e claro com isso acabam por perder acesso aos
mercados externos. O resultado é, portanto, que nesta fase Arruína-o-teu-próximo,
torna-se ainda mais digna do seu nome. Os países passam a ser ainda mais
autossuficientes do que já eram antes da Grande Depressão. Portanto, a Grande
Depressão não é um choque sistémico, não muda as instituições típicas desta fase
Arruína-o-teu-próximo, apenas incentiva as instituições a tornarem-se ainda mais
desglobalizadas e agrava a situação pós 1ºGM.
(slide 20) Quais eram as economias que pareciam estar imunes a este problema da
Grande Depressão? Bem, aqui vamos pegar nos mesmos dados com que começamos,
distribuição do Produto Industrial Mundial antes e depois da 1ºGM, e agora vamos
estender, vamos ver o mesmo indicador para meados dos anos 30, ou seja, onde a
maior parte das economias capitalistas estão mergulhadas na Grande Depressão. Qual
a economia que parece estar melhor do que nunca? Já não é claramente os EUA, já
não é também o resto do mundo, há de novo um pequeno ganho do Japão, mas
sobretudo é a União Soviética, a economia de mando, que parece imune às crises que
vêm do mundo capitalista. Como vêm, tem uma % muito superior do Produto
Industrial Mundial do que tivera nas décadas anteriores. Ora bem, e esta experiência,
este aparente sucesso da União Soviética, não escapa às elites políticas e económicas
das economias capitalistas avançadas dos anos 30. O Crash e a Grande Depressão que
se seguiu pareciam a materialização das profecias de Marx sobre crises de
superprodução e produtos que não eram possível escoar, e o descalabro das indústrias
e o fim do capitalismo. Na realidade, pensavam as pessoas dos anos 30, Marx tinha
razão e o Comunismo é uma alternativa valida, vejam como na União Soviética se
batem recordes de produção industrial e agrícola, independentemente dos preços, e
da procura, e da oferta. Vejam como uma economia de mando é preferível ao
capitalismo. E é com base nesta suspeita, de que o capitalismo se tinha esgotado e que
era necessário encontrar um novo modelo que vão ser feitas as reformas que nós
conhecemos com o nome de “New Deal”.
2.
(slide 21) O New Deal começa com o mandato presidencial de Franklin Roosevelt,
sobretudo os seus primeiros 3 meses no governo conseguem lançar o programa de
reforma radical da economia americana. Na verdade, este presidente foi eleito em
1932 no governo com uma vitoria absolutamente esmagadora sobre o seu adversário.
Durante a campanha eleitoral, Roosevelt conseguiu atrair o voto dos eleitores porque
ao contrário do seu adversário republicano, e do seu antecessor republicano,
Roosevelt considerava que chegava a altura do estado ter uma nova abordagem de
encarar a economia, e sobretudo o seu papel na economia. No entanto, claro, além
desta ideia de que era necessário um New Deal, o presidente americano foi
extraordinariamente vago sobre os conteúdos objetivos desse tal New Deal. No
entanto, claro, do ponto de vista político garantiu-lhe a vitória. Como diz Keynes, a
prioridade de Roosevelt não era apenas a recuperação económica, era mais do que
isso, era a reforma do próprio sistema económico. Como foi referido anteriormente,
nos anos 30 parecia claro que depois da desglobalização pós-1914, depois da Grande
Depressão, que o capitalismo falhara, e falhara também a economia de mercado. E
chegara à altura de experimentar novos sistemas.
(slide 22) Os modelos disponíveis eram, alguns pelo menos, bastante radicais.
Podemos falar no fascismo, em Mussolini. Note-se que Mussolini vinha do movimento
socialista, no entanto, ao aderir ao fascismo e ao criar o sistema fascista ele partia da
ideia de que o capitalismo acabaria por conduzir à luta e ao conflito entre
trabalhadores e empresários, e o que era necessário era um Estado que superasse este
antagonismo e que devia mediar, equilibrar, harmonizar os interesse destes dois
corpos. A ideia central que se chama corporativismo, ou seja, o estado devia sobrepor-
se a esta luta capitalista entre trabalhadores e empresários.
Na União Soviética, que teve nesta altura talvez o auge da sua influência sobre os
americanos, no fundo vem depois do terror vermelho, vem antes das purgas
estalinistas, a União soviética no início dos anos 30, pelo menos para alguns, tinha uma
reputação aceitável. Para a União Soviética, durante o Estalinismo, é evidente que
seguindo os ditandos de Marx, considerava que o capitalismo de mercado era na
verdade a opressão dos trabalhadores e para acabar com essa opressão, os
capitalistas, os patrões privados, deviam ser substituídos por um Estado, e esse Estado
deveria assumir todos os fatores de produção e definir ele próprio qual o nível de
produção. Havia ainda a Alemanha nazi, em 1933 ainda não havia propriamente o
modelo económico da Alemanha nazi, esse surgiria durante os anos 30, tal como o
New Deal, mas enfim, no ar, na Alemanha, estava a ideia de o capitalismo de mercado
também era um atentado à unidade e à viabilidade, à sustentabilidade, à autonomia
económica do valor mais alto do Nazismo, ou seja, a Nação. E o estado, portanto, do
ponto de vista económico devia garantir que a Nação era viável, sustentável,
autónoma. E o interesse coletivo, claro, que se sobrepunha aos interesses dos privados
ou até ao crescimento económico.
(slide 23) Estas ideias e estas experiências que estavam a decorrer na Europa,
especialmente as duas primeiras, Mussolini e Estaline, tem uma grande influência na
América de Roosevelt, e na forma como este vai construir o New Deal. O New Deal
acaba por ser o resultado de influências bastante disparas e não inteiramente
concordantes, no entanto, é claro que o mercado falhará, os preços não funcionam e,
por isso, é necessário um tal New Deal, uma tal nova maneira de fazer as coisas. Uma
das principais influências era o chamados os adeptos do Big Gov, o diagnostico era
muito claro, a economia de mercado tinha falhado e o necessário era aproximar-nos
mais da União Soviética, aqui há grande parte dos adeptos enfim do aumento da
influencia do Estado tem influência direta soviética e vêm das universidades,
sobretudo das faculdades de direito, ou seja, a ideia de que a economia falhara, os
gestores não conseguem encontrar os preços certos, há qualquer coisa de errado na
economia de mercado, os preços continuam a cair e, nem por isso, o consumo volta a
manifestar-se, e, portanto, é necessário um novo sistema, e os soviéticos não tem este
problema, portanto, vamos imitar os soviéticos. Por outro lado, há uma outra corrente
de opinião também muito forte perante Roosevelt e sempre forte perante qualquer
presidente, são os representantes dos grandes negócios, o Big Business. O que é que
querem os representantes do Big business? Eles vêm como problema central a
concorrência, é esta que leva em muitos setores a baixa dos preços, se não se
houvesse oligopólios ou concorrência imperfeita seria mais fácil os preços continuarem
elevados. E enfim aqui os membros desta corrente de opinião propõem acordos entre
o Estado e as grandes empresas, no sentido de o Estado permitir alguma flexibilidade
em termos de autorizar a cartelização das empresas, aqui a influência de Mussolini é
grande, ou seja, o Estado autoriza as empresas a criarem monopólios e oligopólios,
mas em troca o Estado pede às empresas que protejam mais os trabalhadores e que
deem algumas regalias, tal como acontecia em Mussolini e até mesmo mais tarde na
Alemanha Nazi. Portanto, é uma outra corrente de opinião, não inteiramente
coincidente com o Big Gov, no Big Gov há mesmo uma vontade de haver uma
economia planificada, no Big Business as empresas continuam privadas mas entrariam
em acordo com o Estado, e este autorizaria a cartelização em troca de regalias para os
trabalhadores, ou seja, uma solução mais corporativa.
Finalmente, havia ainda um setor, que é um setor muito influente, que são os
interesses agrários. Os interesses agrários sentiam que o problema central da
economia americana era os baixos preços, que eram devidos a concorrência. Ora bem,
essa concorrência tinha efeitos negativos nos rendimentos das empresas, mas
sobretudo no rendimento dos agricultores e das famílias dos agricultores. Ou seja,
estão a proteger não tanto o rendimento de empresas, mas de famílias, e, portanto,
pediam ao Estado que aumentasse os preços.
3.
(slide 24) A 1ºlei de Roosevelt nos seus 100 dias foi o Emergency Banking Act, esta lei
partia de um diagnóstico que não estava errado, ou seja, os bancos sofriam as famosas
“corridas aos bancos”, porque o público desconfiava da sua solidez, e, como tal, havia
baixo investimento. Ora bem, a lei não está errada, mas enfim o descrédito dos
bancos, ou o medo que os bancos tinham das corridas aos bancos, não era a única
razão para a diminuição do investimento, falamos claro da taxa de juro. As medidas
que esta lei tomava pareciam bastante dramáticas aos americanos na altura, na
verdade Roosevelt decidiu que só os bancos sólidos poderiam continuar, e foram
necessário encerrarem, assim, 4004 bancos, ou seja, uma % muito elevada dos bancos
que existiam nos EUA, os bancos foram proibidos de operar sem garantias de liquidez,
portanto, os bancos que eram considerados inviáveis foram encerrados, e os seus
depósitos e ativos distribuídos pelos seus depositantes. Os outros bancos, bem, eles
foram avisados que não poderiam operar sem garantias de liquidez, o Tesouro
americano disponibilizou empréstimos. Estabeleceu-se também uma instituição, que
aliás ainda hoje vigora na maior parte dos países, que é a Garantia Federal dos
Depósitos, ou seja, a ideia de que os depósitos estão garantidos pelo poder executivo,
ou seja, não é apenas o banco que garante ao depositante o valor do depósito, em
caso de falência do banco, o depositante tem direito ao seu depósito na integra. Com
isto, Roosevelt evitou futuras falências e futuras “corridas aos bancos”, ou seja,
diminuiu muito a pressão sobre os bancos, e durante o seu mandato, pelo menos o
1ºmandato, apenas faliram poucas dezenas de bancos, em comparação com os
milhares de bancos que faliram nos anos anteriores. Uma outra importante medida, e
essa que vigorou quase até à crise financeira, aliás a revogação desta medida foi
considerada uma das causas da crise financeira de 2008, é que Roosevelt separou os
bancos que atuavam ao nível do retalho, portanto, os bancos da rua, e os bancos de
investimento, ou seja, aqueles bancos que não são onde as pessoas depositam o
dinheiro, isto para evitar ao público americano a ideia de que o dinheiro dos
depositantes era jogado no casino da bolsa e dos investimentos especulativos, uma
medida que visava reconstituir a confiança no sistema bancário.
(não tem slide) Falta a questão mais importante, a questão da taxa de juro (taxa
desconto FED). Se nós olhamos para os anos de Roosevelt, vemos que a taxa de juro se
manteve nos patamares semelhantes aos que tinha estado, p.e., nos anos 20, quando
as coisas corriam bem, e, ainda por cima, Roosevelt nem procura combater o efeito da
inflação, ou seja, quando temos deflação a taxa de juro real sobe, e foi o que
aconteceu em vários pontos. Mas o vemos uma taxa de juro real relativamente alta.
Ou seja, o que era decisivo para convencer os investidores a investirem e a
mobilizarem os seus capitais e também os capitais dos bancos e criarem fábricas,
novas lojas, aumentarem o número de trabalhadores, bem, isso claro, depende em
grande medida da taxa de juro, e isso não foi feito. Como vemos Roosevelt antes da
2ºGM, as taxas estavam muito elevadas, foi necessário a 2ºGM para estas taxas de
juro descerem a níveis muito mais baixos. Ou seja, a lei da emergência bancária era
uma lei necessária sem dúvida, bem concebida, o diagnóstico era correto, mas só por
si não consegue absorver todo o desemprego, nem criar um nível de investimento
suficiente para tal.
(slide 25) Ora bem, a 2º lei de Roosevelt à qual vamos dar atenção é a lei do
ajustamento agrícola. O diagnóstico aqui era bastante correto, era um diagnóstico que
olhava para os diferentes mercados dos produtos agrícolas e encontrava neles um
problema para os agricultores, para as famílias dos agricultores, que era a concorrência
perfeita. Esta levava os agricultores, sem poder de mercado, os agricultores
individualmente considerados, a agricultura não era dominada por grandes empresas,
pelo contrário, mas por pequenos produtores, levava-os tipicamente a produzir em
excesso, o que oferecia aos consumidores preços baixos é certo, mas prejudicava
muito os rendimentos das famílias agrícolas. Como é que Roosevelt procurou
responder a este problema com a tal lei do ajustamento da agricultura? Bem, dando os
estímulos necessários para as famílias agricultoras reduzirem a produção. Primeiro
usou uma espécie de métodos mais bíblicos, mandou dizimar a população de leitões,
as searas foram queimadas ou o grão destruído, enfim, um espetáculo popular que
impressionou os contemporâneos, os jornais encheram-se de páginas sobre os grandes
massacres dos leitões, os rios de sangue que corriam das pocilgas até aos rios
verdadeiros, etc. No entanto, depois destas medidas mais drásticas a ideia de reduzir a
produção manteve-se de uma forma mais europeia, pagar aos agricultores para não
produzirem. Notem bem que estes subsídios vão encarecer os produtos e mais, esta lei
foi financiada por novos impostos sobre a moagem, sobre a produção de pão, e então
afetam duplamente o consumidor, portanto, estão a pensar no lado da oferta, e não
estão a pensar nos preços do consumidor e dos consumidores americanos que
passavam por tantas dificuldades. Claro, que do ponto de vista social a lei tem um
impacto muito favorável nos rendimentos dos consumidores, mas se olharmos de uma
perspetiva agregada para a economia americana como um todo, o que estamos a ver
bem, o contrário do crescimento, o contrário da prosperidade, que são preços altos,
prosperidade talvez para as famílias de agricultores, mas no conjunto da economia
americana, a lei não beneficia em nada a recuperação. Pelo contrário, está a obrigar, a
retirar poder de compra aos consumidores, e, ainda por cima, tendo em conta que há
um cenário de deflação, e esse cenário é mais gravoso para as indústrias, pois estas
produzem os chamados bens de consumo duráveis, bens mais caros e muito mais
elásticos ao rendimento, ao contrário dos bens agrícolas. E, portanto, estão a deprimir
ainda mais o poder de compra da população americana para comprar bens de
consumo durável. É um passo, se entendermos na perspetiva social, está a reforçar o
rendimento das famílias agricultoras, e, portanto, a ajudar o lado da oferta, e, por
outro lado, está a prejudicar o setor industrial, p.e. É uma lei que beneficia uns e
prejudica outros, e o impacto global na recuperação económica é baixo, até porque
esta não era uma agricultura que criasse emprego, nem que exigisse grandes
investimentos, ou seja, acaba até por prejudicar a indústria, que cria mais emprego e
que exigia mais investimento.
(slide 26) A indústria porém apesar de prejudicada por esta lei, ela não foi esquecida, e
na National Industry Recovery Act é, talvez, onde se note mais a influência estrangeira,
sobretudo a de Mussolini, claro que havia algumas vozes que aclamavam por um
controlo público de algumas indústrias, ou seja, maneira estalinista, ou vozes que
sugeriam aquilo que mais tarde Hitler veio a fazer na Alemanha, ou seja, grandes
encomendas e grande intervenção por parte do Estado na gestão da indústria, mas
Roosevelt não vai tão longe, vai mais pelo modelo corporativo, isso talvez seja visível
no logo, está aqui um feixe de relâmpago na garra da águia, e o que trai de alguma
forma a influência corporativismo, de Mussolini, nesta lei, aliás Mussolini referiu-se ao
“New Deal” como finalmente a América estar a ver a luz, que ele tinha aberto com as
suas políticas corporativas. Em que é que consistia esta lei? Partia de um diagnóstico
que mais uma vez não estava errado, o raciocínio estava correto, é que a concorrência
entre indústria, uma concorrência também perfeita, não tanto como na agricultura,
mas havia algo próximo a uma concorrência perfeita, levava ao excesso de produção e
levava aos baixos preços e, portanto, as indústrias não conseguiam com os preços
baixo cobrir os custos, e, por isso, despediam os trabalhadores ou reduziam as suas
operações. Não é que existisse bem uma concorrência perfeita, o diagnóstico talvez
seja demasiado otimista, mas não há dúvida que havia deflação. Roosevelt responde
procurando harmonizar os interesses em jogo, os interesses dos patrões, proprietários
das empresas e os interesses dos trabalhadores. Como? Bem, oferecendo aos patrões
algo que, pelo menos muito deles, ambicionavam, sobretudo as grandes empresas,
autorização para fazer cartéis de forma a manterem os preços altos, ou seja,
compromissos de não concorrência dentro de cada mercado, sobretudo as grandes
empresas, que obtêm do Estado a licença para se organizarem em cartéis. Mas o
Estado exigia algo em troca, exigia as grandes empresas que dessem melhores
condições aos trabalhadores, e essas condições passam por salários melhores,
introduz-se aqui o salário mínimo, a licença para organização em sindicatos e melhores
condições de trabalho, além de algumas regalias. Neste aspeto, claro, isto é
corporativismo, tal como a política económica do nazismo acaba por não ser uma
política liberal, pelo contrário.
(slide 27) O que é que podemos concluir dos resultados destas medidas? Estas
medidas padecem de uma espécie de pecado original, em que são medidas pensadas
do lado da oferta, ou seja, partem do princípio de que os preços estão demasiado
baixos e que é necessário subi-los. Há aqui um erro de medida, os preços são um sinal
daquilo que está a acontecer na oferta e na procura, nos custos que estão do lado da
oferta e nas expectativas e predisposições que estão do lado da procura, e os preços
de equilíbrio que existem no mercado são resultado dessas duas forças, não serve de
nada fixar preços acima dos preços de equilíbrio, pelo menos não vai mudar a
economia como um todo. E este é talvez o vício de origem do New Deal, os 100 dias,
este primeiro ímpeto do New Deal, porquê? Porque ao estimular maiores preços na
agricultura e na indústria acabam por tornar o consumidor ainda mais fraco, ou seja, o
seu poder de consumir acaba por sofrer mais, é aquilo que em macro se chama a
procura agregada, a procura agregada enfraquece por causa destas medidas, não se
fortalece. Além de que claro, como vimos, no caso do sistema bancário há a questão
de não ser uma medida que foi acompanhada de uma política de descida de juros clara
e determinada, como veio a acontecer com a 2ºGM. Depois, o problema da economia
americana era essencialmente um problema do lado da procura, era a indisposição dos
consumidores para consumir, porquê? Porque, bem, estavam desempregados, temiam
o desemprego, e ao estarem relutantes em consumir, ao adiarem o consumo, eles
acabavam por dar um sinal aos investidores de que não estavam disponíveis para
grandes consumos, e, claro, os investidores racionais acabaram por guardar os seus
dólares nos seus depósitos nos bancos, agora seguros, ou, enfim, debaixo do colchão,
ou em confortáveis contas poupanças, ainda, por cima, acrescidas de uma espécie de
prémio.
(slide 29) É claro que o New Deal durou muito mais tempo do que os 100 dias,
Roosevelt foi reeleito em 1936 e, nos 4 anos seguintes continuou os seus programas
semelhantes, embora não tão ambiciosos como os primeiros, até porque do ponto de
vista constitucional alguns destes programas são considerados incompatíveis com a
constituição americana, sobretudo esta autorização para cartel, porque as pequenas
empresas acabam por reagir muito contra esta cartelização. No entanto, o New Deal
continuou e programas deste tipo continuam a existir em outros setores. Um mito que
convém dissipar, é o de que o New Deal passa por uma grande despesa pública, não,
até politicamente a despesa pública não é tão popular como é hoje em dia, na Europa
pelo menos, nos EUA dos anos 30 era preciso demonstrar, e Roosevelt deu-se a
grandes esforços para isso, para demonstrar que a despesa foi apenas a estritamente
necessária e que não há grandes deficits, os deficits são enfim comparáveis ou ainda
melhores do que aqueles que aconteceram durante a presidência americana anterior,
e todas as medidas que foram faladas são medidas que se pensa que se consideram
neutrais do ponto de vista da despesa pública, ou seja, é necessário fazer
transferências para os agricultores, é necessário dar subsídios para eles não
produzirem, não faz mal, vamos obter os recursos necessários para pagar estes
subsídios acrescentando o imposto adicional, ou seja, se quisermos há até uma certa
austeridade durante, sobretudo, o início do New Deal. É evidente que há mais despesa
pública, no entanto, não faz parte do desenho do New Deal, a despesa pública.
(slide 30) Podemos apreciar, temos aqui o deficit orçamental, quando é positivo é um
superavit, vemos que está a um nível semelhante ao que tinha acontecido durante
Hoover, não há aqui um grande aumento da despesa, há aqui até um orçamento
equilibrado em 1938, que aliás coincidiu com uma nova recessão. Vemos que, quando
é que o governo americano verdadeiramente entra em deficits fortes bem,
naturalmente é em 1941 e 1942, quando os EUA entram na 2ºGM. Por isso, para ter
uma ideia da magnitude destes déficits, os deficits do New Deal, são comparáveis aos
déficits, p.e., de Reegan, ou da política neoliberal de 1970 em diante, portanto não são
déficits impressionantes, longe disso.
(slide 31) Ora bem, no entanto, é preciso perceber que o New Deal não deixou de
incluir alguns déficits. Roosevelt pode dizer que as suas medidas são essencialmente
neutras, mas é evidente que temos aqui déficits. Bem, o que é que então mudou? Com
Roosevelt, sobretudo com o seu 2ºmandato, o deficit deixa de ser entendido como um
problema político, mas é habilmente justificado como uma medida político-económica,
deixa de ser uma incapacidade do governo para equilibrar o orçamento e passa a ser
uma estratégia, é aquilo que chamamos uma racionalização, ou seja, nós encontramos
uma justificação aparentemente racional para explicar alguma coisa que acontece, e
procuramos dar-lhe uma intencionalidade que ela não tinha. Na realidade, é o
deteriorar-se da situação orçamental, que leva a alguns déficits. Para Roosevelt, o
déficit acaba por ser não o objetivo, mas um acidente que ele depois acaba por
justificar politicamente. É claro que só a 2ºGM é que vai alterar significativamente a
política económica, pelo menos em termos de taxas de juro e em termos de déficits.
As taxas de juro sim, em 41/42 descem, finalmente uma descida drástica das taxas de
juro, que antes mesmo dos EUA entrarem em guerra, estes optam por emprestar
dinheiro ao RU, e as taxas de juro descem para níveis muito baixos.
(slide 32) Ora bem, no entanto, este nível de investimento muito elevado, conhecido
pela 2ºGM, parte de investimento porque estão-se a abrir e construir fábricas e tocas,
estaleiros, etc. Mas também é gasto público, e o que é que este gasto público faz?
Bem, absorve toda esta população desempregada. Para ter uma noção também no
longo prazo, e para compararmos com a crise atual, o que temos aqui, é as taxas de
desemprego americanas desde o início da Grande Depressão até à atual crise. Como se
pode ver, a Grande Depressão implica taxas de desemprego ainda superiores ao que
aconteceu com a crise do COVID-19. Estas taxas de desemprego, no entanto, altíssimas
acabam por ser superadas abruptamente com a entrada dos EUA na guerra, ou seja, aí
sim o nível de gasto público é suficiente para absorver o desemprego.
(slide 35) Porque é que o New Deal é tão importante? Porque o New Deal mais do que
resultados, apresentou um programa político. Para os estados que surgem após os
anos 30, é agora claro que já não basta aquele estado liberal ou estado mínimo de
Adam Smith, que apenas tem de fornecer os tais bens públicos, a defesa, a justiça, e
uma ou outra instituição ou construção que seja um bem público porque os privados
podem capturar os seus benefícios, mas não conseguem financiá-lo. A partir do New
Deal, os estados, e os eleitores, e os consumidores, e os contribuintes, e os políticos e
os gestores acabam por entender que as funções do Estado não se podem limitar a
produzir alguns quantos bens públicos puros, o Estado não pode limitar a ter apenas
instituições compatíveis com o mercado, ou seja, a defesa da propriedade privada, o
sistema de justiça, eventualmente o padrão-ouro, tarifas baixas. Não, o Estado tem de
ter uma intervenção muito mais profunda e mais regular, mais conjuntural, ou seja, o
Estado precisava de ter uma política económica, e essa noção de um Estado, ou seja,
um Estado que segue políticas económicas e que não mantém apenas instituições, é
algo que é determinante para a fase seguinte.