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Reflexões de um Pianista Solitário

Enviado por

Hideki Ito
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Reflexões de um Pianista Solitário

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Esse livro é para todos os pintores secretos,

escritores da madrugada, aspirantes a artistas


perdidos e de todos os níveis.
1º capítulo

ano era 2024,


aproximadamente 6:45 do
dia 10 de agosto, o despertador
tocou e assim abria meus olhos
dolorosamente mais uma vez,
pronto para começar outro dia comum, sair da cama era
um sacrifício e se manter acordado era outro. Um dia
gelado, assim que retirei o cobertor meus pelos
arrepiaram e ao olhar pela janela perto do horizonte
avistava a geada, um presságio de que seria um longo
dia. Me arrumei rapidamente, sentei na mesa, comi uma
torrada enquanto corria contra o tempo, assim sai para
fora, em que se formava fumaça em minha boca sem
estar fumando e não importava o quão quente estivesse
vestido não esquentava, por isso eu não gostava do frio.

A m de melhorar a qualidade dos 20 minutos de


caminhada nas ruas esburacadas de uma cidade do
interior, do meu apartamento até o trabalho peguei o
fone, de o mesmo, apesar de ser uma raridade e ter que
usar um adaptador, mas vale a pena visto aos preços e
uma vez que não consigo não perder os sem os.
Coloquei para tocar uma playlist de música clássica em
ordem aleatória e guardei o celular, esse era um dos
poucos momentos em que me sentia verdadeiramente
em paz, ao longo do som do piano ecoando em meus
ouvidos com alto volume, me sentia arrastado pelo meu
subconsciente de volta a minha velha infância.

A casa de meus pais, sua tintura branca marcado pela


porta de madeira com detalhes em relevo em tom
vermelho sangue assim como as suas grandes janelas,
cozinha era pequena grudada com a sala que por
consequência era maior, com uma grande porta de
fi
fi
fi
vidros quadrados ao lado levando o jardim e no centro
da sala, rodeado por sofás escuros e de couro em todos
os cantos existia um largo piano preto como enfeite.

Eram lembranças felizes, apesar de não muito claras.


Minha mãe era uma professora de piano então isso
sempre foi presente em minha vida, uma vez que ela
queria que seu gosto fosse repassado, assim treinava
antes de ser considerado gente, já meu pai trabalhava
em um escritório e nunca foi grande fã de instrumentos
talvez pela sua falta de habilidade, mas preferia não tocar
do que arriscar ser ruim. Éramos uma família alegre,
minha mãe normalmente cozinhava o jantar e eu cava
sozinho pelo almoço, meus pais trabalhavam muito a m
de me dar uma boa educação, porém minhas manhãs
eram um pouco solitárias com isso desenvolvi grande
gosto por aprender.

Acredito que comecei a tocar pelos cinco anos de idade


no piano de nossa casa e conforme fui crescendo foi se
tornando cada vez mais frequente, tocava três horas por
dia quando não era mais tempo enquanto minha mãe
trabalhava para que conseguisse ver meu esforço e
evolução quando chegasse em casa, assim pré
adolescente já era digno dela se orgulhar, conhecia
grande maioria das músicas clássicas mais famosas e
tentava tocar.
O meu preferido sempre foi e sempre será Mozart, que
foi um prodígio austríaco que diferentemente de outros
que escreviam até 9 sinfonias em suas vidas
normalmente este em particular escreveu 41 sinfonias e
um total de 600 obras, apesar de morrer tão cedo, essa
admiração é um dos motivos dos quais me dediquei a
aprender tocar quantas conseguisse.

Ultimamente não tenho mais tempo de tocar, sai da casa


de meus pais e não juntei dinheiro su ciente para
comprar um novo piano, não sei quando especi camente
que percebi que de fato cresci agora me encontro
sempre sendo levado pelas obrigações da vida adulta.
fi
fi
fi
fi
Quando recuperei a linha de raciocínio já era tarde,
estava atrasado.
Comecei a correr e ao chegar lá meu erro não foi
percebido quando cheguei ao escritório, era um trabalho
bom porém monótono, eu sendo apenas mais um
operário comum em centenas de outros com seus
pequenos escritórios lado a lado, ao longo de uma
o cina em um edifício comercial. Aqui não importasse o
quanto você sabia sobre assuntos externos, seus
interesses ou qualquer traço de personalidade no geral,
não que você tivesse tempo para desenvolver isso,
sempre com rotinas longas cansativas entretanto poderia
ser muito pior do que ser a mesma coisa todos os dias
para sempre.

Você deve estar se perguntando porque eu não me


demito, bom, porque existem contas para serem pagas e
eu preciso do dinheiro e ser artista hoje em dia,
principalmente tocando piano exige muito.
Aqui não me relaciono com ninguém, não achava que
traria algo bom disso tendo em mente que as relações
interpessoais aqui normalmente são motivadas por
interesses, seja por possível promoções, matar o tempo,
saber fofocas, o que me parece supér uo, com isso
almoçava na minha mesa em vez do refeitório com os
demais.

Enquanto isso ocupava meu tempo com as minhas


re exões junto as tarefas cotidianas, era fácil deixar de
viver o agora, ser levado pela ideia de uma outra
realidade ou por outro tempo, onde teoricamente tudo
seria mais fácil. Já estava anoitecendo quando chegou a
hora de voltar para casa, novamente 20 minutos de
caminhada, pelo mesmo caminho esburacado, ouvindo
as mesmas músicas. Estava cansado e com fome,
chegando em casa sozinho, indo esquentar comida
congelada só que precisava antes guardar o pouco de
relatórios que trouxe do escritório na gaveta de madeira
no móvel da sala, reviro rapidamente o que tem dentro
a m de criar mais espaço naquele lugar apertado,
fi
fi
fl
fl
quando cai uma pasta de plástico que se abre caindo
fotos e anotações.

Então me abaixei para recolher, em que era relatos de um


antigo sonho que era nutrido pelo piano há muitos anos
atrás, fotos com a minha família sentados à mesa no
horário do jantar que a minha mãe havia preparado, o
casamento dos meus pais, fotogra as minhas das quais
eu nem me lembrava de ter feito parte, como com
brinquedos no meu quarto enquanto segurava um dente
de leite recém caído, assim como notas de músicas e um
dvd.
Acredito que o momento que me fechei para o mundo foi
a morte dos meus pais, que aconteceu há anos atrás em
um acidente de carro. Eu já não morava mais com eles e
infelizmente não os via em algum tempo, pois estava
preso a faculdade em que eu fazia em outra cidade. Era
muito novo e era estagiário, o que permitiu que eu
continuasse meus estudos e me mantendo na cidade em
que eu morava, mas não ganhava o su ciente para
conseguir manter a casa dos meus pais. Depois do luto,
por um tempo me isolei para ngir que nada aconteceu,
que por mais que não pudesse conversar com eles, me
iludia pensando que ainda estavam aqui, vivos e
ocupados demais para manter contato.

Ao longo dos anos eu fui obrigado a vender o piano


também, não tinha espaço na minha casa, não tocava
mais pela constante memória dos meus pais e da perda
deles e confesso que por ma administração do meu
dinheiro também coincidiu a estar precisando. Com o
tempo me acostumei, diminuiu a saudade ardente de
tocar piano e me acostumei a viver sozinho, sem precisar
ou conversar com ninguém. Essas lembranças
continuaram comigo enquanto ia fazendo outras coisas,
me sentia como um motorista de carro automático, em
que consigo levar a vida sem prestar atenção.
fi
fi
fi
Lavei a louça e deixei escorrer, o apartamento era
pequeno, com apenas um quarto, um banheiro, estilo
estúdio.
Minha convivência lá não era das melhores pois acredito
que se fosse outro morador ia estar muito diferente, ouso
dizer que muito mais limpo. Tomei banho no chuveiro
que era apertado e o vapor da água quente suava o
espelho, coloquei o meu pijama, conjunto de manga
longa e calça azul marinho e fui me deitar.

Com a cabeça encostada no macio travesseiro, os olhos


fechando para dormir decidi que era hora de revê-los,
meus pais, ou pelo menos o que restou deles, voltar a
minha cidade natal o quanto antes. Assim levantei o
braço rapidamente para pegar meu celular e comecei a
olhar o valor passagens de ônibus até lá, a do dia
seguinte era a mais barata, com isso a melhor opção era
pegar um atestado falso, faltar o trabalho e ir.
Era uma escolha imprudente mas não estava muito
interessado nas possíveis consequências.
2° capítulo

manheceu, dessa vez meus


olhos não doíam tanto ao se
abrirem, o horário do ônibus não
era tarde, contudo não exigia que
eu acordasse em alguma hora
especí ca também. Enchi um copo
de água, peguei uma maçã e voltei
para o quarto, com a cama ainda bagunçada e de pijama
comecei a separar o que levaria, não tinha muito tempo
então escolhi uma mala pequena.
Tudo já estava no seu devido lugar, então fui atrás do
atestado com um velho amigo que havia se tornado
médico recentemente. Segui segurando aquela bagagem
pequena porém pesada, com dinheiro contado até um
ônibus mediano, com bancos duros e uma longa viagem
a frente.

Eram 4 horas de distância, a estrada era bem arborizada


com mata fechada, lá na minha pequena cidade natal
muitas ruas eram via única. edifícios baixos e muitas
casas, principalmente de apenas um andar. O cemitério
não cava dentro da cidade, acreditavam que a distância
ajudaria a assegurar o descanso dos que já partiram,
algumas religiões locais a rmavam que era um local
sagrado.
Após a minha chegada, aluguei um armário para guardar
minhas coisas na rodoviária, comprei ores no centro
próximo e utilizei do transporte público para ir o mais
perto do local desejado, apesar de ser acessível apenas
a pé, já que as estradas de largura insu ciente para
carros ou ônibus. Seu ponto positivo, que teria que se
conectar a natureza, pois sua trilha era no meio da
oresta local, sem residências tão próximas ou
construções humanas além do cemitério e o caminho em
si.
fl
fi
fi
fi
fl
fi
Lá estavam eles, junto a tantos entes queridos,
constantemente esquecidos pelos que caram e
seguiram em frente, ou aqueles que não conseguem
superar e passam suas vidas remoendo os
acontecimento, querendo mudar o passado ou se unir a
eles. O meu depende do dia, a aceitação ou não do
ocorrido, deixei as ores no chão perto aos seus nomes.
A forte sensação de perda que achei que havia
conseguido aprender a lidar voltou como um furacão em
meu peito, me destruindo de dentro para fora, não
conseguindo segurar as lágrimas e o desespero
crescente no fundo do meu coração.

Nesse momento ouvi algo inesperado, um choro infantil


vindo de fora do local, mesmo não parecendo ter
ninguém.
Não era meu lugar de fala criticar quem deixou a criança,
ou porque ela estava chorando, porém não podia deixar
de sentir um arrepio na minha espinha com isso, sequei
as minhas lágrimas e olhei para os lados, tudo estava
normal então tentei ignorar para ver se algum
responsável da criança resolveria, mas nada aconteceu.
Caminhando com passos leves, evitando fazer barulho
fui me afastando do túmulo baixo, a nível do solo, de
meus pais. Tentei seguir o rastro do barulho, que não
parecia muito distante, me agarrando ao pensamento
que se não fosse eu a atender a criança, quem seria?

- Alguém está aí? - gritei sem obter respostas -


Segui, pensando que provavelmente deveria ser pequeno
demais para conseguir falar no geral, o que explicaria a
falta de resposta, mas porque estaria sozinha? Deveria
chamar alguém?
peguei o celular para conferir se havia sinal e
possivelmente ligar para a polícia porém não pegava o
sinal.

Quando cheguei mais perto havia sido levado para uma


pequena clareira com uma grande árvore no centro, onde
fl
fi
aparentemente a criança deveria estar. O choro parou,
tudo cou inacreditavelmente quieto e calmo, me
mantive a procura de onde saia o som, me aproximando
gradativamente e quanto mais próximo estava, se
mostrava ser cada vez maior do que eu esperava que
fosse ser, provavelmente sendo muito antiga. No
momento a contornei apoiando as minhas mãos no
tronco, o milésimo de segundo passava cada vez mais
devagar, senti um tremor no solo principalmente abaixo
de meus pés e antes que eu pudesse me dar conta do
que estava acontecendo subitamente tudo cou preto e
quei inconsciente.

Quando tudo voltou ao normal meu corpo estava inteiro


dormente, como se estivesse tivesse sido cortada toda a
circulação levando a sensação de incômodo e
incapacidade de mover corretamente, utilizei o resto de
forças que ainda havia para me afastar de lá.
No caminho de volta estava começando a garoar, re z o
trajeto de volta passando em frente do cemitério, o lugar
onde se localizava o túmulo dos meus pais era perto o
su ciente para conseguir olhar da parte de fora, não
conseguiria ler, mas eu sabia que cava ali e por mais
que estivesse com a visão um pouco mal graças a
corrida, observei que as ores que eu havia colocado
não estavam lá.

Os calçamentos sumiram assim como o ponto de ônibus


já, minha barriga estava roncando, a chuva se acalmou
parando gradativamente, então ao avistar uma árvore de
ameixas decidi parar para comer algumas, ao lado de
uma casa em que no momento esperava que os
moradores não se incomodassem comigo lá. Avisto um
casal saindo da residência, me olhando estranhamente
de forma confusa, eram jovens mas com atitudes de
velhos, cabelos grisalhos com roupas antigas parecendo
fantasias. Eu estava todo molhado, decidi seguir meu
caminho, com a roupa grudada ao corpo. Ergo minha
cabeça e meus olhos, a cidade estava lá, não como
quando cheguei, na verdade de uma forma que nunca
fi
fi
fi
fl
fi
fi
fi
havia visto na vida. Parecia que o dia das bruxas havia
chegado mais cedo e eu era o único a não perceber,
caminho poucos passos para trás, quando esbarro em
um homem de cabelos castanhos e altas roupas
acidentalmente.

⁃ Me desculpe.
⁃ O que você está usando? - percebo um tom de
julgamento, os olhos subindo e descendo por inteiro-

⁃ O que? - não entendo o sentido da pergunta então


não sei o que responder, estou usando moletom?
Mas aparentemente não sou o único que não
entendeu - O que aconteceu com a cidade?

⁃ Nada, apenas novas residências foram criadas com


base nas últimas tendências de moda. - olho
calmamente em volta e não parece nada moderno,
mas novo - há tempos não visitava?

⁃ Eu cheguei aqui hoje… - penso em quanto hoje


parece um espaço de tempo relativo, e se tivesse
cado mais tempo desmaiado do que eu esperava? -
na verdade, que dia é hoje?

⁃ 10/08 - me sinto aliviado em ouvir, respiro mais


levemente, não que mudasse se tivesse sido mais
tempo, iria explicar algumas coisas - de 1767

Me afastei lentamente, pensando que pegadinha de mal


gosto era aquela. Contudo não acredito que tantas
pessoas se mobilizariam para isso, meu coração dispara
e a calma em que estava antes se vai como casas sendo
apagadas pelas águas das enchentes de um rio.
- Seria isso possível? - apenas penso, ainda em choque -

Eu apenas saio correndo para o único lugar que me


sentia confortável, para junto aos meus pais, para o
cemitério. Durante o caminho qualquer índice de
fi
raciocínio lógico de nitivamente já foi descartado, não
consigo nem organizar meus pensamentos a orados,
sinto as ameixas se revirando em meu estômago.
Procuro incansavelmente pelo túmulo deles, percebo o
tempo passando pela mudança das cores do céu
marcando o por do sol, desisto então percebendo que as
lápides marcavam até 1767.

Meu corpo já estava cansado, desamparado, dolorido,


me abaixo encostando as costas a uma árvore de
Carvalho, apoiando também a cabeça e a única coisa
que consigo fazer é chorar. Seco minhas lágrimas,
pensando na fala do senhor “1767”.

Como? Porque? O que eu faço? Para onde vou? Não


conseguia responder nenhuma delas, então continuo ali,
imobilizado. A parte positiva é que não tem ninguém em
casa que vá sentir a minha falta, acredito que nada vai
mudar, como se nunca tivesse existido.
completamente perdido no tempo
Estranho pensar que agora só estarei presente apenas
nas vagas memórias do que um dia já fui, já vivi, ou
melhor, um dia serei e viverei.
Me encontro emocionalmente acabado, mas não tenho
certeza se conseguiria dormir, meus batimentos estão
muito acelerados para isso enquanto sinto arrepios na
nuca de estar ali. Seria uma longa noite, os ventos
cortavam através da mata fechada, felizmente não
estavam tão gelados, ouvia o canto de uma coruja,
quase não havia visão devido a falta de iluminação e
aparentemente não via nada ao redor, mas sabia que
isso não era verdade devido a oresta próxima, escolhi
justo um cemitério escuro para passar a noite, belíssimo,
não adianta pensar nisso agora sendo que não tenho
para onde ir, com isso meus olhos se fecham com
grande cansaço e di culdade e quando dou por mim já
estava apagado.

Os pássaros cantam nos sabugueiros, vou recuperando


a consciência a cada piscada devagar junto com a visão
fi
fi
fl
fl
melhorando gradativamente, já estava claro, um pequeno
beija- or estava parado nas ores do local, que
diferentemente do presente são apenas naturais,
algumas famílias plantavam em homenagem a membros
perdidos como forma de tentar mantê-los vivos.
A oresta estava altamente colorida, com as folhas
migrando de verde claro ao escuro, o vento parou, a
vegetação variava entre baixa, alta, ores, árvores e
arbustos. Não conseguia pensar no que deveria fazer,
como voltar para casa, então lembrei da grande árvore,
fui voltando até lá, a mata estava mais densa e não
lembrava exatamente como ir.

Estava levemente menor, seguia caminhando na grama


que estava agora alta, molhada com as gotas de orvalho
da manhã belamente re etindo. Encostei com ambas as
mãos na árvore novamente mas dessa vez nada
aconteceu, o que me deixou extremamente frustrado e
com raiva.
Não existia mais nada, nenhum caminho que pudesse
me levar de volta ao meu tempo, já não estava perdido,
estava preso aqui. Intercalando meus pensamentos com
minhas vontades básicas, pela primeira vez me afasto,
vou além do que já fui, saio explorando o restante da
oresta aproveitando que ainda era dia. Sigo uma trilha
estreita, cercada de mata fechada, passando por
grandes troncos de árvores cortadas, seria um ótimo
local para uma emboscada já que não dava pra ver o que
estava atrás.

Ouço o canto dos grilos, o bater das asas dos besouros


passando perto de mim, uma paz se instaura em meu
coração pela falta de barulho, falta de bagunça e
nalmente a falta de pressa. Meu coração bate leve,
lento, calmo, a paisagem é bonita, não estou
acostumado a não estar na loucura da cidade. Tropecei
em um galho caído e ralei levemente a mão, percebo que
havia alguns sinais de sangue mas nada preocupante,
estava fora da trilha, o solo era irregular então rolei
fi
fl
fl
fl
fl
fl
fl
durante meu tombo, estava um pouco arranhado quando
levantei o olhos da terra, estava próximo a um lago.

O chão estava lotado de azedinhas, não comia uma


desde que era pequeno, como as ores e as raizes. Me
aproximei, às margens cheias de pequenas plantas
poluindo toda a parte mais rasa, lembrava a gramas
“normais”, ou pelo menos não era tão visível a certa
distância. Assim me ajoelhei para limpar o machucado,
aproveitando também para beber a água do lago, minha
garanta estava seca, agora sendo molhada por algo além
de saliva. Rasguei um pedaço da parte de baixo da
camiseta verde claro que estava usando junto a um
moletom e enfaixei minha mão, pensando em não deixar
a leve ferida exposta.

Continuo a caminhar, volto para trilha e dessa vez com


menos pensamentos, mais focado. As raízes espalhadas
pelo chão me impediam de seguir caminho de forma
contínua, sempre necessitando desviar de algo, mais a
frente chegando a uma árvore de fruta-pão carregada de
frutas. Esse tipo cresce rápido, deve estar com
aproximadamente 20 metros, normalmente a época mais
próxima que começa a colheita é de agosto até outubro.
Colho um de seus frutos, batendo-o em uma pedra
próxima a m de tentar abrir, está no ponto, fazendo
então eu me lembrar o porque do seu nome, pois criam
farinha dela para pães caseiros e também estava idêntica
a um pão que recém saiu da fornalha, fazendo meu
estômago se remexer e roncar apenas por lembrar o
cheiro, o gosto, de um pão fresco e morno.

Na Polinésia Francesa, há uma lenda referente á sua


origem. A grande fome que ocorreu na ilha de Raiatea,
uma família de seis pessoas estava tão desesperada por
comida que foram morar numa caverna e chegaram a
comer samambaias silvestres que cresciam no vale ao
redor. Sem aguentar mais ver seus entes queridos
sofrerem, o patriarca diz à sua esposa que cavaria um
fi
fl
túmulo e se enterraria ali. No local, oresceria uma árvore
que, então, poderia alimentá-los.
Quando, numa dada manhã, sua esposa acordou e não
mais o viu, sabia o que tinha acontecido. Nas
proximidades, havia uma árvore-do-pão que crescia
rapidamente, com galhos carregados de frutos.

Alimentado e tomado água volto para o dilema original, o


que fazer agora com a minha vida. Poderia car aqui, me
esconder de tudo e de todos, onde ninguém nem
perceberia minha existência, certamente seria muito mais
confortável e prazeroso se possuísse uma casa, não
acordar duro pela falta de conforto, que era inegável a
saudade que sentia da minha cama, do meu
apartamento, de uma comida de verdade ou um banho
quentinho. Percebi que não marquei muito o caminho de
volta, no momento eu nem queria voltar para ser sincero,
não queria minha realidade diária, não queria meu
trabalho, não queria pensar em como meus pais não vão
voltar, que o futuro ao lado deles é apenas fruto da minha
imaginação, não queria pensar que não há como voltar,
que estou aqui para sempre.

Pensando em tudo que não queria pensar, o tempo


passou e me sinto coberto por tristeza, vazio, sozinho,
um fogo em meu peito arde quando reparo nisso, decidi
tirar de mim, parar de me torturar em vozes as quais
mais ninguém poderia ouvir, quero colocar tudo para
fora, antes que eu perca o resto de sanidade que ainda
me resta, uso tudo o que sinto para dar um grito, alto,
estridente e longo até acabar o ar dentro de meus
pulmões, estou livre penso enquanto recupero o fôlego
periodicamente com um leve sorriso de canto de boca,
completamente e nalmente livre, de julgamentos, de
pessoas, estou completamente e absurdamente sozinho,
pela primeira vez em muito tempo não vejo isso como
algo negativo.

A ardência que sentia anteriormente se alivia, meu


coração retorna a bater em um ritmo consideravelmente
fi
fl
fi
normal, noto que o tempo que acreditava ter escorreu
pelas minhas mãos, arranco mais algumas frutas-pão,
quantas eu conseguisse segurar, as quais pressão no
meu machucado, sendo particularmente desagradável,
volto por um momento até o lago, bebo mais água, em
dúvida se continuo meu trajeto de conhecer mais do
local ou voltar ao local que dormira no dia anterior,
precisava decidir rápido, antes que acabasse a luz do
sol. Não é muito reconfortante a ideia de car atoa
durante a noite, poderia me tornar uma presa fácil a
qualquer coisa que pudesse me ferir, para ajudar ainda
costumo imaginar o pior cenário das situações, pois
quando acontece já me encontro preparado para lidar
com isso. Assim me imagino sendo picado por aranhas
durante meu sono, um grande javali raivoso me
acertando ou um bisão europeu que se tivesse no meu
tempo certo estaria quase em extinção, agora pode estar
não muito longe, posso assusta-lo sem querer ou ser
pisoteado, balanço a cabeça, tentando manter o foco,
nada de bom viria desse tipo de pensamentos.

Voltei ao cemitério, sentei no mesmo local em que passei


a primeira noite, enquanto “1767” ainda ecoava em
minha mente. Assim decidi que como já não tem mais
esperanças, tenho que dar um jeito de criar uma vida
aqui, não posso passar minha vida apenas entre o
cemitério e a oresta, agora só me faltava saber como
farei isso. Posso tentar usar do meu talento no piano,
não sirvo para nada útil aqui além disso, que felizmente é
valorizado, primeiramente, preciso dormir, não
conseguirei fazer nada de noite mesmo. Sentei com as
costas novamente apoiadas a árvore, dessa vez estava
ventando, a temperatura decaiu, junto minhas pernas ao
tronco do meu corpo, já estava melhor mas não
conseguia evitar os pelos do corpo arrepiados, a ponta
das unhas cada vez mais roxas (mesmo que de leve).
fl
fi
3º capítulo

e levanto, bato as mãos


pela minha calça para
remover a sujeira e nalmente
saio, voltando os passos que z no
dia anterior. Se eu for fazer isso,
preciso pensar como alguém
dessa época, não posso agir como
no futuro ou como se já soubesse
de algo a mais, se não serei taxado de louco, talvez pior,
como bruxo. Não tenho vontade de descobrir o que
fariam caso achassem que eu sou alguma dessas coisas,
se até pouco tempo atrás da minha era costumavam
“tratar” com torturas.

Olhando para baixo me lembro daquele homem moreno


perguntando a respeito das minhas roupas, o julgamento
e estranhamento em seus olhos, não posso voltar assim.
Felizmente existia a casa na estrada daqueles senhores,
que por acaso estavam com as roupas penduradas no
varal, sorrateiramente deslizo tentando não fazer barulho
enquanto dou a volta pela propriedade, eles não
deveriam estar acordados, peguei rapidamente uma
calça e uma blusa, colho uma porção de amoras e vou
andando rapidamente até a oresta. Retiro meu
moletom, mas o calçado continua o mesmo, tentando
deixar escondido embaixo de um arbusto para caso
venha a precisar dele, por mais que não acredite que
isso vai acontecer.
As vestes são pomposas, a calça vai apenas até a
canela, é azul marinho com detalhes em azul mais claro,
visto a camisa de manga longa em um tom próximo a um
branco, gola em pregas com amarração na parte do
peitoral.

Não estava combinando, vestes antigas com tênis,


contudo mais disfarçado do que sem as vestes. Voltei a
minha cidade, Arles, no sul da França, onde 121 anos no
fi
fl
fi
futuro, moraria Van Gogh. Estremeço em pensar que nem
mesmo ele obteve sucesso aqui, um artista tão
renomado no presente, tratado como nada enquanto
tentava ser artista, como haveria lugar aqui para mim?.
A arquitetura no presente também tentava manter o estilo
medieval, mas é completamente diferente ver como algo
antigo e ver como algo presente. As contrações estavam
mais vivas, o ar está mais limpo, aparentemente tudo
estava mais bonito. Decido passear pelas ruas, tão
conhecidas e tão distantes ao mesmo tempo. A grande
arena foi criada para lutas entre gladiadores e corridas
romanas, isso foi muito antes do passado onde me
encontro, agora está abandonada, sei que logo se
tornará um “bairro”e ocupado como casas. Fui
caminhando até o teatro romano, esperando que talvez
estivesse a estátua de Vênus, ninguém sabe quem
esculpiu, mas foi encontrada aqui.

⁃ Onde está? A estátua de Vênus? - pergunto a um


grupo de trabalhadores -

⁃ Em Versalhes, onde mais estaria? - abano a cabeça,


como se fosse algo óbvio que me esqueci -

Como um raio algo que não havia pensado me atinge, a


revolução francesa.
Começaria em 1789, 22 anos até tudo mudar, muito
sangue ser derramado, preciso sair da França antes.
Foco, penso comigo mesmo, um passo de cada vez.
Preciso primeiro pensar aqui, no agora, manter em mente
que a falta de alimentação e hidratação também mata.
Voltando para o centro, avisto um papel escrito em tinta
preta com um desenho de instrumentos comendo o
seguinte anúncio.
Haveria um concerto de música clássica, um grupo
musical viajando fazendo shows de passagem, é uma
oportunidade perfeita, exceto que é hoje, logo. Apurei o
passo para chegar no horário, algumas tendas estavam
estendidas na rua em forma de feira de domingo a céu
aberto, vendendo dos mais diversos utensílios,
alimentos, tecidos, acessórios, percebo em uma mesa
recém desocupada restos, quem estava ali certamente
não aguentou comer tudo, deixando metade intacta,
então me sentei com cabeça alta, como se o lugar
sempre tiver sido meu e nalizei a refeição.

Era a primeira comida de verdade que comia há um


tempo, minha boca continuava seca e quebradiça,
engolia saliva para amenizar, não obtendo sucesso.
Continuei o meu trajeto, a pausa para refeição
certamente me atrasou contudo era extremamente
necessária, estava perto o su ciente para ouvir a
melodia, estava lotado, não conseguia ver, nem passar.
Era composto por um violonista, uma garota tocando
harpa e um violoncelo, enquanto uma criança passa
recolhendo o dinheiro. Esperei o concerto acabar, os
artistas guardavam seus instrumentos, as pessoas saiam
lentamente conforme eu me aproximava.

⁃ Foi uma bela apresentação.


⁃ Obrigado - responde o violinista ruivo, fecha a capa e
coloca em seu ombro -

⁃ Qual o próximo destino?


⁃ Avignon. - responde a harpista de olhos âmbar, com
uma voz suave -

⁃ Porque? - o homem alto de cabelos pretos que


estava tocando violoncelo -

⁃ Porque eu quero entrar no grupo.- a rmo ajeitando


minha gola -

⁃ E o que você poderia nos oferecer? - continua o


homem moreno - como você mesmo disse, foi uma
bela apresentação.

⁃ Posso fazer o trabalho do menino, recolher o dinheiro.


fi
fi
fi
⁃ Lamento sem informar que essa função já está
ocupada. - comenta baixinho a garota -

⁃ Depende o quanto vocês estão dispostos a investir


em mim... - limpo a garganta, aperto os olhos
tentando demonstrar con ança sem ser arrogante,
posso ver que caram intrigados - preciso de um
trabalho, no momento não possuo nenhum, planejo
viajar até cidades maiores para começar como
músico.

⁃ Qual instrumento você toca? - pergunta o ruivo


violinista -

⁃ Piano, eu sei que sou bom nisso e posso agregar ao


concerto, não tenho um aqui na cidade, mas tenho
valor. Conheço diversas músicas que vocês podem
tocar. - comento lentamente, fazendo uma pausa para
respirar, algo próximo a um tom de súplica - Eu só
preciso de uma chance.

Eles caram quietos por um momento, trocando sérios


olhares não convencidos de se valeria a pena. Acenam
com a cabeça, não consigo conter um leve sorriso alegre
de canto de boca, concordaram de ir até uma loja de
instrumentos musicais, eis a minha chance de provar o
meu valor. Não consigo pensar em qual tocar, são tantas
músicas bonitas mas tenho que tomar cuidado, não
tocar algo atual. Não sei exatamente quais já existem e
quais não, quando me lembro de um em ascensão desse
período, Mozart.

Aí percebi que apesar de toda a parte triste desse


incidente, fui presenteado com algo que ninguém mais
havia sido e provavelmente nunca será.
EU POSSO CONHECER O MEU ÍDOLO!
Eu vivia uma vida pacata, tediosa, porém era minha,
agora aqui, posso ser quem eu quiser, fazer o que bem
fi
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entender, ver Mozart e outros diversos artistas desde sua
atenção, ir a um concerto dele e quem sabe até me
tornar seu amigo!

Chegando na loja, há pouca variedade, caminho até o


piano de madeira sem tintura mais simples localizado ao
canto da loja, caso fossem comprar para mim, seria o
mais em conta. Sento no pequeno banco e estico meus
braços alongando também os dedos, decido tocar
“Apollo et Hyacinthus” que foi uma das primeiras
músicas famosas de Mozart, assim não arriscaria tocar
uma composição ainda não composta.

Meus dedos deslisavam através das teclas, me lembrava


bastante da melodia, uma sensação de felicidade subia
pelo meu corpo, sendo jorrada junto, misturada ao meu
sangue, meu coração acelerava e todas as memórias
possíveis imagináveis voltavam com o ritmo. Ao acabar
descanso minhas mãos acima da tecla, respiro ofegante,
cansado, feliz, quando viro o olhar para eles, parados ao
lado do piano certamente em choque.

⁃ O que você estava tocando? - pergunta a garota


levemente emocionada -

⁃ Mozart, é claro - digo rapidamente, respondendo uma


pergunta óbvia - nunca havia escutado?

⁃ Não. - ela se vira e resto do grupo acena


negativamente, não esperava isso -

⁃ Consegui? Impressionar vocês?


⁃ Conseguiu, Mozart.
Dou uma risada silenciosa, pensando eu? Mozart?
Realmente não o conhecessem, se não seria impossível
realizar essa comparação, agora possuo outro propósito:
encontrar ele. Contudo não posso me precipitar, não
tenho como voltar para casa, então sem pressa, tenho
todo o tempo do mundo.
- Qual o próximo passo?
Todos se movem em direção ao caixa em silêncio, o
homem moreno retira do bolso um saco pequeno feito
de couro, segura três moedas e entrega em troca do
piano. Gira seu rosto para mim, com um pequeno sorriso
que não sei decifrar se é sarcástico ou não, a nal eu
consegui, consegui o que eu queria. Sigo com ele e a
criança até o local da apresentação, a garota e o
violinista continuam na loja, não sei como vamos levar
meu novo instrumento, encontramos perto de lá uma
carroça movida a cavalos, tinha sido pago um homem
mais velho, com o rosto manchado de sol, encarregado
de cuidar desta e de outra, eram dos artistas e acredito
que cada homem cuidava de cada carroça. Uma possuía
bancos e a outra não, feita apenas para carregamento
dos instrumentos, muito útil agora que tem um ainda
maior para a turma.

Ele sobe em cima, da usada para transporte de matérias


e deixa o homem estranho cuidando da outra, logo
coloca a criança na parte da frente também, eu subo e
sento atrás. Paramos em frente a loja, um trabalhador
ajuda a colocar na parte de cima o piano, o resto do
grupo ajeita cuidadosamente os seus ao lado, desço da
borda da carroça e acompanho-os a pé até a outra.
Ele novamente retira seu pequeno saco de couro cheio
de moedas, entrega uma mais escura, um pouco menor,
provavelmente menos valiosa como para o homem velho
encarregado de cuidar das carroças, que acena com a
cabeça e se afasta. Havia um cavalo levando cada uma,
o dos instrumentos era maior, mais forte, de pelagem
negra e grande crista, já na outra, que nos levaria quando
nós iríamos viajar, era um pouco menor, de pelagem
pintada mesclando entre marrom e o cinza claro com
aspecto quase branco (nessa época eles ainda não
existiam brancos brancos, foram modi cados
posteriormente a m chegar nesse tom), os bancos não
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eram extremamente confortável e as viagens serão muito
mais longas do que seria caso fosse no presente.
- Pode buscar sua bagagem - fala a garota - Nós te
esperamos.

- Obrigada, - paro por um momento e penso nas minhas


roupas normais escondidas, demoro para responder
ela, não sei se devo ir buscar o que é meu, respiro
fundo e continuo - mas não vou levar nada.

- Nada? - repete o violinista como um eco, sem


entender o porque da minha resposta, enquanto eu
apenas movimento a minha cabeça, concordando -

Vmos seguir viagem, a princípio faremos uma parada no


meio do caminho para descansar, mas não me atento
aos detalhes. Junto aos instrumentos havia suas
pequenas bagagens, contendo bem pouco mas
su ciente para cada um, variando entre roupas,
calçados, um cobertor e em uma caixa de madeira
alimentos, para nós e para os animais, que
constantemente precisavam ser substituídos.
Avignon não cava longe, nos tempos modernos meia
hora de carro já estaria lá, agora não tenho nem noção
de quanto tempo levaria. Escolho car na carroça do
violonista, aproveito para os conhecer melhor, enquanto
a garota da arpa cará no outro.

⁃ Então? Qual a relação de vocês? - indago -

⁃ Relação? - ele fala baixinho, tentando escolher por


onde começar a contar - Sanguínea?

⁃ Não necessariamente.

⁃ Ah, eu os conheci há três anos em um bar.

⁃ E porque se juntaram?

⁃ Eu gosto da vida de artista, da vida na estrada, livre.


fi
fi
fi
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Ele retira os olhos da estrada e xa em mim por alguns
segundos, depois volta a olhar para frente, não parece
incomodado com às perguntas mas não está ajudando a
manter uma conversa. Imagino quão difícil deve ser o
que ele está fazendo, liderar os cavalos, para mim
parecia algo de outro mundo, se bem que pode se
considerar que eu estou em outro mundo.
Sinto falta do meu celular, de conversar o tempo todo ou
assistir a vida de outras pessoas frequentemente, agora
o tempo di cilmente passa, quero conversar para matar
o tédio que sinto, não estou acostumado a car tanto
tempo
no silêncio, alguns dias como tem sido é ok, o problema
mora em eu nunca mais ter isso de novo.

⁃ Qual seu nome? - pergunta o homem -

⁃ Simon, e o seu? - me arrependi de ter dito no mesmo


momento, talvez devesse ter mentido, será que esse
nome já é usado aqui?-

⁃ Marcel, eles são Giselle, Antoine e Bernard. - aponta


com a sua cabeça para frente, aperto levemente os
olhos em silêncio tentando identi car quem seria
quem - Antoine e Gisele são irmãos, Bernard é lho
dele.

Fico feliz de Marcel estar conversando, se abrindo um


pouco ao menos, se vou seguir com eles preciso
aprender a me relacionar, mesmo que não seja bom
nisso.

⁃ O que aconteceu com a mãe de Bernard? -


genuinamente curioso, ele da de ombros -

⁃ Partiu desse mundo muito tempo atrás, creio que o


garoto mal se lembre da mãe.

⁃ Sinto muito em ouvir isso…


fi
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fi
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⁃ Varíola. - penso rapidamente que felizmente não
posso pegar, enquanto ele continua a contar -

Conforme conversamos, o dia estava passando, o vento


estava implacável, puxava a ponta das minhas mangas
até metade da mão que ainda estava levemente dolorida,
para tentar amenizar o frio constante que estava
sentindo. Penso em pedir para pegar o cobertor, mas se
alguém merecia usar seria Giselle e Bernard, que estava
em seu colo. Marcel continuava a me contar sobre o
passado, a mulher de Antoine possuía descendência
nobre, uma bastarda, ele um comum, se apaixonaram
escondido, um romance proibido, até serem
descobertos.

Sua mãe os pegou no agra, em um encontro seria um


escândalo que desgraçaria sua família, com medo de
que a bondade de seu pai fosse limitada, roubou joias e
o dinheiro que conseguiu pegar, pediu aos empregados
que arrumassem uma mala rapidamente, dando também
uma carroça para sua partida, em que poderiam utilizar
sua casa de campo para se abrigar. Assim viveram de
mesada, ela o ensinou a tocar e foram verdadeiramente
felizes por um tempo. Infelizmente a morte tende a
acompanhar, primeiro levou seu primogênito, mais tarde
sua amada, não é difícil entender o porque se tornou
uma pessoa distante, seca, ainda que manteve seu lho
por perto. Giselle e Antoine não eram próximos, meio
irmãos para ser exato, seu pai engravidou a mãe de
Antoine e recusou se casar com ela, pois estava
apaixonado pela mãe de Giselle, que já estavam
prometidos e com um grande dote.

Cresceram com rivalidades entre seus pais, Giselle teve


uma boa educação, ele já não, ao longo dos anos
cresceram bem, não amigos, mas tudo piorou com o
casamento dele, ela não aprovava o casamento de seu
irmão, estragando a vida de alguém da nobreza, mas o
perdoou quando sua esposa morreu após pegar varíola
fl
fi
com um servo, enquanto ele levava a criança ao médico
na cidade. Uma vez que ele escreveu cartas pedindo
ajuda, pois não saberia como criar um lho sozinho e por
mais que não fossem parceiros, que ela assumisse o
papel de mãe de Bernard. Não deixar se tornar alguém
insensível, ensinar valores, mas ela sempre teve um
espírito nômade, sua condição foi que não deixaria de
trabalhar, de mudar a vida das pessoas com a música.

Coincidentemente apesar de contar a história de todos,


não falou nada sobre a sua. Não vou perguntar para não
parecer insensível, talvez não comentou propositalmente
ou apenas esqueceu, independentemente ainda me
rendeu uma boa história, triste, me fez re etir em como
sou sortudo de ser imune graças a vacina, algo que
mesmo aqui no passado nunca poderei pegar, quantas
mortes são evitadas por isso. Sou levado por outros
pensamentos, como cheguei a conclusão de que devem
estar usando o dinheiro de sua ex esposa para nanciar,
além claro do arrecadado, provável que venderam a
propriedade e joias.

Quando assisti sua apresentação, por mais que


desejasse não acreditava que me traria aqui, nos tempos
modernos aprendemos a ser mais descon ados,
suspeitar de todos em que não conhecemos, a nal
qualquer um pode vir a ser uma ameaça, fui ensinado
desde jovem a não conversar com estranhos na rua,
minha mãe talvez tivesse um ataque do coração se
descobrisse onde estou agora, viajando com um grupo
de pessoas que conheci há um dia, sem dinheiro, sem
autonomia, con ando em suas palavras e crendo que
isso é o su ciente.
As pausas para ir ao banheiro não eram exatamente
pausas, outra pessoa precisava assumir enquanto o
outro fazia suas necessidades com a carroça andando,
exceto que eu nunca dirigi uma carroça, então se viam
obrigados a parar. Colocamos uma tocha de porte médio
ao lado de onde estava sentado, na ponta do banco, que
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fl
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havia um buraco especialmente para isso: iluminar o
caminho durante as noites escuras.
4º capítulo

viagem durou menos do


que o esperado, seria
normalmente 40 minutos de carro,
me explicaram que uma carroça
com dois cavalos levaria duas
horas, como cada uma possuía
apenas um, levamos quase o
quádruplo. Chegamos a tão esperada e antiga Avignon,
cidade dos papas, mundialmente conhecida por suas
vastas plantações de lavanda. Fica a 691 quilômetros de
Paris, que seria meu destino ideal, a pouco mais de 100
quilômetros de Marselha, um grande centro, e a 262
quilômetros da cidade de Nice, que particularmente
nunca fui.
Ainda era noite, as ruas estavam desertas, sem
conseguir ouvir nem os sons das cantigas de fundo e
conversas nos bares locais, tenho que me acostumar
com a falta de relógio, sem ter noção de tempo.
Conforme seguíamos para o coração da cidade, tornava-
se perceptível a in uência que a igreja teve na região
principalmente pelo majestoso Palácio Papal, cercado de
muralhas de pedras medievais construídas muito antes
mesmo de 1767, brevemente iluminado através da
luminosidade de tochas penduradas nas paredes.

Andando pelo local as aulas de história realmente


parecem ter sua devida importância, pois com isso me
lembro que não é território Francês ainda, não antes da
revolução francesa. Me pergunto como deve ser essa
questão agora, mas volto a realidade após um
chacoalhão por ter sido passado uma das rodas em cima
de uma pedra.

⁃ Não falta muito, Simon.


fl
Vejo uma placa escrita hotel, com a tinta descascando,
penetrada na frente de um casarão, feito de madeira com
apenas com um andar. Era de uma senhora, não era
jovem nem muito velha, de beleza mediana com uma
cara séria, que alugava apenas quartos de seu imóvel

- Vamos querer um quarto. - a rma Marcel, descemos


das carroças -

⁃ Apenas um? Para todos? - responde abruptamente,


com um tom de julgamento, porém como ninguém a
responde, mudando de opinião, segue falando -
Custará 5 moedas, garanto que seu transporte
também será cuidado.

⁃ Isso é um absurdo a última vez foi 3 moedas. - Giselle


responde indignada, enquanto Bernard se agarra em
suas pernas -

⁃ Agora está 5, sem alimentação, é claro.

Eles não gostam, se olham duvidando, pelo que observei


tudo custava aproximadamente uma ou duas moedas
grandes, custar cinco não tinha visto antes; é um preço
explorado que não sei se estão dispostos a pagar, mas
pelo que me lembro é o único aberto.
Aceitam por m, estamos com fome e cansados
enquanto seguimos para o quarto, em que dormiríamos
todos juntos, no século XXI já seria um pouco esquisito e
perigoso para a moça dormir junto a alguém que
conheceu no mesmo dia, quem dirá no século XVIII?

⁃ Dormiremos com as roupas do corpo, não temos


como pagar quartos separados no momento. -
Antoine se vira para mim, seus olhos levemente
serrados quando retira uma faca de sua cintura - Nós
dormiremos naquele canto, você nesse, se qualquer
coisa acontecer prometo que te mato.
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fi
Nunca fui ameaçado antes, mas entendo o porque,
arrasto uma das camas de solteiro pelo chão de madeira
até o outro canto na diagonal, tentando mostrar que
podem con ar em mim, que não sou uma ameaça. O
quarto é vazio, tem apenas camas para ser mais
especí co, com teto alto e estrutura toda só de madeira,
camas estreitas e edredons dobrados ao pé da cama, foi
deixado toda a bagagem na carroça, então acredito que
caremos apenas um dia, os cavalos foram armazenados
atrás do local, cercados e bem cuidados, com apenas
esperança que não será roubado.

Me aconchego no meu canto, o colchão não é muito


confortável, em posição fetal com a cabeça apoiada em
um travesseiro baixo, aproveitando cada momento, sinto
todos os músculos do meu corpo relaxarem, não tinha
percebido o quanto sentia falta disso. Meus olhos lutam
para se manterem abertos, mesmo sem querer não
consigo evitar entrar em um sono profundo.

Acordo, e percebo que meus olhos ainda não estão


focando direito, o quarto está iluminado pelos pequenos
buracos entre a na cortina verde musgo, que escurecia
muito pouco, quase não tendo uso. Me alongo sentado
na cama, me sentindo como um prego enferrujado, meu
pescoço estrala com o movimento. Olho para o lado,
ninguém acordou ainda, as camas organizadas como um
forte infantil deixando a de Giselle no meio, era fofo
como estavam fazendo tudo que podiam para cuidar
dela.
Vou caminhando com passos lentos e leves até a janela,
espio para fora, que já está movimentado. Ainda assim o
barulho é pouco comparado aos dias atuais, me pego
indagando sobre sair e explorar, o céu está acinzentado
com poucas nuvens, não está muito bonito então o
melhor é car e aproveitar a estadia, o conforto e calor,
a nal eu sou o único acordado. Vou tentando manter os
passos leves, retorno, vejo que estão em um transe entre
acordados e dormindo, mas ninguém faz nada.
fi
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Sento em minha cama re etindo sobre tudo, medos e
desejos antes impossíveis, agora realidade. Se saísse,
poderiam achar que desertei, recém entrei no grupo, não
vou fazer nada que arrisque a perder isso. Vamos nos
apresentar hoje, nunca toquei em público então estou
consideravelmente ansioso, uma mistura de alegria,
desespero e nervosismo, será novamente no centro da
cidade, perto das gigantes casas, nem parece certo se
chamar de casas, da elite local. Avignon é uma cidade
rica e religiosa, de fato um ótimo local para tocar música
clássica, gostaria de estar melhor vestido do que uma
roupa roubada e sem banho, se bem que não deve ser
um hábito comum da época. É engraçado pensar no
quanto minha vida mudou em tão pouco tempo, estou
fazendo o que amo mas a rmar que não penso sobre
minha vida antiga seria uma mentira.

Me levanto, estava agitado demais para conseguir dormir


de novo tão facilmente, não sem antes ir ao banheiro, um
único para todos hospedados na casa e se possível
gostaria de tomar uma água. Ninguém me vê sair,
encontro poucas pessoas acordadas caminhando pelos
grandes e mal iluminados corredores, as tochas com as
chamas agora apagadas soltando cinzas ao ar, com um
prato abaixo para evitar de sujar o tapete velho e
vermelho, que provavelmente nunca foi lavado.
O banheiro é repleto de azulejos azul com detalhes
brancos, espelho detalhado em prata com uma mobília
branca, lavo minhas mãos, passo uma água no rosto e
axilas, as gotas escorrem pelo meu pescoço, uso as
mãos para passar o resto de água restante aos meus
braços e seco apenas a ponta dos dedos em um pano
escuro pendurado.

Ando novamente pelos corredores, passos mais largos e


apressados, queria estar de volta antes de que qualquer
um perceba minha ausência, as mulheres em volta estão
bem produzidas com lindos vestidos longos e bufante,
maquiagem completamente fora do tom deixando os
rostos ainda mais brancos e com as bochechas
fl
fi
vermelhas marcadas. Atrás, segue a senhora
acompanhada por uma criada, segurando uma bandeja,
mas não percebo até quando entro ao quarto e a velha
segura a porta com sua mão, inclinando sua cabeça até
agora sem falar nada.

- O café da manhã está sendo servido, tem certeza que


vão perder? - Marcel está acordando e levanta em
direção a mulher, aparentemente também ouviu a
conversa -

- Quanto nos custaria?


- Um favor a princípio, nada prejudicial, mas se não
achar nada do que vocês podem me oferecer válido
negociaremos novamente, o que me diz?

Então, o acordo é fechado com um ar de suspeita, a


porta é aberta, uma pequena mesa de madeira é
colocada, logo segue colocando a bandeja na mesa,
retira a proteção de cima e é composto de algumas
frutas locais diversas em grandes porções,
acompanhado de brioche fresco e moreninho, assim
como croissants em que o cheiro dava água na boca e
se espalhava por todo o cômodo.

- Fico feliz por isso ser considerado uma tradição


francesa - murmuro enquanto dou uma mordida em
um dos croissants que estava crocante e faz pequenos
barulhos a cada mordida -

- Você reconhece de que é Austríaco, não é?


Não, eu não sabia, mas pelo jeito é uma informação
básica aqui em que eu devia ter conhecimento sobre, é
uma iguaria remetida à cultura francesa então creio que
ninguém frequentemente goste de relembrar que não foi
criado aqui. Balanço a cabeça a rmando que sim, não
demora muito para que os outros acordem, a fome é um
bom despertador, não demora muito para a comida
fi
acabar, escuto passos no corredor, provavelmente a
criada novamente indo levar o café para outros
hóspedes.

- Com licença, pode me trazer uma jarra da água? - ela


assente, acaba suas tarefas e retorna com o pedido -

Marcel e eu treinamos algumas músicas, nos aquecendo,


aí ajudo a descerem as bagagens, abrem as malas no
chão, na frente da casa, pegam algumas roupas e
trazem, tento ajudar mas tem pouco a ser feito, co de
olho na criança e depois vou ajudando a colocar de volta
na carroça.

- Simon, na falta de ter trazido roupas, ou qualquer


coisa no geral, te dou isso. - Antoine estica o braço,
oferecendo uma muda de roupa que estava dobrada
então não conseguia ver muito. -

- Creio que irá servir - diz Bernard com um sorriso


meigo -

- Muito obrigada.
Não irei usar hoje, minhas roupas ainda não estão sujas e
só posso revezar entre elas, ao abrir percebo que são
mais requintadas do que a minha, caso seguimos a
Marselha, que é o meu palpite, precisarei de algo mais
adequado para ser usado. Giselle vai primeiro, se troca
no quarto sozinha, após seguimos e ela se retira, me
pergunto se já namorou antes, se bem que aqui não é
namoro, sim cortejo e se fosse o caso provavelmente
estaria casada, não aqui.

- Peguem os instrumentos, está na hora de tocar. - co


surpreso por falarem de forma mais informal, ou seria
muito nítido minha falta de prática com isso -

- Novamente para o centro da cidade?


fi
fi
- Sim, só que dessa vez, ele estará tocando conosco. -
apontando com a cabeça em minha direção, não
posso dizer que é completamente inesperado, vim
aqui para isso, compraram o piano para isso, mas
ainda me encontro levemente incrédulo -

- Sozinho?
- Se você preferir… - diz Marcel, enquanto balanço a
cabeça concordando - pode tocar a mesma melodia
de ontem.

Vai ser muito mais tranquilo assim, essa tenho certeza


que sei, o que me recorda de que preciso passar para
um papel o máximo de músicas em que me lembro, não
sei por quanto tempo vou conseguir me lembrar delas,
pelo menos as que não estava habituado a tocar.
A carroça nos deixou próximo ao local, montamos os
instrumentos, o piano bem atrás de todos para passar
mais despercebido no começo e sem atrapalhar a
apresentação, assim a população curiosa se amontoava
ao redor, me aninho com a multidão frente à praça, eles
iriam na frente, depois eu assumia.
As ruas estreitas parecendo corredores, as construções
coloridas grudadas com as do lado e próximas com as
da frente, várias janelas de madeira formavam o caminho
de onde estávamos indo, em que grande parte das ruas
desembocava em algo similar a uma clareira no centro,
formando a praça central, repleta de restaurantes e
árvores, era lindo, completamente lindo.

Não reconheço a melodia que estão tocando, talvez pela


falta de letras ou por ser algo completamente fora da
minha realidade cotidiana, quase ninguém escutava
música assim, principalmente uma tão antiga.
Giselle deu o início, dentre os adultos é mais baixa e
meiga, com seus nos cabelos loiros, talvez seja assim
porque não seria considerada adulta nos tempos atuais,
mas não posso negar a cultura daqui, está tocando de
forma solo com seus olhos fechados tentando se
fi
conectar, aparentemente, Marcel espera um pouco,
depois acompanha com o violino enquanto seus cabelos
ruivos caem sobre os olhos, não demora muito para que
todos os instrumentos estejam compondo a canção, até
subitamente parar, signi ca que é minha vez.

Não me sinto mais preparado, na verdade meu coração


dispara, não penso mais tão racionalmente, não tenho
certeza se já comentei que nunca toquei em público,
pelo menos com tanto público antes ou que precisasse
tanto de uma aprovação. Minhas mãos estão tremendo
levemente, barriga embrulhando, há possibilidade de
meu café da manhã retornar diretamente por onde ele
entrou, consigo sentir os olhos dos outros recaindo sobre
mim, eu sei o que esperam, estão guardando os
instrumentos que se posicionam na frente do piano, sei o
que tinham em mente quando pedi para juntar-me,
quando os convenci na verdade. Chacoalho as mãos
tentando evitar que o suor, olho para cima e respiro
fundo, caminho na direção dele, me sento no banco
posicionando melhor, estralo os dedos e começo
novamente “Apollo et Hyacinthus”.

Não fecho os olhos, nem por um segundo se quer, com a


cabeça baixa me concentro nas teclas, pareciam um
jogo, selecionando especi camente uma seguida da
outra. Quando estou próximo do m, crio coragem e olho
para frente, Bernard e Antoine passavam colhendo as
“doações” do prestígio de estar nos assistindo, Giselle e
Marcel de pé apoiados em uma parede de um
restaurante ao redor, seus olhos estão em mim, vejo
pernas diversas, me atrevo a ver mais, ignoro o medo
que fazendo isso vou acabar errando, levantando o olhar,
o público aumentou, mais do que o esperado, percebo
que quem estava nos restaurantes virou suas cadeiras
para observar melhor, havia homens, mulheres de todas
as idades, incluindo crianças, uma sensação de
nervosismo e felicidade derivam disso.
A música acaba, relaxo meus braços em volta do corpo,
estico meu pescoço para o lado, que da uma suave
fi
fi
fi
estralada, por um breve segundo tudo está em silêncio,
calmo, o tempo parecia estar em câmera lenta e ninguém
fala, minha mente também não pensa em nada, pisco os
olhos uma onda de barulho segue o instante seguinte.

Escuto aplausos e ativo assobios, como se a pequena


camada entre o meu mundo e a realidade abruptamente
se rompesse. Talvez nem meus sonhos mais abusados
imaginava uma vida assim, sem saber como será o
amanhã e realmente aproveitando o presente, tenho uma
sensação estranha na minha garganta, não sei o que
falar ou como reagir, apenas me levanto, os sons
aumentam, faço uma pequena reverência, me sinto um
pouco ridículo com isso, ainda assim com um sorriso de
orelha a orelha, pois ao mesmo tempo é o mais
orgulhoso que me sinto há um tempo.

O grupo aproveita a deixa, se junta a mim, seguramos as


mãos e depois levantamos, seguidos por uma reverência.
O povo vai saindo aos poucos, se dissolvendo ao longo
da cidade novamente, me parecendo como se nunca
estivessem aqui, como um vislumbre dos desejos
profundamente escondidos em meu coração.
Marcel bate com a mão em minhas costas, em sinal de
parabenização, observo Bernard entregar um chapéu
cheio de dinheiro a Antoine, acompanhado de um sorriso
satisfeito em seus rostos, mais importante ainda, em
seus olhos. Antes de retornarmos a estalagem creio que
vamos comer, mas não passaremos outro dia ali, com
tudo guardado na carroça de instrumentos, seguimos
para um restaurante na esquina, próximo de onde
estávamos nos apresentando.

Após a refeição, em que não foi resguardado vinho local,


regressamos para onde estávamos hospedados,
recolhemos rapidamente o que sobrou, que não era
muito na verdade, evitamos retirar bagagens, no
momento preocupados em que teríamos um longo
percurso até nosso novo grande destino: Marselha.
5º capítulo

aramos diversas vezes no


caminho, aproveitado para
desviar da rota por conta de
pequenas vilas próximas entre as
duas cidades, a cada
apresentação ganhávamos ainda
mais popularidade, me encontrava
tocando a mesma melodia em todas, mas precisarei
ampliar minhas opções quando realmente chegarmos lá.
Aprendi a dirigir também, fazíamos rodízio a cada parada
apesar de estranhar ainda, agora já estamos próximos,
sendo possível ver o claro mar junto ao horizonte. O
porto é bem desenvolvido, principalmente para a época,
apesar de quanto mais perto cávamos dele era inegável
o odor de peixe e a sujeira nas ruas,
grandes embarcações estacionadas, comerciantes de
especiarias e bebidas carregadas em barris, em que saia
dezenas de tripulantes que passavam meses velejando,
o cheiro estava impregnado nas pessoas também.

Conforme entrávamos mais a dentro da cidade era


possível ver a diferença, pessoas mais limpas, bem
apessoadas, com mais dentes, cheirosas, elegantes, não
parecia a mesma cidade, com feições mais delicadas.
Vamos checar os valores das diárias, após uma leve
perda de noção do tempo vamos almoçar, com tudo que
trouxemos deixando bem a vista a m de tentar previnir
assaltos, co aguardando do lado de fora da taverna
com nossas coisas até eles acabarem a refeição,
somente aí parando para ir comer também, houve um
aumento da con ança em mim, se não, não estaria aqui,
durante o caminho consegui manter uma conversa
consideravelmente duradoura com os outros membros
de nosso grupo, falando sobre composições, artista
preferido, primeiros amores, melhores comidas.
fi
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fi
Vou para dentro, lá é pouco iluminado, com mesas e
cadeiras de madeiras, apresso meu passo, logo
começaríamos a tocar, não no centro a princípio, em uma
região um pouco mais popular comparado ao que se
pode imaginar que existe nas moradias dos mais
abastados.

A tigela em que se apresentava a comida que pedi era de


metal, com superfície rugosa, repleto no momento de
botargo, uma sopa de origem mediterrânea, contendo
uma mistura de peixe e ouriços do mar, comum na região
de Provence, que é leigamente reconhecido como o sul
da França.

Como ainda não é o espetáculo principal para a região


mais abastada da cidade, realizamos a mesma
sequência de Avignon e todas as pequenas aldeias que
seguiram, começam sozinhos e nalizo com “Apollo et
Hyacinthus”- a entrada apenas. Mudaram sua canção,
não a reconheço quando tocam, não deve ser popular no
meu tempo ou quem sabe nem chegou a sobreviver até
os dias atuais, em seguida minha vez, repetindo meu
espetáculo, em que sinceramente já estou começando a
enjoar, quero mais do que apenas uma música, quero
diversas.
Então, durante meu espetáculo após um breve momento
em silêncio em que paro de tocar, tentando raciocinar,
assim mudo sua forma original, ninguém aqui irá se
lembrar ou publicar esse momento, com isso nada mais
importa além dos meus dedos percorrendo o piano,
emendo a partir da metade para o nal da melodia com
Expirience de Ludovico, um compositor e pianista
italiano.

A combinação revela uma sensação diferente do que


estava passando até então para meus ouvintes, estes
possuem menos da cultura erudita, não reconhecem o
gosto da elite ainda que apreciam o piano, agora
abordando não apenas o clássico mas com um toque
mais suave e moderno que talvez não agradasse o
fi
fi
público local. É um tiro no escuro, não sei como irão
reagir, faz se erguer os pelos de meus brações e pernas,
olho ao redor, os integrantes do nosso grupo não
entendem nada, franzem o rosto mostrando as rugas
começando a marcar na região da testa com curiosidade
e preocupação. Marcel se dirige até onde estou e
acompanha a melodia com o violino, com um charme
que nunca tinha ouvido antes, me impressiona quão
rápido ele consegue pegar o ritmo, só havíamos treinado
uma vez.

Não estou nervoso, não como alguns dias atrás, como se


isso já estivesse começando a fazer parte de mim, me
orgulho disso. Solto um sorriso leve, sem mostrar os
dentes, sem tanta preocupação com todo o resto,
felizmente a mudança foi recebida bem, nada fora do
comum mas creio que com maior aprovação do que
seria a original, para nalizar completo com o nal da
melodia original, trazendo uma pitada do meu gosto do
século XXI ao século XVIII. Antoine me puxa com seu
braço pelo meu pescoço e me da uma caçoada no
cabelo, deixando completamente bagunçado, muito
melhor do que silêncio, recebo como um gesto de
carinho. A sacola está cheia de moedas, espero acreditar
que minha vinda foi determinante para aumentar os
lucros, que sou um membro valioso e mais do que tudo,
verdadeiramente parte do conjunto.

Conforme organizamos os instrumentos após a rápida


apresentação, uma mulher de pele branca e cabelos
castanhos com vestes escuras, suas vestes são de
tecido re nado sem parecer extremamente luxuoso, algo
próximo a uma classe média, se isso existisse. É uma
serva que roubou os mantos de sua dona ou uma dona
se ngindo de serva, ou pelo menos não quer aparecer a
condição que tem, me pergunto porque está se
aproximando tão lentamente.

- Bom dia. - começa a mulher - te ouvi tocar, você toca


muito bem.
fi
fi
fi
fi
- Bom dia, muito obrigada - respondo sem a encarar,
continuando o que estou fazendo -

- Gostei da adulteração que fez na música.


- Conhece Mozart? - dessa vez meu olhar encontra o
seu enquanto pergunto levemente em choque, a nal é
a primeira pessoa desde que cheguei aqui. -

- Sou grande fã… - responde em tom de mistério depois


faz uma pequena pausa antes de continuar a falar - de
Ludovico também.

- Somos dois então. - respondo intuitivamente, mas aí


percebo que a melodia só seria lançada em 2015,
minha expressão muda drasticamente, o que lhe faz
soltar uma risada - Como?!

- Do mesmo jeito que você aparentemente.


Nós encaramos por um momento, não sei o que pensar
sobre o que está acontecendo, existem mais? Pessoas
como eu? Meu olhar se intercala entre o chão e a mulher,
não sei o que pensar sobre, eu posso voltar para casa?
Eu quero mesmo voltar pra casa? Quando minha mente
nalmente se acalma retomo a conversa erguendo o
rosto dessa vez de nitivamente, observo os traços de
seu rosto, não me parecem estranhos, o nariz com um
leve caroço com a ponta em formato de bolinha, olhos
âmbar com a pálpebra caída e sobrancelhas nas
arqueadas, não consigo explicar de onde, mas sinto que
a reconheço.

- Você é de Arles? - pergunto -


- De qual ano você quer saber? - responde rapidamente
em tom baixo - Ou melhor, de qual você é?
fi
fi
fi
fi
- 2024, mas você realmente é de lá, não é? - dessa vez
em tom de a rmação, um momento de clareza me
vem, sei porque é familiar, eu a conheço. -

- Sim, mas vim para cá há muito mais tempo que você.


- Sara. - ela desapareceu quando eu era mais novo, era
não muitos anos mais velha, me recordo de ver seu
rosto estampado em pan etos espalhados ao redor da
cidade. - O que aconteceu?

- Não importa mais, não foi de propósito mas estou


bem aqui.

- Todos presumiram que você fugiu, ou morreu por tanto


tempo longe…

Seu rosto ca limpo, sem expressão alguma junto a um


olhar vazio, deveria fazer muito tempo que não falava
sobre sua casa, ou talvez nem pensasse sobre ela, agora
estamos aqui, em Marselha unidos pelo acaso com uma
pequena diferença de 257 anos. O que ainda não fazia
sentido é como ela me achou e porque, como sobreviveu
e sua vida por aqui por mais curioso que me pareça é
trivial, contudo não posso transformar nosso breve
encontro em um duro interrogatório, é completamente
fascinante imaginar tudo que pode ter lhe acontecido até
chegar aqui.

- Quanto tempo você tem? Para car aqui, conversar


comigo no geral? - retomando a conversa - posso lhe
convidar para beber algo?

- Ainda há um pouco de tempo, mas preciso voltar bem


antes do anoitecer, se for beber algo pode acarretar
em surgir boatos indevidos sobre nosso
relacionamento. - ela replica de uma maneira tão
formal que até estranho, suspira lentamente e
continua. - Meu marido não iria gostar disso.
fi
fi
fl
fi
- Marido? - parecendo um eco repetindo baixinho,
apenas aumenta minhas dúvidas a respeito. -

- Você entende não é? Nesses dias selvagens, uma


dama sem homem é como um cão domesticado sem
um dono, sem comida, sem abrigo e sem direitos.

Não havia pensado por esse lado, foi de grande


inteligência arranjar um matrimônio, apesar de ser um
tanto nova para isso, digo pelo fato de estar “aqui” por
uma certa quantia de tempo, e suas necessidades
básicas existiram desde o começo, poderia acabar em
um convento, honestamente duvido que teria liberdade
alguma, em seus relacionamentos, na sua escolha de
querer ser freira ou não, ou apenas de que poderia deixar
o local quando desejasse. A conversa continua, não tão
extensa pois estavam a me esperar, poucos detalhes são
revelados, seu marido está doente, lhe dando liberdade,
não opcional e é in uente, conseguindo ser membro das
celebrações da alta sociedade, en m chegou no
momento que estava esperando sobre a conversa.

- Vejo que continua com a habilidade no piano. - não me


recordava dela saber que eu tocava antigamente - Vim
te dar um aviso.

Seu tom de voz diminuiu, parecendo sussurrar um


segredo, faz um gesto com sua mão esquerda para que
me aproxime, não o su ciente para causar descon ança
nos arredores, contanto que ninguém ouça, viro de lado,
aproximando meu ouvido de sua boca, me pergunto o
que deve ser enquanto ela faz uma longa pausa junto a
suspiros.

- O futuro é como um rio, você pode sair se onde está,


caminhar pelas margens até mais próximo da
nascente, mas o que você zer quando novamente
entrar no rio prejudicará as águas de onde você
estava.
fl
fi
fi
fi
fi
- O que você quer dizer com isso?
- Sua mera existência nesse tempo já alterou como será
o futuro, assim como o presente, Mozart está na
França, em Paris, já deveria estar no início de uma
grande carreira, ganhando notoriedade. - ela se afasta,
ergue o queixo e junta as sobrancelhas - Ainda assim,
ninguém parece saber quem ele é.

O que ela está insinuando é loucura, contudo que viagem


no tempo até recentemente para mim também era, o que
pode ter mudado, caso eu consiga retornar para casa?
Se é possível voltar, porque ela não teria ido? A teoria
presente num vídeo do tiktok que vi há muito tempo
atrás ecoa em minha mente com a fala da garota, em
que a ideia de uma borboleta batendo asas gerando um
efeito totalmente desproporcional como um furacão.

- Preciso ir agora, mas irei te assistir novamente no


próximo espetáculo.

- Adeus então. - retiro meu pequeno chapéu e abaixo a


cabeça em saudação, havia um presente recebido em
uma das vilas entre as cidades que estava
combinando com as roupas dadas a mim por Antoine
- Nos veremos em breve.
6º capítulo

etorno ao grupo, quieto e


pensando sobre como
deveríamos batizá-lo, já possuía um
nome antes da minha presença, os
pan etos não mudaram, mas o
grupo sim, a energia da música
quando apresentamos também,
mais alegre.

- O que vocês acham de se chamar le grand orchestre?


- Não entendo o porque, mas se fará você se sentir
melhor pode mudar, apenas se realmente planeja car.

Isso me faz car em silêncio, Giselle percebe o efeito que


suas palavras causaram em mim, de nitivamente não
apreciou disso, não tenho planos de sair contudo não
desejo estar aqui para sempre, com isso talvez seja
melhor deixar o assunto baixo, não quero os magoar.
Possuímos bastante tempo entre uma apresentação e a
outra, tudo foi organizado com isso retornamos a
taverna, não necessariamente para entrar, sim para matar
o tempo enchendo canecas de metal com grandes doses
de hidromel. Eu entro sozinho, volto com quatro canecas
tilintando em meus braços, nunca provei isso, mas se
todos estão tomando quem sou eu para car de fora,
entrego respectivamente para cada um, Bernard está
sentado no banco da carroça, o resto de pé, brindamos e
tomamos, o gosto característico de mel, equilibrado,
seco e intenso, ao contrário do que esperava não é doce,
tem um sabor bem diferente do que estou acostumado
com as bebidas atuais, surpreendentemente eu gostei.

Nunca realmente me importei sobre como as bebidas


são feitas, lembro de estudar em biologia no ensino
médio sobre a cerveja, de como o açúcar é transformado
fl
fi
fi
fi
fi
por leveduras em álcool, agora me encontro mais
próximo ainda de poder observar isso, uma vivência
diferente, como tem sido todos os últimos dias. Olho
para Marcel, que leva a caneca ao alto e arqueia as
sobrancelhas, com um sorriso de canto de boca, um
desa o para viramos a caneca, eu assinto com a cabeça
e o imito.

Por um momento, minha cabeça gira, os olhos fecham, a


garganta queima, tornando nítido quanto eu não levava
uma gota de álcool na boca, não vou mentir, eu sentir
falta disso. Consigo escutar cantorias vindo de dentro do
local, tenho consciência de que não posso car bêbado
mas ainda assim me sinto tentado ano entrar. Em 2024,
seriam poucos que estariam assim durante o dia, grande
parte apenas se preocupo manter o físico perfeito,
manter uma dieta regrada e absurda, o ser extremamente
produtivo, já que se você não é milionário aos 30 anos
você não se esforçou direito.
Me sinto feliz de poder realmente aproveitar o tempo útil
que tenho com pessoas que trabalham para viver não
vivem pra trabalhar, como se parecesse certo, que
nalmente estivesse onde deveria estar, uma sensação
que particularmente não estou acostumado.

Me encontrei ao me deparar com várias pessoas


cantando, dançando e bebendo durante dia de semana,
Giselle e Antoine levam Bernard até nosso hotel, não
antes de Marcel pegar seu violino, que caria agora com
a capa pendurada nele, decide tocar uma música alegre
a m de gerar entretenimento gratuito, rodas de dança se
formam, as pessoas rodopiam de braços cruzados com
os passos pesados junto a pequenos pulos. Ele se
encontra posicionado no meio de uma das rodas, das
quais eu faço parte, uma série de canecas são levadas
ao ar e ao chão respectivamente enquanto cantam a
canção, intercaladas de rodopios em duplas e a volta
para a roda, recomeçando o movimento, me deixo ser
guiado pelo que os demais estão fazendo, não focar
tanto em decorar os passos, apenas seguir o ritmo.
fi
fi
fi
fi
fi
Meus pés estão doendo de tanto dançar, estou suando e
com a voz levemente rouca de gritar a letra da melodia
que nem conhecia, repetindo o nal como se também
soubesse. Infelizmente precisamos ir embora, nos
encontramos no horário marcado assim eles nos
mostraram onde iremos passar a noite, tomo um banho,
a banheira é de madeira e a água aquecida aos poucos
na lareira, então quando realmente estou molhado não
está mais na temperatura desejada, mas é bom o
su ciente. Mergulho segundo minha respiração pelo
máximo de tempo possível, passando minhas mãos
através dos os do meu cabelo e cada centímetro do
meu corpo, como se retirando uma camada grossa de
craca grudada a minha pele. Quando subo a superfície
sinto o caminho do ar percorrendo desde a minha narina
até o meu pulmão, as respirações são longas e
desesperadas, mas sinto um grande alívio de nalmente
estar aqui, aproveito para lavar as roupas de que não
estou usando, inclusive o chapéu.

Dessa vez o local de hospedagem é maior, mais re nado,


repleta de candelabros dourados, camos em quartos
separados, eu, Marcel e Antoine camos em um quarto
enquanto Giselle e Bernard no outro, no momento todos
estão nó quarto de Giselle, me deixando sozinho aqui
enquanto me arrumo, o cabelo pingando pelo chão de
madeira, seco com a toalha com uma mão, depois enrolo
ao redor da cintura e estico minhas roupas para secar,
enquanto a outra está em cima da minha cama para não
amassar. Me arrumo e sigo em direção ao quarto deles,
onde todos já estão prontos, nos aquecemos com
algumas cantigas e treinamos, preciso escolher a música
para essa ocasião e creio que o melhor a se fazer, após
conversas com eles, é tocarmos ao mesmo tempo, como
uma verdadeira orquestra.
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fi
fi
fi
fi
fi
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Decidimos tocar o resto de “Apollo et Hyacinthus”, todas
suas partes, escrevo em um pequeno pedaço de
pergaminho a melodia para os outros instrumentos
musicais, demorou para entrar em sincronia, é
relativamente difícil, não deveria ter deixado para falar
sobre no último momento, adaptamos os fragmentos de
memória musical com o que poderia combinar, em
algumas horas estávamos preparados.

Marselha é a cidade mais antiga da França, fundada por


gregos em 600 A.C, que ca nítido nas belíssimas
construções locais a mistura cultural. Pagamos para
cuidarem das nossas carroças durante o espetáculo de
hoje de noite, em que murais coloridos adornam as ruas
estreitas e montanhosas do histórico bairro Le Panier,
considerado até os dias atuais o melhor para se viver na
cidade. Visitei a cidade algumas vezes com os meus pais
muito tempo atrás, mas é a primeira vez que eu venho
aqui desde então, consigo ver os fantasmas das
memórias das antigas viagens durante as férias
escolares, onde visitávamos tantos lugares que agora
não existem ainda.
Um exemplo é a Cathédrale La Major que deveria estar
nesse mesmo bairro, ou o castelo de if, que por
enquanto é uma penitenciária, quando penso em lugares
melhores para apresentar me bem a cabeça o palácio
Longchamp, que foi o auge da nossa viagem para minha
querida mãe pelos lindos e vastos jardins, contudo mais
uma vez quando passamos próximos a região ele não
está lá, então quando me perguntam digo que nunca vim
a cidade antes, pois mesmo que não seja verdade não é
a Marselha que eu conheci, deixando um vazio na
memória e um aperto em meu coração.

Estamos parados no meio da rua montando os


instrumentos, se chover estaremos arruinados, consigo
ver um pequeno público se formando, vejo o rosto de
Sara junto de o que creio ser seu marido, co contente
de que nossa pequena fama foi passada de boca boca
pelas cidades anteriores. As pessoas estão bem vestidos
fi
fi
longos espantados, segundo Giselle seus espartilhos são
feitos de ossos de baleia e os cabelos presos ao alto,
dos que não são perucas, alguns dos homens
consideravelmente abastados estão usando maquiagem
também, perucas brancas com os os presos em um
rabo de cavalo baixo e calçados de bico quadrado e
salto ao calcanhar.

Começamos a tocar, em sincronia perfeita, me


lembrando até da melodia original em que tenho baixado
no Spotify, pequenos erros foram cometidos entre as
notas mas nada consideravelmente notável. Bernard
passa com chapéu recolhendo tributos da população, eu
os encaro, meu olhar passa de rosto a rosto analisando
suas expressões, vejo quão extasiados realmente estão,
isso me remete a conversa anterior que tive com Sara.

“Mozart está na França, em Paris, já deveria estar no


início de uma grande carreira, ganhando notoriedade.
Ainda assim, ninguém parece saber quem ele é.“

Estão surpresos, maravilhados, não é difícil deduzir que


nunca haviam escutado algo assim, o que não pode ser
um sinal positivo, sim de que ela provavelmente está
certa e que precisamos conversar, em contramão um
grande sucesso nos aguarda, o que faz minhas mãos
pesarem nas teclas. Toco com maior intensidade, a
mistura sonora do piano junto aos outros instrumentos
em vida real, eles seguem e pesam o resto do som junto.
A música acaba, aproveito a deixa para procurar a garota
no meio tempo, terei que ser mais cuidadoso visto que
está acompanhada, não sei o que achará da minha
aproximação, ela puxa seu braço e sussurra algo
disfarçadamente para seu companheiro, com o rosto e
olhar voltados retos para mim.

- Boa noite senhor. - faço uma curta reverência, me


dirijo para ele na minha fala -
fi
- Boa noite, foi uma bela performance. - conversa vai e
vem, enchendo linguiça esperando não ser tão
perceptível com quem realmente desejo falar -

- Quem compôs a sinfonia tocada? - pela primeira vez


fala algo, Sara pisca os olhos inocentemente como se
estivesse genuinamente curiosa -

- Mozart, minha senhora.


- Meu amor, podemos assistir uma apresentação desse
tal de Mozart um dia? - sua interação comigo não o
deixou contente - Por favor?

- Pensarei sobre. - responde de forma curta e grossa -


Estou cansado, desejo voltar para casa.

A conversa foi breve, talvez eu pareci uma ameaça, por


ser jovem e talentoso enquanto ele já pode ser
considerado para época um idoso, ele segura o braço da
esposa com força, vira de costas e sai do local, Sara
mantém o olhar desesperado em contato com o meu, e
fala algo que acredito que por leitura labial seja algo
próximo a “Vá para Paris, ache Mozart!”, quando ele
percebe a tentativa de comunicação lhe dá um tapa na
cara.

Meu sangue ferve, queria poder a seguir, dar um


empurrão ou um soco em seu rosto e mudar essa
situação, mas nada do que eu faça vai alterar algo, ela é
“sua propriedade”, não tenho escolha a não ser deixar
sairem na multidão e esperar que o melhor aconteça, que
não seja algo recorrente ou que no pior dos casos sua
doença piore e morra logo. Sigo junto aos meus amigos,
Giselle toca solo enquanto conversamos com os demais
presentes, não demora muito para sairmos, vamos
comer mas meu humor não muda. Quando chega a noite
não consigo dormir, sinto meu coração pressionado e
minha mente não sai da cena presente hoje,
impressionante como um dia na companhia de Sara
trouxe tantos impactos negativos inesperados.
7° capítulo

dia amanhece, não sei como


conversar com eles, parte de
mim deseja ignorar partes do dia
anterior, ngir que não reencontrei
com a garota após tantos anos, que
está perdida no passado e que não
sou o único, toda minha atual
realidade vai mudar, pois é inegável que nem mesmo a
elite local não conheça Mozart ou nunca havia ouvido
sobre. Acordo do meu pequeno sono de exaustão, como
meu café da manhã solo, ansioso e em silêncio, tomo um
banho de banheira perfumado e demorado, ao voltar
para o quarto já estão despertos. Expresso minha
necessidade de ir para Paris, sei que estou quebrando
um elo ao fazer isso que estou sendo ingrato a quem me
acolheu, por isso não peço dinheiro, contudo aceito o
que me foi oferecido, equivalendo quatro moedas.
Recolho minhas duas roupas em uma troncha que levarei
nas contas, comprei uma terceira no comércio, o mesmo
z com o piano, em que me vejo obrigado a vendê-lo em
uma loja de penhores que de nitivamente não o valoriza,
só que não sei quanto tempo carei longe, precisarei de
dinheiro assim como de carona e não apostaria que
houvesse um local para poder levar junto.

Sinceramente espero que nossos caminhos se


encontrem novamente, sentirei falta da energia boa, da
companhia e rotina maluca, principalmente agora que
criei maior intimidade. Com isso, tentei não demorar ao ir
embora, pois quanto mais tempo levasse menos
coragem eu teria, aproveito para entregar letras de
músicas que podem ajudar em seu caminho.

Me encontro novamente sozinho, perdido em uma


cidade em uma época estranha com pouco mais do que
quando cheguei aqui, mas meus caros amigos
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fi
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arrumaram uma carona, um abastado lojista de tecidos
que estava atrás de pegar mercadorias novas.

Sara também o conhece, Francis, trabalha com uma


costureira que faz seus vestidos assim como de todas as
outras damas, consegui retirar dele a informação de
onde ela mora, facilitando para ocasionalmente trocar
mensagens ou pedir dicas. Vamos seguir de carruagem,
não carroça, talvez por momentaneamente não precisar
do espaço e ter seus servos como motorista, ou algo
próximo a isso, de qualquer maneira co contente pelo
conforto. O tecido do banco é revestido de veludo verde
escuro, a parte de fora extremamente detalhada com
metal de cor prateada com um degrau para apoio, sinto
que meu status social está subindo.

Francis têm sobrancelha nas e cabelos loiros, no


comprimento do ombro preso em um rabo de cavalo,
com traços do rosto afeminados, se tempos fossem
outros poderia pedir a respeito de sua sexualidade, mas
é completamente inaceitável aqui. Está usando vestes
escuras de cetim, sapatos bem polidos a ponto de
consegue ver seu próprio re exo neles, tenho bastante
tempo para reparar nos detalhes, uma vez que em 2024
de carro já seria longa, quase 8h agora seria
consideravelmente maior.
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fl
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Os dias passavam lentamente, variando entre conversa e
pegar no sono coma cabeça apoiada na lateral, a
previsão era 9 dias de viagem constante, desde o nascer
do sol até quando se põe, sendo obrigada a parada
noturna ou os cavalos não aguentariam, além de facilitar
para assaltos. Armazenamos garrafas pesadas de água e
a cada ida ao banheiro signi caria uma viagem mais
longa, então apesar de ocorrerem diversas paradas
sempre todos aproveitavam a oportunidade, pois não se
sabia quando pararíamos de novo.

Não conseguia manter uma interação com Francis da


forma que estava acostumado a fazer desde que cheguei
aqui, ele não conhece muito sobre instrumentos, músicas
e melodias. Seu abrigo será a casa de um nobre, Hugo,
seu primo responsável pela exportação de conhaque
francês pra as colônias e outros países da Europa, como
a Escócia que é um grande importador ilegal. Minha vida
se encontra um borrão, não sei para onde vou, onde
dormirei ou o que comer, penso em pedir abrigo mas não
acho que será adequado a nal já estou me aproveitando
dá carona, meu plano é simples, trocar apresentações
por abrigo ou dinheiro. Quando estávamos próximos de
chegar houve uma grande tempestade, a terra batida da
estrada se transforma em lama movediça, se tornando
muito fácil de ocorrer um acidente então esperamos
dentro da oresta com a carruagem em baixo de uma
árvore.

Os cavalos pastam e conforme a chuva aumentava,


seguida por neblina e friagem, Francis permite a entrada
de seus servos para se abrigarem, mas precisavam car
sem os sapatos a m de preservar o tecido da
carruagem, mostrando que apesar de ser uma classe
social maior não é tão apático a situação.

Perdemos metade de um dia devido a situação climática.

Pouparei detalhes desnecessários dos dias monótonos


na estrada e começarei agora de quando chegamos a
fl
fi
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fi
fi
tão esperada Paris, o coração pulsante de toda a França.
Suas ruas são marcadas por lindos vestidos até o chão,
sem dúvida os mais belos que já vi, percebo o contraste
dos tempos modernos, em que por mais que a
arquitetura fosse restaurada não se compara com como
realmente era, que é de tirar o fôlego. Não vou negar que
é esquisito estar na cidade e não ver a Torre Ei el, uma
certa tristeza me atinge ao perceber que nunca verei
novamente, que morrerei antes de ter a oportunidade de
começar a ser construída.

- Onde posso ter deixar, Simon?


- Como não tenho destino dentro da cidade, qualquer
caminho que me apareça será o su ciente.

- Então seguirei no caminho da residência de Hugo, aí


você retira suas bagagens e segue a partir de lá.

- Obrigado.
Assinto com a cabeça concordando, pego meus
pertences e continuo a pé, me sinto esquisito, levemente
inferior para ser bem sincero, não pelo fato de estar com
tudo que eu tenho caber em uma troncha, mas pelos
olhares direcionados a mim, tento ignorar esse
sentimento e sigo perguntando para membros do
comércio local, junto a seus compradores, se alguém
havia avistado Wolfgang Mozart, um garoto austríaco de
11 anos mas continuo sabendo tão pouco quanto antes.

Entretanto me contento com minhas habilidades


musicais, pois artistas são os únicos que podem mudar
de classe social, quer dizer, continua sendo pobre mas
pode desfrutar dos benefícios e companhia dos ricos.
Não demora muito para começar a chover novamente, o
tempo está parecendo uma montanha russa em que não
tenho outra opção, a não ser apertar o passo.
Quando as casas vão diminuindo a proporção, noto que
posso procurar abrigo viável, então avisto uma porta de
fi
ff
madeira semi aberta iluminado, uma taberna na metade
do quarteirão em direção mais afastada de onde acredito
que seria o centro da cidade, vou em sua direção.

Vou até o balcão, peço minha comida, o atendente


comenta sobre eu passar a noite ali por um certo preço,
estou cansado e já está começando a anoitecer, então
concordo. Peço uma refeição de verdade dessa vez, não
que a de Francis não fosse boa, mas 10 dias comendo
apenas isso é su ciente para enjoar, enquanto o
preparam me dirijo até a mesa mais ao fundo que
encontro livre.

Alguns dias se passaram se nada demais acontecer,


continua em busca de respostas que não pareciam
existir e nalmente começando a pensar que talvez
nunca ocorreu sua vinda a Paris. Tenho chamado
atenção pelo esforço feito, nem sempre positiva, estou
morando a ado na taverna, todo dia parece o mesmo,
continuo na luta para realizar alguns pequenos trabalhos
exceto que para isso ocorrer preciso de um local que já
tenha piano, como uma janta que realizei na casa de
Hugo durante um dos dias. Aproveitei e encomendei
cartazes de desaparecido para Mozart, caso alguém
tivesse alguma informação do seu paradeiro entrar em
contato com a taberna caldeirão furado, oferecendo uma
moeda em compensação mas não obtive nada.

Certa noite uma moça de cabelos ruivos entra, olhos


esverdeados em tom escuro e puxados de grande
beleza, analisando cada detalhe em volta dentro da
taberna em que eu estava, se apoiando ao bar. A taberna
era mal iluminada, com conversas altas e o som de
cantigas graças a um pequeno garoto tocando de forma
instrumental, havia dois andares, em que o segundo era
um bordel de burgueses. Os homens eram barbudos
apesar de o padrão de beleza não coincidir com isso, as
mulheres ali eram poucas que não estavam a trabalho,
quase sempre acompanhadas de homens em que o
padrão geral de beleza do lugar não era muito alto.
fi
fi
fi
Um ponto positivo de ter passado anos da minha vida
em silêncio e levemente isolado, que você também
aprende a analisar cuidadosamente tudo que ocorre ao
seu redor, sem chamar muita atenção.
A mulher de olhos verdes pede duas bebidas, analiso a
colocação de um líquido de um pequeno frasco em uma
delas, sendo mascarado pelo cheiro de canela,
provavelmente veneno, nessa época não era tão fácil a
identi cação como seria nos dias atuais. Ela se aproxima
delicadamente, logo depois de conversar brevemente
com uma garota de cabelos e olhos escuros que
aparentemente trabalha de bordel, que segurou a ruiva
pelo braço e sussurra em seu ouvido algo que a
estressa, puxa seu braço de volta, segue caminhando e
senta-se à minha mesa que até então estava vazia.

⁃ Você vem sempre aqui? - pergunta descon ada,


virando levemente a cabeça e cerrando os olhos que
transmitem grande intensidade -

⁃ Não muito - respondo com a mesma descon ança


disfarçada no olhar -

⁃ O que te trás aqui hoje? - uma ótima pergunta que eu


deveria estar fazendo, uma vez que ela sentou a
minha mesa -

⁃ Estou procurando um amigo, no momento também


procurando trabalho como pianista.

⁃ Você compõe? - esticando a mão para que eu pegue


um dos copos, apesar de eu saber que é de chumbo
que causa a morte de diversas pessoas e o possível
veneno -

⁃ É uma boa pergunta - pego o copo e deixando na


mesa, sabendo que a resposta é uma pegadinha,
acredito que não vão conhecer as mesmas músicas
que eu, então achariam que sim, sendo que nunca
fi
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realmente escrevi nada -

⁃ De onde vem, pianista desconhecido?


⁃ De todo lugar, de lugar nenhum, porque deveria te
falar algo, senhorita misteriosa? - ela abre um sorriso
de canto de boca, arqueia suas nas sobrancelhas
sem responder mas já dando sua resposta, levando o
copo a boca -

⁃ Porque você está mexendo em algo que não vai


querer se meter.

⁃ Não é minha intenção, apenas procuro respostas. A


respeito de sua pergunta de antes, eu nasci em Arles,
mas meu pai viajava muito então não considero, sou
de todo lugar. - espero que ela compre a mentira, levo
o copo para perto da boca, sentindo o aroma da
bebida -

⁃ Acredito que tenha me enganado, vai gostar mais


dessa bebida aqui. - trocando os copos rapidamente,
levando o que deveria ser meu a boca -

⁃ Não beba isso… - faço uma pausa e seus olhos


arregalam em supresa, realmente havia algo e ela
não esperava ser pega, mas o que a fez mudar de
ideia? - não vai fazer bem para você

⁃ Como você sabe? - bebo um gole do vinho do porto


na caneca que não estava batizada, fechando os
olhos sorrindo de canto de boca -

⁃ Quem te enviou aqui? - pergunto seriamente, nós


encaramos por um momento em silêncio-

Quando percebi que nenhum gostaria de responder as


perguntas um do outro, me levanto, abaixando a cabeça
fi
quando em pé a m de fazer uma breve referência, me
manter cordial. Ao passar ao seu lado, segura meu braço
sem força.

⁃ Um conselho, tome cuidado, pessoas novas podem


atrair atenção indesejada dos que permanecem aqui.

As palavras ecoavam em minha mente, pistas claras,


porém estava cansado demais para pensar nisso no
momento, assim comi em silêncio e logo subi as estreitas
escadas para o bordel, em que a mulher de cabelos
castanhos que vi conversando com a ruiva, me tava,
seguindo com os olhos distantemente. Com o pouco
orçamento, iria dormir ali a ado enquanto não tivesse
trabalho. Chegando no meu quarto tento desviar o
pensamento de quantas pessoas não passaram ali, ainda
bem que não estava frio pois não desejava me cobrir
com o cobertor presente, pois como não estava pagando
realmente duvido que algo tenha sido limpo, nem
acredito muito na limpeza mesmo pagando no geral.
Bom, contento-me em lembrar que qualquer lugar é
melhor do que nenhum lugar, e que logo isso deveria
acabar.
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fi
8º capítulo

dia amanheceu e logo


acordo com o som dos
pássaros cantando em um
arvoredo próximo, não me lembro
quando foi a última vez que escutei
isso de forma tão clara, tão calma.
O problema é que não existem
despertadores, deixei a cortina aberta para auxiliar a
despertar no devido horário. Fui descendo as escadas,
aparentemente ninguém acordado uma vez que caram
até altas horas curtindo os prazeres noturnos, bebidas e
mulheres.

Vou até o banheiro, passo uma água no rosto e aproveito


a solidão para sair e explorar. Acho curioso o fato de ter
um relógio solar no centro da cidade, mostrando
nitidamente que horas são durante o dia conforme a
posição do sol em um círculo de metal cravado com
números. Tomo café da manhã em uma charmosa
padaria, não como muito para guardar o pouco de
dinheiro que posso, aproveito para escrever uma carta
para Sara, pedindo do seu bem estar explicando sobre
como os meses estão se passando e mesmo estando
aqui me sinto completamente perdido, que parece que
persigo um fantasma, contudo assino como sua querida
amiga Simone, pensando que seu marido poderia abrir
as cartas.

Me levanto, pago pela porção de croissant consumidas e


uma jarra de água, vou até a estação de correios
entregar, logo compro também uma maçã na feira de rua
próxima. Vou até perto do museu do Louvre, no
momento é um edifício impressionante sem ter
ocupação, antiga casa da família real antes da
construção de Versalhes, a m de se manter afastado da
pressão popular. Vou até uma grá ca e pago para me
fi
fi
fi
acrescentar na edição do próximo folhetim “um talentoso
jovem pianista com agenda aberta para eventos”.

Passo a manhã entregando pan etos a respeito do


garoto e pendurando em todos os locais possíveis, meu
dinheiro estava cada vez mais limitado, Paris
de nitivamente é um local caro.
Enquanto isso, sinto alguém se aproximando atrás de
mim, me viro rapidamente pensando em uma das falas
do dia anterior.

“Porque você está mexendo em algo que não vai querer


se meter.“

Não era ninguém a menos que justamente ela, a garota


ruiva.

- Porque se importa tanto com essa criança? - pergunta


ela -

- Porque você quer saber?


- Estou apenas intrigada. - enquanto da voltas ao meu
redor, mas sua curiosidade parece real -

- Só ca longe de mim.
- Porque eu faria isso?

- Porque tentou me envenenar? - ela ca em silêncio e


sua expressão muda, então após não ter resposta
continuo - E porque mudou de ideia?

- Achei que você seria diferente, agora é sua vez de me


responder.

- Porque quem escreveu o que toco é ele, algumas


semanas atrás soube que ele estava em Paris, mas
também parei de receber suas melodias novas, ele é
meu ganha pão, além disso estou preocupado.
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fi
fl
fi
Não era verdade, não tudo pelo menos mas não deixa de
ser sincero.

- Então você não é uma ameaça?


- Não tenho intenções de ser.
- Posso lhe acompanhar?
- Porque você faria isso?
- Estou entediada.
Ela se porta de maneira diferente das demais damas, é
direta e não tem medo de começar uma conversa, eu
também sou assim, exceto que eu tenho um bom
motivo: eu sou diferente e fui criado diferente dos demais
homens presentes, a diferença de pensamento é gritante.
Passeamos bastante, quando os pan etos chegaram ao
m ela decidiu me guiar a seus pontos preferidos de
Paris até chegar o horário do almoço, não soltava muitas
informações durante breves tentativas de conversa mas
como não desgrudava do meu lado, não sabia mais o
que fazer.

- Haverá um baile hoje a noite.


- Jura? - ironizo.-
- O rei estará também, dizem as más línguas que para
analisar possíveis pretendentes.

- Você deve estar bastante animada sobre. - faço uma


pausa para melhorar o que tenho vontade de dizer. -
Não tem uma desagradável, vai conseguir chamar a
atenção dele.

- Meu desejo é precisamente o oposto... - ela respira


fundo - Me acompanha?
fi
fl
- Porque eu faria isso?
- Creio que acompanhada chamarei menos a atenção.
- Convide um amigo seu.
- Estou fazendo isso nesse exato momento.
- Ah entendi, o envenenamento era parte do seu ritual
de amizade? - ela revira os olhos -

- Será uma oportunidade para você.


- Porque seria?
- Porque você precisa de trabalho, toca música clássica,
o que poderia ser melhor que cair nas graças do rei,
além de ter mais acesso a pessoas que podem
conhecer sua criança.

- Eu nem sei seu nome!


- Camille, agora você sabe.
- Simon, e vou pensar sobre.
- Te encontro às 19h na taverna, mas precisará de novas
roupas.

- Eu não disse que aceito!! - ela se afasta andando para


não escutar o que tenho a dizer -

- Também não disse que não, então já está marcado.


Não deixa de ser verdade, é uma boa oportunidade tanto
para ganho pessoal como para investigar o sumiço do
jovem Wolfgang.
Vou até uma costureira, faço o orçamento de uma roupa
adequada e de nitivamente era mais do que poderia
bancar e creio que minhas roupas serão muito simples.
Volto para minha primeira atitude ruim aqui, roubar
roupas, caminho mais algumas quadras até achar uma
grande residência, com passos leves contorno o local,
infelizmente encontro uma serva que grita ao ver um
homem estranho invadindo a casa de seu patrão.

Coloco uma de minhas mãos em sua boa, a outra segura


sua nuca para evitar que tentar sair, ela estava agitada
então sussurro ao seu ouvido.

- Eu não vim para te fazer mal ou para os donos da


casa, preciso de um favor… - não gosto de fazer isso,
mas preciso - Eu preciso de roupas requintadas e não
tenho condição de pagar, quero que você pegue pra
mim e em troca te darei uma moeda por isso.

Solto sua boca devagar, ela olha para mim e pede para
ver a moeda, era uma das grandes e das quatro que eu
ganhei quando sai, que agora já se reduziram a nada.

- Eu faço. - responde ela, tentando pegar a moeda de


minha mão -

- Apenas depois de me dar as roupas.


Diferentemente do que pensei, ela não pega do varal, vai
até o quarto do an trião e retira uma calça e uma blusa
do armário. O tecido é verde e estampado em dourado
perto da fechadura da frente, meu primeiro pensamento
é o que pensaria se alguém em 2024 usasse “brega e
ultrapassado” mas aqui todos se vestem assim, creio
que seja exatamente isso que Camille se referiu quando
disse que precisava de trajes melhores. Entrego a moeda
para a senhora, coloca dentro do sutiã e me dá a roupa,
assenta com a cabeça para eu ir embora com o sorriso
malicioso e logo percebo o porque.
fi
fi
- LADRÃO! Por favor, ajuda?!
Assim que os funcionários da casa escutam isso saem
em disparada atrás de mim, não z nenhum acordo
sobre ela não me dedurar, só precisava que me
entregasse a roupa. Me sinto um idiota por não ter
pensado que isso iria acontecer, corro o mais rápido
possível tentando despista-los entre as feiras de rua e
quadras ao redor, quando percebo que todos se foram
volto para o bordel onde estava dormindo.

Vou para o banho, penteio meu cabelo para trás e visto


as roupas roubadas durante o dia. Não vou mentir estou
um pouco perdido, não sei se deveria comer antes de ir
ou se vai ter comida lá mas não nego que estou ansioso
sobre como a noite pode ser, só vi coisas assim em
lmes e após lembrar das cenas de quando assisti
Bridgerton meu interesse aumentou.
fi
fi
9º capítulo

esço as escadarias e vejo


que Camille estava
esperando, com uma aparência de
tirar o fôlego, um vestido vermelho
com decote, mais curto que o
padrão da época e os cabelos
presos em uma trança
de nitivamente trabalhosa. Estou com uma roupa verde
musgo detalhada em dourado e parte de mim não deixa
de pensar que juntos provavelmente deveríamos parecer
um pinheiro de natal.

- Boa noite madame, já disse quão mal lhe caiu esse


vestido? - solto um sorriso irônico e arregalo
levemente os olhos então digo isso fazendo uma
reverência. -

- Boa noite meu bom homem, não disse não, por favor
faça as honras.

- Não posso.
- Porque não?
- Seria mentira… Mas se seu objetivo era não chamar
atenção tenho comentar que você não o alcançou.

Vejo-a cando sem graça com o meu comentário,


balança a cabeça como se conseguisse anular o meu
comentário por fazer isso, mas ainda assim entrelaça seu
no braço ao meu. Quando saímos pela porta uma
carruagem está nos esperando, não esperava tanta
formalidade mas faz sentido, a nal estamos indo a um
baile que vossa majestade estará.
fi
fi
fi
fi
O caminho se encontrava levemente esburacado, não
conversamos enquanto isso, estava preso em meus
pensamentos, como que o baile que poderia ser sediado
no Palácio do Louvre, não traria tantas pessoas para a
residência real do momento mas a demora no percurso
me faz perceber que não, mais uma vez eu e minha
habilidade de subestimar o rei da França. Mas eu não
tinha noção de sua dimensão até chegarmos, observo
cada detalhe possível através da pequena janela desde a
passagem pelos ilustres portões dourados, pode ver-se
de longe o palácio iluminado por inúmeros candelabros,
passamos por seus imensos jardins cuidadosamente
planejados formando desenhos na grama, passado dois
açudes repletos de esculturas descemos onde começava
a la de entrada. Após um servo abrir a porta saio
primeiro, estendo a minha mão para ajudá-la a descer,
onde as pessoas esperavam a pé.

O local estava cheio de carruagens dando voltas nos


açudes, inúmeras donzelas esperando uma chance com
o monarca, não tenho certeza se ele realmente estava
considerando tomar uma nobre como esposa, contudo
ele deu a brecha e os convites então qualquer mãe
obrigaria caso necessário a sua lha a vestir as melhores
roupas e penteados, se tornando uma competição com
toda qualquer mulher ali presente.

Ainda assim aqui estou, provavelmente com a única


mulher do reino que não o cobiça, ou pelo menos
acredito eu, não só pelo que me fala mas pela falta do
cheiro de desespero no ar. Pelo contrário, Camille se
posicionava rme e con ante, certa de sua beleza e até
que está me convencendo tentando a esconder, pois se
estivesse mais natural não teria competição com metade
das garotas do local.

- Não tinha certeza se você viria comigo.


- Eu também não tinha, espero que seja a grande
oportunidade que você me prometeu.
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fi
- Para começar, o meu plano é que seja uma noite
memorável.

Entramos, poderia facilmente perder nesse lugar, o chão


é de madeira em blocos quadrados bem encerados,
diversas estátuas de mulheres feitas de ouro são usadas
para depositar velas, assim como grandes lustres, três
por leira até onde eu conseguia olhar, o teto marcado
inúmeras pinturas de tirar o fôlego e as paredes com
detalhes em mármore, creio que este é o momento que
me senti mais nacionalista em toda minha existência,
deixo-a me guiar, parece estar mais acostumada que
isso que eu apesar de precisarmos apenas seguir a
multidão e o barulho de festa. O salão principal segue o
padrão estético, tenho certeza de que nenhum recurso
foi poupado para a criação do palácio.

- O que é isso? - falo sozinho quase sem palavras para


descrever -

- Isso senhor Simon, é Versalhes.


Apenas os convidados estão presentes, sem ter sinal de
vossa majestade, um grande maioria são mulheres de
todas as idades, mas conforme encaro por alguns
minutos percebo que eu sou único homem que
permanece naquele cômodo.

- Você deveria ir aos aposentos do rei junto aos demais


homens admirar o Rei, cada minuto do seu dia é um
espetáculo aberto, na maior parte do tempo apenas
para homens inclusive a hora de usar o banheiro.

- Porque você não me avisou isso antes?


- Imaginei que já soubesse.

Sigo um homem que estava se retirando do salão,


imaginando que vá me levar ao grande rei, mas para
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minha surpresa o comentário não poderia estar mais
certeiro, nossa majestade está usando uma camisa
branca desabotoada, na ausência de calças e com
cabelo longo preto preso e suado se esforçando para
usar o banheiro, não é o tipo de situação que eu
imaginara para a noite, pelo menos não sou único, las
em círculos se formam para car mais próximo de sua
companhia, já eu particularmente quei mais afastado na
sala, caso seu esforço foi recompensado de nitivamente
não queria sentir o cheiro disso.

Me mantenho ali até estar tudo acabado e ele seguir para


o seus aposentos para se aprontar para o próprio baile,
dessa vez creio eu que sem a plateia, pois sigo o uxo
de volta para o salão. Músicos tocam uma baixa música
de fundo, pois um soberano nunca estará atrasado
simplesmente outras pessoas adiantadas.
Dessa vez se encontra propriamente trajado, com uma
alta peruca repleta de pequenos cachos perdoa as
laterais e poucos os soltos atrás da cabeça, é
perceptível em seu olhar o sentimento de superioridade,
Como se fosse bom demais para os demais, duas las
se formam os dois lados de sua gura, acompanhado de
pessoas que não reconheço mas provavelmente de
grande importância o seguindo atrás, todos fazem uma
reverência enquanto vossa majestade passa pelo
corredor analisando todos presentes.

Faço parte da la também ao lado de Camille é um velho


senhor creio que não tomava banho há um certo tempo,
acompanhando de uma dama consideravelmente nova
nova que acredito ser sua lha, que deve ter no máximo
seus 14 anos. Ele para em nossa frente em silêncio.

- Alteza, é uma honra estar aqui. - digo esperando que o


fato de estar estático a minha frente era que esperasse
que eu começasse uma conversação. -

- Quem seria você?


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- Simon, sou pianista meu senhor.
- E o que te traz aqui?
- Vim como acompanhante de Camille. - ele me observa
de cima a baixo, assim como ele, depois centra seu
olhar em mim. -

Creio que minha resposta não agradou, mas ele segue


seu caminho e eu já não sabia mais o que fazer ou como
me portar, estava presente no sucessor do rei sol, agora
com 57 anos. Infelizmente eu sei que ele não duraria
muito mais, e pelo que ouvi sobre, já tem seu herdeiro
assim como outros 9 lhos por precaução e sua mulher
Maria Leszczyńska faleceu a pouco tempo, então estava
a procura de uma nova rainha, que não necessariamente
precisa agregar algum valor político, apenas gerar
entretenimento pois a aliança entre a Polônia e a França
já havia sido selada no casamento anterior, continua
válida uma vez que o herdeiro possui sangue polonês.

As las se desfazem como um gelo ao car no sol,


continuo ao lado de Camille, até o momento a única
pessoa que conheço, ela mantém o braço entrelaçado ao
meu.

- Entendeu porque quis vir acompanhada? - sussurra -


- Sinceramente, não. - digo me ngindo de bobo -
- Não sabia que vossa senhoria é cego além de
insuportável.

- Alguma coisa contra? - falo apenas com os lábios por


medo de alguém ouvir - o rei?

Ela me puxa fortemente pelo braço e fala tão próximo ao


meu ouvido que consigo sentir o ar esquentando em
minha orelha devido ao seu hálito.
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- Pode ser rei, mas não deixa de ser um velho.
Ousada, não entendo porque está falando isso para mim,
a súbita con ança, mas quase não consigo conter a
gargalhada quando escuto o comentário, levo a mão a
boca rapidamente e forço uma tosse. Ela sorri como
resposta, como se tivesse um objetivo concluído.

- Não sou uma or, escolhida apenas pela beleza e


depois abandonada até apodrecer, e não tenho desejo
nenhum em me tornar.

- Profundas palavras. - Comento em resposta, olho para


os lados rapidamente para disfarçar minha falta de
resposta elaborada enquanto realmente as absorvo. -

- Observe. - Me diz enquanto aponta com a cabeça


para uma jovem que estava conversando com Luís 15.
-

- Qual o problema? - Pergunto.-


- Consigo sentir daqui o cheiro de desespero.
- Porque diz isso?
A mulher faz uma longa reverência, conforme a conversa
segue e nós observamos ela abana um leque na frente
de seus peitos a m de acentuar seu decote de forma
modesta.

- Ela vai desmaiar.


- Não, não vai.
- Quer apostar?
- Contra você? Pode ter certeza.
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Na minha cabeça não faz sentido o porque a garota faria
isso, mas Camille não estava errada, em certo momento
a garota vai ao chão, demonstrando uma fragilidade
forçada que é visto como padrão de beleza da época,
logo ganhando graças com o rei.
A intensidade da música aumenta, rodas se formam para
dançar, apenas o rei que no primeiro momento decide se
ausentar contudo libera seus lhos para se juntarem a
multidão e eles fazem isso devagar extremamente
formais.

Em seguida a música ca mais lenta, precisando ser


dançadas em pares, só que não sei como se dança.

- Me concede uma dança? - pergunta Camille. -


- Não seria eu que deveria te pedir isso?
- Pela sua expressão facial, creio que não.
- Eu não sei dançar.
- Eu te guio, só precisa con ar em mim.
Minha vontade é relembra-la dos ocorridos de ontem,
mas ela não parece se importar, também não é nada tão
sério, no pior dos casos eu passo uma vergonha
gigantesca na frente da realeza.
Não estou con ante mas a sigo, a dança começa
enquanto estamos um a frente do outro, em seguida
rodamos de um lado para o outro com as mãos
levantadas tão próximas que um sopro talvez zesse
encostarmos, só que o charme aparentemente é isso: o
quase toque.

Fico ao seu lado a noite toda, dançamos e bebemos,


imagino como seria um baile sem toda a formalidade da
escolha de pretendentes, as comidas são apetitosas,
bem decoradas, aos montes e extravagantes como tudo
em Versalhes. Engraçado pensar neste modo de vida,
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fi
fi
fi
fi
sem trabalho apenas diversão, apenas para os nobres é
claro, infelizmente eu não sou um.

- Vamos pegar uma bebida? - digo levemente ofegante


de tanto dançar. -

- Claro.
Andamos até uma torre de taças e retiramos duas do
topo, a bebida era gostosa e forte.

- Quer sair daqui?


- O que?
- Vamos passear pelos jardins, tomar um ar fresco
- Não seria inapropriado?
- Quantas oportunidades você tem de passar por aqui!
Seu comentário foi o su ciente para me convencer,
estava particularmente mais interessado em conhecer
mais sobre dentro do palácio do que fora, mas agora não
é apenas um monumento, é o lar da família real e
perambular pode ser perigoso uma vez que mal
interpretado. Sob a luz das velas penduradas na
propriedade percebo que não sei nada sobre qual seriam
os traço padrões considerados belos na época, mas há
algo naquela garota que a diferencia, uma beleza genuína
e atemporal.

- A lua está linda, não é? - pergunta enquanto se apoia


em uma grade lindamente decorada. -

- É verdade, não tirava um tempo para observá-la fazia


um tempo.

- Eu sempre olho para o céu durante a noite, todos os


dias.
fi
- Porque?
- Costume, aprendi com a minha mãe... - ca levemente
triste ao falar sobre - ela sempre dizia que avistava
José, Maria e Jesus nas sombras da lua, nunca
consegui ver.

Tentei procurar também, mas não conseguia ver nada,


meu olhar desce da lua para a garota, que logo percebe.

-O que está olhando?

- Você.
- Posso perguntar o porque?
- Acredito que não.
- Porque?

- A menos que deseje me contar porque tentou me


matar.

- Novamente com isso?


- Não é como se tivesse verdadeiramente respondido
alguma vez.

- Eu respondo, apenas não com o que você espera.


Me afasto, queria respostas e frustrantemente desde que
vim a Paris não tenho nenhuma.

- Eu quero ir embora. - digo voltando para dentro, mas


ela segura minha mão -

- Por favor, não vá.


fi
- Porque eu caria. - puxo minha mão desprendendo da
sua -

- Por mim?
- Não acho que isso vai ser o su ciente.
Seu olhar perde o brilho, ela aceita e vamos embora, em
silêncio durante todo o percurso.
fi
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10° capítulo

o m não cumpri meu objetivo


de tentar procurar por
respostas, dias se passam e não
encontrei mais com Camille, apesar
de constantemente estar na minha
cabeça. Sinto falta do incômodo
gerado por ela, pois agora estou de
fato completamente sozinho, penso em procurá-la, mas
não tenho certeza de que ela iria querer isso, me
pergunto se ela anda pensando em mim também, será
que isso é um sinal? De que meus sentimentos estão
começando a a orar? Não saberia nem como começar,
no meio tempo Sara respondeu minha carta, sabe pouco
sobre o assunto mas que o futuro que nós conhecíamos
não seria mais o mesmo, principalmente sem Mozart,
quem sabe ele acabou perdendo uma mão e desistiu do
piano? Parece que nunca existiu, contudo quase fui
morto por isso.

Hoje, Hugo, no auge de seus 35 anos solteiro, de cabelo


curto e traços leves, exceto o grande nariz, é primo de
Francis, quem me ofereceu carona até Paris, fará um
jantar para a elite, o salário deve ser o su ciente para
cobrir parte de minhas despesas, retiro o que cresceu de
minha barba, dessa vez com o rosto completamente liso
e uso a roupa que roubei para o último evento. Sua
mansão é grande, repleta de servos e na sala de jantar
possui uma grande mesa, Francis está aqui como visita e
um dos lhos de Luís XV se faz presente, não sei qual
lho é e talvez esteja aqui sem que o pai saiba mas o
reconheci do baile está sentado em uma das pontas da
mesa e Hugo na outra, sou convidado a sentar a mesa,
como qualquer outra pessoa para aproveitar a refeição,
minha reputação tem crescido assim como minhas
oportunidades de trabalho e respeito. O lugar ao meu
fi
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lado permanece vago quando chego, os demais grande
parte já estão presente.

Recolho a informação entre conversas, é o príncipe


Charles Emmanuel de Vintimille, de atualmente 26 anos
que no momento está levemente embriagado, com uma
dama ao seu lado discretamente beijando seu pescoço,
até se cansar disso e ordenar sua saída, toco músicas
discretas no piano preto mais afastado na mesa porém
dentro do mesmo ambiente, isso parece ser uma
confraternização informal mais do que tudo, então chega
o último convidado a toma seu lugar na mesa, ninguém
menos que Camille.

Me retiro do piano quando os pratos estão prestes a


serem servidos, sentando bem ao seu lado, Camille
percebeu que sou eu, primeiramente evita olhar, como se
fosse invisível, retiro a tampa de metal que cobria a
comida, sinto o cheiro inexplicável do faisão assado,
guarnecido com molhos, vegetais frescos e
acompanhamentos como trufas e cogumelos.
O banquete terminaria com sobremesas elaboradas,
como geleias, tortas e frutas exóticas.

Em meio ao jantar requintado, ela lançou um olhar gélido


em minha direção, que foi respondido com um sorriso
irônico.

- Espero que seus servos tenham mais habilidade na


cozinha do que você hoje na escolha de companhias -
provocou ela, direcionando sua fala a Hugo erguendo
a sobrancelha -

- Certamente, deve preferir um prato bem temperado a


uma conversa sem sabor, sei que eu pre ro. - eu
revido, levantando minha taça, falando baixo -

As palavras a adas voavam como faíscas, mas por trás


da superfície da disputa, faiscava a tensão de algo mais
fi
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profundo, algo que nenhum de nós estava disposto a
admitir naquele momento público.

Retomo a música, percebo que é a primeira vez que ela


irá me escutar tocar, não nego o sentimento de querer
tocar melhor para chamar sua atenção, penso que uma
pequena música composta por Mozart colocada em
minha autoral não mataria, a nal ele não se encontra
tocando nenhuma e não tenho certeza de que ainda vai.
Então assim o faço, toco a mais bela que me vem à
mente, todos os presentes se viram para olhar,
deslumbrados com o potencial, inicialmente ela me
ignora mas logo para de beber seu copo de conhaque
também, mas além dela, creio ter chamado a atenção de
outro membro importante: o príncipe.

- Qual seu nome, rapaz? - pergunta o príncipe -


- Simon.
- Você que compôs essa melodia, Simon?
- Sim, alteza. - sei que não deveria ter sido escrita
ainda, então como sou o primeiro a tocar aqui, é
minha, sei que não é certo, mas é uma oportunidade
de ouro -

- Interessante, de qual família você é?


Eu estremeço ao pensar nisso, nunca pensei até agora e
creio estar transparecendo isso, mas respiro fundo, crio
coragem e o respondo.

- Mozart. - primeiro sobrenome que vem a minha mente -

Nunca disse meu real sobrenome a ninguém desde que


voltei, nunca se sabe ao que pode ser associado, penso
se devo inventar algum caso o peçam mas acabou
soltando o que mais ando pensando sobre.
fi
- Você deveria vir tocar no palácio, Simon Mozart, tenho
certeza de que nossa família gostaria de ouvir mais de
suas composições.

- Muito obrigado, estarei a disposição, sempre que


precisar.

Não sei nem o que pensar, tocar para o rei? E o que


pode acontecer caso a família de Wolfgang Mozart me
procurar? Direi ser um parente distante, nascido e criado
na França.

- Sente-se conosco.
- Se é o que você deseja vossa majestade e se o senhor
Hugo me permitir. - Hugo assente com a cabeça, não
sei se ele pode dizer não ao príncipe -

- Por hoje pode me chamar de Charles, ou pequeno


Luís como o restante de minha família, não precisa ser
tão formal, a nal estamos entre amigos.

- Se posso falar livremente… - começo, o fato de não


me interromperem levo como um bom sinal - o rei não
se importa com a sua presença aqui? Pergunto
apenas por genuína curiosidade.

- Não sou o herdeiro, então não, príncipes que não


levarão a coroa tem direito a se divertir uma vez ou
outra.

Ele me pergunta sobre como cresci, quem me ensinou a


tocar e a quanto tempo componho, troco de lugar com
um homem para sentar ao seu lado e conversar melhor,
ocasionalmente ocorriam pequenas trocas de olhares
com Camille, mas logo retomava minha atenção
completamente para climão, por uma breve meia hora
parecia estar completamente fascinado, algo que poderia
ser positivo ou negativo para Hugo, depois mudamos
para os locais originais.
fi
- Você até que tocou bem.
- Obrigado, espero ter alcançado suas expectativas.
- Superou-as.
- Um bom sinal, tendo em vista que tocava para você.
- O que? - pergunta sem graça, ela escutou bem,
apenas estava incrédula creio eu com a minha falta de
vergonha na cara na resposta, então não respondo -

- Só estou brincando… você sabe disso.

Volto a tocar, inclusive algumas que escutei na festa e


tento replicar, pelo menos até todos estarem
embriagados o su ciente para pedirem músicas menos
cordiais, vejo-os dançando ao redor da mesa, colocando
avental limpos de servas na cabeça e pendurando como
perucas, causando ataques de risos entre danças,
Camille também estava mais solta e aparentemente
aproveitando, me pergunto como ela os conheceu assim
porque se faz parte da elite, o que fazia na taverna
comigo aquele dia? Porque uma dama da alta sociedade
estaria num local apenas burguês? Principalmente,
porque faria o papel de assassina?
Preciso falar com ela, talvez agora com alto índice de
álcool em seu sangue solte algumas verdades
escondidas.

Quando todos começaram a se retirar do local, aproveito


a oportunidade e me dirijo a ela.

- Podemos conversar?
- Tem em mente algo especí co?
- Você vai descobrir logo.
fi
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- E porque eu iria querer isso?
- Precisamos esclarecer algumas coisas entre nós.
- Chamarei todos de volta a mesa então
- Camille, por favor. - Seguro gentilmente seu braço. -
Em particular.

- Ok, vou me juntar a eles para me despedir, te esperarei


do lado de fora dentro de minha carruagem.

- Obrigada.
- Sorte sua que não planejava car por muito mais
tempo.

E assim ocorre, quando me retiro do local após receber


meu pagamento, lá está ela está me esperando.

- Você realmente veio.


- Você me chamou.
fi
11° capítulo

ão vou ngir que entendo o


que se passa em sua cabeça
no momento, contudo o fato de
ainda estar aqui signi ca algo. O
veículo começa a se movimentar.

- Para onde vamos?


- Você vai descobrir logo.
- Não sou particularmente fã dessa resposta mas eu
não posso sentir julgar por isso.

- Que bom que reconhece. - ela ca em silêncio mas


depois retoma a conversa. - Sentiu muito a minha
falta?

- Todos os dias, minha vida estava muito calma sem a


sua presença.

- Você precisa do agito agregado.


- Não vou mentir, você é a melhor nisso.
- Eu reconheço.
- Não esperava te encontrar no jantar, nem o príncipe na
realidade.

- Foi uma surpresa boa?


- Pode ter certeza que sim, como vocês são amigos?
- Uma mulher precisa manter seus contatos.
fi
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Outra vez, sendo vazia. A carruagem para, um lindo
casarão de três andares feito à base de pedras, repleto
de detalhes esculpidos na argila aguarda em nossa
chegada, Camille ca em silêncio, até a carruagem ser
aberta por um servo, um homem de algo próximo a um
metro e meio, de voz engraçada.

- Bem vinda ao lar, madame Valois.


- Valois?
- Não nja que sou a única que estava escondendo as
cartas.

- Então porque me trazer aqui?


- Melhor do que o bordel, certamente.
- Você me fascina. - ela sorri de boca fechada e não
responde a mim, apenas se dirigiu ao servo -

- Leve o senhor Mozart ao escritório.


Entramos, a garota segue em uma direção diferente da
que estou sendo direcionado, subindo pela comprida
escadaria espiral até a perder do meu campo de visão. O
local é bem diferente do que eu imaginava quando a
conheci, de assassina para membro da antiga casa que
ocupava o trono antecedendo a dinastia bourbon. Espero
sozinho em uma sala, iluminada pelas chamas de velas e
repleta de livros e mapas, uma pequena camada de
poeira se acumula em cima dos objetos espalhados pela
mesa, como um velho óculos que creio ser masculino,
ajustado somente sobre o nariz e uma haste lateral onde
o usuário o segurava para colocá-lo à frente dos olhos,
enquanto estou com ele em mãos ela chega, repara no
objeto e percebo que a abala, então solto rapidamente,
tentando deixar na posição exata que estava
anteriormente, não deveria ter mexido.
fi
fi
- Então você é realeza.
- Minha família já foi da realeza. - corrige -
- Quem é seu ancestral? Algum bastardo de monarca,
como o irmão de Francis II?

- Não seja tolo, não sou relacionada com os Portiers.


- Estou curioso a respeito.
- Um lho derivado de antiga amante do príncipe
Charles, antes de assumir o trono, fora do casamento.

- Entendi, gosto de história.


- Percebo, eu sei pois é de minha família, que interesse
e conhecimento tem você a respeito?

- Desejo de aprender, apenas estudando o passado


podemos não repetir os mesmos erros no presente.

- Não esperava que você fosse do tipo estudioso.


- Você caria surpresa. A propósito, a quem pertence
este escritório?

- Meu pai.
- É um movimento extremamente arriscado o seu de
estar acompanhada de alguém do meu gênero durante
o período da noite, não concorda.

- Você sabe que é verdade, felizmente moro


consideravelmente afastada das demais casas, o
su ciente para ninguém perceber ou comentar sobre
sua presença.

- Me perdoe pela pergunta, mas onde seu pai está


agora?
fi
fi
fi
- No hospital.
Posso estar sendo extremamente leigo no momento,
mas não saberia que já existia hospitais nessa época.

- Lamento ouvir isso, sinto muito também pelo que


ocorreu no baile, de verdade.

- Então é isso o que você tinha a dizer?


- Não, eu tenho muito mais a dizer mas não creio que
seja o melhor momento.

- Porque será que não estou surpresa.


- Sobre o que você quer discutir com a minha pessoa?
- Você pediu para conversarmos, estou aqui toda
ouvidos.

Medidas extremas precisam ser tomadas, ela sabe que


preciso de respostas mas não o quão estou disposto
para consegui-las, meu coração dispara ao mesmo
tempo que pesa pelo movimento que estou fazendo,
puxando uma pequena faca de sua capa que guardo em
minha canela, mas pelo bem maior percebo ser
necessário. Assim, na penumbra da sala, segurei a
lâmina com rmeza, os olhos faiscando intensamente.
A tensão era palpável enquanto lentamente deslizava a
lâmina pela lateral do corpo da senhorita, estou com
expressão séria buscando respostas, entretanto ela não
parece assustada. A parceira, inicialmente desa adora,
sentiu um arrepio ao seguir a trajetória da faca, seus
olhares se encontrando em um jogo de emoções
intensas.

A quietude foi interrompida apenas pelo som metálico da


lâmina tocando a superfície de sua pele. Entre eles, uma
dança perigosa se desenrolava, misturando hostilidade e
fi
fi
um subcorrente de algo inde nível. À medida que a faca
avançava, os olhares se suavizavam, revelando uma
complexidade de sentimentos inesperados. O momento
se tornou um equilíbrio delicado entre confronto e uma
conexão sutil que começava a surgir.

- Esse era o seu grande plano? - pergunta após


momentos de silêncio, enrijecendo sua postura,
tentando ignorar a presença

- É a única forma que tenho para me assegurar de que


está falando a verdade.

- Você acredita que isso é capaz de te dar certeza? -


soltando uma pequena gargalhada quase sem som. -

- Me parece um bom começo.


- O que me impede de gritar? - arregala levemente os
olhos, talvez tivesse bebido o su ciente para levar
como uma grande brincadeira. -

- Sua vontade de permanecer viva, se você gritar serei


obrigado a te matar e depois seu servos me matam,
um ciclo completo de violência sem sentido... Agora
se puder se sentar eu agradeço.

- Entendido.
- Porque você não me conta tudo, do começo.
fi
fi
Lady Camille frequentava a taverna disfarçada para
escapar das restrições de sua vida aristocrática. Sob o
pseudônimo de "Marquesa da morte", se envolveu no
submundo como assassina para buscar justiça contra
membros corruptos da alta sociedade que escapavam
da lei. Seu alter ego junto a sua aparência indefesa
permitia que ela se misturasse, adquirisse informações e,
quando necessário, agisse nas sombras para equilibrar
as escalas da justiça, não demorou muito para chegar
em sua lista negra Leopold Mozart, um compositor,
professor de música e violinista, que estava fazendo
turnê pela Europa com seus lhos, Wolfgang Amadeus
Mozart e Maria Anna Mozart. Exceto que de uma família
de compositores nenhum nunca compusera nenhuma
melodia, pagava misérias pelos direitos autorais de
músicas a desconhecidos, que se tornariam grandes
sucessos, e apesar de já ter ido ao tribunal por plágio
nada nunca ocorreu, um dos injustiçados buscou
vingança, então admitiu que não foi responsável pela
execução da família, mas não nega ter pequeno
envolvimento sobre, o que justi ca me procurar quando
comecei a fazer perguntas, presumiu que iria atrás dos
responsáveis após levantar perguntas sobre algo que a
poeira ainda não estava completamente baixa.

Minha mente está uma confusão, Mozart está morto, não


consegui digerir tão facilmente as informações contidas
na conversa. Como ela mesmo citou anteriormente não
tenho como saber qual parte é mentira e qual parte é
verdade, ou mesmo se tudo é verdade e por que ela me
falaria isso, agora vai do que eu decidir acreditar sobre,
pois as respostas já estão ditas.

- Porque você começou?


- O que?
- Porque você começou com tudo isso, não acredito
que seja o tipo de pessoa genuinamente má, então
quero saber como isso começou.
fi
fi
- Porque um porco se casou com a minha irmã,
estávamos prestes a falência então ele se ofereceu
para se unir em matrimônio sem precisar ser pago o
dote, segundo meu pai no momento, “cavalo dado não
se olha os dentes”, exceto que ele nunca soube como
cuidar dela, cada vez mais quando nos encontrávamos
estava com hematomas e sua essência sendo
apagada, até que um belo dia fui tirar satisfação o tipo
do diálogo foi esquentando, começou a me bater
também, minha irmã Elisa entrou na sala e acabou
sendo estrangulada quase até a morte, no calor do
momento peguei o candelabro e o acertei na cabeça,
matei por acidente.

- Como está Elisa agora?


- Morta, a enforcaram pela morte do marido. Depois do
incidente eu entrei em choque, larguei o objeto ao
chão e voltei para nossa casa correndo, quando fui lá
para ver como estava o crime já havia sido
denunciado, a última vez que a vi era apenas o corpo
pendurado…

- Impressionantemente, eu acredito em você.


- Obrigada, mas pode acreditar no que quiser, inclusive
já que está com uma faca em meu pescoço, se quiser
ir em frente, continue. - colocando a mão sobre a
minha e aumentando a pressão fazendo com que a
ponta da faca entre suavemente mais a dentro de sua
pele, mas não o su ciente pra perfurar, com os olhos
úmidos sufocados com os fantasmas do passado. -

Eu estava tenso, a lâmina em minha mão tremia


enquanto a encarava. Meus pensamentos vagavam entre
aproveitar a oportunidade, se vingar de quem tentou me
fazer mal, é uma assassina, está indefesa e seria fácil,
tudo que é preciso apertar um pouco mais e acabou ou
entender sua delicada situação, que explica mas não
fi
justi ca. A tensão entre nós era palpável, mas algo
dentro de mim hesitava. Lentamente, abaixei a arma,
meus olhos encontraram os dela. O silêncio se quebrou
quando sussurrei.

- Eu não posso fazer isso.


Camille me encarou surpresa, mas também aliviada.

- Você não é uma pessoa ruim por tomar decisões ruins.


- Cuidado senhor Simon, ou vou realmente acreditar
que você gosta de mim.

Um novo sentimento toma conta de mim, uma sensação


que desa a as linhas traçadas por nossa hostilidade
passada. No cenário de 1767, onde as regras sociais
rigidamente determinam lealdades e rivalidades, meu
coração parece ignorar essas convenções. Baixo minha
arma, e ela, contra todas as expectativas, coloca
suavemente sua mão em meu pescoço. Esse gesto,
carregado de incertezas, cria um elo fascinante entre
nós.

No instante seguinte, a atmosfera carregada desvaneceu,


deixando para trás um ambiente de entendimento. O
brilho nos olhos agora continha algo mais profundo do
que o ressentimento inicial, inaugurando um capítulo
confuso onde se viam, momentaneamente, sob uma
nova luz. Após tantas palavras a adas, um silêncio tenso
se estabeleceu, até que, nalmente, nossos lábios se
encontraram em um beijo cheio de emoção e con itos
não resolvidos, transformando inimigos em amantes em
um instante arrebatador.
fi
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fi
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12° capítulo

assei a noite em sua


residência, ela deu um jeito
para que os servos não
estranhassem, me colocou no
quarto de hóspedes e quando todos estavam a dormir
veio delicadamente me visitar.

No momento estou acordado enquanto deixo que


continuasse a dormir, a cabeça apoiada no meu peito
enquanto seus cabelos ruivos estão levemente
desajeitados, caindo em seu belo rosto mas não parece
a atrapalhar. Eu acordei mais cedo, estou há algumas
horas preso em diálogos com minha própria mente ao
mesmo tempo que saboreando cada momento daquela
manhã incomum.

- Bom dia raio de sol. - digo quando percebo que está


prestes a acordar -

- Bom dia… - com os olhos ainda fechados passa a


mão em seu rosto, esfregando-os pesados tentando
fazer com que se abram mais facilmente -

Não sei exatamente o que dizer após isso, co


imaginando o quanto ela bebeu na noite anterior e se
talvez não devêssemos ter feito isso, mas a expressão
em seu rosto a rma que estou errado a respeito disso.

- Como foi sua noite? - pergunto -


- De nitivamente melhor do que o esperado. - ela sorri e
trás seus lábios junto aos meus -
fi
fi
fi
- Estamos de acordo nisso então. - digo em pausa entre
os selinhos junto a pequenos sorrisos e trocas de
olhares - Mas o seu belo vestido é bem difícil de tirar.

- É a primeira vez que tentou?


- Um traje assim pode ter certeza que sim.

Ela apenas ri, parece desconexa de tudo por alguns


instantes, como se o mundo fosse apenas nós dois, só
aquele quarto, com a cama inteiramente bagunçada,
roupas espalhadas e observando junto a queda de
gotículas de água vindo do céu aumentando
proporcionalmente sua intensidade até efetivamente
chover. Queria me sentir como ela, realmente queria,
talvez momentaneamente estive assim, anestesiado, o
que é um sentimento raro e extremamente valioso para
alguém como eu, contudo junto com o clarear da manhã
não consigo evitar pensar nos problemas externos.

- Porque estás tão sério, tão cedo? - pergunta por


perceber que estou mais distante, tomado por
pensamentos -

- Não é nada, apenas me preocupando com o futuro.


- Relacionado com a criança?
- Em como vai ser agora sem ele. - creio que ela não
sabe o que responder, solta um leve sorriso
reconfortante como quem abraça meus sentimentos,
sem julgamentos -

- Porque?
- Porque seu destino era se tornar um dos maiores
compositores do mundo, entretanto está apodrecendo
sete palmos abaixo do chão enquanto ninguém sabe
seu nome.
- Não é precisamente verdade.
- Como assim?
- Bom, enquanto você toca suas músicas o mantém
vivo, podem não ter o conhecido, mas não signi ca
que ninguém saiba seu nome.

- Você realmente acha isso?


- Eu tenho certeza, ninguém falava sobre qualquer
Mozart uma semana após o incidente, você o manteve
vivo e pode continuar o fazendo.

- Obrigado, de verdade.
- Eu tenho um pressentimento de que você não vai
conseguir deixar de lado tão cedo, mas posso
desfrutar da vossa companhia nesse instante? - ela se
posiciona perto de meu ouvido enquanto sussurra
essas palavras, consigo sentir o calor de seu hálito e
se torna inegável como faz meu corpo todo se arrepiar.
-

- Eu preciso ir embora. - retiro-me da cama - Seus


servos não vão nos atrapalhar?

- Bom, eles são apenas servos, eu sou a madame desta


residência. - se levantando também, puxa meu braço
nos aproximando - Além de que uma tempestade está
se formando, com os trajetos lamacentos e
possivelmente alagados não seria seguro retornar a
taverna, e sinceramente, nem interessante.

- Está decido então, não tenho opção a não ser car em


vossa companhia. - implico com ela, que revira os
olhos - Você é excepcional, sabia disso?

- Suspeitava, mas você não é particularmente normal


também.
fi
fi
Com a chuva e o vento batendo nas janelas, decidimos
explorar antigas cartas e livros esquecidos perdidos no
escritório do pai de Camille. Entre páginas amareladas,
descobrimos uma história de amor proibido acumulando
poeira entre uma prateleira, Romeu e Julieta, um
clássico.

- Este é muito bom! - a rmo -


- Você lê Shakespeare?
- Ler não, mas algo similar então sei sobre sua história. -
deveria apenas responder que li, como vou explicar
que sei sua história? Não posso simplesmente falar
que assisti seu lme -

- Frequenta o teatro então?


- Claro, você gosta?
- Depende a peça.
- Devemos assistir juntos um dia, mas deixarei para
você a escolha da peça então.

- Me parece justo.
Conforme o tempo foi se acalmando, assim como passar
do dia percebo que era hora de ir pra casa ou o mais
próximo que tenho aqui, preciso pelo menos acertar as
contas com o dono da caverna que me obrigou tão
gentilmente. A tarde passou um piscar de olhos, fui
servido de deliciosos refeições feitas no fogo de chão,
com momentos repletos de risadas e trocas de caricias.

Camille pode ser descendência abastada mas não


signi ca que continue até hoje, mas de nitivamente não
é pobre, uma vez que a casa Valois saiu do poder mas
não signi ca que nunca o teve, continua tendo in uência
fi
fi
fi
fi
fi
fl
contudo não pude deixar de notar que tem menos
serviçais que as outras moradias que frequentei até
agora.

Me dirijo até a porta, ela segue atrás não muito contente


com a minha escolha apesar de saber que em algum
momento isso iria acontecer, nossa bolha seria estourada
e que problemas externos chegariam até para ela.

- Adeus Camille Valois, espero te ver novamente logo.


- Adeus Simon Mozart.
- Você sabe que esse não é meu nome verdadeiro né? -
sussurro quando percebo que estamos a sós -

- Então você mentiu para realeza? Sua petulância me


impressiona.

- Nossa.
- Só estou brincando, em partes pelo menos, mas como
para a última pergunta: já suspeitava.

- O que me entregou?
- Não me leve a mal, tenho uma aparência delicada,
contudo não sou inocente, sei quando tentam me
enganar.

- Não se mente para um mentiroso.


- Certamente, mas não creio que foi um movimento
ruim.

- Não?
- Por algum motivo que não entendo, con o em você,
segundo suas palavras, o garoto estava destinado a
grandeza exceto que não existe mais, contudo você
fi
continua aqui, pelo menos um Mozart ainda pode
estar destinado a grandeza.

- Você acha que deveria publicar como autorais


minhas?

- Melhor do que nunca serem publicadas, não é


mesmo?

Con rmo com a cabeça, não deixa de ser verdade só


que ao mesmo tempo não vou decidir tudo tão rápido
assim, seria um bom jeito de preservar o futuro, pois sua
falta afetaria até a minha infância, mudaria tudo.
Após retornar a taverna acertei as contas que devia até
agora, não foi barato porém felizmente não era uma
preocupação eminente pois meu destino estava prestes
a mudar. Comi e bebi refeições razoáveis e fui para
cama, quando acordei recebi uma carta com o brasão da
casa Bourbon grafado na cera vermelha bordo contendo
uma mensagem inesperada. A carta do príncipe da
França, Charles, revela uma sensação de surpresa e
curiosidade sobre o que esta presente em seu interior, ao
abrir noto que o papel nobre e a caligra a elegante
ressaltam a importância da mensagem, um convite para
comparecer imediatamente ao palácio na mesma noite,
onde teria a oportunidade de me apresentar diante de
toda a família real, durante um jantar mais reservado. O
propósito desse encontro seria demonstrar minhas
habilidades perante Sua Majestade, o Rei. A alegria se
mistura com um profundo respeito ao perceber que
estou conversando diretamente com alguém tão notável,
principalmente por assinar como pequeno Luís durante
seu encerramento, gerando um carisma maior visto que
é o apelido informal do mesmo que me foi reportado
anteriormente.

Camille provavelmente enviou a ele meu endereço, ou


não saberia onde me encontrar, exceto pelo fato de sua
descendência, contendo poder su ciente para rastrear
quem quisesse. Um fato interessante de se mencionar é
fi
fi
fi
que não se pode contrariar a vontade de um príncipe,
pelo menos não é algo indicado se você tem o mínimo
de senso. Com isso aceito o convite, o criado que trouxe
a mensagem leva agora uma con rmação da minha
presença.

fi
13° capítulo

ssumindo uma nova


identidade e
incorporando características do
ídolo perdido, parto para
Versalhes, em uma luta pessoal
para manter o equilíbrio entre
honrar o passado e forjar um
novo caminho para minha vida, não quero viver a
mesma que Mozart viveu, mereço mais do que
passar os anos que me restam copiando as páginas
de um livro já escrito. A residência se mantém tão
esplêndida como na última vez que a vi, agora sem
a multidão entusiasmada para se juntar a festa se
revela mais bela, ainda apresenta pilhas de comida
mas imensamente reduzidas em comparação, os
cabelos exagerados se mantém e sou
acompanhado, onde o jantar é servido às 22h em
seus aposentos, com a presença de membros da
família, cortesãos, o público e até músicos. Era
sempre considerado o evento do dia, marcado por
uma longa mesa repleta de pessoas ao seu redor
em que possui um piano próximo.

- Vossa majestade. - faço uma reverência em sua


frente, andei praticando desde a última vez,
aproveito para beijar sua mão, mais
especi camente o anel de ouro em seu anelar em
forma de respeito e em resposta ele muda a
posição de sua face abaixando levemente seu
rosto enquanto fecha seus olhos, então me afasto
-
fi
- Simon, que bom revê-lo.
- Meu príncipe, seu convite é uma honra.
- Tomei a liberdade de mudar a organização de seu
acento para mais próximo ao meu, sente-se
comigo. - apontando com sua mão em um gesto
meticuloso para a cadeira ao seu lado -

- Muito obrigado, de verdade. - digo para ele, que


pisca demoradamente apertando os olhos como
forma de demonstrar afeto retribuído de maneira
cortês -

- Você é talentoso, até o m da noite todos estarão


certos disso assim como eu.

- Você é muito gentil.

Dezenas de macarrons estavam servidos como


aperitivo, uma iguaria francesa em que não medi
esforços para começar a devorar, obviamente com o
máximo de classe que consegui reunir do meu
aprendizado, mas sou interrompido enquanto com a
boca cheia.

- Diga, senhor Mozart, o que te traz aqui.


- Gostaria de realizar uma perfomance para entreter
seu jantar, vossa alteza. - a rmo após engolir -

- Vá em frente, antes que seja servido a refeição


então.
fi
fi
Limpo minhas mãos no guardanapo de pano contido
na mesa, que pelo que fui instruído deveria se
manter em meu colo até o uso, então sigo em
direção ao piano, é a chance de uma vida.
Repenso nas palavras de Camille, de que se
assumir sua identidade farei que uma parte de
Wolfgang continue viva, que sua música e nome
continuarão passadas por gerações em um legado
histórico gigantesco, além de ter a oportunidade de
me tornar ele, porém isso me assusta.

Respiro fundo, agora não sou Simon Durand, sim


Simon Wolfgang Mozart, com isso decido ser ousado
e tocar Eine kleine Nachtmusik também conhecida
por serenata n° 13, sua música mais famosa que
persiste até os dias atuais, em que pode até não ser
reconhecida mas é tocada em lmes como as
panteras. É mais curta do que normalmente costumo
tocar, aproximadamente 6 minutos, e por mais que
não seja nada revolucionário para um jovem do
século XXI estava próximo a explodir a cabeça de
todos no local, pois escrever uma obra tão autêntica
é difícil independente da era, mas nesse momento
quebrava padrões existentes, não se identi cava
com inovações formais ou harmônicas radicais, ou
com o tipo profundo de simbolismo, mas a melhor
música de Mozart tem um uxo natural e um charme
irresistível, podendo expressar humor, alegria,
tristeza com convicção e maestria.

Uma coragem surreal percorre meu corpo,


Apresentar uma música como essa a pessoas tão
in uentes é algo inexplicável, as melodias
fl
fl
fi
fi
envolveram a audiência em um êxtase encantado,
me sinto incrível e inabalável, capturando a
complexidade e a beleza da obra. Sei que prendi a
atenção deles e que seria bom, eu seria ótimo na
verdade, como uma droga percorrendo as veias e
um viciado, em que você sabe que precisa e cada
vez precisa mais disso. Os nobres caram cativados
pela maestria musical, seus rostos revelando uma
mistura de surpresa e deleite.

- Belíssima a lua cheia, não é mesmo?


- Tão cheia que não se pode enxergar sua luz
re etida nos céus - Comenta uma das princesas -

- Desde quando você toca, Senhor Mozart?


- Apreendi a tocar durante minha infância, minha
família é formada por artistas, então desde cedo
fui incentivado a entrar neste tão belo mundo. -
meu coração aperta um pouquinho, memórias de
tempos que não voltam mais, pessoas que
caram para trás, e não deixo de notar que foi um
relato completamente verdadeiro tanto para mim
quanto para o legítimo autor -

- Um trabalho árduo de fato, faz jus a sua melodia.


- Muito obrigado pelo reconhecimento.
- Diga-me, quem compôs esta serenata?
fi
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fi
- Eu mesmo senhor. - Espero que a mentira não se
torne muito nítida mas não há ninguém para
contrariar, uma vez que não foi escrita ainda -

- Impressionante… Agora venha, a comida será


servida em breve, mas planejo escutá-lo
novamente antes de me retirar.

- Com prazer alteza.

Volto ao meu devido local, onde sem demora são


entregues inúmeras bandejas, até nalmente olhar
para baixo e perceber a presença de diversos
talheres iguais em menores proporções que me
zeram sentir um completo leigo mas noto que não
era o único, uma vez que músicos em geral são os
únicos que nesse sistema podem mudar sua classe
social, não efetivamente mas desfrutar de encontros
como este apesar de não nascer abastado.

Falar que o rei era extravagante com comida se


tornava algo minúsculo comparado ao que presencio
em seus espetáculos de opulência culinária. A mesa
real adornada com pratos extravagantes que
despertavam tanto o paladar quanto a admiração
visual. As lagostas apresentadas em esculturas
elaboradas, cobertas por uma na camada de ouro
comestível, dispostas de maneira a formar uma
composição visualmente impressionante.

As sobremesas eram verdadeiras obras de arte


açucaradas. Pirâmides de pro teroles eram
decoradas com os de caramelo que pareciam
esculpidos por um artista habilidoso junto a frutas
fi
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fi
fi
fi
tropicais exóticas esculpidas em formas elaboradas
em cada canto da mesa, como cisnes e ores,
enquanto fontes de chocolate corriam
abundantemente. Os vinhos nos eram servidos em
taças de cristal lapidadas, re etindo a luz das
candelabros dourados que iluminavam o salão.
Cada detalhe, desde a disposição dos talheres até a
seleção de especiarias raras, contribuía para uma
experiência gastronômica que não apenas satisfazia
a fome, mas também celebrava a grandiosidade e o
re namento da corte de Versalhes.

Sentados à mesa, compartilhei histórias sobre minha


paixão pela música, evocando sorrisos dos nobres.
Luís XV, intrigado, pediu que descrevesse minha
inspiração junto a outras inúmeras perguntas, com
entusiasmo, não haveria outras resposta que não
fosse sobre as harmonias da natureza e as
experiências de vida que moldaram minhas
composições assim como visão de mundo.

Durante o jantar, o monarca, um apreciador da


cultura, elogiou minha habilidade e expressou
interesse em patrocinar minhas futuras criações
musicais, que infelizmente não são tão autorais. A
noite foi recheada de conversas animadas, risadas
e, é claro, música. Agora como parte da corte, tive
meu talento reconhecido e arte apoiada pelo rei,
marcando o início de uma colaboração que ecoaria
pelos rastros da música na corte francesa.

Entretanto não agradou aos artistas presentes, seus


corações caram repletos de amargura e inveja, se
tornando insuportável a aproximação, e
fi
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fl
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fl
momentaneamente estava tudo bem pois estava
com a atenção de vossa majestade, mas depois que
seu foco mudou zeram do auge de suas noites a
tentativa de minha humilhação, tornando qualquer
interação comentário algo maligno, podre, em tom
baixo su ciente para que eu escutasse e os demais
não e não incomodaria a família real com algo
assim.

Dei meu máximo a tentar parecer imparcial a estes


pequenos incômodos, não me deixar atingir, mas é
difícil quando te remete a acontecimentos passados
na infância, sentir que a história está se repetindo
em lugares e anos diferentes. Quando nalmente me
retirei do jantar, ao som de risadinhas indesejadas
misturado com a satisfação dos nobres e monarca,
dividindo sentimentos a respeito da noite.
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14° capítulo

o chegar no mais próximo


que posso chamar de meu
quarto, o local onde durmo na
taverna, em cima da minha cama
está uma caixa, de porte médio feita
inteira de madeira com um bilhete
feito de papel envelhecido em cima
dela contendo apenas meu nome em uma caligra a
duvidosa.

Curiosamente abro a caixa, que contém nada menos do


que o que sobrou da cabeça de cada um dos membros
da família Mozart, já desidratados e com isso diminuíram
de tamanho e peso, a pele pálida e enrugada sem ter
começado a aparecer os ossos se tornam características
em comum entre eles, assim como os cabelos se
desprendendo do couro cabeludo.
Meu estômago embrulha, o cheiro forte emana por todo
o ar presente e me faz querer vomitar, mas mantenho a
compostura ao me deparar com uma carta dobrada
cuidadosamente dentro da caixa. Desdobro-a com
minhas mãos trêmulas e leio as palavras escritas com
uma pena tão na em tinta tão escura e antiga:

"Prossiga com cautela, o destino aguarda famintamente


pela sua presença, ansioso para fazer de sua cabeça a
próxima peça nesse jogo sombrio."

A inquietação se mistura com minha repugnância,


enquanto percebo que estou envolvido em algo muito
maior do que um simples aviso. Determinado a
desvendar o mistério, o primeiro passo é colocar minha
mente no lugar, se está na minha cama alguém trouxe
aqui, então preciso falar com o dono do
estabelecimento.
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Desço a escadaria para falar com ele, até perceber que
não faria sentido esta conversa, a nal ele é o dono, não
o porteiro, então mudo o rumo e me dirijo ao guarda que
cuida de quem pode ou não subir para o próximo andar.

- Boa noite
- Boa noite, no que posso te ajudar hoje Simon?
- Alguém entrou no meu quarto enquanto estava fora,
sabe quem pode ter sido?

- Meu dever é cuidar de quem sobe, não para onde vão.


- Certamente… - Não está errado mas não signi ca que
deveria dar esse tipo de resposta, meu sangue ferve,
ele é pago para cuidar da parte superior e o fato de
receber três cabeças na minha cama podem sugerir
que seu trabalho está mal feito porém não é inteligente
car comentando sobre o ocorrido. - Mas não notou
alguém subindo com uma caixa?

- Uma caixa?
- Não muito grande feita de madeira.
- Sim, mas não o conheço.
- Consegue descrever as características?
- Foi uma criança, um menino de cabelo tigela castanho
e pele clara, se não me engano olhos claros, deve ter
uns 10 anos e mais ou menos dessa altura. - mostra
apontando com a mão -

- Obrigado.
A experiência foi frustrante, especialmente na
identi cação do remetente, considerando que a criança
parece ser meramente um mensageiro remunerado para
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essa tarefa. Além disso, há uma dezenas idênticos na
vasta Paris, deixando-me sem pistas claras sobre por
onde começar a procurar pelo garoto.

Decido seguir à residência de Camille, pago para um


bêbado com sua carroça para me levar até lá, não que
eu soubesse precisamente onde ca mas guiei o melhor
que poderia e mesmo com algumas voltas
desnecessárias, nalmente alcanço meu destino. Seu
servo se recusa a deixar-me entrar em um horário como
esse, com a pesada caixa em uma das mãos e o
motorista voltando para o estabelecimento persisto
batendo à porta até que Camille, em pessoa, desça para
me falar. Envolta por um roupão por cima de sua
camisola até a canela e pés descalços, quando percebe
que sou eu batendo, afasta todos que tentaram me
remover e abre caminho, sua criada pessoal está a
seguindo como uma sombra, sou ordenado a esperar no
escritório até que esteja devidamente trajada. Apesar de
ter sido uma escolha estúpida considerando sua
reputação, ao exibir mais pele do que o usual, quase
roçando a vulgaridade e todos sabem o quão velozmente
os boatos se espalham.

- Qual motivo pode ser tão urgente para vir essas


horas?

- Muitos madame, prefere ouvir primeiros os positivos


ou negativos?

- Positivos.
- Bom, me apresentei hoje para o rei.
- Isso são ótimas notícias, o que ele achou?
- Impressionante, até se ofereceu para nanciar minhas
próximas criações além de que agora sou um membro
da corte!
fi
fi
fi
- Parece que alguém vai mudar de vida! Mas não
poderia esperar até de manhã cedo para contar?

- Recebi um presente indesejado no meio tempo. - abro


a caixa cuidadosamente para apenas ela veja o
conteúdo -

- Quem são? Ou melhor, quem foram?


- A família de Mozart.
- Todos?
- Cada um deles. - removo de dentro também o bilhete
do seu interior -

- Recebeu alguma pista sobre?


- Nenhuma, uma criança entregou.
- Não seguraria se soubesse o que tem dentro.
- Verdade, mas por acaso não reconhece caligra a?
- Infelizmente não, parece que temos um mistério.
- Seu amigo não pode ter escrito? Vingar-se do novo
membro da família na cidade?

- Não, partiu para as índias algumas semanas atrás.


- Era meu único palpite até agora.
- Bom, alguém fora desta sala tem conhecimento de
algo que não gostaríamos que soubesse.

- Isso já está um pouco óbvio.


- Vamos listar, porque alguém mandaria isso?
fi
- Saberem que o legado da família é o furto de
músicas, rivalidades anteriores, não sei.

- A carta foi direcionada a você, me parece pessoal.


- Não estou no país a muito tempo, nasci aqui mas só
retornei meses atrás.

- Nenhum inimigo feito?


- Não de que eu tenha noção sobre.
- Então momentaneamente não temos o fazer.
- E o que faço com isso? - apontando com a cabeça
para a caixa. -

- Se livra. - diz ela com a maior tranquilidade possível. -


- Enterrar separado dos corpos? - parece
desrespeitoso. -

- Desculpa, você sabe onde estão? - como se a


resposta fosse óbvia. -

- Não…
- Está disposto a procurar? Imagino que não, então por
que não enterra separado ou se não quiser pode jogar
no rio, queimar… seja criativo!

- Adolescentes me dão medo. - as palavras fogem da


minha boca em tom baixo -

- Bo! - revirando os olhos como resposta - Olhe


embaixo da sua cama antes de dormir querido, quem
sabe onde posso estar.

- Sendo você no quarto seria um prazer. - um sorriso


malicioso surge no meu rosto -
- Mesmo se fosse a sua cabeça que acabasse junto a
caixa? Cuidado com o que você deseja.

- Primeiro lugar: estou segurando cabeças, segundo


lugar: tem um cartão com palavras similares, então
esse comentário no momento não é engraçado. -
comento numa boa mesmo que um pouco incrédulo -
… Terceiro lugar: você não teria coragem de
desperdiçar um rosto lindo como o meu.

- Posso guardar como cortesia caso pre ra. - seguido


de uma risada delicada e sincera -

- Não seria melhor guardar a obra de arte completa? Se


bem que recomendaria deixar respirando se possível,
possui muito mais utilidades dessa maneira.

- Posso receber uma amostra? - me aproximo para


beijar ela desvia e arregala aos olhos arqueando as
sobrancelhas - Depois de dar um jeito nisso.

- E tomar um banho!
Com isso me retiro do local para dar um destino para a
caixa, me informo onde ca o rio mais próximo, não
longe da residência sigo a pé iluminado pela luz da vela
sem saber se estará acesa por tempo su ciente para
conseguir voltar em segurança, suas águas são claras e
fundas, com os meus pés molhados e calçados na beira,
caminho entre as grandes pedras planas a m de seguir
em direção da região mais profunda, com toda a força
que consigo reunir arremesso e não leva tempo até ser
arrastado pela correnteza.
fi
fi
fi
fi
15° capítulo

e vem a mente durante o


retorno, que talvez esteja
relacionado com meus estimados
colegas daquela inusitada ceia.
Recebi a chance de uma vida, em
que milhões de pessoas ousariam
vislumbrar, não seria difícil para
arquitetarem isso em resposta.

Entretanto parece uma medida drástica e não creio que


teriam tanto tempo para o planejar isso, debatendo
detalhes durante o banquete e orquestrando-o em meu
quarto antes mesmo de minha retirada. Antes eu era um
mero desconhecido e vale frisar que como a bela dama
assegura, a carta traz consigo um toque inegável de
pessoalidade.

Mais uma vez me encontro em uma encruzilhada


inesperada, sem pistas de como enfrentá-la, e é inegável
que os recentes acontecimentos fazem brotar em mim
uma saudade ardente da minha casa, da verdadeira
casa. Certamente, abandonei os dias monótonos, mas é
seguro a rmar que algo assim di cilmente teria ocorrido,
ou pelo menos não com tanta facilidade, se eu não
tivesse vindo para cá. Deitar e deparar-se com cabeças é
algo digno de um lme ou de casos criminais autênticos.
Apesar de minha estadia ter despertado algo em mim
que permanecia adormecido por muito tempo, como um
sentido renovado do porquê de minha existência, sinto
falta da despreocupação, da possibilidade de con ar na
justiça, ou simplesmente de poder observar as câmeras
e desvendar quem está por trás disso, ao invés de ser
arrastado para uma investigação.

A cera está quase acabando, derretida em volta do


pouco que sobrou, cada vez iluminando menos ao redor.
fi
fi
fi
fi
Finalmente creio que digeri o ocorrido, antes me via
surpreso e em choque mas agora a sensação é muito
maior que apenas isso, assumo o medo, a ansiedade,
sentindo meu coração bater desproporcionalmente. A
escuridão lá fora parece engolir qualquer resquício de
coragem que eu tente reunir, subitamente acelero meus
passos, reconheço que não é minha primeira vez sozinho
no breu de uma oresta escura, porém dessa vez a ideia
parece muito mais aterrorizante. A memória do que
testemunhei se entrelaça com a incerteza do que está
por vir. Aqueles olhos... aquelas palavras ecoam, ecoam.
Sinto um arrepio percorrer minha espinha enquanto tento
decifrar os enigmas da noite, meus pelos se arrepiam
enquanto estou perdido em um enigma de emoções e
mistérios sombrios.

Como eu fui capaz de fazer isso? Jogar as cabeças


como o lixo para fora, ser tão desumano?
Que tipo de ser humano estou me tornando?!
Especialmente por não ser qualquer pessoa, sim um
ídolo, meu ídolo! Quantas noites não fui dormir chorando
após a morte de meus pais e era reconfortado por suas
melodias? Não só em memórias tristes, mas em
concertos em família, na minha mãe tentando me
ensinar, ouvindo enquanto caminhava para o trabalho,
por Deus até tocou na minha formatura! Suas músicas
marcaram minha vida em qualquer época, mesmo já
tendo morrido há muito tempo nunca foi esquecido,
agora aqui estou eu me livrando do que sobrou de sua
versão jovem como se fosse algo comum! Não é comum,
poucas pessoas tiveram a oportunidade de conhecer
quem admiram, no meu caso pela pequena diferença de
duas centenas do tempo vivido, tive a oportunidade de
estar aqui e perdi, cheguei tarde de mais, não o conheci
em vida, não deveria ter morrido ainda quando tinha
tanto pela frente.

Outra coisa me vem a mente, acabei de excluir a


possibilidade de relatar tudo ao Rei, não que ele gostaria
de saber obviamente mas poderia ganhar sua proteção,
fl
mas não poderia arriscar, vai que foi enviado por alguém
que saiba que não sou um verdadeiro membro da
família? Que não escrevi nenhuma das músicas que toco
em minha performance? Sou uma fraude!

Chegando na casa, estava a minha espera, a química


criada momentaneamente antes se perdeu pelo ar, não
por falta de esforço mas não possuía desejo agora, me
rendi aos meus sentimentos mais profundos e não
conseguia rastejar para fora do buraco mental em que
me encontrava, Camille estava de costas exalando um
aroma de desejo mas ao direcionar seu rosto para mim,
sem que precisasse falar uma palavra se quer, fui
entendido.

- Você está bem? - reviro os olhos com um pequeno


sorriso falso, junto a uma balançada de cabeça a m
de não precisar responder - Sei que está passando por
muita coisa.

- Não quero voltar… - desvio meus olhos enquanto


sussurro, em resposta sou abraçado -

- Então passe a noite aqui… Vai ser melhor, não estará


sozinho ou presenciando o cheiro e as memórias do
incidente.

- E se nesse ato eu acabar estragando seu prestígio


social? Seu status, sua reputação?

- Não importa agora.


- Claro que importa.
- Não quero te ver mal.
- E não quero estragar o seu futuro.
- Já tenho idade para tomar minhas próprias decisões.
fi
- Tem certeza?
- Absoluta, vou mandar arrumarem o quarto de
hóspedes.

- Obrigado.
- Vou deixar um criado ao seu dispor, não posso arriscar
novamente…

Volto para o cômodo onde dormi na noite anterior, o ato


de dormir infelizmente não me acompanhou, acabei
incomodando o servo diversas vezes, sob a óptica de
que não poderia vagar pela casa, então cada ida ao
banheiro era acompanhado, cada copo de água ou chá
encomendado, poderia me acostumar com o luxo de ter
alguém fazendo tudo para mim o tempo todo, mas no
momento acho um tanto esquisito.

Ao longo dos dias nada de muito grandioso havia


mudado, continuei morando de favor na residência
Valois, nada demais ocorreu entre nós mas com um bom
motivo, ando precisando de mais espaço. Bem, nada
havia mudado exceto a habilidade de ter sono, se uma
vez conseguia dormir oito horas por dia agora tenho
di culdade pra dormir três. Sinto minha mente
de nhando dia após dia, com horas de horas olhando
para o teto com a mente exausta sem ter controle do
próprio corpo, os olhos doem, o coração bate mais
rápido do que nunca mas continuo na cama, como se
car aqui mudaria algo. Uma psicóloga uma vez me
recomendou sair da cama, só que quando você mora
numa casa que não é sua, não tem muito que fazer sobre
isso, então sigo com outro conselho, um que recebi do
meus pais muito tempo atrás, de fechar os olhos e me
manter parado esperando que pelo menos o meu corpo
descanse mesmo que minha mente não zesse o
mesmo, então eu escuto tudo, consigo ouvir os pássaros
cantando, cada galo que eu não esperava que
estivessem aqui, os miados ao meio da noite, mas
fi
fi
fi
fi
principalmente escuto mais intensamente ainda meus
pensamentos, barulhentos como um trovão.

Aproveito o tempo para escrever, repasso todas as letras


das melodias que consigo lembrar, milagrosamente são
muitas. Camille percebe isso, dependendo do dia faço
apresentações privadas, mostrando minhas músicas
favoritas sem me preocupar com o gosto da época ou de
serem vazadas, indo desde Beethoven até a música
happy transformando em uma batida triste ou
instrumental de Harry Styles, percebo que uma que caiu
fortemente em seu gosto pessoal é Watermelon sugar,
que por mais que não seja tão animada quanto a original
tem um poder de aumentar o astral, principalmente o
meu, pois não ouvia estilos diferentes de música a
meses.

Tenho vontade de convida-la para fugir de tudo isso, sair


viajar, conhecer outros lugares, mostrar o que o mundo
tem a oferecer de bom, mas lembro que nesta época não
é simples assim, tudo demora e demora muito. Estamos
mais distantes porém ao mesmo tempo nunca estivemos
tão próximos, contei sobre minhas aventuras, nosso
grupo musical antes de chegar a Paris, ela me contou
sobre sua infância, creio que eu estaria perdido nesses
últimos dias se não fosse por ela, provavelmente
emocionalmente quebrado.
Percebo uma troca de correspondências entre Camille e
o príncipe Charles, notícias de mim inclusive, sobre a
mudança de endereço para as cartas, na última contem a
solicitação de apresentação, haverá o casamento do rei.

- Com quem ele casará? - pergunto a Camille me


inclinando mais próximo a carta em suas mãos, mas
ela esconde, demonstrando ironia -

- Não se lembra de todos os ertes da noite?


- Exceto os nossos, não. - respondo ao perceber que
ninguém está prestando atenção na conversa -
fl
- De nitivamente o que teve mais química… - sussurra.
-

- Quando será?
- Semana que vem, tentaram entrar em contato antes
com você mas não sabiam mais onde te encontrar…

- Espera, não teve uma garota que desmaiou durante o


baile?

- Fingiu no caso. - responde entre tosses forçadas -


- Um momento caótico de nitivamente, lembro de
caçoarmos o ato.

- Bom, não podemos rir dessa vez, pois por mais


ridículo que fosse ainda atingiu os seus objetivos.

- Não vai me dizer que ela foi escolhida?


- Precisamente.
- Apresentamos agora, vossa majestade a rainha
mentira. - faço uma reverência extremamente forçada -

- Soberana de ertes. - diz entrando na sátira e imitando


os movimentos -

- Sedutora de idosos. - meu comentário gerou uma


crise de risos genuína em ambos, ao ponto de minha
barriga doer de tanto gargalhar mesmo sabendo que
não foi tão engraçado assim, mas para Camille
realmente foi -

- De onde você surgiu, Simon Mozart? - isso me deixa


momentaneamente confuso e em silêncio, então ela
continua - Como posso encontrar outro cavalheiro
como o senhor?
fi
fl
fi
- Porque precisaria de outro?
- O mundo poderia usar mais pessoas assim, francas e
descontraídas.

- Atualmente tudo que sociedade prega é a valorização


das aparências, da reputação… Ninguém fala o que
pensa, exceto você. - coloco uma madeixa de seu
macio cabelo atrás da orelha, seus olhos verdes estão
xos nos meus de forma intensa, como se cada
palavra que trocamos fosse uma performance
delicada. Como um mosaico de palavras e olhares que
transcende as formalidades super ciais, assim eu
sorrio, sentindo a eletricidade daquela troca -

- Talvez eu seja exatamente a exceção que você estava


esperando, uma pessoa disposta a desa ar as
convenções impostas e mergulhar na verdade. E você,
minha cara, parece ser a única que entende o real
valor disso. - ela inclina a cabeça levemente, um
sorriso desa ador surgindo em seus lábios -

- Talvez eu goste de ser desa ada, Simon Mozart.


A nal, quem disse que inimigos não podem encontrar
algo mais intrigante entre eles?

- Creio já termos passado desse ponto, Camille Voais. A


verdade é que, apesar de nossas diferenças, algo nos
conecta de maneira estranha. - confesso, ela cora com
comentário cando sem palavras -

Aproveitando a oportunidade, subimos ao próximo andar.


Sigo para o quarto onde atualmente descanso, conforme
suas instruções, aguardando pacientemente os 15
minutos indicados antes de me encaminhar na direção
dela. Nos diálogos com os criados durante o momento
que estou na escada, ela habilmente retrata uma suposta
indisposição, ocultando majestosamente o plano para
nossos futuros momentos compartilhados.
fi
fi
fi
fi
fi
fi
fi
16º capítulo

urante nosso tempo no


quarto, estava mal iluminado
pelas cortinas fechadas, depois de
compartilhar momentos de paixão,
minha curiosidade se sobrepõe,
levando a uma busca nas suas
gavetas, em que revela um segredo
ainda mais obscuro. Entre as dobras de lingeries e
espartilhos, encontro cartas com instruções claras, a
tinta revelando um plano sinistro que envolve a minha
própria morte. Enquanto minha mente absorve o choque,
ela permanece dormindo, alheia à minha descoberta. A
vulnerabilidade do nosso recente encontro entra em
contraste com a crueldade dessas cartas. Cada toque
agora é um dilema, cada palavra um no o que ameaça
se desfazer a qualquer momento.

Ao segurar essas cartas, percebo que a intimidade


compartilhada foi um no véu para ocultar sua verdadeira
natureza que tenho o mau costume de subestimar, sua
natureza de assassina. Enquanto os lençóis ainda
guardam nosso calor, sinto um frio crescendo em minha
barriga, porque sei que a próxima trama a se desenrolar
é a da minha própria sobrevivência, inclusive por uma
parte em que acreditava estar seguro, lembrando que
não posso con ar em ninguém. Quando seus olhos
começam lentamente a abrir, não estou mais a
acompanhando em sua cama, não demora muito a seus
olhos caírem sob a gaveta mal fechada atrás de mim.

- Parece que estamos presos em um jogo perigoso, não


acha? - comenta a garota, com um brilho travesso nos
olhos -

Meu sangue ferve e a empurro contra a parede


pressionando com meu antebraço seu pescoço, seu
fi
fi
fi
fi
olhar desa a o meu, faíscas voam durante um minuto
avassalador. Após esse mero momento da origem a
tentativa de um começo de uma briga feroz, repreendida
ao adicionar mais força para prendê-la ali. Minha mente
grita para eu me afastar, mas algo mais forte que eu, me
impulsiona a permanecer aqui.

- Não é a reação que esperava que tivesse quando


achasse. - continua -

- Então era apenas questão de tempo? Você já estava


esperando que eu procurasse, ou torcia que estivesse
morto antes?

- Seria estúpido se não aproveitasse a oportunidade.


- O que te mantém acreditando que não vou fazer algo
sobre? - meus olhos rodam entre toda parte do
cômodo no meu campo de visão atual, se tornando
maioritariamente ela, a parede coberta com papel de
parede extremamente decorado com desenhos de
pássaros, móveis de madeira e o chão coberto por
carpete bordo, até novamente se centrarem nela -

- Porque sempre procura respostas, além de não ser


sensato: eu sou experiente, você, por mais corajoso
que seja, não é.

Cada gesto sutil, cada pausa, é um nó que sussurra


segredos não ditos, mas está certa, mesmo após tudo
não aprendi minha lição, continuo procurando o porque
ela me traiu, abri meu coração, fui o meu eu mais sincero
dentro da medida do possível, mostrando fragmentos da
minha personalidade que não vinham a tona há muito
tempo, apesar disso aqui estou, com o coração em
pedaços após calorosos momentos ao seu lado, em sua
cama. Me declarei, descongelei meus sentimentos, me
permiti viver isso, mostrei meu lado indefeso, somente
para pouco tempo depois descobrir que havia planos
para meu destino, não Mozart, para Simon, seu Simon.
fi
Começamos a trocar socos, da forma mais
silenciosamente agressiva possível, cada golpe trazendo
o histórico de nossos desentendimentos anteriores
misturado com a incandescente mágoa. O ambiente
re ete nossa raiva, com sombras se contorcendo ao
nosso redor, entre golpes e esquivas, percebo que por
maior que eu seja em comparação, me falta técnica,
prática. Então cada movimento dela é espelhado por
mim, uma coreogra a violenta até seus formosos
movimentos serem barrados pelas minhas tentativas
chutes, puxões de cabelo e empurrões.
No calor do momento, nossos corações batem como um
só, que ecoa paixão e frustração não tão oculta. A linha
tênue entre o ódio e o desejo ca cada vez mais turva.

A verdadeira ameaça de morte paira quando Camille,


com os olhos repletos ódio, recua por um momento,
levantando uma pistola que estava escondida dentro de
um porta-joias de porcelana que se esparramou pelo
chão, mantendo a respiração ca suspensa. A quietude é
quebrada apenas pelo som da chuva, assim como o som
ecoando sobre a incerteza do que está prestes a
acontecer.

- Vai em frente! Complete sua missão! - grito


gesticulando com as mãos com meus olhos
umedecidos pela formação de lágrimas, então é
removida a pederneira, que é o mecanismo de ignição,
seus olhos também lacrimejando desviam dos meus
enquanto sua cabeça é movida lateralmente, até se
fecharem, então percebo que algum carinho em algum
momento deve ter sentido por mim, mas sei o que
acontece agora, fecho os meus também, certo de que
é o meu m -

- Eu não poderia te matar. - sussurra ofegante,


abaixando a arma -

Então, num lampejo, nossos olhares se encontram,


desvendando uma verdade inegável. Nesse instante
fl
fi
fi
fi
fi
crítico, algo muda, somos forçados a admitir que,
debaixo de toda a ira, existe um amor ardente e
incontrolável, a energia explosiva da batalha se
transforma em algo mais profundo. Assim segue em
direção ao escritório, retornando com outra carta em
suas mãos, apenas um rascunho não enviado.

“ Prezado Cliente,

É com sinceridade que admito a possível falha em meus


serviços. Compreendo que a não conclusão deste caso
pode resultar na sua reatribuição a outro pro ssional. No
entanto, ao realizar uma minuciosa investigação, não
identi quei registros de ações abertamente prejudiciais a
qualquer pessoa.

Diante dessa constatação, questiono a necessidade de


uma medida tão drástica como a execução. Não
vislumbro motivos substanciais que justi quem tal
decisão, e, por minha parte, reforço meu compromisso
em não proceder com tal execução.

Estou disposta a discutir alternativas ou esclarecer


quaisquer dúvidas que possam surgir. Agradeço por sua
compreensão e aguardo suas instruções.

Respeitosamente,

Marquesa da morte “
fi
fi
fi
- Talvez sejamos ímãs opostos, destinados a colidir e
criar algo novo - sugere, então capturo suavemente sua
mão livre -

- Bom, e quem disse que brincar com fogo não pode


ser excitante? - respondo, minha voz carregada de
provocação. Ela ri, uma risada que parece desa ar
todas as regras estabelecidas -

fi
17° capítulo

química entre nós é


indescritível, uma fusão de
antagonismo e atração irresistível.
No jogo complexo entre nêmesis e
amantes, cada palavra e toque se
tornaram uma jornada para
descobrir o que realmente se
esconde nas entrelinhas dessa
história única.

- Será que podemos nos comprometer a sermos


totalmente honestos a partir de agora? - questiono,
mantendo uma leve descon ança diante de tudo que
aconteceu -

- Sem mais mentiras. - ela concorda. Então, unimos


nossas testas, fechando os olhos, enquanto um alívio
percorre todo o meu corpo -

- Agradeço pelas palavras contidas na carta… Mas não


acho que deveria enviar.

- O que?!
Minha morte foi encomendada após a entrega das
cabeças, sem assinaturas, felizmente quem enviou não
sabe sua verdadeira identidade graças ao meticuloso
sistema de ocultação feito por Camille, com diversos
entregadores com apenas uma garota depositando em
uma caixa no mercado local onde seus empregados a
retiram. Meu sumiço não o agradou, requisitando o
ocorrido até o casamento de vossa majestade, junto a
um gradual aumento da recompensa. O fato dela se
negar a realizar o trabalho signi ca que provavelmente
outra pessoa será encaminhado para isso, precisamos
fi
fi
lidar com o possível assassino misterioso além de seu
mestre.

Após horas de conversa chegamos à conclusão de que


vou me manter isolado do mundo por um tempo, até o
dia da coroação todos devem pensar que desapareci ou
estou apodrecendo as sete palmos do chão, mas antes é
necessário aceitar o convite do rei, em troca de continuar
vivo.

Os dias de isolamento passam como uma balança, entre


a mentira e a verdade. A intimidade compartilhada com
Camille se torna uma espécie de refúgio nessa
complicada reviravolta, estamos saindo cada vez mais,
rindo mais, conversando mais, em vez de passar horas
en ados dentro da casa decidimos começar a passear,
dar voltas na oresta ao redor de sua residência, fazer
pequenas viagens a vilas vizinhas, estando
completamente disfarçados obviamente, começamos a
compartilhar detalhes sobre o passado.

- Gostaria de experimentar algo que a minha mãe fez?


- Ela passou para te entregar algo? Saiu do hospital
apenas para isso?

- Primeiramente, infelizmente ela já se foi, alguns anos


atrás… Além do mais, estava me referindo a isso. -
apontando para si mesma de cima a baixo fazendo
uma careta, junto com pequenas gargalhadas -

- Certamente gostaria Madame. - respondo no mesmo


tom. À medida que compartilhamos risos e sarcasmo,
a conexão entre nós se torna mais intensa -

Apesar da necessidade de me manter longe dos


holofotes, me vejo obrigado a ir até o palácio para a
prova de roupas para o casamento, será uma grande
ocasião e devo estar vestido de acordo.
fi
fl
Ao aceitar o convite real, somos envolvidos em um
mundo de intrigas e festividades. As festividades do rei
proporcionam uma atmosfera efervescente, mascarando
nossas verdadeiras intenções. Entre danças requintadas
e sorrisos diplomáticos, a tensão cresce, pois o
misterioso assassino pode estar mais próximo do que
imaginamos.

No entanto, a conexão entre nós se aprofunda. A troca


de olhares sutilmente carregados de signi cado revela a
con ança construída nos dias anteriores. Enquanto
desvendamos mistérios e enfrentamos desa os, por
agora, estamos juntos, enfrentando o desconhecido lado
a lado. Quando nalmente chega o grande dia, não
posso negar que o medo percorre pela minha espinha,
algo frequentemente não comentado é o amargo gosto
de arrependimento, como uma anestesia, uma dor
iniciando em um local especí co, se irradiando e
amortecendo as demais regiões até não se ter controle
nenhum. Também acompanhado com picos de
ansiedade, de forma tão profunda que as vezes me
afogo apesar de estar plenamente na superfície, muitas
vezes se quer algo por tanto tempo que parece ter se
tornado parte de você, isso aconteceu comigo com o
piano, mas em certo momento me pego indagando, se
remover este sonho, o que sobra? O que mais eu sou
além de um mero pianista? Até que ponto eu realmente
quero isso?

Vestes coloridas repletas de verdes penas de pavão


partindo dos ombros e pescoço, maquiagem
espalhafatosa junto a saltos aos pés e cabelo coberto
por uma peruca branca grande, difícil me reconhecer ao
olhar no espelho, possivelmente pois agora não sou mais
eu… Contudo jamais me imaginaria nesta situação:
conquistando tudo que sempre quis. Exceto que não me
sinto como esperava, a satisfação ou felicidade está
mascarada por pavor, querendo mudar de ideia ao último
momento porque nada disso parece certo para mim. Não
vi Camille, não sei com que roupa estará trajada mas
fi
fi
fi
fi
fi
honestamente neste momento também pouco me
interessa, logo a verei de qualquer maneira, uma vez que
sobreviva ao furacão interno pelo qual estou sendo
engolido.

Respiro fundo, na tentativa de dar um passo a cada vez,


preciso tocar, ultrapassou o querer, serei a atração
principal, com isso em mente entreguei uma cola com as
músicas que tocarei para todos os membros da
orquestra que também estão se arrumando.

Programa Previsto:

Réquiem em Ré Menor, K.626


III. Sequentia:
Dies Irae
Tuba Mirum
Rex Tremendae
Confutatis
Lacrimosa
V. Sanctus
VII. Agnus Dei
Serenada No. 13 para Cordas em Sol Maior -
"Eine Kleine Nachtmusik"

Na intenção de realizar uma surpresa a vossa majestade,


levo minha ideia ao príncipe Charles, que passa
autoridade para mim, de qualquer favor que eu requisite
pelo dia de hoje, os seus criados devem obedecer.
Graças a estar consideravelmente cedo e ser um favor
para o grande rei, autorizado por um de seus
descendentes, me mantenho otimista em relação a sua
realização, logo os servos saem em disparada atrás de
tudo que solicitei.

Tempo se passa e sou informado que tudo ocorreu bem,


que está na hora de dar a honra da minha presença ao
local. Ao adentrar os majestosos salões de Versalhes
para o casamento real, repleto de ores de todos os
tipos penduradas, apenas nas cores brancas e azuis nas
fl
cores da ilustre dinastia Bourbon, sinto uma mistura de
nervosismo e emoção.
Candelabros dourados pendiam majestosamente,
lançando uma luz dourada sobre as tapeçarias que
contavam histórias em os intricados. Os jardins,
meticulosamente cuidados, sussurravam segredos
enquanto eu tentava, com minhas modestas palavras,
capturar a magni cência desse espetáculo. A grandiosa
orquestra, meticulosamente organizada, aguarda minha
liderança enquanto os olhares curiosos se xam no
magní co piano à minha frente.

A luz suave das milhões de velas brinca ao redor dos


músicos, como nos concertos que assisti durante meu
tempo no futuro, o tributo a Mozart que tocava
exatamente as mesmas músicas, lembro de como se
fosse ontem como quei absurdamente sem palavras,
não tenho ideia de como os criados conseguiram tantas
velas em tão pouco tempo, mas agora, o que vivi
anteriormente está apenas sendo replicado no belíssimo
palácio de Versalhes, criando uma atmosfera mágica.
Meu coração acelera, dessa vez repleto de felicidades,
pronto para guiar o piano e envolver todos na melodia
que ecoará pelos corredores deslumbrantes deste
palácio icônico. Os trajes deslumbrantes dos convidados
dançavam em meio à música elegante, confraternizando
ao som de minhas leves melodias, nenhuma da
programação por enquanto, servindo simplesmente para
ocupar o pouco silêncio que tomava conta de pequenos
cantos do lugar, sendo o principal instrumento no
momento os violinos, mostrando todo seu esplendor.
Demoraria um tempo até a cerimônia começar, devo
tocar até lá, depois todos são obrigados a parar seus
serviços a m de prestigiar, mesmo que de longe, o rei.
fi
fi
fi
fi
fi
fi
18º capítulo

bservo na medida do
possível os convidados e
suas reações, quem sabe não
acabo reparando em algo que possa
me levar mais perto de descobrir
quem estava interessado na minha
morte.

Nada fora do normal ocorre, vejo Sara chegar, neste


momento desacompanhada, nunca realmente cortei
correspondências com ela, contudo reduziram
drasticamente ao passar meus dias na casa de Camille.
Me alegra ver que está bem, seu trajes são reluzentes e
seus olhos encontram o meu, transcendendo o espaço
entre o público e a orquestra, ela parece notar minha
presença. Se destaca sua expressão serena enquanto se
aproxima, criando um momento íntimo em meio à
melodia. Apesar do tempo afastados, a familiaridade
ressurge, junto a um sorriso mútuo em nossos rostos, e o
breve encontro re ete um capítulo da nossa história que
parece ter parado no tempo. A magia do momento revela
que, mesmo em meio à multidão, nossos mundos
temporariamente se alinham, como notas harmoniosas
de uma sinfonia inesquecível. Por diversos momentos
que me senti sozinho, ela foi minha melhor companhia,
lembro de assistir ela brincar quando criança antes do
ocorrido, sua beleza e ingenuidade chamava atenção de
pessoas de todas as idades.

Logo após Camille junta-nos no local, consigo ver seu


belo rosto se iluminando ao ver a magnitude dos
arredores, seu volumoso cabelo ruivo tornando-se
dourado com a mudança das luzes, usando um vestido
que exala elegância com seu corpete justo acentuando
sua marcada silhueta, enfeitado por delicados detalhes
em renda e bordados à mão. A saia grande, feita com
fl
tecido luxuoso, descendo em camadas suaves, com uma
cauda que dá um toque majestoso junto as mangas
bufantes, decoradas com tas e laços, lançando um ar
romântico.

Ela está analisando a todos, sei que posso baixar a


guarda em sua presença pois está tão determinada
quanto eu, ou até mais. Nossos dias estão passando
como um sonho do qual não tenho nenhuma vontade de
acordar, nalmente creio poder falar que encontrei o
amor, uma vez que duas pessoas não se encontram por
acaso. Sou autorizado a descer, caminho em direção ao
próximo cômodo em que rodas de dança se formam,
penso em como gostaria de convidar Camille para
dançar comigo, mas quando chego mais perto encontro
ela dançando com outra pessoa, então espero junto ao
público ao redor analisando-os.

- Simon, quanto tempo! - exclama Sara, se


aproximando ao cortar a frente da la de pessoas ao
meu lado -

- Verdade! - solto um sorriso sincero -


- Senti sua falta, suas cartas chegaram cada mês com
menor frequência.

- Estive ocupado na missão que a senhorita me enviou.


- ela solta uma contida gargalhada com a a rmação -

- Uma baita trama eu diria.


- Pode apostar que sim! E como andam o meu antigo
grupo, sabe de alguma notícia?

- Não são os mesmos sem você, mas continuam na


estrada e foram ganhando fama, da última vez que
conversei com eles me contaram que foram
convidados a irem se apresentar para um nobre nos
Países Baixos! Acredita?
fi
fi
fi
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- Uau!
- E você pela língua do povo progrediu muito sua
música.

Camille percebe nossa interação e junta-nos, se


posicionando extremamente junto ao meu lado
esquerdo, já que no direito estava Sara, se encarando
xamente.

- Camille, está é minha grande amiga Sara, Sara está é


a dama que lhe contei, Camille Valois. - apresento -

- É um prazer, já ouvi muito sobre você. - encarando da


cabeça aos pés Camille, que retribuiu o movimento -

- O prazer é todo meu, em contra partida creio nunca ter


escutado sobre você.

Se torna possível sentir a faísca entre elas a quilômetros,


então faço uma breve reverência a Sara levando Camille
para o centro do salão. Não tem o que questionar, é com
Camille que desejo acordar todos os dias, não quero
fazer ela se sentir insegura ou em dúvida sobre isso. Por
mais que nunca disse, eu a amo, de todo coração me
rendo aos seus encantos, em como seus olhos brilham
durante a conversa, em como mesmo quando me
provoca não consigo me manter longe, em como co
sem palavras com sua beleza, como sua risada
espalhafatosa enche meu coração de alegria, em como
sinto sua falta as duas da tarde em um dia ocupado,
assim como as três horas da manhã sozinho, eu a quero
de corpo e alma, creio que no fundo eu sempre
ardentemente quis.
fi
fi
No palco do jogo da vida, mantivemos nossa farsa de
inimigos, apesar de termos comparecido juntos no baile
real, mas nos bastidores, nossa conexão orescia em um
romance clandestino. O momento da verdade chegou
quando, diante de inúmeros olhares curiosos, decidimos
romper o disfarce. Sob os olhares atentos da plateia, um
toque sutil, uma troca de sorrisos, um beijo em sua mão
após a remoção de uma de suas luvas - gestos antes
reservados a privacidade, agora expostos ao mundo. A
audiência testemunhou a nossa metamorfose, enquanto
nós, corajosos e vulneráveis, desvendávamos nossa
verdade em uma dança diante de todos.

Convidados apavorados, surpresos com este


acontecimento inusitado causando inúmeras conversas
paralelas a respeito, percebi que ela gradativamente se
encolhia, se sentindo desconfortável principalmente
sobre os que mencionavam o que seu enfermo pai
pensaria a respeito. Sem desperdiçar um segundo a
puxo para mais perto de mim, seguro sua cintura
enquanto olho xamente em seus olhos, tentando
entretê-la su cientemente para que não perceba mais
nada a seu redor. Em nossos uidos movimentos, nos
removo do padrão ao redor, aumentando rodopios e a
levantado ainda mais para ao ar, chamando
de nitivamente todas as atenções para nós. Noto um
olhar de desaprovação ao reparar na feição do príncipe,
de preocupação quem sabe, não pensei nas
consequências das minhas atitudes antes de as fazer.
Como o fato de que Camille não pode ser independente
e gerir uma conta caso seu pai faleça, que estou
estragando sua reputação e oportunidade de casar com
alguém mais abastado que poderia investir na
recuperação de seu pai, se é que isso é possível, além
de estar provocando a ira de membros da elite francesa
por possuir a dama mais bela, desde que não descubram
de nossos encontros escondidos ou estaria em ruínas.
Pensando melhor foi uma atitude estupida, eu sou
apenas um músico, desfruto do melhor de ambos os
mundos, não tenho obrigações como a alta sociedade
fi
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fl
fl
mas também não os seus privilégios, sou como a
Cinderela, vivo como um deles mas ao m da noite volto
para minha realidade, sendo ainda do único grupo que é
o mais próximo de possível a transição de classes,
enquanto isso, já ela pertence a esse mundo, que eu
nunca verdadeiramente poderei lhe proporcionar, não
como se ela estivesse com um duque, um lorde, um
príncipe quem sabe ou até mesmo um rei, o que me faz
murchar, não me sentindo parte do que está ao meu
redor como se diminuísse meu valor, contudo por esse
instante parece verdade.

Não demorou muito para que a cerimônia começasse, os


lugares já estavam marcado sendo homens para um lado
e mulheres para o outro, me sentando junto a
desconhecidos, ao lado direito um cidadão de olhos
azuis e cabelo longo em um tom de loiro escuro
claramente embriagado, com outro indivíduo de cabelo
escuro como a noite, curto formando uma pequena franja
tentando ajudar a conter os escândalos que seu amigo
estava tentando cometer, ao lado esquerdo outros dois
indivíduos altos e magros, com uma idade duvidosa
sentados em extrema elegância, costas eretas, relógio de
bolso pendurado em suas vestes junto a um pequeno
lenço. O som de trombetas ecoa, dominando lindo
tapete vermelho chega com um vestido branco de cetim
com um longo véu cobrindo todo seu rosto, a ser retirado
apenas quando já posicionada no altar.

Está acompanhada por seu pai, o rei espera prontamente


usando um colete e calças em tons de prata, acentuada
por acessórios requintados, joias preciosas sendo
extremamente amostradas, com uma tiara feita de ouro
puro junto a uma capa de pele de urso com o interior
forrado também em tecido vermelho estendendo a mão
para sua tão mais nova noiva, juras de amor são feitas
então são orientados a se ajoelharem, com brancas luvas
cobrindo suas mãos vossa majestade segura um orbe
em sua mão direita, então abaixam suas cabeças
enquanto o padre encaixa as coroas, repletas de
fi
pequenos detalhes feitos a ouro enquanto cravado
inúmeras joias de valores inestimáveis, o objetivo seria
criar uma imagem impressionante e majestosa para a
ocasião solene.

Seguimos para um diferente salão, no qual um pequeno


grupo de músicos se apresentam e o povo se reúne em
uma animada dança coletiva, nos movemos
coordenadamente, formando padrões entrelaçados no
salão. As risadas e os passos sincronizados criam uma
celebração coletiva, onde a comunhão de movimentos
traduz a alegria compartilhada entre todos os
participantes. Ao acabar a melodia, o príncipe Charles
me convida a ir a seu encontro, isoladamente
posicionado perto a uma porta com uma bebida em
mãos.

- Simon! - exclama enquanto entrega o copo de suas


mãos a um mordomo -

- Alteza. - faço uma curta reverência -


- Está com uma aparência hoje… peculiar. - diz após
melhor de cima abaixo com olhar de estranhamento -

- Os créditos vão ao nosso soberano, inclusive como se


sente a respeito de todo esse matrimônio?

- Sobre meu pai estar casando com uma garota da


minha idade? - revira os olhos enquanto ergue suas
sobrancelhas, deixando clara sua opinião sem
propriamente dizer-la -

- Assuntos delicados…
- Certamente, contudo preciso entrar em um alto
assunto delicado. - viro levemente a cabeça
demonstrando que não entendi quando
aparentemente esperava que eu respondesse - Eu
reparei você com Camille…
- Sim?
- Você sinceramente sabe o que está fazendo?
- Creio que sim.
- É uma mulher, não pode ter abertamente uma opinião,
uma conta no banco ou receber uma herança. Camille
não tem irmãos, se não se casar quando seu pai vir a
falecer, perderá tudo! Ficará dependendo da bondade
e boa vontade de outras pessoas para nunca
realmente ter uma vida própria. Fico feliz que esteja se
dando bem, do fundo do meu coração, mas você
assumiu publicamente algo, e agora talvez seja tarde
demais pra voltar atrás.

- Não tinha pensado por esse lado…


- Eu realmente espero que não esteja apenas brincando,
pelo bem dela.

Viro o meu corpo em sua direção, nós dois estamos


assim, comentando discretamente e distantemente
tentando pensar apenas no melhor, enquanto isso lá está
ela, com um sorriso de orelha orelha exibindo seus belos
e alinhados dentes, sua aura brilhando por todo o
cômodo, transparecendo felicidade, verdadeira
felicidade. Todas essa situação é justa, não se casam por
amor sim por interesse um contrato entre duas famílias
pensando puramente no nanceiro e no status social,
coisas que no momento não posso oferecer, chacoalho a
cabeça em tentativa de fazer meus incontroláveis
pensamentos parar ou pelo menos diminuírem o uxo,
utiliza a regra dos 5 segundos e simplesmente ando em
sua direção. Percebo que atrapalho a conversa quando
todos se calam com a minha chegada.

- Camille, senhoras, é um prazer conhecê-las, me


chamo Simon Mozart. - me apresento -
fi
fl
- O prazer é nosso. - respondem em coro, dou uma
rápida conferida ao meu redor, um criado carregando
uma bandeja de bebidas passa, agarro uma taça junto
a um talher -

- Com licença, peço um momento de atenção a todos! -


batendo a colher no cristal, então ergo a taça com os
olhos xos no rei, cujo sorriso estava inabalável -
Gostaria de realizar um brinde, em nome do nosso
amado e idolatrado soberano junto a sua nova
companheira, brindo à felicidade de Vossa Majestade
neste noivado auspicioso. - proclamei, sentindo o
peso da ansiedade - E, com humildade, peço
permissão para também brindar a um desejo meu: a
mão da encantadora madame Valois em matrimônio. -
o silêncio envolveu a sala, enquanto aguardava a
resposta do rei, me encontro ansioso e esperançoso,
que após alguns momentos nalmente assentiu
permitindo a continuação do meu discurso, então me
viro para ela. - Porque você é a garota mais
extraordinária, Camille. Tão sincera quanto uma
composição e tão clara quanto uma nota musical, eu
costumava escutar uma simples música até te
conhecer, agora tudo que escuto é uma sinfonia. Você
é a canção que tem tocado dentro da minha cabeça
desde o primeiro dia em que nos conhecemos, que
desde então tem cado a cada dia mais bonita. Com
isso lhe imploro, aceita se casar comigo?

- Aceito… - responde baixinho com os olhos brilhando


de emoção - Aceito!
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19° capítulo

s presentes na sala aplaudem


calorosamente, celebrando o
amor recém-declarado. O rei sorri,
abençoando a união, e o clima
festivo se espalha. Parabéns aos
novos casais!

- Quando perguntei se sabia que estava fazendo, não


estava esperando por isso mas foi e caz! Parabéns! -
a rma o príncipe levemente embriagado soltando
pequenas gargalhadas, acompanhada pelas nossas -

- Era o empurrão que eu estava precisando para tomar


uma atitude da qual já estava certo há muito tempo.

- E o que você acha sobre Senhora Mozart?


- Inesperado porém não aleatório. - conclui enquanto
coloco minha mão em seu ombro -

Assim percebo que chegou a hora de assumir o meu


devido lugar, com o peito estufado volto para sala repleta
da amena luz de velas indo em direção ao piano mais
requintado que já tive o prazer de ter contato. Me
mantenho a programação original, como nunca tocadas
aqui antes percebo como ecoam como um suspiro da
alma, com cada acorde provocando suspiros de
admiração, deixando os ouvintes em um estado de
êxtase, imersos na magia sonora que pulsa pelas
paredes de Versalhes. Não me sinto mais como um
impostor, sim como a melhor versão de mim que já pude
presenciar, a música é uma a linguagem que envolve
pessoas dos cantos mais inusitados do mundo
conectando seus corações.
fi
fi
Quando desço do palco a celebração já está no nal,
nossos governantes saem do palácio onde uma
majestosa carruagem os espera para seguirem em lua de
mel em direção a corte Italiana, a festa não deve
continuar sem eles, então calmamente os convidados se
retiram para organizar o nal da celebração, até sentir
uma mão sútil em meu ombro e um sussurro.

- Você gostou do meu presente? Ou ter mandado dos


três foi um pouco demais? - A voz era feminina,
rapidamente me viro, a autora do bilhete e
possivelmente quem encomendou meu assassinato foi
ninguém mais que Sara. -

- Seu presente?! - que em resposta solta um sorriso


tímido, meu sangue ferve - Eu con ei em você!

- Talvez tenha cometido um erro ao fazer isso.


- Eu vim até Paris porque você ordenou! Qual possível
motivo você teria contra mim? Eu nunca te z nada!

- Exatamente, você nunca fez nada por mim! Eu te amei,


você me viu em um relacionamento tóxico, sofrendo
violência doméstica e não voltou me buscar!

- Eu sinto muito por isso mas é a realidade deste tempo!


Não por não me importar que não voltei, mas
di cilmente conseguia me sustentar, quem dirá outra
pessoa!

- Eu te esperei… mas você se esqueceu de mim,


enquanto isso estava com outra mulher.

- Nós não tínhamos nada, outra que você está se


referindo é a minha noiva e eu exijo respeito.

- Noiva ou não, é uma prostituta. - coloco a mão no


peito, sinto o cabo de uma pequena faca que escondi
dentro de minhas vestes pensando em como agir -
fi
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fi
- Noto que seu marido não está aqui, ouso dizer que
nunca esteve, não o vi em nenhum momento. Você
está livre, porque não aproveitou essa liberdade para
seguir com a sua vida?

- Porque eu te amo!
- E encomendou a minha morte por isso?!
- Se você não será meu, não será de mais ninguém. Sua
estimada noiva será a próxima.

- Você é louca!
- Melhor estar na cadeia do que sozinha.
Retiro a lâmina e agilmente, sem pensar nas ações
percebo que ao recuperar completamente a consciência
depois do lapso de memória em branco obverso o chão,
a adaga caída suja de sangue, assim como minhas
mãos, o tempo parece estar em câmera lenta, viro
desesperado atrás de Camille, já ameacei pessoas antes,
mas é a primeira vez que realmente aconteceu algo. Sara
está com o vestido levemente rasgado, manchando
lentamente de sangue até cair, tento correr, gritar, fazer
qualquer coisa, mas sou impedido por inúmeros guardas
antes de poder realizar qualquer ideia.

Convidados gritam, o rei retorna de sua precoce lua de


mel que foi interrompida, assim o mais rápido possível
preparam a guilhotina, para fazer disto um espetáculo
para que todos os convidados do casamento temam o
rei. Meu pescoço estava exposto ao frio do aço,
enquanto o som metálico do mecanismo ecoava. A ado
pendurado sobre mim, e o silêncio pesado antecedia o
momento fatídico, Camille chorava desesperadamente
implorando misericórdia ao rei no momento que a justiça
brutal do século XVIII reclamaria sua parte, cometi crimes
gravíssimos, dos quais nem o apelo do príncipe seria
fi
su ciente para ajudar, é completamente proibido o porte
de qualquer tipo de armas sem ser da guarda real na
presença de vossa majestade, além disto, eu ainda
assassinei um convidado em seu casamento. O ar estava
impregnado de tensão, e meu último suspiro se
misturava ao inevitável som da queda da guilhotina.

Não doeu, ao contrário do esperado, minha morte foi


rápida e pací ca, na verdade a vida que é difícil, me
recordo de que nunca me disseram que estava tudo bem
em cometer erros. Ninguém me falou que precisar de
ajuda não era um problema, que era normal se sentir
irritado, triste, chateado ou sobrecarregado as vezes.
Todo mundo na minha vida simplesmente ignorava e
aceitava meu perfeccionismo desde que me conheço por
gente, sem perceber o quanto era sufocante, o quanto
me corroía por dentro. E como ninguém deu permissão
para que eu fosse humano, me senti um fracassado
durante a maior parte da minha vida só por ser um.

Tudo estava escuro, caminhando no vão como se preso


em uma in nita caixa, sem ter para onde ir ou de onde
vim, apenas existindo no vasto universo, sem a
gravidade para me manter no chão, se é que existe um
chão, sem pensamentos, apenas paz eterna e um
silêncio ensurdecedor. Até uma luz branca surgir, meus
olhos se cerram com a claridade.

- Simon Durand. - exclama uma voz terna irreconhecível


- Fico feliz por estar aqui!

- Onde eu estou?
- Creio que conseguirá decifrar isto sozinho.
- Estou vivo?
- Não, meu caro.
- Como está Camille?
fi
fi
fi
- Camille?
- A mulher que amo.
- Nunca conheceu nenhuma, você morreu de um ataque
cardíaco no cemitério de Arles, não muito distante do
túmulo de seus pais. - abro meus olhos e o ash de luz
forma uma imagem, a minha imagem, deitado próximo
a grande árvore com os lábios azuis e pele pálida,
gélido e sem vida -

- Você está mentindo, eu viajei no tempo!


- Sua vida foi tão inegavelmente monótona que em seus
últimos minutos de vida, em vez de reviver os
momentos bom que já passou, delirou com o que
poderia ter sido. Foi certamente lindo, mas não passou
de um breve sonho, o desejo mais profundo de um
corpo em que a alma já estava morta muito tempo
antes, mas você está em casa agora.

Não era a minha vida, mas certamente eu vivi.


fl

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