ORIXÁ OSSAIN
Kosí Ewé, Kosí Òrisà – Não tem folha, não tem Orixá.
Osanyin é a divindade das folhas sagradas, ervas medicinais e litúrgicas.
Sua importância é primordial, já que nenhuma cerimônia pode ser realizada sem
sua interferência. O símbolo de Osanyin é uma haste de ferro de cuja extremidade
superior partem sete pontas dirigidas para o alto. A do centro é encimada pela
imagem de um pássaro. Comanda as folhas sagradas, que são utilizadas numa
mistura especial chamada de abô. Pai Òsányìn gosta de um fumo de rôlo no
cachimbinho de barro, se disfarça num lagarto, num galho seco que Eyé pousa,
pula numa perna só, gosta de vinho de palma, fradinho torrado com mel, frutas,
alquimista, solitário e um grande Pai que está presente dentro do àse das casas
ketu/Nagô.
Ossaniyn, Ossaim, Ossãe, Ossain, (como se escreve habitualmente) ou
Ossanha (na Umbanda) é chamado no candomblé Jeje de Agué, o Vodun da caça e
das florestas que conhece os segredos das folhas. No Candomblé Bantu é chamado
de Katendê, Senhor das insabas (folhas). Companheiro constante de Ifá, este orixá,
muitas vezes, é representado com uma única perna. Cada Orixá tem a sua folha,
mas só Ossaim detém seus segredos. E sem as folhas e seus segredos não há axé,
portanto sem ele nenhuma cerimônia seria possível. Em relação a suas qualidades
ou caminhos, Osanyn é controverso, possuindo diferenças entre axés e até mesmo
Casas. Alguns axés e Casas chegam a tratá-lo como Orixá sem qualidades ou
caminhos.
Osányìn é originário de Iraô (Nigéria) perto da fronteira com a antiga
Daomé, não fazendo parte, como muitos pensam, do panteão jeje. Ossain, como
dito, é fundamental dentro do culto aos orixás, porque detém o reino e poder das
plantas e folhas, imprescindíveis aos rituais e obrigações de cabeça e assentamento
de todos os Orixás através dos banhos feitos de ervas. Como as folhas estão
relacionadas com a cura, Ossãe também está vinculado à medicina, por guardar
escondida na sua floresta a magia da cura para todas as doenças dos homens,
contida nas virtudes de todas as folhas. É o Orixá da cor verde, do contato mais
íntimo e misterioso com a natureza. Seu domínio estende-se ao reino vegetal, às
plantas, mais especificamente às folhas, onde corre o sumo. Não é um Orixá da
civilização no sentido do desenvolvimento.
As áreas consagradas a Ossãe nos grandes Candomblés, não são jardins
cultivados de maneira tradicional, mas sim os pequenos recantos, onde só os
sacerdotes (mão de ofá) podem entrar, nos quais as plantas crescem da maneira
mais selvagem possível. Graças a esse domínio, Ossãe é figura de extrema
significação, pois praticamente todos os rituais importantes utilizam, de uma
maneira ou de outra, o sangue escuro que vem dos vegetais, seja em forma de
folhas ou infusões para uso externo ou de bebida ritualística.
O símbolo de Ossain é uma haste de ferro, tendo, na extremidade superior,
um pássaro em ferro forjado; esta mesma haste é cercada por seis outras dirigidas
em leque para o alto, na parte inferior é terminada por uma haste pontuda enfiada
em uma grande semente.
Uma história de Ifá nos ensina como “o pássaro é a representação do poder de
Ossain. É o seu mensageiro que vai a toda parte, volta e se empoleira sobre a
cabeça de Ossain para lhe fazer o seu relato”. Esse simbolismo do pássaro é bem
conhecido das feiticeiras, aquelas frequentemente chamada Elýe, “proprietárias do
pássaro do poder”.
Na África, os chamados Olóòsanyìn, não entram em transe de possessão.
Eles adquirem a ciência do uso das plantas após uma longa aprendizagem. Estes
adeptos de Ossain, também chamados Oníìsègùn, são curandeiros e em virtude de
suas atividades no domínio das plantas medicinais. Quando eles vão colher as
plantas para seus trabalhos, devem fazê-lo em estado de pureza, abstendo-se de
relações sexuais na noite precedente, e indo à floresta, durante a madrugada, sem
dirigir palavra a ninguém. Além disso, devem ter cuidado em deixar no chão uma
oferenda em dinheiro, logo que cheguem ao local da colheita.
O Ibá de Ossain (em iorubá: Igba ọ̀sanyìn) ou assentamento de Ossain deve
ser construído com recipientes de barro como alguidar, quartinha, talha etc. Deve
ser sobreposto em um alguidar um vaso de barro ou talha de duas ou três alças, são
dispostos vários apetrechos, vários tipos de búzios, moedas antigas de prata, cobre
e níquel, vários tipos de sementes como aridã olho de boi, lelecum, bejerecum,
aribé, obi, atarê orobô, miniatura de cachimbo em quantidade de sete (7)
confirmando sua ligação com os odus Icá e uma argamassa com variado tipo de
folha sagrada, em especial sete plantas chamadas gervão, acocô, irocô,
cuncunducuncu, euê lará, peregum, Iji opé. Nesta mistura perfeita fixa um
Opoçânhim (Oposayin) ou "ferramenta de Oçânhim" (uma haste central com um
pássaro na ponta construído de ferro, do meio dessa haste saem sete pontas, onde
são colocados os cachimbos, em baixo o sagrado apetrecho mais importante de
todos os orixás, o otá. Geralmente uma talha ou um pote bem grande contendo no
mínimo quatorze (14) tipos de folha sagrada e uma pequena cabaça cheia de fumo
de corda, serve de suporte para este precioso ibá orixá.
Ossain está estreitamente ligado a Orunmilá, o senhor das adivinhações.
Estas relações, hoje cordiais e de franca colaboração, atravessaram no passado
períodos de rivalidade. Algumas lendas refletem as lutas pela primazia e pelo
prestígio entre os adivinhos babalaôs e os curandeiros onixegum. Como essas
histórias são transmitidas através das gerações pelos babalaôs, não é de estranhar
que tendam a glorificar mais Orunmilá, e em consequência eles mesmos, do que
Ossain e os curandeiros.
A colheita e o ato de quinar as folhas.
Quando os Zeladores(as) de Santo, penetram no reino de Ossãe para
fazerem as colheitas das ervas sagradas para os banhos e defumações, devem antes
pedir ao mesmo permissão para tal tarefa, pois se não o fizerem, com certeza todas
as folhas que retirarem de seu Reino não terão os Axés e Magias que teriam se
assim tivessem feito. Junto a planta cortada, deixa-se sempre a oferenda de
algumas moedinhas e um pedaço de fumo-de-corda com mel, assim assegurando
que a vibração básica da folha permaneça, mesmo depois de ela ter sido afastada
da planta e do solo que a vitalizava. As folhas e ervas de Ossãe, depois de colhidas
são esfregadas, espremidas e trituradas com as mãos, e não com pilão ou outro
instrumento. Cumpre quebrá-las vivas entre os dedos. Seja filho de Oxalá ou de
Nanã, ou de qualquer outro Orixá, uma pessoa sempre tem de invocar a
participação de Ossãe ao utilizar uma planta para fins ritualísticos, pois, a
capacidade de retirar delas sua força energética básica, continua sendo segredo de
Ossãe. Por isso não basta possuir a planta exigida como ingrediente de um prato a
ser oferecido ao Orixá, ou de qualquer outra forma de trabalho mágico. A ação de
maceração é chamada de quinagem, preparando a folha e retirando dela seu asé.
As folhas quando chegam na casa devem primeiramente descansar por
algum tempo, depois devem ser bem lavadas por quem irá macerá-las, são
colocadas sobre a ení (esteira) para que o Babalorixá ou Iyalorixá possa rezá-las
com cânticos das folhas ou de cada folha especificamente de frente para os Ìyàwós
que se encontram Kúnlè (Joelho Na Terra). O Bàbá ou Ìyá abrirá um Obí,
confirmará as folhas escolhidas, mastigará o obí espargindo-os sobre as folhas com
seu hálito, seu axé, suas palavras mágicas, para logo depois soltar as folhas para
macerar, separando os galhos, caules e folhas feias para o lado, em silêncio, com
uma vela ou fifó aceso à frente, sem pressa e rápido, o banho do aríàse do Ìyàwó.
Vale ressaltar que após a maceração, o banho descansa um pouco e o que sobrou
do banho, já coado, irá para o ojúbo de Òsanyìn da casa, para depois ser
despachado nas águas do rio ou mato. Todas as obrigações, além da iniciação, em
que tiver sacrifício de animais de quatro pés, serão sempre precedidos dessa
liturgia sagrada sendo um orô (um tipo de planta) obrigatório, sempre com
louvação a Pai Òsányìn, no qual chama-se comumente de Sasányìn ou seja Asá
Òsányìn, que são feitos no primeiro dia após iniciação, no terceiro e sétimo dia.
Há também o ebó de carrego de toda a obrigação que o próprio Ìyàwó participa
que é entregue a Èsù Òdàrà em seu ilé, para que de tudo certo e proporcione
tranquilidade aos rituais secretos internos do àse. Importante dizer que todo o ato
é um ritual. A colheita das folhas é ritualizada, não se admiti uma folha ser colhida
de maneira aleatória.
Para que um iniciado possa recolher as ervas necessárias ao culto a ser
realizado, deve-se abster de qualquer bebida alcoólica e de relações sexuais na
noite que precede a colheita. Ter o conhecimento das folhas que vão participar dos
banhos purificatórios, combiná-las com suas propriedades específicas adequadas
a cada Orixá, a cada Orí, na confecção do adòsú, na preparação da ení do futuro
ìyàwó como forma de proteção e fortalecimento, no àgbo do banho do ìyàwó para
purificá-lo, como também como bebida e remédio e o próprio transe na
incorporação da energia, estabelecendo equilíbrio e inconsciência. A quantidade
de folhas no àgbo varia de casa para casa podendo ser quatro folhas ou múltiplos
de quatro e combinando a essência (quente/fria, macho/fêmea) equilíbrio.