Elliot e seu irmão Cassian cresceram sem sua mãe e eles praticamente viviam suas
próprias vidas separadamente, mesmo vivendo juntos. Mas fora isso, tiveram uma
infância razoavelmente tranquila, viviam em uma casa boa e tinham tudo que queriam.
Porém, Cassian queria algo mais, ele queria se sentir vivo. Então, ele acabou se
envolvendo com drogas e gangues. Aquela adrenalina e sensação de poder faziam ele
se sentir importante, vivo e que podia fazer tudo o que queria.
Até que seu pai, Einar, percebeu que seu filho Cassian estava um pouco estranho.
Ele sempre estava ocupado e quase nunca parava em casa. Quando Einar perguntava o
que ele iria fazer ou por que estava agindo estranho, ele apenas dava uma resposta
vaga — Vou sair com alguns amigos — Cassian falava enquanto saía de casa, sem
deixar ninguém perguntar mais nada.
Quando Einar perguntava para Elliot se ele sabia por que seu irmão estava agindo
daquela forma, ele sempre respondia praticamente a mesma coisa — Cassian nunca foi
de falar muito comigo sobre sua vida. — Elliot estava preocupado com seu irmão, mas
não queria se intrometer na vida dele. Já Einar não queria que algo de ruim
acontecesse com seu filho, então, em um dia que Cassian foi sair, Einar foi
secretamente junto, seguindo ele com uma certa distância.
Einar viu Cassian junto com um grupinho andando até se encontrar com membros de uma
gangue. Eles falaram por um momento antes de Cassian comprar drogas com eles. Einar
entrou em choque e ficou parado ali enquanto seus olhos se enchiam d'água e seu
coração afundava no chão. Ele não queria acreditar no que estava vendo.
Uma das pessoas do grupinho que estava junto de Cassian viu Einar tentando se
esconder em uma árvore. Ele falou com Cassian, que ficou em choque e seus músculos
ficaram tensos. Como consequência — Ele não pode saber disso... vai... faz alguma
coisa, porra. — Cassian gaguejou exigindo algo de seu grupo. — O que você quer que
eu faça, porra? — um dos membros reclamou. — Sei lá, porra... só... só não deixa
ele saber disso... — Cassian olhou nos olhos de um dos membros e continuou — Se...
se ele sair daqui sabendo disso... todos nós estamos fudidos... — Cassian avisou
gaguejando.
Um dos membros então olhou para Cassian, hesitando por um momento, e com um
movimento seco, puxou sua arma do coldre, respirou fundo e com a mão ainda firme,
mirou para a árvore onde Einar se escondia, o dedo deslizou rapidamente até o
gatilho. Cassian observava ao lado do membro, seus olhos arregalados e músculos
tensos. O som alto do estouro do disparo seguido de estilhaços de madeira fez todos
ficarem ainda mais tensos, principalmente Cassian, que acabou de ver seu próprio
pai ser morto por sua causa.
Cassian, cheio de adrenalina, virou para trás e começou a correr até sua casa.
Chegando lá ainda tenso, abriu a porta da frente devagar, desejando que Elliot não
estivesse em casa ou na sala. Quando Cassian entrou em casa ofegante e fechou a
porta devagar, para seu azar, Elliot estava no sofá. Ele se levantou e foi até
Cassian — Cadê o pai?... O que houve com você? Por que você parece tão... tenso e
ofegante?... — Elliot perguntou assustado. Cassian, ainda em choque, não respondeu
nada.
— Cassian?... que cheiro de pólvora é esse?... — Elliot agarrou Cassian pelo ombro
e, com medo do que houve, continuou — Cassian, que porra aconteceu? Me fala agora.
— Cassian desviou o olhar — Desculpa, Elliot... o pai... eu... — Os olhos de Elliot
arregalaram e encheram d'água. Ele sempre foi muito inteligente e com pensamentos
rápidos, mas, naquela situação, ele queria não ter entendido o que houve — Caralho,
Cassian, que porra você fez? Por que você fez isso? Nosso pai se importava com
você, seu filho da puta. — Elliot gritou enquanto balançava Cassian pelo ombro.
Cassian tentou se defender — Ele... ele me viu... — Elliot nao deixou ele terminar
de falar — Porque voce quis se envolver com essas coisas Cassian? Porque?... Se
voce nao tivesse inventado de se envolver com essa porra o pai ainda estaria
vivo... Isso tudo e culpa sua. — Elliot puxou Cassian pelo ombro e empurrou ele
para o lado, onde era a cozinha, Elliot estava fervendo de raiva, ele ja nao estava
pensando direito.
Elliot olhou para a cozinha, e algo escuro passou por seu olhar. Ele se afastou de
Cassian, mas não disse nada, seus passos foram direto até o balcão onde estava uma
faca. Cassian percebeu, deu um passo para trás e tentou falar, sua voz falhando com
o medo — Elliot... cara... por favor, não... eu... a gente pode conversar... —
Cassian gaguejava, tentando conter o desespero que aumentava a cada segundo. Mas
Elliot parecia surdo, ele segurava a faca com força. Então, sem aviso, avançou e
enfiou a lâmina na barriga de Cassian.
Cassian caiu no chão, gemendo de dor e levando as mãos ao ferimento — Elliot... me
ajuda... — sua voz saía quase em sussurros, enquanto Elliot o observava com seus
olhos arregalados, retomou a consciência, paralisado, até que, com a faca ainda em
sua mão, virou e saiu correndo, deixando Cassian sozinho, caído no chão.
Uma semana havia se passado desde o incidente, mas Elliot não conseguia descansar.
A cada vez que fechava os olhos, a lembrança do que fez com seu próprio irmão vinha
à sua mente de forma vívida. Ele encontrava paz em ler e escrever, que eram as
únicas coisas que o faziam esquecer, nem que fosse por alguns minutos. Com o passar
dos dias, isso se tornou um refúgio, e cada vez mais Elliot escrevia e lia como uma
forma de fugir da própria culpa.