Direitos Humanos em Moçambique: Vida e Liberdade
Direitos Humanos em Moçambique: Vida e Liberdade
DISCIPLINA
TEMA
Setembro de 2010
INTRODUÇÃO
interromper...1
A defesa dos Direitos Humanos, como qualquer outro ideal, será tanto mais eficiente
numa sociedade, quanto mais se consiga expandir o seu conhecimento e se desenvolva a
consciência da necessidade de proteger o ser humano de toda e qualquer violação de direitos2.
Para que se alargue a consciência desses direitos, é necessário que sejam divulgados
no seio do povo, alertando sobre as diversas formas da sua violação e ensinando o modo de as
prevenir.
Todavia, a vida é o bem fundamental do ser humano, pois sem a vida, não há que se
falar em outros direitos, nem mesmo os de personalidade. Com base nesse entendimento, todo o
homem tem direito à vida, ou seja, o direito de viver e não apenas isso, tem o direito de uma
vida plena e digna, respeito aos seus valores e necessidades.
1
CHAVES, Antônio. Direito à Vida e ao Próprio Corpo (intersexualidade, transexualidade, transplantes). 2ª
ed. revista e ampliada. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1994., p. 25. O autor conclui esta
frase, aduzindo que o aborto, salvo em casos excepcionais, trata-se de crime.
2
SACRAMENTO, Luís et all, Manual de Paralegal-Lida Moçambicana dos Direitos Humanos, Ed. Revista, 2006, p.1
O texto está organizado nos seguintes pontos: CAPÍTULO I –
ENQUADRAMENTO TEÓRICO CONCEPTUAL - 1) Conceptualização, 1.1) Classificação dos
Direitos Humanos, 1.2) Violação dos Direitos Humanos, 1.3) Formas de violação dos Direitos
Humanos; CAPÍULO II – DIREITOS HUMANOS NO DIREITO MOÇAMBICANO - 2.1)
Antecedentes históricos, 2.2) Direitos Humanos à luz da Constituição da República de
Moçambique, 2.3) Direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal, 3) Conclusão, 4) uma lista
de referências bibliográficas, sobretudo de trabalhos publicados.
CAPÍTULO I – ENQUADRAMENTO TEÓRICO – CONCEPTUAL
1. Conceptualização
Vários estudos sobre os Direitos Humanos, tentam definir o termo em função das
políticas vigentes em cada Nação, país ou territorio tomando em conta o seu processo de
democratização mas há um entendimento comum de que quando se fala de Direitos Humanos
está a se falar de direitos e liberdades básicas que devem gozar todos os seres humanos sem
distinção.
Ora, nalgumas vezes tem-se confundido Direitos Humanos com Direito do Homem
mas são questões meramente exclusivas. E para melhor aclarar pode-se partir do seguinte:
Se porventura a esse humano fosse-lhe retirado todos os direitos que possui com
os quais poder-se-ia pedir para permanecer com ele? Opina-se que seria melhor conceder-lhe o
direito à vida (cf. artigos 1º e 3º, da DUDH) porque através deste é possível conquistar outros
direitos como a liberdade, segurança, etc.São direitos inerentes a um ser humano enquanto vivo.
3
ARENDT, Hannah. Da revolução. São Paulo: Ática, 1988, p.25
Os Direitos Humanos são inerentes a pessoa humana – os direitos não têm que ser
atribuidos, conquistados ou herdados. Eles pertencem às pessoas, simplismente porque estas são
seres humanas. São direitos que nascem com as pessoas e acompanham em todo o ciclo da sua
vida (exemplo: a vida, a liberdade e a dignidade)
• Indivisibilidade – as diversas categorias dos direitos humanos tem igual importância. Por
isso, não se deve negar um direito por ser considerado menos importante em relação ao
outro. Para viver em dignidade , todos os seres humanos têm o direito à liberdade, à
segurança e aos padrões de vida decentes. Por exemplo, não é possível viver em
dignidade se a pessoa não tem direito a uma alimentação adequada ou então durante a
eduacação.
• Inalienabilidade – cada cidadão tem seus direitos e não lhe podem ser retirados em
quaisquer circunstâncias, visto serem inerentes a ela. Ninguém pode negociar ou
renunciar os direitos humanos, mesmo quando as leis dos seus países não consagram,
especialmente as pessoas continuam a ter seus direitos porque são inerentes a pessoa
humana.
• Interdependência – quando se exerce o direito de participar na vida política, previsto
pela Constituição, está-se por outro lado o direito de expressão (artigos 73 e 74 da CRM).
4
Ibidem
Os Direitos Humanos decorrem do reconhecimento da dignidade intrínseca a
todo ser humano e difere dos outros direitos do cidadão (embora estes estejam, ai incluídos em
grande parte) porque os direitos humanos extrapolam as condições legais e as fronteiras, as
quais definem cidadania e nacionalidade. A ausência de cidadania jurídica, por exemplo, não
implica na ausência de direitos humanos.
5
Direito à liberdade perante a lei, direito ao julgamento justo, direito à liberdade de oponião, direito à liberdade
de reunião, o direito de associação, o direito de ser votado e de votar, o direito de pertencer a um partido, o
direito de participar de um movimento social, entre outros;
6
Direito a moradia, direito ao trabalho, direito à propriedade, direito à educação, direito à saúde, etc.
Um ponto importante a ser destacado é a relação, muitas vezes tida como
dilemática, entre igualdade e liberdade. Se os direitos civis e políticos exigem que todos gozem
da mesma liberdade, são os direitos sociais que garantirão a redução das desigualdades de
origem; caso contrário, a falta de igualdade pode gerar a falta de liberdade. Por sua vez, não é
menos verdade que a liberdade propicie as condições para as reivindicações de direitos sociais. É
preciso entender o significado de igualdade contido na proposta de cidadania democrática. Não
se trata de igualdade como sinónimo de ‘uniformidade’ de todos os seres humanos - com suas
diferenças de raça, etnia, sexo, ocupação, talentos específicos, religião, opção política e cultura
no sentido mais amplo. Os cidadãos, enquanto corpo colectivo de uma sociedade complexa
assumem responsabilidades de preservar as diferenças formando uma rede participativa, como
observou Habermas (2001, p.97-98): “em sociedades complexas, a formação da vontade e da
opinião deliberativa dos cidadãos – fundada no princípio da soberania do povo e dos direitos
do homem – constitui em última instância o meio para uma forma de solidariedade abstrata,
criada de modo legal reproduzida graças à participação polí[Link] diferenças não significam,
necessariamente, desigualdades, isto é, não existe valoração hierárquica inferior/superior na
distinção entre pessoas diferentes. Homens e mulheres são diferentes, mas a desigualdade estará
implícita se tratar essa diferença estabelecendo a superioridade masculina, por exemplo. O
mesmo se pode dizer das diferenças culturais e étnicas. A diferença pode ser enriquecedora, mas
a desigualdade pode ser crime. Charles Taylor (1994), Michael Walzer (1985), enfatizam a
cultura e o grupo social que conferem identidades aos indivíduos ‘atomizados’ pelas tendências
desenraizadoras da sociedade liberal. O indivíduo não é anterior à sociedade, é construído por
fins que não escolhe, mas que descobre em função de sua vida em contextos culturais
compartilhados na sociedade. Aqui, destacam-se os aspectos culturais e políticos da
comunidade como elementos centrais na organização do self individual”.
Todo o defensor e/ou estudioso dos Direitos Humanos deve saber diostinguir
claramente a violação dos Direitos Humanos da violação de outros direitos subjectivos. O
entendimento desta questão é importante para o sucesso da luta a favor da promoção e protecção
dos Direitos Humanos em todo o universo do planeta Terra.
É que o defensor dos Direitos Humanos não deve lidar com todos os casos de
violações de direitos mas somente com as violações ou abusos de Direitos Humanos.
Para que se fale de violação de um Direito Humano é necessário que o direito
violado seja considerado um Direito Humano, isto é, tratar-se de um direito inerente à pessoa
humana, universal, inalienável.
• Há violação por acto quando o Estado, através dos seus agentes age activamente em
desconformidade com as leis do Direito Humano. Por exemplo, um agente do Estado que
tortura um recluso sem justa causa. A responsabilidade do Estado é proteger os Direitos
Humanos e assegurar a sua aplicabilidade a todos níveis.
• Há violação por omissão quando o Estado omite o cumprimento das exigências das leis
nacionais e internacionais relativas à protecção dos Direitos Humanos. Estas leis
estabelecem deveres aos governos de proteger os Direitos Humanos. No caso de
7
KONDER, Fábio, A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos, 3a Edição, São Paulo: Saraiva, 2003, p.20
omissão, os danos podem ser cometidos por particulares. Nestes casos, o defensor dos
Direitos Humanos deve demonstrar e provar que estes factos violam os Direitos Humanos
e que o Estado tem responsabilidade nisso. Exemplo: Um agente da guarda fronteira
deixa passar da fronteira de Ressano Garcia uma carrinha carregada de crianças vítimas
de tráfico.
A partir dos anos 80 e, muito em particular, nos anos 90, Moçambique assinou e
ractificou vários instrumentos internacionais sobre os direitos humanos sendo a destacar, a Carta
Africana dos Direitos Humanos e dos Povos8, o Pacto sobre os Direitos Civis e Políticos9,
8
Moçambique ractificou em 25 de Agosto de 1988 através da Resolução no 9/88, pela então Assembleia Popular
9
Este pacto foi ractificado pela Resolução 5/91, de 12 de Dezembro pela Assembleia da República.
Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou penas cruéis, desumanos e degradantes de
198410 e a Convenção Internacional dos Direitos da Criança11.
Para sublinhar ainda mais o compromisso com a causa dos direitos humanos, o
artigo 43 da CRM estabelece que os preceitos legais relativos aos direitos fundamentais são
interpretados e integrados de harmonia com a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a
Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos.
10
Esta Convenção foi ractificada pela Assembleia da República através da Resolução 8/91, de 20 de Dezembro.
11
Ractificado pelo Conselho de Ministros pela Resolução 19/90, de 23 de Outubro.
2.3. Direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal
12
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. São Paulo: Sociedade Bíblica Católica Internacional e Paulus, 1990, p.534
13
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p.2858
14
SACRAMENTO, Luís et all, Manual de Paralegal-Lida Moçambicana dos Direitos Humanos, Ed. Revista, 2006, p.69
15
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 4ª edição. Coimbra [Portugal]:
Livraria Almedina, 2000. p. 526/533/539.
Assim, o direito à vida deve ser associado a um direito à conservação da
vida, em que o indivíduo pode gerir e defender sua vida, mas não pode dela dispor, apenas
justificando acção lesiva contra a vida em casos de legítima defesa e estado de necessidade.
Assevera, ainda, sobre tutela privada e pública do direito à vida, admitindo que o direito aos
alimentos é uma tutela complementar da vida, sendo diferente do direito à vida, pois não é a
vida o seu objecto, mas um bem material para servir a conservação da vida.16
A violação do Direito à vida não tem reposição possível, visto que a vida é
só uma. Porém, essa violação incorre o violador na responsabilidade criminal nos termos da lei
penal e na forma civil:”
16
Luciana Mendes Pereira Roberto, Mestranda em Direito Negocial, Especialista em Direito Empresarial e
Professora na Universidade Estadual de Londrina - UEL e no Centro Universitário Filadélfia - UNIFIL.
• Aborto (artigo 358, Código Penal).
A lei pune este acto com a pena de prisão entre 16 a 20 anos. Uma violação
do direito à vida desta natureza tem uma tamanha gravidade não só para os familiares da pessoa
a quem se tira a vida mas para toda a sociedade. E nestas circunstâncias, o Estado é obrigado a
intervir para punir a violação deste direito logo que tome conhecimento, não importanado quem
faz a denúncia da violação nem quem tenha cometido a violação.
1) Por exemplo17
Por sua vez, os agentes da polícia capturaran os outros três assaltantes não
armados; só que os mesmos polícias, depois de terem dominado os malfeitores,
enfurecidos pela perda de um agente, dispararam a sangue frio contra eles, num
acto de vingança matando-os todos.
Disto denota-se que, a captura e prisão dos malfeitores foi legitima a fim
de poderem responder pelos seus actos. Primeiro pelo crime que se presume que pretendiam
levar a cabo, quiça a violação do direito de propreidade de alguém, um roubo. Segundo, pela
violação do direito à vida que consistiu em matar um polícia.
17
Ibidem, p.70
Dada a gravidade da situação ora descrita, a investigação e a instrução do
processso respectivo ultrapassa a competência das autoridades distritais. Assim, se uma situação
desta natureza acontecer no Distrito e for colocado ao Paralegal18 este deve orientar as pessoas
no sentido de fazer denuncias às autoridades policiais ou autoridades especializadas locais mas
esclarecer as pessoas que a investigação e o julgamento do caso serão efectuados pela polícia e o
Tribunal a nível da provincial.
2) Outro exemplo19
3) Outro exemplo20
1818
Paralegal é uma pessoa que vive na cpmunidade, preparada para a prática de Consultoria e Assistência Jurídica,
qualificada para a educação comunitária.
19
Ibidem, p.70
20
Ibidem, p.71
Aqui o polícia não quiz matar nem o ladrão, nem alguém. Posto isto, a lei
também afasta a possibilidade de incriminar o agente da polícia e não se pode falar de violações
de direitos humanos.
4) Último exemplo21
Portanto, estes constiuem exemplos que ilustram situações em que tirar a vida
a uma pessoa pode constituir uma violação dos direitos humanos e outros em que não há esta
violação.
• O Envenenamento
Pela sua natureza, este tipo de crime a lei considera como sendo agravado.
Numa cela existem dois perigosos assaltantes à mão armada. O guarda prisional
por saber que destes dois, um é altamente perigoso, resolve colocar veneno no
copo de água exactamente no dia que o preso ia ao hospital e quem ficaria seria o
mais perigoso que, como estava muito calor ele beberia daquela água. Nota-se
aqui que houve uma forte intença do guarda em tirar a vida de um dos malfeitores,
violando assim os direitos dos cidadãos.
21
Ibidem, p.72
O Estado moçambicano coloca ao serviço dos cidadãos os seus instrumentos
vocacionados a prevenir, investigar e sancionar tais violações. Para tanto, os cidadãos podem
denunciar estes crimes à Polícia da República de Moçambique que através da sua Po;ícia de
Investigação Criminal investiga a conduta criminosa denunciada.
As situações ora descritas podem ser praticadas por outros cidadãos comuns
ou então, arbitrariamente, por agentes da autoridade pública.
Para isso, o paralegal deve orientar o cidadão no sentido de propôr uma acção
judicial contra os cidadãos comuns que atentaram contra o direito humano à vida. Nesses casos,
o paralegal orienta os queixosos a procurarem um advogado ou a irem participar directamente às
autoridades policiais ou da Procuradoria da República. Também poderá ser o próprio paralegal a
procurar um advogado para o queixoso ou então a redigir a denuncia ou participação do crime
que entregará ao queixoso para ir apresentar à autoridade competente no nível da cidade ou
província.
Responsabilidade Civil
“O Estado é responsável pelos danos causados por actos ilegais dos seus agentes no exercício
das suas funções, sem prejuízo do direito de regresso nos termos da lei”.
Neste segundo caso é preciso que alguém (que por força da lei tem direito à
indimnização) com legitimidade proponha acção competente.
22
Ibidem, p.80
O uso dessas liberdades é importante, porque faz com que a gente perceba que não
vive sozinho, e que o que a gente pensa muitas vezes é o que muitas outras pessoas também
pensam. E a união de muitos em torno de objectivos comuns é importante, porque dá força à
comunidade, na hora de reivindicar acções dos governos.
É claro que numa sociedade democrática, onde todos são iguais, o exercício da
liberdade pode sofrer restrição, que seja necessária para que os outros também exerçam seus
direitos. Por exemplo, eu posso dizer tudo o que penso, mas não tenho o direito de xingar nem de
ofender outra pessoa na sua honra e na sua dignidade. Nem tenho o direito de me associar a
outras pessoas para coisas ilícitas, como praticar crimes, por exemplo.
3. Conclusão
Importante lembrar que tal primazia deve ser sempre acompanhada pela dignidade e
pela liberdade, para não ocorrer o que GIOSTRI23 chama de idolatria da vida.
O que se faz necessário lembrar é o facto de que importa para o homem o resguardo
ao seu direito à vida: digna e plena, direito esse adquirido desde o seu nascimento
(resguardado o direito do feto) com vida, até a sua morte, com o culminar da personalidade
jurídica.
23
GIOSTRI, Hildegard Taggesell. O Paciente Terminal: Reflexões sobre o limite do poder de escolha entre a vida e a
morte. Artigo publicado na Revista Argumenta, da Faculdade de Direito do Norte Pioneiro, 2002.
Observou-se, de acordo com o entendimento dos doutrinadores e das leis apostas,
que a todo homem é devido respeito, liberdade e dignidade ao direito à vida, pois este é
fundamental à sua existência. E, que ninguém pode desfazer-se da vida de outrem, sob pena de
sanção pública e privada. importância máxima da vida para o ser humano.
4. Referências bibliográficas
2. BÍBLIA SAGRADA, Edição Pastoral. São Paulo: Sociedade Bíblica Católica Internacional
e Paulus, 1990.
5. Declaração Universal dos Direitos Humanos, adopada e proclamada pela resolução 217 A
(III), da Assembleia Geral das Nações Unidas em 1º de Dezembro de 1948
8. Guia da Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos-Amnistia Internacional, Artes
Gráficas, Brasil,2006.
10. Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, adoptado pela Assembleia Geral das
Nações Unidas em 16 de Dezembro de 1996-resolução no 5/91, B.R,Maputo, I Série, 12 de
Dezembro de 1991.
11. Relatórios Sobre Direitos Humanos em Moçambique-LDH/2000-2006, Maputo, 2006.