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Ação Judicial: Empréstimo Consignado Contestável

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Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro

Comarca da Capital - Regional de Santa Cruz

1ª Vara Cível da Regional de Santa Cruz

Rua Olavo Bilac, S/N, Santa Cruz, RIO DE JANEIRO - RJ - CEP: 23570-220

SENTENÇA

Processo: 0815951-23.2024.8.19.0206

Classe: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7)

AUTOR: CARLOS ALBERTO DA SILVA

RÉU: BANCO PAN S.A

Trata-se de ação proposta por CARLOS ALBERTO DA SILVA em face de BANCO PAN S.A, na
qual o autor alega que em 04/07/2024, foi surpreendido com valor descontado em seu benefício,
sendo informado que fazia referência a empréstimo consignado com a ré, contrato nº 386916547-
6, no valor de R$27.082,35, com liberação de R$26.196,51, a ser pago em 84 parcelas de
R$619,51. Destaca o autor que desconhece o referido empréstimo.

Ao final, requer a concessão de tutela de urgência para determinar que a ré se abstenha de


cobrar valores referentes ao empréstimo e suspender os descontos na folha de pagamento do
autor. No mérito, requer a procedência da demanda para declarar a nulidade do contrato de
empréstimo de nº 38616547-6 e a inexistência de qualquer débito decorrente dele, determinar
que a ré devolva em dobro o valor descontado de seu benefício e condenar a ré a pagar ao autor
pelos danos morais experimentados em R$ 42.360,00.

Decisão em ID 131572871 deferindo a JG e a tutela de urgência para determinar que a ré se


abstenha de efetuar descontos no benefício do autor.

Citada, a ré apresenta contestação em ID 134797857, alegando, preliminarmente, a impugnação


à gratuidade de justiça e o indeferimento da inicial. No mérito, aduz que o autor firmou contrato nº
386916547-6 com a ré em 30/04/2024 por meio de link criptografado e com o detalhamento de
toda a contratação. Assevera que o autor aceitou todos os termos contratuais por meio de
assinatura eletrônica - “biometria facial”. Destaca que o crédito foi depositado na conta de
titularidade do autor na instituição bancária ré, agência 00019 e conta 029781646. Ressalta que a
conta informada no momento da contratação para liberação do valor é mesma que consta no
extrato do INSS para fins de liberação da aposentadoria da parte autora. No mais, requer a total
improcedência da demanda e faz o pedido contraposto para condenar o autor na litigância de má-
fé e, na remota possibilidade de o contrato ser anulado, requer a devolução dos valores
recebidos referentes ao contrato, sob pena de enriquecimento ilícito.

Réplica em ID 135834239.

Assinado eletronicamente por: LORENA REIS BASTOS DUTRA - 28/11/2024 17:10:53 Num. 159051811 - Pág. 1
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Sem provas pelo autor em ID 156061541 e pela ré em ID 157020754.

Vieram os autos conclusos.

É o relatório. Decido.

Há preliminares a serem analisadas.

A ré argumento que a petição inicial deve ser indeferida pelo motivo que o autor não apresentou o
extrato bancário demonstrando que não recebeu o crédito em questão.

Contudo, tal argumentação não merece respaldo, pois a peça inicial apresenta todos os requisitos
do art. 319 do CPC, uma vez que há identificação clara do pedido e da causa de pedir; o pedido é
determinado; da narração dos fatos decorre, logicamente, a sua conclusão; bem como os pedidos
são compatíveis entre si (art. 300, I e §1º, do CPC). Não se vislumbra, ainda, qualquer prejuízo ao
contraditório ou ao exercício do direito de defesa da parte ré, com fulcro no art. 5º, LV, CF/88 e
art. 7º do CPC, sendo certo que, em contestação, a parte demandada impugnou os pedidos
autorais e os documentos anexados, bem como trouxe a sua versão sobre a causa de pedir e os
pedidos apresentados na exordial. E por isso, rejeito a preliminar.

Rejeito também a preliminar de impugnação à gratuidade de justiça, eis que, é de se notar que a
ré não se desincumbiu de seu ônus de demonstrar que o autor não se enquadra na condição de
hipossuficiente econômica, ou, ao menos, que houve alteração na situação econômica retratada,
limitando sua impugnação a uma argumentação genérica.

Há questão pendente ainda consistente em enfrentamento do pedido sobre a inversão do ônus


probatório. Sobre esta, há verdadeira inversão legal promovida pelo art. 14, §3º do CDC em favor
da requerente. Com efeito, mostra-se desnecessária a inversão do ônus da prova, pelo que fica
indeferida.

Enfrentadas as questões preliminares, verifico que as partes estão devidamente representadas,


estando, assim, presentes os pressupostos e as condições da ação, passo à análise do mérito.

A questão a esta altura é principalmente de direito, comportando o feito o julgamento no estado


em que se encontra, motivo pelo qual se impõe o julgamento antecipado da lide, nos termos do
art. 355, inciso I, do Código de Processo Civil.

O caso em tela versa sobre relação de consumo, pois a autora enquadra-se no conceito de

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consumidora descrito no artigo 2º do Código de Proteção e Defesa do Consumidor, e a ré no de
fornecedora de serviços, nos termos do artigo 3º do mesmo diploma legal, seguindo a perspectiva
do verbete 297, da Súmula do STJ: “o Código de Defesa do Consumidor é aplicável às
instituições financeiras”.

Cinge-se a demanda na irresignação do autor frente a contratação de empréstimo consignado em


seu nome junto à ré, com contrato de nº 386916547-6, no valor de R$27.082,35, com liberação
de R$26.196,51, a ser pago em 84 parcelas de R$619,51, que alega desconhecer.

Ressalta-se que as instituições bancárias respondem objetivamente pelos danos causados por
fraudes ou delitos praticados por terceiros, conforme entendimento consolidado no Superior
Tribunal de Justiça, quando do julgamento, sob a sistemática de recurso repetitivo, do Recurso
Especial n.º 1.197.929/PR, em que foi Relator o Ministro Luís Felipe Salomão, cuja ementa se
passa a transcrever:

RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DE CONTROVÉRSIA.


JULGAMENTO PELA SISTEMÁTICA DO ART. 543-C DO CPC.
RESPONSABILIDADE CIVIL. INSTITUIÇÕES BANCÁRIAS. DANOS
CAUSADOS POR FRAUDES E DELITOS PRATICADOS POR TERCEIROS.
RESPONSABILIDADE OBJETIVA. FORTUITO INTERNO. RISCO DO
EMPREENDIMENTO. 1. Para efeitos do art. 543-C do CPC: As instituições
bancárias respondem objetivamente pelos danos causados por fraudes ou
delitos praticados por terceiros - como, por exemplo, abertura de conta-
corrente ou recebimento de empréstimos mediante fraude ou utilização de
documentos falsos -, porquanto tal responsabilidade decorre do risco do
empreendimento, caracterizando-se como fortuito interno. 2. Recurso especial
provido.

No caso, o autor assevera jamais ter contratado o empréstimo consignado com a ré e, não
obstante, vinha sofrendo descontos em seu benefício previdenciário referente ao pagamento das
parcelas do negócio supostamente firmado.

O autor comprova o lançamento do empréstimo consignado na forma narrada nos documentos


em ID 131357400 e 131361154 anexados aos autos juntamente com a petição inicial, cumprindo
com seu ônus probatório (art. 373, I, do CPC).

Ademais, o autor comprova que não recebeu o crédito contratado com a ré, conforme corroboram
os extratos das contas que possuem nos bancos Caixa Econômica e Santander no período de
abril a junho de 2024, de acordo com os ID 131357391, 131357392, 131357393, 131357395 e
131357399, bem como apresenta histórico de pagamento de benefício em ID 131361152.

Lado outro, a ré não trouxe aos autos prova robusta da contratação do empréstimo pelo autor,

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limitando-se a anexar extrato de conta bancária junto à própria instituição ré em ID
134797859, que alega ser do autor e onde ele teria recebido o crédito, sem apresentar qualquer
contrato do empréstimo consignado, o que não foi controvertido em momento algum, visto que o
autor nega que a contratação e o recebimento do crédito em comento.

A ré ainda alega na peça de defesa que a conta bancária oferecida pelo autor é a mesma a qual é
vinculado o recebimento do seu benefício. Contudo, tal alegação deve ser rechaçada, pois
conforme os documentos apresentados pelo autor (ID 131357391, 131357392, 131357393,
131357395, 131357399 e 131361152) não há semelhança entre as contas.

Pela leitura do art. 14, § 3º, do CDC, verifica-se que a responsabilidade da fornecedora de
serviços é objetiva, somente podendo ser afastada caso comprove que houve fato exclusivo do
consumidor ou de terceiros ou que, tendo prestado o serviço, o defeito não existe.

Diante de toda a instrução probatório dos autos, denota-se que a ré não se desincumbiu do seu
ônus probatório (artigo 373, II, CPC c/c artigo 14, § 3º, CDC), deixando de demonstrar a
regularidade da contratação e dos descontos ora impugnados, por conquanto, não afastou a sua
responsabilização.

Nesse diapasão, a ré não deixou evidenciado nos autos de que o contrato de nº 386916547-6 foi
pactuado pelo autor, uma vez que se limita a alegar que o contrato foi firmado pela via digital,
mediante “biometria facial”.

Ademais, cabe destacar que o autor, idoso, é duplamente vulnerável, tanto pela sua condição
baseada no Código de Defesa do Consumidor, como pelo Estatuto da Pessoa Idosa.

Portanto, não foi efetivamente comprovada a contratação de empréstimo consignado pelo autor
junto à ré, e por conseguinte, fica unicamente provado nos autos que o consumidor não anuiu
com a contratação do empréstimo consignado, devido ao qual vem sofrendo descontos em seu
benefício, e não recebeu o crédito.

Também por estes motivos, sem razão o réu em seu pedido contraposto formulado.

Com isso, resta evidenciada a falha na prestação do serviço, sendo forçoso reconhecer a
nulidade do instrumento contratual contestado e os débitos decorrentes, devendo a ré devolver os
valores indevidamente debitados e se abster de promover novos descontos nos proventos do
autor.

Assinado eletronicamente por: LORENA REIS BASTOS DUTRA - 28/11/2024 17:10:53 Num. 159051811 - Pág. 4
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Número do documento: 24112817105360800000151104065
Acerca da repetição do indébito, o julgamento do EAREsp 676.608, C. Corte Superior de Justiça
firmou entendimento no sentido de que a conduta contrária à boa-fé objetiva não depende da
análise do elemento volitivo do fornecedor para ensejar a devolução em dobro, modulando os
efeitos da referida tese no que diz respeito às parcelas anteriores a março de 2021, incidindo
sobre estas o entendimento anterior da Corte Superior, ou seja, de que a análise da expressão
“engano justificável” demanda a verificação da má-fé.

Considerando que a ré descontou do benefício do autor parcelas de empréstimo que não foi
contratado, fica, assim, configurada a má-fé, de modo que ausente engano justificável, a
impondo-se a devolução em dobro, na forma do artigo 42, parágrafo único, do CDC.

No tocante à reparação do dano moral, inobstante a ausência de negativação, restou configurado,


na medida em que a situação vivenciada pelo autor ultrapassou a esfera do mero aborrecimento
ou dissabor cotidiano, principalmente em razão dos descontos terem sido efetuados em seu
benefício previdenciário, privando-o daquele numerário essencial a sua sobrevivência.

Destarte, a fixação do valor devido a título de compensação pelo dano moral aqui reconhecido
deve atender ao princípio da razoabilidade, pois se impõe, a um só tempo, reparar a lesão moral
sofrida pela parte autora sem representar enriquecimento sem causa e, ainda, garantir o caráter
punitivo-pedagógico da verba, pois a indenização deve valer, por óbvio, como desestímulo à
prática constada.

Considerando as peculiaridades da hipótese em exame, em especial o fato de que foram


efetuados descontos diretamente no benefício do autor, a indenização por dano moral, arbitrada
no importe de R$ 5.000,00 (cinco mil reais) é adequada e observa os princípios da razoabilidade
e proporcionalidade.

Ante o exposto, julgo PARCIALMENTE PROCEDENTES os pedidos formulados, confirmando a


tutela de urgência concedida, e extinguindo o feito, com resolução do mérito, na forma do artigo
487, I, do CPC, para:

a) declarar a inexistência do empréstimo consignado em nome do autor, fundado em


contrato de nº 386916547-6 junto à ré;

b) determinar a devolução em dobro dos valores indevidamente descontados do benefício


previdenciário do autor, com correção monetária, a partir da data de cada desconto, e juros, a
partir da citação; e

c) condenar a ré a pagar ao autor a título de indenização por danos morais no valor de R$


5.000,00 (cinco mil reais), com correção monetária a partir da presente data e juros de mora a
partir da citação.

Condeno, por fim, a ré ao pagamento das custas judiciais e em honorários de sucumbência em

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Número do documento: 24112817105360800000151104065
10% (dez por cento) do valor da condenação.

Certificado quanto ao correto recolhimento das custas e quanto ao trânsito em julgado, não
havendo requerimento das partes, remetam-se os autos ao Núcleo de Arquivamento.

Publique-se. Intimem-se.

RIO DE JANEIRO, 28 de novembro de 2024.

LORENA REIS BASTOS DUTRA


Juiz Substituto

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