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Ação Declaratória e Indenizatória contra Banco

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RITA IZABEL XAVIER DOS SANTOS, qualificado nos autos, vem perante este juízo, através

de procurador legalmente habilitado, intentar AÇÃO DECLARATÓRIA, c/c INDENIZATÓRIA


POR DANOS MORAIS, MATERIAIS E OBRIGAÇÃO DE FAZER, em face de BANCO PAN S.A,
também qualificado nos autos, mediante os seguintes argumentos:

A parte Requerente alega que foi vítima de fraude facilitada pelo frágil sistema de segurança
virtual do requerido; que o empréstimo consignado nunca fora solicitado, tendo sido utilizado por
fraudadores; que foram geradas dívidas indevidas em nome da parte requerente; que houve
falha na prestação de serviços por parte do requerido; que requer a aplicação do CDC e a
inversão do ônus da prova. Requer em seus pedidos, a declaração de inexistência do débito e a
obrigação para que a parte requerida cesse os descontos no benefício da autora, a anulação do
contrato de empréstimo de nº 346962815- 4 e de devolução em dobro das quantias descontadas
do benefício da autora e que o Réu seja condenado ao pagamento da importância
correspondente a R$ 10.000,00 (dez mil reais), a título de indenização por danos morais. Junta ao
pedido, os seguintes documentos: documentos de identificação, extrato do INSS, extrato Banco
Itaú, cópia de declaração de IR e comprovante de residência.

Na decisão de ID Num 79774169 foi concedida a gratuidade da justiça pretendida pela requerente
e determinada a citação da parte requerida.

O requerido apresentou contestação, alegando que a autora realizou a contratação do


empréstimo consignado; que o referido contrato obedeceu aos parâmetros legais pertinentes; que
a requerente realizou o empréstimo consignado através de biometria facial; que o requerido não
praticou nenhuma conduta ilícita que gerasse transtorno psicológico à parte autora; que é
incabível os danos morais; que a restituição em dobro não é devida, posto que não houve má-fé
do requerido; que não cabe a inversão do ônus da prova; que em eventual condenação solicita a
compensação do valor depositado na conta da autora; requer a total improcedência da ação.

A requerente apresentou a réplica de ID Num 90237113 rechaçando os argumentos da defesa e


ratificando os pleitos iniciais.

Instados a se manifestarem sobre a produção de provas, a parte requerida pugnou pelo


depoimento pessoal da autora e expedição de ofício ao Banco Itaú, enquanto a parte requerente
pugnou pelo julgamento antecipado da lide, tendo sido deferido o pedido de expedição do ofício
pleiteado pelo requerido.

O Banco Itaú apresentou resposta ao ofício expedido fornecendo o extrato da parte requerente.

O processo se encontra maduro e pronto para o julgamento antecipado da lide.

Preparados, os autos vieram-me conclusos para decisão.

Relatados. Decido.

Análise das preliminares:

Falta de interesse de agir. O réu alega que a consumidora prejudicada não procurou os
canais de resoluções amigáveis disponibilizados para a solução do conflito e,
consequentemente, não esgotou a via administrativa de conciliação, não vivificando assim
uma pretensão resistida, devendo o processo ser extinto sem resolução do mérito. Em que
pese o bom papel desempenhado pelos canais administrativos das diversas empresas na
resolução de conflitos, até mesmo como agente colaborador da sociedade impedindo o
abarrotamento do Judiciário com ações de fácil desfecho, a via administrativa é facultativa,
tendo ainda, o consumidor o poder de decidir qual caminho deve seguir na busca de seu
direito. Pensar diferente seria frenar o acesso ao Judiciário. Preliminar rejeitada.

Impugnação à justiça gratuita. A parte ré alega que a autora possui condições de arcar
com as custas do processo. Não trazendo aos autos prova da referida mudança
patrimonial da parte autora e nem tendo o juízo tomado conhecimento de qualquer fato que
convencesse a real capacidade da parte requerente arcar com as despesas do processo,
mantenho a benesse processual. Preliminar rejeitada.

Pedido do requerido para tomada de depoimento da parte autora

A parte requerida solicitou a realização de audiência de instrução para fosse colhido o


depoimento da parte autora. Entendo despicienda a referida prova, uma vez que nada
acrescentará aos autos e os documentos já juntados aos autos são suficientes para a formação
do convencimento do juízo.

Mérito

Analisando o pedido, observa-se que a pretensão da Requerente externada na Inicial está


direcionada não só à declaração de inexistência do débito referente ao valor de R$ 806,74
(oitocentos e seis reais e setenta e quatro centavos) [], vinculado ao empréstimo referente ao
contrato nº 346962815- 4, mas também ao indébito na forma dobrada indevidamente
descontados de seu benefício bem como aos danos morais decorrentes dos aborrecimentos
contínuos em face da falha de segurança do Banco que acarretou uma dívida capaz de abalar
sua tranquilidade.

Contrapondo-se à pretensão da requerente, o requerido, a princípio, articulou que o contrato foi


celebrado regularmente entre as partes, rechaçando, por via de consequência qualquer prática de
danos materiais ou morais.

Observe-se que o contestante tenta desconstituir os fatos articulados na inicial e imputar a


responsabilidade dos danos suportados à própria requerente, atraindo para si o ônus da prova em
consonância com a regra imperativa do artigo 373, II do CPC. As provas juntadas aos autos
corroboram a tese da requerente.

O argumento de que o referido empréstimo se deu na modalidade digital através de biometria


facial, não é suficiente para se ter a segurança da contratação entre as partes, uma vez que
referida contratação virtual não se cerca, no presente caso, de instrumentos que garantam a
normal fluidez volitiva da parte requerente. Seria ilógico que a parte contratante tenha celebrado o
referido empréstimo.

Outrossim, a modalidade de empréstimo por link criptografado ou biometria facial não pode ser
genericamente encaminhada aos consumidores, especialmente aos idosos, que não tem a
percepção clara da informação e dos procedimentos que estão sendo adotados.

Assim, tendo em vista que o requerido não se desincumbiu de demonstrar a contratação do


empréstimo consignado, há que se julgar procedente a declaração de inexistência do débito
de []R$ 806,74 (oitocentos e seis reais e setenta e quatro centavos) [] em nome da
requerente referente ao []empréstimo consignado, bem como a anulação do contrato de
empréstimo de nº 346962815- 4 []entre requerente e requerido, devendo este último cessar
os respectivos descontos no benefício da requerente nº 174.433.895-4, para o
reestabelecimento das partes ao status quo.

A Súmula 479 do STJ converge igualmente neste sentido:

Súmula 479 do STJ: " As instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos gerados
por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no âmbito de operações
bancárias."

Por sua vez, não é difícil presumir todo o sentimento de angústia, frustração e desequilíbrio
incidente sobre o requerente com a situação extremamente embaraçosa, um desfecho que
certamente repercute e abala psicologicamente a requerente.

Deste modo, é inquestionável a obrigação indenizatória por parte do Requerido, considerando-se


que a requerente não solicitou o empréstimo consignado.

O Código Civil pátrio dispõe que a violação do direito alheio por ação ou omissão deve merecer
justa reparação, senão vejamos o que diz o art. 186 do CC:

“Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e
causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito.”

Assim, caracterizada a incidência de ato ilícito por parte do Requerido, que contribuiu para o
prejuízo suportado pela requerente, na medida que seu aparato de segurança falhou, deixando a
requerente em estado de insegurança, perturbando a tranquilidade e quebrando a paz de espírito
da mesma, é que este deve proceder à devida reparação civil correspondente aos danos
praticados, a teor do que dispõe o art. 927 da Lei Substantiva Civil e art. 5º, V da Carta
Constitucional.
Passemos então à análise relativa aos danos experimentados pela Requerente e ao quantum
indenizatório.

A Requerente em sua peça vestibular requer indenização material correspondentes aos valores
descontados indevidamente com a respectiva dobra legal. Demonstrados que os descontos foram
feitos indevidamente, faz-se míster a condenação do pedido de indenização por dano material
com a respectiva dobra legal, razão pela qual julgo procedente o pedido de indenização por dano
material com a dobra legal, incidindo juros e correção monetária a partir da data da ocorrência do
dano.

No tocante aos danos morais pleiteados, evidenciado está o nexo de causalidade entre a
conduta ilícita do Requerido e os danos experimentados pela Requerente, uma vez que
indubitavelmente sofreu frustrações e constrangimentos, com abalos emocionais e
psicológicos ante à fraude de que fora vítima e facilitada pelo frágil mecanismo de
segurança do requerido.

Relativamente ao quantum debeatur, este a critério do Magistrado, deve dimensionar o dano


sofrido, bem como suas condições ensejadoras e a capacidade social, financeira e econômica
das Partes, no que se observa que a Requerente é aposentada, e certamente necessita muito
dos valores que foram indevidamente pagos bem como sejam declarados inexistentes o débito
referente ao contrato de empréstimo consignado fraudulento e da dívida contraída com a
utilização de seus dados. Por seu turno, o Requerido é uma das instituições financeiras mais
rentáveis do mercado brasileiro, constituindo-se num império financeiro de relevante porte, logo,
deveria primar pela prudente, correta e zelosa prestação do serviço a que se destina.

Assim é que baseado em tais fontes e no intuito de coibir a reincidência de tal prática ilícita,
condeno o Requerido, dentro da premissa da razoabilidade e possibilidade financeira, a indenizar
a Requerente pela prática de danos morais, no importe de R$ 10.000,00 (dez mil reais),
aplicando-se juros moratórios de 1%a.m desde o ingresso espontâneo do requerido nos autos, ou
seja, 30/12/2022, corrigindo-se, ainda, os valores pelo INPC a partir da data de publicação desta
decisão, até a efetivação do pagamento.

PEDIDO DE COMPENSAÇÃO DA QUANTIA DEPOSITADA


A parte requerida requer em eventual condenação, sejam compensados os valores depositados
na conta da autora. Inobstante o reconhecimento das alegações da parte requerente quanto à
ausência de consentimento para a celebração do empréstimo consignado, objeto da presente
lide, o documento de ID Num 129441557 demonstra que ocorreu o depósito do valor de R$
806,74 (oitocentos e seis reais e setenta e quatro centavos) na conta da autora, devendo referido
valor ser compensado por ocasião do pagamento dos valores determinados na condenação.

Ante o exposto, é que respaldado no que preceitua o art. 487, I, do CPC c/c art. 5º, V e X, da CF
e arts. 186 e 927, do CC, julgo procedente a Ação intentada para 1) Determinar que o
requerido cesse qualquer desconto incidente sobre o benefício da autora nº 174.433.895-4
referente ao empréstimo consignado objeto da lide, sob pena em caso de descumprimento
de multa diária no valor de R$ 300,00 (trezentos reais) até o limite de R$ 30.000,00 (trinta
mil reais); 2) Declarar a inexistência R$ 806,74 (oitocentos e seis reais e setenta e quatro
centavos) em nome da requerente referente ao empréstimo consignado, bem como a
anulação do contrato de empréstimo de nº 346962815- 4 entre requerente e requerido,
devendo abster-se de incluir o nome da autora nos cadastros restritivos do SPC/SERASA
ou retirá-lo caso já tenha ocorrido a inserção; 2) condenar o Requerido a indenizar a
Requerente ao pagamento da indenização pelos danos materiais com a respectiva dobra
legal, incidindo juros e correção monetária a partir da data da ocorrência do dano; 3)
condenar o requerido a indenizar a Requerente pela prática de danos morais, no importe
de R$ 10.000,00 (dez mil reais), aplicando-se juros moratórios de 1%a.m desde o ingresso
espontâneo do requerido nos autos, ou seja, 30/12/2022, corrigindo-se, ainda, os valores
pelo INPC a partir da data de publicação desta decisão, até a efetivação do pagamento; 4)
Deferir o pedido de compensação solicitado pela parte requerida, devendo ser
compensado a quantia de R$ 806,74 (oitocentos e seis reais e setenta e quatro centavos)
do valor devido à requerente a título da presente condenação . Em face da sucumbência,
condeno, ainda, o Requerido ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios,
que ora arbitro em 10% do valor da condenação atualizado.

Deve a parte sucumbente recolher as custas processuais, devendo a UPJ comunicar à Fazenda
Pública o não recolhimento, no prazo legal, para fins de inscrição em dívida ativa, consoante o
art. 46, caput, da Lei Estadual n. 9.217/2021 e legislação correlata.

Apresentados embargos de declaração acerca da presente sentença, intime-se a parte


embargada para apresentação de contrarrazões aos embargos e decorrido o prazo para
manifestação voltem-me conclusos para julgamento dos embargos. Registre-se que a
apresentação de embargos de declaração meramente procrastinatórios ensejará a aplicação da
multa legal pertinente.
Caso ocorra a interposição de apelação, intime-se a parte apelada para apresentação de
contrarrazões e decorrido o prazo, com ou sem manifestação, encaminhem-se os autos ao
Tribunal em grau de recurso.

Após escoado todos os prazos legais e judiciais, nada sendo requerido, arquivem-se os autos

Belém, 28 de novembro de 2024.

ÁLVARO JOSÉ NORAT DE VASCONCELOS

Juiz de Direito Titular da 12ª Vara Cível da Capital

SERVIRÁ A PRESENTE, COMO MANDADO, CARTA E OFÍCIO (PROVIMENTO N° 003/2009 -


CJRMB).

Assinado eletronicamente. A Certificação Digital pertence a: ALVARO JOSE NORAT DE VASCONCELOS - 28/11/2024 11:59:47
[Link]
Número do documento: 24112811594690700000123665886

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