Seokjin
13 de junho ANO 22
Depois de voltar do mar, estávamos sozinhos.
Não mantivemos contato como se tivéssemos planejado
especificamente não fazê-lo. Nós simplesmente assumimos nossa
existência pelos grafites deixados na rua, pelo posto de gasolina
bem iluminado e pelo som do piano no antigo prédio. Foi então que
a imagem daquela noite ganhou vida como uma visão. Os olhos de
Taehyung pareciam cuspir fogo, a maneira como seus olhos me
observavam como se ele tivesse ouvido algo inacreditável. A mão
de Namjoon tentou impedi-lo e eu, que não consegui reprimir, dei
um soco em Taehyung.
Não conseguindo encontrar Taehyung, que saiu correndo, voltei
para o dormitório perto da praia. Ninguém estava lá. Apenas um
copo de vidro quebrado, manchas de sangue que começaram a
secar e migalhas de biscoitos me trouxeram de volta ao que havia
acontecido algumas horas atrás. Havia uma foto no meio disso. Na
foto estávamos juntos sorrindo enquanto posávamos tendo o mar
como pano de fundo.
Continuei passando pela frente do posto de gasolina. O dia em que
nos encontraríamos novamente chegaria. Um dia sorriríamos juntos
como na foto. Chegaria o dia em que eu teria coragem de me
enfrentar inteiramente. Porém, aquele momento, aquele exato
momento não era o momento certo. O vento úmido soprou
semelhante ao daquele dia. Meu telefone começou a tocar como se
fosse um aviso. As fotos que pendurei no espelho do quarto
começaram a tremer. Eu vi o nome de Hoseok na tela.
"Hyung, Jungkook sofreu um acidente de carro naquela noite."
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Jungkook
22 de maio ANO 22
Achei que meu corpo estava flutuando, mas na verdade era o
chão duro. Não consegui sentir nada por um tempo. Meu corpo
parecia insuportavelmente pesado. Eu não conseguia nem abrir
as pálpebras.
Eu não conseguia engolir ou respirar. Minha consciência estava se
dispersando e tudo estava gradualmente ficando mais escuro.
Mas então, de repente, todo o meu corpo começou a tremer,
como se tivesse se chocado com alguma coisa. Abri meus olhos
em meio à dor e agonia desconhecidas. Uma luz fraca entrou em
minha visão além da minha visão desconfortável, que parecia
estar bloqueada pela areia. Ele não se moveu e apenas flutuou
no ar. A figura ficou clara depois de ficar olhando por um longo
tempo. Foi a lua.
Minha cabeça deve ter virado para trás porque o mundo virou de
cabeça para baixo. Naquele mundo, a lua também estava de
cabeça para baixo. Tentei tossir para respirar, mas não consegui
me mover. E então uma rajada de ar frio me atingiu. Eu fiquei
assustado. Tentei mover meus lábios, mas nenhuma palavra saiu.
Não fechei os olhos, mas eles começaram a escurecer
gradualmente. Alguém falou comigo enquanto eu perdia
lentamente a consciência.
“Viver vai ser mais doloroso que a morte. Mas você ainda quer
viver?”
2
Seokjin
03 de Agosto, ANO 22
Abri a porta da sala de aula de armazenagem e entrei. No ar
desagradável de uma noite de verão, o cheiro de mofo e poeira se
misturavam. Por um momento, várias cenas se passaram pela minha
cabeça. Os sapatos brilhantes do diretor, a expressão do Namjoon
quando estava do lado de fora da porta, o dia em que evitei o
Hoseok e voltei sozinho. De repente, senti uma dor na cabeça e senti
um calafrio. Sentimentos complexos me dominaram como uma dor,
uma dor que podia ser chamada de raiva, e podia ser chamada de
medo. Todos os sinais que senti com meu corpo e meu coração eram
claros. Eu tinha que sair deste lugar.
Taehyung agarrou meu braço, talvez tendo lido minha expressão,
“Hyung, tente um pouco mais. Tente se lembrar do que aconteceu
aqui”. Sacudi as mãos do Taehyung e me virei. Nós estávamos
andando no calor por horas. Nós estávamos exaustos. Os outros
olhavam para mim como se não soubessem o que dizer. Memórias.
Memórias que Taehyung me falou eram apenas histórias sem sentido
para mim. Histórias sobre aquela coisa que fiz, aquela coisa que
aconteceu comigo, aquela coisa que fizemos juntos. Nós poderíamos
ter feito isso. Parecia que poderíamos. Mas as memórias não são
aceitação ou compreensão. Não são interpretação de uma
experiência. É algo que tem que enraizar profundamente em seu
coração, sua mente, sua alma. Mas, para mim, todas as memórias
que permaneciam neste lugar eram coisas ruins. Coisas que me
fizeram sofrer, coisas que me fizeram fugir.
Uma briga começou quando eu decidi sair e Taehyung tentou me
impedir. Mas estávamos exaustos. Nossa tentativas de bater,
esquivar e empurrar pareciam lentas e pesadas, como se
estivéssemos nos movendo em um líquido quente e viscoso.
3
Num piscar de olhos, as pernas do Taehyung se emaranharam com as
minhas. Eu estava me perguntando se meus ombros tinham batido
contra a parede quando, no momento seguinte, eu perdi o equilíbrio e
cambaleei.
A princípio, eu não tinha ideia do que aconteceu. Por causa da poeira
espessa, eu não conseguia abrir meus olhos e nem respirar. Eu tive um
ataque de tosse. “Você está bem?”, alguém perguntou, e eu percebi
que eu tinha caído no chão. Me levantei e vi que, o que eu achava que
era uma parede, de fato era, e havia desmoronado. Além da parede
havia um espaço enorme. Por um momento ninguém se moveu.
“Meu Deus! Nós passamos tanto tempo aqui…”, alguém disse. Ninguém
poderia imaginar que esse espaço existisse do outro lado da parede.
“Mas o que é aquilo?”, conforme a poeira baixava, nossos olhos viram
um armário em pé no meio do espaço vazio.
Namjoon abriu a porta do armário. Eu dei um passo para frente, dentro
havia um caderno. Namjoon pegou o caderno e virou a primeira
página. Por um momento, prendi minha respiração.
Na primeira página do caderno antigo havia um nome inesperado, Era
o nome do meu pai. Eu tomei o caderno quando Namjoon estava
prestes a virar outra página. Ele me olhou surpreso, mas eu não me
importei. Eu folheei as páginas com meus dedos como se elas
estivessem prestes a desmoronar. O caderno, escrito à mão pelo meu
pai, era um diário sobre o que ele e seus amigos fizeram juntos no
ensino médio. Não relatava todos os dias. Às vezes pulava um mês, e
havia algumas páginas ilegíveis cobertas com algo parecido com
sangue. Ainda assim, eu entendi que meu pai passou pelas mesmas
coisas que eu passei, que ele cometeu erros e mancadas como eu e
que ele correu e correu para tentar compensar isso.
O caderno do meu pai era um registro de seus fracassos. No final, ele
fracassou e desistiu. Ele esqueceu, se virou e ignorou. Ele traiu seus
amigos. Na última página do diário não havia nada além de manchas
de tinta preta.
3
A tinta manchou a página em branco depois dela, e a próxima, até a
última página. Aquelas manchas eram uma evidência do fracasso de meu
pai.
Perdi a noção de quanto tempo passou. Olhando para o vento que
soprava pela janela que começava a parecer mais fria, devia ser a hora
mais escura do dia, antes do sol nascer. Namjoon e os outros estavam
sentados, dormindo. Levantei minha cabeça e olhei para a parede. Em
algum lugar por aqui eu vi o nome do meu pai escrito antes. Debaixo dele
havia uma frase. ‘Tudo começou daqui’.
Quando eu estava prestes a fechar o caderno, uma sensação começou no
topo dos meus dedos e se moveu para meus braços. No topo das manchas
de tinta, letras borradas vieram à minha vista. Senti o ar nebuloso do lado
de fora da janela. Parecia que o sol nasceria logo. Mas a noite ainda não
havia terminado. Não era nem noite nem amanhecer. Como a escuridão
entrelaçada com a luz acinzentada, letras emergiram entre as linhas na
macha negra.
O caderno guardava mais lembranças do que as gravadas. No topo das
cartas, entre as margens e os espaços vazios estava o que meu pai
decidiu esquecer, o que meu pai decidiu não lembrar. A cor tinha
desaparecido, mas abaixo dos meus dedos rodopiavam as muitas lutas e
medo do que meu pai, o desespero que ele não conseguiu superar e suas
frágeis esperanças. O mapa para a alma distorcida do meu pai estava
bem aqui.
Quando fechei o caderno, lágrimas começaram a cair. Eu sentei por um
longo tempo e quando me virei, meus amigos ainda estavam dormindo. Eu
olhei para cada um deles. Talvez tínhamos que voltar para este lugar.
Tudo começou aqui para nós. Aprendemos sobre o significado de estar
juntos e a alegria de rir juntos. Minha primeira mancada, meu primeiro erro
que nunca consegui admitir, permanecia como uma ferida.
O pensamento de que nada disso era uma coincidência passou pela
minha cabeça. Talvez eu tinha que vir para este lugar, no fim. Só então eu
seria capaz de encontrar o significado dos meus erros e mancadas, e da
dor e ansiedade que sofremos como resultado. Eu fui, pela primeira vez,
capaz de dar o primeiro passo para encontrar o mapa da minha alma.
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