0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações5 páginas

Reconstrução do Construtivismo nas RI

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações5 páginas

Reconstrução do Construtivismo nas RI

Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

RECONSTRUÇÃO DO CONSTRUTIVISMO

O Construtivismo como Metateoria


O que é uma metateoria reflexiva?
 Uma metateoria não é uma teoria substantiva que faz afirmações diretas sobre
como o mundo funciona.
 Em vez disso, ela atua como uma "teoria sobre teorias", fornecendo ferramentas
e diretrizes para a construção e avaliação de teorias em um determinado campo.
Por que o construtivismo é reflexivo?
 O construtivismo reflete criticamente sobre os pressupostos que sustentam as
abordagens teóricas tradicionais.
 Ele questiona, por exemplo, a ideia de que as relações internacionais são regidas
exclusivamente por leis naturais ou verdades imutáveis, como sugerido pelo
realismo estrutural de Kenneth Waltz.
Duas dimensões centrais da metateoria construtivista
1. Epistemologia:
o O conhecimento é socialmente construído e não deriva apenas da
observação neutra de "fatos".
o Exemplo: A ideia de "segurança nacional" não é um fato bruto, mas um
conceito moldado por práticas discursivas e culturais.
2. Ontologia:
o A realidade social é intersubjetiva, ou seja, existe através do
compartilhamento de significados entre indivíduos e grupos.
o Exemplo: A soberania estatal só existe porque há um acordo
intersubjetivo entre Estados de que cada um possui autoridade sobre seu
território.
Implicações para as Relações Internacionais
 O construtivismo altera o foco de questões exclusivamente materiais (poder
militar, recursos econômicos) para fatores sociais e normativos, como ideias,
valores e identidades.
 Ele argumenta que as estruturas internacionais são moldadas por práticas
humanas e podem ser transformadas por meio de mudanças nas normas e
significados.

2. Crítica ao Ecletismo e Redundância


Ecletismo: O perigo da incoerência
 Definição: O ecletismo ocorre quando se utiliza a "construção social" como uma
ideia genérica sem respeitar os fundamentos teóricos do construtivismo.
 Exemplo de uso eclético: Um pesquisador poderia afirmar que "as normas
sociais afetam as preferências dos Estados" sem explicar como essas normas são
formadas, sustentadas ou contestadas. Isso dilui a abordagem construtivista,
transformando-a em um "jargão vazio".
Redundância: Reembalagem de ideias antigas
 Definição: A redundância surge quando o construtivismo é usado apenas para
reforçar teorias já existentes, sem oferecer insights novos ou mudanças
substantivas.
 Exemplo de uso redundante: Reinterpretar as teorias de regimes internacionais
de Stephen Krasner (1982) como "construtivistas" porque ele reconhece o papel
das ideias, sem incorporar os conceitos mais profundos de intersubjetividade e
reflexividade.
Por que isso é problemático?
 O uso superficial do construtivismo desvaloriza sua capacidade de questionar
pressupostos tradicionais e oferecer explicações mais robustas sobre fenômenos
sociais e políticos.
Resposta de Guzzini
 Ele propõe uma reconstrução sistemática do construtivismo, centrada em
princípios teóricos claros e coerentes, para evitar que a abordagem perca sua
força explicativa.

Reflexões Adicionais
Como diferenciar uma abordagem genuinamente construtivista?
 Um estudo construtivista autêntico deve explorar a origem e o processo de
construção de significados sociais.
 Exemplo: Analisar como a norma de "responsabilidade de proteger" (R2P)
emergiu e foi consolidada nas Nações Unidas, em vez de apenas constatar que
ela influencia decisões políticas.
Conexão com a Reflexividade
 Reflexividade significa que os pesquisadores e os próprios atores sociais estão
conscientes de que suas ações e crenças são moldadas por significados
intersubjetivos.( Significados intersubjetivos são significados compartilhados
entre indivíduos dentro de um grupo ou sociedade. Eles surgem e se mantêm
através da interação social e do consenso coletivo. Esses significados não
existem isoladamente na mente de um único indivíduo, nem são apenas
características materiais do mundo físico. Eles dependem de um entendimento
comum, construído e mantido por práticas sociais e culturais.)
 Isso implica que tanto cientistas quanto políticos podem reavaliar e mudar as
normas que sustentam a realidade social.
ORIGENS HISTÓRICAS DO CONSTRUTIVISMO
Guzzini situa o surgimento do construtivismo em dois contextos históricos principais:
1. Modernidade Reflexiva
Conceito desenvolvido por Ulrich Beck, sugere que a modernidade se tornou
autoconsciente de seus próprios limites e contradições, como:
 O impacto de desastres ecológicos, fome e crises globais.
 A perda da fé no progresso técnico e racionalidade como soluções universais.
 Reflexividade: A modernidade passou a questionar seus próprios fundamentos.
Nas Relações Internacionais, isso levou à percepção de que:
 A sociedade internacional não é universal; é um produto histórico e cultural
europeu, como demonstrado pela crise de legitimidade do sistema após a
descolonização e o pluralismo cultural.
2. Fim da Guerra Fria
O colapso da Guerra Fria demonstrou que:
 As estruturas internacionais não são objetivas ou fixas; são produtos das práticas
humanas.
 Mudanças, como o "New Thinking" de Gorbachev, mostraram que o sistema
internacional pode ser transformado pela ação normativa e intersubjetiva.
Ponto Crítico:
O construtivismo argumenta que teorias tradicionais falharam ao não prever o fim da
Guerra Fria porque ignoravam a construção social das normas e identidades que
moldam a política internacional.

PRINCÍPIOS CENTRAIS DO CONSTRUTIVISMO


Guzzini identifica três pilares centrais do construtivismo:
1. Construtivismo Epistemológico
 Epistemologia: O estudo do conhecimento.
 Crítica ao empirismo e positivismo:
o O empirismo acredita que os dados falam por si; o construtivismo
argumenta que a observação depende de teorias e conceitos.
o O positivismo iguala ciências naturais e sociais; o construtivismo
defende que ciências sociais são diferentes porque lidam com
significados intersubjetivos.
Dupla Hermenêutica:
 Desenvolvida por Anthony Giddens, a dupla hermenêutica destaca que:
o Cientistas sociais interpretam ações humanas que já possuem
interpretações próprias (ex.: um semáforo vermelho é entendido
culturalmente como "pare").
o Esse processo é reflexivo: as interpretações acadêmicas podem
influenciar as ações dos próprios atores sociais.
2. Construtivismo Ontológico
 Ontologia: O estudo do ser e da realidade.
 O construtivismo distingue:
o Fatos brutos: Existem independentemente de significados humanos
(ex.: montanhas).
o Fatos institucionais: Dependem de significados atribuídos socialmente
(ex.: dinheiro, soberania).
 A realidade social é construída por significados intersubjetivos, como normas,
identidades e práticas compartilhadas.
Exemplo de John Searle:
O dinheiro é um fato institucional: um pedaço de papel só tem valor porque atribuímos
a ele essa função.
3. Poder e Reflexividade
 O poder é central no construtivismo porque conecta observação e ação:
o Quem define os significados controla a realidade social.
o O poder legitima práticas e normas, mas também pode ser contestado por
narrativas alternativas.

CONSTRUTIVISMO E AS RELAÇÕES INTERNACIONAIS


Guzzini analisa como o construtivismo se aplica às RI:
 Ele questiona os fundamentos do mainstream, como o realismo e o
racionalismo, ao enfatizar que:
o Normas, ideias e identidades são tão importantes quanto fatores
materiais.
o As regras do sistema internacional são construídas e podem ser
transformadas.
Duelo entre Escolas de RI
1. Realismo:
o Vê a anarquia como permanente e os Estados como racionais, buscando
maximizar poder e segurança.
o Ignora o papel das normas e identidades na formação dos interesses
estatais.
2. Construtivismo:
o Mostra que a anarquia é "o que os Estados fazem dela" (Wendt, 1992).
o Argumenta que normas intersubjetivas moldam interesses e
comportamentos.

CONEXÕES COM TEORIA SOCIAL


Guzzini utiliza contribuições de teóricos sociais para sustentar o construtivismo:
1. Pierre Bourdieu e o Habitus
 Habitus: Conjunto de disposições sociais internalizadas que guiam o
comportamento dos atores.
 Na política internacional, o habitus reflete práticas diplomáticas, normas de
conduta e formas de poder institucionalizado.
2. Thomas Kuhn e Paradigmas
 Paradigmas são "mundos de significado" que moldam como a ciência vê o
mundo.
 No construtivismo, o sistema internacional é um paradigma que reflete
significados intersubjetivos, como soberania e segurança coletiva.

Você também pode gostar