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Mímica Total: Arte e Pesquisa no Brasil

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L. Fernando
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CADERNOS DA MÍMICA: OS GRANDES MESTRES

A MÍMICA
TOTAL
UMA ARTE BRASILEIRA

por LUIS LOUIS


É Total porque integra criação e obra,
razão e emoção, mente e corpo,
indivíduo e coletivo, visível e
invisível. É Mímica porque é
corporificação, é afirmação de um
acontecimento, é ação, é criação, é
vida.
(Luis Louis)

estudio@[Link] WWW. LUI SLOUI S. COM. BR


BEM VINDO! [Link]

Índice
03 Capítulo I 07 Capítulo II 11 Capítulo III

O ESTÚDIO LUIS MÍMICA TOTAL: O MANIFESTO DA


LOUIS: CENTRO DE UMA ARTE MÍMICA TOTAL
PESQUISA E BRASILEIRA
CRIAÇÃO DA
MÍMICA TOTAL
DO BRASIL

15 Capítulo IV
20 Capítulo V
24 Anexos

O CORPO TEATRO FÍSICO REFERÊNCIAS


PENSANTE DA OU BIBLIOGRÁFICAS
MÍMICA TOTAL E SIMPLESMENTE
DO TEATRO MÍMICA
FÍSICO
Capítulo I

O Estúdio Luis Louis: Centro de


Pesquisa e Criação da Mímica
Total do Brasil
Em 1992, já formado em Artes Cênicas, deixei meu país rumo
ao Reino Unido. Foram três os motivos que me impulsionaram a
partir. O primeiro, foi sentir um grande descontentamento com
as perspectivas da minha carreira como ator no Brasil. Na
minha formação teatral, o ator ocupava uma posição muito
frágil na criação artística, pois seu trabalho se iniciava somente
após receber o texto da peça. A hierarquia era bem definida: no
topo, o autor e o produtor; em seguida, o diretor, os técnicos
teatrais, os cenógrafos, os figurinistas e, no final da pirâmide, o
ator-intérprete.
A minha perspectiva era a de estar a serviço de um texto
obedecendo às vontades do diretor. Poderia, também, batalhar
comerciais na TV e se tudo desse certo, novelas. Achei melhor
não!
O segundo motivo foi a situação do meu país que sofria de
desgoverno, de impeachment, falcatruas...tudo com o que já
estamos familiarizados a ler nos jornais.
O terceiro, mas não o último, o desejo de me aventurar ao
desconhecido, o de desbravar novos horizontes.
Em Londres, depois de trabalhar como faxineiro, entregador de
jornais, ajudante de cozinha, garçom e barman inscrevi-me num
curso de Mímica de um tal Desmond Jones. Até hoje não
compreendo bem como fui parar naquela escola, pois achava a
Mímica chata, mesmo sem conhecê-la. No primeiro dia de aula,
esperava encontrar aqueles jogos de adivinhação sem falas,
mas surpreendentemente encontrei uma outra coisa, um outro
horizonte, iluminado, potente e, o mais importante, encontrei
uma arte ensinada por um grande mestre que mudou a minha
vida. Com a Mímica, aprendi que o trabalho do ator começa na
sua vida, no seu desejo criativo.
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Que o ator é central na criação e deve organizamos e produzimos material de


colaborar de igual maneira com o autor e pesquisa (livros, apostilas e vídeos), além
o diretor. de outras atividades relacionadas a essa
Aprendi que não nos falta nada e que a área.
arte não é o espaço do possível e, sim, do O trabalho artístico do estúdio integra o
impossível. Com um espaço vazio, a gente pensamento, o corpo e a voz na figura do
pode tudo. O nosso trabalho não é o de ator-criador, para que ele participe de
sentar-se ao lado do telefone esperando todo o processo artístico, da autoria à
um convite para atuar, ou o de entrar atuação.
numa maratona de testes para fazer não A arte, que trabalhamos, é o espaço-
sei o quê. É, sim, o de tomar posse de sua tempo onde se cria novas realidades e
carreira, de seus desejos, de sua vida e de quebram-se as representações cotidianas.
sua ação! Ela afirma a vida em sua plenitude,
Desmond Jones me ensinou o mais revelando o que se passa despercebido
refinado ofício da arte do ator. Dessa arte no dia a dia.
que não depende do texto, da música, do A inauguração desse espaço celebrou um
edifício teatral, do produtor, dos percurso de mais de vinte anos de
patrocínios, mas unicamente da vontade pesquisa, na área da Mímica e do Teatro
e da dedicação. Físico, que incluiu cinco anos de
E foi com essa vontade e com esse experiência no Reino Unido, passando
desejo, que fundei em março de 2005, o por vários profissionais renomados dessa
Estúdio Luis Louis - Centro de Pesquisa e arte na Europa, uma delas tem um maior
Criação da Mímica Total do Brasil. destaque: a Desmond Jones School of
Contando com uma equipe de Mime and Physical Theatre. Vários
profissionais, desenvolvemos os trabalhos trabalhos de criação e atuação
e os espetáculos da companhia, do aconteceram, no Royal National Theatre,
Laboratório de Pesquisa e Criação da na The School of the Science of Acting,
Mímica Total, os cursos de formação, a no Riverside Studios em Londres, além de
assistência a grupos de mímica, de circo, ter dirigido e atuado em vários teatros da
de teatro, de dança e de performance, Europa. No Brasil, a criação desse
conceito contou com a parceria de uma
extensa equipe de artistas-pesquisadores, acadêmicos,
filósofos e estudiosos das ciências cognitivas.
Em 2006, o Estúdio Luis Louis criou o Laboratório de Pesquisa
e Criação da Mímica Total. Um projeto a longo prazo,
coordenado por mim, que reúne um grupo de artistas-
pesquisadores para um estudo contínuo, cotidiano e
aprofundado sobre a Mímica Total.
É um trabalho diário de treinamento técnico, teórico e prático,
sobre os fundamentos da Mímica Total.
Inspirado nos grandes mestres do teatro, que dedicaram
muitos anos de suas vidas à pesquisa, esse Laboratório
estabelece uma base técnica e artística sólida, formando
artistas vigorosos e muito bem preparados e aprofundando-se
em campo inédito, ao propor, pesquisar e desenvolver o que
chamamos de Mímica Total.
O Laboratório inspira-se na linha francesa de pesquisadores
Jacques Copeau, Etienne Decroux, Jean Louis Barrault,
Antonin Artaud, Jacques Lecoq; em união com os mestres da
linha russa Stanislavski, Meyerhold, se estendendo a
Grotowski, Eugênio Barba, Desmond Jones; além do brasileiro
Luis Otávio Burnier, todos eles envolvidos em processos
longos e continuados, com resultados extremamente valiosos,
ricos e duradouros, que repercutem pelo mundo todo até hoje.
Esse trabalho tem a proposta de romper com as divisões entre
artes, filosofia e ciência. Com isso integra em sua prática a
filosofia afirmativa da vida pelas ideias de Bergson, Spinoza,
Nietzsche, Foucault, Deleuze, entre outros e das ciências
cognitivas. Para direcionar os estudos de Filosofia no
Laboratório contamos com o filósofo Luiz Fuganti, fundador da
Escola Nômade de Filosofia. Na coordenação dos estudos de
Ciências Cognitivas, tivemos a doutora Christine Greiner.
A pesquisa desenvolvida conquistou amplo reconhecimento
no meio artístico e também no acadêmico que me concedeu os
títulos de Notório Saber e Mestre.
Atualmente, o Centro de Pesquisa é uma importante
referência dessa arte no Brasil e no exterior, que já recebeu
para intercâmbios importantes profissionais estrangeiros,
como: o inglês Desmond Jones e o argentino Daniel Berbedés.
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E foi o que aconteceu, Desmond Jones já


possuía uma carreira e uma intensa vida
profissional antes de seus estudos com
Decroux.
Somados a eles, nomes de peso do nosso
país, como Eduardo Coutinho, Gabriel
Guimard, Miquéias Paz, Mauro Zanatta,
Fernando Vieira, Alberto Gaus, Tiche
Vianna, Ésio Magalhães, Carlos Simioni,
Ricardo Napoleão e outros.
Uma infinidade de artistas e grupos
teatrais já receberam os ensinamentos da
Mímica Total por mim ministrados, como
os atores Rodrigo Santoro, Letícia
Sabatella, Carolina Oliveira, Stênio Garcia,
Osmar Prado, Ricardo Blat, Juliana
Carneiro da Cunha, Daniel de Oliveira,
Leandra Leal, Fabio Vidal, Vinícius
Piedade, Esther Góes, Fabio Lins,
Fernando Muylaert, Marcos Damigo,
Alessandra Maestrini, Rui Ricardo Dias,
Mark Duncan entre outros.
Esse estúdio contempla um grande
desejo meu, o de poder oferecer, aqui, no
Brasil, cursos, oficinas e workshops nessa
área com a mesma qualidade e seriedade
encontrada nas grandes escolas
européias, em condições muito mais
acessíveis, valorizando, assim, nossos
artistas e propiciando-lhes alternativas
para que não necessitem mais deixar o
país para estudar, como eu mesmo tive
que fazer.
Capítulo II

A Mímica Total: uma Arte


Brasileira
A Mímica Total é um salto e um mergulho nos conceitos do
Teatro Físico, em união com pesquisas recentes das Ciências
Cognitivas e da Filosofia. É um aprofundamento na ideia do
ato total, que integra pensamento, corpo e voz na figura do
ator-criador. Entende a mímica como ato de corporificação,
que se manifesta tanto objetivamente (característico, da
Pantomima), como subjetivamente (Mímica Moderna), sem
divisões entre razão e emoção. O corpo não é mais
considerado um instrumento/máquina a serviço da mente,
mas é o próprio pensamento.
É Total porque integra os vários gêneros da mímica, da
criação e obra, do corpo e voz, da razão e emoção, da mente
e corpo, do indivíduo e coletivo, do visível e invisível. É
Mímica porque é corporificação, é afirmação de um
acontecimento, é ação, é criação, é afirmação da vida.
A Mímica Total é um rompimento radical com a forma de
pensar o corpo como uma máquina compartimentada,
dividida em mente, cérebro e corpo. Entende o corpo como
um organismo vivo integrado que interage diretamente com
o meio ambiente, afetando e sendo afetado por ele. O
Mímico Total não possui e controla um corpo, ele é o seu
corpo, um corpomídia de si mesmo.

O corpo não é um recipiente, mas sim aquilo que se apronta nesse


processo co-evolutivo de trocas com o ambiente. E como o fluxo não
estanca, ele vive neste estado do sempre-presente(...) Não é um meio por
onde a informação simplesmente passa, pois toda a informação que
chega entra em negociação com as que já estão. O corpo é o resultado
destes cruzamentos, e não um lugar onde as informações são apenas
abrigadas. É com esta noção de mídia de si mesmo que o corpomídia lida,
e não com a idéia de mídia como veículo de transmissão.
(GREINER, 2005, p.131)

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A figura do Mímico alimenta esse estudo por habitar essa zona de


acontecimento, no entretempo da corporificação do virtual em estados de
coisas atuais como diz o filósofo Gilles Deleuze:

Um mímico como este não reproduz o estado das coisas, como também
não imita o vivido, mas extrai o acontecimento ou a parte do que não se
deixa atualizar, a realidade de um conceito... Ele é o personagem
conceitual que opera o movimento infinito.
(DELEUZE, 1992, p.208)

Para o semioticista Charles Peirce o único modo de comunicar uma idéia é por
meio do ícone, um quase signo que seria como a primeiríssima apreensão das
coisas, um modo imediato que já é mediado pelo nosso “estar no mundo”, mas
ainda é vago impreciso e indeterminado. Esse é o palco do mímico, o das
impossibilidades e do indeterminado, o de criar novas realidades.
A origem da palavra mímica vem de mímesis, que é imitação. Mas não só a
imitação feita do plano que se vê, mas daquilo que é intrínseco à Natureza, que
faz a natureza ser natureza, ou seja, a criação.
A grande questão que se apresenta é como reconhecer esse grau de
comunicação e potencializar o seu entendimento nas práticas e nos
treinamentos nas artes cênicas a fim de se desfazer algumas confusões que
ajudam a perpetuar uma visão reducionista do corpo e da cultura nas práticas e
ensinamentos das artes cênicas. Como diria Antonin Artaud:

Protesto contra a ideia separada que se faz da cultura, como se de um


lado estivesse a cultura e do outro a vida; como se a verdadeira cultura
não fosse um meio refinado de compreender e de exercer a vida.
(ARTAUD, 1991, p.4)
A Mímica Total ganhou visibilidade no Brasil em 2005 com a
fundação do Estúdio Luis Louis - Centro de Pesquisa e Criação
da Mímica Total do Brasil. A criação deste conceito contou
com a parceria de uma extensa equipe de artistas-
pesquisadores, acadêmicos, filósofos e estudiosos das ciências
cognitivas.
Em 2007, o Estúdio Luis Louis foi reconhecido oficialmente
pelo governo ao receber a premiação máxima do Ministério da
Cultura com o prêmio de pesquisa para o teatro "Funarte
Miriam Muniz" para o projeto "Manifesto da Mímica Total". Em
2008, este Centro de Pesquisa foi contemplado, pela
prefeitura de São Paulo, com a Lei de Fomento ao Teatro, para
prosseguir com a pesquisa "A Dramaturgia da Mímica Total".
Nesse espaço, desenvolve-se a pesquisa do Laboratório de
Pesquisa e Criação da Mímica Total, a criação de espetáculos,
performances e cursos. Oferece assistência a grupos de
teatro/dança/circo/performance, organiza e produz material
de pesquisa (livros, estudos registrados e vídeos), além de
outras atividades relacionadas a essa área.
Em 2009, realizou-se o 2º Manifesto da Mímica Total do Brasil
sediado, pela segunda vez, no Centro Cultural de São Paulo.
Esta última edição se caracterizou pelo imenso sucesso de
público e da crítica. Em 2011, Desmond Jones veio pela
primeira vez ao Brasil, para o 3º Manifesto da Mímica Total,
receber uma homenagem e conhecer o trabalho aqui
desenvolvido. Em São Paulo ele me confidenciou sua
admiração ao alto nível da pesquisa e, principalmente a
qualidade potente e refinada de um grupo de 22 mímicos,
formados no nosso estúdio, que mergulharam com ele, numa
imersão de 30 horas.
Em 2014 acontecerá a 5ª edição do Manifesto. O Centro de
Pesquisa é uma referência dessa arte no Brasil e no exterior e
recebe anualmente diversos artistas-pesquisadores de outros
estados e países.
Entendo a mímica não somente como um gênero artístico, mas
principalmente como um ato total de corporificação da vida
que afirma sua potência no pensamento, no corpo e na voz.

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É a totalidade desse conceito que direciona esta pesquisa e
não a visão específica ou purista de um gênero ou estilo de
arte, mas, principalmente, no fenômeno de tornar visível o
invisível.

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Capítulo III

O Manifesto da Mímica Total


A arte não cria mentiras. As representações e as criações de máscaras
acontecem freqüentemente no nosso cotidiano. A arte é o espaço-tempo onde
se cria realidade e quebram-se as representações. Ela afirma a vida em sua
plenitude, os sentimentos, as alegrias, as dores, o ridículo do ser humano,
revelando o que se passa despercebido no dia a dia.
A arte não mostra, ela revela. Ela não é um espelho da sociedade, mas a própria
realidade.
A arte de corporificar idéias, emoções, sentimentos, de atualizar e presentificar
o virtual em realidade física e vocal, a arte do ser, do estar presente, essa é a
Mímica.
Por ser uma arte que trata diretamente do movimento da vida, da ação, ela
existe desde os primórdios da humanidade e já era encontrada nos ritos
primitivos. Ela teve diferentes fases em seu desenvolvimento, passando por
vários gêneros e estéticas que vão do trágico ao cômico. Na Mímica Clássica o
gênero da pantomima foi o mais conhecido. Na Moderna, foram a Mímica
Corporal Dramática e a Mímica Subjetiva. A Mímica Contemporânea é mais
conhecida pelo nome de Teatro Físico que tenta se dissociar do conceito de arte
silenciosa (pantomima) e enfatizar também a mímica vocal, isto é, a
corporificação dos sons do pensamento, da respiração e da Natureza.
O Mímico fala, canta, grita. A mímica dos ritos primitivos já incorporava gestos e
sons. Na Antiguidade, os mímicos gregos e romanos utilizavam falas e textos
escritos em suas encenações.
É no gênero da pantomima que não há falas, onde a narrativa gestual acontece
no silêncio.
Por presentificar a vida, a mímica é encontrada nas mais diversas áreas. Existe a
mímica do artista plástico, do bailarino, do ator tradicional, da vida cotidiana. De
fato, onde há vida há mímica. Pintores e escultores são mímicos fantásticos.
Como dizia Lecoq, “A habilidade de Picasso de desenhar um touro dependeu
dele ter achado a essência do touro nele mesmo, que liberou as formas dos
gestos em sua mão.
Ele fazia mímica. O ato da mímica é literalmente o de
corporificar e, portanto, compreender melhor”. O bailarino ao
corporificar uma sensação na ação dançada está fazendo
mímica, assim como o ator de teatro tradicional que, ao
corporificar o subtexto e os monólogos interiores do
personagem na ação física e vocal, pratica a mímica. Os nossos
gestos cotidianos e expressões são frutos do ato de
corporificação, ou seja, da mímica. Ela é uma maneira de
descobrir e redescobrir a vida com um frescor renovado.
Quando alguém nos pede para fazer a mímica de alguma ação
que já se tornou automática em nosso dia a dia, precisamos
nos sensibilizar novamente a todos os detalhes para poder
realizá-la. Torna-se um ato de conhecimento.
A Mímica Total enxerga a mímica como um ato total, que
afirma a potência da vida no pensamento, corpo e voz
integrados na figura do ator-criador. É a sua totalidade que me
interessa e não a visão específica ou purista encontrada nos
modernistas e nem num gênero de estilo, e sim no seu todo
que torna visível o invisível. Não me interessa os gêneros mas
a arte. A Mímica Total recebe de braços abertos a Mímica
Antiga, Clássica, Moderna e Contemporânea em sua totalidade
e não em uma visão reducionista e limitante de partes isoladas.
Com isso, os vários gêneros são incorporados e bem-vindos, o
tanto que não se desconectem do mais importante que é a
afirmação da vida. É necessário esclarecer que o todo a que
me refiro não é a soma das partes, pois por mais que somemos
as várias partes de um sistema algo se perde nesse cálculo. O
ato total é artístico, científico e filosófico ao mesmo tempo.
É um rompimento radical com a forma de pensar o corpo como
uma máquina compartimentada, dividida em mente, cérebro e
corpo. Ela entende o corpo como um organismo vivo integrado
que interage diretamente com o meio ambiente, afetando e
sendo afetado por ele.
Aqui, o corpo não é mais considerado um instrumento do
pensamento, mas o próprio pensamento. O ator da Mímica
Total não possui e controla um corpo, ele é o seu corpo. Ele
não é só uma anatomia com articulações, tecidos, órgãos,
músculos, mas sim um organismo vivo e afirmativo: o corpo
como vontade de potência.
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A Mímica Total é a afirmação da “arte de ator” e da sua
intensa presença. Quando escrevo “arte de ator” eu relembro
Etienne Decroux que se referia a uma arte que lhe é
ontológica, do ser ator; e não uma arte do ator, pois não lhe
pertence, ele não é o seu dono, mas quem a concebe e
realiza.
A genealogia etimológica da palavra, theátron, significa “o
espaço onde se vê”, o edifício. Portanto, teatro é o espaço
onde se encontram diversas artes, literatura, artes plásticas,
arquitetura, música e etc... Quando falamos de teatro como
arte, por um vício, uma deturpação, ou simplesmente um
hábito de linguagem, referimo-nos à arte de ator.
Poderíamos retirar o texto literário, os cenários, os figurinos,
a música e até mesmo o edifício teatral que mesmo assim,
restando somente o ator e o expectador, a arte de ator
resiste. E, na sua essência encontra-se a Mímica.
A origem dessa palavra, vem de mímesis, que é imitação. Mas
não a imitação feita do plano que se vê, mas daquilo que é
intrínseco à Natureza, que faz a natureza ser natureza, ou
seja, a criação. Por isso a Mímica Total necessita de um ator-
criador que assume a potência que tem em si por ser,
também, natureza. Ela rompe drasticamente com o
textocentrismo e a sujeição do teatro à literatura. O mímico
e, quando digo mímico refiro-me ao ator-criador, que assume
o centro da criação por inteiro, é autor e obra ao mesmo
tempo, diferente do ator-intérprete que inicia o seu trabalho
após receber o seu texto. Aqui, a dramaturgia é entendida
como drama ergon, isto é, o trabalho das ações, o texto como
a tecedura das ações físicas, e a ação como o próprio
corpo/pensamento. A dramaturgia é a do corpo em vida e
não a do texto escrito.
Por que o cantor pode cantar suas composições e letras, o
artista plástico pintar auto-retratos, o escritor escrever seus
próprios pensamentos e somente o ator tem que ficar atrás
de um personagem, interpretar textos e pensamentos de
outros e restringir-se a uma hierarquia teatral?
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Não aceito a ditadura da escrita na arte de ator. Por ser o corpo fruto de um
acontecimento, de uma força ativa e indissociavelmente integrado, ele é
considerado corpo-pensante, eliminando, assim, qualquer visão
compartimentada, reducionista e cartesiana.
Entendendo o corpo como o próprio ser, a Mímica Total afasta-se da
representação ficcional e compreende a sua presença como integrante do ato
artístico. O ator-performer afirma as suas idiossincrasias e o seu ser na persona
e não na identificação com a personagem de uma obra. Nessa construção, ele
rompe com a dualidade ficção/realidade e, com isso, o ator-criador serve-se das
personagens para fortalecer a expressão de seus pensamentos, de suas
indignações e não para ficar atrás delas e se anular numa tentativa de encarná-
las.
É Total porque integra criação e obra, razão e emoção, mente e corpo, indivíduo
e coletivo, visível e invisível. É Mímica porque é corporificação, é afirmação de
um acontecimento, é ação, é criação, é vida.
Luis Louis
Capítulo IV

O Corpo Pensante da Mímica


Total e do Teatro Físico
A idéia do corpo pensante é a matriz principal em que se
estrutura a filosofia da Mímica Contemporânea/Teatro Físico.
Há um rompimento radical com a visão dualista que tanto
acompanhou a nossa história e que ainda está presente no
fazer artístico contemporâneo. As ciências cognitivas ajudam-
nos a dissolver essa separação e entendermos melhor a
relação mente/cérebro/corpo, dentro/fora, que tanto afetam a
compreensão em diversas áreas e, aqui, especificamente nas
artes cênicas, sobre objetivo/subjetivo, razão/emoção e do
novo conceito da metáfora.
Damásio (1996) acredita que grande parte dessa confusão está
numa das mais famosas citações da história da Filosofia, que
aconteceu no século XVII, quando o filósofo francês René
Descartes (1596-1658) afirmou: “penso, logo existo” (“Cogito
ergo sum”). Ele explica que o entendimento literal dessa frase
ilustra o oposto daquilo que acredita ser verdade sobre as
origens da mente e da relação entre mente e corpo, pois antes
do aparecimento da humanidade, os seres já eram seres, já
existiam. Num certo ponto da evolução, surgiu uma
consciência elementar e, com isso, apareceu uma mente
simples. Mais tarde, com uma maior complexidade, veio a
possibilidade de pensar e, depois, de usar a linguagem para
melhor organizar os pensamentos. Para Damásio, a frase
deveria ser “existo, logo penso”, pois para nós, o princípio foi à
existência e só depois veio o pensamento. Sobre isso, escreve:

A afirmação sugere que pensar e ter consciência de pensar são os


grandes substratos de existir. E, como sabemos que Descartes via o ato
de pensar como uma atividade separada do corpo, essa afirmação celebra
a separação da mente, a“coisa pensante” (res cogitans), do corpo não
pensante, que tem extensão e partes mecânicas (res extensa).
(DAMÁSIO, 1996, p.279)

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O Teatro Físico elimina as dicotomias, considerando o corpo
pensante. Nas recentes descobertas da neurobiologia, a
relação indissociável da mente/cérebro/corpo/ambiente
estudada por Damásio resulta no surgimento de imagens
visuais, auditiva, somatossensoriais que, em larga medida, é o
próprio pensamento. Damásio, ao dizer que o pensamento é
feito de imagens, explica que, mesmo nas situações em que
nele são incluídas palavras ou símbolos arbitrários, eles são
baseados em representações topograficamente organizadas,
tornando-se, assim, imagens.

A maioria das palavras que utilizamos na nossa fala interior, antes de


dizermos ou escrevermos aquela frase, existe sob a forma de imagens
auditivas ou visuais da nossa consciência.
(DAMÁSIO, 1996, p.134)

No processo de criação da Mímica Contemporânea/Teatro


Físico, há uma intensificação dessa relação pelo corpo-
pensante, valorizando a escuta das imagens resultantes da
relação mente/corpo/cérebro/ambiente. Numa segunda fase
de organização, aparecem as palavras e a escrita.
Embora muitos autores definam emoção e sentimento como
sinônimas, a distinção entre esses dois termos, feita por
Damásio, ilumina-nos a uma melhor investigação desses
fenômenos.
As emoções e os sentimentos são percepções diretas de
nossos estados corporais e não algo imaterial que acontece
fora do corpo. Eles constituem um elo fundamental entre o
corpo e a consciência. Para ilustrar melhor essa ligação da
emoção com o corpo, ele recorre a um exemplo dado por
William James há, aproximadamente, um século:

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(...) Poderá alguém imaginar o estado de raiva e não ver o peito em


ebulição, o rosto congestionado, as narinas dilatadas, os dentes cerrados
ou o impulso para ação vigorosa, mas ao contrário, músculos flácidos,
respiração calma e um rosto plácido?
(JAMES, 1950 apud DAMÁSIO, 1996, p.158)

Etimologicamente, a palavra emoção sugere uma direção externa a partir do


corpo, pois significa, literalmente, movimento para fora. Ele vê a essência da
emoção como a coleção de mudanças no estado corporal que são induzidas
numa infinidade de órgãos por meio de terminações nervosas sob o controle de
um sistema cerebral dedicado ao qual responde ao conteúdo dos pensamentos
relativos a uma determinada entidade ou acontecimento. (DAMÁSIO, 1996:168)
Sentimento, para ele, é a percepção de todas as mudanças que constituem a
resposta emocional, isto é, a experiência dessas mudanças em justaposição com
as imagens mentais que iniciaram o ciclo.
A emoção e o sentimento fazem parte indissociável de qualquer processo
racional, por mais fácil que seja para nós. Ao propor uma situação que requeira
uma simples escolha, seja de comprar algo ou não, ou cumprimentar um
conhecido do outro lado da rua, Damásio salienta que a mente nunca estará
vazia no começo do processo do raciocínio, pois se encontra repleta de um
repertório variado de imagens, originadas de acordo com a situação enfrentada,
e que entram e saem de sua consciência numa apresentação demasiado rica
para ser rápida ou completamente abarcada. Como tomar a decisão? Como
resolver esse impasse?
Damásio oferece duas possibilidades: uma, a do ponto tradicional da “razão
nobre” defendida pelos objetivistas, que consideram que o processo racional
não pode ser prejudicado pela emoção. Nessa perspectiva, os diferentes
cenários imagéticos são analisados um por um. Segundo ele:
Na melhor das hipóteses, sua decisão levará um tempo enorme, muito
superior ao aceitável, se quiser fazer alguma coisa mais nesse dia (...).
(DAMÁSIO, 1996, p.204)

E, apesar de todos esses problemas e escolhas que


experienciamos no dia-a-dia, somos capazes, com freqüência,
de decidirmos em segundos ou minutos, dependendo,
logicamente, da situação. Isso acontece devido à segunda
possibilidade oferecida por ele, decorrente da hipótese do
“marcador somático”, na qual a racionalidade não apareceria
como razão pura.
Defende que há sistemas reguladores básicos no organismo
que preparam o terreno para o processo consciente, cognitivo
e de tomada de decisões. Esse sistema é identificável quando,
num momento de decisão, surge um mau resultado associado
a uma possível resposta, por mais fugaz que seja, e você sente
uma sensação visceral desagradável. Como a sensação é
corporal, ele atribuiu o termo técnico “somático”. Em grego,
soma significa corpo, somático, portanto, aquilo que pertence
ao corpo e, porque o estado marca uma imagem, denominou-o
“marcador somático”. Significa que a racionalidade é
configurada e modulada por sinais do corpo, ou seja, ela não
existiria como a “razão nobre”, pois há doses de emoção e
intuição provenientes do corpo. Antes dos circuitos cerebrais
realizarem uma análise mais detalhada dos fenômenos que nos
afetam, o corpo já adquiriu suas primeiras emoções. Com isso,
o marcador somático é uma espécie de campainha que nos
avisa nos processos de decisão quando um resultado é
negativo ou positivo por meio de um incentivo. Segundo
Damásio, os marcadores somáticos são um caso especial do
uso de sentimentos gerados a partir de emoções secundárias.
Essas emoções e sentimentos foram ligados pela
aprendizagem, a resultados futuros e previstos de
determinados cenários. (DAMÁSIO, 1996:206).

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Em outras palavras, o corpo faz uma pré-seleção das
inúmeras possibilidades e envia para o cérebro as melhores, a
fim de serem analisadas. A simbiose entre os chamados
processos cognitivos e os processos geralmente designados
por “emocionais” fica evidente. Torna-se, contudo, inviável a
separação razão-emoção no processo racional.
Com o conceito do marcador somático, o processo de
criação, tanto nas artes como na ciência, assenta numa fusão
entre a intuição e a razão. Essa união nos remete à opção
experiencialista de Lakoff e Johnson que integra objetivismo
e subjetivismo através do entendimento da metáfora como
racionalidade imaginativa.
O corpo pensante do Teatro Físico agrega estas noções ao
confiar no corpo no processo de criação. Frases usadas nas
salas de ensaio como: “Escute o seu corpo”, “Confie no seu
corpo”, traz, na metáfora de canal, a concepção dele como
pensamento e não mais como instrumento. O fim desse
pensamento dualista sobre o corpo no Teatro Físico,
ocasionou uma ruptura com a forma de pensar da Mímica
Moderna.
Enquanto a metáfora inserida no pensamento dos
modernistas era O CORPO É INSTRUMENTO, agora é O
CORPO É PENSAMENTO. E, com isso, o ator não possui um
corpo, o ator é seu corpo.
A figura do mímico exalta esta ideia desde o seu surgimento.
Embora a consciência desse corpo só aconteça na fase
contemporânea, ele pensa com ele e não por meio dele; sua
movimentação é o seu próprio pensamento, sua dramaturgia
é a do corpo, sua emoção, seus sentimentos e seu raciocínio
estão no gesto, no andar, no busto.
Seu corpo é sentimento, objeto, natureza. A relação
dentro/fora é integrada e corporificada, constantemente, na
interação de seu corpo com o espaço.

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Capítulo V

Teatro Físico, ou simplesmente,


Mímica
O Brasil trilhou um caminho em busca do ator-criador com uma forte ligação
com o movimento francês, até que a Mímica brasileira encontra sua identidade
com a chegada de Denise Stoklos e Luis Otávio Burnier, que trouxeram o
pensamento contemporâneo para essa arte, promovendo o hibridismo da linha
francesa com as europeias. Os dois iniciaram a Mímica Contemporânea no
Brasil, investindo na diversidade, na brasilidade e em um modo diferente de
pensar a arte e esse corpo criador. Com eles, o corpo deixa de ser um
instrumento do pensamento e passa a ser o próprio pensamento sem a
dicotomia corpo/mente.
Com essa mudança no modo de pensar, o corpo reverberou diretamente nos
treinamentos e na técnica corporais dessa arte. Enquanto na Mímica Moderna,
seus pesquisadores investigavam a criação de uma técnica codificada, que
instrumentalizasse e afinasse o corpo para expressar seus pensamentos com
maior intensidade, na Mímica Contemporânea é proposto um trabalho pela via
negativa e pela desconstrução. Tenta-se eliminar a distância entre o pensar e o
fazer, desbloqueando as tensões e amarras psicofísicas do corpo/ator.
Grotowski, Barba e Burnier desenvolvem um treinamento objetivando essa
integração pela exaustão. Eles praticam um treinamento energético, no qual os
atores são colocados em movimento por um longo tempo, com elementos
rítmicos e espaciais que proporcionam conexões com um estado de cansaço, em
que se elimina a forma consciente de agir e faz com que o ator pense na ação
com o corpo-pensante em movimento. Eles acreditam romper, assim, com o
modo objetivista de lidar com a expressão, que possui um sistema no qual se
pensa, calcula e depois faz, realiza.
Muitos discípulos dos mestres modernistas da Mímica
trouxeram, para as salas de ensaio, um outro treinamento,
baseado na desconstrução. Desmond Jones, Denise Stoklos,
Steven Berkoff, Leonard Pitt entre outros contemporâneos
dessa arte, incluíram esse meio para se conseguir os mesmos
princípios da via negativa, mas partindo da desconstrução dos
gestos cotidianos. Por acreditarem que eles trazem um
condicionamento do poder disciplinar, esses artistas-
pesquisadores quebram, distorcem, rompem-no numa
constante metamorfose gestual até entrar em contato com a
sua essência expressiva.
Este exercício acontece com o pensar em movimento,
podendo atingir, também, o estado da exaustão. Embora o
sistema seja diferente, os princípios são os mesmos, tanto no
treinamento energético como na desconstrução. É importante
ressaltar que ele acontece num corpo que integra físico, voz e
pensamento. Pode ter ocorrido, na fase inicial da Mímica
Moderna, um rompimento com a palavra e o texto. O ator-
criador, desejando uma alforria da literatura, investiu no
silêncio e, com isso, houve uma maior atenção para o
desenvolvimento de técnicas de movimentação corporal do
que a vocal. Já na Mímica Contemporânea ocorreu um
aprofundamento na dilatação e no aprimoramento do gesto
vocal. Os recursos da via negativa e da desconstrução são
aplicados na voz. Grotowski potencializa essa força e descobre
os ressonadores vocais localizados em diferentes partes do
corpo. Barba e Burnier aprofundam-se nesse estudo em seus
núcleos de pesquisa teatral. Denise Stoklos usa a
desconstrução vocal e cria a palavra defacetar para a língua
portuguesa, para romper, contorcer, cortar as suas
sonoridades vocais e as palavras. Entendendo o corpo como o
próprio ser, o Teatro Físico afasta-se da representação
ficcional e compreende a sua presença como integrante do ato
artístico. O ator-criador afirma as suas idiossincrasias e o seu
ser na persona e não na identificação com a personagem de
uma obra.

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Na construção da persona, ele rompe com a dualidade
ficção/realidade e, com isso, o ator-criador se serve das
personagens para fortalecer a expressão de seus
pensamentos, de suas indignações e não para ficar atrás delas
e se anular por meio de uma tentativa de encarná-las.
A relação com suas personagens e com a própria obra literal
é deixar que elas atravessem seu ser e, para isso, seu corpo
em vida organiza de maneira única, uma relação colaborativa
com esses elementos, num espaço vazio.
O Teatro Físico, no mundo, tem suas raízes na arte da
mímica. Como vimos, assim foi denominado nos anos setenta,
para representar a Mímica Contemporânea e eliminar
preconceitos e associações que a caracterizassem como arte
sem fala. Em minhas entrevistas com artistas dessa área,
constatei a convergência de um pensamento: com esse
nome, consegue-se uma ampliação de seu entendimento e,
também, que não mais seja vista como uma arte separada ou
pura. Com outros, há a opinião de que os próprios mímicos,
ao denominarem seu trabalho como Teatro Físico e não
Mímica, contribuem com esse preconceito. O uso desse
termo alcança seu apogeu nos anos noventa com a
proliferação de festivais e grupos teatrais de pesquisa nessa
área. Identifico, no Teatro Físico, a síntese do hibridismo da
Mímica Contemporânea e que apresenta como principais
características:
Principais referências provenientes de Decroux,
Barrault, Marceau e Lecoq em uma primeira fase, e
Artaud, Meyerhold, Grotowski, Eugênio Barba e
Desmond Jones numa segunda fase.
Um teatro livre do textocentrismo e das sujeições à
literatura.
É centrado no ator-criador, que é autor e obra ao mesmo
tempo, diferente do ator-intérprete que inicia seu
trabalho a partir de um texto escrito.
Rompe a divisão da ficção com o real por meio da
persona.
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Adota o pensamento experiencialista, quebrando com as dicotomias


mente/corpo, razão/emoção, objetivo/subjetivo e o dualismo dentro/fora.
Compreende o corpo não como instrumento, mas corpo-pensante.
Junta, em seu treinamento, as conquistas da mímica moderna com a via
negativa e desconstrução proposta pelos contemporâneos.
O texto escrito, o cenário, a música e as outras artes são bem vindos
somente com o objetivo de enfatizar a potência do ator-criador e não para
camuflar suas fragilidades.
O processo de trabalho é colaborativo.
A relação com o espectador é aberta.
A vivacidade do ato é massiva.
É caracterizado pelo hibridismo de todos os elementos citados acima e não
pelo olhar isolado em um ou outro.
Na atualidade, há uma intensificação de pesquisas do Teatro Físico no cenário
teatral brasileiro e no exterior, embora apareçam com diferentes nomenclaturas.
Encontra-se uma tendência entre os praticantes dessa área, de não quererem
estar limitados em categorizações ou rótulos.
Independentemente dessa nomeação estar ou não sendo mais adotada, conclui-
se que seus princípios ganham força por meio da arte da mímica que, como
expusemos neste trabalho, acompanha a nossa história, desde a era primitiva, e
vem resistindo, no seu decorrer, mesmo nas fases mais difíceis. O aparecimento
do termo Teatro Físico foi fundamental para despertar a atenção do mundo para
a amplitude dessa arte, embora não tenha contribuído, com isso, a diminuir as
confusões e os preconceitos relacionados a arte da Mímica.
É possível que as nomenclaturas sejam repensadas em seus processos
evolutivos e algumas até desapareçam, mas seus traços permanecem na
diversidade de campos de experimentação, descritos como Teatro Pós-
Dramático, Teatro de Movimento, Teatro Corporal, Teatro Gestual, Teatro
Essencial, Teatro Antropológico, Teatro Ritual ou, simplesmente, Mímica.

FONTE: Texto extraído do livro "A Mímica Total" de autoria de Luis Louis
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