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Diferenças entre Mímica e Pantomima

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CADERNOS DA MÍMICA: OS GRANDES MESTRES

A MÍMICA E A
PANTOMIMA

LUIS LOUIS
Ainda hoje, quando pensamos
por na arte da Mímica,
imaginamos o personagem
mudo, de rosto pintado de
branco, com luvas brancas,
fazendo gestos ilustrativos
criando objetos imaginários no
espaço. Mas isso é mesmo
Mímica? E o que é Pantomima?
O mímico fala?

estudio@[Link] WWW. LUI SLOUI S. COM. BR


BEM VINDO! [Link]

Índice
03 Capítulo Único 17 Anexos
19 Anexos

MÍMICA E NOTAS E REFERÊNCIAS


PANTOMIMA COMENTÁRIOS BIBLIOGRÁFICAS
Capítulo Único

Mímica e
pantomima
Ainda hoje, quando pensamos na arte da Mímica, imaginamos
o personagem mudo, de rosto pintado de branco, com luvas
brancas, fazendo gestos ilustrativos criando objetos
imaginários no espaço. Mas isso é mesmo Mímica? E o que é
Pantomima? O mímico fala?

Não só no Brasil, como também em várias partes do mundo,


surgem muitas confusões ao se tentar responder essas
perguntas. Embora o foco deste trabalho esteja no
movimento da Mímica do século XX e XXI e mais
especificamente, no Teatro Físico, nome dado à Mímica
Contemporânea, é necessário, logo de início, fazer uma
diferenciação entre a Mímica e a Pantomima.

Freqüentemente são confundidas como sinônimas, mas


apresentam diferenças importantes entre elas. A partir do
século XX, Mímica passa a designar a forma de Arte e a
Pantomima como um dos seus gêneros. A Pantomima, hoje, é
entendida principalmente pela herança de JeanGaspard
Debureau e Marcel Marceau, caracterizada pela figura de
rosto pintado de branco e luvas, contador de histórias sem
falas e que se comunica por meio de gestos ilustrativos
desenhados no espaço. Tem, geralmente, fins cômicos.

No entanto, a Mímica possui uma atuação mais abrangente.


Nela, o mímico utiliza o potencial de seu corpo como um
todo, isto é, corpo, voz e pensamento integrados em sua
expressão.

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Nessas encenações, podemos encontrar O corpo não funciona a partir de


o drama, a tragédia e, também, a compartimentações entre dentro e fora,
comicidade. A movimentação e a mas, sim, num fluxo inestancável entre
expressão não são centradas somente na essas duas instâncias. Para colaborar com
mímica objetiva (1), isto é, na criação de essa discussão, apresentamos, no
objetos espaciais como a parede, a corda decorrer do texto, fragmentos das
e outros, mas também faz uso, pesquisas do professor de Linguística
principalmente da mímica subjetiva (2). George Lakoff, em parceria com o
professor de Filosofia Mark Johnson,
No final dos anos setenta, a Mímica autores do livro Metáforas da Vida
Contemporânea passa a ser chamada pela Cotidiana, e do neurologista Antônio
mídia inglesa e pelos próprios praticantes Damásio, cuja obra tem sido publicada e
dessa arte de Teatro Físico, numa discutida no Brasil em diversos campos
tentativa de se desvincular da imagem de do saber.
Arte muda ou da Pantomima. Nela,
acontece uma mudança de entendimento Apesar dos primeiros registros da Mímica
do corpo e da movimentação, datarem da história grega, nos estudos
redimensionando a compreensão do que antropológicos ela é encontrada na
seria a relação entre o dentro do corpo própria origem do homem e,
com o fora, ou seja, a separação entre frequentemente, aparece associada à
mímica objetiva e mímica subjetiva torna- organização do pensamento.
se problemática, tanto do ponto de vista
do treinamento prático, como no que se Richard Courtney, em seu livro Jogo,
refere à investigação teórica. Ao estudar Teatro e Pensamento (2001), coloca-a na
recentes bibliografias, publicadas origem dos ritos do homem primitivo, na
sobretudo a partir da década de 80, figura do caçador que personificava a si
dentro do campo das chamadas ciências próprio ou aos animais em situação de
cognitivas, torna-se evidente que essa caça, na ação dramática chamada
separação não faz sentido em termos mimese.
neurofisiológicos.
Os ritos eram uma mistura de personificação com
movimentos dramáticos e danças, com amplos movimentos
do corpo, pulos e saltos, e com a utilização, como adorno, de
peles de animais e folhagens, para identificar-se com o
espírito.

Diferentemente de vários outros livros e estudos sobre a


história do teatro, que são guiados pela valorização da
dramaturgia escrita e esquecidos de seu maior protagonista,
o ator, no livro História do Teatro Mundial, de Margot
Berthold (2001), essa limitação não acontece. Nele, a autora
aponta as contribuições dos atores na Mímica, na Pantomima
e na Commédia Dell‘Arte. Afirma a importância dessas
manifestações artísticas que não dependem da literatura. Em
todo o percurso histórico do teatro mundial, Berthold
escreve que podemos aprender sobre o teatro primitivo,
pesquisando três fontes: as tribos aborígines, que têm pouco
contato com o resto do mundo e cujo estilo de vida e
pantomimas mágicas devem ser próximos daquilo que nós
presumimos ser o estágio primordial da humanidade; as
pinturas de cavernas pré-históricas e entalhes em rochas e
ossos; e a inesgotável riqueza das danças mímicas e de
costumes populares que sobreviveram pelo mundo afora.

As raízes do xamanismo como uma “técnica” sicológica


particular das culturas caçadoras podem ser
remontadas ao período Magdalenian no sul da França,
ou seja, aproximadamente entre 15.000 e 8.000 a.C.,
e, portanto, aos exemplos de pantomimas de magia de
caça retratadas nas pinturas em cavernas.
(BERTHOLD, 2001:03)

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No Egito e no Antigo Oriente, os mímicos dança, à pantomima exorcística e à


e as farsas tinham seus lugares recitação dramática.
reservados nas cerimônias religiosas. Eles
divertiam as cortes principescas do A origem do teatro hindu está na ligação
Oriente Próximo antigo, parodiando os estreita entre a dança e o culto no
inimigos e zombavam até dos seres templo. Os historiadores cunharam o
sobrenaturais na época do crepúsculo termo “teatro templo” para se referir às
dos deuses. salas de celebração onde aconteciam as
danças e as pantomimas. O teatro teve
Ao escrever sobre as civilizações um precursor altamente desenvolvido,
islâmicas, Berthold nos conta que, no também, na forma de entretenimento
segundo milênio a.C., um dos antigos popular hindu, com suas danças e
mistérios da Mesopotâmia era baseado acrobacias. O bailarino era sempre
na lenda ritual do “matrimônio sagrado” – mímico e ator simultaneamente.
a união do deus ao homem. Nos templos
da Suméria, pantomima, encantamento e Quando analisa o teatro chinês do
música converteram a tradicional primeiro milênio a.C., Berthold descreve
representação do banquete para o par uma série de histórias de mímicos e
divino humano em um grande drama bufões que proporcionavam diversão nos
religioso. Na Turquia, ao lado dos banquetes imperiais, onde baladas e
dançarinos e dos músicos, os mímicos canções folclóricas eram interpretadas
ambulantes e os personificadores numa dança de louvor pantomímica,
apresentavam-se nas cortes, nos denominada sung wu.
mercados, nas campanhas militares e nas
missões diplomáticas. Na Índia Clássica, Em 1890, foi encontrado um papiro,
durante o primeiro milênio a.C., as três contendo treze peças de mímica de
religiões predominantes (bramanismo, Herodas, autor grego que viveu em
jainismo e budismo) emprestaram suas Alexandria, por volta de 270 a.C.
formas específicas ao culto e sacrifício, à
Eram breves textos mímicos, chamados mimiambos, cujos
enredos libertinos e com muito humor, tratavam de
revelações secretas, de garotas apaixonadas e de situações
cômicas e proibidas. Esses textos comprovam que, mesmo no
mundo antigo, os atores chamados mímicos já falavam e,
também, representavam, fazendo uso das palavras.

Enquanto o épico homérico e o drama clássico tinham como


foco os deuses e os heróis, o mímico direcionava sua atenção
para o povo, às pessoas comuns e anônimas, aos trapaceiros,
aos ladrões e às cortesãs, que viviam às margens dos
poderosos.

O primeiro a escrever composições literárias para o mímico


no século V a.C., parece ter sido Sófron. Em 430 a.C., ele
escrevia sobre o dia a dia da vida grega. Ao comentar sobre
Sófron, Berthold escreve:
Suas personagens eram pessoas comuns e, no sentido
mais amplo da mimese, animais antropomórficos.
Sófron criou o ancestral do Bottom, de Shakespeare,
no Sonho de Uma Noite de Verão. Numa das peças de
Sófron (da qual existem só fragmentos), um ator, que
está interpretando o papel de um burro, fala sobre o
seu modo de “mastigar cardos”.
(BERTHOLD, 2001:136)

Outro grego de grande importância no séc. III a.C. foi Livius


Andronicus. Nascido na Grécia e levado como escravo para
uma casa romana de um tal Livius, trabalhou como professor
graças ao seu dom da linguagem. Ao receber a alforria,
recebeu o nome de seu antigo dono, como era costume
naquele tempo. Considerado um ator de muito sucesso em
sua época, após lhe faltar a voz no início de uma
apresentação, em 240 a.C., contratou um ator para que
recitasse por ele enquanto desenvolvia a parte gestual.
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A maioria dos textos dos mímicos era em


Para exercer a profissão de mimo eram prosa, com exceção dos mimedoi, que
necessários dons naturais como, eram cantados. Já os mímicos romanos
flexibilidade corporal, um rosto misturavam gesto, palavra e música. Na
expressivo e com grande mobilidade, mesma época em que Aristóteles
uma imaginação viva e original, que, no descreveu a tragédia grega, Roma assistia
entanto não eram suficientes. Eram aos seus primeiros e modestos
também fundamentais as lições com um espetáculos dessa Arte de uma trupe
mestre capaz de desenvolvê-los, de Etrusca. Eram danças e canções
disciplinar os frutos da sua própria acompanhadas de flautas e referiam-se
experiência e as adquiridas com a aos deuses, às religiões e aos poderes da
tradição. vida e da morte, já que se estava no ano
(COUTINHO, 1993:8). de 364 a.C. e a peste se alastrava pelo
Havia na Roma imperial escolas de país.
mimos, como existem hoje em dia.
(LECOQ, 1987, apud COUTINHO, O livro Recherches historiques et
idem)(BERTHOLD, 2001:136) critiques sur les mimes et sur les
pantomimes, publicado em Paris, em
1751, já indica, pelo próprio título, uma
O mímico dava ampla oportunidade para diversificação entre os dois termos. O
as mulheres exibirem os seus talentos autor, Jacques Méricot, escreveu que a
cênicos, o que não acontecia no palco diferença básica entre as duas palavras,
clássico da Antiguidade, onde elas eram tão freqüentemente usadas sem
excluídas. distinção, era que, na Mímica, as
encenações aconteciam acompanhadas
Pode-se afirmar que a Mímica foi, desde de palavras. Geralmente, um ator recitava
o princípio, o único gênero teatral em que o texto enquanto outro fazia os gestos. Já
a participação feminina não era um tabu. a Pantomima era inteiramente silenciosa
(3).
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inspirada nos jograis medievais, herdeiros


A Pantomima é um tipo de das tradições dos mímicos romanos,
performance na qual os gestos retoma sua força e espalha-se por toda a
substituem as palavras. Europa, nas praças, feiras e teatros, numa
(LECOQ, 2002:107) popularidade massiva.

As brincadeiras pantomímicas, que os


Na Idade Média, a Pantomima se improvisadores fizeram por séculos,
fortaleceu com os ritos carnavalescos que entram na Commedia Dell’Arte como
propiciavam uma atmosfera favorável às lazzi, ou seja, repertório de tramas, com a
danças e às mímicas macabras, inspiradas diferença de que os comediantes italianos
nas alegorias sobre a vida e a morte, incluíam falas, diferente do silêncio da
encontradas nas gravuras e afrescos da Pantomima.
época. Eram atuações em procissões,
geralmente mudas, que, apesar da Igreja As representações não tinham seu núcleo
considerar que despertavam sentimentos no texto literário ou na poesia, mas na
proibidos, acabaram sendo admitidas nas improvisação, na plasticidade e na
festas religiosas (4). mímica. Os atores da Commedia Dell’Arte
. improvisavam não a partir do nada, mas
Numa reação contrária à comédia dos por ações e gestos corporais definidos no
senhores literatos do Renascimento, repertório de seu personagem e, também,
surge, na metade do século XVI, um novo seguindo um roteiro geral de ações
fenômeno: a Commedia Dell’Arte. Os chamado cannovaccio.
cômicos italianos transmitiam de pai para
filho a arte de fazer teatro. Eles se Embora durante toda a história,
especializavam por meio de uma técnica encontremos falas na Mímica e silêncio
de mímica, de voz, acrobática e cultural. vocal na Pantomima, é no final do século
Na Commedia Dell’Arte, a Pantomima, XVII que a diferença entre as duas será
atenuada (5).
Em 1750, o Boulevard du Temple, onde aconteciam os
“fringes” (6) de Paris, tornou-se local oficial do teatro de rua,
das feiras e praças. Tudo que era censurado de alguma
maneira podia ser encontrado ali. O primeiro teatro
licenciado apresentava somente equilibrismo em corda
bamba. Os outros subseqüentes, também recebiam fortes
restrições, mas a área logo adquiriu uma atmosfera
carnavalesca. Números com animais, marionetes,
malabaristas, acrobatas e arlequinagens povoavam toda a
rua.

O clima deveria ser como o retratado no filme: Les


Enfantes du Paradis. Talvez, uma das restrições mais
absurdas impostas aos atores, era a de que eles
atuassem atrás de uma tela de tule.
(LEABHART, 1989:5)

A novidade francesa chegou à Inglaterra, trazida pelo ator


John Rich, que era mais habilidoso nos gestos do que nas
falas. Com ele, a Pantomima se popularizou na Inglaterra e as
inovações lá desenvolvidas voltaram para a França. Em pouco
tempo, grupos de pantomimos apresentavam-se pela
Holanda, Alemanha, Áustria e Dinamarca.

Apesar das sanções na França continuarem até 1791,


determinando repertório, tamanho do elenco, número de
músicos, censura nas letras das músicas e nos diálogos nas
produções artísticas, o teatro popular se desenvolveu e trinta
e cinco novos teatros surgiram no Boulevard du Temple (7).

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Essa liberdade, porém, tinha seus dias contados. Em 1807,
Napoleão impôs novas restrições, controlando, novamente, o
número de teatros, o repertório, o gênero (8) . Foi nessa
atmosfera que se iniciou a carreira meteórica de Jean-
Gaspard Debureau em 1819, no Thèatre dês Funambules,
localizado no Boulevard du Temple.

Deburau por Maurice Sand

Considerado uma lenda no século XIX, seu sucesso invadiu o


século XX. Sua figura de Pierrot, com o rosto pintado de
branco e seus movimentos estilizados, deram forma à
“pantomima branca”. O povo lotava o teatro para poder
assistir às histórias contadas por meio do corpo, sem falas. Os
gestos ilustravam o imaginário, e ilusões eram desenhadas no
espaço, como pode ser conferido nas pantomimas recriadas
para o filme Les Enfantes du Paradis, interpretado por Jean
Louis Barrault e que tanto influenciou o trabalho de outra
lenda do século XX, o francês Marcel Marceau.

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Deburau e Marcel Marceau via Mime Journal

Mas é no século XX que a Mímica irá se Quando o mímico cria uma ilusão da
desenvolver plenamente como forma de corda ou da parede, o gesto traz uma
arte. Isso se deve ao trabalho de um significação metafórica, isto é, não traduz
outro francês, Etienne Decroux, que será o objeto em si, como acontece na
discutido posteriormente. Pantomima, mas abre-se para outras
interpretações, podendo simbolizar a
É de importância fundamental destacar batalha de uma vida ou a prisão de seus
que essa forma de arte que passa a pensamentos, por exemplo. Pode-se
explorar as metáforas da linguagem encontrar texto falado, canções, sons
corporal, com ou sem falas, no drama, na inarticulados ou simplesmente a ação sem
tragédia ou na comédia, denomina-se falas.
Mímica. A Pantomima passa a ser inserida
em um dos seus gêneros e caracterizada A Arte da mímica se mostrou uma arte de
pela figura do seu performer (rosto resistência em toda a nossa história,
pintado de branco, com luvas, que conta sofrendo preconceitos, discriminações e
uma história fazendo uso dos gestos sanções em diferentes épocas por
ilustrativos desenhados no espaço). Tem, diversos reinados e governos.
geralmente, fins cômicos e não possui
falas.
Quando o teatro era oprimido pelo Estado ou pela Igreja ou
pela tirania do texto, como dizia Artaud, foram os mímicos
que surgiram nos becos, nas praças, nas feiras e invadiram os
teatros, mantendo sempre viva a “arte de ator” (9).
(DECROUX, 1995:26).

A mímica moderna exerceu papel fundamental na arte de


ator, no sentido de resgatar a independência dele dentro de
sua casa, o teatro. O ator, no final do século XIX e início do
XX, encontrava-se dominado pelos modismos do teatro
comercial e da sua sujeição à literatura, que o limitava a
interpretar um texto escrito, obedecer à expressão ditada
pelo discurso e deixar, para segundo plano, tudo o que não
estava contido nas palavras. Isso foi determinante para o
surgimento do ator-criador do Teatro Físico, que rompeu
esse sistema, participando de todos os aspectos da criação
cênica, desde a dramaturgia até a atuação.

A Mímica Moderna introduziu a ideia da metáfora no corpo


do ator, no sentido de ir contra a tradição objetivista, que
acreditava que só se poderia conhecer o mundo por meio do
seu significado literal. Mas é somente na Mímica
Contemporânea que o entendimento da metáfora vai ao
encontro dos estudos de George Lakoff e Mark Johnson, que
mostram que compreendemos o mundo por meio das metáforas,
pois muitos dos conceitos básicos como tempo, quantidade,
estado, ação, etc., além dos conceitos emocionais, como amor e
raiva são compreendidos metaforicamente. (LAKOFF E
JOHNSON, 2002:22).

Para esses autores, metáforas tratam de deslocamentos,


como estava na própria etimologia da palavra, do grego
metaphorai, ou seja, transporte. Nesse viés, para organizar
qualquer movimento no corpo, deslocamos informações a
partir de direções, ambientes e domínios diversos, dentro e
fora dele.
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Assim, a metáfora deixa de ser compreendida apenas como
uma figura de linguagem e torna-se a mais importante
estratégia cognitiva do aparato biológico humano. Na medida
em que a Mímica Contemporânea reconhece e testa a
organização de imagens cuja ignição nasce da ação do corpo
e não de outras esferas, como o texto teatral ou imagens
apartadas do corpo, ela ilumina o que os protocolos
experimentais de Lakoff e Johnson, entre outros
pesquisadores, têm apontado: para conceituar o mundo, o
processo começa nas ignições do sistema sensório-motor e
não em uma instância de outra natureza, como presumia o
pensamento cartesiano. Torna-se cada vez mais claro que as
ações do corpo são cognitivas e não apenas ilustrativas de
outros textos organizados em objetos do mundo.

O neurologista Antônio Damásio esclarece o fim da


dicotomia cartesiana, iluminando a relação indissociável entre
mente, cérebro, corpo e meio ambiente, colocando em
cheque a divisão entre dentro e fora, traduzida por alguns
artistas como os níveis subjetivo e objetivo. Ele afirma que o
corpo e o cérebro formam um organismo indissociável
(DAMÁSIO, 1996:114), integrado por circuitos bioquímicos e
neurais recíprocos dirigido um para o outro que interage,
constantemente, não só internamente, mas com o meio
ambiente, gerando imagens (visuais, auditivas e
somatossensoriais) que são a base para a mente.
Evidentemente, isso não significa que não exista uma
estabilidade interna que garanta a sobrevivência do
organismo e o distinga do ambiente. No entanto, esse
“dentro” do corpo não está apartado do “fora”. Há um
processo co-evolutivo entre organismo e ambiente. Assim, o
organismo interior (corpo e cérebro) comunica-se por duas
vias principais de interconexão.

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A via que normalmente se pensa primeiro é a


constituída por nervos motores e sensoriais
periféricos que transportam sinais de todas as partes
do corpo para o cérebro, e do cérebro para todas as
partes do corpo. A outra via, que vem menos
facilmente à mente, embora seja bastante mais antiga
em termos evolutivos, é a corrente sanguínea; ela
transporta sinais químicos, como os hormônios, os
neurotransmissores e os neuromoduladores.
DAMÁSIO, 1996:114)

Damásio (1996) explica que, de forma sua vez, afeta o ambiente por meio de
não menos intensa, o organismo interior movimentos resultantes de todo o corpo,
interage com o meio ambiente que o dos membros e do aparelho vocal.
rodeia. Essas relações são mediadas pelo
movimento do organismo e pelos Esse conhecimento será de fundamental
aparelhos sensoriais. O ambiente se importância para entendermos o corpo
conecta ao organismo de diversas não como uma máquina que é pilotada
maneiras. Uma delas é por meio da pelo cérebro, mas como um organismo
estimulação da atividade neural dos integrado interiormente e exteriormente.
olhos, dos ouvidos, das terminações Essa compreensão irá direcionar um
nervosas da pele, nas papilas gustativas e outro rumo na Mímica que será
na mucosa nasal. Essas terminações fundamental para podermos entender o
nervosas enviam sinais para pontos de Teatro Físico, que rompe a divisão de
entradas localizados no cérebro, como se mímica objetiva e mímica subjetiva e faz-
fosse uma espécie de porto seguro onde nos clarear a importância da metáfora.
os sinais podem chegar. O organismo, por
O percurso histórico dessa pesquisa reafirma a hipótese
discutida pelos filósofos franceses Michel Foucault e Gilles
Deleuze, em uma discussão antológica publicada em
Microfísica do Poder (1979), de que a teoria e a prática nada
mais são do que exercícios alternados, iluminando uns aos
outros, apontando para um estudo aberto aos
acontecimentos e não apenas subserviente ao conhecimento
já estabelecido. A trajetória do Teatro Físico ou Mímica
Contemporânea é um bom exemplo dessa
transdisciplinaridade radical, na qual a prática não é uma
aplicação da teoria, uma vez que ela também se configura
como uma ação no e do corpo. Pensamento também é ação.
Movimento internalizado (Greiner, 2005).

No início do século XX, surge um movimento teatral em


Paris, liderado por Jacques Copeau, que reverbera,
fortemente, em vários grupos de artistas e torna-se
fundamental para a formação da Mímica Moderna e, mais
tarde, do Teatro Físico. Radicaliza todas essas questões que
deixam de ser do âmbito da biologia ou da cultura, afirmando
uma aliança indissociável entre essas duas esferas.

FONTE: Texto extraído do livro "A Mímica Total" de autoria de Luis Louis

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NOTAS
(1) Nome dado à área da mímica que cria e explora as ilusões de objetos no espaço.
O gestual da mímica objetiva é o mais fiel possível às ilusões criadas, isto é, nela, a
parede será uma parede e a corda uma corda evitando as metáforas na
movimentação.

(2) Área da mímica que explora as emoções e a sensibilidade. O gestual é centrado


nas metáforas, isto é, quando se cria uma ilusão como a parede, ela não representa
esse objeto em si e sim um sentimento ou sensação a respeito. Nesse caso, a parede
criada pode representar a prisão dos pensamentos ou de qualquer outro estado
interior.

(3) A Pantomima romana se diferenciava da Mímica em duas maneiras: seus temas


eram mais leves e usavam máscaras em suas apresentações, identificando assim os
personagens, mas impedindo que falassem. Por isso, sua expressão era composta de
uma série de posturas e gestos e a movimentação era centrada nas mãos. Na Idade
Média, um grande número de atores deixou Roma por Constantinopla, onde se
renovou o sucesso da Pantomima. Na Europa, a Pantomima é encontrada com
grande popularidade nas feiras e a temática deixa de ser mitológica, como acontecia
na antiguidade e torna-se um vaudeville com três personagens: o marido, a mulher e
o amante. No século VIII, Carlos Magno condenou os mimos, por indigna
obscenidade, tirando-lhes alguns direitos civis. (COUTINHO, 1993:13).

(4) Segundo o Papa Alexandre, a mímica jogral, isto é, que analisa as façanhas dos
reis e a vida dos santos e consolavam as gentes das suas amarguras e desgostos
podiam ser toleradas. Foi nessa época que foram desenvolvidas características
originalíssimas, das quais nascerá a base do fazer teatral moderno, a Commedia
Dell’Arte. (idem, p.15). Na época do Renascimento, a Pantomima retorna com uma
grande força nas cortes européias. As representações eram feitas de pantomima,
dança e canto, que logo se dividiram em apresentações de pantomima pura, Balleto
(pantomima dançada) e melodrama. (idem, p.17).
NOTAS
(5) Em 1697, o rei Luis XIV expulsou os comediantes italianos de Paris por terem
zombado de sua amante, Madame de Maintenon. A rivalidade entre os comediantes
italianos, a Comédie Française e a ópera (os dois últimos considerados o teatro dos
reis) cresceu de tal maneira que os comediantes italianos foram exilados para o
outro lado do Rio Sena e receberam a permissão de atuarem somente sob as
condições dos atores não falarem. Então, a pantomima silenciosa, tão popular na
França e no resto da Europa, nasceu na forma que a conhecemos e destacou-se na
figura de Jean-Gaspard Debureau, representado por Jean Louis Barrault no clássico
do cinema francês, Lês Enfantes du Paradis, traduzido para o português como
Boulevard do Crime. Em 1716, a proibição foi retirada e os comediantes puderam
voltar para Paris, embora ainda houvesse um forte controle de gênero e repertório
nos teatros.

(6) Esse termo ficou conhecido na Europa para designar o circuito teatral não
comercial.

(7) Em janeiro de 1791, quando a Assembléia Nacional passou a permitir que


qualquer cidadão pudesse estabelecer um teatro público e apresentar peças de
qualquer tipo, o número de casa de espetáculo cresceu para mais de cem.

(8) É muito provável que, devido às condições criadas na França, com as proibições
impostas no reinado de Luis XIV, Luis XV, Luis XVI e repetida por Napoleão, a
França tenha servido de base para o desenvolvimento da Mímica e do gênero da
Pantomima. Essa arte era uma maneira de muitos artistas burlarem a opressão e
expressarem-se.

(9) A partir dos estudos de Decroux, fica estabelecida uma distinção entre o que
seria a arte do ator e a arte de ator. Esta diferenciação será explicitada no decorrer
deste trabalho.
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CADERNOS DA MÍMICA: OS GRANDES MESTRES

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