O navio atracou no porto quando o sol indicava o meio dia, as pranchas
desceram, três delas e bateram no deque. Irimei era uma ilha rica em agricultura, o
cultivo de grãos era tão lucrativo que a marinha já considerou criar uma base na
ilha, porém, a vinda constante de piratas impede que algo seja feito de forma
tranquila. A chegada de um navio da marinha causa alvoroço em todo o lugar que, não
é uma surpresa que os olhos de todos os criminosos estejam fixados naquele em
questão. Uma das sortes de ser marinheiro, é que todos são identificados como
iguais, nunca é notável quando alguém com grande cargo era presente, diferente dos
piratas que as bandeiras sempre revelavam quem era o bando.
Os fios azul como o mar fugiam por baixo do boné branco, o olho que lhe fora
arrancado pela Besta Marítima era coberto por um tampa olho fixo, era escondido
pelos mesmos fios azuis, sua ferida não era oculta por vergonha, mas não trazia
algo de bom quando se encontrava com os mal acostumados à carnificina da guerra.
Houve até mesmo o caso de uma criança ficar horrorizada enquanto tentava conversar,
ela não parava de encara o tapa olho.
A Capitã descera a prancha seguida de outros, todos da tripulação que regia
aquele navio, o manto branco sobre os ombros era jogado pelo vento do mar, a aba de
seu boné fazia sombra sobre olhos enquanto ela andava, as mãos se escondiam nos
bolsos. Havia várias pessoas andando pelo porto, comerciantes em sua maioria,
barracas com frutos do mar e até aqui, diversas frutas e legumes, eles queriam
deixar tudo em um fácil acesso para os visitantes. Os soldados estavam em formação,
carregando espadas em seu coldre, a capitã não queria que usassem rifles para este
lugar, estavam rígidos como se fossem máquinas, bem corretos, isso até que..
— Aproveitem, teremos algumas horas antes de seguir viagem.
Logo, todos se desleixaram, as poses estáticas feito gesso se desmancharam. Era
a deixa para que os homens pudessem ter um momento de folga, até mesmo os mais
confiáveis da Capitã, a sua elite pessoal se continha nesta hora. Desde o primeiro
instante, era exigido que seus subordinados fossem tão corretos quanto ela, o Anjo
da Misericórdia não tolerava qualquer tipo de desvio em seu caráter, por isso,
apesar de seu cargo não ser maior que uma Capitã, ela tinha a grandiosidade tal
qual um Almirante.
Este era um momento no qual, inclusive ela, poderia se livrar um pouco de tanta
atenção. Com o indicador, ela chamou um marinheiro que estava próximo, este não
quebrou sua pose em momento algum, era um homem alto, não de corpo todo, suas
pernas eram finas e longas e por isso dava a impressão de ser maior do que é, ele
também tinha um bigode fino que dava voltas e seu cabelo era um liso lambido para
trás, usava luvas e a roupa branca como os outros, porém, sendo algo mais social,
uma blusa de mangas longas e o seu sapato era um preto contrastante.
— A senhorita vai bater perna de novo, madame? — A figura perguntou como se aquilo
não fosse algo incomum.
Os olhos de Angela o encararam por baixo do boné, só o brilho azul de suas
órbitas eram visíveis.
— Só um pouco. — Disse com um sorriso que escapara de seus lábios, logo ela deixava
o sobretudo branco nas mãos do homem, seu boné, foi trocado por um preto, esse cujo
não era escrito Marinha, mas sim escrito: Cool. — Estou irreconhecível, não acha?
— Eu nunca vi a senhora uma vez na vida, madame. — Mentiu.
— Ah, também não precisa exagerar.
Chegando ao povo, Angela teria se desvencilhado, o Navio ficara ancorado
enquanto todos reabasteciam e curtiam o pouco da folga, ela não faria diferente,
mas a roupa de uma capitã eram demasiadamente chamativas, mesmo sem elas, adquiriu
o costume de ocultar o rosto na sombra da aba de seu boné, isso talvez a ajudasse
um pouco, se o seu cabelo já não fosse chamativo o suficiente por ser azul.
Apesar do navio ter atracado, as pessoas não pareceram se importar com a
presença da Marinha, isso era algo que ela gostava em algumas ilhas. Muitos viam
eles como os reais inimigos e ela as vezes até concordara, mas não iria se desfazer
disso, afinal, eram os corretos nos dias de hoje, mesmo com as maçãs podres que
ficam entre as outras.
Ela vira uma senhora que parecia bem animada abanando um lenço sobre as
mercadorias, eram peixes frescos segundo ela, estavam sobre vários cubos de gelo em
uns cestos retangulares, havia uma outra pessoa ali já embalando algum dos peixes
para um senhor ao lado, Angela se aproximou e encarou os peixes. Sentia o desejo de
comer algo diferente, que certamente o cozinheiro do Navio poderia preparar para
ela.
— Venha, venha, eles não mordem. Estes aqui até parecem estar chamando por você,
garota. — Dizia a senhora num tipo de Merchant. — Você parece alguém que já sabe o
que quer, para você eu faço num preço camarada.
Angela a olhou quando disse sobre o preço, fuçou os bolsos e logo um suor frio
caiu de sua testa. Droga, a carteira! pensou quase que audível aos outros, ela
passou a procurar em bolsos que nunca usara mas nada. A carteira com o seus Belly's
tinha ficado no bolso do sobretudo, era certeza de que faria isso, não foi a
primeira vez, e muito por isso, lá estava de novo o homem de pernas finas e longas
atrás, fazendo sombra.
— Aqui está madame. — Numa voz serena, ele mal surgia a visão da senhora que vendia
a mercadoria.
— Hm? Ah! obrigada Onuri, eu acabei esquecendo mesmo isso. — Ele já entregava em
suas mãos antes de dizer.
A aquela altura, o seu disfarce tinha sido desfeito, mas Angela não notara,
afinal, Onuri, estava vestido com as roupas tradicionais de um marinheiro e também
carregava o sobretudo dobrando nas mãos. Ele a seguira poucos passos atrás, Angela
nunca saia sozinha, muito por o péssimo costume de esquecer as coisas então Onuri
tem um dos deveres mais importantes, que é o de trazer a Capitã sempre de volta no
fim do dia.
Uma certa vez, a tripulação teria ficado cerca de três dias atracados numa
ilha, isso teria acontecido por ter se esquecido sobre a hora de voltar e pior
ainda, quando finalmente lembrou, esquecera também o caminho de volta.
Ela havia pedido quatro dos peixes que achara mais suculentos, eram de cor
roxa, ela tinha certeza de que viu sobre num cartaz da cidade, logo abaixo tinha
também uma forma de preparo e um exemplo de como ficava ao final, ia junto de
macarrão e um caldo alaranjado que ela tinha certeza de que era feito com algum
tipo de ave, pois tinha coxas de frango dentro de uma tigela com molho ao lado da
imagem do prato. Isso ela não tinha como esquecer.
A senhora encarava Angela com um olhar de surpresa, mas quando viu sua
expressão feliz por ter conseguido o peixe, ela teria se tranquilizado. O saco
enrolava cada um dos peixes, Onuri se prontificou a carregar mas ela recusou e pois
entre os braços em um abraço, todos os quatro peixes que por si só, eram envoltos
de um papel claro para se preservar.
Quando os dois, Angela e Onuri iam pelo caminho de volta, era visível a
felicidade da mulher, Onuri, era um exemplo de postura, nem sequer demonstrava
muitas emoções, mas ele gostava de ver como a Capitã se portava nessas horas, essa
eram as vezes que ele esboçava um leve sorriso. O boné de Angela ameaçava cair toda
vez que dava um passo, um dos peixes que ela abraçava ficava empurrando a aba para
trás, até por isso que Onuri andava olhando para sua cabeça, como se esperasse que
caísse. Ela falava sobre várias coisas, Onuri respondia de forma simples e ela não
se importava se parecia querer ficar calado ou não, ela puxava assuntos dos mais
diversos com o seu braço direito.
A chegada para a Ilha Irimei não era por puro acaso para abastecimento, era
pedido que a Capitã viesse a dar cabo de um criminoso que fora visto na região, era
alegado que o pirata Thuba, O Verde Vivo, estava utilizando da rica força na
agricultura do povo para comercializar plantas ilegais. A planta da ''vez'' era uma
conhecida por ser usada como material de fabricação para gás lacrimogênio. Angela
por estar mais próxima, foi a escolhida, porém, foi necessária a ida de uma forma
ou de outra.
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A base de operações para o tal comércio clandestino era dentro de uma caverna,
não foi difícil descobrir segundo os marinheiros que vinham no nome da Capitã, eles
alegavam que diversas marcas de linhas iam até lá, em uma tocaia viram que isso era
graças as raízes mal podadas. Um grupo com cinco homens além de Onuri, portavam
pistolas e espadas prontas para uso, todos seguiam Angela que liderava pela
estrada, era lamacenta e repleta de vegetação, oculta por arbustos e árvores que
cresceram descontroladamente.
Os ruídos que vinham de dentro se cessaram no momento em que seus passos
avançavam caverna a dentro, a Capitã e os demais avistaram as luzes de lampiões e
diversos piratas, pernas de pau, ganchos, roupas cobertas de fuligem, poeira, lama,
luvas e muitos caixotes. Eles encararam o grupo e sem pestanejar, começaram:
— Marinha!
E de um segundo para outro, o clima que certamente era para um trabalho
tranquilo foi coberto por uma chuva de balas e faíscas das balas voando de um lado
ao outro, Angela permanecera de pé sozinha enquanto os outros buscavam cobertura,
isso se dava ao fato de que as balas ao tocar em seu corpo atravessavam.
— É uma usuária!
Angela era uma mulher de fogo, mais precisamente, chamas azuis, ela teria
comido a versão semelhante a Ora Ora no Mi. Diferente da original, ela não adquiria
a capacidade de se tornar uma fênix.
As balas atravessavam e faziam rombos no corpo e na roupa, tudo que estava ao
seu toque tinha a intangibilidade das balas. Logo a Capitã, cansada de esperar a
noite virar, com o punho fechado fez um movimento, um murro ao vento que ia em
direção aos piratas, um silêncio tomou pouco antes de faíscas saírem na direção e
vários feixes se formarem e criarem as tais chamas azuis, um círculo de chamas se
faz como se queimasse uma linha até o centro dos homens e causando uma explosão que
espalhou todos num impacto, toda a caverna ficara numa fumaça cinzenta enquanto os
marinheiros tossiam, Angela por outro lado, avançava ignorando os piratas que caíam
parecendo desacordados. Um ainda tentou dar outro disparo, mas Onuri, com
elegância, chutou o revolver para longe das mãos do marginal.
— Já não viu que é inútil? — Disse apontando a lâmina de sua rapieira, a lâmina
lembrava uma agulha gigante.