Questões de Filosofia para OAB Comentadas
Questões de Filosofia para OAB Comentadas
FILOSOFIA
Comentadas
@GUIADAOAB
Questões comentadas para OAB – Filosofia 1
É preciso sair do estado natural, no qual cada um age em função dos seus próprios caprichos, e
convencionar com todos os demais em submeter-se a uma limitação exterior, publicamente acordada, e,
por conseguinte, entrar num estado em que tudo que deve ser reconhecido como seu é determinado pela
lei... Immanuel Kant A perspectiva contratualista de Kant, apresentada na obra Doutrina do Direito,
sustenta ser necessário passar de um estado de natureza, no qual as pessoas agem egoisticamente, para
um estado civil, em que a vida em comum seja regulada pela lei, como forma de justiça pública. Isso implica
interferir na liberdade das pessoas.
Em relação à liberdade no estado civil, assinale a opção que apresenta a posição que Kant sustenta na obra
em referência.
a) O homem deixou sua liberdade selvagem e sem freio para encontrar toda a sua liberdade na dependência
legal, isto é, num estado jurídico, porque essa dependência procede de sua própria vontade legisladora.
b) A liberdade num estado jurídico ou civil consiste na capacidade da vontade soberana de cada indivíduo de
fazer aquilo que deseja, pois somente nesse estado o homem se vê livre das forças da natureza que limitam
sua vontade.
c) A liberdade civil resulta da estrutura política do estado, de forma que somente pode ser considerado
liberdade aquilo que decorre de uma afirmação de vontade do soberano. No estado civil, a liberdade não
pode ser considerada uma vontade pessoal.
d) Na república, a liberdade é do governante para governar em prol de todos os cidadãos, de modo que o
governante possui liberdade, e os governados possuem direitos que são instituídos pelo governo.
COMENTÁRIOS:
Letra a.
Em relação a provas anteriores, esse Exame foi relativamente simples. Os autores cobrados são clássicos e
estudados em diversas disciplinas do curso de Direito, não especificamente nas disciplinas de Filosofia. A seu
turno, a questão tenta confundir o examinando com a inclusão de alternativas que podem se referir a outros
autores, mas não ao autor proposto. A alternativa b, em verdade, corresponde ao estado de natureza, pelo
qual o indivíduo não sofre limitações que não aquelas decorrentes do estado das coisas e de suas capacidades
físicas. O próprio texto motivador da questão ajuda a afastar essa alternativa. A alternativa c trata do Estado
absolutista, em que a vontade do monarca se sobrepõe à dos demais indivíduos. Kant faz parte do
iluminismo, que representou a corrente teórica que fundamentou os ideais liberais que derem origem às
revoluções do Século XVIII. A última alternativa tem preferência o proposto por Rousseau em relação à noção
de nação.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 2
Temos pois definido o justo e o injusto. Após distingui-los assim um do outro, é evidente que a ação justa
é intermediária entre o agir injustamente e o ser vítima da injustiça; pois um deles é ter demais e o outro
é ter demasiado pouco.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. Em seu livro Ética
a Nicômaco, Aristóteles apresenta a justiça como uma virtude e a diferencia daquilo que é injusto.
Assinale a opção que define aquilo que, nos termos do livro citado, deve ser entendido como justiça
enquanto virtude.
a) Uma espécie de meio-termo, porém não no mesmo sentido que as outras virtudes, e sim porque se
relaciona com uma quantia intermediária, enquanto a injustiça se relaciona com os extremos.
b) Uma maneira de proteger aquilo que é o mais conveniente para o mais forte, uma vez que a justiça como
produto do governo dos homens expressa sempre as forças que conseguem fazer valer seus próprios
interesses.
c) O cumprimento dos pactos que decorrem da vida em sociedade, seja da lei como pacto que vincula todos
os cidadãos da cidade, seja dos contratos que funcionam como pactos celebrados entre particulares e
vinculam as partes contratantes.
b) Um imperativo categórico que define um modelo de ação moralmente desejável para toda e qualquer
pessoa e se expressa da seguinte maneira: “Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, por meio
da tua vontade, uma lei universal”.
COMENTÁRIOS:
Letra a.
A alternativa B trata do estado de natureza, que, por seu estado de coisas, não pode ser considerado justo
ou injusto, apenas é. A alternativa C se refere ao contratualismo, que vem muitos séculos após a obra de
Aristóteles. A alternativa D se refere ao proposto pela teoria de Kant.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 3
Em seu livro Levando os Direitos a Sério, Ronald Dworkin cita o caso Riggs contra Palmer, em que um jovem
matou o próprio avô para ficar com a herança. O Tribunal de Nova Iorque (em 1889) julga o caso
considerando que a legislação do local e da época não previa o homicídio como causa de exclusão da
sucessão. Para solucionar o caso, o Tribunal aplica o princípio, não legislado, do direito que diz que
ninguém pode se beneficiar de sua própria iniquidade ou ilicitude. Assim, o assassino não recebeu sua
herança.
Com esse exemplo podemos concluir que a jusfilosofia de Ronald Dworkin, dentre outras coisas, pretende
a) revelar que a responsabilidade sobre o maior ou menor grau de justiça de um ordenamento jurídico é
responsabilidade exclusiva do legislador que deve se esforçar por produzir leis justas.
b) mostrar como as cortes podem ser ativistas quando decidem com base em princípios e não com base na
lei e que decidir assim fere o estado de direito.
c) defender que regras e princípios são normas jurídicas que possuem as mesmas características e, por isso,
ambos podem ser aplicados livremente pelos tribunais.
d) argumentar que regras e princípios são normas com características distintas e em certos casos os princípios
poderão justificar de forma mais razoável a decisão judicial, pois a tornam também moralmente aceitável.
COMENTÁRIOS:
Letra d.
No caso citado, Dworkin aponta que existe uma contraposição entre o comportamento do indivíduo e o
comportamento que a sociedade deseja incentivar. Para o autor, não pode ser considerado adequado o
estímulo a homicídios com a intenção de receber um adiantamento de herança. Por tal motivo, não se deve
permitir esse resultado no âmbito do ordenamento jurídico.
O que torna o caso atípico, para Dworkin, é o fato de que o resultado da aplicação das regras vigentes ao
caso conduziria a um resultado que estimularia outros atos no mesmo sentido. Nesse contexto, para o autor,
haveria a necessidade de chamar à solução do litígio os princípios liberais que regem o ordenamento jurídico.
No caso específico, aplica-se a noção de ordenamento jurídico como Integridade, o que significa que o
ordenamento jurídico deve ser construído sobre bases coerentes e que respeite os princípios liberais básicos.
Dessa forma, o que se tem é que os princípios devem conduzir a uma aplicação racional do ordenamento
jurídico, de forma a evitar decisões que afrontem os fundamentos liberais do ordenamento
jurídico.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 4
Rudolf Von Ihering, em A Luta pelo Direito, afirma que “O fim do direito é a paz, o meio de atingi-lo, a
luta.” Assinale a afirmativa que melhor expressa o pensamento desse autor
a) O Direito de uma sociedade é a expressão dos conflitos sociais desta sociedade, e ele resulta de uma luta
de pessoas e grupos pelos seus próprios direitos subjetivos. Por isso, o Direito é uma força viva e não uma
ideia.
b) O Direito é o produto do espírito do povo que é passado de geração em geração. Por isso, quando se fala
em Direito, é preciso sempre olhar para a história e as lutas sociais. O Direito Romano é a melhor expressão
desse processo.
c) O Direito é parte da infraestrutura da sociedade e resulta de um processo de luta de classes, em que a
classe dominante o usa para manter o controle sobre os dominados.
d) O Direito resulta da ação institucional do Estado, e no parlamento são travadas as lutas políticas que
definem os direitos subjetivos de uma sociedade.
COMENTÁRIOS:
Letra a.
A obra de Ihering trazida na questão é uma obra fundamental para o estudante de Direito. De fato, foi essa
obra que transformou o símbolo do Direito. Até então, o símbolo do Direito era a balança, o que representava
o equilíbrio que se tentava alcançar por meio do Direito. A partir de Ihering, como por ele proposto, a espada
passou a fazer parte desse símbolo, justamente para demonstrar que o Direito depende da força coercitiva
do Estado para ser aplicável, ter consequência.
Nesse contexto, o autor, nessa obra, tenta demonstrar a importância da luta para a afirmação e manutenção
dos direitos. Para ele, sempre que um direito é violado, o indivíduo tem duas opções, lutar por ele ou desistir
dele e, cada vez que desiste, perde um pouco de sua condição de ser humano. Isso porque o que distingue o
ser humano dos outros seres é justamente o fato de que temos direitos. Ao renunciar, pois, a alguns desses
direitos, abrimos mão também da condição de ser humano.
Nesse contexto, o direito apenas faz sentido quando violado, que é quando o indivíduo se vê entre essas
duas opções. Como a única opção aceitável é a luta, posto que a outra implica desistir daquele direito, a
sociedade e os direitos de uma sociedade acabam construídos a partir daqueles direitos pelos quais a
sociedade escolheu lutar.
b) Errada. Apresenta uma perspectiva evolutiva do direito, uma vez que estabelece uma relação entre luta
dos antepassados e surgimento do direito e passagem para as próximas gerações. Para Ihering, essa luta deve
ser cotidiana.
c) Errada. Apresenta uma perspectiva marxista do direito como meio para dominação das classes sociais.
Ihering não trabalha com a noção de lutas de classes em sua obra.
d) Errada. Transfere a responsabilidade pela defesa dos direitos ao Parlamento, o que está em desacordo
com a obra de Ihering.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 5
“Mister é não olvidar que a compreensão do direito como ‘fato histórico-cultural’ implica o conhecimento
de que estamos perante uma realidade essencialmente dialética, isto é, que não é concebível senão como
‘processus’, cujos elementos ou momentos constitutivos são fato, valor e norma (...)”
(Miguel Reale, In: Teoria Tridimensional do Direito)
Assinale a opção que corretamente explica a natureza da dialética de complementaridade que, segundo
Miguel Reale, caracteriza a Teoria Tridimensional do Direito.
a) A relação entre os polos opostos que são o fato, a norma e o valor, produz uma síntese conclusiva entre
tais polos.
b) A implicação dos opostos na medida em que se desoculta e se revela a aparência da contradição, sem que,
com esse desocultamento, os termos cessem de ser contrários.
c) A síntese conclusiva que se estabelece entre diferentes termos, conforme o modelo hegeliano de tese,
antítese e síntese.
d) A estrutura estática que resulta da lógica de subsunção entre os três termos que constituem a experiência
jurídica: fato, norma e valor.
COMENTÁRIOS:
Letra b.
A dialética é um método de construção do pensamento pelo qual dois elementos contraditórios se reúnem
para formar um terceiro, que seja capaz de reunir os anteriores, sem negá-los e sem copiá-los. Usualmente,
a dialética é construída a partir de um enunciado axiomático, ou seja, uma frase que expressa um valor,
chamado de tese, por um segundo enunciado que contradiga o primeiro ou o negue, chamado de antítese,
e, finalmente, por uma terceira teoria, que seja capaz de considerar os dois anteriores, e que é chamado de
síntese.
Miguel Reale introduz a noção de Dialética da Complementariedade, pela qual a tese e a antítese não se
unem para formar a síntese, mas estabelecem, entre si, uma relação de complementariedade, como se o
primeiro axioma fosse incompleto e, apenas a partir do segundo, é que pode se tornar completo.
a, c) Errada. Estabelecem o modelo dialético clássico, de Hegel, pelo qual tese e antítese se unem para formar
a antítese.
d) Errada. Estabelece uma realidade estática a partir da subsunção de um axioma ao fato, valor e norma. No
entanto, se tem algo que a proposta de Reale não considera é justamente um cenário estático.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 6
Considere a seguinte afirmação de Herbert L. A. Hart: “Seja qual for o processo escolhido, precedente ou
legislação, para a comunicação de padrões de comportamentos, estes, não obstante a facilidade com que
atuam sobre a grande massa de casos correntes, revelar-se-ão como indeterminados em certo ponto em
que a sua aplicação esteja em questão. ” (HART, Herbert. O conceito de Direito. Lisboa: Calouste
Gulbenkian, 1986. p. 141.) Hart admite um grau de indeterminação nos padrões de comportamento
previstos na legislação e nos precedentes judiciais. A respeito, assinale a afirmativa correta.
a) Trata-se do fenômeno chamado na doutrina jurídica de lacuna material do direito, em que o jurista não
consegue dar uma resposta com base no próprio direito positivo para uma situação juridicamente relevante.
b) Trata-se da textura aberta do direito, expressa por meio de regras gerais de conduta, que deve ganhar um
sentido específico dado pela autoridade competente, à luz do caso concreto.
c) Trata-se da incompletude do ordenamento jurídico que, por isso mesmo, deve recorrer aos princípios
gerais do direito, a fim de promover uma integração do direito positivo.
d) Trata-se do fenômeno denominado de anomia social pelos sociólogos do direito, em que existe um vácuo
de normas jurídicas e a impossibilidade real de regulação de conflitos juridicamente relevantes.
COMENTÁRIOS:
Letra b.
Hart é um autor que, no âmbito do Direito, apresenta um pensamento um pouco diferenciado dos demais.
Em vez de desenvolver sua teoria do Direito a partir, seja do ordenamento jurídico, seja da sociedade, ou,
ainda, de considerar a importância dos princípios, Hart desenvolve sua teoria a partir do estudo da
linguagem. Para ele, uma das principais características da linguagem é a sua imprecisão, mas não apenas.
O uso de determinadas expressões pode causar uma percepção negativa ou positiva sobre determinada
norma, o que vai, inclusive, alterar o processo de interpretação.
Essa questão que se está a analisar causou certa polêmica na época de sua aplicação. Isso porque o autor
trata da tessitura aberta da linguagem e, por consequência, da imprecisão que decorre de certas expressões.
A partir disso, o que se tem é que a linguagem, ao ser utilizada para comunicar padrões de comportamento,
apresentam uma textura aberta, o que acaba por se comunicar à norma criada a partir dessa linguagem.
a, c) Erradas. Tratam da existência de lacunas no ordenamento jurídico, o que não tem correlação com o
proposto por Hart.
d) Errada. Trata da ausência de normas jurídicas e sociais sobre o tema, o que indica uma impossibilidade
fática de regulação de um conflito quando se verificar tal ocorrência, o que não está relacionado com a teoria
de Hart.
b) Errada. Apesar de Hart fazer um estudo do Direito a partir da linguagem, ele considera que as imprecisões
da linguagem ao comunicar padrões de comportamento acabam por se comunicar ao ordenamento jurídico,
o que indica não estar errada a correlação proposta pela alternativa.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 7
O utilitarismo é uma filosofia moderna que conquistou muitos adeptos nos séculos XIX e XX, inclusive no
pensamento jurídico. As principais características do utilitarismo são:
COMENTÁRIOS:
Letra a.
Para buscar responder a essa questão, deve-se analisar cada uma das correntes do pensamento filosófico
apresentadas na questão, ainda que resumidamente.
A partir disso, tem-se que o convencionalismo é uma corrente da filosofia política que reconhece que o
conjunto das instituições, costumes e práticas humanas são resultado de convenções culturais, não da
natureza.
Para o consequencialismo, as consequências de um ato devem ser levadas em consideração quando se faz
juízo sobre o certo e o errado, independentemente se existe uma relação de intencionalidade entre a
conduta e o resultado.
Por sua vez, o fundacionalismo está relacionado ao pensamento de que todo o conhecimento humano se
baseia em algumas poucas crenças básicas, enquanto o antifundacionalismo se opõe a essa ideia de que é
possível reduzir a alguns poucos fundamentos base para o conhecimento e construção da sociedade.
O transcendentalismo defende a percepção a partir de uma consciência intuitiva,
nos termos do proposto por Kant.
O materialismo é uma abordagem filosófica para a compreensão de todas as coisas a partir da interação com
bens materiais.
O fatalismo é a corrente filosófica que defende que o que tiver que acontecer vai acontecer,
independentemente de qualquer coisa que se faça para evitar aquele resultado.
Na Filosofia, o mecanicismo é a corrente que pressupõe a existência de Deus como mecanismo de
sustentação do mecanismo do universo.
Para o utilitarismo, uma ação é justa se o resultado for o melhor possível para toda a coletividade, o que
implica uma posição consequencialista. Além disso, o utilitarismo parte do pressuposto de que existe uma
convenção social pela busca do bem comum. O utilitarismo não parte do transcendentalismo. De fato, ele
admite a redução do bem-estar de um indivíduo com a intenção de aumentar o bem-estar de outro. Quanto
ao materialismo, o utilitarismo parte da noção de bem-estar, que não se extrai apenas dos aspectos materiais
de uma relação. Por outro lado, o utilitarismo nega o fatalismo, na perspectiva que reconhece a possibilidade
de atitudes para incremento do bem-estar geral.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 8
A hermenêutica aplicada ao direito formula diversos modos de interpretação das leis. A interpretação que
leva em consideração principalmente os objetivos para os quais um diploma legal foi criado é chamada de
a) interpretação restritiva, por levar em conta apenas os objetivos da lei, ignorando sua estrutura gramatical.
b) interpretação extensiva, por aumentar o conteúdo de significado das sentenças com seus objetivos
historicamente determinados.
c) interpretação autêntica, pois apenas as finalidades da lei podem dar autenticidade à interpretação.
d) interpretação teleológica, pois o sentido da lei deve ser considerado à luz de seus objetivos.
COMENTÁRIOS:
Letra d.
Por sua vez, tem-se que a interpretação autêntica decorre de um critério de classificação quanto à pessoa
que interpreta e admite outros dois tipos, a não autêntica e a sociedade aberta dos intérpretes. Pela
interpretação autêntica, tem-se a atuação dos órgãos e pessoas responsáveis por editar e aplicar a norma. A
interpretação não autêntica, por sua vez, se dá por aqueles que não têm a atribuição de editar e aplicar a
norma. Quanto à sociedade aberta dos intérpretes, trata-se de uma corrente proposta por Peter Häberle
pela qual todos os que devem se comportar de acordo com a norma estão habilitados a ser seu intérprete.
Quanto à interpretação extensiva e restritiva, tem-se uma classificação de acordo com os efeitos do ato de
interpretar e admite, ainda, como tipo a interpretação declaratória.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 9
A partir da leitura de Aristóteles (Ética a Nicômaco), assinale a alternativa que corresponde à classificação
de justiça constante do texto: “... uma espécie é a que se manifesta nas distribuições de honras, de dinheiro
ou das outras coisas que são divididas entre aqueles que têm parte na constituição (pois aí é possível
receber um quinhão igual ou desigual ao de um outro)...”
a) Justiça Natural.
b) Justiça Comutativa.
c) Justiça Corretiva.
d) Justiça Distributiva.
COMENTÁRIOS:
Letra d.
A questão demanda, basicamente, que se interprete o texto e relacione com algumas teorias de Justiça
existentes na literatura. A teoria da Justiça Natural está intrinsecamente relacionada ao Direito Natural e,
para ela, apenas quando o direito positivo reflete o direito natural é que ele é justo. Assim, qualquer norma
que não busque o bem comum é injusta.
A Justiça Comutativa está relacionada ao equilíbrio entre uma prestação e uma contraprestação e, portanto,
apenas ocorre quando ambos os indivíduos, simultaneamente, dão e recebem.
Enquanto a Justiça Comutativa estabelece a existência de um mero equilíbrio, a Justiça Corretiva estabelece
uma relação de igualdade. O ganho e a perda em uma relação jurídica devem ser iguais.
Por fim, a Justiça Distributiva é aquela que admite resultados desiguais, desde que decorrentes de uma
desigualdade anterior. A partir do exposto, tem-se que o texto trata da Justiça Distributiva.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 10
O raciocínio analógico é típico do pensamento jurídico. Esse é um tema debatido por vários teóricos e
filósofos do Direito. Para Norberto Bobbio, na obra Teoria do Ordenamento Jurídico, trata-se de um
método de auto integração do Direito. Assinale a opção que, segundo esse autor, apresenta o conceito de
analogia.
a) Subsunção de um caso (premissa menor) a uma norma jurídica (premissa maior) de forma a permitir uma
conclusão lógica e necessária.
b) Existindo relevante semelhança entre dois casos, as consequências jurídicas atribuídas a um caso já
regulamentado deverão ser atribuídas também a um caso não regulamentado.
c) Raciocínio em que se produz, como efeito, a extensão de uma norma jurídica para casos não previstos por
esta.
d) Decisão, por meio de recurso, às práticas sociais que sejam uniformes e continuadas e que possuam
previsão de necessidade jurídica.
COMENTÁRIOS:
Letra b.
Questão interessante, mas que, para responder, não há necessidade de conhecer a teoria apresentada por
Bobbio sobre o tema.
a) Errada. Apresenta-se um caso de adequação direta do caso à norma, o que afasta a integração por
analogia.
c) Errada. Apresenta-se um caso que está relacionado à hipótese de aplicação da norma, tratando-se de mero
reconhecimento interpretativo de adequação da hipótese à norma, ainda que por extensão do conteúdo ali
presente. Difere da analogia quando essa, para ocorrer, necessariamente desborda os limites da norma,
passando-se a aplicar a caso que não está previsto na norma, mas que, por semelhança, acaba-se por aplicar.
Na interpretação extensiva, tem-se hipótese, tão somente, de ampliação do sentido da norma.
d) Errada. Dispensa comentários, uma vez que está completamente destoante da hipótese apresentada na
questão.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 11
... só a vontade geral pode dirigir as forças do Estado de acordo com a finalidade de suas instituições, que
é o bem comum...
Jean-Jacques Rousseau
A ideia de vontade geral, apresentada por Rousseau em seu livro Do Contrato Social, foi fundamental para
o amadurecimento do conceito moderno de lei e de democracia.
Assinale a opção que melhor expressa essa ideia conforme concebida por Rousseau
no livro citado.
COMENTÁRIOS:
Letra d.
Rousseau apresenta a noção de contrato social pelo qual a sociedade delega parcelas de sua liberdade a um
ente encarregado de buscar a satisfação do interesse coletivo.
Apesar de não ser o primeiro ou o único contratualista da nossa história, Rousseau tem grande importância
por desenvolver o conceito de nação.
Para ele a nação não se confunde com a soma dos indivíduos que habitam um determinado território e,
tampouco, tem sua vontade dirigida por eles.
Na verdade, essa nação, enquanto ficção jurídica, também possui vontade própria, distinta da vontade dos
particulares e que não corresponde à vontade média da sociedade ou à vontade dos indivíduos somadas.
É um ser independente e com interesses próprios. Os interesses da nação são o interesse comum. Esse
interesse comum é representado pela base comum a todos os indivíduos daquela comunidade.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 12
a) A tirania resulta do poder do povo como autogoverno porque o povo não é esclarecido para fazer suas
escolhas. A proteção contra essa tirania é delegar o governo aos mais capacitados, como uma espécie de
governo por meritocracia.
b) A deliberação de juízes ao imporem suas concepções de certo e errado sobre as causas que julgam, produz
a mais poderosa tirania, pois subjuga a vontade daqueles que estão sob a jurisdição desses magistrados.
Apenas o duplo grau de jurisdição pode proteger a sociedade desta tirania.
c) Os governantes eleitos impõem sobre o povo suas vontades e essa forma de opressão é a única tirania da
maioria contra a qual se deve buscar a proteção na vida social, o que é feito por meio da desobediência civil.
d) A sociedade, quando faz as vezes do tirano, pratica uma tirania mais temível do que muitas espécies de
opressão política, pois penetra nos detalhes da vida e escraviza a alma. Por isso é necessária a proteção
contra a tirania da opinião e do sentimento dominantes.
COMENTÁRIOS:
Letra d.
Questão complexa e de difícil resolução. Ainda assim, parece possível resolvê-la por eliminação das
alternativas. O enunciado da questão pede que se analise o que seria a tirania da maioria de acordo com um
determinado autor e que se apresente uma forma de defesa contra essa tirania.
a) Errada. Sugere que o governo do povo forma uma tirania por falta de capacidade do povo e que a defesa
seria a formação de uma oligarquia. Parece estranha a correlação entre governo do povo e tirania da maioria.
b) Errada. Trata de uma tirania de poucos em relação a muitos, de uma tirania de uma elite intelectual. A
questão pede para que se apresente hipótese de tirania da maioria.
c) Errada. Trata da tirania dos governantes eleitos, que impõem sua vontade ao povo. Para complicar,
apresenta a menção a uma tirania da maioria. A defesa contra ela seria a desobediência civil.
d) Certa. Trata de uma tirania realizada pela sociedade, ou seja, da maioria contra a minoria. Além disso, a
proteção apresentada parece ter correlação com a temática da alternativa.
A despeito disso, deve-se tratar brevemente da teoria de John Stuart Mill sobre as ameaças à liberdade
individual na sociedade moderna. De fato, o que se tem é que John Stuart Mill se apresenta como um teórico
da liberdade. Suas obras se dedicam justamente a essa temática e, como não podia deixar de ser, ele se
propõe a analisar as principais ameaças a essa liberdade, que, na sociedade atual, seriam duas: a tirania da
maioria e a interferência ilegítima da sociedade e do estado na liberdade.
Quanto ao segundo, registre-se, inicialmente, que a interferência deve ser ilegítima e para qualificar essa
interferência como ilegítima, para o autor, deve haver uma punição ao indivíduo, restringindo sua liberdade,
mesmo quando sua conduta não tenha potencial danoso aos interesses de terceiros.
Por outro lado, a tirania da maioria, em contraposição a tiranias perpetradas pelo Estado, não vem apoiada
por penalidades aplicadas pelo Estado e, de fato, pune não no âmbito externo ao indivíduo, mas pela
penalização da alma por meio de penalidades sociais. Trata-se da tirania da opinião, em que a maioria exerce
controle moral sobre os interesses da minoria.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 13
Algo mais fundamental do que a liberdade e a justiça, que são os direitos dos cidadãos, está em jogo
quando deixa de ser natural que um homem pertença à comunidade em que nasceu...
(ARENDT, Hannah. As origens do Totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 2012.)
A situação atual dos refugiados no mundo provoca uma reflexão jusfilosófica no sentido do que já havia
pensado Hannah Arendt, logo após a II Guerra Mundial, em sua obra As Origens do Totalitarismo. Nela, a
autora sustenta que o mais fundamental de todos os direitos humanos é o direito a ter direitos, o que não
ocorre com os apátridas.
Segundo a obra em referência, assinale a opção que apresenta a razão pela qual o homem perde sua
qualidade essencial de homem e sua própria dignidade.
COMENTÁRIOS:
Letra d.
Hannah Arendt é uma filósofa política que dedica sua obra a tratar da violência.
Para ela, nenhuma forma de violência é legítima, nem mesmo a estatal. O Estado surge para garantir direitos,
não para legitimar a violência sobre os indivíduos.
A autora é a responsável, ainda, por construir a noção de dignidade da pessoa humana que utilizamos no
nosso cotidiano de estudo do Direito.
Nesse contexto, um dos aspectos que acaba por ser tratado na obra As Origens do Totalitarismo é justamente
o direito à cidadania. Nesse contexto, a autora analisa o contexto pós Primeira Guerra Mundial, em que
aumentou enormemente a quantidade de pessoas que viviam à margem do Estado, como um problema não
considerado.
No caso dos apátridas, Hannah Arendt afirmou que o grande problema para eles não era a igualdade perante
as leis do Estado, uma vez que, para eles, sequer existiam leis, posto que estavam à margem desse sistema.
Nesse contexto, a autora acaba por definir a cidadania como o direito a ter direitos. Em outras palavras, o
pertencimento a uma comunidade politicamente organizada é que era responsável por garantir aos
indivíduos os direitos e o não pertencimento o relegava a uma categoria esquecida e sem direitos.
A partir disso, tem-se que a letra a trata apenas da privação de direitos específicos, enquanto o debate
proposto por Hannah Arendt parte da negativa de todos os direitos. A alternativa restringe a questão a duas
liberdades: a de crença e a de expressão; o que também não se aplica ao caso em análise.
A letra c limita a questão apenas ao cumprimento de penas privativas de liberdade. Ainda que Hannah Arendt
reconheça que a violência do Estado é ilegítima, não se trata da questão posta no enunciado.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 14
a) O primeiro método consiste na integração operada por meio de recursos a ordenamentos diversos e a
fontes diversas daquela que é dominante; o segundo método consiste na integração cumprida por meio do
mesmo ordenamento, no âmbito da mesma fonte dominante, sem recorrência a outros ordenamentos.
b) A heterointegração consiste em preencher as lacunas recorrendo-se aos princípios gerais do Direito, uma
vez que estes não estão necessariamente incutidos nas normas do Direito positivo; já a autointegração
consiste em solucionar as lacunas por meio das convicções pessoais do intérprete.
c) O primeiro método diz respeito à necessidade de utilização da jurisprudência como meio adequado de
solucionar as lacunas sem gerar controvérsias; por outro lado, o segundo método implica buscar a solução
da lacuna por meio de interpretação extensiva.
d) A heterointegração exige que o intérprete busque a solução das lacunas nos tratados e nas convenções
internacionais de que o país seja signatário; por seu turno, a autointegração está relacionada à busca da
solução na jurisprudência pátria.
COMENTÁRIOS:
Letra a.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 15
Uma punição só pode ser admitida na medida em que abre chances no sentido de evitar um mal maior.
Jeremy Bentham, em seu livro Princípios da Moral e da Legislação, afirma que há quatro casos em que não
se deve infligir uma punição.
Assinale a opção que corresponde a um desses casos citados pelo autor na obra em referência.
COMENTÁRIOS:
Letra b.
Espero que você, estudante, nesse ponto, já tenha conseguido perceber uma tendência das questões do
Exame de Ordem. Boa parte das questões pode ser resolvida por eliminação e essa não é diferente. O
enunciado trata de hipóteses em que não se deve punir. Além disso, o texto informativo traz a noção de a
punição apenas faz sentido quando surge para prevenir um mal maior.
a) Errada. Afirma que não deve haver punição quando a lei não é clara sobre qual a punição aplicável. Nesse
caso, não se tem, por óbvio, a desnecessidade da punição, mas maior liberdade do julgador na aplicação da
penalidade.
b) Errada. Afirma que não deve haver punição quando o prejuízo causado pela pena for superior ao prejuízo
que se quer evitar, o que parece adequado.
Outra forma de resolver a questão é conhecer a teoria de Jeremy Bentham. O autor se enquadra na escola
utilitarista, o que significa dizer que ele busca o incremento da satisfação geral da sociedade, do bem-estar
geral. Nesse contexto, a punição não deve ser imposta quando:
I ela não for capaz de impedir que o prejuízo ocorra;
II ela for ineficaz para a prevenção de um prejuízo;
III quando o prejuízo resultante dela for superior ao prejuízo que se pretende evitar; e
IV quando o prejuízo puder ser impedido ou interrompido sem a punição.
Isso porque a punição gera um prejuízo não apenas ao indivíduo, mas também à sociedade, o que afasta a
sua necessidade quando for ineficaz, ineficiente, inútil ou desnecessária.
c) Errada. Fala genericamente de ser a aplicação da pena inoportuna.
d) Errada. Afirma que não é necessária a punição quando o processo penal já tiver criado embaraços
suficientes ao indivíduo. O processo penal surge como mecanismo para assegurar as garantias do indivíduo
e para isso podem ser criados certos embaraços, mas isso não é suficiente para afastar a necessidade de
pena.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 16
O filósofo inglês Jeremy Bentham, em seu livro Uma introdução aos princípios da moral e da legislação,
defendeu o princípio da utilidade como fundamento para a Moral e para o Direito.
Para esse autor, o princípio da utilidade é aquele que
a) estabelece que a moral e a lei devem ser obedecidas porque são úteis à coexistência humana na vida em
sociedade.
b) aprova ou desaprova qualquer ação, segundo a tendência que tem a aumentar ou diminuir a felicidade
das pessoas cujos interesses estão em jogo.
c) demonstra que o direito natural é superior ao direito positivo, pois, ao longo do tempo, revelou-se mais
útil à tarefa de regular a convivência humana.
d) afirma que a liberdade humana é o bem maior a ser protegido tanto pela moral quanto pelo direito, pois
são a liberdade de pensamento e a ação que permitem às pessoas tornarem algo útil.
COMENTÁRIOS:
Letra b.
Trata-se de outra questão sobre a teoria de Bentham; mas, diferente da anterior, é necessário conhecer um
mínimo sobre o utilitarismo para responder à questão.
O utilitarismo é uma corrente filosófica que tem por objeto o incremento do bem-estar geral da sociedade
ainda que, para isso, seja necessário reduzir o bem-estar de um indivíduo. Em outras palavras, é legítima a
tributação para distribuição de riquezas, apenas se o resultado final da distribuição for maior do que o
prejuízo causado ao indivíduo que precisou pagar o tributo e teve sua renda reduzida. Nesse contexto, o que
o utilitarismo busca é um resultado social positivo. Outra forma denunciar esse bem-estar está justamente
na busca por felicidade.
Nesse contexto, o que se tem é a letra b é a mais adequada para refletir o que propõe o utilitarismo na
medida em que afirma que o utilitarismo tem como consequência a aprovação ou desaprovação da conduta
a depender do resultado positivo ou negativo geral em termos de felicidade geral.
a) Errada. Tenta utilizar a noção de utilidade para o senso comum, não a noção filosófica.
c) Errada. Não tem nenhuma relação com o utilitarismo.
d) Errada. Faz um jogo de palavras e chega ao resultado de que a liberdade de ação e pensamento permite
que as pessoas exerçam sua criatividade, o que, também, não está relacionado ao utilitarismo.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 17
Uma das mais importantes questões para a Filosofia do Direito diz respeito ao procedimento que define
uma norma jurídica como sendo válida. Para o jusfilósofo Herbert Hart, em O Conceito de Direito, o
fundamento de validade do Direito baseia-se na existência de uma regra de reconhecimento, sem a qual
não seria possível a existência de ordenamentos jurídicos.
Segundo Hart, assinale a opção que define regra de reconhecimento.
a) Regra que exige que os seres humanos pratiquem ou se abstenham de praticar certos atos, quer queiram
quer não.
b) Regra que estabelece critérios segundo os quais uma sociedade considera válida a existência de suas
próprias normas jurídicas.
c) Regra que impõe deveres a todos aqueles que são reconhecidos como cidadãos sob a tutela do Estado.
d) Regra que reconhece grupos excluídos e minorias sociais como detentores de direitos fundamentais.
COMENTÁRIOS:
Letra b.
Questão simples e superficial sobre a teoria de Herbert Hart. Basicamente, Hart distingue regras primárias
das secundárias.
• As regras primárias, também chamadas de regras de obrigação, estabelecem a obrigatoriedade de condutas
ou a abstenção de determinados atos, o que se dá de forma dissociada da vontade do sujeito.
• Por sua vez, as regras secundárias dizem respeito às regras primárias e estabelecem o procedimento de
criação, alteração, extinção ou substituição de regras primárias. Por sua vez, as regras secundárias podem
ser de três tipos:
– As regras de reconhecimento estabelecem critérios pelos quais as normas são identificadas e consideradas
válidas.
– As regras de alteração conferem poderes para que as regras primárias sejam modificadas, corrigidas ou
criadas.
– As regras de julgamento são as que dão poder para certos indivíduos proferirem determinações para o caso
concreto acerca da aplicação da norma primária.
Assim, as letras c e d em nada têm relação com a temática da questão. A letra a trata de uma regra primária.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 18
a) a lei não deve ser interpretada segundo a razão e os critérios valorativos daquele que deve aplicá-la, mas,
ao contrário, este deve submeter-se completamente à razão expressa na própria lei.
b) o legislador é onipotente porque é representante democraticamente eleito pela população, e esse
processo representativo deve basear-se sempre no direito consuetudinário, porque este expressa o
verdadeiro espírito do povo
c) uma vez promulgada a lei pelo legislador, o estado-juiz é competente para interpretá-la buscando
aproximar a letra da lei dos valores sociais e das demandas populares legítimas.
d) a única força jurídica legitimamente superior ao legislador é o direito natural; portanto, o legislador é
soberano tomar suas decisões, desde que não violem os princípios do direito natural.
COMENTÁRIOS:
Letra a.
A questão refere-se mais à Escola da Exegese do que ao proposto por Bobbio. Nesse contexto, para a escola,
o Direito, por excelência, é revelado pelas leis.
A Escola da Exegese, iniciada em fins do Século XIX, se estabelece justamente como a corrente jusfilosófica
que deu origem ao positivismo jurídico. Para essa Escola do pensamento jurídico, o fundamento da atuação
do ordenamento jurídico é um argumento de autoridade, qual seja, que o legislador, pelo exercício de sua
vontade, estabeleceu aquela norma jurídica e que, por isso, deve essa norma ser cumprida.
Nesse contexto, o Estado mostra-se como a única fonte legítima do direito. Por outro lado, a interpretação
deve buscar a mens legis, ou a vontade da lei.
A partir disso, as letras b, c e d apresentam visões diferentes de jusnaturalismo; mas, em todas, o direito
positivo está subordinado a outras normas, do que decorre a incorreção das alternativas.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 19
De acordo com o contratualismo proposto por Thomas Hobbes em sua obra Leviatã, o contrato social só é
possível em função de uma lei da natureza que expresse, segundo o autor, a própria ideia de justiça.
Assinale a opção que, segundo o autor na obra em referência, apresenta esta lei da natureza.
COMENTÁRIOS:
Letra c.
Para Hobbes, o estado de natureza é intrinsecamente mal, uma vez que, nele, os indivíduos convivem num
estado de guerra de todos contra todos. Nesse estado de natureza, o indivíduo se mostra incapaz de conviver
uns com os outros e, dá, em troca de uma segurança normativa, cede parcelas de sua liberdade.
Note-se que a palavra-chave aqui é a segurança normativa e, nesse contexto, Hobbes constrói a noção de
que Justiça é o respeito aos acordos firmados, uma vez que, no Estado de Natureza, não existe justiça ou
injustiça como decorrência do estado de guerra de todos contra todos. Superar, pois, esse estado, significa
cumprir os pactos celebrados.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 20
Segundo o filósofo Immanuel Kant, em sua obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes, a ideia de
dignidade humana é entendida
a) como qualidade própria de todo ser vivo que é capaz de sentir dor e prazer, isto é, característica de todo
ser senciente.
b) quando membros de uma mesma espécie podem ser considerados como equivalentes e, portanto, iguais
e plenamente cooperantes se eles possuem dignidade.
c) como valor jurídico que se atribui às pessoas como característica de sua condição de sujeitos de direitos.
d) como algo que está acima de todo o preço, pois quando uma coisa tem um preço pode-se pôr em vez dela
qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e portanto não permite
equivalência, então ela tem dignidade.
COMENTÁRIOS:
Letra d.
Apesar de Hannah Arendt desenvolver a teoria da Dignidade da Pessoa Humana, o primeiro autor a trazer a
ideia de que não é possível atribuir uma correspondência monetária ao homem foi trazida por Kant.
Kant entendia que o ser humano tinha um fim em si mesmo que não estava subordinado a outros elementos
externos e, por ser um ente autônomo enquanto ser racional, possuía dignidade. A concepção moderna de
Dignidade da Pessoa Humana vai muito além do quê introduzido por Kant.
Não é a dignidade a fonte de direitos na teoria Kantiana, mas a esfera de deveres morais decorrente da
aplicação do Imperativo Categórico. A dignidade residiria apenas no reconhecimento de que não se pode
atribuir um preço ao indivíduo.
A partir disso, tem-se que o erro da letra a está em atribuir a dignidade a todo ser vivo, da letra b o
condicionamento para que se trate de seres da mesma espécie e que eles atuem cooperativamente e, da
letra c, a condição para o exercício de direitos na noção de dignidade.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 21
Isso pressupõe que a norma de justiça e a norma do direito positivo sejam consideradas como
simultaneamente válidas. Tal, porém, não é possível, se as duas normas estão em contradição, quer dizer,
entram em conflito uma com a outra. Nesse caso apenas uma pode ser considerada como válida. Hans
Kelsen Sobre a relação entre validade e justiça da norma, o jusfilósofo Hans Kelsen, em seu livro O
Problema da Justiça, sustenta o princípio do positivismo jurídico, para afirmar que
a) a validade de uma norma do direito positivo é independente da validade de uma norma de justiça.
b) o direito possui uma textura aberta que confere, ao intérprete, a possibilidade de buscar um equilíbrio
entre interesses conflitantes.
c) o valor de justiça do ato normativo define a validade formal da norma; por isso valor moral e valor jurídico
se confundem no direito positivo.
d) a validade de uma norma jurídica se refere à sua dimensão normativa positiva, à sua dimensão axiológica,
e também, à sua dimensão fática.
COMENTÁRIOS:
Letra a.
A obra O Problema da Justiça de Kelsen, apesar de indicar uma necessária atenção do autor para a questão
da Justiça, o que parece contraditório à sua proposta de separação do Direito da Moral, acaba por dar
sustentação à Teoria Pura do Direito.
Ainda que Kelsen objetive com a obra discutir os conceitos de Justiça apresentados por diversos autores no
decorrer da história da humanidade, ao final o autor conclui que, pela impossibilidade de estabelecimento
de um conceito objetivo para a noção de Justiça, não se deve subordinar a validade de uma norma do
ordenamento jurídico a uma norma de justiça, que possui alto grau de indeterminação.
Por outro lado, Kelsen não se dedica muito à análise da atividade interpretativa, que estaria fora do escopo
do estudo do Direito, o que, inclusive, é uma das principais críticas à obra de Kelsen e a base para o
surgimento do Pós-positivismo.
Assim, enquanto as letras b e c estão em confronto com o proposto por Kelsen, a letra d refere-se à teoria
tridimensional da norma proposta por Miguel Reale.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 22
O Art. 126 do CPC afirma que o juiz não se exime de sentenciar ou despachar alegando lacuna ou
obscuridade da lei. A questão das lacunas também é recorrente no âmbito dos estudos da Filosofia e da
Teoria Geral do Direito. O jusfilósofo Norberto Bobbio, no livro Teoria do Ordenamento Jurídico apresenta
um estudo sobre essa questão. O autor denomina por lacuna ideológica a falta de uma norma
COMENTÁRIOS:
Letra b.
Bobbio, ao estudar o Ordenamento Jurídico apresenta, diversas classificações para lacunas porventura
existentes em seu âmbito. Uma das classificações possíveis está relacionada à natureza da lacuna.
Uma possibilidade se refere à existência de lacunas reais, ou seja, que decorram da efetiva inexistência de
norma aplicável ao caso concreto.
Uma segunda possibilidade é a existência de lacunas ideológicas, que decorrem da contraposição entre o
ordenamento jurídico vigente, que é o sistema jurídico real, e aquele idealmente suposto, que seria o
ordenamento jurídico justo.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 23
Segundo o Art. 1.723 do Código Civil, “É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o
homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o
objetivo de constituição de família”. Contudo, no ano de 2011, os ministros do Supremo Tribunal Federal
(STF), ao julgarem a Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.277 e a Arguição de Descumprimento de
Preceito Fundamental 132, reconheceram a união estável para casais do mesmo sexo.
A situação acima descrita pode ser compreendida, à luz da Teoria Tridimensional do Direito de Miguel
Reale, nos seguintes termos:
a) uma norma jurídica, uma vez emanada, sofre alterações semânticas pela superveniência de mudanças no
plano dos fatos e valores.
b) toda norma jurídica é interpretada pelo poder discricionário de magistrados, no momento em que estes
transformam a vontade abstrata da lei em norma para o caso concreto.
c) o fato social é que determina a correta compreensão do que é a experiência jurídica e, por isso, os
costumes devem ter precedência sobre a letra fria da lei.
d) o ativismo judicial não pode ser confundido com o direito mesmo. Juízes não podem impor suas próprias
ideologias ao julgarem os casos concretos.
COMENTÁRIOS:
Letra a.
A teoria tridimensional da norma está no âmbito da Gnoseologia, que é o ramo da Filosofia que estuda como
as coisas são. A partir disso, Reale desenvolveu a noção de que a norma não existe em um plano
independente, mas está efetivamente dependente e relacionada ao mundo dos fatos e ao mundo dos
valores, que se relacionam para conformar-se uns aos outros.
Nesse contexto, a ocorrência de transformações no âmbito dos fatos e dos valores tem o condão de
implementar alterações semânticas na norma jurídica, que, no entanto, não tem outra opção além de se
deixar determinar pelas mudanças ocorridas.
b) Errada. Estabelece a existência de um poder discricionário dos juízes no estabelecimento do sentido da
norma.
c) Errada. Estabelece uma prevalência dos costumes sobre as normas jurídicas, o que não está em acordo
com a proposta de Reale.
d) Errada. Confunde ativismo judicial com a imposição da vertente ideológica do julgador, o que apenas seria
possível em um Judiciário em que as decisões fossem tomadas de forma singular ou que houvesse um
domínio ideológico sobre os seus membros.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 24
Segundo Chaïm Perelman, ao tratar da argumentação jurídica na obra Lógica Jurídica, a decisão judicial
aceitável deve satisfazer três auditórios para os quais ela se destina.
Assinale a alternativa que indica corretamente os auditórios.
COMENTÁRIOS:
Letra b.
Chaïm Perelman defende a possibilidade de inserção de juízes de valores no raciocínio lógico, o que
transforma a lógica da argumentação para uma lógica de valores em que se tem a lógica do razoável ou do
preferível em detrimento da lógica matemática.
Para ele, a argumentação depende da adesão. A argumentação é bem-sucedida quando convence o seu
destinatário e, dessa forma, a finalidade da argumentação é ter adesão.
Nesse contexto, o juiz deve estabelecer uma relação entre o ordenamento jurídico que fundamenta a sua
decisão e os valores aceitos pela sociedade, o que faz com que a decisão seja, simultaneamente legal,
razoável, equitativa e aceitável.
A partir disso, tem-se que a decisão precisa ter a adesão das partes, dos juristas e da opinião pública para ser
considerada aceitável, o que está apresentado na alternativa indicada como certa.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 25
“Manter os próprios compromissos não constitui dever de virtude, mas dever de direito, a cujo
cumprimento pode-se ser forçado. Mas prossegue sendo uma ação virtuosa (uma demonstração de
virtude) fazê-lo mesmo quando nenhuma coerção possa ser aplicada. A doutrina do direito e a doutrina da
virtude não são, consequentemente, distinguidas tanto por seus diferentes deveres, como pela diferença
em sua legislação, a qual relaciona um motivo ou outro com a lei”.
Pelo trecho acima podemos inferir que Kant estabelece uma relação entre o direito e a moral. A esse
respeito, assinale a afirmativa correta.
a) O direito e a moral são idênticos, tanto na forma como no conteúdo prescritivo. Assim, toda ação contrária
à moralidade das normas jurídicas é também uma violação da ordem jurídica.
b) A conduta moral refere-se à vontade interna do sujeito, enquanto o direito é imposto por uma ação
exterior e se concretiza no seu cumprimento, ainda que as razões da obediência do sujeito não sejam morais.
c) A coerção, tanto no direito quanto na moral, é um elemento determinante. É na possibilidade de impor-
se pela força, independentemente da vontade, que o direito e a moral regulam a liberdade.
d) Direito e moral são absolutamente distintos. Consequentemente, cumprir a lei, ainda que
espontaneamente, não é demonstração de virtude moral.
COMENTÁRIOS:
Letra b.
Questão razoavelmente simples que não demanda um conhecimento da teoria de Kant. A questão é resolvida
por simples interpretação de texto. O enunciado traz trecho de escrito de Kant em que relaciona o
cumprimento de um dever jurídico com o cumprimento de um dever moral. O primeiro pode ser forçado,
enquanto que o segundo não. No entanto, existem casos em que um dever jurídico corresponde a um dever
moral, o que torna o cumprimento, mesmo na hipótese de possível coerção, uma atitude virtuosa.
a) Errada. Faz-se uma tentativa de igualar o direito e a moral, o que está em desacordo com o excerto trazido
no comando da questão.
c) Errada. Afirma que a coerção está presente na moral e é um elemento determinante na regulação da
liberdade, o que também está em desacordo com o texto.
d) Errada. Nega a virtude existente no cumprimento do direito espontaneamente e nega qualquer relação
entre direito e moral, o que está em desacordo com o trecho trazido.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 26
Considere a seguinte afirmação de Aristóteles: “Temos pois definido o justo e o injusto. Após distingui-los
assim um do outro, é evidente que a ação justa é intermediária entre o agir injustamente e o ser vítima da
injustiça; pois um deles é ter demais e o outro é ter demasiado pouco.”
(ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973. p. 329.)
De efeito, é correto concluir que para Aristóteles a justiça deve sempre ser entendida como
COMENTÁRIOS:
Letra b.
Em Ética a Nicômaco, Aristóteles se propõe a estudar as virtudes e os vícios. Como regra, Aristóteles observa
que a virtude tem como extremo um vício. Assim, sempre se apresenta a virtude como negação de um vício.
No caso da justiça, uma virtude moral, no entanto, Aristóteles sustenta se tratar de tema mais tormentoso.
No caso da virtude moral, que é a justiça, o que se tem é uma régua, em que, nos extremos, constam
injustiças.
A justiça, portanto, residiria no alcance do meio termo. Diferente das demais virtudes, a justiça só poderia
ser adquirida pela experiência e caberia ao justo se aproximar ao máximo do meio termo entre as injustiças
constantes dos extremos. Nesse contexto, uma conduta justa necessariamente seria ética, posto que
atenderia às necessidades do bem comum.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 27
Boa parte da doutrina jusfilosófica contemporânea associa a ideia de Direito ao conceito de razão prática
ou sabedoria prática.
Assinale a alternativa que apresenta o conceito correto de razão prática.
a) Uma forma de conhecimento científico (episteme) capaz de distinguir entre o verdadeiro e o falso.
b) Uma técnica (techne) capaz de produzir resultados universalmente corretos e desejados.
c) A manifestação de uma opinião (doxa) qualificada ou ponto de vista específico de um agente diante de um
tema específico.
d) A capacidade de bem deliberar (phronesis) a respeito de bens ou questões humanas.
COMENTÁRIOS:
Letra d.
A questão demanda do examinando uma compreensão sobre a classificação do conhecimento humano.
Nesse sentido, tem-se que o conhecimento pode ser classificado em ciência, técnica, crença ou, ainda, senso
comum.
O enunciado, a seguir, demanda do examinando a correlação com um desses quatro tipos de conhecimento
humano com a razão prática ou sabedoria prática.
O senso comum é o conhecimento da experiência em que um determinando enunciado é válido pelo sucesso
em prever um determinado evento ou seu resultado.
A alternativa que indica o senso comum é a letra d.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 28
O povo maltratado em geral, e contrariamente ao que é justo, estará disposto em qualquer ocasião a livrar-
se do peso que o esmaga.
John Locke
O Art. 1º, parágrafo único, da Constituição Federal de 1988 afirma que “todo o poder emana do povo, que
o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. Muitos autores associam tal disposição ao
conceito de direito de resistência, um dos mais importantes da Filosofia do Direito, de John Locke.
Assinale a opção que melhor expressa tal conceito, conforme desenvolvido por Locke na sua obra Segundo
Tratado sobre o Governo Civil.
a) A natureza humana é capaz de resistir às mais poderosas investidas morais e humilhações, desde que os
homens se apoiem mutuamente.
b) Sempre que os governantes agirem de forma a tentar tirar e destruir a propriedade do povo ou deixando-
o miserável e exposto aos seus maus tratos, ele poderá resistir.
c) Apenas o contrato social, que tira o homem do estado de natureza e o coloca na sociedade política, é capaz
de resistir às ameaças externas e às ameaças internas, de tal forma que institui o direito de os governantes
resistirem a toda forma de guerra e rebelião.
d) O direito positivo deve estar isento de toda forma de influência da moral e da política. Uma vez que o povo
soberano produza as leis, diretamente ou por meio de seus representantes, elas devem resistir a qualquer
forma de interpretação ou plicação de caráter moral e político.
COMENTÁRIOS:
Letra b.
É preciso compreender que Locke é um autor que está situado no âmbito do Jusnaturalismo e, portanto,
existe uma prevalência do Direito Natural sobre o Positivo.
Nesse contexto, tem-se que a criação do Estado decorre da delegação de parcelas da liberdade do indivíduo,
pelo indivíduo, para o Estado, a partir de um pacto original. Por conta dessa noção é que Locke também é
considerado um contratualista.
No entanto, ainda que o povo ceda parcelas de sua liberdade para o Estado, tal circunstância não implica
renúncia aos seus direitos naturais.
Ao revés, o único direito do qual abre mal ao criar o Estado é o direito de fazer justiça por seus próprios
meios. No entanto, outros direitos, que já seriam perfeitos no estado de natureza, não dependeriam do
reconhecimento estatal e continuaria válido e aplicável independentemente desse Estado.
Assim, sempre que o Estado se coloque em confronto com tais direitos naturais, o que deve prevalecer é o
direito natural, posto que perfeito em sua essência.
A partir disso, caso o Estado venha a violar esses direitos, abre-se, ao cidadão, a possibilidade de resistir ao
Estado. Um direito natural apresentado em exemplo por Locke é justamente o direito de propriedade.
a) Errada. Não tem nenhuma relação com a temática discutida por Locke.
c) Errada. Inverte o titular do direito de resistência, atribuindo-o ao soberano.
d) Errada. Apresenta uma formulação mais próxima do positivismo, em que se nega o papel da moral na
interpretação da norma jurídica.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 29
É verdade que nas democracias o povo parece fazer o que quer, mas a liberdade política não consiste nisso.
Montesquieu No preâmbulo da Constituição da República, os constituintes afirmaram instituir um Estado
Democrático destinado a assegurar, dentre outras coisas, a liberdade. Esse é um conceito de fundamental
importância para a Filosofia do Direito, muito debatido por inúmeros autores. Uma importante definição
utilizada no mundo jurídico é a que foi dada por Montesquieu em seu Do Espírito das Leis.
Assinale a opção que apresenta a definição desse autor na obra citada.
a) A liberdade consiste na forma de governo dos homens, e não no governo das leis.
b) A disposição de espírito pela qual a alma humana nunca pode ser aprisionada é o que chamamos de
liberdade.
c) Liberdade é o direito de fazer tudo o que as leis permitem.
d) O direito de resistência aos governos injustos é a expressão maior da liberdade.
COMENTÁRIOS:
Letra c.
a) Errada. A primeira assertiva contrapõe a compreensão de Platão com a de Aristóteles sobre o governo
ideal. Enquanto Aristóteles defendia um governo de leis impessoais, Platão defendia um governo de filósofos,
com maior liberdade discricionária para esses filósofos buscarem o bem comum.
b) Errada. Confunde a concepção de Platão sobre aprisionamento da alma com liberdade. Efetivamente
Platão entende que a alma está aprisionada no corpo e sua libertação apenas ocorrerá com a morte. No
entanto, tal temática parece estar fora do proposto no enunciado.
c) Certa. É a mais adequada à teoria de Montesquieu sobre liberdade.
d) Errada. Traz a noção de Locke sobre o direito de resistência contra governos tiranos.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 30
A igualdade de recursos é uma questão de igualdade de quaisquer recursos que os indivíduos possuam
privadamente.
Ronald Dworkin
A igualdade é um dos valores supremos presentes na Constituição da República e, também, objeto de um
debate profundo no âmbito da Filosofia do Direito.
Assinale a alternativa que apresenta a concepção de igualdade distributiva, defendida por Ronald Dworkin
em seu livro A Virtude Soberana.
a) Circunstâncias segundo as quais as pessoas não são iguais em bem-estar, mas nos recursos de que
dispõem.
b) Possibilidade de que todos os membros de uma comunidade política devem ter de usufruir o bem-estar
em condição de igualdade.
c) Igual partilha dos poderes políticos e dos direitos individuais em uma dada sociedade.
d) Um conjunto de políticas que assegurem a maximização utilitária do bem-estar em médio a longo prazo
para a maior parte da população.
COMENTÁRIOS:
Letra a.
Na obra mencionada, Dowrkin retoma o debate sobre os valores ou princípios que fundamentam o
ordenamento jurídico liberal por ele proposto. Nesse contexto, estabelece a existência de liberdade,
igualdade e responsabilidade individual como a base de um ordenamento jurídico.
Por outro lado, explica a noção de igualdade distributiva, pela qual são adotadas políticas de distribuição e
modo a permitir que todos possuam os mesmos recursos, no entanto o bem-estar gerado por tais recursos
pode ser diferente para cada pessoa, o que demonstra a adequação à letra a.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 31
Em seu livro Levando os Direitos a Sério, Ronald Dworkin cita o caso “Riggs contra Palmer” em que um
jovem matou o próprio avô para ficar com a herança. O Tribunal de Nova Iorque (em 1889), ao julgar o
caso, deparou-se com o fato de que a legislação local de então não previa o homicídio como causa de
exclusão da sucessão. Para solucionar o caso, o Tribunal aplicou o princípio do direito, não legislado, que
diz que ninguém pode se beneficiar de sua própria iniquidade ou ilicitude.
Assim, o assassino não recebeu sua herança. Com base na obra citada, assinale a opção que melhor
expressa uma das pretensões fundamentais da jusfilosofia de Ronald Dworkin.
a) Revelar que a responsabilidade sobre o maior ou menor grau de justiça de um ordenamento jurídico é
exclusiva do legislador, que deve sempre se esforçar por produzir leis justas.
b) Mostrar como as Cortes podem ser ativistas quando decidem com base em princípios, não com base na
lei, e que decidir assim fere o estado de Direito.
c) Defender que regras e princípios são normas jurídicas que possuem as mesmas características, de forma
que se equivalem; por isso, ambos podem ser aplicados livremente pelos Tribunais.
d) Argumentar que regras e princípios são normas com características distintas, mas igualmente vinculantes
e, em certos casos, os princípios poderão justificar, de forma mais razoável, a decisão judicial.
COMENTÁRIOS:
Letra d.
Apesar dessa questão fugir um pouco do cargo do concurso em questão, ela permite analisar brevemente os
ensinamentos de Ronald Dworkin acerca do conflito entre normas e princípios.
Em geral, se há um conflito entre dois princípios, deve-se fazer um juízo de ponderação, pelo qual se verifica
o núcleo essencial de cada um dos princípios, o que permitirá, no caso concreto, que se opte pela aplicação
de um princípio em detrimento de outro, posto que, fora do âmbito do núcleo essencial, admite-se o sacrifí-
cio temporário de um princípio para dar prevalência ao previsto no núcleo essencial de outro.
Questão mais interessante está relacionada ao conflito de normas e princípios. Para Dworkin, o ordenamento
jurídico deve ser analisado a partir do paradigma da integridade e previsibilidade, com a aplicação usual das
normas jurídicas, salvo quando a aplicação da norma resultar em um confronto fundamental com um
princípio fundante do ordenamento, que seriam os princípios liberais na visão do autor. Nesse caso, deve-se
sacrificar a norma e aplicar o princípio.
Ocorre, no entanto, que poucos casos precisariam do recurso a princípios para a solução, uma vez que o
direito normal seria suficiente para a solução dos casos em geral.
Assim, pode ocorrer que, em determinado caso, a aplicação do direito viole frontalmente um valor ou
sentimento de justiça coletivo, gerando um resultado de extrema injustiça, quando, então, deve-se utilizar
princípios para melhor decidir o caso em análise.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 32
Concebo, na espécie humana, dois tipos de desigualdade: uma que chamo de natural ou física, por ser
estabelecida pela natureza e que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças do corpo e das
qualidades do espírito e da alma; a outra, que se pode chamar de desigualdade moral ou política, porque
depende de uma espécie de convenção e que é estabelecida ou, pelo menos, autorizada pelo
consentimento dos homens.
(ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens.
Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978.)
Levando em consideração o trecho acima, assinale a afirmativa que apresenta a perspectiva de Rousseau
sobre como se coloca o problema da desigualdade.
a) As desigualdades naturais são a causa das desigualdades morais, uma vez que as diferenças naturais se
projetam na vida política.
b) As desigualdades naturais são inaceitáveis; por isso, o homem funda a sociedade civil por meio do contrato
social.
c) As desigualdades naturais são aceitáveis, mas as desigualdades morais não o são, pois consistem em
privilégios de uns sobre os outros.
d) Todas as formas de desigualdade consistem num fato objetivo, devendo ser compreendidas e toleradas,
pois elas geram o progresso humano e produzem mais bens do que males.
COMENTÁRIOS:
Letra c.
Questão razoavelmente simples. O excerto do texto traz a noção de que existem dois tipos de desigualdades,
os naturais e as morais ou políticas.
Se você, aluno(a), sabe que na teoria de Rousseau o estado de natureza é visto como algo bom e se deve
buscar sempre um retorno a ele, então pode concluir que, no estado de natureza, as desigualdades
porventura existentes são aceitáveis, enquanto que as desigualdades surgidas no âmbito do Estado são
inaceitáveis.
Não há muito a comentar nesta questão além disso, que já é uma síntese do que entende Rousseau sobre as
desigualdades.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 33
Hans Kelsen, ao abordar o tema da interpretação jurídica no seu livro Teoria Pura do Direito, fala em ato
de vontade e ato de conhecimento. Em relação à aplicação do Direito por um órgão jurídico, assinale a
afirmativa correta da interpretação.
a) Prevalece como ato de conhecimento, pois o Direito é atividade científica e, assim, capaz de prover
precisão técnica no âmbito de sua aplicação por agentes competentes.
b) Predomina como puro ato de conhecimento, em que o agente escolhe, conforme seu arbítrio, qualquer
norma que entenda como válida e capaz de regular o caso concreto.
c) A interpretação cognoscitiva combina-se a um ato de vontade em que o órgão aplicador efetua uma
escolha entre as possibilidades reveladas por meio da mesma interpretação cognoscitiva.
d) A interpretação gramatical prevalece como sendo a única capaz de revelar o conhecimento apropriado da
mens legis.
COMENTÁRIOS:
Letra c.
A grande crítica à obra de Kelsen se dá justamente na falta de uma teoria para a interpretação das normas
jurídicas. Kelsen dedica poucas páginas para tratar do tema e, ao fim, acaba não apresentando uma proposta
de como deve ser feito o ato interpretativo.
Sua teoria sobre a interpretação se limita a reconhecer que a norma jurídica se apresenta como uma moldura
de possibilidades e que apenas os órgãos do Judiciário estão autorizados a interpretar e, dessa forma, a
interpretação autêntica apenas é feita pelos órgãos com poderes jurisdicionais. Por sua vez, a norma limita
a atividade interpretativa, no entanto no âmbito dessa moldura, qualquer das escolhas feitas pelo intérprete
é considerada adequada.
Como deve, por sua vez, o intérprete fazer sua escolha? A partir de seus valores, de sua formação, de suas
crenças. Kelsen não detalha, apesar de reconhecer que os valores possuem um relevante papel no momento
da interpretação. Portanto, o ato de interpretar é marcado por dois momentos.
Inicialmente, existe um ato de conhecimento, em que se analisa a norma e se estabelece o seu limite
normativo, a moldura. Em um segundo momento, o intérprete autêntico, por um ato de vontade, escolhe
um dos possíveis significados da norma e fixa a interpretação.
a, b) Erradas. Por darem prevalência a apenas um desses momentos, o ato de conhecimento.
d) Errada. Por apresentar um método clássico de interpretação não abordado por Kelsen em sua teoria.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 34
COMENTÁRIOS:
Letra c.
O principal aspecto da teoria de Bobbio refere-se à antinomia de normas, que pode ser decorrente de uma
lacuna do ordenamento jurídico ou da norma.
A maior parte dos ordenamentos nega a existência de uma lacuna no ordenamento jurídico, o que pressupõe
que ele seria capaz de resolver qualquer questão a ele posta. Ainda assim, as antinomias surgem quando se
confrontam diferentes normas jurídicas.
Essas antinomias, por sua vez, podem ser apenas aparentes, se puderem ser resolvidas a partir de critérios
de validade temporal, espacial, pessoal e material, ou reais, se não puderem ser resolvidas a partir de tais
critérios.
b, d) Erradas. Apresentam a mesma questão e, por isso mesmo, são complementares.
b) Errada. Apresenta os critérios de solução das antinomias. Por sua vez, se a antinomia se dá entre normas
de ordenamentos jurídicos diferentes, sequer há antinomia, posto que somente deve ser aplicada aquela
pertencente ao ordenamento jurídico sob análise.
d) Errada. Apresenta os âmbitos de validade da norma.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 35
Na sua mais importante obra, a Summa Theologica, Santo Tomás de Aquino trata os conceitos de justiça
comutativa e de justiça distributiva de uma tal maneira, que eles passariam a ser largamente utilizados na
Filosofia do Direito.
Assinale a opção que apresenta esses conceitos, conforme expostos na obra citada.
a) A Justiça Comutativa regula as relações mútuas entre pessoas privadas e a Justiça Distributiva regula a
distribuição proporcional dos bens comuns.
b) A Justiça Distributiva destina-se a minorar os sofrimentos das pessoas e a Justiça Comutativa regula os
contratos de permuta de mercadorias.
c) a Justiça Comutativa trata da redução ou diminuição das penas (sanção penal) e a Justiça Distributiva da
distribuição justa de taxas e impostos.
d) A Justiça Comutativa regula a relação entre súditos e governante e a Justiça Distributiva trata das relações
entre diferentes povos, também chamadas de direito das gentes.
COMENTÁRIOS:
Letra a.
Para o autor, as leis são mandamentos da boa razão que devem respeitar os dogmas da Igreja. Por outro
lado, quem edita a norma é o príncipe que deve fazê-lo considerado o ato bom. A partir disso, tem-se que
justa para São Tomás de Aquino é aquela norma que tem em conta o bem.
Além disso, a justiça é uma virtude e para que algo seja virtuoso há necessidade de que seja voluntário,
estável e firme. Noutro ponto, o autor retoma a obra de Aristóteles para explicar o que é Justiça Comutativa
e Justiça Distributiva.
A Justiça Comutativa apresenta-se como uma Justiça corretiva, que está relacionada aos atos dos indivíduos
em relação uns aos outros e à correção que deve ser realizada caso se proceda em relação ao outro de forma
imprópria e ilegal.
Por sua vez, a Justiça Distributiva está relacionada com a atribuição de coisas para diferentes indivíduos a
partir de sua dignidade pessoal, a partir de suas necessidades.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 36
Segundo o jusfilósofo alemão Karl Larenz, os textos jurídicos são problematizáveis porque estão redigidos
em linguagem corrente ou em linguagem especializada, mas que, de todo modo, contêm expressões que
apresentam uma margem de variabilidade de significação. Nesse sentido, assinale a opção que exprime o
pensamento desse autor acerca da ideia de interpretação da lei.
a) Deve-se aceitar que os textos jurídicos apenas carecem de interpretação quando surgem particularmente
como obscuros, pouco claros ou contraditórios.
b) Interpretar um texto significa alcançar o único sentido possível de uma norma conforme a intenção que a
ela foi dada pelo legislador.
c) Os textos jurídicos, em princípio, são suscetíveis e carecem de interpretação porque toda linguagem é
passível de adequação a cada situação.
d) A interpretação dada por uma autoridade judicial a uma lei é uma conclusão logicamente vinculante que,
por isso mesmo, deve ser repetida sempre que a mesma lei for aplicada.
COMENTÁRIOS:
Letra c.
Trata-se de questão simples de interpretação de texto. O enunciado da questão é a chave para resolver a
questão. O enunciado afirma que os textos jurídicos têm margem de variação de significado em razão da
linguagem. A partir disso, deve-se identificar a alternativa que, de acordo com o autor mencionado, deve ser
a postura interpretativa do agente por ela responsável.
a) Errada. Afirma que apenas quando o texto não for claro ou for obscuro ou contraditório é que se deve
interpretá-lo, o que parece estar em desacordo com o próprio enunciado.
b) Errada. Afirma existir um único sentido possível para a norma, o que está em desacordo com o enunciado.
c) Certa. Afirma que toda norma, a princípio, deve ser interpretada.
Essas duas últimas alternativas não podem ser de plano descartadas e se deve conhecer um pouco do que
afirma Karl Larenz. O autor afirma que o juiz, ao decidir por uma interpretação, deve ter em mente a
segurança jurídica e escolher aquela que permita aplicação a casos futuros, no entanto, para o autor, essa
interpretação não fixa interpretações futuras, que podem tomar novos rumos sempre que for considerado
mais adequado o abandono daquela interpretação e o estabelecimento de uma nova, o que afasta a letra d.
d) Errada. Sustenta que a interpretação representa uma vinculação que deve ser repetida sempre que a
norma for aplicada.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 37
QUESTÃO 37 - FGV - 2022 - OAB - Exame de Ordem Unificado XXXV - Primeira Fase
Hannah Arendt
A filósofa Hannah Arendt, em seu livro As Origens do Totalitarismo, aborda a trágica realidade daqueles
que, com os eventos da II Guerra Mundial, perderam não apenas seu lar, mas a proteção do governo. Com
isso, ficaram destituídos de seus direitos e, também, sem a quem pudessem recorrer.
Diante disso, Hannah Arendt afirma que, antes de todos os direitos fundamentais, há um primeiro direito
a ser garantido pela própria humanidade.
Assinale a opção que o apresenta.
COMENTÁRIOS:
Alternativa correta letra B.
A questão trata de um debate filosófico importante que ocorreu desde a carta de 1789, ocasião em que se
discutiu a distinção entre os “direitos do homem”, independentemente de sua nacionalidade, e os “direitos
do cidadão”, próprios unicamente dos franceses.
A professora Hannah Arendt assinalou que, com a consolidação das nações-Estados, no curso do século XIX,
os direitos do homem foram absorvidos pelos direitos do cidadão.
E isso tomou uma dimensão ainda mais grave com o advento do Estado totalitário, ocasião em que os homens
e as mulheres privados de nacionalidade acabaram perdendo toda capacidade jurídica; ou seja, deixaram de
ser pessoas.
Hannah Arendt defendia, portanto, que ser pessoa significa possuir capacidade jurídica, ou o direito a ter
direitos.
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Questões comentadas para OAB – Filosofia 38
QUESTÃO 38 - FGV - 2022 - OAB - Exame de Ordem Unificado XXXV - Primeira Fase
É possível que, diante de um caso concreto, seja aceitável a aplicação tanto de uma lei geral quanto de
uma lei especial. Isso, segundo Norberto Bobbio, em seu livro Teoria do Ordenamento Jurídico, caracteriza
uma situação de antinomia.
Assinale a opção que, segundo o autor na obra em referência, apresenta a solução que deve ser adotada.
A) Deve ser feita uma ponderação de princípios entre a lei geral e a lei especial, de forma que a lei que se
revelar menos razoável seja revogada.
B) Deve prevalecer a lei especial sobre a lei geral, de forma que a lei geral seja derrogada, isto é, caia
parcialmente.
C) Deve ser verificada a data de edição de ambas as leis, pois, nesse tipo de conflito entre lei geral e lei
especial, deve prevalecer aquela que for posterior.
D) Deve prevalecer a lei geral sobre a lei especial, pois essa prevalência da lei geral é um momento
ineliminável de desenvolvimento de um ordenamento jurídico.
COMENTÁRIOS:
Alternativa correta letra B.
Bobbio noticia que a jurisprudência elaborou algumas regras para a solução das antinomias: “…o critério
cronológico serve quando duas normas incompatíveis são sucessivas; o critério hierárquico serve quando
duas normas incompatíveis estão em nível diverso; o critério de especialidade serve no choque de uma
norma geral com uma norma especial” (BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamento jurídico. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 6ª ed., 1995, p. 97).
Esse terceiro critério, chamado por Bobbio de lex specialis “é aquele pelo qual, de duas normas
incompatíveis, uma geral e uma especial (ou excepcional), prevalece a segunda: lex specialis derogat generali.
Também aqui a razão do critério não é obscura: lei especial é aquela que anula uma lei mais geral, ou que
subtrai de uma norma uma parte da sua matéria para submetê-la a uma regulamentação diferente (contrária
ou contraditória)” (BOBBIO, Norberto. Teoria do ordenamento jurídico. Brasília: Editora Universidade de
Brasília, 6ª ed., 1995, pp. 95-96).
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