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Saúde da Criança e Adolescente no Brasil

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ATENÇÃO À SAÚDE DA CRIANÇA E DO

ADOLESCENTE

Neidy Márcia de Souza Silva


Welison Matheus Fontes da Silva
Maria Luiza Oliveira de Araújo

Pensar acerca da “atenção à saúde da criança e do adolescente” nos coloca em movimento


para entender de forma abrangente os aspectos destas etapas da vida, que vão desde o
nascimento pré-termo às adolescências (quiçá às juventudes), evidenciando, ao mesmo
tempo, as próprias singularidades desses sujeitos. Sabemos que essas categorias – criança e
adolescente – são hoje compreendidas como construções históricas e sociais, tendo,
portanto, múltiplas concepções que demandam um olhar atento sobre suas especificidades.
A incorporação dessa reflexão se deu também, ao longo dos anos, nas ações de assistência e
proteção desenvolvidas para esse segmento social. Por isso, acompanhamos transformações
que ocorreram tanto no âmbito legal quanto em nossa sociabilidade, refletindo também no
campo das políticas públicas para a infância e juventude.
Se hoje ainda é um desafio para a sociedade como um todo enxergar crianças,
adolescentes e também os jovens, como sujeitos de direitos próprios e adequados à sua
condição peculiar de desenvolvimento, antes da promulgação do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) não havia sequer a preocupação em respeitá-los ou entendê-los. Por
muitos anos, o que se preconizava no plano legal brasileiro, especificamente a partir do
primeiro Código de Menores de 1927, era o entendimento de que esses indivíduos não
passavam de “menores abandonados”, “menores delinquentes”, “menores carentes”
entendidos como pessoas inferiores aos adultos em termos de cidadania. Denominada como
doutrina da “situação irregular”, cuja gestão era centralizada no Poder Judiciário de caráter
filantrópico e assistencial, sobrava para as crianças e adolescentes de famílias em situação de
pobreza o papel de “objeto” de proteção assistencial, atrelado à perspectiva da repressão e
da tutela, sendo necessário o disciplinamento de comportamentos considerados como
“marginais”, que se integravam ao binômio abandono-delinquência (SILVA; BARROS,
2010).
Essa tônica continuou a se perpetuar com o Código de Menores de 1979, o qual
manteve o prolongamento da filosofia “menorista”, permitindo que crianças e adolescentes,
por sua condição de pobreza, estivessem sujeitados a se enquadrar nesse sistema de proteção
e assistência, confinando-os em grandes instituições totais, como internatos, orfanatos, que
os isolavam do convívio social. E é com essa configuração que surgem: o Serviço de
Assistência aos Menores (SAM), a Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem),
a Legião Brasileira de Assistência (LBA) e os serviços de proteção à maternidade e infância
da área da saúde, articulados pelo Departamento Nacional da Criança (DNCr).
Contrapondo essa lógica, no contexto brasileiro, a ampliação da atenção à criança e
ao adolescente advém, segundo Abramo (1993), da própria mobilização pela defesa dos
direitos deste segmento populacional nas décadas de 1970 e 1980, ganhando ainda mais força
no período da redemocratização do país, que resultou não apenas na Constituição Federal

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de 1988, mas também no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), aprovado em 1990.
Esse é o marco legal que traz o enfoque de proteção integral para as crianças e os adolescentes
que, sem distinção de gênero, raça, cor, sexualidade ou classe social, passam a ser
reconhecidos como sujeitos de direitos da democracia brasileira, titulares de direitos
fundamentais e subjetivos tendo como direção a doutrina de “Proteção Integral”, com
caráter de política pública e com prioridade absoluta, regulamentada pela Constituição de
1988, em seu artigo 227, segundo o qual cabe à família, à sociedade e ao Estado a
responsabilidade para com os direitos fundamentais de crianças e adolescentes.
Importante mencionar que o ECA incorporou em grande parte o teor dos princípios
da Declaração Universal dos Direitos da Criança de 1959, e da Convenção Internacional dos
Direitos da Criança aprovados pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1989, o que
mostra que, embora tardiamente, foi resultado de um processo histórico, marcado pelas lutas
nacionais dos movimentos sociais pela infância, dos setores progressistas da sociedade civil
e dos operadores das instâncias governamentais e internacionais.
É a partir do ECA que uma nova relação do mundo adulto com a infância e a
adolescência (pelo menos no âmbito legal) começa a ser construída, bem como a proposta
de um novo projeto de sociedade, calcado na garantia dos direitos humanos (COSTA, 2006).
Além disso, como propõe Leite (2009), essa relação passou a colocar para a sociedade um
conjunto de mudanças e desafios de notório ordenamento jurídico, sendo alguns destes: (a)
a primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; (b) a precedência de
atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; (c) a formulação e a execução
das políticas sociais públicas; (d) a destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas
relacionadas com a proteção à infância e à juventude. Vale mencionar que essa nova
configuração se dá em meio a emergência do projeto neoliberal no Brasil, entre 1990 e 2000,
que resultou em reformas econômicas, na privatização de empresas estatais e em políticas
sociais focalizadas, que não são mais compreendidas como direitos, mas como forma de
assistir aos mais necessitados ou como ato de filantropia. Nesse sentido, o que se observa é
uma retração do Estado no direcionamento das ações para os pobres, e uma sobra para a
sociedade, na figura das organizações não governamentais e no voluntariado, para assumir
responsabilidades pelos problemas estruturais.
Não é à toa que ainda seja necessário reivindicarmos a doutrina da proteção integral
até hoje, pois embora tenhamos vivenciado avanços no campo dos direitos das crianças e
dos adolescentes, percebemos que há setores na sociedade a postos para a qualquer momento
enquadrar e marginalizar esse segmento social, em especial a população infantojuvenil preta
e periférica, que sempre teve seus corpos violentados, vigiados e tutelados pelas instituições
voltadas ao atendimento desde a infância até a juventude no país.
Essa visão, apresentada por diferentes marcos históricos, que busca estabelecer um
novo paradigma para as intervenções, na área da infância e adolescência, passou a disputar
espaços nas políticas públicas como a saúde, a educação, a assistência social e outras. Foi
feito um grande esforço coletivo para serem desenvolvidas ações, programas e projetos nas
áreas sociais, em particular, relacionadas primeiro à saúde das mulheres e posteriormente às
crianças e adolescentes. Além do mais, com a instituição do Sistema Único de Saúde (SUS),
também em 1990, ocorreram mudanças significativas na assistência à saúde, com a nova
forma de organização da rede de serviços, que passou a ser definida por níveis de
complexidade tecnológica crescente, e a responsabilidade de assistir a uma população

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delimitada geograficamente (BRASIL, 2018). Assim, vimos surgir as primeiras formulações
do que viria a se consolidar como a atenção à saúde da criança e do adolescente.
Historicamente, a saúde da criança esteve na agenda política do Brasil atrelada à saúde
materno-infantil, com ações focalizadas de redução da morbidade e mortalidade da criança e
da mulher (BRASIL, 2011). Foi apenas em 1984 que a saúde da criança se desmembrou da
saúde da mulher, presente no Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher e da
Criança (PAISMC) e, assim, foi instituído o Programa de Assistência Integral à Saúde da
Criança (PAISC), enquanto estratégia de enfrentamento às contrariedades das condições de
saúde e sobrevivência da população infantil. Sendo assim, objetivou-se promover a saúde de
forma integral, através da melhoria da qualidade da assistência e com enfoque nos
denominados “grupos de risco”. Logo depois, os adolescentes tiveram suas singulares de
saúde reconhecidas pelo Estado, a partir da promulgação do Programa de Saúde do
Adolescente (PROSAD) em 1989, cujas bases programáticas configuram-se na importância
da integralidade, do trabalho interdisciplinar e da integração com os demais setores da
sociedade, tendo a compreensão da natureza múltipla dos fatores que afetam esse ciclo da
vida.
É inegável que o SUS trouxe muitos avanços nas políticas públicas sociais do Brasil,
especialmente para o público infantojuvenil. Nesse sentido, diversos documentos
importantes foram produzidos entre 1990 e 2000, criando políticas e programas de saúde
direcionados às crianças e adolescentes e que visavam ao próprio desenvolvimento integral.
Dentre esses podemos destacar: o Projeto de Redução da Mortalidade Infantil (1995), o
Programa de Humanização do Pré-Natal e Nascimento (2000), a Agenda de Compromissos
com a Saúde Integral da Criança e a Redução da Mortalidade Infantil (2005), o Marco Legal
da Saúde de Adolescentes (2005), Mais Saúde Direito de Todos/Estratégia Brasileirinhas e
Brasileirinhos Saudáveis (2008), Diretrizes Nacionais para a Atenção Integral à Saúde de
Adolescentes e Jovens na Promoção, Proteção e Reparação da Saúde (2010), Política
Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança (2015), entre outros.
A necessidade de olhar de forma mais minuciosa a saúde dessa população, decorre
por adotar os princípios doutrinários e operacionais do SUS, como universalidade,
descentralização, integralidade e participação da comunidade. A perspectiva da atenção
integral, determinante nos cuidados à saúde das crianças e adolescentes, está diretamente
vinculada ao princípio da integralidade, como um pilar que redefine as relações entre
gestores, profissionais e usuários. Logo, o sistema de saúde deve estar preparado para ouvir
o usuário, entender os significados e as percepções acerca de sua realidade e, a partir desse
movimento, atender às demandas e as diferentes dimensões das necessidades desta pessoa.
Para alguns estudiosos, a integralidade é entendida como um princípio orientador das
propostas de reforma para o setor da saúde, podendo se apresentar com vários significados,
vozes, sentidos e instrumentos, resultantes da interação democrática dos sujeitos no
cotidianos de suas ações e saberes, mas sobretudo deve estar associada ao tratamento com
qualidade, acolhimento, respeito e vínculo (PINHEIRO et al., 2003).
Tal fato se relaciona à compreensão do indivíduo na sua totalidade, como parte de
um contexto social, econômico, histórico e político que produz, substancialmente,
diferenciações entre os sujeitos, o que indica a diversidade da vida e sua relação com os vários
atravessamentos – culturais, sociais, econômicos, afetivos – rejeitando, deste modo, uma
concepção universalista de criança, adolescente e jovem – ainda que o marco legal brasileiro,

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o ECA, com o qual muitas políticas sociais dialogam, tenha suas definições limitadas pelo
marco etário: “crianças” como os indivíduos até doze anos incompletos; “adolescentes” os
que têm entre doze e dezoito anos; e a partir dos dezoito anos, os sujeitos são denominados
“jovens”. Outros documentos trazem diferentes limites etários, o que nos mostra que não
há um consenso em relação a isso. Como alusão, a Organização Mundial da Saúde (OMS)
define que a adolescência ocorre entre os 10 e os 20 anos incompletos. Já o Estatuto da
Juventude (2013) delimita a juventude como categoria que congrega pessoas com idade entre
15 e 29 anos, sendo considerados adolescentes-jovens pessoas entre 15 e 17 anos, jovens-
jovens os entre 18 e 24 anos e jovens adultos os entre 25 e 29 anos.
Entendemos a importância dos limites etários para o planejamento de ações, planos
e programas voltados à população infantojuvenil, mas isso não significa que devemos pautar
nossas intervenções somente a partir da definição legal. Ao longo do tempo, alguns
pesquisadores dessa área têm preferido trabalhar com uma perspectiva de que essas fases do
ciclo da vida ou categorias de idade não são homogêneas, o que leva a considerar diferentes
infâncias, adolescências e juventudes, pautadas por processos sociais distintos e permeados
por marcadores sociais de diferença como gênero, raça, cor, classe social, territorialidade
(NOVAES, 2009; LEITE, 2009). É por isso que incluímos a categoria “juventudes” ao longo
desse verbete, pois entendemos que os fenômenos relacionados com a saúde dos jovens os
atingem de maneira particular e, portanto, merecem a devida atenção da sociedade civil e do
Estado.
A importância de não universalizar esse segmento populacional como se fossem
homogêneos, independente dos espaços sócio-ocupacionais que ocupamos, seja da saúde,
educação, assistência social etc. vincula-se à necessidade de acessar realidades que atravessam
a dimensão da faixa-etária. Nesse sentido, entender a interseção entre marcadores sociais,
como raça, cor, classe, gênero pode ser fundamental para entendermos, por exemplo, a
restrição e a exclusão de crianças, adolescentes e jovens específicos do acesso à assistência à
saúde. Propomos, assim, que nossas intervenções sejam referenciadas também pela
perspectiva da interseccionalidade, no sentido de apreender as diferenças e diversidades
(BRAH, 2006) que atravessam não apenas a população infantojuvenil, mas também suas
famílias.
O olhar direcionado às famílias, fundamental no atendimento a essa população,
entendida como primeiro espaço de vínculo, proteção e cuidado, deve partir do
reconhecimento dos diferentes arranjos familiares, das diversidades culturais, do território,
da determinação social, associada à condição de classe e de outros eixos de desigualdades
estruturais e estruturantes da sociedade. Não podemos considerar esse público fora da sua
história, da sua realidade social, pois o acompanhamento às famílias exige um esforço da
percepção das políticas públicas e sociais, das suas complexidades na sociedade capitalista e
como estas atravessam as vivências destas famílias. Logo, se faz necessário uma escuta ativa
para identificar as suas necessidades, pautada na perspectiva da defesa dos direitos sociais e
da cidadania, que construa junto às famílias outras perspectivas e apostas, contrapondo o
viés da abordagem culpabilizante da responsabilização e /ou apassivamento (HORST;
MIOTO, 2017).
Esta postura nos remete à questão da interdisciplinaridade e da intersetorialidade,
numa perspectiva de agregar distintos saberes e práticas, assegurando a possibilidade de uma
intervenção integral. A intersetorialidade se apresenta como uma diretriz que orienta as

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práticas de construção de redes, que impulsiona na criação de espaços comunicativos e de
diálogos para potencializar as ações. Tal processo, já configurado nos desenhos das diferentes
políticas públicas setoriais, se apresenta, contudo, como um grande desafio nas ações de
cuidado, e aqui em especial, no trato desde as infâncias até as juventudes (SILVA, 2007).
Neste sentido, ressaltam-se os inúmeros entraves emergentes que atravessam o
cotidiano profissional dos/das assistentes sociais, frente a um cenário de desmonte e
precarização, não só das políticas públicas sociais, mas também dos espaços institucionais,
no sentido de assegurar o paradigma da proteção integral, configurado nos marcos legais,
jurídicos e institucionais, exigindo cada vez mais um esforço sistemático dos profissionais,
frente às particularidades/peculiaridades que atravessam o trabalho com as infâncias,
adolescências e juventudes, com destaque para o exercício de apropriar-se e de traduzir o
princípio da integralidade no cotidiano dos serviços, operando-o como norteador na
construção de suas práticas.
Por fim, mas não menos importante, não podemos falar de atenção à saúde da criança
e do adolescente se não colocarmos esses sujeitos como protagonistas do seu processo de
saúde/doença, respeitando a autonomia, emancipação e plena expansão dos indivíduos
sociais. Sendo assim, cabe aos profissionais se desfazerem da cultura adultocêntrica presente
em muitas ações e realmente ouvir o que esse grupo populacional tem a dizer, não apenas a
respeito de sua vida privada, familiar e afetiva, mas também comunitária. O reconhecimento
de que crianças, adolescentes e jovens são sujeitos de direitos perpassa pela valorização do
protagonismo infantojuvenil e, por isso, uma aposta importante é promover, diariamente,
escutas mútuas que exercitem o diálogo intergeracional e intrageracional com vistas a
desenvolver o potencial criativo e a força transformadora desses sujeitos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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