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The black holes are among the strangest and most intriguing objects predicted by the theory of General
Relativity. They correspond to regions of spacetime bounded by a boundary called the event horizon. Once
crossed, this boundary transforms spacetime coordinates from time-like to space-like and vice versa. In this
paper, we will review the main characteristics of black holes, targeting undergraduate physics and exact sciences
students and teachers. Using an approach that follows the historical development of these concepts, we will show
that these fascinating objects can become relatively simple when creating an analogy between their mechanical
parameters and thermodynamic variables. With a brief explanation of the Hawking effect, we will demonstrate
the connection between black holes and thermodynamic systems, concluding with the classic result of black hole
evaporation.
Keywords: Black holes, General Relativity, Thermodynamics, Hawking radiation.
geometricamente como um espaço que contém não três, espaço-tempo e energia – os chamados buracos negros
mas quatro dimensões, onde o tempo assume o papel da (BNs). No entanto, essa solução não explica a origem
quarta dimensão (conhecido hoje como espaço-tempo de desses objetos. Somente em 1939, com o trabalho dos fí-
Minkowski). Nessa geometria, o tempo e o espaço não sicos americanos Julius Robert Oppenheimer e Hartland
devem ser entendidos como entidades distintas, mas sim Sweet Snyder [11], foi possível compreender como os BNs
como componentes de um único espaço geométrico. Nas poderiam ser gerados. Neste trabalho, eles mostraram
palavras do próprio Minkowski [4]: que, se um objeto esférico e massivo se contrai até
The views of space and time, which I um raio crítico (raio de Schwarzschild), inevitavelmente
would like develop, have sprung from the um colapso em direção ao seu centro acontecerá. Dessa
experimental-physical soil. Therein lies their forma, os BNs puderam ser interpretados como o estágio
strength. They tend to be radical. Henceforth final para estrelas, que, ao envelhecerem, tornam-se
space by itself and time by itself, fade away ricas em elementos mais estáveis, o que impossibilita
completely into shadow, and only a kind of a geração de energia suficiente para contrabalançar a
union of the two will preserve independent força gravitacional gerada pela própria massa da estrela.
permanency. Se a massa inicial for grande o suficiente, a gravidade
fará com que a estrela se contraia até o raio crítico e,
A princípio, Einstein rejeitou a ideia do espaço-tempo, consequentemente, colapse em seu centro, originando um
argumentando que isso só acrescentava uma complicação buraco negro.
matemática desnecessária à teoria. No entanto, ele perce- No mesmo ano da solução de Schwarzschild, o enge-
beu posteriormente que a concepção de Minkowski seria nheiro e físico alemão Hans Reissner obteve a solução
essencial para a formulação da teoria da Relatividade para as equações de Einstein na presença de campos
Geral (RG), uma teoria relativística da gravitação que elétricos, que é diferente da solução de Schwarzschild,
se tornou necessária, pois embora a RE tivesse sido a qual só é válida para a região de vácuo. Dois anos
estabelecida, ela se mostrava inconsistente com a teoria depois, o engenheiro e físico finlandês Gunnar Nordstrom
da Gravitação Universal de Newton. obteve a mesma solução de forma independente, e a
De 1905 a 1915, Einstein se dedicou à construção da solução passou a ser chamada de solução de Reissner-
teoria da Relatividade Geral, onde a interação gravitaci- Nordstrom [12]. Posteriormente, essa solução foi compre-
onal é na verdade a curvatura do espaço-tempo causada endida como a solução para buracos negros que possuem
pela presença de matéria e energia. Nas palavras do físico massa e carga elétrica. Em 1963, o matemático neozelan-
americano John Archibald Wheller “Mass tell spacetime dês Roy Kerr obteve a solução para BNs girantes, que são
how to curve, and spacetime tells mass how to move” [5]. formados por estrelas que possuem rotação em torno do
Isso significa que o espaço-tempo, composto por uma seu próprio eixo, o que é comum na maioria das estrelas.
dimensão temporal e três dimensões espaciais, pode Essa solução foi generalizada pelo físico Ezra Newman,
ser entendido como uma espécie de “malha” maleável que adicionou carga elétrica ao BN girante, obtendo o
que se estica e curva. Para descrever esse aspecto do que chamamos de solução de Kerr-Newman [13]. Essa
mundo, Einstein precisou mergulhar na matemática solução corresponde à classe mais geral de buracos
desenvolvida por Bernhard Riemann [6], Gregorio Ricci negros, caracterizada por três parâmetros: massa, carga
e Tullio Levi-Civita [7], que hoje conhecemos como elétrica e momento angular.
geometria diferencial ou análise tensorial. Com esse for- Na chamada “época de ouro dos buracos negros”
malismo, ele chegou à formulação das famosas equações (1960–1970), os físicos de todo o mundo trabalharam
de campo, que relacionam a curvatura do espaço-tempo nas consequências físicas dessas soluções, dentre eles,
com a massa e energia dos objetos sob o espaço-tempo, Stephen Hawking e Jacob Bekenstein, que entre 1971
cf. especificaremos mais adiante — vide-se a Eq. (10). e 1974 desenvolveram um tratamento termodinâmico
Em 1916, o físico e astrônomo alemão Karl Schwarzs- dos BNs. Esse tratamento transformou objetos macros-
child obteve a primeira solução exata dessas complicadas cópicos complexos em objetos simples, que podem ser
equações enquanto lutava com o exército alemão na caracterizados por apenas três parâmetros, assim como
frente de batalha russa da Primeira Guerra Mundial os sistemas termodinâmicos. Neste contexto, outros
[8, 9]. Essa solução refere-se à curvatura do espaço- trabalhos puderam ser desenvolvidos, como a conside-
tempo gerada por objetos esféricos e estáticos, sendo ração da constante cosmológica como um parâmetro
uma boa aproximação para a gravidade em torno da termodinâmico e o desenvolvimento de uma teoria ho-
Terra e do Sol. Além disso, permitiu que a Relatividade lográfica [14], a qual sugere que as informações de um
Geral pudesse ser confirmada com um experimento espaço tridimensional podem ser totalmente codificadas
que media o desvio da luz de estrelas pela curvatura em uma região bidimensional do espaço adjacente. No
do espaço-tempo causada pelo Sol. Esse experimento entanto, só no ano de 2015, no Observatório LIGO [15],
foi realizado no Brasil em 1919, na cidade de Sobral, foram detectadas ondas gravitacionais emitidas durante
Ceará [10]. a colisão de dois BNs, o que não só confirmou a existência
A solução de Schwarzschild revelou a existência desses objetos, mas também motivou novas pesquisas em
de objetos “estranhos”, compostos unicamente de gravitação e cosmologia observacional.
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Em 2019, graças à técnica chamada Interferometria caracteriza uma frente de onda esférica que se move
de Longa Linha de Base, que combina as imagens de com velocidade c no espaço. Esse tipo de intervalo é
vários telescópios para formar uma imagem composta de chamado de tipo-luz, pois descreve a trajetória dos raios
alta resolução a rede internacional de radiotelescópios luminosos.
Event Horizon Telescope (EHT) capturou e divulgou Quando ds2 < 0, a variação temporal da equação (1)
a primeira imagem de um buraco negro supermassivo, deve ser maior do que a parte espacial, e o intervalo é
juntamente com a sua sombra, no centro da galáxia chamado de tipo-tempo. Isso é expresso pela equação
Messier 87 (M87), situada a cerca de 55 milhões de anos-
luz da Terra. Este marco histórico ocorreu 103 anos após c2 dt2 > dx2 + dy 2 + dz 2 , (3)
a inferência teórica da existência de buracos negros e
forneceu uma prova visual acessível e divulgável em todo que pode ser reescrita como
o mundo. 2
Considerando o extenso processo de desenvolvimento 2 d⃗r
c > = v2 , (4)
da teoria dos buracos negros e sua abordagem termo- dt
dinâmica, que são fundamentais para a compreensão
do mundo que nos cerca, este artigo tem como obje- onde ⃗r = (x, y, z) é o vetor posição. Nessa situação, a
tivo apresentar de maneira acessível aos professores e separação entre eventos pode ser percorrida por partícu-
estudantes de física e ciências exatas como é possível las massivas, respeitando os princípios da Relatividade
descrever esses objetos complexos por meio de uma Especial, com velocidade v < c. Portanto, dizemos que
analogia com as leis da termodinâmica. Para isso, serão as partículas massivas seguem trajetórias do tipo-tempo.
apresentados os conceitos fundamentais da Relatividade Por outro lado, quando ds2 > 0, o intervalo é chamado
Especial, que serão expandidos para a Relatividade de tipo-espaço, já que a parte da variação espacial é
Geral, para então serem exploradas as soluções de maior do que a temporal. Nesse caso, a desigualdade
Schwarzschild e Kerr-Newman. Em seguida, será feita na equação (4) é invertida, e os eventos só podem ser
uma analogia entre a variação da área dos buracos negros acessados por objetos com velocidade v > c. Em outras
e a segunda lei da Termodinâmica para introduzir a palavras, não é possível estabelecer nenhuma relação
Termodinâmica aos BNs. Por fim, será apresentada uma causal entre esses eventos, uma vez que seria necessário
aplicação prática dessa abordagem: a evaporação dos um sinal que se propagasse mais rápido do que a luz para
buracos negros em um intervalo de tempo extremamente conectá-los.
longo. A análise do intervalo espaço-tempo ds2 é fundamen-
tal para a compreensão das relações de causalidade entre
eventos. Através da classificação dos intervalos como
2. Espaço-tempo de Minkowski e
tipo-luz, tipo-tempo e tipo-espaço, é possível entender
Intervalos quais eventos podem estar relacionados por causa e
efeito, e quais não podem. De forma elucidativa, realiza-
O ponto crucial introduzido por Minkowski em 1907 remos uma representação diagramática dessas relações
pode ser descrito da seguinte maneira: os primeiros causais para melhor visualização de como a causalidade
resultados da teoria da relatividade sugerem que o tempo se manifesta no espaço-tempo.
e o espaço são grandezas relativas, ou seja, a medida de
suas variações depende intrinsecamente do movimento
inercial do observador. No entanto, uma combinação das 2.1. Cones de luz no espaço-tempo de Minkowski
variações de espaço e tempo na forma Consideremos uma frente de onda luminosa esférica
emitida no instante t1 a partir de um ponto de origem O.
ds2 = dx2 + dy 2 + dz 2 − c2 dt2 , (1)
Para representá-la em um plano cartesiano, devemos
se mostra invariante para todos os observadores inerciais. observar as frentes de onda como círculos concêntricos
Nesse caso, c representa a velocidade da luz no vácuo e que crescem a partir da origem O e se tornam cada vez
x, y, z, t são coordenadas cartesianas de espaço e tempo. maiores à medida que o tempo passa (Fig. 1).
A Eq. (1) representa o elemento de linha que não Considerando c = 1, podemos incluir o eixo temporal
mede mais a distância entre dois pontos no espaço, mas em nossa representação e descrever a frente de onda
sim a distância entre dois eventos, s1 e s2 , que estão luminosa como um cone inclinado a 45◦ em relação
infinitesimalmente próximos no espaço-tempo. à vertical (ver Fig. 2). Agora, cada ponto em nossa
O intervalo de espaço-tempo invariante entre dois representação corresponde a um evento no espaço-tempo
eventos pode ser classificado de acordo com seu sinal, e pode estar ou não causalmente relacionado ao evento
que pode ser maior, menor ou igual a zero. Se os eventos em O. Em outras palavras, qualquer evento que possa
s1 e s2 estão separados por um elemento de linha nulo, ser causado ou influenciado por O deve estar contido no
ds2 = 0, então a equação cone de luz ou em seu interior, uma vez que os pontos
localizados fora do cone são inacessíveis até mesmo para
c2 dt2 = dx2 + dy 2 + dz 2 , (2) a luz.
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onde, elegantemente, omitimos o simbolo de somatória Além disso, a compreensão da Relatividade Geral
quando os índices aparecem de maneira repetida e em exige um pouco mais de esforço e atenção com relação
posições alternadas (uma vez como subscrito, outra aos conceitos matemáticos, uma vez que grandezas como
como sobrescrito). Nessa representação gµν é chamado a curvatura do espaço-tempo e o conteúdo de matéria
de tensor métrico, ou simplesmente métrica do espaço- e energia são expressas em termos de tensores. Nesse
tempo, a qual é responsável por caracterizar como formalismo, as equações de campo de Einstein são
fazemos medidas no espaço-tempo, ou seja, como fazer elegantemente representadas na forma
o produto entre vetores. Quando gµν tem a forma (6),
dizemos ter métrica de Minkowski. 1 8πG
Rµν − gµν R = 4 Tµν , (10)
Se a princípio nos for dado o elemento de linha, 2 c
podemos identificar as componentes métricas analisando onde Rµν é o tensor de Ricci, uma quantidade depen-
os coeficientes que acompanham as diferenciais. Por dente de derivadas de segunda ordem do tensor métrigo
exemplo, em coordenadas esféricas, o elemento de linha gµν , cf. e.g. as Refs. [5, 12, 17]. À propósito, R é o escalar
de Minkowski assume a forma de curvatura, o qual é construído como uma contração do
ds2 = −c2 dt2 + dr2 + r2 dθ2 + r2 sin2 θdϕ2 , (8) tensor de Ricci: R = Rµ µ = g µν Rµν , sendo g µν a inversa
da métrica. G é a constante da Gravitação Universal e
com dxµ = (cdt, dr, dθ, dϕ), enquanto a métrica nas Tµν é um tensor que caracteriza o conteúdo de matéria
novas coordenadas pode ser identificada como e energia no espaço. Em (10), os índices µ, ν variam de
0 a 3 como na representação compacta apresentada na
−1 0 0 0 seção anterior.
0 1 0 0 Sendo Rµν e R quantidades que dependem de gµν
gµν =
0 0 r2
, (9)
0 e suas derivadas, podemos inferir que as Equações de
2 2
0 0 0 r sin θ Einstein (10) caracterizam equações diferenciais parciais
acopladas que determinam as componentes do tensor
isto é, as componentes do tensor métrico se modificam métrico. Isso significa que o campo gravitacional, agora
a medida que mudamos de sistema de coordenadas, mas representado pela métrica e pelos tensores de curvatura,
ds2 permanece invariante. dependem do conteúdo de matéria e energia Tµν , de
forma análoga à equação de Poisson: ∇2 Φ = 4πGρ
3. Relatividade Geral e Equações de (neste caso, temos ao lado esquerdo da equação o campo
Einstein potencial gravitacional Newtoniano Φ que por meio de
derivadas parciais de segunda ordem se relaciona com
Ampliar a compreensão geométrica da Relatividade a fonte de densidade de massa ρ ao lado direito) [18].
Especial para abranger referenciais não inerciais nos leva Quando consideramos uma região de vácuo, distante de
a uma interpretação geométrica da gravitação, ou seja, à qualquer objeto massivo, temos Rµν = Tµν = 0, e a
teoria da Relatividade Geral. Por meio de experimentos solução gµν assume a forma da métrica de Minkowski (6).
mentais, Einstein demonstrou que para um observador Ou seja, a solução de Minkowski corresponde a um caso
dentro de um elevador isolado do mundo exterior, é particular das equações de Einstein.
impossível distinguir se os fenômenos que ele observa A seguir, apresentaremos outras soluções das equa-
são causados pela aceleração do elevador ou por um ções de Einstein. Embora não nos aprofundemos em
campo gravitacional externo. Em outras palavras, há obter essas soluções, é importante destacar que elas
uma equivalência entre aceleração e gravidade. Ainda, correspondem a soluções das equações de Einstein para
para esse observador, todos os possíveis experimentos diferentes condições. As soluções que serão apresentadas
realizados são afetados da mesma maneira pela acele- são conhecidas como soluções de buracos negros, e
ração gravitacional, o que sugere que isso é um efeito discutiremos em detalhes como o conceito de buraco
independente dos objetos em si, mas depende apenas negro é definido no contexto da Relatividade Geral.
de alguma propriedade do espaço-tempo em que eles
se encontram, a curvatura. Nas próprias palavras de 4. Buraco Negro de Schwarzschild
Einstein, “I got the happiest thought of my life,” [16]
ao se referir ao experimento mental que demonstra a Considerando uma região de vácuo ao redor de um
equivalência1 entre aceleração, gravidade e curvatura do corpo massivo, simetricamente esférico e estático, as
espaço-tempo. equações de Einstein nos fornecem a chamada solução de
Schwarzschild. Nesse caso, o elemento de linha é expresso
1 A conexão entre aceleração, gravidade e curvatura leva o nome como
de Princípio de Equivalência e caracteriza a pedra angular da Re-
latividade Geral. Embora não a abordemos detalhadamente aqui, −1
2 2M 2 2M
recomendamos a leitura do primeiro capítulo do livro “A short ds = − 1 − dt + 1 − dr2 + r2 dΩ2 ,
course in general relativity” de Foster & Nightiangale [17] como r r
uma ótima introdução. (11)
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e20240010-6 Introdução aos buracos negros e sua termodinâmica
onde t ∈ [−∞, ∞] é a coordenada temporal, r ∈ [0, ∞] uma implicação importante: a formação do horizonte de
a coordenada radial e dΩ2 = dθ2 + sin2 θdϕ2 com θ ∈ eventos de um buraco negro, como veremos a seguir.
[0, π] e ϕ ∈ [0, 2π] garante a simetria esférica da solução.
O termo 2M é denominado de raio de Schwarzschild e 4.1. Cones de luz na solução de Schwarzschild
se relaciona com a massa m do objeto responsável pela
curvatura através de Para compreender a estrutura causal nessa geometria,
utilizaremos o formalismo lagrangiano para construir os
2Gm cones de luz no espaço-tempo de Schwarzschild. Nesse
2M = . (12)
c2 formalismo, a lagrangiana pode ser obtida diretamente
como [12]:
A partir daqui, utilizaremos o sistema de unidades
geométricas escrevendo G = c = 1 para evitar a 1
repetição desses termos (como já foi considerado na L= gµν ẋµ ẋν , (14)
2
Eq. (11)).
Notemos que para r ≫ 2M a Eq. (11) toma a forma onde o ponto denota a derivada em relação a um
do elemento de linha (1), e portanto, entendemos t como parâmetro λ, que caracteriza a geodésica de interesse.
o tempo medido por observadores no espaço-tempo de Considerando θ e ϕ constantes, as trajetórias nulas (tipo-
Minkowski, isto é, observadores infinitamente distantes luz) são caracterizadas por 2L = 02 , o que nos fornece
de r = 2M . Ainda, notamos que existem valores para os −1
quais a solução (11) se torna degenerada (θ = 0 e θ = π). 2M 2 2M
2L = − 1 − ṫ + 1 − ṙ2 = 0. (15)
Essa degenerescência pode ser eliminada por meio de r r
uma mudança de coordenadas, como as cartesianas,
por exemplo. Portanto, esses pontos são chamados de Utilizando as equações de Euler-Lagrange
singularidades coordenadas, uma vez que refletem uma
∂L d ∂L
deficiência no sistema de coordenadas utilizado, mas − = 0, (16)
∂xµ dλ ∂ ẋµ
podem ser removidos ao se fazer a transição para outro
sistema. para a coordenada t, obtemos
Existem dois outros valores para os quais a solução de
Schwarzschild se torna degenerada, sendo eles r = 2M d 2M 2M
e r = 0. Nessas situações, o elemento de linha diverge 1− ṫ = 0 ⇒ 1 − ṫ = k, (17)
dλ r r
(ds2 → ∞). Uma análise utilizando o escalar de Krets-
chmann revela o seguinte resultado: com k constante.
Substituindo (17) em (15), obtemos
48M 2
K = Rµνρσ Rµνρσ = , (13) −k 2 + ṙ2 = 0 ⇒ ṙ = ±k. (18)
r6
onde Rµνρσ é o tensor de Riemann [17] e a ultima Finalmente, ao tomar a razão ṫ/ṙ, obtemos uma
passagem vale para a solução de Schwarzschild. Aqui, expressão que relaciona t e r:
K é um escalar que quantifica o módulo quadrado da
curvatura e, portanto, é independente do sistema de ṫ dt/dλ dt r
= = =
coordenadas utilizado. Para r = 2M , observamos que ṙ dr/dλ dr r − 2M (19)
a curvatura permanece finita, enquanto no ponto de ⇒ t = r + 2M ln |r − 2M | + const.
origem (r = 0) a curvatura diverge, indicando uma
singularidade intrínseca real de curvatura infinita. Essa A equação acima representa as trajetórias dos raios
singularidade intrínseca é uma característica intrínseca luminosos para θ e ϕ fixos no diagrama de espaço-tempo
do sistema e não pode ser removida por meio de uma de Schwarzschild. Assim, fazendo t → −t3 e selecionando
simples mudança de coordenadas, diferentemente da diferentes constantes obtemos as diferentes trajetórias
degenerescência em r = 2M , que representa uma falha para os raios luminosos que ao se cruzarem formam os
no sistema de coordenadas utilizado. cones de luz, conforme ilustrado na Fig. 4.
Embora r = 2M não represente uma singularidade Observamos na Figura 4 que os raios luminosos for-
real, esse raio marca uma inversão nos papéis do tempo mam cones de luz semelhantes aos do espaço-tempo de
e do espaço no elemento de linha (11). Quando r < 2M ,
os termos associados a dr2 e dt2 mudam de sinal, ou 2 De maneira intuitiva, 2L = 0 caracteriza uma contração da
seja, 1 − 2M/r < 0. Isso significa que as coordenadas métrica com as quadrivelocidades ẋµ e ẋν , que para o caso
de tempo e espaço trocam seus papéis, e ds2 > 0 se particular da métrica de Minkowski, gµν = ηµν , reproduz a Eq. (2)
torna um intervalo tipo-tempo, enquanto ds2 < 0 se diferenciada pelo parâmetro λ. Uma formulação mais completa
para a normalização 2L = 0 pode ser encontrada na Ref. [12].
torna um intervalo tipo-espaço. Isso é diferente do que 3 Ao fazer t → −t selecionamos as geodésicas que diminuem
ocorre para r > 2M . Portanto, a Eq. (12) marca uma conforme r aumenta. O cruzamento dessas geodésicas com as
região de transição nos tipos de intervalos, que possui descritas pela Eq. (19) caracterizam os cones de luz da Fig. 4.
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e20240010-8 Introdução aos buracos negros e sua termodinâmica
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e20240010-10 Introdução aos buracos negros e sua termodinâmica
6.1. Leis mecânicas similaridade entre a lei das áreas e a lei de aumento de
entropia é o principal motivo para a construção de uma
Lei zero
analogia entre as leis mecânicas dos buracos negros e as
A lei zero pode ser caracterizada pelo seguinte enunci- leis termodinâmicas.
ado: a gravidade superficial de um buraco negro estacio-
nário é uniforme em todo o horizonte de eventos. Esse 6.2. Efeito Hawking
resultado é completamente geral, por exemplo, se dois
buracos negros estiverem suficientemente próximos um Até o momento, a relação entre as três leis termodinâmi-
do outro, o efeito gravitacional, como a força de maré cas e as leis dos buracos negros representa apenas uma
que um exerce sobre o outro, irá gerar uma geometria analogia. Do ponto de vista da física clássica, que não
mais complicada que não é completamente descrita considera os efeitos quânticos da matéria, a gravidade
pela solução de Kerr-Newmann. No entanto, a lei zero superficial do buraco negro não poderia caracterizar
continua sendo válida. sua temperatura, a menos que fosse identicamente nula
Na usual Termodinâmica, a lei zero estabelece que, (κ = 0). Isso seria esperado, uma vez que, classi-
para um sistema em equilíbrio termodinâmico, a tem- camente, nenhum objeto pode escapar de um buraco
peratura do sistema deve ser a mesma em todos os negro, enquanto, na termodinâmica, qualquer objeto
lugares. Portanto, em uma analogia direta, a gravidade com temperatura diferente de zero deve emitir radiação.
superficial κ está para os buracos negros assim como a No entanto, ao considerarmos os efeitos quânticos da
temperatura está para um sistema termodinâmico. matéria, a situação muda completamente, como demons-
trado por Hawking em 1975 [22].
A Teoria Quântica de Campos afirma que o espaço-
Primeira lei
tempo em que vivemos é permeado por diferentes tipos
A primeira lei estabelece que variações na massa, na de campos que estão constantemente sofrendo flutu-
carga elétrica e momento angular do buraco negro estão ações de energia. Essas flutuações de energia geram
relacionadas por os chamados “pares de partículas virtuais”, em que
uma partícula e sua antipartícula correspondente (por
κ
δM = δA − ΦδQ + ΩδJ, (46) exemplo, elétrons e pósitrons) surgem do vácuo, mas se
8π combinam e se aniquilam em um tempo extremamente
onde κ é a gravidade superficial do BN, Eq. (36), Φ curto. O que Hawking mostrou é que, próximo ao
o potencial elétrico e Ω a velocidade angular, definidos horizonte de eventos de um buraco negro, pode ocorrer
como a criação, mas não a aniquilação dos pares de partículas,
de modo que uma das partículas é capturada pelo buraco
Qr+ J/M
Φ≡− e Ω≡ , (47) negro e a outra escapa para o infinito4 . Nesse caso,
α α quando uma antipartícula é capturada e sua partícula
com α = A/4π. O leitor interessado pode ver a dedução simétrica escapa para o infinito, o buraco negro sofre
da primeira lei no Apêndice ??. uma diminuição de energia com o mesmo módulo de
A conexão com a Termodinâmica é feita por uma energia que viajou para o infinito, mas com sinal oposto.
comparação direta com a primeira lei Isso é equivalente a dizer que o buraco negro está
emitindo radiação para observadores distantes.
δU = T δS − pδV. (48) Hawking demonstrou que o fluxo de radiação produ-
zido ao redor do buraco negro, denominada radiação
Dessa forma, observamos que a gravidade superficial Hawking, corresponde, para observadores externos, à
caracteriza a temperatura do buraco negro, enquanto a radiação emitida por um corpo negro a uma temperatura
variação da área caracteriza a variação de entropia. Ou
κ κ
seja, 8π δA é análogo a T δS. Da mesma forma, temos TBN = . (50)
que −ΦδQ + ΩδJ análogo a −pδV . π
Isso nos leva a uma definição para a entropia do buraco
Segunda lei negro como — vide-se a Eq. (46) relacionando κ e A:
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P π2 k4 4
= T . (55)
A 60c2 ℏ3
Para o buraco negro de Schwarzschild com área A =
16πm2 G2 /c4 (em unidades convencionais), conforme se
deduz da Eq. (45) com Q = J = 0, obtemos uma
potência
Figura 6: Representação esquemática do efeito Hawking. ℏc6
P = , (56)
15360G2 πm2
desses objetos. Em outras palavras, podemos dizer que onde usamos (54). Se m é a massa do buraco negro, sua
buracos negros correspondem a regiões do espaço-tempo energia é dada por E = mc2 , que diferenciando no tempo
que emitem radiação de corpo negro a uma temperatura fica
TBN . dE dm
A diminuição da energia do buraco negro faz com = c2 . (57)
dt dt
que sua área diminua e, consequentemente, sua entropia
SBN também diminui. Isso viola a lei das áreas. Como Quando igualamos isso a −P , já que a potência irradiada
resultado desse processo, a quantidade de entropia dimi- ocorre devido à diminuição da energia do buraco negro,
nuída é compensada pela entropia da radiação emitida obtemos a seguinte equação para m em função do tempo:
Smatéria , que corresponde à entropia usual da termodi-
m3 = −3bc−2 t + C, (58)
nâmica. Dessa forma, a segunda lei da termodinâmica
é generalizada para o contexto dos buracos negros, em sendo b = ℏc6 /15360πG2 e C uma constante de integra-
que a entropia total é dada por ção. Assim, considerando que em t = 0 temos a massa
X X inicial m = m0 , nossa equação final fica:
S= Smatéria + SBN . (52)
1
m = m30 − 3βt 3 , (59)
6.3. Evaporação de um buraco negro de
Schwarzschild com a massa do Sol com β = bc−2 .
A vaporação completa ocorre quando m = 0, e
A descrição dos buracos negros como corpos que emitem portanto
radiação resulta na evaporação desses objetos. Isso signi-
fica que um buraco negro emite radiação continuamente, m30
diminuindo sua área até desaparecer por completo. t= . (60)
3β
Vamos concluir nossa discussão considerando o caso
simples do buraco negro de Schwarzschild e calcular Para um buraco negro com a massa do Sol, m0 = 1, 99 ×
o tempo necessário para que um buraco negro com a 1030 kg, a equação anterior fornece
mesma massa do Sol evapore completamente.
A temperatura do buraco negro de Schwarzschild é t = 6, 60 × 1074 s = 2, 09 × 1067 anos, (61)
dada por
que é o tempo necessário para um buraco negro com
1 a massa do Sol evaporar completamente. Note que esse
TBN = . (53) tempo é maior que a idade do nosso universo (da ordem
8πM
de 1010 anos), o que significa que qualquer buraco negro
Essa equação está em unidades geométricas (ℏ = c = com massa m ≥ m0 ainda não evaporou por completo,
k = 1). Em termos das unidades convencionais, podemos mesmo que tenha se formado junto com o nascimento do
escrever a temperatura como universo.
ℏc3
TBN = , (54) 7. Conclusões
8πGkm
onde utilizamos a Eq. (12) para obter a temperatura Neste trabalho de revisão, explicamos como caracterizar
em relação a massa m. Aqui, k = 1, 38 × 10−23 J/K é a os buracos negros e estudar suas propriedades sem entrar
constante de Boltzmann, c = 3, 0×108 m/s é a velocidade em detalhes matemáticos complexos. Focamos no caso
da luz no vácuo, ℏ = 1, 055 × 10−34 J.s é a constante do buraco negro de Schwarzschild para mostrar que os
DOI: [Link] Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 46, e20240010, 2024
e20240010-12 Introdução aos buracos negros e sua termodinâmica
buracos negros são regiões do espaço-tempo onde nada [14] J. Castiñeiras, L.C.B. Crispino e G.E.A. Matsas,
pode escapar de seu horizonte de eventos. Scientific American Brasil 29, 50 (2004).
Também abordamos o caso mais geral do buraco [15] B.P. Abbott, R. Abbott, T.D. Abbott, M.R. Abernathy,
negro de Kerr-Newmann, do qual as soluções específicas, F. Acernese, K. Ackley, C. Adams, T. Adams, P. Ad-
como o buraco negro de Kerr, o buraco negro de desso, R.X. Adhikari et al., Physical review letters 116,
Reissner-Nordstrom e o buraco negro de Schwarzschild, 061102 (2016).
podem ser obtidas como casos especiais. Introduzimos as [16] A. Einstein e J. Stachel, The Collected Papers of Albert
Einstein, Volume 15: The Berlin Years: Writings &
quantidades fundamentais que caracterizam os buracos
Correspondence, June 1925–May 1927 – Documentary
negros, como sua área e gravidade superficial, conceitos Edition (Princeton University Press, Nova Jersey, 1987).
amplamente discutidos na literatura através de vetores [17] J. Foster e J. Nightingale, A Short Course in General
de Killing, mas que não aprofundamos aqui. Relativity (Springer, Nova Iorque, 2010).
Discutimos três das quatro leis mecânicas dos buracos [18] J.B. Marion e S.T. Thornton, Classical dynamics of par-
negros propostas por Bardeen, Carter e Hawking, que ticles and systems (Academic Press, Cambridge, 2013).
possuem analogias diretas com as leis termodinâmicas. [19] H. Reissner, Annalen der Physik 355, 106 (1916).
Também mencionamos o efeito Hawking, que estabelece [20] R.C. Henry, The Astrophysical Journal 535, 350 (2000).
a conexão física entre essas leis mecânicas com as leis [21] J. Bardeen, B. Carter e S. Hawking, Communications in
da termodinâmica, mostrando que as semelhanças entre mathematical physics 31, 161 (1973).
as leis dos buracos negros e as leis termodinâmicas vão [22] S. Hawking, Communications in mathematical physics
além de simples analogias. Por fim, como exemplo e 43, 199 (1975).
consequência direta do comportamento termodinâmico [23] S. Hawking, Physical Review Letters 26, 1344 (1971).
dos buracos negros, demonstramos como calcular o [24] R. Balian, From Microphysics to Macrophysics: Methods
tempo de evaporação de um buraco negro estático, sem and Applications of Statistical Physics (Springer Science
carga ou rotação. & Business Media, Berlim 2007).
Material suplementar
O seguinte material suplementar está disponível online:
Apêndice A – Obtendo a primeira lei dos buracos negros.
Referências
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dos, Núcleos e Partículas (GEN LTC, São Paulo, 1979).
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São Paulo 2019).
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[4] M. Capek, The Concepts of Space and Time: Their
Structure and Their Development (Springer Nether-
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[5] C. Misner, K. Thorne, J. Wheeler e D. Kaiser, Gravita-
tion (Princeton University Press, Nova Jersey, 2017).
[6] J. Jost e B. Riemann, On the Hypotheses Which Lie
at the Bases of Geometry (Springer International Pu-
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[7] G. Ricci e T. Levi-Civita, Mathematische Annalen 54,
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[8] K. Schwarzschild, Gen. Relativ. Gravit 35, 951 (2003).
[9] A. Saa, Revista Brasileira de Ensino de Física 38, e4201
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[10] G.C. Ávila, Revista de História da UFBA 1, 69 (2009).
[11] J.R. Oppenheimer e H. Snyder, Physical Review 56, 455
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[12] R. Inverno e J. Vickers, Introducing Einstein’s Relati-
vity: A Deeper Understanding (Oxford University Press,
Oxford, 2022).
[13] D. Giugno, Buracos negros e termodinâmica. Dissertação
de Mestrado, Universidade de São Paulo, São Paulo
2001).
Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 46, e20240010, 2024 DOI: [Link]