Jake
Jake estava se encarando no espelho, ensaiando sorrisos, todos pareciam
tortos, amarelos ou simplesmente falsos
- Como consigo fazer um sorriso convincente – Ele perguntou para seu reflexo –
Ou pelo menos um normal – Mas isso para ele parecia um desafio maior do que
apenas um sorriso
Até onde Jake Williams sabia, ele não era um garoto exatamente normal, não
era só porque ele gostava de desafiar a si mesmo para ver por quanto tempo ele
conseguia prender a respiração na banheira, (“Seu recorde pessoal foi de 2
minutos, isso se ele não contou rápido”), ou porque gostava ele gostava de
adicionar uma colher de manteiga de amendoim no café quente pela manhã, (“Ele
gostava do contraste, estranhamente salgado, que café ficava”)
Era algo a mais, uma constante sensação de que algo era estranho nele, mas
não exatamente, errada. Talvez incorreta? Ou essa seria uma maneira mais gentil
de dizer errado. Não. Jake não era errado, por mais que sua mãe não gostasse de
admitir, a maioria das coisas que ele dizia era certa, mas isso não impedia sua mãe
de repreende-lo
- Porque pareço tão ansioso? – Ele perguntou ainda se olhando no espelho,
quase esperando alguma resposta – Ah, e porque eu vou para uma nova escola,
onde eu não conheço ninguém e estou completamente sozinho – Ele disse em
quanto batia a própria cabeça no espelho pela frustação
Tirando Jake, toda a sua família ficou feliz com a promoção de seu pai, ele
entendia o por que, afinal, quem não gostaria de uma casa nova e grande,
(“Grande demais para apenas 3 pessoas”), ou dois carros novos, com a promessa
de um possível carro extra como presente aos dezesseis. Por mais improvável que
fosse, a primeira coisa que Jake faria se ganhasse um carro seria voltar para
Boston, e seus pais sabiam disso
A ideia de começar o ensino médio sozinho era assustadora, Jake passou a
última hora pensando em como poderia ser seu primeiro dia, ou tentaria fingir ser
alguém bom o suficiente para entrar em algum grupinho, ou tentaria passar
despercebido e se isolar completamente durante o ensino médio. Nenhuma das
opções pareciam agradáveis. Jake deu um suspiro e se jogou na cama, sua mente
foi direto em seus amigos, a desculpa de estar a apenas 30 minutos de distância
não era muito reconfortante para ele, não quando ele não teria nenhum deles na
escola amanhã
O primeiro dia de aula em uma escola nova, uma provação que alguns azarados
precisam passar pelo menos uma vez na vida. Jake se revirava na cama imaginando
como seria sua escola nova, cultivando uma espécie de esperança culposa para ter
novos alunos como ele, completamente perdidos, e se perguntou quais seriam as
chances, Salem não era exatamente uma cidade pequena para novos moradores
serem algo raro. Aqueles pensamentos faziam a cabeça dele doer
Jake afundou a cara em um travesseiro e apagou. Quando acordou olhou para
o celular, cinco horas da manhã, duas horas para sair para a aula. Por mais que
tentasse, Jake sabia que não conseguiria voltar a dormir. Ele se virou para encarar
o teto, em um estado quase sedado, sua mente caminhando em diferentes
direções. Ele via uma escola, lotada de vultos com manchas no lugar dos rostos,
que andavam e murmuravam, mas o único barulho que Jack conseguia ouvir, eram
os paços ritmados no chão, Jake andou até uma sala vazia, quando olhou para o
corredor, estava vazio, quando voltou a encarar a sala antes vazia, havia quatro
pessoas de costas, a porta se fechou e Jake abriu os olhos. Sua mãe o estava
chamando para a escola
Jake se levantou bruscamente e sentiu seu quarto girar, sua mente latejava
como se a tivesse batido repetidamente em uma parede. Ele cambaleou até o
banheiro e tomou um advil. Ele se encarou no espelho, sua expressão abatida e
pálida, sua camiseta suada, era como se ele tivesse visto um fantasma. Jake
mergulhou o rosto na pia e se sentiu mais esperto, mas sua aparência ainda
parecia abatida. Jake continuou se encarando, pensou na possibilidade de fingir
estar doente e perder o primeiro dia, mas a ideia foi apagada em menos de um
segundo, ser o aluno novo já seria difícil, ser o aluno novo que perdeu a chance de
conhecer outro aluno novato seria pior
Jake deu uma última checada antes de descer, sua pele alva era um contraste
forte com seus cabelos pretos bagunçados, seus rosto fino e olhos azuis grandes e
expressivos davam a impressão que ele estava constantemente doente, ou que era
frágil o suficiente para desmoronar a qualquer instante. Ele usava um casaco
cruzado preto com capuz, camiseta branca, jeans azul claro e coturno preto
Jake desceu as escadas com a mochila nas costas, sua mãe estava sentada na
mesa redonda da cozinha mexendo no computador, seu pai estava no fogão em
quanto virava uma omelete
- Oi – o pai disse surpreso por ver Jake – O seu já está pronto – Ele disse
colocando para frente um prato com uma omelete ainda quente, com pedaços de
presunto e queijo
- Valeu pai – Jake disse em quanto se sentava com a mãe, que demorou alguns
instantes para encara-lo
- Está tudo bem-querido? – Ela perguntou o encarando – Você parece meio
pálido
Jake terminou de engolir antes de responder – Acho que eu tive um pesadelo,
estou... meio ansioso pelo dia de hoje
Sua mãe fechou o computador, ela tem aquela expressão solidaria que só uma
mãe e capaz de fazer, Jake não tinha certeza se ela se deve ao seu pesadelo ou
pelo primeiro dia de aula
- Sei que uma mudança grande Jake, mudanças são assustadoras
Jake se manteve em silencio em quanto mordia mais um pedaço da omelete
- Sei que está chateado querido, mas essa mudança foi muito boa para nós –
Ela encostou na mão de Jake lentamente, a segurando de maneira gentil – Para
todos nós, você poderá ter mais chances de entrar em qualquer faculdade que
quiser
Jake se forçou a morder o interior da bochecha para não responder, era quase
engraçado ouvir qualquer coisa sobre faculdade, era o primeiro dia, do primeiro
ano do ensino médio. Mas é claro, jake não poderia responder isso para ela
- Além disso – Ela continuou, em quanto lançava um olhar de aviso para o pai
que havia terminado a omelete – Não se esqueça que seus amigos não estão tão
longe, em feriados ou nas férias você pode visitar os seus avós e vê-los
Jake terminou de engolir – Mãe, eu não estou chateado ok, ficar chateado
agora não vai mudar nada, eu só – Jake soltou um suspiro profundo, (“Tente não
ser um babaca agora”), ele disse para si mesmo – E só, estranho começar uma
nova escola sozinho, ainda mais agora, e meio assustador
Sua mãe permaneceu em silencio, como se soubesse que palavras de
consolação não fossem funcionar naquele momento. Para a sorte dela, o pai puxou
a cadeira do lado do Jake
- Eu sei que é assustador, e sei que não é exatamente um consolo para você,
mas eu sei o que e passar por isso, durando o ensino médio eu me mudei três
vezes, sei como é se sentir sozinho e perdido. Na segunda escola eu desistir de
fazer amigos, mas você ainda tem essa chance
Jake soltou um outro suspiro – Sabe o que poderia me deixar animado?
Seu pai o encarava esperando a resposta
- A confirmação de algumas promessas sobre um carro de presente no meu
aniversário – jake disse tentando parecer triste, abrindo seus grandes olhos
fazendo uma careta de pena. Arrancando arfadas de ar de seu pai
- Já te disse que você e um grande chantagista? – Seu pai perguntou com um
tom de graça
- Eu sou seu filho, e o meu direito dado por Deus – Jake respondeu com um
sorriso fraco no rosto. Que foi o suficiente para deixar sua mãe feliz
- Quer carona para a escola querido? – A mãe perguntou em quanto se
levantava
- Não eu quero andar, quero ver um pouco a cidade
- Tudo bem, mas depois da escola quero que você volte direto para casa
Jake fez uma carreta, arrancando um sorriso de sua mãe e saiu
Sophie
Sophie ajustava o cabelo com as mãos, o reflexo no espelho ainda era um
território delicado. Os fios, um pouco mais longos do que estava acostumada,
caiam em uma cascata loiro pálido sobre seus ombros, mas ainda não pareciam
exatamente dela. Havia dias em que ela se sentia corajosa, ansiosa para mais um
dia, para seguir em frente, mas havia dias, como aquele, em que a vulnerabilidade
a seguia como uma sombra constante
Seus olhos percorriam sua imagem no espelho, procurando uma afirmação de
que esse era o caminho certo, de que estava cada vez mais próxima da versão mais
verdadeira de si mesma. Mas mesmo diante dos primeiros sinais de mudança,
ainda havia partes dela que se sentiam expostas, como se estivesse sendo sempre
observada e julgada, mesmo não tendo ninguém por perto
Ela admirava seu reflexo, seu corpo magro não era totalmente de seu agrado,
foi o fruto de tempos difíceis que ela tentava não pensar, tirando isso, se sentia
orgulhosa da roupa que havia escolhido. Um gorro de lá vermelho escuro, uma
camiseta cropped branca de manga curta por cima de uma camisa arrastão preta
de manga longa, calça jeans wide leg e botas de salto pretas. Sophie gostava de se
arrumar, gostava de se olhar no espelho, gostava de finalmente começar a se
reconhecer
Por mais que ainda tivesse insistentes momentos de insegurança, naquele
momento ela escolheu ignorar tudo isso, e se permitiu ser quem ela era, uma
jovem mulher aprendendo a existir no próprio corpo. Sophie agarrou a mochila e
desceu as escadas em passos largos