0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações4 páginas

Desmistificando o Preconceito Linguístico

Enviado por

anandaviana881
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações4 páginas

Desmistificando o Preconceito Linguístico

Enviado por

anandaviana881
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Mito 1

“A língua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade


surpreendente”

Este é o maior e mais sério dos mitos que compõem a mitologia do preconceito
linguístico no Brasil. Ele é tão enraizado em nossa cultura que até mesmo
intelectuais renomados, pessoas com visão crítica e geralmente bons observadores
de Os fenômenos sociais brasileiros, deixam-se enganar por ela. Isso é sério,
diferenças de estatuto social que explicam a existência, no nosso país, de um
verdadeiro abismo linguístico entre os falantes de variedades não padronizadas do
português brasileiro — que são a maioria da nossa população - e falantes da
variedade (supostamente) educada, em linguagem geral mal definida, que é a língua
ensinada na escola. A verdade é que no Brasil, embora a língua falada pelos a
grande maioria da população é portuguesa, este português apresenta um alto grau
de diversidade e variabilidade, não só devido à grande extensão territorial do país —
o que gera diferenças regionais, conhecidas e também vítimas, alguns deles, muito
preconceituosos -, mas principalmente porque causa da trágica injustiça social que
faz do Brasil o segundo país com a pior distribuição de renda do mundo. Como a
educação ainda é privilégio de muito poucas pessoas no nosso país, um número
gigantesco de brasileiros permanece em margem do domínio de uma norma culta.
Alvo de ridículo e zombaria por parte dos falantes do português padrão ou mesmo
aqueles que, não falando o português padrão, aceitam como referência ideal — por
isso podemos chamá-los de sem língua. Claro que eles também falam português,
uma variedade de português não-padrão, com sua gramática particular, que, no
entanto, não é reconhecida como válido, que é desacreditado, ridicularizado.

“ A imagem de uma língua única, mais próxima da modalidade escrita da


linguagem, subjacente às prescrições normativas da gramática escolar, dos manuais
e mesmo dos programas de difusão da mídia sobre “o que se deve e o que não se
deve falar e escrever”, não se sustenta na análise empírica dos usos da língua.”

Publicado pelo Ministério da Educação e do Desporto em 1998.

Mito 2

É por isso que não se concordar com o título do livro – que é longe de analisar a
verdadeira língua viva usada em nosso país —, nem com o subtítulo: 'uma
análise simples e bem-humorada de língua brasileira'. Estas duas opiniões que
são tão comuns, corriqueiras e que na realidade são duas faces da mesma
moeda enferrujada, refletem o complexo de inferioridade, o sentimento de estar
equilibrado hoje uma colônia dependente de uma população mais antiga e mais
'civilizado'. Sinceramente, eu não sei onde se é melhor falado.
Há muito tempo a ciência destruiu o mito da raça pura, que é um conceito
absurdo, sem nenhuma possibilidade de verificação na realidade de nenhum
povo, por mais isolado que seja. Assim uma raça que não e pura não poderia
falar uma língua pura. A classe dita culta mostra-se displicente em relação a
língua nacional, e a indigência vocabular tomou conta da juventude e dos não
tão jovens assim, quase como se aqueles se orgulhassem de sua própria
ignorância e estes quisessem voltar atras no tempo. Quanto mais progressiva e
a civilização de um povo, mais sujeita e a sua língua a deturpações e
vícios, sob a variada influência das relações internacionais, dos novos inventos,
das travancas da ignorância, e até dos caprichos da moda
Existe, embutida nesse mito, a ilusão de que os portugueses falam e escrevem
“tudo certo” e que seguem rigorosamente as regras da gramática ensinada na
escola
Monteiro Lobato, que morreu em 1948, estava muito mais por dentro das noções
da linguística moderna do que muito autor de gramática que está por aí hoje,
“vivo e bulindo”, como se diz no Nordeste.

Mito 3

Essa afirmação preconceituosa e prima-irmã da ideia que acabamos de derrubar,


a de que “brasileiro não sabe português”. Como o nosso ensino da língua sempre
se baseou na norma gramatical de Portugal, as regras que aprendemos na
escola em boa parte não correspondem a língua que realmente falamos e
escrevemos no Brasil. No dia em que nosso ensino de português se concentrar
no uso real, vivo e verdadeiro da língua portuguesa do Brasil e bem provável que
ninguém mais continue a repetir essa bobagem. Todo falante nativo de uma
língua sabe essa língua. Saber uma língua, no sentido científico do verbo saber,
significa conhecer intuitivamente e empregar com naturalidade as regras
básicas de funcionamento dela. O que ela não conhece são sutilezas,
sofisticações e irregularidades no uso dessas regras, coisas que só a literatura e
o estudo o podem dar. Um estrangeiro, porém, que estejam começando a
aprender português, poderá se confundir e falar assim.
A gramática brasileira não sente a necessidade daquela preposição a que era
exigida na norma clássica literária, cem anos atras, e que ainda está em vigor no
português falado em Portugal, a dez mil quilômetros daqui! E um esforço árduo e
inútil, um verdadeiro trabalho de Sisifo, tentar impor uma regra que não
encontra justificativa na gramática intuitiva do falante. A prova mais visível disso
e que aquelas mesmas pessoas que, por causa da pressão policialesca da escola
e da gramática tradicional, usam a preposição a depois do verbo assistir,
também dizem que o “jogo foi assistido por vinte mil pessoas”. Ora, se o verbo
assistir pede uma preposição e porque ele não e transmitido direto, e só os
verbos transitivos direitos podem, segundo as gramáticas, assumir a voz
passiva. Desse modo, quem diz “assisti ao jogo”, não poderia teoricamente,
dizer “o jogo foi assistido”.
Se tantas pessoas inteligentes e cultas continuam achando que “não sabe
português” ou que “português e muito difícil” e porque esta disciplina fascinante
foi transformada numa ‘ciência esotérica”, numa “doutrina cabalística” que
somente alguns “iluminados” conseguem dominar completamente. No fundo, a
ideia de que “português e muito difícil” serve como mais um dos instrumentos
de manutenção do status quo das classes sociais privilegiadas. Essa entidade
mística e sobrenatural chamada “português” só se revela aos poucos “iniciados”,
aos que sabem as palavras magicas exatas para fazê-la manifestar-se.
Mito 4

O preconceito linguístico se baseia na crença de que só existe, como vimos no


Mito 1, uma única língua portuguesa digna deste nome e que seria a língua
ensinada nas escolas, explicadas nas gramáticas e catalogada nos dicionários.
Como se vê, do mesmo modo como existe o preconceito contra a fala de
determinadas classes sociais, também existe o preconceito contra a fala
características de certas regiões. E um verdadeiro acinte aos direitos humanos,
por exemplo, o modo como a fala nordestina e retratada nas novelas de
televisão, principalmente da Rede Globo. No plano linguístico, atores não
nordestinos expressam-se num arremedo de língua que não é falada em lugar
nenhum do brasil, muito menos no Nordeste. Para mostrar que a fala nordestina
nada tem de “engraçado” ou “ridícula”, vamos fazer uma pequena comparação.
Porque o que está em jogo aqui não é língua, mas a pessoa que fala essa língua
e a região geográfica onde essa pessoa vive. Se o Nordeste e “atrasado",
"pobre”, “subdesenvolvido "ou “pitoresco”, então, “naturalmente”, as pessoas
que lá nasceram e a língua que elas falam também devem ser consideradas
assim.
Porque a gramática brasileira não sente a necessidade
daquela preposição a, que era exigida na norma clássica
literária, cem anos atrás, e que ainda está em vigor no
português falado em Portugal, a dez mil quilômetros
daqui! É um esforço árduo e inútil, um verdadeiro trabalho
de Sísifo, tentar impor uma regra que não encontra
justificativa na gramática intuitiva do falante. A prova
mais visível disso é que aquelas mesmas pessoas que, por
causa da pressão policialesca da escola e da gramática
tradicional, usam a preposição a depois do verbo assistir,
também dizem que «o jogo foi assistido por vinte mil
pessoas». Ora, se o verbo assistir pede uma preposição é
porque ele não é transitivo direto, e só os verbos
transitivos diretos podem, segundo as gramáticas,
assumir a voz passiva. Desse modo, quem diz «assisti ao
jogo» não poderia, teoricamente, dizer «o jogo foi
assistido».

Você também pode gostar