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LICITAÇÕES E CONTRATOS SOB O

VIÉS DA LEI 14.133


Módulo IV
1

Sumário
1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................................... 3
2. OBSTÁCULOS E DIFICULDADES REAIS DOS AGENTES PÚBLICOS NAS
CONTRATAÇÕES MUNICIPAIS ........................................................................................................ 5
3. A EDIÇÃO DE REGULAMENTOS PARA AUMENTAR A SEGURANÇA JURÍDICA .......... 7
4. A RESPONSABILIZAÇÃO PESSOAL DO AGENTE PÚBLICO – SEGREGAÇÃO DE
FUNÇÕES .............................................................................................................................................. 10
5. CONCLUSÃO .................................................................................................................................. 18
REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 19
2

MÓDULO 4 - PREGÃO PRESENCIAL E ELETRÔNICO SOB O VIÉS DA LEI 14.133/2021


ARTIGO
A RESPONSABILIDADE DOS AGENTES PÚBLICOS NA CONDUÇÃO DOS PREGÕES

José Roberto Tiossi Junior 1

1. Introdução;
2. Obstáculos e dificuldades reais dos agentes públicos nas contratações
municipais;
3. A edição de regulamentos para aumentar a segurança jurídica;
4. A responsabilização pessoal do agente público – segregação de funções;
5. Conclusão.

1
Advogado. Mestre em Direito. Professor de Direito Administrativo. Expert em Contratações Públicas
Municipais. Palestrante e Parecerista. E-mail: tiossi@[Link]
3

1. INTRODUÇÃO
Preliminarmente, insta enfatizar que existe uma diferença entre o regime
jurídico do particular e da Administração Pública, ao passo que essa tem sua atuação
vinculada ao princípio da legalidade, podendo praticar apenas o que a lei permite,
nos termos do art. 37, caput, da Constituição Federal, de modo que o particular está
livre para praticar qualquer ato que não seja proibido por lei, nos termos do art. 5o.
inciso II da Constituição Federal.
Analisando o regime jurídico no âmbito das contratações, no direito privado o
particular tem a liberdade de adquirir e contratar conforme conveniência, ainda que
mais oneroso, pois se trata de interesses disponíveis. Já no tocante as contratações
públicas, a indisponibilidade do interesse público exige que o agente público atue em
conformidade e nos limites da lei.
Importante salientar que as contratações públicas são atividades-meio que
buscam alcançar determinado interesse público fim, conforme procedimentos
previamente definidos em lei 2, sempre em observância aos princípios constitucionais
que regem a atividade administrativa, desde o planejamento até a execução.
Em que pese o princípio da legalidade pautar os atos administrativos, não
significa necessariamente adotar procedimentos extremamente formalistas ou
exagerados. 3
A doutrina 4 caminha no mesmo sentido de flexibilizar os procedimentos, desde
que não cause lesão ao interesse público ou prejuízo aos demais licitantes. Para isso,
necessário se faz uma análise ponderada entre os princípios.
Todos que participem da licitação tem direito à fiel observância do pertinente
procedimento estabelecido em lei, de modo que o procedimento licitatório

2
STJ (MS no 5.418/DF, DJU de 1o-6-1998, Rel. Min. Demócrito Reinaldo, Primeira Seção) “O procedimento
licitatório é um conjunto de atos sucessivos, realizados na forma e nos prazos preconizados na lei;
ultimada (ou ultrapassada) uma fase, ‘preclusa’ fica a anterior, sendo defeso, a administração, exigir, na
(fase) subsequente, documentos ou providências pertinentes àquela já superada. Se assim não fosse,
avanços e recuos mediante a exigência de atos impertinentes a serem praticados pelos licitantes em
momento inadequado, postergariam indefinidamente o procedimento e acarretariam manifesta
insegurança jurídica aos que dele participam.”
3
Não se anula o procedimento diante de meras omissões ou irregularidades formais na documentação
ou nas propostas desde que, por sua irrelevância, não causem prejuízo à Administração ou aos
licitantes. MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 18 ed. São Paulo: Malheiros, 1993, p.
248.
4
A proposta mais vantajosa deve prevalecer, mesmo que o Poder Público abra mão de exigências
previstas em edital, afastando o excesso de formalismo. No entanto, necessário observar o caso
concreto e realizar uma ponderação entre os princípios para que não implique em lesão a direitos dos
demais licitantes. FURTADO, Lucas Rocha. Curso de licitações e contratos administrativos: teoria,
prática e jurisprudência – São Paulo: Atlas, 2001, p. 30-31.
4

caracteriza ato administrativo formal, seja ele praticado em qualquer esfera da


Administração Pública. Ocorre que a própria jurisprudência 5 afasta o excesso de
formalismo na condução dos procedimentos.
Assegurar tratamento isonômico entre os licitantes, bem como a justa
competição é um dos objetivos que consta no art. 11 da Lei 14.133/2021, motivo que
vem ocasionando julgamentos com interpretações menos restritivas, primando pela
ampla competitividade e agregando vantajosidade ao interesse público 6.
Assegurar a seleção da proposta apta a gerar o resultado de contratação mais
vantajoso para a Administração Pública também aparece como um dos objetivos
previstos na Nova Lei de Licitações.
Acontece que independente da interpretação da norma ser flexível ou rigorosa,
a prática vem revelando grande dificuldade para atender o interesse público com
maestria.
Não é novidade para ninguém que o atual modelo de contratação adotado
pela Administração Pública no Brasil encontra-se fracassado. Compra-se muito mal,
pagando preços exorbitantes e recebendo bens e serviços com qualidade
questionável, além é claro da insegurança jurídica para os atores envolvidos no
processo. Empresas com medo de não receber pelos bens entregues ou serviços
prestados e agentes públicos com medo de serem responsabilizados pela decisão
tomada.

5
O rigor formal não pode ser exagerado ou absoluto. Como adverte o já citado Hely Lopes Meirelles, o
princípio do procedimento formal não significa que a Administração deva ser formalista a ponto de
fazer exigências inúteis ou desnecessárias à licitação, como também não quer dizer que se deva anular
o procedimento ou julgamento, ou inabilitar licitantes ou desclassificar propostas diante de simples
omissões ou irregularidades na documentação ou na proposta, desde que tais omissões sejam
irrelevantes e não causem prejuízos à Administração ou aos concorrentes. Decisão TCU 570/92
Plenário, DOU 19.12.92.
6
STJ (MS no. 5.779/DF;1998/26226-1;DJU de 26-10-1998) “Administrativo. Licitação. Habilitação.
Vinculação ao edital. Mandado de Segurança. 1. A interpretação das regras do edital de procedimento
licitatório não deve ser restritiva. Desde que não possibilitem qualquer prejuízo à Administração e aos
interessados no certame, é de todo conveniente que compareça à disputa o maior número possível de
interessados, para que a proposta mais vantajosa seja encontrada em um universo mais amplo. 2. O
ordenamento jurídico regulador da licitação não prestigia decisão assumida pela Comissão de
Licitação que inabilita concorrente com base em circunstância impertinente ou irrelevante para o
específico objeto do contrato, fazendo exigência sem conteúdo de repercussão para a configuração de
habilitação jurídica, da qualificação técnica, da capacidade econômico-financeira e da regularidade
fiscal. 3. Se o edital exige que a prova de habilitação jurídica da empresa deva ser feita, apenas, com a
apresentação do ‘ato constitutivo e suas alterações, devidamente registrada ou arquivadas na
repartição competente, constando dentre seus objetivos a exclusão de serviços de Radiofusão...’,
excessiva e sem fundamento legal a inabilidade de concorrente sob a simples afirmação de que
cláusulas do contrato social não se harmonizam com o valor total do capital social e com o
correspondente balanço de aberturam por tal entendimento ser vago e impreciso. 4. Configura-se
excesso de exigência, especialmente por a tanto não pedir o edital, inabilitar concorrente porque os
administradores da licitante não assinaram em conjunto com a dos contadores o balanço da empresa.
5. Segurança concedida.
5

No mais, por conta de um espetáculo midiático, promovido principalmente em


virtude de grandes escândalos de corrupção atrelados a obras e serviços de natureza
vultosa, acaba produzindo uma criminalização generalizada daqueles que atuam com
contratações públicas, como se a desonestidade fosse a regra e prevalecesse no trato
da coisa pública, inexistindo gestores ou empresas de bem.
A crise econômica e financeira que assola o país exige que a Administração
Pública faça mais com menos, ou seja, invista em técnicas heterodoxas, para que
diante das complexas demandas da contemporaneidade, consigam reduzir o
desperdício e aumentar a eficiência no atendimento das demandas sociais.
A grande pergunta é: quem tem coragem de inovar nos tempos atuais? Período
cujas interpretações da legislação estão em disputa, em uma verdadeira queda de
braços, formando uma linha tênue entre o certo e o errado, o probo e o ímprobo, o
honesto e o corrupto.
Sem falar na multiplicidade de leis e regulamentos sobre licitações e contratos,
que aliadas as estruturas arcaicas e aos métodos ortodoxos de contratação, bem
como aos atuais meios e formas de controle, formam um ambiente de insegurança
jurídica. Tempo este, que vem sendo chamado pela academia, de “direito
administrativo do medo”.
Neste cenário, surge a Lei nº 13.655/2018 que alterou a Lei de Introdução às
Normas do Direito Brasileiro (LINDB) previstas no Decreto-Lei 4.657/1942 e incluiu
disposições sobre segurança jurídica e eficiência na criação e na aplicação do direito
público, impactando diretamente nas licitações e contratos.
Tamanha a sensibilidade do legislador e a importância da LINDB no âmbito do
direito público, que o art. 5o da Nova Lei de Licitações trouxe de forma expressa a
aplicação das disposições da LINDB nas licitações e contratos.
Com efeito, tal norma deve ser interpretada e aplicada em harmonia com o
ordenamento, fazendo com que as decisões dos Tribunais de Contas e do Judiciário
sobre responsabilização dos agentes públicos sejam mais coerentes, por considerarem
as circunstâncias fáticas que motivaram a conduta do agente.

2. OBSTÁCULOS E DIFICULDADES REAIS DOS AGENTES PÚBLICOS NAS


CONTRATAÇÕES MUNICIPAIS
Pois bem, o art. 22 da LINDB assevera que na interpretação de normas sobre
gestão pública, serão considerados os obstáculos e as dificuldades reais do gestor.
Inúmeros são os estorvos que podem ser encontrados, ainda mais nos municípios
brasileiros, que carecem muitas vezes de uma estrutura adequada para gerir os
interesses da coletividade. A escassez material, orçamentária e de pessoal figura
entre os principais impedimentos na implantação de determinada política pública.
6

Fato é que as demandas da sociedade são cíclicas, de modo que exigem


organização e planejamento por parte dos gestores municipais no processamento das
compras públicas. Acontece que a demanda vem se tornando superior a capacidade
produtiva dos órgãos públicos, em especial dos pequenos e remotos municípios, que
se encontram sempre correndo contra o tempo para “apagar incêndios” e suprir as
necessidades da população.
A prática vem revelando que a licitação se tornou um fim em si mesma, com os
esforços voltados todos para a fase de disputa e proclamação do licitante vencedor.
Os processos são extremamente formais e burocráticos, buscando a todo custo
encontrar o menor preço. Percebe-se um protecionismo por parte dos Órgãos de
Controle, desmoderado e compulsivo pela ampla competitividade, defendendo-se
uma isonomia inexistente, de modo a proporcionar uma disputa entre iguais e
desiguais que ao final só trará consequências nefastas ao interesse público.
Já a dificuldade para compreensão do ordenamento jurídico é outra
adversidade que vem gerando uma paralisia na Administração Pública. A pluralidade
de normas, aliada a complexidade jurídica de seus textos criam mais este obstáculo
para o gestor, que se vê perdido diante de tantas normas sobre matérias correlatas.
Terminologias que apresentam conceito indeterminado, interpretações que
admitem a incidência de princípios abstratos, divergências doutrinárias e
jurisprudenciais causam uma insegurança jurídica ainda maior na aplicação da norma
e automaticamente afastam o dinamismo e eficiência administrativa, dando lugar
para o marasmo burocrático e a omissão no agir.
A dúvida jurídica se potencializa ao considerar os atuais métodos e
mecanismos de controle. Sob pena de ter sua conduta criminalizada, o agente público
vem optando pela omissão e desistindo de agir, visto que a ação é um ato perigoso.
Com isso, para não se expor a eventuais riscos, o gestor tem pautado suas ações na
autoproteção, mesmo que isso signifique sacrificar o interesse público. Trata-se da
teoria da “caneta paralisada”, em que dorme tranquilo aquele gestor que indefere ou
se omite diante de determinado ato.
Sob esse contexto, necessário uma reflexão sobre as formas de controle, visto
que, se por um lado, atuações rígidas e restritivas de controle reduzem atos
arbitrários, ilegais, de corrupção ou lesão ao erário, por outro, causam o “pânico”,
inércia e consequentemente a ineficiência administrativa, por conta de uma
criminalização generalizada da atividade estatal.
Dessa forma, o art. 22 da LINDB garante que a realidade seja levada em
consideração, fato que, para alguns é algo extremamente perigoso, sob pena da
realidade prevalecer sobre o direito. Referido dispositivo vem recebendo muitas
críticas, por se enquadrar como uma possível brecha para que o gestor justifique o
descumprimento da lei em virtude da realidade de seu município.
7

Acontece que cada município possui uma realidade própria que não pode ser
ignorada, de modo que uma análise sistêmica dos dispositivos se revela adequada,
para que a finalidade da norma seja alcançada.
Tanto é que no § 1o. do art. 22, é possível extrair que na decisão sobre a
regularidade da conduta, serão consideradas as circunstâncias práticas que
houverem imposto, limitado ou condicionado a ação do agente.
Já no § 2o do art. 22 aparecem os critérios que devem ser considerados na
aplicação das sanções, sendo eles: natureza e gravidade da infração cometida; danos
causados à Administração Pública; agravantes; atenuantes e antecedentes do agente.
Na verdade, o agente público não pode se eximir da responsabilidade pela
conduta praticada. O que o dispositivo versa é que será apurada a existência de
alguma dificuldade real no cumprimento do ordenamento jurídico e sendo real, se a
conduta adotada possui interpretação razoável no contexto apresentado.
Por fim, o art. 22 da LINDB confere racionalidade e proporcionalidade na
análise do caso concreto, afastando juízos próprios dos julgadores e interditando
interpretações quiméricas ou descontextualizadas, contribuindo para a evolução do
direito administrativo sancionador.

3. A EDIÇÃO DE REGULAMENTOS PARA AUMENTAR A SEGURANÇA JURÍDICA


O art. 30 da LINDB afirma que as autoridades públicas devem atuar para
aumentar a segurança jurídica na aplicação das normas, inclusive por meio de
regulamentos, súmulas administrativas e respostas a consultas.
A Constituição Federal confere em seu art. 22, inciso XXVII a competência
privativa para a União legislar sobre normas gerais sobre licitações e contratos, que
devem ser seguidas pelos demais entes federativos, inclusive os municípios.
Certo é que as normas gerais indicam as diretrizes de determinado instituto
jurídico, sem exaurir a matéria, ou seja, os demais entes federativos, diante de suas
particularidades, possuem legitimidade e competência concorrente para legislar sobre
situações especiais.
A grande dificuldade e o cerne da questão gira em torno do significado de
“normas gerais”, visto que Estados e Municípios podem legislar supletivamente sobre
normas específicas. Ocorre que o art. 1o da Lei 14.133/21 dispõe que esta Lei estabelece
normas gerais de licitação e contratação para as Administrações Públicas diretas,
autárquicas e fundacionais da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos
Municípios. Fato este, que gera muita controvérsia, principalmente pelo conceito
indeterminado de normas gerais.
8

A doutrina majoritária afirma que a Lei de Licitações apresenta tanto normas


gerais, quanto não gerais 7.
O ordenamento jurídico brasileiro que trata sobre licitações e contratos se
parece muito com uma “colcha de retalhos”, pois apresenta um emaranhado de
normas, compostas por leis, decretos, instruções normativas, portarias e demais atos
com caráter normativo, inclusive com diplomas contraditórios que dificultam a
interpretação e aplicação da norma ao caso concreto. 8
Um outro ponto problemático e que dificulta a aplicação da norma, é o fato do
Brasil ser um país de extensão continental. A República Federativa do Brasil também
é um país municipalista, com 5568 (cinco mil, quinhentos e sessenta e oito) municípios,
além do Distrito Estadual de Fernando de Noronha, o Distrito Federal e os 26 (vinte e
seis) estados.
Do montante total de municípios do país, quase metade tem até 10 mil
habitantes, representando 44,8% 9. São 3.861 (três mil, oitocentos e sessenta e um)
municípios com até 20 mil habitantes, representando 69,34%. Serra da Saudade em
Minas Gerais é o menor município do Brasil com menos de 900 habitantes e São
Paulo é o maior município com mais de 11 milhões de habitantes. Diante de tamanha
disparidade entre os municípios, o desafio é hercúleo para aplicação da lei em sua
literalidade de maneira invariável 10, sendo potencializado se a comparação ocorrer
em relação a outros entes federados.
A própria Lei 14.133 de 1o de Abril de 2021 apresenta em seu artigo 176 a
possibilidade de municípios com até 20 mil habitantes cumprirem alguns requisitos de
lei no prazo de 6 (seis) anos após a publicação da legislação, revelando a

7
A Lei 8.666 veicula normas gerais e normas não gerais (especiais) sobre licitações e contratos
administrativos. As normas gerais são aquelas que vinculam a todos os entes federativos, enquanto as
normas especiais são aquelas de observância obrigatória apenas no âmbito da União. JUSTEN FILHO,
Marçal. Comentários à lei de licitações e contratos administrativos, 14 ed. p. 14.
8
De mais a mais, os diplomas normativos sobre licitação pública são muito mal concebidos e redigidos.
A Lei 8.666/93, principal diploma normativo sobre licitação pública, é o maior sintoma da
incompetência técnica do legislativo, que prescreve normas contraditórias, desconexas, que não
preservam caráter sistêmico e cujo teor enseja toda sorte de dubiedades. Enfim, a legislação sobre
licitação pública é péssima e dificulta sobremaneira a atuação dos seus intérpretes, especialmente dos
agentes administrativos. NIEBUHR. Joel de Menezes. Licitação pública e contrato administrativo. 4 ed.
rev. e ampl. Belo Horizonte: Fórum, 2015, p. 67
9
[Link]
2010-a-2022-populacao-brasileira-cresce-6-5-e-chega-a-203-1-milhoes. Acesso em 20 de Setembro de
2023.
10
Sobre considerar as peculiaridades de cada pessoa jurídica, para fins de legislar em matérias
específicas, a doutrina pátria entende que: (...) é absurdo uma legislação única de licitações, tanto para
um pequeno Município do interior quanto para a União, ou para a Capital de São Paulo. Sendo a
licitação matéria de direito administrativo, deve ela ser disciplinada pela legislação de cada pessoa
jurídica de capacidade política, de acordo com suas peculiaridades. DALLARI, Adilson Abreu. Aspectos
jurídicos da licitação. 7a ed., São Paulo: Saraiva, 2006, p. 24.
9

preocupação do legislador com o real e pleno atendimento dos requisitos impostos


pela norma.
Tamanha a relevância municipalista, que durante a XXIV Marcha a Brasília em
Defesa dos Municípios que ocorreu entre os dias 27 a 30 de março de 2023 e foi
capitaneada pela Confederação Nacional dos Municípios, houve uma grande
mobilização visando alterar a redação da Lei 14.133 de 1o de Abril de 2021 em razão de
inexistir segurança jurídica, tampouco estrutura administrativa adequada para aplicar
a nova lei de licitações 11. Pleito este que foi acatado pela Presidência da República e
revelou tamanha sensibilidade ao prorrogar a vigência das legislações tradicionais
8.666/93, 10.520/02 e 12.462/2011 através Medida Provisória 1.167 de 31 de Março de
2023.
A Medida Provisória acabou caducando e não foi convertida em Lei no prazo
previsto na Constituição Federal, porém a publicação da Lei Complementar 198 de 28
de Junho de 2023 manteve a vigência das legislações tradicionais prorrogadas até
dezembro de 2023.
A contratação pública deve ser compreendida por sua função instrumental e
voltado para uma visão finalística e de resultados, não afastando as devidas
formalidades legais. Uma visão linear-cartesiana tem se mostrado perniciosa,
devendo ser afastada, principalmente por se tratar de Administração Pública.
Vale ressaltar que adaptar as normas ou expedir normativos no âmbito de sua
competência não significa inovar, introduzindo novos requisitos, além dos já
contemplados na legislação pátria. O objeto é definir e padronizar procedimentos
administrativos para facilitar a tramitação do processo, diante das estruturas e
peculiaridades de cada ente.
Legislação municipal não pode criar novas exigências de habilitação,
tampouco hipóteses de contratação direta 12, além daquelas previstas em lei.

11
Segundo a Exposição de Motivos (EM) que acompanha a MPV, a Confederação Nacional dos
Municípios (CNM) e a Frente Nacional de Prefeitos (FNP) formularam pleito no sentido de estender o
período de transição inicialmente fixado na Lei no 14.133, de 2021, alegando entre outras coisas, que: (i)
apenas 30% dos Municípios já aplicaram a nova lei; (ii) menos de 1/3 dos Municípios possui servidor
nomeado como agente de contratação [exigência da nova Lei]; (iii) menos de 45% já possuem
regulamentações da lei; (iv) mais de 65% entendem necessária uma prorrogação de prazo. Assim,
segundo a EM, os entes federados não se sentiriam seguros nem detentores da estrutura administrativa
necessária para dar cabo de modo pleno dos ditames da Lei no 14.133, de 1o de abril de 2021.
[Link] Acesso em 20 de
Setembro de 2023
12
Nem se alegue que a dispensa decorreu de lei municipal. Isso porque a competência para editar
normas gerais de licitação, aí incluídas as hipóteses de dispensa e inexigibilidade, é privativa da União,
operando como legisladora nacional e, por isso mesmo, suas normas não podem ser contrariadas por
legislação local. Vale dizer, a lei municipal criou, indevidamente, nova hipótese de dispensa de
licitação, invadindo esfera de competência da União. (TJSP. Apelação com Revisão 994090091949 –
8933595400, 3a. Câmara de Direito Público Rel. Magalhães Coelho. Julg. 24.11.09)
10

A existência de regulamento local auxiliará a tomada de decisões diante das


normas abstratas previstas na legislação, reduzindo controvérsias e conflitos de
interpretação do ordenamento legal.
A Nova Lei de Licitações demandará a expedição de inúmeros regulamentos,
em especial dos municípios, para que consiga ter sua aplicação de forma efetiva.
O art. 30 da LINDB tem por objetivo garantir estabilidade jurídica e reduzir
desníveis na complexa arte de interpretar, afastando de uma vez por todas, a lógica
dedutiva da atividade interpretativa. Para isso, necessário que tais instrumentos não
contemplem expressões com ambiguidade e imprecisão, de modo a embaraçar a
instrução dos processos licitatórios em âmbito municipal.
O exercício das prerrogativas constitucionais para legislar sobre normas não
gerais é fundamental para que não ocorra o atendimento meramente formal de
comandos burocráticos disfuncionais.
Cabe ressaltar, que o grande objetivo de eventual norma especial é agregar
segurança jurídica e eficiência na confecção dos processos licitatórios, diante da
realidade municipal e/ou estadual e das complexas demandas da
contemporaneidade, ainda mais nessa fase de transição de leis sobre contratações
públicas, que impactam o funcionamento de toda a sociedade.

4. A RESPONSABILIZAÇÃO PESSOAL DO AGENTE PÚBLICO – SEGREGAÇÃO DE


FUNÇÕES
O art. 28 da LINDB expressa que o agente público responderá pessoalmente
por suas decisões ou opiniões técnicas em caso de dolo ou erro grosseiro.
Analisando a norma, cabe destacar a incidência dos princípios da segregação
de funções e individualização da conduta, em virtude da responsabilidade pessoal do
agente.
No tocante a responsabilidade pela condução de uma licitação, inúmeros são
os agentes envolvidos no processo administrativo, porém, o fato do pregoeiro ser o
protagonista e conduzir a sessão pública de disputa na modalidade pregão, torna-o
alvo principal de controle, embora os poderes para representar o órgão e assinar o
contrato seja da autoridade competente.
A autoridade competente é a responsável pela licitação, de modo que uma
regulamentação definindo com exatidão as atribuições se revela imprescindível,
cabendo a delegação para outro agente administrativo a prática de alguns atos, sem
que isso exima a mesma, da responsabilidade por aprovar o procedimento.
O pregoeiro possui toda a responsabilidade de conduzir a fase externa da
licitação e pelo fato de agregar muitas competências, necessário que seja um agente
devidamente capacitado e com facilidade de comunicação, não cabendo recusa pela
atribuição designada.
11

Ocorre que o pregoeiro pode ser auxiliado por uma equipe de apoio, que tem
por objetivo prestar a necessária assistência na condução do certame, sob orientação
e supervisão do próprio pregoeiro, sem qualquer poder decisório.
Por conta disso, membros de equipe de apoio não devem ser responsabilizados,
visto que exercem papel de coadjuvante nos certames, possuindo atribuições diversas
dos membros de comissão permanente de licitação que decidem em conjunto,
admitindo excepcionalmente a responsabilidade se comprovado que induziram o
pregoeiro ao erro.
Acontece que em um pregão, existem vários outros agentes que não estão
expressos na legislação e que exercem papeis fundamentais dentro do processo
administrativo, cujas responsabilidades são tão importantes quanto a do próprio
pregoeiro para o êxito da licitação. O pregoeiro possui de certa forma, facilidade na
condução de seu trabalho, posto que suas atribuições deverão estar estabelecidas em
regulamento, nos termos do § 3º do art. 8o da lei 14.133/21 e durante o exercício de
suas funções, pauta suas condutas em um instrumento convocatório, que foi
previamente aprovado por assessoria jurídica e mediante julgamento objetivo, vincula
seus atos aos exatos termos fixados em edital.
Os demais atores de uma licitação também não possuem atribuições definidas
em lei, cabendo a regulamentação para definição das funções e individualização de
conduta. Na fase interna, existem agentes responsáveis por definir o objeto licitatório,
os quantitativos a serem licitados, a estimativa de preços, inclusive para fins de
contrapartida, os requisitos de habilitação, em especial aqueles inerentes a
habilitação técnica ou econômico financeira, estipular os prazos e locais de execução,
designar os fiscais de contratos, elaborar parecer jurídico e contábil, encaminhar
avisos para publicação oficial, elaborar o edital e tantos outros.
Dessa forma, vícios procedimentais inerentes a etapa de planejamento, não
devem ser imputados ao pregoeiro ou equipe de apoio, exceto se tiverem tais
atribuições ou participado diretamente na fase interna.
Em âmbito federal, o Decreto Federal 11.246/2022 regulamenta o disposto no §
3º do art. 8º da Lei nº 14.133, de 1º de abril de 2021, para dispor sobre as regras para a
atuação do agente de contratação e da equipe de apoio, o funcionamento da
comissão de contratação no âmbito da administração pública federal direta,
autárquica e fundacional.
Tal regulamento, nos termos do art. 187 da Lei 14.133/21 poderá ser aplicado
pelos Estados, Distrito Federal e Municípios, porém, com as devidas cautelas. Ideal é
que Municípios e Estados promovam suas regulamentações de acordo com as
peculiaridades de cada ente, visto a enorme diferença com as estruturas federais e a
inaplicabilidade dos regulamentos federais para as demais esferas.
12

Acontece que nos municípios de menor porte, é comum que um mesmo agente
público, assuma diversas atribuições, exercendo inúmeras funções dentre de um
mesmo processo licitatório, principalmente por conta da limitação do quadro de
pessoal. Nestes casos, justificativos racionais, harmonia entre os princípios da
razoabilidade e proporcionalidade, além de bom senso na análise do caso concreto
são fundamentais.
Em um pregão presencial realizado por um município no interior do Estado do
Paraná, o Ministério Público de Contas do Estado do Paraná 13, protocolou
representação em face do pregoeiro, procuradores jurídicos e prefeito municipal, em
virtude de suposto sobrepreço em alguns itens que compunham o objeto.
A propósito, não constitui incumbência do pregoeiro realizar pesquisas de
preços para balizarem o valor da contratação, sendo que suas funções são inerentes
aos atos praticados durante o certame, ou seja, abertura, condução e encerramento
da sessão pública, com o julgamento das propostas, fase de lances e documentos de
habilitação dos licitantes.
Segundo as lições de Jair Eduardo Santana 14 o pregoeiro possui papel e
responsabilidades bem definidas.
Bem antes da atualização da LINDB, a jurisprudência do TCU 15 já caminhava
para a individualização de conduta e segregação de funções, afastando a
responsabilidade do pregoeiro em atos que não eram inerentes a sua função.
O Acórdão 415/2013 TCU Plenário, reforça a necessidade da segregação de
funções nos setores que desempenham as atribuições inerentes às licitações e
contratos, de forma a minimizar a possibilidade de desvios e fraudes.
O processo licitatório é dividido em várias etapas, que vai desde a fase interna,
inerente ao planejamento, passando pela fase externa que é a sessão pública que
define o vencedor do certame, até a terceira etapa que retrata a execução do objeto.

13
Processo 272673/18 TCE/PR
14
Os papéis do pregoeiro e da autoridade superior estão bem delineados na Lei nº 10.520/02.
Mencionada legislação define os papéis de um ou de outro ator, inexistindo dúvida, por exemplo, que
as atribuições relativas à realização do certame, à necessidade do objeto e à própria homologação
sejam da autoridade superior. Por outro lado, é também inconteste que a condução da sessão de
pregão, a decisão quanto à habilitação e o acolhimento de recursos, por exemplo, sejam atribuições do
pregoeiro. No que tange à elaboração do edital, não foi diferente a solução normativa. A Lei nº
10.520/02 não atribui esta tarefa ao pregoeiro, deixando a atribuição à autoridade superior, na etapa
interna. SANTANA, Jair Eduardo. Pregão Presencial e Eletrônico: manual de implantação,
operacionalização e controle. 2. ed., rev. e atual. Belo Horizonte: Fórum, 2008, pp. 131 a 183.
15
A atribuição, ao pregoeiro, da responsabilidade pela elaboração do edital cumulativamente às
atribuições de sua estrita competência afronta o princípio da segregação de funções adequado à
condução do pregão, inclusive o eletrônico, e não encontra respaldo nos normativos legais que regem
o procedimento. TCU – Acórdão 3381/2013 – Plenário.
13

Neste horizonte, o pregoeiro não tem qualquer participação na etapa de


planejamento ou execução do objeto, visto que suas atribuições se limitam a fase
externa de condução do certame.
Sobre o tema, a Primeira Câmara do Tribunal de Contas da União se
posicionou no Acórdão 4227/2017, no sentido de que solicitação de compra efetuada
por comissão de licitação infringe o princípio de segregação de funções, que requer
que a pessoa responsável pela solicitação não participe da condução do processo
licitatório.
Quanto à competência para definir o objeto licitação, o órgão de contas
entende que ela não faz parte da atribuição do pregoeiro e nem da comissão de
licitação. Essa é a deliberação contida no Acórdão nº 687/2007- Plenário do TCU.
Falta de segregação de funções do pregoeiro em sua atuação múltipla de
solicitar o serviço/licitação, elaborar o termo de referência, estimar os preços e
elaborar o edital, contrária à jurisprudência desta Corte. Acórdão 2908/2016 TCU
Plenário.
Ainda sobre o tema, a segregação de funções, princípio básico de controle
interno que consiste na separação de atribuições ou responsabilidades entre
diferentes pessoas, deve possibilitar o controle das etapas do processo de pregão por
setores distintos e impedir que a mesma pessoa seja responsável por mais de uma
atividade sensível ao mesmo tempo.
A Nova Lei de Licitações apresenta a segregação de funções como princípio, e
veda no §1o do artigo 7o a designação do mesmo agente público para atuação
simultânea em funções mais suscetíveis a riscos.
Por seu turno, o art. 28 da LINDB além de tratar da responsabilidade pessoal do
agente, indica que ela ocorrerá nos casos de decisões ou opiniões técnicas que
apresentem dolo ou erro grosseiro.
Em recente decisão, o TCU através do Acórdão 185/2019 do Plenário, entendeu
como erro grosseiro, nos termos do art. 28 da LINDB, o pagamento antecipado por
não ter sido apresentada qualquer justificativa. Embora, em situações excepcionais
seja admitida a antecipação de pagamento, no caso analisado, o pagamento
antecipado violou as regras do edital e da minuta de contrato, os quais estabeleciam
a realização do pagamento em até trinta dias depois do recebimento do produto.
A maior dificuldade recai sobre a terminologia erro grosseiro, que apresenta um
conceito jurídico indeterminado, vago e impreciso, em total descompasso com o
propósito da própria Lei 13.655/2018, que é agregar segurança jurídica.
O erro grosseiro pode ser compreendido como a inobservância de premissas
básicas de cuidado no trato da coisa pública. O desleixo, a incúria e o descuido
caracterizam o erro grosseiro. É válido ressaltar que nem todo erro é grosseiro e que
14

apenas a análise ao caso concreto indicará o afastamento de eventual


responsabilidade ao agente público.
Dessa forma, a aproximação dos Órgãos de Controle, através de um diálogo
propositivo com os poderes executivo e legislativo municipal pode contribuir de
maneira significativa para minimizar conflitos de interpretação e aumentar a
qualidade e eficiência dos serviços públicos ofertados. 16
A participação popular 17 também se mostra fundamental para o controle social
dos gastos públicos, ao passo que os Tribunais de Contas 18 possuem autorização
constitucional para avaliar e controlar as ações dos jurisdicionados.
Com isso, importante que o interesse público e a motivação dos atos pautem as
decisões administrativas, posto que o maior receio de um agente público é sofrer o
ajuizamento de uma ação civil pública de improbidade administrativa, em razão da
gravidade das sanções previstas em lei.
Acontece que por meio de interpretação draconiana da Lei 8.429/92, estão
sendo criados “ilícitos hermenêuticos, de interpretação e de opinião” que devem ser
rechaçados do ordenamento jurídico brasileiro, por violarem diretamente o estado
democrático de direito e a atual redação da LINDB.
É notório o papel fundamental que o Ministério Público detém na fiscalização
da lei, com relevante participação no controle dos gastos públicos, entretanto,
conforme lições de Adilson Abreu Dallari 19, a Lei de Improbidade Administrativa vem

16
Mantendo a linha propositiva, (...) de que é fundamental a aproximação não judicial do MP com os
Poderes Executivo e Legislativo no intuito de melhorar as políticas públicas. (...) Mesmo as medidas não
judiciais são frequentemente utilizadas pelo MP de forma intimidatória, para futuros fins judiciais, e não
para a construção dialógica de caminhos para a melhora dos serviços ofertados ao cidadão pelo
Estado. BLIACHERIENE, Ana Carla. Controle da eficiência do gasto orçamentário. Belo Horizonte:
Fórum, 2016, p. 206.
17
A transparência e a participação popular na gestão fiscal têm formação idealizada e inspirada no
accountability, devendo servir para um controle de resultados e de adequação dos meios utilizados
para o cumprimento da política fiscal, sem descurar do controle sobre o uso inadequado da
discricionariedade. MILESKI, Helio Saul. O controle da Gestão Pública. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais. 2003, p. 153
18
(...) os Tribunais de Contas contam com expressa autorização constitucional para avaliar a
conveniência e oportunidade da escolha administrativa, adentrando no seu mérito, pois somente assim,
poderá apreciar o seu resultado. Com o controle operacional, o Tribunal de Contas avaliará o que for
ou teria sido mais idôneo, mais conveniente e mais oportuno para uma melhor atividade
administrativa. BARBOSA, Raíssa Maria Rezende de Deus. Os Tribunais de Contas e a moralidade
administrativa. Belo Horizonte: Fórum, 2010, p. 110.
19
A Lei de Improbidade também apresenta aspectos negativos, por ter um efeito inibidor da atividade
administrativa, pois a simples imputação de improbidade, a um agente honesto e correto, já acarreta
danos irreparáveis, por sua conotação infamante e pela violência das medidas cautelares.(...) Pondera-
se, entretanto, que, em alguns casos, o problema não está na lei em si mesma, mas em sua má
aplicação. Algumas ações são totalmente injustificáveis, baseadas em preconceitos e suposições ou
com objetos claramente insignificantes, servindo mais para perseguições e demonstrações
inconcebíveis de poder. O Ré reconhece e louva o inegável mérito do Ministério Público e a
indispensabilidade de sua atuação, mas não deixa de criticar casos decorrentes de corporativismo e de
vinganças pessoais (...)Em tais casos, o problema não está no descuido, na negligência, na falta de
15

gerando efeitos contrários ao propósito da Lei, por conta de ações infundadas


propostas pelo Ministério Público.
Não é possível aceitar na hodiernidade, o ajuizamento de ações tão danosas
para as partes e dispendiosas a Justiça, pelo simples fato do Ministério Público não
concordar com o enquadramento legal realizado pelo agente público no ato da
contratação. Chega a ser teratológico a propositura deste tipo de ação que acaba
por banalizar a importância da Lei de Improbidade Administrativa, cujos
ajuizamentos acontecem em larga escala em processos que envolvem contratações
públicas municipais.
Embora o Ministério Público possua instrumentos extrajudiciais de controle da
Administração Pública, sua atuação vem sendo marcada por impulsionar e
desencadear o controle jurisdicional. Sobre o tema, Maria Sylvia Zanella Di Pietro 20
também assevera que o Judiciário vem sendo sobrecarregado inutilmente pelo
Ministério Público, mesmo diante da inexistência de comprovação de dolo ou má-fé
do agente público.
Joel de Menezes Niebuhr 21 é enfático quanto a interposição de ações
apressadas e baseadas em interpretação pessoal, sem apontar qualquer elemento
que demonstre ilícito na contratação.

empenho para examinar as circunstâncias de cada caso concreto. Tal comportamento lastimável
decorre da absoluta inimputabilidade dos membros do MP, que se arvoram em titulares atuais do
imperial Poder Moderador, incompatível com a República, pois poder sem responsabilidade é
tirania.(...) DALLARI. Adilson Abreu. Prefácio da obra Lei de Improbidade Administrativa: comentários à
Lei 8.429/92. Marcelo Harger. São Paulo: Atlas, 2015.
20
Mesmo quando algum ato ilegal seja praticado, é preciso verificar se houve culpa ou dolo, se houve
um mínimo de má-fé que revele realmente a presença de um comportamento desonesto. A quantidade
de leis, decretos, medidas provisórias, regulamentos, portarias torna praticamente impossível a
aplicação do velho princípio de que todos conhecem a lei. Além disso, algumas normas admitem
diferentes interpretações e são aplicadas por servidores públicos estranhos à área jurídica. Por isso
mesmo, a aplicação da Lei de Improbidade exige bom senso, pesquisa da intenção do agente, sob
pena de sobrecarregar-se inutilmente o Judiciário com questões irrelevantes, que podem ser
adequadamente resolvidas na própria esfera administrativa. A própria severidade das sanções
previstas na Constituição está a demonstrar que o objetivo foi o de punir infrações que tenham um
mínimo de gravidade, por apresentarem consequências danosas ao patrimônio público (em sentido
amplo), ou propiciarem benefícios indevidos para o agente ou terceiros. A aplicação das medidas
previstas na lei exige observância do princípio da razoabilidade, sob o seu aspecto de
proporcionalidade entre meios e fins. DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 30 ed.
rev., atual. e ampl. – Rio de Janeiro, Forense, 2017. p 1024
21
E a crítica vai mais longe. É lamentável que, a despeito de divergências que possam ocorrer sobre a
matéria, muitos casos sejam apressadamente criminalizados ou produzam ações de improbidade
administrativa, dado que ambas deveriam ser excepcionais, dependentes do elemento subjetivo
externado no dolo, na intenção desonesta. (...) Daí que, posteriormente, o Ministério Público discorda da
avaliação da Administração e, apenas por isto, sem qualquer elemento ou indício que denote relação
espúria entre o advogado contratado e os agentes administrativos, sem nada que enriquecimento
ilícito ou a obtenção de vantagens indevidas pelos agentes administrativos, oferece denúncia crime e
propõe ação de improbidade administrativa. Ora, a má interpretação da legislação autoriza a
anulação do ato e apenas isto. A responsabilização dos agentes administrativos é subjetiva e, para
estes casos de crime e de improbidade administrativa, depende do dolo ou da intenção desonesta,
16

Para Mauro Roberto Gomes de Mattos 22, muitas ações não possuem substância
de sustentação, tratando-se de ações natimortas.
O Poder Judiciário também exerce um controle, posto que faz nascer a coisa
julgada. 23
A própria atuação do Poder Judiciário e dos Órgãos de Controle vêm gerando
uma paralisia da máquina estatal, com a concessão indiscriminada de liminares que
muitas vezes suspendem os certames licitatórios por longos prazos, dada a
morosidade do trâmite processual, para correção de eventuais inconsistências ou
vícios formais nos editais ou procedimentos adotados. Porém, não se observa a
mesma atuação na fase de execução contratual, ao fito de garantir eficiência e
qualidade no gasto público.
Rodrigo Pironti 24 afirma que o controle de processos em vez dos resultados
conduz a ineficiência.
A doutrina 25 já identificou essa prática, em que a fase de execução contratual é
deixada para segundo plano.

algo que não costuma ficar caracterizado. A falta de sensibilidade em relação a tais aspectos acuam
os agentes administrativos e marginalizam a advocacia. NIEBUHR, Joel de Menezes. Licitação Pública
e Contrato Administrativo 4 ed. rev. e ampl – Belo Horizonte: Fórum, 2015. p. 117-118.
22
Na prática, com uma atuação viril, o Ministério Público vem multiplicando o ingresso de ações civis
públicas, aí abrangidas as ações de improbidade administrativa, muitas delas sem substância de
sustentação, levando Rogério Lauria Tucci, com apoio em Kazuo Watanabe, a identificar que elas
representam “autêntica panacéia geral para toda e qualquer situação”: (...) Assim, nasce o abuso de
direito do Ministério Público, quando propõe ações natimortas, em que inexiste o ato de improbidade
administrativa, sendo improcedente por falta de tipicidade da conduta do agente público ou até
mesmo pela inadequação da via eleita (§8º do art. 17 da Lei nº 8.429/92) MATTOS. O limite da
improbidade administrativa: o direito dos administrados dentro da Lei n. 8.429/92. 3. ed., p. 699.
23
“(...) o Poder Judiciário é que detém o monopólio da interpretação e aplicação final do sistema de
normas em que esse direito consiste. É a definitiva âncora de cognição e aplicabilidade vinculativa do
Direito, como uma espécie de luz no fim do túnel das nossas mais acirradas e até odiendas
confrontações (derramamento de bílis não combina com produção de neurônios). É o Poder que não
pode jamais perder a confiança da coletividade, sob pena de esgarçar o próprio tecido da coesão
nacional. (...)”(AYRES BRITTO, Carlos. Discurso de Posse na Presidência do STF. 19 abr. 2012. Disponível
em: [Link] Acesso em 02
mar.2019.
24
Em uma primeira análise, no modelo idealizado de Nova Gestão Pública, há a concepção de que a
burocracia tradicional é ineficaz porque seus controles estão centrados nos recursos e não nos
resultados, é dizer, nessa concepção, controlar os processos em vez dos resultados conduz à
ineficiência e, nesse sentido, o modelo do mercado deveria sobrepor-se ao modelo de Administração
Pública atual (que muito embora tratado pela teoria da Nova Gestão Pública como burocrático,
entendemos como esquizofrênico) e, portanto, deve ser igualado a este. CASTRO, Rodrigo Pironti
Aguirre de. Ensaio avançado de controle interno: profissionalização e responsividade. 1a. reimpressão.
Belo Horizonte: Fórum, 2016. p. 129.
25
De maneira geral, existe uma cultura na Administração Pública de se preocupar muito com o
processo licitatório e deixar para segundo plano a gestão dos contratos. É quando ouvimos com
frequência a seguinte expressão, após homologado o processo licitatório pela autoridade competente:
“Graças a Deus, estamos livres desse processo!”.
17

Planejamento e organização são fundamentais para uma gestão eficiente.


Eficiência que possui contornos constitucionais e que se impõe a todo agente público
de realizar suas atribuições com presteza, perfeição e rendimento funcional,
culminando em uma contratação administrativa que realmente atinja o interesse
público, ou seja, que tenha sido bem planejada e executada com qualidade e
economia de recursos.
Segundo Maria Sylvia Zanella Di Pietro 26 o princípio da eficiência exige da
Administração os melhores resultados na prestação do serviço público.
Os princípios licitatórios são de suma importância para a Administração
Pública, pois consubstanciam a base para a boa aplicação dos recursos públicos.
Estão elencados no art. 37 da Constituição Federal, bem como no art. 5o. da Lei
14.133/21. Para Edgar Guimarães 27 os princípios direcionam o trabalho hermenêutico.
Nas lições de Celso Antônio Bandeira de Mello 28 violar um princípio é mais
gravoso que transgredir uma norma.
Sobre a eficiência estatal, o ilustre jurista Emerson Gabardo 29 assevera que
estamos diante de uma crise de eficiência do Estado Social.

Será que essa premissa é verdadeira, ou será que a partir desse momento, em que se inicia a execução
do contrato, é que a Administração deverá acompanha-lo para saber se a contratada está cumprindo
com o que foi pactuado? Essa cultura talvez seja pela insuficiente legislação acerca do assunto, não
definindo claramente as atribuições do gestor/fiscal do contrato. Na prática, muitas vezes, a
orientação dada ao gestor restringe-se ao “atesto” da prestação do serviço no documento fiscal
apresentado pela empresa, de forma simplória. Pelo que se percebe, alguns fiscais, na qualidade
também de gestores, acabam por atestar esses documentos, que representam a comprovação da
realização do serviço, entretanto, a conferência da documentação relativa ao acompanhamento
contratual não é feita. VIEIRA, Antonieta Pereira et al. Gestão de contratos de terceirização na
Administração Pública: teoria e prática. 6 ed. rev. ampl. Belo Horizonte: Fórum, 2015. p. 315.
26
apresenta dois aspectos: pode ser considerado em relação ao modo de atuação de agente público,
do qual se espera o melhor desempenho possível de suas atribuições, para lograr os melhores
resultados; e em relação ao modo de organizar, estruturar, disciplinar a Administração Pública,
também com o mesmo objetivo de alcançar os melhores resultados na prestação do serviço público. DI
PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2002, p. 83.
27
Os princípios funcionam como uma linha vetor direcional do trabalho hermenêutico. Vale destacar
que nenhuma ação administrativa poderá ser sustentada quando em conflito com qualquer dos
princípios norteadores da Administração Pública. GUIMARÃES, Edgar. Responsabilidade da
Administração Pública pelo desfazimento da licitação. Belo Horizonte: Fórum, 2013, p. 103.
28
Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma. A desatenção ao princípio
implica ofensa, não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de
comandos. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade, conforme o escalão do
princípio atingido, porque representa insurgência contra todo o sistema, subversão de seus valores
fundamentais, contumélia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra. Isto
porque, com ofendê-lo, abatem-se as vigas que o sustêm e alui-se toda a estrutura nele esforçada.
MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Discricionariedade administrativa e controle judicial. Revista de
Direito Público, v. 7, n 32, p. 18-30, nov./dez. 1974. p. 18.
29
A crise de eficiência do Estado Social está posta, mas, diferentemente do que se vem cogitando, ela
não implica uma incompatibilidade entre Estado Eficiente e Estado Social. O entendimento contrário
conduziria a um sério problema constitucional, pois certamente não é possível que se admita uma
18

É necessário racionalidade nas decisões, para que a eficiência administrativa


seja alcançada. A governança dever ser priorizada, fortalecendo os sistemas de
controle interno nas organizações públicas.
Por fim, com a segregação de funções e a individualização de condutas, é
possível que o ato subsequente seja verificado por servidor diferente do que realizou,
permitindo a identificação e consequente responsabilidade pessoal do agente infrator
nos termos da LINDB.
Já no tocante ao dolo e o erro grosseiro, este último exige um empenho maior
do intérprete para que eventual responsabilização não seja indevida, desvirtuando os
propósitos da lei.
Em resumo, com a correta aplicação da LINDB ocorrerá uma sofisticação no
controle, com ganhos na eficiência e melhoria na gestão dos recursos públicos,
afastando atos de ingerência, favorecimento e fragilidade administrativa nas
contratações públicas municipais, em especial nos pregões.

5. CONCLUSÃO
A Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro não possui apenas um
destinatário. Ela deve ser direcionada aos gestores públicos, aos controladores e ao
judiciário, para que as interpretações sejam contextualizadas, afastando extremismos
despropositados na aplicação da norma.
A segurança jurídica deve pautar as ações de qualquer agente público,
principalmente nas compras governamentais, que ganham relevância em âmbito
municipal, por conta da diversidade estrutural e de aparelhamento entre os
municípios brasileiros.
Dessa forma, necessário uma análise sistêmica dos dispositivos legais, em
especial os arts. 22, 28 e 30 da LINDB, de modo que assegure ao agente público a
possibilidade de promover seus regulamentos internos, de acordo com os obstáculos e
dificuldades reais encontrados, para que seja possível segregar as funções e
individualizar as condutas, agregando segurança jurídica no trato da coisa pública.

república democrática ineficiente, notadamente no Brasil, após a Constituição Federal de 1998.


GABARDO, Emerson. Interesse público e subsidiariedade. Belo Horizonte: Fórum, 2009, p. 162.
19

REFERÊNCIAS
AYRES BRITTO, Carlos. Discurso de Posse na Presidência do STF. 19 abr. 2012.
Disponível em:
[Link]
Acesso em 02 mar.2019.

BARBOSA, Raíssa Maria Rezende de Deus. Os Tribunais de Contas e a moralidade


administrativa. Belo Horizonte: Fórum, 2010.

BLIACHERIENE, Ana Carla. Controle da eficiência do gasto orçamentário. Belo


Horizonte: Fórum, 2016.

CASTRO, Rodrigo Pironti Aguirre de. Ensaio avançado de controle interno:


profissionalização e responsividade. 1a. reimpressão. Belo Horizonte: Fórum, 2016.

DALLARI. Adilson Abreu. Prefácio da obra Lei de Improbidade Administrativa:


comentários à Lei 8.429/92. Marcelo Harger. São Paulo: Atlas, 2015.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2002.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 30 ed. rev., atual. e ampl. –
Rio de Janeiro, Forense, 2017.

FURTADO, Lucas Rocha. Curso de licitações e contratos administrativos: teoria,


prática e jurisprudência – São Paulo: Atlas, 2001.

GABARDO, Emerson. Interesse público e subsidiariedade. Belo Horizonte: Fórum,


2009.

GUIMARÃES, Edgar. Responsabilidade da Administração Pública pelo desfazimento


da licitação. Belo Horizonte: Fórum, 2013.

JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à lei de licitações e contratos administrativos, 14


ed. 2012.

MATTOS. Mauro Roberto Gomes de. O limite da improbidade administrativa: o direito


dos administrados dentro da Lei n. 8.429/92. 3. Ed, 2006.

MEIRELLES, Hely Lopes. Direito administrativo brasileiro. 18 ed. São Paulo: Malheiros,
1993.

MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Discricionariedade administrativa e controle


judicial. Revista de Direito Público, v. 7, n 32, p. 18-30, nov./dez. 1974.
20

MILESKI, Helio Saul. O controle da Gestão Pública. São Paulo: Editora Revista dos
Tribunais. 2003.

NIEBUHR. Joel de Menezes. Licitação pública e contrato administrativo. 4 ed. rev. e


ampl. Belo Horizonte: Fórum, 2015.

NIEBUHR. Joel de Menezes. Pregão Presencial e Eletrônico. 5 ed. rev., atual. e ampl.
Curitiba: Zênite, 2008.

SANTANA, Jair Eduardo. Pregão Presencial e Eletrônico: manual de implantação,


operacionalização e controle. 2. ed., rev. e atual. Belo Horizonte: Fórum, 2008.

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