Pirirí Pororó’s
Ato 1
CENA 1
há um banco no meio do palco, com um poste ao lado.
1968 Entra Helena olhando para os lados, atenta, com seu livro em mãos. Pode-se ver
Jonas, fumando um cigarro encostado no poste.
HELENA (senta-se no banco) - Boa noite
JONAS (solta fumaça em silencio)
HELENA – A rua está vazia né?
HELENA - Está me escutando?
JONAS - Fala em código menina, alguém pode ouvir. - (solta fumaça)
HELENA - Ah, beleza. Mil desculpa Jona...
JONAS (interrompe em tosses) - Código - (e continua a tossir) HELENA
(levanta-se preocupada) - Você está bem? (bate nas costas)
JONAS (parando de tossir imediatamente) - Só entrega a droga do livro!
HELENA (entrega o livro confusa) - Você acha que vai dar para alguém perceber
alguma coisa?
JONAS (Folheia) - Se eu acho? Não tem nada nas entrelinhas, está tudo óbvio,
espero que de pra eu esconder na edição. Quer uma publicação anônima?
HELENA – NÃO. Quero dizer, deixa em algum lugar aí, Muda a forma que ta escrito,
na verdade. Ah esquece dá isso aí Jo... (tenta pegar o livro)
JONAS (interrompe e esquiva) - FALA em código...
HELENA (se corrige) - Senhor...
JONAS (guarda o livro) - Eu mexo nisso daqui, vou ver se consigo levar isso numa
publicadora sem ninguém censurar, mas não garanto nada, seja mais sutil na próxima
vez. Boa noite.
Jonas se direciona até a saída do palco, até que nota Helena lhe seguindo, e olha
para ela incrédulo.
1
HELENA - É que... eu... moro... pra lá... entende?
JONAS - Vai por outro caminho né.
HELENA - Mas...
JONNAS - (olha para Helena como se lhe expulsasse)
Helena vira-se em direção ao outro lado, até que nota que Jonas já foi.
HELENA - Eu que não vou andar um quarteirão a mais (fala seguindo para a mesma
direção que Jonas).
Fim da CENA 1.
CENA 2
Palco vazio “rua”
JONAS – Pelo que parece você não vai mudar de ideia... ok, só fala baixo.
HELENA – Claro que eu vou, você sabe o quão sorrateira eu sou Jonas
JONAS – TENTA não falar meu nome...
HELENA – Você é muito paranoico, só por que trabalha com o governo acha que no
segundo que te virem com uma estudante e não fazendo seu trabalho vão te balear
por traição ou algo do tipo...
JONAS – É a realidade Helena, Costa e Silva assumiu, o AI 5 saiu, eu sei que você é
ruim de política, mas você tem que pelo menos saber o quão sério isso é!
HELENA – Não tem como ser tão ruim, e eu não sou ruim em política!
JONAS – Seu livro fala ao contrário...
HELENA – Maaas... você vai consertar né?
JONAS – Sim, infelizmente eu vou...
HELENA – Para de drama, eu sei que você por dentro gosta de tudo isso,
secretamente aprovando livros que deviam ser censurados
JONAS – E você ADORA se beneficiar com isso, você sabe que eu acabei de pegar
esse emprego de revisão, ainda me desconfiam.
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HELENA – Bom, mas você consegue Jonas, eu acredito em você.
JONAS – Claro que você acredita...
Ambos entram na cortina, fim de cena.
CENA 3
Duas pessoas estão falando baixo no canto do palco.
JOAO - Mas desde que passaram o AI-4 qualquer coisa o executivo consegue mudar,
eu ouvi dizer que houve um sindicato que foi completamente desformado no momento
que juntou mais de 4 pessoas, não dá para confiar. Pra gente estudante é fogo.
VITOR - E agora com o 5 estamos lascados, enquanto o Silva estiver no poder não
tem como continuar.
Helena entra na cena, eles olham com medo.
JOÃO - É só a Helena, beleza, tu viu que saiu o AI-5?
HELENA - Que?
VITOR - Ato institucional 5...
HELENA - Ah , dane-se os atos, esses conservador é tudo não-evoluído.
Ambos olham um para o outro.
JOÃO – Papo furado de nazi em...
VITOR – Mas você não fez um livro crítico? O Jonas conseguiu publicar ele?
HELENA - É, mas ele teve que apagar umas partes, disse que estava muito “óbvio”
sabe? Mas o meu nome está lá, isso que importa! Pelo menos estou fazendo alguma
diferença.
JOAO - Cuidado Helena, principalmente agora você não pode bobear, eu sei que o
Estado tá difícil, mas você precisa jogar os jogos deles, senão você vai ser presa
qualquer dia.
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HELENA - Eu sei, mas estar contra não é só o suficiente? Deixa as discussões de
política com vocês, mas eu não preciso disso não. Quer dizer, eles não vão entender a
forma que ele escre- (se corrige rapidamente) EU... escrevo... no caso...
JOAO - Não sei... só te acho muito vaga as vezes...
HELENA - Vaga? Vaga?!
VICTOR - É que tipo, tu meio que não da argumentos, só meio que não gosta mais
não tem motivo sabe? Você estuda sobre filósofos, você é esperta nisso, você só não
relaciona nada, eu não sei.
HELENA – Mas tipo, é que eu não gosto de teoria. Eu... (Helena começa a gaguejar
enquanto tenta se defender) quer saber de uma coisa? Eu não preciso dar satisfação
nenhuma do que eu gosto ou não para vocês!
JOAO – Olha, não era para você se sentir ofendida.
HELENA – Pois é, mas eu achei MUITO ofensivo joao.
VICTOR - É que... é importante você estudar sobre tudo, não dá pra você se revoltar
contra algo que você não conhece.
HELENA - É que... , Esquece Gente! vou para casa, ta juntando uns alunos estranhos
em volta, vamos sair antes que eles avisem alguém.
Os dois personagens saem conversando enquanto Helena vai para o outro lado, até
que Jonas aparece da mesma direção para onde Helena na estava indo.
JONAS (pega no braço de helena levando para o banco) – Helena, Helena, Helena.
Vem aqui que deu muito problema (senta-se no banco com ela).
HELENA – O que? Aconteceu alguma coisa?
JONAS – Aconteceu muita coisa. Eu estava levando o livro para (olha para os
arredores e começa a falar mais baixo) a editora né, e então o meu chefe chegou e
foi dar uma olhada, no livro, eu tentei enrolar ele, mas...
Tudo “pausa” e aparece Sérgio, enquanto Jonas vai em direção a ele, Helena
permanece estática, como se fosse uma memória
SÉRGIO – Boa tarde Penha.
JONAS – B-boa tarde senhor. (bate continência)
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SÉRGIO – Mais UM livro pra revisão? JONAS
– Não senhor. (fala firmemente) SÉRGIO – É
isso é um...?
JONAS – Um livro senhor (fala firmemente)
SÉRGIO – Você está lendo-o?
JONAS – Não senhor (fala firmemente) SÉRGIO
– Posso revisá-lo?
JONAS – Não senhor (fala firmemente)
SÉRGIO – Jonas, Jonas, a quantidade de infrações suas neste departamento é
imensa, qualquer deslize você para na cadeia. eu gosto de você Jonas, não quer
perder todo seu trabalho certo?
JONAS – Não senhor...
SÉRGIO – Então (pega o livro), me dê isso, e volte revisar os livros que te dei.
JONAS – Sim senhor...
Sérgio sai de cena com o livro e Jonas volta ao seu lugar, continuando seu raciocínio.
JONAS – Aí não deu.
HELENA – Espera, você está me dizendo que vão vir atrás de mim?!
JONAS – Por rebelião, sim. Eu te falei para não colocar seu nome!
HELENA – MEUS PAIS VÃO ME MATAR, NÃO, O DOP VAI ME MATAR, EU TENHO
QUE-
JONAS (a interrompe) – FALA baixo. (respira profundamente) Eu sei que é algo
assustador, mas vai por mim, o pior a se fazer agora é gritar, eles não vão te matar, o
pior que podem fazer é te exilar, então faz assim, ou você se despede dos seus pais e
foge do país, algo que eu acredito que seja impossível de fazer, ou você faz algum
discurso incrível em praça pública pra causar algum tipo de revolução igual acontece
em filmes, aí todo mundo grita, joga o chapéu e você é pega ou protegida daí-
HELENA (pigarreia olhando séria)
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JONAS – Desculpa, eu estou muito tenso também em relação a isso, mas o melhor a
se fazer é falar com seus pais, ou fazer alguma loucura antes de ser exilada. Eu te
falei pra você não colocar o seu nome.
HELENA – Tudo bem, mas que tal você parar de repetir isso hein?! Eu....eu.... só
queria ser conhecida sabe?! Mas acho que foi tudo por água abaixo.......
JONAS – Não, para vai, não é assim, olha, eu prometo que vou fazer de tudo pra te
ajudar, você pode escrever de lá e eu te ajudo a publicar suas coisas do lado de fora.
Aí você pode ser reconhecida depois que você morrer. (fala em tom de conforto)
HELENA (olha para Jonas) – Eu vou ir falar com meus pais (Helena sai com pressa)
JONAS (gritando) – EU PROMETO CONSEGUIR TE FAZER FAMOSA DEPOIS DA
MORTE!!! EU VOU TE TIRAR DESSE LUGAR
HELENA – PARA DE FALAR ISSO! (Segura o choro)
Fim da CENA 3
CENA 4
Valmir(pai), Vânia(mãe) e Teresa(vó) estão em casa, Valmir e Vânia estão
sentados no sofá, ambos lendo uma edição de um jornal, já Teresa está
sentada a uma cadeira no canto, olhando para cima pensando. (caso seja
possível, o casal pode estar vendo uma novela da época, e Teresa lendo o
jornal)
VÂNIA – Ai meu Deus.
VALMIR – O que?!
VÂNIA – Ele traiu ela VALMIR
– Quem?!
VÂNIA – O Odair, safado!
VALMIR (se da conta de que ela fala da novela) – AAAAH... (Volta a ler o jornal e
da uma olhadinha pra TV) Ela supera.
TERESA – Que???
VALMIR – É que...
TERESA (interrompe) – O que???
VÂNIA – A Helena ta demorando né?
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VALMIR – Você sabe como é né, estudantes e essa mania de ficar lendo, e querendo
mudar o futuro. Não sei pra que, pra mim tinha que continuar assim mesmo.
TERESA – CESTO?
VALMIR – NÃO É COM VOCÊ NÃO MÃE!
TERESA – AH TA.
Helena chega correndo e da um forte abraço em sua mãe.
HELENA – Mãe, me desculpa
VÂNIA - Melhor se desculpar mesmo! Isso é horário de voltar Helena?!
HELENA - Não mãe você não entende...
VÂNIA - Entendo sim! Você acha que é jovem e pode sair por ai vagabundeando por
ai e os seus pais não vão perceber, acha que pode fazer o que você quiser agora
que ta na faculdade?
HELENA - Mãe ME ESCUTA! (abaixa o tom de voz) por favor... eu... tinha escrito um
livro, você lembra né?
VÂNIA - Sim, era sobre história né? Da sua faculdade?
HELENA – Sim, é que... ele não era da faculdade, eu queria escrever algo falando da
história do brasil, e criar umas analogias pro governo sabe...?
Teresa e Valmir, previamente ignorando a conversa, param o que estão fazendo e
olham para Helena.
VALMIR – HELENA!
HELENA – Desculpa! Eu dei para um amigo que conheço no governo, pra ele dar um
jeitinho sabe? Mas eles leram, e... eu coloquei meu nome.
VALMIR – eu não acredito... EU NÃO ACREDITO NISSO HELENA VÂNIA -
VALMIR! Filha, como você fez isso! Você tem problema na cabeça?
HELENA - Não tem como concordar com esse povo né mãe!?
VALMIR – Esse povo?! Filha o tanto de coisa boa acontecendo e você é um desses
que ficam quebrando as coisas aí, sempre te achei preguiçosa, mas nunca te achei
vagabunda!
VÂNIA - VALMIR!! Filha, calma a gente está aqui, vai ficar tudo bem, o que você vai
fazer? Você vai ser presa? Exilada?
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HELENA – Eu estou pensando em sair daqui, falar pra todos que vou passar umas
“férias” e só voltar quando a poeira abaixar, mas não sei o que fazer depois mãe! E
minhas coisas? Meus amigos?
VÂNIA - Esquece isso filha, eu vou pegar nossa reserva de dinheiro, deve dar pra uma
passagem de avião pra outro pais, talvez se você for rápido o suficiente ninguém vai
perceber.
Vânia sai de cena temporariamente, Valmir está olhando para cima batendo a perna
de ansiedade.
TERESA – Helena... vem aqui
HELENA (chegando perto) - Sim vó?
TERESA – Leva essa pulseira, representa um divino, leva ela com você, ela pode dar
sorte para você como deu para mim.
VALMIR – Essas coisas de novo não mãe...
VÂNIA (voltando á cena com um envelope na mão) - Aqui! É o suficiente para um
voo internacional no Congonhas, tem um pouco também para onde é que você pousar.
Eu sei que é repentino, mas é o mais seguro
HELENA – E minhas coisas mãe?
VÂNIA - Não temos tempo para isso filha, vai! Depois a gente se fala
HELENA – Obrig... Obrigada mãe, eu estou indo
Helena sai de cena.
Fim de CENA 4
CENA 5
O poste usado na cena 1 no meio da cena, duas pessoas estão do lado do poste,
ambos de braço cruzado sem falar entre si, Helena entra na cena olhando para ambos
os lados e aparentando preocupada.
Helena cruza o palco lentamente, o momento em que Helena passa pelos guardas ao
meio do palco eles a seguem, um de cada lado seu, após poucos segundos cada um
pega um braço de helena e põe atrás das costas dela.
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HELENA – O que?! Quem são vocês
GUARDA (CUNHA) – Helena Soares da Silva, por violação da paz publica, você está
sobre investigação, acompanha-nos
HELENA - O que?! Eu... eu... o que que eu fiz?
GUARDA (SANTOS)- Não possuímos a obrigação de te contar isso
Trocam de direção, voltando para o lado do palco de onde Helena veio
HELENA – Por favor! Eu não fiz nada eu juro, perguntem... perguntem aos meus pais!
Sou estudante, só estudo! Não faço nada de errado!
CUNHA – Só nos acompanhe Helena, não faça isso ser pior do que seria.
Os três entrem na coxia enquanto Helena pede socorro.
Helena é jogada ao palco da cortina, e bate na cortina como se estivesse batendo em
uma porta.
Fim da CENA 5
CENA 6
Há Sérgio em sua mesa com uma luminária (centro do palco), há uma cadeira em que
ele está sentado e ele esta se distraindo constantemente apertando o botão de sua
caneta.
Há Sérgio em sua mesa com uma luminária (centro do palco), há uma cadeira em que
ele está sentado e ele está se distraindo constantemente apertando o botão de sua
caneta
Jonas entra em cena andando até a mesa de Sergio, quando chega perto, se arruma.
JONAS – Bom dia senhor!
Sergio rapidamente se arruma e tira um papel, fingindo escrever
SERGIO – Estou ocupado, o que você quer Jonas?
9
JONAS – Então, tem algo em um livro que eu estou revisando, que é meio estranh-
Dois guardas entram em cena rapidamente interrompendo o Jonas
CUNHA – Senhor! Senhor! Chegamos com as notícias sobre a autora daquele livro
que você revisou
SANTOS – Sim, a gente procurou na região onde essa Helena morava e achamos ela
na rua fugindo
SERGIO – Ótimo trabalho! Pode preparar as interrogações, estudante comunista
sempre sabe sobre mais estudante comunista.
JONAS – Pera... Helena? É pseudônimo...
SANTOS – Como você sabe?
JONAS – Não... Não... eh... é que parece sabe? É bem, não sei PODE ser um
pseudônimo.
SERGIO – Jonas você está meio tenso... tudo bem?
JONAS – É que, não é melhor fazer uma pesquisa maior? Ver certinho? O tanto de
livro que parece ser crítico, mas não era... entende?
SERGIO – Não necessariamente. Perigos ao Brasil devem ser eliminados em imediato
JONAS – Então, mas com esses perigos, não é melhor procurar alvos de alto risco...?
Alguém que saiba mais sobre outros alvos... entende? Economiza tempo... recursos...
SERGIO – Não estou entendendo Jonas, você dúvida da minha decisão?
JONAS – NÃO... Não... É que pensando de uma forma lógica, não vale a pena...
SERGIO – Pensando de uma forma lógica, você não deveria defender algum preso,
incluindo o prisioneiro que você visitou ilegalmente
JONAS – Eu...
SERGIO – SEM DESCULPAS. Eu vou mandar o Henrique cuidar de você, espero que
tudo isso seja apenas um mal-entendido, para seu bem, você não quer saber o que
acontece com traidores a pátria certo?
Fim da CENA 6
CENA 7
Luz apagada, sons de chicote.
Helena é jogada no chão, ao meio do palco.
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HELENA (falando baixo) - Alguém... me ajuda
HELENA – Eu não sei escrever, não sei debater, não sei estudar, eu não sei de
NADA!... eu só queria fazer uma diferença, ser reconhecida. E agora estou
aqui, mais inútil que nunca.
Se joga no chão e apaga a luz.
Luz ascende
HELENA – Eu só queria mudar algo, ou ser reconhecida por mudar algo, os
outros são tão espertos, eles sabem de tudo, sabem o que está acontecendo,
sabem o porquê eles lutam, eles fazem uma diferença. O jeito que os todos
olham para alguém assim, é como se eles fossem revolucionários, o jeito que
EU olho para eles assim, é como se eles fossem revolucionários. Eu só queria
isso.
Meu maior desejo é ser reconhecida por alguma mudança revolucionária. Ser
capaz de mudar perspectivas e realidades, ser admirada e ovacionada por tudo
o que fui capaz de fazer. E acima de tudo, saber a motivação real por trás da
minha luta.
As luzes começam a piscar, junto com uma música tensa, ao finalmente
arrebentar a pulseira, aparece Lucas, em meio a fumaça, e quando a música
abaixar, ouve-se uma voz ao fundo.
LUCAS - É tão deplorável te ver assim (Fala em tom sarcástico) Boa noite
docinho (Diz se aproximando pelo ponto cego da personagem)
HELENA- Qu....Quem é? (questiona em voz alto procurando a origem do
som)
LUCAS – Por que choras? (ao cruzarem olhares)
HELENA – AAAH (para de chorar e cai em sí, ao mesmo tempo, cai pra
trás, se arrastando um pouco pra longe) O que é você?
LUCAS – Oh não te assuste pequena. Por que me chamaste?
HELENA - Como assim eu te chamei?!
LUCAS – Isto mesmo minha cara, ou você esqueceu que não deveria fazer
pedidos a noite?
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HELENA – O que, pedidos a noite? Que tipo de história pra boi dormir é essa?
E quem é você?
LUCAS - História pra boi dormir?! Falou a desconhe.......(Interrompe a fala
tossindo). Aliais, desculpa a falta de educação da minha parte, meu nome é...
isso não importa, eu sou um Deus da Noite!
HELENA – Deus da Noite?
LUCAS – Exatamente Helena, um Deus da Noite e eu posso realizar qualquer
pedido seu! Com um preço certo, é claro!
HELENA – Preço?! Você tá me falando que é um magico?
LUCAS – Mais respeito com meu trabalho, eu sou um espírito, que tem a
intenção de ajudar tanto a você, quanto a mim (fala se aproximando da
mesma)
HELENA (tenta se afastar)
LUCAS (se abaixa e pega no rosto de Helena) – O que me diz?
HELENA (batendo na mão de Lucas) – NÃO! Eu fui avisado que gente como
você viria me coagir, tanto pela minha vó, quanto pelo Jonas-
LUCAS (arregala os olhos e se levanta) – Jonas? (força uma voz de choro)
o Jonas, eu tentei interferir, mas eu não podia, ele não permitia que eu
aparecesse, já que tinha aquele colar, e... Eu tentei ajudar, mas infelizmente
(olha pra Helena) ele morreu Helena.
HELENA (arregala seus olhos) – O que?!
LUCAS – Ele que pediu para que eu-
HELENA (Entra em negação) – Não, não, não (e continua a falar em
diferentes entonações)
LUCAS (volta a falar, mais alto que a negação de Helena) – Viesse te ajudar,
seu maior desejo era mudar o mundo, por meio de você, ele queria mais que
tudo, mudar essa situação, e então, eu vim, para te ajudar a cumprir seus
objetivos, e o do seu amigo.
HELENA – NÃO!!! POR QUE EU ACREDITARIA
LUCAS (estende sua mão para levanta-la) – Aperte a minha mão, que eu vou
te mostrar tudo o que eu posso fazer, e como não vale a pena tudo isso, se
matar, e morrer para salvar pessoas que fizeram o que fizeram com Jonas,
pessoas que não merecem o que você e Jonas estão tentando fazer. Eu vou te
mostrar todos que já tentaram fazer algo por esse mundo e então falharam, ou
que o mundo falhou com eles, é só você vir.
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Enquanto Lucas fala Helena Fica indecisa, quase aperta, mas hesita, como se
enlouquecesse.
LUCAS – Vem Helena, aceite tudo isso, pelo Jonas, pela sua família, POR
VOCÊ.
HELENA (aperta a mão) - TA BOM!!!
LUCAS (Da um sorriso) – Muito obrigado Helena (puxa forte, levantando
Helena, que fica ombro a ombro com Lucas) Obrigado por me ajudar.
ambos saem de cena.
Fim da CENA 7
CENA 8
Casa da Helena, A mãe está no telefone, o pai está no sofá e a vó na cadeira,
todos estão preocupados.
VÂNIA (No telefone) - Como assim ela não passou pelo aeroporto?! Certeza?
Vê nos voos internacionais, poxa até os nacionais! Por favor!
VALDIR – Não adianta Vânia, ela provavelmente foi pega, é isso que acontece
com esses estudantes ai, eu FALEI PARA A GENTE SER MAIS PESADO
NELA.
VÂNIA – Valdir! É a nossa filha, ela cometeu um erro eu sei, mas tenta
entender ela
VALDIR – Vagabunda NÃO É A MINHA FILHA TERESA
– Ela... (todos ficam quietos) Ela está bem...
VALDIR – Como você sabe?
TERESA – O QUE? (Põe a mão na orelha)
VÂNIA – Como você sabe que ela está bem? (Fala preocupada, mas
esperançosa)
TERESA – COMO O FALE DE HAREM?! (Mão na orelha)
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VALDIR – Esquece mãe!
VÂNIA – Por que Helena, onde você está...
Fim da CENA 8.
CENA 9
Pós vida, luz acende, helena entra atordoada com um pequeno grito, Jonas
está sentado no extremo oposto olhando para baixo.
HELENA – Que?!? Que lugar é esse (olha em volta)
Lucas entra em cena calmo andando lentamente.
LUCAS – Ora, eu te disse que te mostraria o que acontece se você lutar por
um mundo melhor
HELENA – Que?!?
LUCAS – Isso é o pós vida Helena! Todas as pessoas que se foram aparecem
aqui, um dia (olha para o homem sentado)
HELENA – Eu te conheço?
JONAS – Bom... conhecia (olha para cima) oi Helena...
HELENA – Jonas? Eu... ainda não consigo acreditar...
JONAS – Nem me vendo assim? Teimosa como sempre, desculpa não poder
te tirar daquele lugar... me descobriram primeiro e.... (olha para o Lucas)
Quem é você?!
LUCAS (ofendido) – QUEM EU SOU?! (pigarreia e começa a se engraecer)
EU... sou um deus da noite! Realizo qualquer pedido que deseja por um
preço... claro... além de-
HELENA (interrompe) - De novo não, ele é uma entidade que vai me ajudar a
ser famosa. Ele está me mostrando o que aconteceria comigo se eu não
aceitar o acordo dele.
JONAS – Mostrar o que acontece? O que acontece com quem?
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Lucas ofendido por ser interrompido pigarreia.
LUCAS – O que acontece com os que lutam para mudar esse mundo,
revolucionários, artistas, até os que não se envolvem, todos morrendo
futilmente por um mundo sem salvação.
JONAS – Futilmente? Você acha que as pessoas lutam por motivo nenhum?
Sem diferença nenhuma?
LUCAS – Claro, quantas revoluções acontecem em nome da liberdade? Mas a
liberdade ainda é uma ilusão. Quantas revoltas aconteceram por causa de
grandes fomes? Mas milhões ainda morrem de fome todos os anos. 20 mil
anos da história da humanidade, e nada mudou. Você acha que sua luta é
diferente
JONAS – Diferente? Não, mas toda luta muda algo, seja a vida de uma
pessoa, mas uma luta nunca é por nada. E Helena, é sério que você quer isso?
Ser famosa por um motivo nenhum? Você acha que tudo o que a gente fez foi
por nada?
HELENA – Assim... se você põe dessa forma claro que eu fico parecendo
egoísta... mas vê do meu ângulo! Eu estava presa, e você que era a única
maneira de eu sair não pode mais me ajudar...
JONAS – E isso dá desculpa para você abandonar tudo por um pacto com
esse demônio ridículo aí?
LUCAS – MAIS RESPEITO (se acalma) Com a minha profissão... sou um deus
da noite...
JONAS – EU NÃO LIGO (abaixa o tom) para o que ou quem você é. Só deixa
a Helena em paz, e fora disso
LUCAS – Eu to começando a questionar o porquê eu te mostrei pra ela (tem
uma lembrança) AH, sim, pra mostrar pra você (se direciona a Helena) o
desespero em que essas pessoas entram só pra mudar algo que nunca muda.
JONAS – HELENA, NÃO ACREDITA NE-
Lucas bate palmas e Jonas não consegue mais falar.
HELENA – JONAS. (vai em direção a Jonas)
LUCAS – Acho que viu o que tinha que ver, Vou te mostrar mais.
15
Lucas bate palmas, luzes apagam.
Fim da CENA 9
CENA 10
Luzes acendem, Helena aparenta confusa, como se estivesse sido tele
portada, Lucas está ao seu lado. Enquanto há um homem sentado numa
poltrona.
LUCAS – Eu vou te mostrar como esse mundo é injusto (Olha ao homem, e
ironiza-o) Olá meu honorável herói, poderia dizer a eu e a esta bela donzela
seu nome?
TIRADENTES – Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como
Tiradentes.
HELENA – Tiradentes? O herói da revolução? Do feriado? Não acredito!
TIRADENTES – Feriado? Não sabia que minha morte seria reconhecida deste
jeito, mas sim! Fui GRANDE parte de uma conspiração contr-
LUCAS – HÁ. HÁ. HÁ. (Risada forçada) Grande parte? Me explica Tiradentes,
você conseguiu mudar Minas?
TIRADENTES – Sim, meus conspiradores mudaram mui-
LUCAS – Você não me entendeu... VOCÊ conseguiu mudar seu estado?
TIRADENTES – Não... é que-
LUCAS – Você vivia em uma época de escravidão, fez algo para mudar isso?
TIRADENTES – Não, mas eu tratava os meus muito bem...
LUCAS – CLARO, claro que você tratava... E no final, você conseguiu fazer
qualquer coisa?
TIRADENTES- Eu... E- Eu, Sim eu...
LUCAS – Responda à pergunta.
TIRADENTES – N...ão...
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LUCAS – E ainda assim, é o portador de um feriado nacional e um dos nomes
mais conhecidos no Brasil. Você vê isso Helena? O quão patético é esse
mundo, um Nada, morto como bode expiatório participando de uma revolução
fútil, feito ídolo.
HELENA – Mas, eu sempre ouvi falar que ele fez tanto
LUCAS – Apenas ficção, criada para glorificar a história de um país sem honra.
Venha Helena, eu vou mostrar Heróis de verdade.
Entra Platão e Aristóteles que estava de canto ouvindo a conversa.
PLATÃO - Mas o que é ser herói?
ARISTÓTELES - Um herói deve ser uma personagem que deve evocar um
sentimento de piedade ou de medo em seu público. Um herói que seus erros
sejam a causa da sua-
Lucas Interrompe os dois.
LUCAS - Calem a boca vocês dois!!!! (diz com raiva e passa no meio dos
dois esbarrando neles)
LUCAS - Vamos, Helena!! (Em tom agressivo)
Ambos saem de cena, e a cena acaba.
Fim da CENA 10
CENA 11
Luz acende, helena e Lucas se encontram na mesma posição de antes, Duas
pessoas estão sentadas no chão juntas.
HELENA – (Confusa) De novo isso? Onde eu estou?
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LUCAS - Ora, está na presença de-
ZUMBI – Você de novo demônio? Já não te falei que você deveria deixar a
gente em paz!
DANDARA – Quem é essa jovem?
HELENA – Eu sou Helena, ele me trouxe aqui para me mostrar revolucionári-
LUCAS – Para mostrá-la o quão fútil é lutar para o bem nesse mundo, contem
sua história para ela! Zumbi e Dandara dos Palmares
DANDARA – Vamo falar com ele vai, aí ele deve deixar a gente em paz...
ZUMBI – Ele nunca deixa... ignora ele, recomendo o mesmo para você jovem.
HELENA – Mas ele quer me ajudar... eu acho.
DANDARA – Você nunca vai achar sabedoria de verdade seguindo uma
pessoa só, apenas vai se tornar essa pessoa.
LUCAS – Silêncio! Eu trouxe a Helena aqui para vocês contarem o quão
deplorável é a atitude de vocês, foram escravizados, fugiram e salvaram
centenas, sendo recompensados por seu heroísmo tendo sua cabeça
empalada em praça pública, como vocês não entendem isso!?
HELENA – Que? Eu nunca ouvi sobre isso, isso é verdade?
ZUMBI – Sim... é verdade-
LUCAS – Exato! Heróis nacionais sem a parte do “reconhecidos”, desprezados
em sua época e séculos depois-
ZUMBI – E você acha que isso importa?! Acha que as pessoas que eu salvei
foi por reconhecimento? Fama? Dinheiro? É patético o quão pouco você
entende (Lucas tenta interromper) de pessoas que você finge entender como
um deus.
LUCAS – Não vou deixar que você fale assi-
DANDARA – E você garota, se quer aprender mesmo de como pessoas
mudam o mundo, foge desse idiota, fale com pessoas que ELE acha que não
são importante-
LUCAS – CHEGA (Palma, todos ficam quietos), você VAI me seguir Helena,
deixe eles ai em sua vida miserável...
HELENA – Eu... Ok...
Lucas e Helena saem de cena. Surgem Aristóteles e Platão da coxia oposta.
18
ARISTÓTELES - O ignorante afirma, o sábio dúvida, o sensato reflete. Mais e
este ser?
PLATÃO- Ele definitivamente bate palma.
Fim de CENA 11
CENA 12
Engels e Marx estão em cena, acima do palco, após eles, Charles, Maria,
Glória e Moisés entram em cena, porém fora do palco. Karl e Engels juntos
começam a discursar, e as pessoas concordam.
MARX – Lutamos na vida! Lutaremos na Morte! Todos aqui foram injustiçados,
injustiçados pois todos foram explorados! Seja VOCÊ (aponta) o escravo,
explorado até o seu último suor, VOCÊ (aponta) o servo, servindo a um tirano
nascido em luxo inimaginável, VOCÊ (aponta) o trabalhador! Ganhando
dezenas vezes menos do que produz.
ENGELS – Precisamos conscientizar, milhões estão aqui no pós vida, parados,
sem saber sobre sua posição ou sobre o como viveram.
Entram Helena e Lucas
ENGELS – Os dois! Venham cá, ouçam um pouco!
Marx dá uma cotovelada em Engels
MARX – Não chame ele!
LUCAS – Friederich Engels e Karl Marx, as duas provas vivas da falha de
qualquer revolução!
HELENA – Marx? Ele é aquele comunista?
Figurantes estão agitados e Marx sussurra algo na orelha de Engels
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LUCAS - Sim, sim, dizem que ele começou o movimento! Foi preso, exilado,
sacrificou tanto para algo que não resultou em nada.
ENGELS – Mas que é isso, chegou só para nos julgar?
LUCAS – Claro! E você Engels? Nascido de família rica, berço de ouro,
abandonou a vida de gerente pra escrever um livro que nem se pode comprar
mais no brasil, que figura!
ENGELS – Que ingenuidade a sua pensar que a minha vida se resume a um
país, há coisas que as pessoas daquele país nunca vão esquecer.
LUCAS – Ah, mil perdões, Quis dizer que sua vida se resume a fracassar com
as suas ideias utópicas, achava que o mundo poderia ser perfeito.
MARX – Garota. Acho que esse bicho não ta ensinando bem a você, não
desista de se revoltar ao que não muda.
LUCAS – Exato Helena (ironizando-o) quem sabe você não acaba igual ele?
Tentando mudar o mundo, e perdendo aquilo que tem. Se foram quatro filhos
né?! Parece que o Jornalismo não deu muito certo. Vivendo com o resto da
herança... Expulso de diversos territórios. E ainda assim não mudou nada.
Engels olha de canto para Lucas enquanto ele bate de frente com Marx, que
por sua vez, se mostra de cabeça erguida.
CHARLES (Trabalhador urbano sex XIX) – Ué, mudou nada? E os direitos
trabalhistas de hoje em dia? Do que esse idiota ta falando?
Plateia concorda
ENGELS – Acho que muitos discordam de você, acha mesmo que não
mudamos nada?
HELENA – Ué, eu concordo com ele nessa, não tem como ter esse
comunismo, é impossível.
MARX – Não entra na conversa garota, nós e esse demônio precisamos ter
uma conversa.
Lucas bate palmas, e Engels e Marx se calam.
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MOISÉS (Escravo, antiguidade) – Fica falando que todo mundo é uma falha,
fracasso, sendo que nunca viveu uma vida humana
MARIA (professora, Medieval) – Anda por aí como se mandasse no lugar...
GLORIA (Moradora de rua moderna)MOISES – A gente devia dar um jeito
nele!
Todos vão a volta de Lucas e começam a discutir, Dandara rapidamente chega
e puxa Helena para dentro da cortina.
LUCAS – (bate palma, todos se jogam para trás e caem) CHEGA!
LUCAS – Helena! Vamos! (nota que não está) Helena? (coloca a mão no
rosto)
Surgem Platão e Aristóteles, ao canto do palco.
ARISTÓTELES – Acredito que não esteja aqui
PLATÂO – Não é porque não a vê, que não está aqui, sentidos enganam.
LUCAS – Já eu, acredito que vocês quem não deviam estar aqui
Apaga a luz e todas as pessoas entram na coxia. Com exceção de Aristóteles e
Platão, que dialogam com a luz apagada, enquanto caminham lentamente.
ARISTÓTELES – Eu te disse, aquela garota vai encontrar a verdade.
PLATÃO – E eu nunca duvidei. Por que não poderia encontrar em meio ao
mundo das ideias?
ARISTÓTELES – Por que me fala como se eu afirmasse que não pode?
PLATÃO – Por que não poderia?
ARISTÓTELES – Porque seus sentidos vão lhe mostrar a sabedoria por trás
dos não reconhecidos. E por que acredita que não deve confiar no que sente?
PLATÃO – Pois seus sentidos mentem, e não mostram aquilo que vai além da
matéria, afinal, aqui ela não está com nada além do mundo das ideias.
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Ambos se olham e começam a sair de cena. Falando mesmo dentro da coxia,
até encerrar o diálogo.
PLATÃO – Sua retórica melhorou
ARISTOTELES – Andei treinando quando você se foi PLATÃO
- E não se preocupa do público não entender?
ARISTOTELES – Que nada, eles são inteligentes.
Ambos estão totalmente fora de cena, e então Platão pergunta.
PLATÃO – Por que acredita nisso?
ARISTÓTELES – Bom, são todos estudantes, e-
LUCAS (INTERROMPE) – De novo isso?!
ARISTÓTELES – Depois continuamos...
Fim da CENA 12
CENA 13
Dandara sai da coxia segurando Helena pela mão, estão várias pessoas
sentadas, Che Guevara está encostado na parede.
HELENA – Pera... que?! Não! Me... (se solta) eu não... eu não estou
entendendo nada... (respirando forte)
DANDARA – Calma menina! Sou eu, Dandara. Respira fundo...
(cuidadosamente coloca a mão no ombro, Helena quase resiste, mas
deixa) Desculpa, pode falar, você ficou muito tempo quieta, ouvindo as
opiniões daquele espírito estúpido...
HELENA – É que... eu fiquei TANTO, tanto, tempo.... só tentando entender.
Porque tanta gente fica dando tudo o que tem para uma religião, movimento
grupo, sei lá! Eu vejo esses ídolos e... tudo o que eles têm, a admiração de
serem revolucionários, vanguarda, diferentes... Eu quero isso, mas... não dá,
eu não consigo ter essa determinação, achava que seguir o espírito da noite ia
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ajudar, ele DISSE que ia ajudar, mas acabei que nem antes, só seguindo os
outros, sem entender nada, sem ser nada... Desculpa Dandara, eu só tinha
que, tirar isso da mente, descarregar.
DANDARA – Não, não... Helena né? (Helena concorda com a cabeça) você
quer conhecer os outros? Sem pessoas para interromper? Você está no lugar
certo, aqui tem todo mundo que aquele cara não quer te mostrar, pode ir
vendo-os, eu vou te deixar ver eles por você mesma.
HELENA – O-obrigado...
DANDARA – Boa sorte garota, espero que você consiga sair de sua
ignorância, espero que um dia você seja como eu era...
Dandara sai de cena.
Che Guevara encostado na parede se desencosta e anda até Helena
CHE GUEVARA – Belíssima conversa a de vocês duas! Assumo que você
deve ser especial, Dandara não começa a ajudar qualquer garota branca em
apuros (ironiza) quem é você?
HELENA – Eu sou Helena, eu vim aqui só pra ouvir algumas pessoas, uuh...
prazer em conhecer... (aperta a mão)
CHE GUEVARA – Prazer é todo meu...(Diz retribuindo o aperto). Aliais, algo
que você disse me deixou intrigado! A quem você procura?
HELENA – Eu não sei ao certo. Acreditava que encontrar os grandes
revolucionários e pensadores iria sanar minhas dúvidas, e me dar rumo para a
minha vida, mais parece que fiquei mais confusa do que no início...
CHE GUEVARA – Agora entendo por que Dandara lhe enviou...
HELENA – Por que me enviou?
CHE GUEVARA – Você deve com certeza estudar as grandes figuras,
entretanto, você não pode esquecer do povo, da fome, da pobreza da miséria
sua volta!
CHE GUEVARA – Quando ainda jovem, eu fiz uma viagem assim como a sua
pela América Latina, algo que mudou minha visão de mundo, me fez enxergar
o que antes eu não via, as pessoas que verdadeiramente sofrem sendo
exploradas para que uma meia dúzia de bilionários filhos da... Cof. Cof. Tenha
do bom e do melhor. Te adianto que tua viagem não haverá flores, mais a luta
constante, onde a Revolta do povo e a união do mesmo é o único caminho...
HELENA – (Helena permanece pensativa)
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CHE GUEVARA – Siga esta trilha, e você encontrará o que procuras.
HELENA – Muito obrigada (Diz se afastando). Aliais, qual é mesmo o teu
nome? (Diz já a distância)
CHE GUEVARA – Meu nome é Ernesto Guevara, mas pode me chamar de
Che Guevara, e boa sorte na sua jornada (Diz erguendo a mão fechada)
Che Guevara sai de cena e logo após, Aristóteles e Platão aparecem em cena.
PLATÃO - Olha, esse daqui acabou no tempo exato antes daquele ser chegar!
ARISTÓTELES - Verdade!
PLATÃO - Mais afinal, o que é tempo? (Ambos saem de cena pensando)
Fim da CENA 13
CENA 14
Helena segue na direção em que Che Guevara sugere, e encontra com Frida
Kahlo, de pé pintando um quadro, Frida se vira para helena.
FRIDA – ¿Qué haces aquí niña?(fala virando-se)
HELENA – Ah, pra ser sincera... Busco me conhecer, acho que é isso. Você é
a... (fala pasma já reconhecendo Frida)
FRIDA – Si, sou eu Frida Kahlo.
HELENA – Aquela do quadro com ferro no lugar na coluna?
FRIDA – Si, si
HELENA – Mas, como você está assim? (fala apontando para as pernas)
FRIDA – Así como?
HELENA – Ué, em pé...
FRIDA – Há cosas que no se podem explicar.
HELENA – E esse quadro?
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FRIDA – Es uno de ellos. Nunca o terminei. (tom triste)
HELENA – Mas você ainda insiste em tentar terminar isso sendo que as
pessoas não serão capazes de vê-lo pronto?
FRIDA – Siempre fiz a arte pensando em Los sentimentos, e não em quantas
pessoas vão vê-la
HELENA – Mas como você vai conseguir lucrar com isso ou ser famosa?
FRIDA – Ah minha jovem, quando se conta sobre si mesmo, muitas pessoas
podem acabar se identificando. Muitas pessoas acabaram se comunicando e
se inspirando com minhas obras, como acha que virei um símbolo para o
movimento feminista? Não precisei mentir ou imaginar coisas, pinto o que sinto
para que pessoas que sintam o mesmo que eu possa se identificar. Falo do
que realmente é importante para mim, luto pelo que eu realmente apoio. Você
escreveu um livro, certo? Você é uma revolucionária?
HELENA – Eu escrevi, mas não sei o que eu escrevi, entende? eu queria
provar meus conhecimentos para os meus conhecidos, e o mundo... que eu era
isso, uma revolucionária, uma intelectual, mas o livro não chegou nem na
publicação.
FRIDA – (leve risada) Não falou e nem citou o nome desse seu livro!
Obviamente você não se orgulha dele e pelo visto, realmente só escreveu por
reconhecimento e talvez dinheiro. A arte verdadeira não é forçada, não é por
fama, é algo seu, não importa quantas pessoas verão, o que importa é o fato
de que você transmitiu a sua essência para o mundo e quem ver sentirá quem
é você, Helena.
HELENA – Mas e se eu souber fazer nada? E se eu escrever o que eu
realmente acho que seria interessante e simplesmente ficar vazio?
FRIDA – Você saberá o que sente. E se escrever sobre seus sentimentos
nunca será algo desinteressante ou vazio. Fale sobre o que sente, seja sincera
consigo mesma e acabará alcançando o autoconhecimento.
HELENA – Mas como posso começar a fazer isso? O que devo fazer?
Entra Platão e Aristóteles no meio da cena
PLATÃO – Seu tempo está acabando
ARISTÓTELES – Mas de qual tempo você está falando? Tem o tempo, tempo e
o tempo....
Platão abre a boca para responder, Frida interrompe.
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FRIDA – Agora não meninos, por favor.
Fim da CENA 14
CENA 15
Moises e Glória estão em cena, sentados em cadeiras, enquanto Maria e
Charles estão no chão.
GLORIA – Vocês têm certeza de que não se importam de ficar ao chão?
Todos concordam e Helena aparece em cena.
GLÓRIA – Bom, é que- (nota Helena) você aqui?
Todos notam Helena e se levantam na defensiva, menos Glória.
HELENA – Calma, calma!
CHARLES – Ele está vindo! Merda, ela ta com ele.
MOISES – Droga, de novo não, porque agora ele está usando pessoas...?!
MARIA – Calma, não se precipitem, nem ouvimos o que ela tem a falar.
CHARLES – Eu sei o que ela tem a falar. Ela vai-
MOISES (interrompe)– Charles, Não tome decisões precipitadas
MARIA – Pessoal, deixem ela falar aquilo que precisa
HELENA – Desculpem por mais cedo. Eu... (fala com a voz embargada) eu
sou a Helena, estou em busca de... de me conhecer eu acho (começa a
chorar) Eu não sei exatamente o que poderia fazer, mas conheci alguns por
aqui. E eu quero conhecer sobre vocês, eu não estou com ele, eu sou só...
uma pessoa... uma pessoa que precisa de rumo, e achei que ele... (segura o
choro) preciso saber sobre as pessoas por quem eu quero lutar. Então...
(começa a falar inadiavelmente em tom de choro)
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GLÓRIA – Ta tudo bem! Ta tudo bem! (fala enquanto vai consolá-la
rapidamente) Eu não consegui entender muito bem, mas pode sentar-se, eu
estava prestes a falar um pouco sobre mim a eles mesmo.
HELENA – Eu... (respira) Eu não sei como agradecer a vocês (fala enquanto
todos se sentam novamente)
MOISES – Não precisa agradecer, senta aí
CHARLES – Me desculpe julgar mal (diz de forma ríspida)
GLÓRIA – Bom, eu... eu morava na rua. Era constantemente ignorada, fui
expulsa da casa dos meus pais depois... Depois de sair do armário, digamos
assim. Eu já não tinha uma estrutura familiar tão boa, e já não tínhamos muito
dinheiro. É difícil não ter moradia sabe? Você não tem dinheiro, já que quanto
mais tempo mora na rua, mais suja e fraca você fica, não tem muita coisa a se
fazer, e não vai aparecer alguém do nada pra te salvar ou algo do tipo, ainda
mais quando as pessoas que você conhecia na escola acabam sumindo da sua
vida com o tempo. Eu sobrevivia de pessoas boas, cada centavo que recebi,
cada marmita que me deram, roupas, abrigo em lojas. Mas também era
invisível para a maioria, hoje eu sei que não são todos ricos, mas pra uma
miserável, todos que tem algo são ricos.
CHARLES – Eu... nunca parei pra pensar sobre as coisas dessa forma, como
você aguentou tudo isso?
MARIA – Tem pessoas que se acostumam a viver em meio ao nada. Mas isso
não torna essa situação menos dolorida.
MOISÉS – Eu acredito que sei o que querem dizer... passei por algumas
coisas... semelhantes.
HELENA – O que?! Como assim?
MOISÉS – Desculpa Glória, eu não queria roubar a atenção
GLÓRIA – Ta tudo bem, a gente ta expondo o que a gente vive, quer sentar
aqui? (levanta-se)
MARIA – Você se sente confortável Moisés?
MOISES – Ta tudo bem (se levanta e vai até a cadeira, enquanto Glória
senta no chão) Tem coisas que precisamos fazer para que as pessoas tenham
o conhecimento necessário para não fazer merda. Bom, como todo o negro,
acreditavam que eu era inferior, então tinha que servir aos meus senhores, tive
que trabalhar muito mais do que qualquer branco, pra comer e ter onde dormir
quando chovia. Me batiam de toda a forma que podiam. Até por que todo
mundo desconta a raiva do dia nas suas coisas né? Então eu sofri tudo o que
tinha direito, teve um dia que eu me soltei e meti a porrada no meu senhor, eu
não aguentava mais aquela merda, eu quase matei ele. Mas no final, o animal
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era eu, engraçado isso (ri por alguns segundos) Acho que no fim, saber que
tinham pessoas como eu, que não aguentavam mais, foi a única coisa de que
eu me orgulhei antes me morrer, eu acreditei que um dia a gente ia ser igual.
CHARLES – O homem é o Lobo do homem, em todos os sentidos.
HELENA – Até hoje ainda existe o racismo. Só os negros que têm um certo
status são respeitados, e por quê?
CHARLES – Não é porque não vê a mudança que ela não acontece. Olha o
quanto melhorou da época dele para a sua.
HELENA – E isso é o suficiente?
MARIA – Nunca é, por isso a gente não para de lutar.
GLÓRIA – Toda pequena ou grande coisa muda Helena.
CHARLES – Da licença Moisés, vou falar um pouco
MOISES – Toda.
Trocam de lugar e Charles começa a falar.
CHARLES – Dizem que aqueles que trabalham são abençoados, que eles
merecem o que compram, sabe o que eu acho? Que somos explorados, por
um sistema qu-
MARIA (interrompe) – Carlos (corrige) quer dizer, CHARLES, eu acho que é
melhor não falar disso agora não (fala olhando para os professores) É um
assunto um tanto delicado.
CHARLES – Ehhh... ok... Bom, eu vivi muito da minha vida, trabalhando por um
salário vazio, que eu precisava pra ter o que comer, e comprar coisas que o
sistema ca- (interrompe e faz um cheirinho com a mão) faziam com que eu
precisasse. Eu tinha, minha mulher, e meus filhos. Bom, eu sei que eu tinha
muito mais que uns, mas eu lutava pelo pouco que eu recebia, e pelo nada que
muitos tinham. Mesmo que não tivesse reconhecimento, eu lutava muito por
tudo aquilo que eu sabia que tinha motivos pelos quais lutar. As lutas de
pequenas pessoas movem o mundo Helena, e tudo o que podemos fazer, é
importante que a gente faça. Eu confrontei pessoas que tinham tudo na mão
para resolver problemas, principalmente relacionados a má alimentação, e não
resolviam. Você entende?
HELENA – Eu entendo, mas, não tem formas de mudar os pensamentos
dessas pessoas?
MARIA – Não.
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GLÓRIA – Adultos não mudam tão fácil assim
MOISÉS – Pessoas, em sua maioria, pensam mais em si mesmo.
HELENA – Mas então, como tudo pode mudar?
MARIA – Pela educação. Com licença (levanta-se e troca com Charles)
CHARLES – Já é a sua vez.
MARIA – Iniciando, o estudo é aquilo que muda vidas, é aquilo que pode mudar
todo o rumo, a busca pelo conhecimento é o fogo que arder no coração das
crianças. Nós não podemos mudar mentes adultas, mas podemos ensinar as
crianças. Por muito tempo da minha vida fui confrontada por homens sobre as
coisas que vivia, se eu sabia tanto quanto eles, só por ser mulher, me viam
como ingênua, mas eu passei por cima de tudo aquilo que falavam sobre mim,
e me esforcei pelo meu sonho de educar, pois a educação não muda a
sociedade sozinha, porém a sociedade não muda sem a educação.
HELENA – Então tem como mudar (se levanta) Então eu já sei o que fazer
para mudar.
MARIA – Senta aqui então! Fale pra nós! (Maria levanta-se)
MOISES – Só falta você Helena.
HELENA – Ta bom, ta bom (senta-se)
Lucas entra em cena, de trás de Helena, fazendo sinais em que todos caem no
chão
LUCAS – Foi difícil te achar Helena
HELENA (levanta-se, tomando distância) – Agora eu sei, você não queria
que eu visse essas pessoas.
LUCAS – Não Helena, você não entendeu, eu não via a necessidade de ver a
essas pessoas.
HELENA – Por quê?
LUCAS – Por que acha que deveria ver? Pessoas em suas vidas vazias, que
não mudaram nada, apenas quatro seres explorados, que acreditam que
mudam algo.
HELENA – Nem tudo é sobre mudar o mundo.
LUCAS – Quando não muda, vocês acham outro motivo né?
HELENA – Não!
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LUCAS – Que coragem garota.
HELENA – Para de me tratar como uma pessoa ingênua, eu não sou!
LUCAS – Claro que não é (ironia), você nunca fez nada para que mudasse
nada, pois sabe que não há o que mudar.
HELENA – Não, pra você não há o que mudar.
LUCAS – O que?
HELENA – Aquilo que você não controla, te assusta.
LUCAS – E aquilo que não conhece te frustra, já que só se importa consigo
mesma.
HELENA – Não mais.
LUCAS – Eu tentei ajudar a você
HELENA – Que pena, pois ajudou errado, me mostrando só a sua visão.
LUCAS – Obvio, porque você é burra o bastante para acreditar que pode
mudar o mundo a partir das pequenas coisas que faz.
HELENA – Eu não preciso mudar o mundo, eu posso ajudar vidas
LUCAS – CHEGA!
Lucas bate palmas e as luzes se apagam
LUCAS – Então volte para a sua cela.
Fim da CENA 15
CENA 16
Acende a luz, com Helena no chão de sua cela, e a voz de Lucas
LUCAS – Por que não está a chorar pequena?
HELENA – Porque agora, eu sei quem eu sou, e o que vou fazer para ajudar as
pessoas.
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Um prato é deixado em cena pela coxia, e alguém diz.
SANTOS – Sua comida.
Helena olha para a plateia e pega a sua comida, como quem aceita o que vive,
e sabe que vai sair de lá, para mudar vidas, com um olhar confiante e
esperançoso
FIM
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