RECONVENÇÃO
1.3.1. CONCEITO
A reconvenção não se confunde com nenhuma das outras espécies de resposta do réu,
sendo compreendida como o exercício do direito de ação do réu dentro do processo em que
primitivamente o autor originário tenha exercido o seu direito de ação. Afirma-se em doutrina que
na reconvenção o réu se afasta da posição passiva, própria da contestação, para assumir uma
posição ativa, pleiteando um bem da vida em pedido dirigido contra o autor da ação originária. Em
razão dessa natureza de ação, é comum afirmar que a reconvenção é um “contra-ataque” do réu,
pelo qual haverá uma inversão dos polos da demanda: o réu se tornará autor (autor-reconvinte) e o
autor se tornará réu (réu-reconvindo).
Com a reconvenção haverá uma ampliação objetiva ulterior do processo, que passará a
contar com duas ações: a originária (indevidamente tratada pelo art. 343, caput, do Novo CPC
como ação principal) e a reconvencional. Não se trata de pluralidade de processos, considerando-
se que o processo continua sendo um só, mas, com o pedido feito pelo réu, passa o processo a
contar com mais uma ação, de natureza reconvencional, o que leva à sua ampliação objetiva
(THEODORO JÚNIOR, 2015; WAMBIER et al, 2016, p. 361).
A reconvenção é uma mera faculdade processual, podendo o réu que deixar de reconvir
ingressar de forma autônoma com a mesma ação que teria ingressado sob a forma de
reconvenção. Não é possível vislumbrar qualquer situação de desvantagem processual ao réu que
deixa de reconvir, situação diametralmente oposta àquele que deixa de contestar, que será
considerado revel. Nesse sentido, afirma-se corretamente que a contestação constitui um ônus do
réu, enquanto a reconvenção constitui tão somente uma faculdade. A própria natureza de ação
dessa espécie de resposta fundamenta sua natureza de mera faculdade processual, não se
podendo admitir que o réu perca o seu direito de ação por uma simples omissão processual. O
prazo para a reconvenção, portanto, é meramente preclusivo, significando que o réu não mais
poderá reconvir após o seu transcurso, mas a via autônoma continuará a existir para o exercício de
seu direito de ação (DINAMARCO, 2017, v. 3, p. 497).
O ingresso de ação autônoma que poderia ter sido manejada sob a forma de
reconvenção, inclusive, pode gerar resultado prático similar ao da propositura dessa espécie de
resposta. Havendo entre essas duas ações autônomas conexão, conforme previsão do art. 55 do
Novo CPC, as mesmas serão reunidas perante o juízo prevento que ficará responsável pelo
julgamento conjunto de ambos os processos (art. 58 do Novo CPC). A única diferença é que com a
reconvenção haverá somente um processo, objetivamente complexo (duas ações), enquanto na
reunião de processos conexos, haverá dois processos, cada qual com uma ação, ainda que
tenham um procedimento conjunto, sendo inclusive decididos por uma mesma sentença (DIDIER
JR, 2016).
1.3.2. CONDIÇÕES DA AÇÃO
Sendo indiscutível a natureza de ação da reconvenção, é preciso registrar que, como em
qualquer outra ação, deverão estar presentes as condições da ação: legitimidade de parte,
interesse de agir e possibilidade jurídica do pedido. A própria natureza da reconvenção traz
consigo a exigência das três tradicionais condições da ação, mas, em razão de sua situação
específica consistente em ser também uma resposta do réu, essas condições da ação têm
interessantes peculiaridades que merecem uma análise particularizada (DINAMARCO, 2017, v. 3,
p. 498).
[Link]. Legitimidade de parte
No tocante à legitimidade de parte – entendida como a relação de pertinência entre o
conflito levado a juízo e os sujeitos que demandarão –, há interessantes questões a serem
resolvidas.
Diferente do art. 315 do CPC/1973, o art. 343 do Novo CPC não traz expressamente a
previsão de que a legitimidade ativa da reconvenção é do réu e que a passiva é do autor da ação
originária. De qualquer forma, essa continua a ser a realidade, havendo uma inversão dos polos
entre autor e réu.
A doutrina de forma uníssona admite a diminuição subjetiva na reconvenção
(DINAMARCO, 2017, v. 3, p. 506-507). Assim, existindo litisconsórcio na ação originária, o mesmo
litisconsórcio não será necessariamente formado na reconvenção, admitindo-se que somente um
dos autores da ação originária figure como réu na reconvenção ou ainda que apenas um dos réus
reconvenha, solitariamente, contra o autor ou autores da ação originária. Vale a lembrança de que
tal liberdade está condicionada à espécie de litisconsórcio verificado na ação originária e de seus
reflexos sobre a ação reconvencional; havendo um litisconsórcio necessário na ação originária que
deva se repetir também na reconvenção, será impossível a reconvenção não envolver todos os
litisconsortes. Essa circunstância, entretanto, não diz respeito à reconvenção, sendo decorrência
natural da espécie de litisconsórcio a ser formado (NEVES, 2016, p. 1087).
Se a diminuição subjetiva na reconvenção parece não encontrar maiores obstáculos, o
mesmo não ocorria com a ampliação, tema consideravelmente controvertido, sob a égide do
CPC/1973. Havia muita controvérsia a respeito da admissibilidade da formação de um litisconsórcio
na reconvenção – ativo ou passivo– com sujeito que não participava do processo até então, ou
seja, sujeito que não figurava como parte na ação originária. É evidente que se manteria a
estrutura básica mínima réu x autor, mas ao lado de um deles – ou mesmo de ambos – seria
formado litisconsórcio com terceiro estranho à demanda até então (DINAMARCO, v. 3, p. 506-507;
e FIGUEIRA JR., 2017, p. 327).
A polêmica é resolvida pelos §§ 3º e 4º do art. 343 do Novo CPC, que passam a prever
expressamente que a reconvenção pode ser proposta contra o autor e um terceiro, e que a
reconvenção pode ser proposta pelo réu em litisconsórcio com terceiro.
Admitida a formação do litisconsórcio na reconvenção, com o ingresso de terceiro na
demanda, aplica-se a regra que permite a limitação do número de litisconsortes sempre que o
número elevado de sujeitos puder comprometer a rápida solução do litígio ou dificultar a defesa.
Trata-se do litisconsórcio multitudinário, previsto pelo art. 113, §§ 1º e 2º, do Novo CPC, que
fundamentará no caso concreto o indeferimento da formação do litisconsórcio desde que
observados os requisitos legais.
Havia na vigência do CPC/1973 uma interessante questão referente à legitimidade de
parte na reconvenção derivava da inadequada redação do art. 315, parágrafo único, do revogado
diploma processual, pela qual não poderia o réu, em seu próprio nome, reconvir ao autor, quando
este demandasse em nome de outrem . A leitura apressada do dispositivo legal poderia levar o
leitor mais desavisado a concluir se tratar de norma referente à representação processual, pois
quem atua em nome de outrem é representante processual. Essa interpretação, entretanto, tornaria
o dispositivo legal absolutamente inútil, considerando-se que o representante não é parte, o que
significa dizer que já não tem legitimidade de agir para a reconvenção.
A doutrina de forma uníssona emprestava utilidade ao artigo legal ao entender tratar-se
de hipótese de substituição processual na ação originária, que deveria obrigatoriamente se repetir
na ação reconvencional. A regra acabava tornando-se simples: exigia-se que os sujeitos tivessem
na reconvenção a mesma qualidade jurídica com que figuravam na ação originária. Se naquela
estavam como substitutos processuais (seja no polo ativo ou passivo), da mesma forma deveriam
figurar na reconvenção. Nas palavras de autorizada doutrina, trata-se do princípio da identidade
bilateral, que não é identidade da pessoa física, mas identidade subjetiva de direito (DIDIER JR,
2016).
Esse entendimento restou consagrado no § 5º do art. 343 do Novo CPC, que prevê que
se o autor for substituto processual, o reconvinte deverá afirmar ser titular de direito em face do
substituído e a reconvenção deverá ser proposta em face do autor, também na qualidade de
substituto processual.
Importante questão é levantada a respeito da legitimidade do curador do réu para
ingressar com reconvenção. Imprescindível para se concluir de forma positiva ou negativa a exata
noção da qualidade jurídica do curador especial, previsto pelo art. 72 do Novo CPC. A doutrina
parece uníssona no sentido de entender que o curador assume no processo uma posição de
representante dos sujeitos descritos pelo artigo legal supramencionado. Essa simples constatação
já demonstra de forma inequívoca a ilegitimidade do curador em ingressar com ação
reconvencional, posto que não é considerado parte no processo e sua eventual legitimidade para
reconvir conflitaria com a regra geral de legitimidade para essa espécie de resposta do réu. Sua
tarefa será, portanto, tão somente reagir à pretensão do autor, jamais ingressar com ação contra
ele (BEDAQUE, et al, 2018, p. 64-65).
[Link]. Interesse de agir
Costuma-se afirmar que o interesse de agir é o somatório de dois fatores: a necessidade
e a adequação (ou utilidade). No tocante à reconvenção, os elementos são mantidos, mas aqui
também existem interessantes particularidades a serem debatidas.
A doutrina parece concordar que a reconvenção só terá alguma serventia prática se o
autor puder obter com ela tutela que não conseguiria com o simples acolhimento de suas
alegações defensivas lançadas em contestação. Nesse sentido também é a jurisprudência a
respeito do tema (Informativo 538/STJ, 4.ª Turma, REsp 1.076.571-SP, Rel. Min. Marco Buzzi, j.
11.03.2014).
A primeira e mais evidente inutilidade da reconvenção ocorre na hipótese em que ela é
utilizada para a arguição de matérias que são na realidade defensivas, próprias da contestação
(reação) e não da reconvenção (ação). Nessa hipótese, ao menos como regra, a reconvenção
deve ser extinta prematuramente por carência de ação do réu-reconvinte. São exemplos a
alegação do réu em reconvenção do pagamento da dívida cobrada ou, ainda, a alegação de
contrato locativo para justificar sua posse do imóvel que lhe é reivindicado. Na excepcional
hipótese de o réu não contestar, somente apresentando reconvenção, haverá interesse em seu
julgamento, não sendo caso de extinção por carência de ação (NEVES, 2016, p. 1090).
Outra hipótese de manifesta inutilidade na utilização da reconvenção se verifica nos casos
em que a própria improcedência já será apta a entregar ao réu o bem da vida em disputa, que seria
exatamente aquilo que estaria perseguindo em sede reconvencional. Se já tem condições de obter
o bem da vida pelo simples acolhimento de sua defesa, que serventia terá a reconvenção? Essa
situação se verifica com clareza nas ações dúplices, nas quais a relação de direito material gera
essa peculiar situação em que a contestação já basta para entregar ao réu o bem da vida debatido.
Exemplo clássico é da ação meramente declaratória. Imagine-se um autor que pretenda em juízo
obter a certeza jurídica a respeito da existência de uma relação jurídica de doação. Contestando o
réu a demanda, alegará que nunca houve a doação alegada, e o acolhimento de tal defesa gerará
a certeza jurídica de que nunca houve a relação de direito material alegada pelo autor, o que
significa dizer que a certeza jurídica – bem da vida em disputa nas ações meramente declaratórias
– será concedida favoravelmente ao réu. De fato, nenhuma utilidade tem a reconvenção pleiteando
a declaração de que a relação jurídica de doação não existiu (DIDIER JR, 2016).
A afirmação de inutilidade da reconvenção nas ações dúplices e de que as ações
meramente declaratórias são dúplices não confronta com o entendimento jurisprudencial
consolidado na Súmula 258 do Supremo Tribunal Federal de que é admissível reconvenção na
ação declaratória. Numa ação meramente declaratória é admissível a reconvenção para que o réu
faça outros pedidos, distintos do objeto original do processo, tal como a condenação do réu ao
cumprimento de uma determinada obrigação.
1.3.3. PRESSUPOSTOS PROCESSUAIS
Tendo a reconvenção natureza jurídica de ação, além do preenchimento das condições
da ação, também pressupostos processuais específicos devem ser preenchidos:
(a) Litispendência: para que exista reconvenção é indispensável que exista a demanda
originária;
(b) Identidade procedimental: considerando-se que a ação originária e a ação
reconvencional seguirão juntas, sendo inclusive decididas por uma mesma sentença, o
procedimento de ambas deve ser o mesmo;
(c) Competência: o juízo da ação originária é absolutamente competente para a ação
reconvencional, de forma que, sendo a competência absoluta dessa ação diferente da ação
originária, será proibido o ingresso de ação reconvencional, devendo a parte ingressar com a ação
autônoma perante o juízo absolutamente competente;
(d) conexão com a ação originária ou com os fundamentos de defesa.
Segundo o caput do art. 343 do Novo CPC, é indispensável à reconvenção a existência
de conexão com a ação principal – originária – ou com os fundamentos de defesa. A conexão com
a ação originária é a prevista no art. 55, caput, do Novo CPC. No tocante à conexão com os
fundamentos de defesa, obriga-se o réu a apresentar contestação com defesa de mérito indireta,
alegando um fato novo impeditivo, extintivo ou modificativo do direito do autor, servindo esse fato
novo como fundamento da defesa e ao mesmo tempo como fundamento do contra-ataque contido
na reconvenção. Naturalmente o cabimento da reconvenção nesse caso é realizado in status
assertionis, de forma a ser irrelevante se a alegação de fato do réu é verdadeira ou não, o que
interessará somente no julgamento de mérito da ação principal e da reconvencional
(Informativo 493/STJ, REsp 1.126.130-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 20.03.2012).
O doutrinador Daniel Amorim Assumpção Neves (2016), elenca que mesmo quando não
haja qualquer das duas espécies de conexão presentes no caso concreto, seja admissível a
reconvenção para se evitar decisões conflitantes ou contraditórias na hipótese em que a pretensão
reconvencional for deduzida em processo autônomo e julgada por outro juiz. Deve-se, portanto,
aplicar por analogia o art. 55, § 3º, do Novo CPC ao cabimento da reconvenção.
1.3.4. PROCEDIMENTO
Tendo natureza jurídica de ação, sob a égide do CPC/1973 a reconvenção devia ser
apresentada por meio de petição inicial autônoma, nos termos dos arts. 282 e 283 do diploma
processual revogado, sendo autuada nos próprios autos principais. Em aplicação do princípio da
instrumentalidade das formas admitia-se que a reconvenção fosse elaborada na mesma peça em
que se contestava a demanda, desde que fosse possível a identificação exata da defesa e do
contra-ataque do réu (DINAMARCO, v. 3, p. 501; e também na jurisprudência STJ, 5.ª Turma,
REsp 549.587/PE, Rel. Min. Felix Fischer, j. 23.03.2004, DJ 10.05.2004).
A reconvenção deixa de ser alegada de forma autônoma no Novo Código de Processo
Civil, passando, nos termos do art. 343, caput, a ser apresentada na própria contestação. A
novidade deve ser saudada porque, ainda que a melhor doutrina já defendesse a possibilidade de
utilização de uma única peça para a contestação e reconvenção, a Corte Especial do Superior
Tribunal de Justiça recentemente havia rejeitado a tese, retrocedendo com relação a
posicionamento anteriormente adotado (STJ, Corte Especial, EREsp 1.284.814/PR, rel. Min.
Napoleão Nunes Maia Filho, j. 18/12/2013, DJe 06/02/2014).
A formalização da reconvenção dentro da contestação deve seguir as diretrizes fixadas
pelo Enunciado n.º 45 do Fórum Permanente dos Processualistas Civis (FPPC): “Para que se
considere proposta a reconvenção, não há necessidade de uso desse nomen iuris, ou dedução de
um capítulo próprio. Contudo, o réu deve manifestar inequivocamente o pedido de tutela
jurisdicional qualitativa ou quantitativamente maior que a simples improcedência da demanda
inicial”.
Apesar de não ter mais uma forma autônoma de alegação, entendo que a reconvenção
não perdeu sua natureza de ação do réu contra o autor, pois o próprio art. 343, caput, do Novo
CPC prevê que a reconvenção se presta para o réu manifestar pretensão própria. Além disso, o
§2.º do dispositivo comentado mantém a sua autonomia, prevendo que a desistência da ação ou a
ocorrência de causa extintiva que impeça o exame de seu mérito não obsta o prosseguimento do
processo quanto à reconvenção.
Como a forma de alegação passou a ser tópico da contestação, o legislador teve o
cuidado de manter, expressamente na lei, o entendimento atualmente consagrado de que a
apresentação de reconvenção independe de contestação. Na vigência do CPC/1973, de
apresentação de duas peças, era entendimento tranquilo, mas, a partir do momento em que a
própria lei passa a dizer que a reconvenção deve ser alegada na contestação, é importante o art.
343, § 6.º, do Novo CPC.
No Novo Código de Processo Civil, portanto, existem duas formas de ingresso de
reconvenção: como tópico da contestação ou de forma autônoma quando o autor não contestar.
Dessa forma, ainda que não exista regra similar àquela prevista no art. 299 do CPC/1973, que
exigia a apresentação concomitante de contestação ou reconvenção, parece que o ingresso da
reconvenção, mesmo que antes do vencimento do prazo de resposta do réu, retira do réu o direito
de contestar posteriormente, ainda que dentro do prazo. Acredito que nesse caso continua a se
operar preclusão mista (consumativa-temporal).
Apresentada a reconvenção, a mesma passa a ser autônoma relativamente à ação
originária, de forma que, se por qualquer razão, a ação originária for extinta sem resolução do
mérito, inclusive a desistência do autor, tal extinção não afetará a reconvenção, que prosseguirá
normalmente (art. 343, § 2º, do Novo CPC). O mesmo ocorre se a reconvenção for
prematuramente extinta, prosseguindo normalmente a ação originária.
Mesmo sem dispositivo legal nesse sentido no CPC/1973, segundo doutrina majoritária,
cabendo julgamento de mérito, o juiz deveria julgar ambas as demandas no mesmo momento
processual, por meio de uma só sentença, objetivamente complexa. A extinção prematura de
qualquer uma das duas demandas, portanto, seria sempre terminativa. Esse entendimento parece
ter sido consagrado no § 2º do art. 343 do Novo CPC, que prevê a extinção prematura da
reconvenção somente em razão da desistência da ação originária ou de causa extintiva que
impeça o exame de seu mérito (DIDIER JR, 2016).
Ainda que não exista previsão nesse sentido, como também não havia no CPC/1973, o
mesmo fenômeno aplica-se à extinção prematura da reconvenção, não tendo sentido postergar-se
uma extinção terminativa quando manifesto o insuperável vício formal. Dessa forma, se o juiz
entender pela intempestividade da reconvenção deverá indeferi-la de plano, dando seguimento ao
processo somente com a ação originária (principal).
Essas decisões que extinguem de forma terminativa e prematuramente a ação principal e
a reconvenção são decisões interlocutórias, restando em aberto a questão de sua recorribilidade
por meio do agravo de instrumento. A hipótese não está prevista expressamente no art. 1.015 do
Novo CPC, o que poderia sugerir sua recorribilidade somente na apelação e contrarrazões desse
recurso. E essa interpretação demonstraria mais um exemplo da péssima opção legislativa de
tornar o cabimento do agravo de instrumento restrito a um rol exauriente.
Entendo, contudo, que seja aplicável à hipótese ora analisada o art. 354, parágrafo único,
do Novo CPC. Ainda que o dispositivo esteja previsto no capítulo referente ao julgamento conforme
o estado do processo, não se pode negar sua incidência a qualquer espécie de diminuição –
objetiva ou subjetiva – da demanda em razão de decisão de natureza terminativa.
Não teria qualquer sentido sistêmico limitar a aplicação do dispositivo legal a apenas um
momento procedimental, conforme pode sugerir sua colocação no capítulo referente ao julgamento
conforme o estado do processo. Na realidade, a recorribilidade por meio do agravo de instrumento
deve ser analisada pelo conteúdo e efeito da decisão e não pelo momento de sua prolação: sendo
terminativa e diminuindo a demanda, será agravável.
Não sendo caso de indeferimento liminar da reconvenção, o autor reconvindo será
intimado, na pessoa de seu advogado, para responder no prazo de 15 dias. A resposta mais
comum certamente será a contestação – e sua ausência gera o efeito da revelia –, mas o art. 343,
§ 1º, do Novo CPC não repetiu o equívoco do art. 316 do CPC/1973, que previa ser o prazo de 15
dias para contestar. Ao prever que o prazo é de resposta facilita a conclusão de que outras
espécies, além da contestação, são possíveis (STJ, 5.ª Turma, REsp 334.922-SE, rel. Min. Felix
Fischer, j. 16.10.2001, DJ 12.11.2001, p. 168. Contra: Dinamarco, Instituições, v. 3, n. 1.103, p.
510).
A reconvenção da reconvenção, apesar de rara, também é admitida, embora parcela da
doutrina entenda que o seu cabimento esteja condicionado às hipóteses de reconvenção com
fundamento na conexão com os fundamentos de defesa. Reconvenções sucessivas poderão ser
inadmitidas no caso concreto com fundamento na economia processual sempre que o juiz entender
que mais uma reconvenção prejudicará significativamente o andamento procedimental. Poderá,
inclusive, utilizar a regra de vedação ao princípio do litisconsórcio multitudinário (art. 113, §§ 1º e
2º, do Novo CPC) para impedir a improvável sucessão de reconvenções. A exceção fica por conta
da ação monitória em razão da injustificável previsão do art. 702, § 6º, do Novo CPC
(DINAMARCO, v. 3, p. 504).
Como o § 4º do art. 343 do Novo CPC admite expressamente a formação de litisconsórcio
passivo na reconvenção entre o réu e terceiro, não há dúvida de serem cabíveis como espécie de
resposta do réu a denunciação da lide e o chamamento ao processo.
Após o momento de resposta do autor reconvindo, o procedimento da ação
reconvencional será o mesmo da ação originária, sendo inclusive ambas as ações julgadas por
uma mesma sentença, apesar de não mais existir regra expressa a esse respeito como existia no
CPC/1973 (art. 318). Trata-se de medida de economia processual e tradicional do julgamento do
pedido contraposto, contra-ataque do réu deduzido na própria contestação.
1.4. CONCLUSÃO
Citado o réu, pode ele reagir à demanda proposta pelo autor. Pois esta reação é chamada
de resposta do réu.
O CPC se vale dessa terminologia, falando em “resposta” ou “resposta do réu” em alguns
dispositivos, que são exemplos os arts. 113, §2°, 248, 335, §2°, 578 e 970. Duas são as respostas
do réu: contestação e reconvenção. Cada uma tem uma diferente função e, por isso, pode o réu
apresentar, dessas duas, as que quiser. Pode ele só contestar, só reconvir (art. 343, §6°), ou
oferecer ambas, caso em que virão elas na mesma peça (art. 343).
A mais importante modalidade de resposta do réu é a contestação. Trata-se da resposta
mais importante por ser através dela que o réu exerce seu direito de defesa. E é na contestação,
então, que o réu apresentará toda a matéria de defesa que tenha para alegar em seu favor (art.
336).
Significa isto dizer que na contestação o réu apresentará defesas processuais e defesas
de mérito, suscitando razões de fato e de direito para impugnar a demanda proposta pelo autor,
devendo ainda, indicar as provas que pretende produzir (art. 336).
O prazo para oferecimento de contestação no procedimento comum é de quinze dias (art.
335, caput), variando o termo inicial conforme o caso.
Correrá prazo para o réu contestar da data da audiência de conciliação ou de mediação,
ou da última sessão de conciliação, quando qualquer parte não comparecer ou, comparecendo,
não houver autocomposição (art. 335, I). Tendo o réu, porém protocolado petição requerendo o
cancelamento da audiência de conciliação ou de mediação, nos termos do art. 334, §4°, I, o prazo
correrá da data do protocolo dessa petição (art. 335, II). Por fim, quando a audiência já não tiver
sido designada (por versar a causa sobre direito que não admite autocomposição ou por ter o
autor, na petição inicial, optado pela sua não realização), o prazo correrá na forma do disposto no
art. 231, conforme a modalidade de citação que tenha sido efetivada (art. 335, III).
Havendo vários réus, a regra é que o prazo seja comum a todos. No caso de terem os
réus, porém, protocolado petição requerendo o cancelamento da audiência de conciliação ou
mediação, o prazo para cada um deles correrá, independentemente, a partir da data do respectivo
protocolo (art. 335, §1°).
Como dito, incumbe ao réu, na contestação, alegar toda a defesa que tenha em seu favor.
Incide, aqui, uma regra conhecida como “principio” da eventualidade. Por Força da regra da
eventualidade, incumbe ao sujeito do processo, neste caso ao réu, apresentar, de uma só vez,
todas as alegações que tenha em seu favor, ainda que contraditórias entre si, sob pena de
preclusão ( ou seja, a perda da possibilidade de alegar posteriormente).
Assim é que ao réu cabe, na contestação, alegar todas as defesas que tenham
relacionadas à regularidade do processo ( suscitando, por exemplo, a falta de alguma “condição da
ação” ou de pressuposto processual) e, também, a defesa de mérito (que será direta quando o réu
admitir o fato constitutivo e lhe opuser outro, impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do
demandante).
A Revelia é um fato processual, o qual pode ser produzir variados efeitos. Pode-se falar
de um efeito material e de dois efeitos processuais da revelia.
O efeito material da revelia é a presunção de veracidade das alegações de fato
formuladas pelo autor (art. 344). Dito de outro modo, caso o réu não conteste, o juiz deverá
presumir que tudo aquilo que o autor tenha alegado na petição inicial a respeito dos fatos da causa
é verdadeiro.
Nos casos em que a revelia gere efeito material, portanto, o autor é beneficiado por uma
presunção legal (relativa) de veracidade de suas alegações sobre os fatos.
Além do efeito material, a revelia pode produzir dois efeitos processuais. O primeiro deles
é o julgamento antecipado do mérito (art. 355, II). Esse efeito só se produz nos casos em que se
tenha também produzido o efeito material da revelia. É que nos casos em que da revelia resulta a
presunção de veracidade das alegações de fatos formulados pelo demandante não é possível
julgar-se desde o logo o mérito da causa, uma vez que sobre o autor recairá o ônus da prova.
Naqueles casos, porém, em que da revelia resulte uma presunção de que as alegações feitas pelo
autor a respeito de fatos são verdadeiras, e não tendo o revel requerido a produção de
contraprovas, estará dispensada a instrução probatória, e nada mais haverá a fazer a não ser
proferir-se dede logo o julgamento do mérito.
O outro efeito processual da revelia, previsto no art. 346, alcança apenas aqueles casos
em que o revel não tenha advogado constituído nos autos. Pois neste caso, os prazos processuais
para o revel correrão, sempre, da data em que seja divulgada notícia dos atos decisórios no diário
oficial.
DA RECONVENÇÃO
Chama-se reconvenção à demanda proposta pelo réu, em face do autor, dentro do
mesmo processo. A reconvenção é um mecanismo que permite a ampliação do objeto do processo
(já que ao juiz caberá, agora, julgar não só a demanda principal, mas também a demanda
reconvencional) ampliando-se deste modo sua eficiência.
A reconvenção deve ser oferecida na mesma peça em que o réu contesta (art. 343),
sendo certo que ao réu é permitido, caso seja de sua conveniência, oferecer apenas a
reconvenção, sem apresentar contestação (art. 343, §6°). Não se exige, porém, para o
oferecimento da reconvenção que este termo seja empregado expressamente, nem elaboração
formal de um capítulo em separado.
Evidentemente, só poderá ser admitida a reconvenção se o juízo da causa principal for
competente para dela conhecer.
É importante deixar claro que admissibilidade da reconvenção exige, a rigor, apenas que
haja, entre a demanda principal e a reconvenção, ou entre esta e a contestação, algum dado em
comum, capaz de justificar a reunião das causas em um só processo para torná-lo mais eficiente.
Embora reunidas no mesmo processo, a demanda principal e a reconvencional são
independentes, motivo pelo qual o fato de não se poder resolver o mérito da causa em relação a
uma delas não é suficiente par impedir a apreciação do mérito da outra (art. 343, §2°).
A reconvenção é definida como uma demanda proposta pelo réu em face do autor. Nada
impede, porém, que haja uma ampliação subjetiva do processo provocada pela reconvenção. É
que nada impede que o réu-reconvinte se litisconsorte com um terceiro para ajuizar a demanda
reconvencional em face do autor-reconvindo (art. 343, § 4).
Do mesmo modo, a reconvenção pode ser proposta de modo a acarretar a instauração de
um listisconsórcio (superveniente) entre o autor-reconvindo e um terceiro (art. 343, §3°).
Oferecida a reconvenção, é preciso – em nome do princípio do contraditório – ouvir o
autor-reconvindo, que terá quinze dias para apresentar resposta (art. 343, §1°). Poderá ele, então,
contestar a reconvenção e, oferecer “reconvenção à reconvenção” (reconventio
reconventionis), apresentando ambas na mesma peça.