UNIVERSIDADE KIMPA VITA
FACULDADE DE DIREITO
TEMA: OS CRIMES NEGLIGENTES NO DIREITO PENAL ANGOLANO
POR: GRUPO Nº 02
ORIENTADO PELO PROFESSOR:
__________________________________
MSc. CRISTÓVÃO WILSON FRANCISCO GERMIAS
TRABALHO PRÁTICO
COM CARACTER COLÉCTIVO
APRESENTADO COMO 1ª PROVA
DE DIREITO PENAL
UIGE, 2024
Tema: os crimes negligentes no direito penal angolano
Sala: 05
3º ano
Periodo: manhã
Trabalho prático
com carácter colectivo
apresentado como 1ª prova
de Direito penal
UIGE 2024
ÍNDICE
INTRODUÇÃO..........................................................................................................................1
1. VISÃO GERAL DOS CRIMES NEGLIGENTES.................................................................2
Definição Legal de Negligência......................................................................................2
Modalidades de Actuação Negligênte.............................................................................2
2. ESTRUTURA DOGMÁTICA DO FACTO NEGLIGENTE.................................................3
O Tipo de Ilicito..............................................................................................................4
O tipo de culpa................................................................................................................4
os graus da culpa negligente...........................................................................................4
3. ELEMENTOS DO TIPO NEGLIGENTE..............................................................................6
Elemento objectivo.........................................................................................................6
Elemento subjectivo........................................................................................................8
4. O TIPO DE ILICITUDE NEGLIGENTE...............................................................................8
VIOLAÇÃO DO DEVER DE CUIDADO E IMPUTAÇÃO OBJECTIVA. CRIMES
NEGLIGENTES DE RESULTADO E DE MERA ACTIVIDADE..........................................9
Critérios concretizados do cuidado devido...................................................................11
5. DE CRIME NEGLIGENTE NO DIREITO PENAL ANGOLANO....................................11
CONCIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................................12
INTRODUÇÃO
No Direito Penal angolano quando se trata de imputar um determinado facto criminoso
ao seu agente faz-se sempre pela imputação subjetiva, ou seja, é necessário que a conduta do
agente seja censurada ou reprovada pelo direito. Procura-se sempre achar no agente uma
determinada culpa, pois, sem ela não há pena, conforme prevê o artigo 42° do Código Penal.
Essa culpa segundo o professor Simas Santos, pode ser directa ou indirecta. Diz-se
directa quando o agente quis ou previu como necessário ou possível o resultado da sua
conduta, ou seja, a culpa directa é quando o agente agiu com dolo nas suas variadas
modalidades (artigo 12° do Código Penal).
Por outra, a culpa indirecta é quando o agente agiu com negligência, seja essa
consciente ou inconsciente (artigo 13° do Código Penal). Quando o facto criminoso ocorreu
por descuido do agente.
Segundo o princípio da culpa, não há pena sem culpa e a culpa decide da medida da
pena.
Tal significa que a sanção criminal só pode fundar-se na constatação de que deve
reprovar-se o autor pela formação da vontade que o conduziu a decidir o facto e que essa
sanção nunca pode ser mais grave do que aquilo que autor mereça segundo a sua
culpabilidade.
Em regra, o Direito penal só pune as condutas dolosas (crimes dolosos), mas nos casos
especialmente previsto na lei pode punir a negligência (artigo 11. ° do Código Penal).
Quais são esses casos?
São vários espalhados no código. Que serão tratados aos pormenores no presente
trabalho. Que se divide em dois títulos. No primeiro título trataremos das noções gerais dos
crimes negligentes e no segundo título de cada tipo criminal onde até a negligência é punível.
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1. VISÃO GERAL DOS CRIMES NEGLIGENTES
É comum a todos os nossos ordenamentos jurídico-penais o princípio segundo o qual
apenas são puníveis os factos cometidos com dolo e só quando a lei penal, especialmente, o
disser, serão igualmente punidos os factos cometidos por negligência.
Em épocas anteriores não se previam mesmo crimes negligentes. O primeiro crime
negligente contemplado foi o homicídio; atualmente há um incremento na punição da
negligência e agrava-se mesma a punição aplicável em determinadas áreas ou sectores de
actividade, nomeadamente quanto às condutas estradais por razões político-criminais bem
evidentes.
Definição Legal de Negligência
Tal como disposto no art.11.º do Código penal, a imputação subjectiva pressupõe que
o acto tenha sido praticado com dolo (art.12.º) ou com negligência (art.13.º), essa última, nos
casos especificamente definidos por lei.
O conceito legal de negligência extrai-se no Artigo 13º. Do Código Penal Angolano,
este preceito começa no seu proémio, por conceber a negligencia de modo unitário, dispõe
que age com negligência quem, por não proceder com o cuidado a que, segundo as
circunstâncias, está obrigado e de que é capaz; (a) representar como possivel a realização de
um facto que preenche um tipo de crime e actuar sem se conformar com aquela realização; (b)
nao chegar sequer a representar a possibilidade de realização desse facto.
Modalidades de Actuação Negligênte
A negligência pode assumir, essencialmente, duas formas:
Negligência consciente: quando o agente chegou a prever a realização do facto ilícito
(embora atuasse por estar convencido que tal evento não teria lugar). Vide alínea a) do Artigo
13º. Do Código Penal Angolano
Poder-se-á perguntar o seguinte: uma vez que o agente só pratica a acção porque está
convencido que o resultado se não produzirá, onde está a sua culpa?
A resposta será a seguinte: estar convencido de que o resultado se não produzirá não é
ter uma razoável certeza de que tal não aconteça. Ou seja, o agente não deixa de saber que há
sempre o risco de que tal aconteça: logo, ao agir, aceita sempre correr tal risco, por pequeno
que este lhe pareça. Além disto, o agente decide praticar a acção porque, levianamente, sob-
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avalia as suas capacidades ou porque, leviana ou precipitadamente, sub-avalia os riscos da sua
acção. Logo não deixa de ter um comportamento censurável.
Exemplo: Um motorista que sabia que o seu carro estava com os freios danificados,
mas mesmo assim decidiu dirigir em alta velocidade sem realizar os devidos reparos. Neste
caso, o agente agiu conscientemente de forma negligente, colocando em risco a segurança de
outras pessoas e cometendo um crime de trânsito.
Negligência inconsciente: o agente não chegou a prever a possibilidade de verificação
do evento ilícito (embora devesse e pudesse tê-la previsto). Daqui decorre, desde logo, que a
previsibilidade de verificação do facto ilícito constitui um primeiro requisito para que o
agente possa ser punido a título negligente. Se a verificação objectiva do facto, incluindo o
resultado, não era a previsível a sua punição sempre redundaria em violação do princípio da
culpa, a que aludimos, por redundar em responsabilização objectiva do agente. Vide a alínea
b) do artigo 13 do CP.
Exemplo: um agente dirigindo cansado após um longo dia de trabalho e, sem
perceber, ultrapassando um sinal vermelho e causando um acidente de trânsito. Nesse caso, a
pessoa agiu de forma negligente por não ter percebido suas próprias limitações devido ao
cansaço, o que resultou em consequências graveis.
Além dessas modalidades supracitadas existem outras modalidades de actuação
negligente, tal como afirma GERMANO MARQUES DA SILVA²²³, o CP 86, que
vigorou até 10 de fevereiro de 2021, distinguia varias modalidades: a
imperícia, a inconsideração, a falta de destreza ou a inobservância de
regulamentos.
- A impericia e a falta de destreza consistem na inaptidão técnica,
na ausência de conhecimento ou de capacidade de execução para a
prática de um acto ou omissão de prudência que se faziam necessária; - A
inconsideração é, grosso modo, sinônimo de imprudência, consistindo no
agir ou omitir sem as cautelas necessárias.
2. ESTRUTURA DOGMÁTICA DO FACTO NEGLIGENTE
A estrutura dogmática do facto negligente exprime-se assim, segundo a opinião
doutrinal hoje largamente maioritária e que, como se sublinhou, é legalmente imposta pelo
teor do artigo 13º, pela forma seguinte.
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O Tipo de Ilícito
O tipo de ilícito do facto negligente considera-se preenchido por um comportamento
sempre que este discrepa daquele que era devido em uma situação de perigo para bens
jurídico-penalmente relevantes, paea deste modo se evitar uma violação juridicamente
proibida. O tipo de ilícito do facto negligente não deixa assim, em caso algum, integrar-se
completamente pela mera causação de um resultado ([Link]., no caso de homicídio negligente
do art.152.º, pela morte de outra pessoa causada pela conduta do agente). Para além disso
torna-se indispensável que tenha ocorrido a violação, por parte do agente, de um dever de
cuidado que sobre ele impende e que conduziu a produção do resultado típico: e,
consequentemente, que o resultado fosse previsível e evitável para o homem prudente, dotado
das capacidades que detém o “homem médio” pertencente a categoria intelectual e social e ao
círculo de vida do agente.
O tipo de culpa
Somente quando o tipo de ilicito negligente se encontra preenchido pela conduta tem
então sentido indagar ainda se o mandato geral de cuidado e previsão podia também ter sido
cumprido pelo agente concreto, de acordo com as suas capacidades individuais, a sua
inteligência e a sua formação, a sua experiência de vida e a sua posição social. Toda esta
indagação ultrapassa já o nível do tipo de ilícito e situa-se no (e conforma o) tipo do facto
negligente.
Os graus da culpa negligente
Por vezes, pensa-se que a negligência consciente é mais consumável (mais culposa)
que a negligência inconsciente. Os factores que levam a uma tal entendimento são dois: por
um lado, a negligência consciente ao contrário da negligência inconsciente, o agente
representa no momento em que decide praticar a acção, a possibilidade de a sua conduta
puder vir a causar um resultado jurídico-penalmente desvalioso, isto é, tem uma consciência
psicológica, actual dos riscos da sua acção; um segundo factor é a circunstância, no plano
intelectual de representação do risco a negligência consciente ao contrário da inconsciente,
estar a próxima ou mesmo ser idêntica ao dolo eventual. E, precisamente, por causa do
elemento intelectual ser comum é que a doutrina se tem esforçado por delimitar a fronteira
entre as figuras do dolo eventual e a da negligência consciente. Isto faz induzir na ideia de que
a negligência consciente é mais consumável que a inconsciente.
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Este possível entendimento é compreensível quando nos bastarmos com uma
observação a primeira vista, não corresponde à realidade. Com efeito, consistindo a culpa
negligente numa atitude ético-pessoal de descuido ou leviandade (numa como personalidade
descuidada ou leviana) perante os bens jurídicos-penais colocado em risco por uma acção que
a experiência demostra ser perigosa, o facto do agente nem se quer representar tais riscos
pode, na maior parte dos casos ser revelador de uma personalidade que já se habituou a não
representar se quer os perigos da sua acção.
Uma tal personalidade, uma tal atitude é mais perigosa (sob o ponte de vista social e
político-criminal) e mais culposa do que a daquele que, embora não deixa de ser censurável,
diante de uma acção em si mesma perigosa, actualiza tais perigos. É que este, por força da
tensão ética interior que a possibilidade de um resultado desvalioso lhe desperta, será
naturalmente, levado a não ser tão descuidado como aquele que, por força do hábito de
descuido, nem se quer lhe vem a cabeça os riscos da acção que pratica.
Portanto, pode dizer-se que em conclusão, que a distinção da negligência em
consciente e inconsciente não significa uma distinção entre culpa mais grave e culpa menos
grave, e que, em geral, até será culposamente mais grave a negligência inconsciente do que a
consciente.
Seja consciente ou incosciente, o certo é que, tal como na culpa dolosa, também a
culpa negligente pode ser mais ou menos grave, podendo ir de um grau da culpa leve a um
grau de culpa grosseira ou qualificada.
Em alguns tipos de crimes negligentes, o legislador começa autonomizar dentro do
conceito geral da culpa negligente, a negligência grosseira, como a espécie mais grave ou
especialmente qualificada da culpa negligente. Assim, no artigo 152º. nº2 do Código Penal
Angolano, o legislador considera a negligência grosseira como causa de uma agravação
modificativa da pena legal aplicável, em princípio, ao crime de homicídio por negligencia.
A decisão sobre a existência, ou não de negligencia grosseira depende, naturalmente,
das circunstancias concretas do caso, relativas ao tipo de ilícito negligente praticado a pessoa
do respectivo agente. Mas, não podendo uma tal decisão ser pura e simplesmente
discricionária, o tribunal tem de ter em conta os factores que podem fundamentar um tal juízo
de negligencia grosseira.
Estes factores serão os seguintes: a especial relevância do bem jurídico lesado ou
posto em perigo pela acçao descuidada; a intensidade acrescida do perigo, ou seja o forte
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(provável) risco de produção de resultado, o especial dever de cuidado, considerado o
estatuto, a profissão ou as funções do agente.
Exemplo: um polícia que tendo filhos pequenos, deixa, um guarda-roupa, não
fechando a chave a sua arma carregada, comete uma negligência; mas se deixa a mesma arma,
não só carregada, mas pronta a disparar encima da mesa de jantar, já a sua negligencia será
grosseira.
Quanto a localização categorial- sistemática da negligência grosseira parece claro que
esta revela, em primeiro lugar, no plano de tipo de ilícito, sendo, uma especie qualificada do
ilícito negligente. Mas também parece evidente que, para ter relevância no plano da gravação
modificativa da pena (caso do artigo 152º. nº2) ou da agravação dentro do limite máximo da
pena legal do crime negligente, o caracter qualificado ou grosseiro da negligência também
tem de relevar uma acrescida atitude ético-pessoal de leviandade do agente, uma potenciada
culpa negligente. Quer isto dizer que o carácter grosseiro do crime negligente tem que se
analisar no duplo plano do ilícito e da culpa; e que, como refere Figueiredo Dias (142), não se
deve, a partir da afirmação da existência de um ilícito negligente grosseiro, concluir
automaticamente pela afirmação de uma culpa negligente grosseira. Ou seja, pode, em alguns
casos, existir aquele e não existir esta. O que pode afirmar-se é que não havendo ilícito
grosseiro, jamais pode afirmar-se uma culpa grosseira e, consequentemente, nunca pode
existir um crime negligente grosseiro.
Terminemos, dizendo que o caracter grosseiro da negligência (fora dos ainda
raríssimos casos em que determina uma gravação modificativa da pena legal) deve ser tido em
em conta para a determinação da medida da pena. E vai neste sentido o artigo 152º. nº2, ” se a
negligencia for grosseira a pena de prisão é de 1 a 5 anos”.
3. ELEMENTOS DO TIPO NEGLIGENTE
a) Elemento objectivo (integra o elemento objectivo do tipo nos crimes negligentes) a
omissão do dever de cuidado ou diligência que o agente deve ter;
b) Elemento subjectivo (integra o elemento subjectivo do tipo, nestes crimes): a
prática de um facto antijurídico como consequência dessa omissão ou diligência que o agente
pode ter.
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Elemento objectivo.
Para considerarmos negligente uma dada conduta, é necessário que a acção (também os
crimes de mera actividade podem ser punidos a título negligente) e/ou o respectivo resultado,
fosse evitável e ainda que sobre o agente impendesse o dever de evitar tal acção ou resultado.
Sobre o que seja a diligência devida, a própria norma incriminadora pode atingir elevado grau
de concretização.
A violação do dever de diligência pode revestir – como se diz no C. Penal de 1886 em
diversas disposições que prevêem crimes negligentes, a forma de imperícia, inconsideração,
falta de destreza ou falta de observância de algum regulamento, designadamente falta de
observância das providências policiais e administrativas contidas nas leis e regulamentos.».
Por exemplo, o art. 150.º do C. Penal Português de 1982, na definição da falta de diligência
devida, exige que o médico actue de acordo com as “leges artis” independentemente de saber
se no caso concreto era capaz para o fazer, pois a qualidade de médico pressupõe tal perícia
ou aptidão, o mesmo sucedendo com os pilotos, engenheiros, etc.
Tratar-se-á, pois, de imperícia: actuação em desconformidade com a habilitação
necessária ao exercício da actividade. Vale o mesmo para o condutor habilitado, que não
realiza correctamente as manobras da condução (acelera em vez de travar, roda o volante para
a direcção errada ou de todo não o faz). Nestes casos não há norma concreta a impor um
determinado modo de agir ou a prática de uma manobra concreta, mas tal é imposto pela
própria natureza da actividade e o agente formalmente habilitado para o efeito deve agir em
conformidade. O aspecto fundamental é sempre o da definição do dever objectivo que
concretamente impede sobre o agente, poi s é a partir desse elemento que deve partir-se para a
definição dos elementos subjectivos, nomeadamente se em concreto podia ter agido de modo
diligente. Um exemplo: se após uma operação médico-cirúrgica o doente vier a morrer em
consequência de uma infecção provocada pelo facto de o bisturi não ter sido
convenientemente limpo e desinfectado antes da operação, só podemos vir a responsabilizar o
médico por tal facto se concluirmos que sobre ele impedia o dever de levar a cabo o acto em
falta, ou se, antes, aquela desinfecção era incumbência de um outro profissional de saúde, por
exemplo: um técnico de enfermagem.
Só assim será, se de acordo com as normas escritas ou usuais for o médico quem está
obrigado a limpar o bisturi. Mesmo nesta última hipótese importava ainda averiguar se sobre
o médico não impendia o dever geral ou mesmo específico de lembrar a enfermeira para
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limpá-lo ou verificar se esta o fez. Neste exemplo podemos ver importância da indagação e
juízo sobre a objectiva violação do dever de cuidado. Se concluíssemos que de acordo com os
regulamentos ou usos não escritos, nunca o médico tinha que limpar o bisturi, lembrar ou
verificar a realização
de tal operação material, não poderíamos concluir ter sido por ele violado tal dever, mas sim
outra pessoa.
Elemento subjectivo
O cuidado ou diligência que o agente pode ter: a diligência devida depende das
circunstâncias concretas do caso. Desde logo está em causa a diligência de que cada um é
capaz. A lei não se contenta em estabelecer um padrão generalizador de comportamento; em
direito penal subjectiviza o dever de cuidado medindo-o por aquilo de que o sujeito é capaz.
Por outro lado, a violação do dever de cuidado pode consistir numa acção (v.g. acção
perigosa de que possa resultar o facto típico) ou numa omissão (omissão das cautelas
apropriadas para evitar a realização do crime.). Outro aspecto a considerar, do ponto de vista
da tipicidade é que em função da adequação social da respectiva actividade a conduta
perigosa não é necessariamente reputada negligente, verificando-se, portanto, a respectiva
causa de atipicidade, se a conduta se inscreve no círculo do risco permitido em função de tal
adequação.
É assim com muitas actividades perigosas por estarem compreendidas no risco
socialmente admitido, como é o caso do tráfego rodoviário, que em si mesmo é uma
actividade perigosa, ou com as lesões à integridade física no exercício da actividade
desportiva, como aludido supra. A este último aspecto liga-se o da própria relevância do
comportamento nos casos da chamada culpa leve, de difícil distinção face ao chamado caso
fortuito, como será o caso de alguém que choca com outra pessoa na rua, e em consequência
disso é apanhada por um automóvel e vem a morrer desse embate.
4. O TIPO DE ILICITUDE NEGLIGENTE
A característica mais saliente dos tipos de ilicitos negligentes, por contraposição aos
dolosos, reside na diferente relação que intercede entre acção e resultado, ou mais
exatamente porque, como se verá, nem todos os delitos negligentes (se bem que isso suceda
com a maior parte) têm forçadamente de assumir a forma de crimes de resultados, antes
podem ser também crimes de mera actividade, “entre acção e realização critica integral. ” Nos
crimes dolosos a vontade do agente dirige-se ao resultado ou à realização integral do tipo, nos
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negligentes não pelo que, como formula Stratenwerth, “a relevância jurídico-penal daquela
vontade resulta, não imediatamente do seu conteúdo, mas de uma comparação com o
comportamento imposto. ” Por outro lado, a punibilidade de um facto negligente pressupõe
sempre a realização típica integral, hoc sensu, a “consumação”: a tentativa de um facto
negligente não só não é nunca punível, como não é (normativamente) possível ou se quer
pensável, trata-se de delitos de mera atividade ou mesmo de resultado. Em qualquer caso falta
a resolução criminosa que constitue elemento co-natural de toda a tentativa. Destas duas
especificidades fundamentais resultam os principais problemas com que depara a construção
do tipo de ilícito do facto negligente.
Sendo como se diz, pareceria ficar próxima a afirmação repartidamente feita, de resto
de que a responsabilização de alguém por um delito negligente implica sempre uma
“responsabilidade por acaso” (quando a realização típica integral, nomeadamente o
resultado de dano ou de perigo se verificou) e, nesta medida, um pedaço de responsabilidade
pelo resultado com a consequente violação do princípio da culpa. P. Ex.: se A e B conduzem
os seus automóveis com igual violação do cuidado devido, pelo facto de ambos conduzirem
com velocidade excessiva, e A fere gravemente um peão (C), enquanto com B nada se passa e
tudo acaba por correr bem. A é punido por ofensas negligentes a integridade física de C,
enquanto B não incorre em responsabilidade penal.
Pensou-se que a única forma de obstar a uma tal conclusão residiria em considerar a
produção do resultado uma condição objectiva de punibilidade do delito negligente, como
tal não participante do tipo de ilícito respectivo; consideração defendida, em especial, por
adeptos da doutrina de acção final ou, quando menos, por defensores de uma preponderância
decisiva do desvalor de acção sobre o desvalor de resultado. Mas nem de um ponto de vista
teorético-dogmático, nem prático-normativo uma tal concepção pode ser aceite: resultado não
tem uma função somente limitadora, mas constituitiva do desvalor unitário do ilicito
negligente: é apartir deste desvalor que se compreende a finalidade da norma, como é a partir
dele que se determina a medida do cuidado devido. Quanto, por seu turno, a uma hipotetica
violação do princípio da culpa, batará dizer que responsabilização é fundada num efectivo
desvalor de acção e de rersultado; à luz do exemplo acima dado não é A que, sendo punido,
deveser considerado um ’azarento’ mas B que não sendo punido, pode ser considerado um
’felizardo’ jogam aqui o seu papel considerações político-criminais, nomeadamente de
carência de tutela penal e de intervensão miníma, que amplamente justificam a diferença de
tratamento num e noutro caso. Além de que esta conclusão não deixa de estar em pleno
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acordo com a função da culpa no sistema do facto jurídico-penal e com o correspondente
sentido ’unilatreral’ do princípio da culpa se toda supõe a culpa, nem toda culpa determina
uma punição.
5. VIOLAÇÃO DO DEVER DE CUIDADO E IMPUTAÇÃO
OBJECTIVA. CRIMES NEGLIGENTES DE RESULTADO E DE MERA
ACTIVIDADE
Não fala porém hoje quem prefira substituir o elemento da violação do
cuidado devido pela categoria da criação ou potenciação pelo agente de um risco não
permitido, comum- aos delitos dolosos e negligentes de resultado, pretendendo e que é esta
categoria, não aquele elemento, que verdadeiramente conforma a tipicidade dos crimes
negligentes. Não cremos porém em definitivo, que possam divisar-se vantagens nesta
substitução. Enquanto, pelo contrário não será difícil encontrar nela defeitos e enexactidões
teoréticos-dogmáticos sensíveis.
Desde logo, como já por mais de uma vez se acentuou, os delitos negligentes são na
maioria esmagadoras dos casos, na verdade quase sempre, crimes de resultado (homicídios,
ofensas à integridade física, etc) no preciso e estrito entendimento. Mas surgem também por
vezes como crimes de mera actividade, como é o caso, entre nós, por exemplo, do (crime
negligente) de condução de veículo em estado de embreaguez, Cfr. Artigo 18 do CP, bem
como de vários crimes constantes da lei.
Em casos tais não terá pois sentido a afirmação de que o problema da tipicidade dos
crimes negligentes se confundem com a (e se reduz à) questão geral da imputação objectiva
que nos crimes de mera actividade nem se quer se suscita. E o argumento é reforçado, ainda
neste contexto, pelo rigor literal do artigo 13.º do CP; a negligência é aí apresentada, em
qualquer das duas modalidades que assume, conexionando a violação do cuidado
objectivamente devido não com a produção do resultado, mas com “a realização de um facto
que preenche um tipo de crime”. Numa palavra, nos crimes negligentes de mera actividade a
violação de um dever de cuidado no sentido de o agente dever prever e evitar a realização de
um facto típico ganha autonomia teorético-dogmático.
Sem prejuízo de ser exacto que a questão prático-normativa é então a de saber que
medida de cuidado é aqui verdadeiramente exigida; sendo nesta sede aplicáveis, é verdade
mutatis mutandis, os critérios que infra, serão expostos a propósito dos crimes negligentes
de resultado. Mesmo no que toca aos crimes negligentes de resultado, já Engisch acentuou é
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verdade que a violação do dever de cuidado não é, ela mesma um puro critério de imputação
objectiva específico dos factos negligentes, antes sim um momento do próprio conteúdo de
toda norma comportamental. O que só aparecerá reforçando em todos aqueles autores, de
Córdoba Roda a Faria Costa, para quem, afinal acompanhando Englisch, a norma de ilicitude
é, mais que uma norma destinada a evitar resultados, uma “norma de cuidado” no
relacionamento interpessoal. Mas não é esta questão “ontológica” do cuidado como fonte de
legitimação de direito penal que no nosso problema agora está em questão antes a questão
dogmática da categoria da violação do cuidado devido como essência ilicita-típica do facto
negligente.
Critérios concretizados do cuidado devido.
De acordo com a conclusão a que chegamos, e na qual continua a convir, convém
dizê-lo, a doutrina ainda hoje largamente dominante, ao tipo de ilícito negligente pertence um
momento própio de contrariedade ao dever. A concretização dogmática deste critério supõe a
resolução de duas espécies de problemas: um deles sobre o qual, este sim, a dogmática actual
irremendiavelmente se devide, é o de saber se os critérios de determinação do dever de
cuidado assumem carácter geral (a este propósito se falando algo impropriamente, e já se verá
porquê, de dever o objectivo de cuidado), ou possuem individualizado (então se requerendo
com pelo menos igual impropriedade, que o agente tivesse de responder ao cuidado
objectivamente imposto). O outro, sobre o qual existe em geral larga concordância doutrinal
(embora os pareceres se devidam quanto a muitas das especilaidades), é o de determinar quais
fontes concretizadoras do dever de cuidado.
5. TIPOS DE CRIME NEGLIGENTE NO DIREITO PENAL ANGOLANO
No direito penal angolano, os tipos de crimes negligentes podem incluir:
1. Homicídio por negligência: ocorre quando alguém causa a morte de outra pessoa
devido à sua negligência, como dirigir sob a influência de álcool ou [Link] seja morte de
alguém causada por negligência na adoção de cuidados devidos, como no caso de acidentes de
trânsito devido à condução irresponsável
2. Lesões corporais por negligência: refere-se a situações em que alguém causa
ferimentos ou danos a outra pessoa devido à sua negligência, como deixar objetos perigosos
ao alcance de crianças.
3. Incêndio por negligência: quando um incêndio é causado devido à falta de cuidado
ou precaução por parte de alguém, resultando em danos materiais ou pessoais.
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4. Danos por negligência: envolve a negligência na manutenção ou guarda de
propriedades, resultando em danos a terceiros.
Estes são apenas alguns exemplos de crimes negligentes que podem ocorrer em
Angola, e a legislação do país deve ser consultada para saber mais detalhes e definições
específicas.
5. Perigo de contágio por negligência: Ações que expõem outras pessoas a risco de
contaminação por doenças devido à falta de precauções necessárias, como disseminar uma
doença deliberadamente sem se proteger.
CONCIDERAÇÕES FINAIS
Este tema serviu de grande contributo para aprimorarmos os nossos conceitos e ideias
sobre os crimes negligentes no Direito penal angolano. Ora, até então condenava-se
simplesmente os crimes cometidos por dolo no anterior código penal, já com a vigência do
novo, vem aclarar que também os crimes de negligência (sejam eles conscientes ou
inconscientes) são susceptíveis de punição, cujo seu regime jurídico está previsto nos termos
dos artigos 11.º12.º e 13.º todos do código penal angolano.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
I. OBRAS
1. DIAS, Jorge de Figueiredo, Direito Penal, Questões fundamentais, A doutrina geral
do crime.
2. QUEMBA. Celestino Bangula, SATULA, Benja, Lições de Direito Penal Angolano.
3. LATAS, Antônio João, DUARTE, Jorge Dias, PATTO, Pedro Vaz, Manual de
Direito Penal e Processual Penal (Tomo I )
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