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Revista Brasileira de Ensino de Física, vol.

41, nº 4, e20180350 (2019) Artigos Gerais


[Link]/rbef cb
DOI: [Link] Licença Creative Commons

Geração de soluções exatas em Relatividade Geral através


do Método de Kerr-Schild
Generating exact solutions in General Relativity through Kerr-Schild method

Eduardo V. S. Ribeiro1 , Bertha Cuadros-Melgar∗1 , Flavia R. Cardoso1


1
Universidade de São Paulo, Escola de Engenharia de Lorena, Estrada Municipal do Campinho, Lorena, SP, Brasil

Recebido em 18 de Dezembro, 2018. Revisado em 29 de Março, 2019. Aceito em 03 de Maio, 2019.


Neste trabalho, apresentamos o método de Kerr-Schild para obter novas soluções das equações de campo de
Einstein a partir de uma solução de fundo conhecida. São mostradas algumas das propriedades e uma introdução
histórica do método, além da apresentação de alguns exemplos de sua aplicação.
Palavras-chave: Kerr-Schild, Buracos Negros, Equações de Einstein

In this work we introduce Kerr-Schild method to obtain new solutions to Einstein field equations from a known
background solution. We show some properties, a historical introduction of the method, and some examples of its
application.
Keywords: Kerr-Schild, Black Holes, Einstein Equations

1. Introdução físico teórico finlandês precursor das teorias de gravita-


ção com dimensões extras, acharia a mesma solução de
O aparecimento da Teoria da Relatividade, em 1905, foi maneira independente, motivo pelo qual a solução do
um dos grandes marcos da física no século XX; a partir buraco negro com carga passou a ser conhecida como a
dela, nosso entendimento sobre o universo foi drastica- solução de Reissner-Nordström.
mente alterado, principalmente no que tange aos concei- De qualquer maneira, dado o nível de complexidade
tos de espaço e tempo. Foi em meio a esses novos conceitos das equações de Einstein, foram necessários quase cin-
que Albert Einstein publicou, em 1915, seu artigo Os quenta anos para que fosse encontrada uma solução que
Fundamentos da Teoria Geral da Relatividade [1], onde descrevesse o campo gravitacional de um objeto em ro-
introduziu uma nova forma de compreender a gravidade: tação, depois da publicação, em 1916, da solução de
ela seria, na verdade, consequência da curvatura causada Schwarzchild. Tal solução só foi publicada em 1963 [2],
no espaço-tempo pela presença de matéria/energia. pelo matemático Roy Kerr, que a descobriu enquanto
As equações que descrevem a forma como a matéria estudava propriedades de espaços-tempos algebricamente
gera tal deformação, chamadas de equações de campo de especiais; a partir desse método, em 1965, juntamente
Einstein (que veremos na próxima seção), consistem num com o físico Alfred Schild, Kerr publica um artigo [3]
complicado sistema de equações diferenciais parciais de onde faz uma sistematização do método, chamado de
segunda ordem não-lineares e acopladas, de forma que, Ansatz de Kerr-Schild.
encontrar soluções para esse sistema é uma tarefa extre- O método de Kerr-Schild consistia em usar como base
mamente complicada. Mesmo assim, já em 1916 surgiram a métrica de Minkowski, ηµν , somada de uma pertur-
duas soluções exatas dessas equações: A primeira delas foi bação tensorial (gerada pelo produto tensorial de dois
achada em circunstâncias bastante dramáticas, quando vetores nulos1 ) para formar uma nova métrica, também
seu autor, Karl Schwarzschild, um físico e astrônomo ale- solução exata das equações de campo no vácuo (Tµν = 0).
mão, lutava junto ao exército alemão na Primeira Guerra Posteriormente, em 1969 [4], os autores publicaram, junto
Mundial. Essa solução descreve o campo gravitacional de de seu aluno George Debney, uma extensão do método
uma distribuição esférica e homogênea de matéria, que onde encontraram soluções para as equações de Einstein-
hoje é usada tanto para descrever estrelas, como também Maxwell. Em 1978, Basilis C. Xanthopoulos [5] generaliza
o tipo mais simples de buraco negro. A segunda solução, o método para uma métrica arbitrária gµν no caso das
que descreve o campo gravitacional de uma carga pon- equações de campo no vácuo. Cabe destacar que a grande
tual, foi encontrada por Hans Reissner, um engenheiro
aeronáutico alemão, cujo passatempo era a física ma- 1 Um vetor nulo (ou tipo luz) V µ é aquele que satisfaz V µ Vµ =
temática. Nos anos seguintes, Gunnar Nordström, um 0. Note que, como estamos considerando uma variedade pseudo-
Riemanniana (ver nota de rodapé seguinte para a definição), as
∗ Endereço de correspondência: bertha@[Link]. componentes não são necessariamente nulas.

Copyright by Sociedade Brasileira de Física. Printed in Brazil.


e20180350-2 Geração de soluções exatas em Relatividade Geral através do Método de Kerr-Schild

vantagem do método de Kerr-Schild radica em que as geral, os símbolos de Christoffel determinam a existência
equações de campo resultantes são lineares na perturba- da força gravitacional (e a existência de curvatura numa
ção tensorial, facilitando enormemente sua solução. variedade) e, pela relação a seguir, é a métrica que faz o
Neste artigo, apresentaremos a transformação tanto papel do potencial gravitacional:
na sua forma original, publicada por Roy Kerr e Alfred
1 σκ
Schild, em 1965 [3], como a generalização apresentada Γκµν = g (gσµ,ν + gσν,µ − gµν,σ ) , (2)
numa revisão de Abraham H. Taub [6] publicada em 2
1981, além de expor algumas propriedades conhecidas e onde a vírgula representa uma derivada: gσµ,ν ≡ ∂ν gσµ ≡
exemplos de suas aplicações.
∂xν . Esta equação permite o cálculo dos símbolos de
∂gσµ

Christoffel de uma maneira simples a partir da métrica.


2. Conceitos Preliminares Os símbolos de Christoffel também definem a chamada
derivada covariante de um vetor, representada por um
Serão apresentados, a seguir, alguns conceitos necessários ponto e vírgula, que é uma generalização da derivada
para o entendimento de algumas das propriedades do usual para espaços curvos:
método.
V µ ;λ := V µ ,λ + Γµλκ V κ , (3)
2.1. Grandezas básicas em Relatividade Geral Vµ;λ := Vµ,λ − Γκµλ Vκ . (4)

Consideremos o intervalo entre dois eventos no espaço- A generalização para tensores de ordem superior é sim-
tempo ou elemento de linha como sendo: ples: para cada índice contravariante µ somamos um
termo contendo o símbolo de Christoffel correspondente
ds2 = gµν dxµ dxν , (1) Γµ•• , e para cada índice covariante µ subtraimos um termo
contendo Γ•µ• . A importância da derivada covariante se
onde os índices gregos representam as coordenadas do manifesta em dois fatos: ela converte tensores em outros
espaço-tempo (α = 0, 1, 2, 3), dxµ representa um desloca- tensores e ela se reduz à derivada ordinária na ausência
mento infinitesimal genérico da coordenada xµ e gµν é a de gravitação (variedade plana), ou seja, quando Γκµν = 0.
chamada métrica desse espaço-tempo, na qual está codi- Por fim, é necessário caracterizar a curvatura do espaço-
ficada toda a informação da geometria dele. A Eq.(1) é tempo com um novo objeto: o tensor de curvatura ou
uma quantidade invariante, ou seja, todos os observadores tensor de Riemann, que pode ser escrito em termos dos
em qualquer sistema de referência concordarão com uma símbolos de Christoffel:
medida desta. Além disso, a métrica introduz a noção
de distância através do elemento de linha (1), que pode
ser entendido como um análogo do teorema de Pitágoras Rα βµν := Γα α α σ α σ
βν,µ − Γβµ,ν + Γσµ Γβν − Γσν Γβµ . (5)
num espaço pseudo-Riemanniano2 . Matematicamente, a
métrica é um tensor de ordem 2 definido em cada ponto Esse tensor indica a mudança que ocorre nas componentes
de uma variedade como o produto de 2 vetores de base de um tensor quando ele é transportado em um caminho
do espaço tangente nesse ponto, e é útil representá-la fechado; se essa mudança for nula, a variedade não possui
como uma matriz d × d, sendo d a dimensionalidade do curvatura. Uma das propriedades desse tensor, que tem a
espaço-tempo. Nesse trabalho consideraremos espaços- ver com os dois pares de índices dele, é que ele é simétrico
tempos tanto em 3 como em 4 dimensões e a assinatura na troca desses dois pares e antisimétrico na troca dos
da métrica será (-++) e (-+++), respectivamente, i.e., índices de cada par. A partir desse tensor é útil definir
(-) para a coordenada temporal e (+) para as coorde- o tensor de Ricci e o escalar de Ricci por operações de
nadas espaciais. Essa escolha faz com que ds2 possa ser contração:
positivo, negativo ou zero, definindo assim o intervalo
como sendo tipo espaço, tipo tempo ou tipo luz, respec- Rαβ := Rµ αµβ = Rβα , (6)
tivamente. Essa é a diferença básica com o teorema de R := g µν
Rµν . (7)
Pitágoras onde ds2 é sempre positivo.
Uma outra quantidade de grande utilidade é a chamada 2.2. Equações de Einstein
conexão afim, um objeto geométrico definido sobre uma
variedade suave, que conecta espaços tangentes próximos. O tensor de Riemann (5) obedece uma equação de con-
Uma classe especial são os chamados símbolos de Ch- servação importante chamada de identidades de Bianchi:
ristoffel Γκµν , que fornecem uma representação concreta Rαβµν;λ + Rαβλµ;ν + Rαβνλ;µ = 0 . (8)
desse tipo de conexão na geometria pseudo-Riemanniana
em termos das coordenadas da variedade. Na relatividade Contraindo duas vezes esta identidade, podemos definir
2 Um espaço Riemanniano cumpre certos requisitos, dentre eles,
um novo tensor, cuja derivada covariante é nula:
que a métrica seja suave e sempre positiva definida. No caso da  
relatividade este último requisito não se cumpre, daí o prefixo 1
Rαβ − g αβ R ≡ Gαβ ;β = 0 , (9)
pseudo. 2 ;β

Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 41, nº 4, e20180350, 2019 DOI: [Link]
Ribeiro e cols. e20180350-3

onde Gαβ é chamado de tensor de Einstein, a partir Suponhamos uma variação gµν → gµν + δgµν ; como
do qual podemos formular as equações de campo de g µσ gσν = δ µ ν , podemos escrever:
Einstein [7].
Considerando um conteúdo material descrito pelo tensor δg µν = −g µκ g λν δgκλ ; (15)
de energia-momento T αβ , o qual deve ser conservado,
também, tendo em vista que Det gµν = e Tr (ln gµν )
, temos:
i.e., T αβ ;β = 0, podemos relacioná-lo à curvatura do
espaço-tempo representada por algum tensor simétrico √ 1 √ µν
de ordem 2, que é precisamente o tensor de Einstein: δ g= gg δgµν . (16)
2
Gαβ = k T αβ . (10) A variação do tensor de Ricci com respeito à métrica é:

A constante de proporcionalidade pode ser determinada δRµν = (δΓλµλ );ν − (δΓλµν );λ . (17)
usando o limite newtoniano da teoria, obtendo k =
8πG/c4 , sendo G a constante de gravitação de Newton e Com o auxílio das identidades (15), (16) e (17), pode-se
c a velocidade da luz no vácuo. Usualmente em Relati- verificar que:
vidade Geral, costumamos usar unidades geometrizadas 1
Z


1

que consideram: G = c = 1, de tal maneira que a forma δSG = − −g Rµν − g µν R δgµν d4 x. (18)
16π 2
final das equações de Einstein está dada por:
1 Combinando as equações (18) e (14), temos que o prin-
Rαβ − g αβ R = 8πT αβ . (11) cípio de Hamilton, δS = 0, é satisfeito se e somente
2
se,
Também é possível obter as equações (11) a partir de 1
uma formulação concisa e elegante da relatividade geral Rµν − g µν R = 8πT µν , (19)
2
que usa o formalismo Lagrangiano para campos [8]. Essa que são as equações de campo de Einstein.
demonstração será desenvolvida a seguir.
Tendo em vista que a métrica gµν é o campo que
2.3. Campos Vetoriais de Killing
descreve a gravidade, iremos considerá-la como o grau de
liberdade do sistema para o qual desejamos encontrar as Uma simetria em um espaço-tempo caracterizado por
equações de movimento e, uma vez que a Lagrangiana é uma variedade n-dimensional M pode ser entendida
uma função escalar, devemos procurar escalares obtidos a como um difeomorfismo 3 f : U → V, onde U e V são
partir da métrica para construir a densidade Lagrangiana. subconjuntos abertos de M, que preserva alguma carac-

As escolhas mais diretas e simples são −g, g = Det gµν terística geométrica de M [9].
e R = g µν Rµν , sendo Rµν o tensor de Ricci, que, por ser Suponha um campo vetorial ξ µ (xα ). Podemos definir
formado a partir de derivadas da métrica, será o termo o seguinte deslocamento infinitesimal [10]:
cinético; uma vez que esses escalares são construídos
a partir de tensores, temos garantida a covariância da xα = xα + ξ α (xµ )dλ = xa + δxa . (20)
Lagrangiana. A partir desses escalares, podemos escrever
Para essa transformação, temos,
a ação do campo gravitacional SG [8],
1
Z
√ δgαβ = gαβ,µ ξ µ dλ, (21)
SG = −g R d4 x; (12)
16π δ(dxα ) = d(δxα ) = ξ α ,µ dxµ dλ, (22)
que é denominada ação de Einstein-Hilbert. de maneira que os elementos de linha nos pontos xα e
Supondo a existência de uma ação SM que descreva a xα serão idênticos se:
dinâmica da matéria presente no espaço-tempo, podemos
escrevê-la como, δ(ds2 ) = δ(gαβ dxα dxβ ) = (23)
Z

µ
= (gαβ,µ ξ + gµβ ξ µ
,α + gαµ ξ µ α
,β )dx dx dλ = 0 , (24)
β
SM = L (φ) −g d4 x, (13)
ou seja, haverá uma simetria se, e somente se,
onde φ representa os campos que descrevem o conteúdo
material da teoria e, L (φ) é a densidade lagrangiana gαβ,µ ξ µ + gµβ ξ µ ,α + gαµ ξ µ ,β = 0. (25)
correspondente. Partindo da variação da equação (13) Escrevendo a Eq.(25) em termos de derivadas covariantes,
com respeito à métrica gµν , definimos o tensor de energia- temos:
momento T µν da seguinte maneira: ξα;β + ξβ;α = 0. (26)

Z
1 O conjunto das soluções da Eq.(26), chamada de equa-
δSM = T µν δgµν −g d4 x. (14)
2 ção de Killing, forma um grupo, denominado de grupo de
Assim, a ação total do sistema será dada por S = SG + 3 Um difeomorfismo é um mapa diferenciável e inversível entre duas
SM . variedades, cujo mapa inverso também é diferenciável.

DOI: [Link] Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 41, nº 4, e20180350, 2019
e20180350-4 Geração de soluções exatas em Relatividade Geral através do Método de Kerr-Schild

isometria (ou grupo de movimentos). Os campos vetoriais tipos de campos eletromagnéticos: o campo de Coulomb
ξα que satisfazem a equação de Killing são denominados e o campo de radiação, cujas componentes elétrica e
vetores de Killing e, para uma determinada métrica gαβ , magnética possuem o seguinte comportamento,
são determinados pelos valores de ξα e ξα;β em um dado 1
ponto p ∈ M; esses fatores são obtidos a partir da equa- Campo de Coulomb : E ∼ , B = 0, (30)
r2
ção de Killing e da seguinte propriedade (obtida a partir 1
da definição do tensor de Riemann): Campo de radiação : E ∼ , kEk = kBk, E · B = 0.
r
ξγ;αβ = −Rβγα δ ξδ . (27) Mostraremos que ambos os casos correspondem à classi-
ficação do tensor Fµν em categorias distintas.
Como consequência, um máximo de 12 n(n + 1) fatores Um tensor de segunda ordem é dito simples se pode
definem todos os vetores de Killing de uma métrica, ser escrito na forma:
o que, por sua vez, implica que existe um máximo de 1
2 n(n + 1) vetores de Killing linearmente independentes,
1 Aµν = a[µ bν] = (aµ bν − aν bµ ).
2
fato que também define a dimensão máxima do grupo
de isometria (no caso de uma variedade com dimensão Em geral, o tensor eletromagnético não é simples, mas ele
n = 4, como é usual em relatividade, isso implica que sempre pode ser decomposto em um par de tensores de
existem, no máximo, 10 vetores de Killing em um dado segunda ordem simples, Fµν = a[µ bν] + c[µ dν] . Também é
espaço-tempo). verdade que, se Fµν é simples, então existem dois vetores
A existência de um vetor de Killing implica na existên- ortogonais p e q (i.e., pµ q µ = 0), tais que Fµν = p[µ qν] .
cia de uma isometria na variedade: os valores da métrica Na decomposição mencionada, temos:
em um dado ponto p ∈ M mantém-se inalterados quando 1 1
calculados em um outro ponto q ∈ M numa direção de- Fµν F µν = (pµ qν −pν qµ )(pµ q ν −pν q µ ) = (pµ pµ )(qν q ν ).
4 2
terminada por um vetor de Killing (ou combinação linear (31)
deles). A família de curvas que une os pontos que satisfa- Consideremos os casos Fµν F µν < 0 e Fµν F µν = 0, que
zem a condição de isometria pode ser obtida integrando correspondem, respectivamente, aos campos do tipo Cou-
as seguintes equações: lomb e de radiação.

dxµ • Fµν F µν < 0: Da equação (31), um dos vetores deve


= ξ µ (xι ). (28) ser tipo tempo e, o outro, tipo espaço. No entanto, no

plano definido por p e q, deve existir um par de vetores
Outro ponto importante de se ressaltar é que a ação lµ e nµ , com,
do grupo de isometrias, gerado pelos vetores de Killing, Fµν = lµ nν − lν nµ , (32)
em M, define um difeomorfismo do tipo mencionado
tais que,
no início da seção, que caracteriza uma simetria. Por
fim, em um dado sistema de coordenadas, a existência lµ lµ = nµ nµ = 0, lµ nµ = α 6= 0, (33)
de um vetor de Killing relativo a uma das coordenadas
implica na independência da métrica em relação a essa tendo em vista que
coordenada no dado sistema [11]. Fµν F µν = (lµ nν −lν nµ )(lµ nν −lν nµ ) = −2α2 < 0. (34)
Um exemplo ilustrativo consiste nos vetores de Killing
da métrica de Minkowski, ηµν = diag{−1, 1, 1, 1}, • Fµν F µν = 0: Neste caso, um dos vetores deve ser nulo
e o outro, tipo espaço (uma vez que, vetores tipo tempo
ξα = aα + bαβ xβ , (29) e nulos ou dois vetores nulos independentes não são
ortogonais). Assim, temos:
onde bαβ = −bβα e xβ = {t, x, y, z}, que possui 10 cons-
tantes independentes (aα e bαβ ), que levam a 10 vetores Fµν = lµ aν − lν aµ , (35)
de Killing linearmente independentes.
de maneira que,
A última propriedade a ser mencionada é a seguinte:
se ξα é um vetor de Killing e γ é uma geodésica com lµ lµ = 0, aµ aµ > 0, lµ aµ = 0. (36)
vetor tangente uα , o produto interno gαβ ξ α uβ = ξα uα é
uma constante de movimento. Agora, consideremos o problema de autovalor de Fµν
e classifiquemos as possíveis soluções:
2.4. Classificação de Petrov Fµν k ν = λkµ . (37)
A classificação de Petrov consiste em uma classificação Para o caso em que Fµν é tipo tempo, temos as soluções
algébrica local de espaços-tempos através dos autoveto- (o caso λ = 0 é duplamente degenerado):
res do tensor de Weyl [9, 11–13]. Sua introdução pode
ser motivada por uma classificação semelhante do ten- λ = ±lµ nµ ⇒ kµ = lµ ou nµ , (38)
sor eletromagnético Fµν . Considere, por exemplo, dois ν ν
λ = 0 ⇒ k lν = k nν = 0, k kµ > 0. µ
(39)

Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 41, nº 4, e20180350, 2019 DOI: [Link]
Ribeiro e cols. e20180350-5

Já no caso em que Fµν é nulo, há duas soluções (λ = 0) Utilizando a identidade (45) na notação de bivetores,
duplamente degeneradas: verifica-se que Tr N = 0.
Para impor a condição (43) e estabelecer as respectivas
λ = 0 ⇒ k ν lν = k ν aν = 0, k µ kµ > 0 ou kµ = Alµ restrições em M , Q e N , definiremos a métrica em termos
(A = constante). (40) de bivetores a partir do seguinte tensor:

O primeiro caso, que possui duas soluções, é chamado Gµνκλ = g µκ g νλ − g νκ g µλ ; (47)


caso não degenerado, se refere ao campo de Coulomb.
Nele, denotamos o tensor do campo como Fµν [1,1] . Já o claramente, devido à simetria de g µν , Gµνκλ = Gκλµν , o
segundo caso, dotado de apenas uma solução, que se refere que leva a identificá-lo como a métrica no espaço dos bi-
ao campo de radiação, é chamado de caso degenerado. vetores, GAB . De forma similar, pode-se definir a métrica
Neste último, denotamos o tensor do campo como Fµν [2] . covariante, GAB , através da expressão GAB GBC = δA C
.
Assim, o campo retardado de uma fonte isolada possui o Durante o processo de levantamento do índice para obter
seguinte comportamento assintótico: C A B = GAD CDB , as componentes das matrizes M , Q
1 1 e N são modificadas de maneira imprevisível devido à
Fµν = Fµν [2] + 2 Fµν [1,1] + O(r−3 ). (41) arbitrariedade de gµν ; para contornar esse problema, é
r r
possível escolher um referencial lorentziano, onde a mé-
trica se torna a métrica de Minkowski, gµν = ηµν . É
De maneira análoga ao caso construído acima para importante ressaltar que as coordenadas dadas por ηµν
o tensor eletromagnético, é possível construir uma clas- são válidas apenas numa vizinhança do referencial menci-
sificação algébrica do tensor de curvatura de Weyl. Na onado; no entanto, pode ser mostrado que a construção
relatividade geral, o tensor de Weyl descreve a parte de bivetores mantém a invariância de Lorentz, de forma
do campo gravitacional que se propaga no vácuo e é que a classificação que será construída no decorrer da
detectável fora de fontes, como ondas gravitacionais, por seção será invariante sob transformações de Lorentz.
exemplo. O tensor de Weyl é definido (em 3+1 dimen- No referencial lorentziano, a métrica do espaço dos
sões), em termos do tensor de Riemann (ou tensor de bivetores assume a seguinte forma:
curvatura) Rλµνρ , da seguinte maneira:  
I 0
1 GAB = 3 = GAB , (48)
Cµνκλ = Rµνκλ + (gµν Rνκ − gµν Rνλ + gνκ Rµν 0 −I3
2
R
−gνλ Rµκ ) + (gµκ gνλ − gνκ gµλ ), (42) onde I3 é a matriz identidade 3 × 3. Consequentemente,
6 têm-se que,
possuindo as seguintes propriedades,
 
M N
A
C B= ; (49)
−N T −Q
C µ νµλ = 0, (43)
realizando alguns cálculos, a condição (43) impõe as
Cµνκλ = −Cνµκλ = −Cµνλκ = Cκλµν , (44)
restrições Q = −M , Tr M = 0 e N = N T , de tal forma
Cµνκλ + Cµλνκ + Cµκλν = 0. (45) que a matriz de Weyl, CAB , assume a forma:
As simetrias dadas por (44) motivam a definição de 
M N

uma matriz 6 × 6 CAB , que chamaremos de matriz de CAB = , (50)
N −M
Weyl [9, 14], onde A e B são índices que representam os
bivetores4 formados pelos pares de índices antissimétricos onde M e N são matrizes simétricas com traço nulo.
do espaço-tempo [µν] e [κλ], definidos na Tabela 1. Para dar continuidade à classificação, consideraremos
De acordo com (44), vê-se que CAB = CBA , fato que o problema de autovalor associado à matriz de Weyl:
permite escrever CAB com o auxílio das sub-matrizes
3 × 3 M , Q e N , onde M e Q são matrizes simétricas, C A B F B = λF A , (51)
 
M N
CAB = . (46) onde o autovalor λ é um escalar e F A é o autovetor
NT Q
6-dimensional associado. Da mesma forma que se pode
dividir o tensor eletromagnético, F µν , em uma parte
elétrica e outra magnética, o bivetor F A será divido
Tabela 1: Relação entre índices no espaço dos bivetores e índices em duas partes tridimensionais, uma ”elétrica”e uma
no espaço-tempo. ”magnética”,
A 1 2 3 4 5 6  
E
[µν] [01] [02] [03] [23] [31] [12] A
F = , (52)
B
4 Um bivetor consiste em um tensor de segunda ordem, Aµν , antis-
simétrico (i.e., Aµν = −Aνµ ). O espaço de todos os bivetores em embora E e B não sejam necessariamente reais, visto
um dado ponto constitui um espaço vetorial 6-dimensional. que, em geral, os autovetores F A são complexos.

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e20180350-6 Geração de soluções exatas em Relatividade Geral através do Método de Kerr-Schild

Utilizando a decomposição dada na Eq.(52), a Eq.(51) Podem ser geradas, no máximo, três auto-soluções do tipo
separa-se em dois pares de equações tridimensionais, (λ, F A ) que, juntamente com seus complexos conjugados,
(λ̄, F̄ A ), consistem em, no máximo, seis auto-soluções da
M E + N B = −λE, (53) matriz de Weyl, C A B . Nota-se então que as classificações
−N E + M B = −λB. (54) das matrizes de Weyl, C A B , e de Petrov, P , são equi-
valentes; neste artigo, devido à maior simplicidade, será
Apesar de nenhuma dessas equações constituir separada- feita a classificação de P .
mente um problema de autovalor, podemos transformá- Tendo alcançado o problema de autovalor desejado, a
las em um tomando uma combinação linear adequada; classificação algébrica da matriz de Petrov (e, consequen-
multiplicando a Eq.(53) por k, somando à Eq.(54) e temente, da matriz de Weyl) pode ser feita de acordo
tomando −k = 1/k ⇔ k = ±i, o seguinte sistema é com a degenerescência de seus autovalores e autovetores,
obtido, conforme a Tabela 2. Como exemplo, os autovalores de
(M + iN )(E − iB) = −λ(E − iB) (55) uma matriz de Petrov de classe 1 devem satisfazer à
condição ω1 + ω2 + ω3 = 0 e os de classe 2, a condição
(M − iN )(E + iB) = −λ(E + iB). (56)
2ω1 + ω2 = 0; as condições referentes às outras classes
Tomando o complexo conjugado da Eq.(56), definindo possuem maior complexidade e não serão dadas, estando
a matriz de Petrov como a seguinte matriz simétrica de disponíveis em [14].
traço nulo P := M + iN e as notações u := E − iB e Por fim, o tensor de curvatura de uma distribuição
ω := −λ, podemos reescrever as equações (55) e (56) na de matéria isolada pode ser escrito conforme a seguinte
forma: expansão:

P u = ω ū, (57) Rκλµν =


1 1 1
Nκλµν + 2 IIIκλµν + 3 Dκλµν + . . . (60)
r r r
P ū = ω̄ ū. (58)
Comparando com a equação (41), podemos notar que o
Como a matriz de Weyl é real, suas auto-soluções (λ, F A ) tensor Nκλµν corresponde a uma solução radiativa das
necessariamente virão em pares complexo conjugados, i.e., equações de campo.
(λ̄, F̄ A ) também é uma auto-solução; dessa forma, pode-
se entender as equações (57) e (58) como o postulado de
que (ω, u) e (ω̄, ū) devem satisfazer ao mesmo problema 3. O método
tridimensional de autovalor, P u = ωu. Porém, devido à
natureza complexa de P , seus autovalores, ω, por sua vez, O Ansatz de Kerr-Schild consiste em aplicar a seguinte
não vêm necessariamente em pares complexo conjugados, transformação5 :
o que significa que se ω é um autovalor mas ω̄ não, então
g̃µν = gµν + 2H`µ `ν ; (61)
(58) deve ser satisfeita trivialmente por u = 0. Assim
vemos que, no máximo, 6 possíveis auto-soluções (λ, F A ) onde, H é uma função escalar e `µ é um vetor restringido
dão origem a, no máximo, três auto-soluções (ω, u) não pelas seguintes condições:
triviais de P com, no máximo, três auto-soluções triviais
(ω̄, 0). `µ `µ = 0, (62)
O resultado recíproco de que as auto-soluções de P
determinam as de C A B também pode ser prontamente `µ;ν `ν = 0. (63)
estabelecido: se (ω, u) é uma das três possíveis auto-
A grande característica do método está nas condições
soluções de P , então, a solução (ω̄, v) é obtida de forma
dadas pelas equações (62) e (63); o fato do vetor `µ ser
não trivial (i.e., v 6= 0) somente se ω̄ é também autovalor
nulo e geodésico torna as equações de campo lineares
de P . Das duas soluções correspondentes (ω, u) e (ω̄, v),
na função H, fato que torna as equações diferenciais
pode-se sempre construir uma auto-solução (λ, F A ) da
muito mais tratáveis do ponto de vista matemático. Além
matriz de Weyl, C A B , através de:
5 Dependendo da fonte na literatura, é possível encontrar a trans-
   
E u + v̄ formação com sinal negativo, no entanto, tal fato não é crítico na
λ = −ω, F A = = 12 . (59) aplicação do método.
B i[u − v̄]

Tabela 2: Classes algébricas de P e relação com as classes de Petrov (L.I. significa linearmente independente).
Classe Mult. dos autovalores Mult. dos autovetores Classe de Petrov
1 3 3 autovetores L.I. I
2 2 (um degenerado) 3 autovetores L.I. D
3 2 (um degenerado) 2 autovetores L.I. II
4 1 (degenerado) 3 autovetores L.I. N
5 1 (degenerado) 2 autovetores L.I. III
6 1 (degenerado) 1 autovetor L.I. O

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Ribeiro e cols. e20180350-7

disso, apesar de em um primeiro momento o método ser Sob as condições que apresentamos, as equações de
perturbativo, a nova métrica g̃µν é de fato uma solução campo assumem a seguinte forma linear [16]:
exata das equações de campo linearizadas.
A transformação foi originalmente proposta pelo físicos 1
8πT ν λ =
ηµλ (η αβ g µν − η µα g νβ − η να g µβ + η µν g αβ ),αβ .
Andrzej Trautman e Ivor Robinson, em 1962 [15], base- 2
(72)
ada na ideia de que ondas gravitacionais, em analogia
A seguir, apresentaremos algumas propriedades dos
às ondas eletromagnéticas, pudessem transportar infor-
subcasos possíveis para métricas de Kerr-Schild. Cabe
mação através do espaço e que, a nova métrica g̃µν se
observar que as deduções dessas propriedades possuem
comportasse assintoticamente como campos de radiação.
um certo grau de complexidade e não serão apresentadas;
o leitor interessado é remetido às referências originais,
3.1. A transformação original indicadas no decorrer da seção.
Originalmente, a transformação possui a seguinte forma [11]: Para construir a classificação, será utilizada uma base
ortonormal específica6 ; essa base é construída a partir de
gµν = ηµν + 2H`µ `ν , (64) dois vetores reais, lµ e nµ , e um par de vetores complexo
conjugados, mµ e m̄µ (uma forma de construir mµ é
onde ηµν é a métrica de Minkowski, H é uma função a partir de dois vetores reais unitários, aµ e bµ , tipo
escalar e `µ é um vetor nulo com respeito a gµν e ηµν , de espaço, definindo mµ = √12 [aµ − ibµ ]), que satisfaçam
maneira que: as seguintes propriedades: lµ lµ = nµ nµ = mµ mµ =
m̄µ m̄µ = 0, lµ nµ = −mµ m̄µ = −1 e lµ mµ = lµ m̄µ =
gµν `µ `ν = ηµν `µ `ν = 0, g µν = η µν − 2H`µ `ν . (65) nµ mµ = nµ m̄µ = 0. Também será utilizado o coeficiente
ρ = −mα m̄β lα;β .
Podemos verificar que as seguintes condições são satis-
feitas:
3.1.1. Campos de Vácuo

Γαβγ `β γ
` = Γ α
`
βγ α `γ
= 0, −g = 1. (66) • Caso ρ 6= 0: Para o caso em que ρ é não-nulo, temos
as seguintes propriedades para uma solução de
A partir da Eq.(66), temos:
Kerr-Schild das equações de Einstein no vácuo:
`α;β `β = `α,β `β , `α;β `β = `α,β `β , (67)
(I) A solução é algebricamente especial, de forma que
o vetor nulo `µ é autovetor do tensor de Weyl e, conse-
quentemente, livre de torção e geodésico.
(II) Ela será de tipo II ou D na classificação de Petrov.
βγ `α = −(H`β `γ );α ` , Γβγ ` = (H` `γ );β ` ; (68)
Γα α α β α β
Soluções do tipo III ou N não podem ocorrer.
onde, o ponto e vírgula representa a derivada covariante (III) É admitido pelo menos um grupo uniparamétrico
com relação às coordenadas no espaço-tempo descrito por de isometrias, com vetor de Killing,
gµν , e a vírgula, a derivada em relação às coordenadas
do espaço-tempo descrito por ηµν . Juntando a definição ξ = (c, p, q̄, q), (73)
do tensor de Ricci em termos dos símbolos de Christoffel
dado no sistema de coordenadas (u, v, ζ, ζ̄), construído
com as relações anteriores, temos:
a partir da base original {lµ , nµ , mµ , m̄µ }, com c e p
Rαβ `α `β = −2Hg αβ (`β;γ `γ )(`α;σ `σ ) = 8πTαβ `α `β , constantes reais e, q e q̄ constantes complexas.
(69)
• Caso ρ = 0: Se ρ é nulo, a métrica não será expansível
que nos mostra que, `α ;β `β = 0 ⇔ Tαβ `α `β = 0.
Também é possível verificar que o tensor de Ricci e não possuirá torção7 , além de necessariamente ser de
obedece à seguinte equação de autovalor [11] tipo N na classificação de Petrov.

Rαβ `β = 2`[γ;σ] `γσ H + (`γ H,σ `σ );γ `α ; (70)


 

que, por intermédio das equações de campo, implica que


6 Em relatividade geral, a abordagem de escolher uma base específica
o vetor `α é um autovetor do tensor de energia-momento.
no espaço-tempo ao invés de uma base coordenada, representada
Assim, podemos verificar que [16]: pela métrica, dá origem ao que é conhecido como formalismo das
tétrades. A escolha específica de uma base composta por dois
`γ `ν C γ µνα = A`µ `α , (71) vetores reais e um par de vetores complexo conjugados é conhecida
como formalismo de Newman-Penrose [11].
7 Expansão se refere à taxa com que o volume de uma pequena
onde, A é um escalar dado em termos de `µ , H e ηµν ; logo,
nuvem, inicialmente esférica, de partículas de teste aumenta com
temos que o vetor `µ é um autovetor do tensor de Weyl,
respeito ao tempo próprio da partícula no centro da nuvem. Torção
fato que implica que um espaço-tempo de Kerr-Schild é representa a tendência de um corpo esférico se distorcer em uma
algebricamente especial. forma elipsoidal.

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e20180350-8 Geração de soluções exatas em Relatividade Geral através do Método de Kerr-Schild

3.1.2. Campos de Einstein-Maxwell (I) Se V e Ṽ são soluções de vácuo, então ` é geodésico


com respeito a ambos.
• Caso ρ 6= 0: Neste caso em que há expansão não nula,
(II) Se ` é um vetor geodésico, então, as componentes
as soluções de Kerr-Schild para as equações de
mistas do tensor de Ricci,
Einstein-Maxwell possuem as seguintes propriedades [4]:
R̃αβ = Rα β − 2H`α `ι Rβι + g αι g µν [(H`ν `β );ι
(I) A nova métrica é algebricamente especial e o vetor
nulo, `µ , é autovetor do tensor de Weyl e do tensor +(H`ν `ι );β − (H`β `ι );ν ];µ , (79)
eletromagnético, sendo livre de torção.
(II) Possui pelo menos um grupo uniparamétrico de são lineares em H.
isometrias, com vetor de Killing: (III) Se ` é autovetor de ambos os tensores de Weyl
(de V e Ṽ ), então ele é geodésico. E, se ` é geodésico e
ξ = (c, p, q̄, q), (74) V é algebricamente especial, com ` sendo um autovetor
repetido do tensor de Weyl correspondente, então, Ṽ tem
(III) As soluções de Kerr-Newman e Reissner-Nordström as mesmas propriedades.
se encaixam nesta categoria. (IV) Se uma base {lµ , nµ , mµ , m̄µ } é transportada pa-
ralelamente ao longo de ` (que, por sua vez, pode ser um
• Caso ρ = 0: Métricas de Kerr-Schild com vetor nulo dos vetores da base) em V , o mesmo é válido para Ṽ .
não expansível e geodésico serão, ou de tipo N , ou de Algumas outras propriedades para casos específicos
tipo O, na classificação de Petrov [17]. são apresentadas em [11]; além delas, uma generalização
do resultado apresentado por Gürses e Gürsey em [16]
3.1.3. Campos de Radiação Pura para o caso de uma métrica abitrária é apresentado por
Neste caso, são considerados tensores de energia-momento Gergely em [19].
com a forma Tµν = Φ2 `µ `ν , sendo Φ uma função arbitrá-
ria. Em todo caso, o espaço-tempo será algebricamente 4. Exemplos
especial, com a diferença de que [11]:
A seguir, apresentaremos a obtenção da solução de Reis-
• Caso ρ 6= 0: Para ρ não-nulo, a métrica será, na sner-Nordström partindo da métrica de Minkowski como
classificação de Petrov, tipo II ou tipo N . uma aplicação da transformação original e, como exemplo
da transformação generalizada, a obtenção da solução de
• Caso ρ = 0: Para ρ nulo, a métrica será tipo N .
Bañados-Teitelboim-Zanelli (BTZ) carregada a partir da
solução BTZ sem carga.
3.2. A transformação generalizada
Na transformação generalizada, o Ansatz toma a seguinte 4.1. Solução de Reissner-Nordström
forma:
A solução de Reissner-Nordström descreve um buraco
g̃µν = gµν + 2H`µ `ν , (75)
negro com massa e carga elétrica. Ela foi descoberta
onde gµν é uma métrica arbitrária que seja solução das por Hans Reissner em 1916 e Gunnar Nordström em
equações de campo. A transformação dada pela equação 1918, de forma independente, resolvendo as equações de
(75) deve satisfazer as seguintes propriedades: Einstein-Maxwell, que descrevem o campo gravitacional
√ de um corpo carregado, esfericamente simétrico. A fonte
(76)
p
g̃ µν = g µν − 2H`µ `ν , −g̃ = −g. do tensor de energia-momento, neste caso, corresponde a
um campo elétrico com essa simetria, como veremos a
Se definirmos,
seguir.
α
= Γ̃α α Usando a métrica de Minkowski na forma ds2 = −dt2 +
Dβγ βγ − Γβγ =
dr + r2 dΩ2 , onde dΩ2 = dθ2 + sin θdϕ2 , obtemos o
2

seguinte vetor nulo a partir das equações (62) e (63):


= 2H`α `σ (H`β `γ );σ + g ασ [(H`σ `β );γ
+(H`σ `γ );β − (H`β `γ );σ ], (77) `µ = (−E, E, 0, 0), (80)

obtemos a seguinte expressão para o tensor de Ricci: onde E é uma constante; é trivial a verificação das con-
dições dadas.
ω
R̃αβ = Rαβ + Dαβ;ω ω
− Dσβ σ
Dαω , (78) Aplicando o método, a nova métrica ĝµν ficará com a
seguinte forma:
onde as derivadas covariantes, denotadas pelo ponto e
vírgula, são tomadas em relação à métrica gµν . Também −1 + 2H(r)E 2 −2H(r)E 2
 
0 0
é possível relacionar as bases de ambas as métricas [18].  −2H(r)E 2 1 + 2H(r)E 2 0 0 
.
Sejam V e Ṽ os espaços definidos por gµν e g̃µν , res- ĝµν =  2
 0 0 r 0 
pectivamente, temos as seguintes propriedades [11, 18]: 0 0 0 r2 sin θ

Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 41, nº 4, e20180350, 2019 DOI: [Link]
Ribeiro e cols. e20180350-9

Calculando as componentes não nulas do tensor de Eins- 4.2. Solução BTZ carregada
tein, temos:
A solução BTZ descreve um buraco negro com massa e
2E 2
G t = − 2 (rH 0 (r) + H(r)) ,
t momento angular em um espaço-tempo tridimensional
r com constante cosmológica negativa, o chamado espaço
2E 2
Anti de Sitter (AdS). Foi descoberta por Máximo Baña-
Gr r = − 2 (rH 0 (r) + H(r)) ,
r dos, Claudio Teitelboim e Jorge Zanelli em 1992 [22].
E2 Uma das peculiaridades dessa solução é que ela não pos-
θ
G θ=− (rH 00 (r) + 2H 0 (r)) , sui uma singularidade de curvatura na origem, como
r
E2 usualmente acontece com todo buraco negro em Relati-
Gϕ ϕ = − (rH 00 (r) + 2H 0 (r)) . (81) vidade Geral. De outro lado, embora o nosso universo
r
não tenha três dimensões, o estudo da gravidade tridi-
Utilizando o tensor de energia-momento das equações
mensional é importante devido à sua simplicidade, sendo
de Einstein-Maxwell, dado por:
um laboratório útil para a análise de questões importan-
tes em gravitação. Apesar do campo gravitacional nao
 
1 1
T µν = F µα Fνα − δ µ ν F αβ Fαβ , (82)
8π 4 ter graus de liberdade que se propaguem, a estrutura
onde Fµν é o tensor eletromagnético que, no caso em assintótica do espaço-tempo em (2+1) dimensões é extra-
questão, consiste no campo elétrico de uma carga pontual ordinariamente mais rica que aquela em (3+1) dimensões.
Q: É por esse motivo que os buracos negros tridimensionais

0 Q
0 0
 tem desempenhado um papel importante na conjectura
AdS/CFT 8 e nos cenários de cosmologia de branas 9 .
r2
 − Q2 0 0 0 
Fµν =  A métrica BTZ possui a seguinte forma:
r ;
 0 0 0 0 
0 0 0 0
ds2 = −N 2 dt2 + N −2 dr2 + r2 (N ϕ dt + dϕ)2 , (86)
obtemos as seguintes componentes:
 Q2  onde a função lapso e o desvio angular são, respectiva-
− 2r4 0 0 0
Q2 mente,
µ 1  0 − 2r 4 0 0 

T ν= 2 .
8π  0 Q r2 J2

0 0 
2r 4 2 N 2 (r) = −M + + , (87)
0 0 0 Q l2 4r2
2r 4
J
Usando as equações de campo para encontrar a fun- N ϕ (r) = − 2 , (88)
2r
ção H, temos, por exemplo, analisando a componente
temporal: com −∞ < t < ∞, 0 < r < ∞ e 0 6 ϕ 6 2π. A função
2E2
Q 2 N (r) se anula para dois valores de r, dados por:
− 2
(rH 0 (r) + H(r)) = − 4 , (83)
r 2r   s  2 1/2

M
de onde obtemos H(r) = − 14 EQ2 r2 + Cr (sendo C uma 1 ± 1 − J
2
r± = l  ,
constante), e que satisfaz da mesma maneira as outras  2 Ml 
componentes. Substituindo na métrica, temos:

1 EQ2 2CE 2
 onde r+ é o horizonte de eventos do buraco negro.
2
ds = −1 − + dt2 + Usando essa métrica em (62) e (63), obtemos o seguinte
2 r2 r
vetor nulo:
1 EQ2 2CE 2
 
1− + dr2 p !
2 r2 r E 2 r2 − L2 f (r)
`µ = −E, ,L . (89)
1 Q2 rf (r)
 
C
2 2
+ r dΩ − 4E − 2
+ dtdr. (84)
4 Er2 r
Para obter a solução com carga, anularemos a compo-
Aplicando a transformação dt = dt̂ + u(r)dr, com nente angular; assim, a equação (89) se torna
Cr − Q2  
u(r) = − , E
Cr − Q2 − r2 L = 0 ⇒ `µ = −E, ,0 . (90)
f (r)
e fazendo M = E 2 C, Q02 = Q2 /2, temos:
8A conjectura AdS/CFT (AdS por Anti de Sitter e CFT pelas
Q2
 
2M siglas em inglês de Teoria de Campos Conforme) é uma forma
ds2 = − 1 − + 2 dt̂2
r r generalizada do chamado princípio holográfico, onde a ideia central
é que toda a informação de certo volume está codificada na borda
2 −1
 
2M Q dele.
+ 1− + 2 dr2 + r2 dΩ2 , (85) 9 Estes cenários, inspirados em teoria de cordas, postulam que o
r r
nosso universo é uma membrana (brana) imersa num espaço-tempo
que é a solução de Reissner-Nördstrom [20, 21]. com mais dimensões onde somente a gravidade tem acesso.

DOI: [Link] Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 41, nº 4, e20180350, 2019
e20180350-10 Geração de soluções exatas em Relatividade Geral através do Método de Kerr-Schild

A nova métrica será dada por g̃µν = gµν + 2H(r)`µ `ν , e o termo cruzado dr dt se anula, tal que a métrica se
terá as seguintes componentes: torna:
 2    
−f (r) + 2H(r)E 2 −2H(r) fE(r) 0 2 2 r
ds = − f (r) − Q ln dt̂2
g̃µν = 
 2
−2H(r) fE(r) 1 E2
0 .
 r0
f (r) + 2H(r) f 2 (r)
r2 dr2
0 0 +   + r2 dϕ2 , (94)
As componentes das equações de campo corresponden- f (r) − Q ln rr0
2

tes são:
que é a forma usual da solução BTZ com carga, conforme
1 E2 0 E2 foi publicada originalmente em [23].
t
Gt= 2− H (r) ⇒ T t t ∝ − H 0 (r) , (91)
` r r
1 E2 0 E2 0
r
G r= 2− r
H (r) ⇒ T r ∝ − H (r) , 5. Conclusão
` r r
1
G ϕ = 2 − E H (r) ⇒ T ϕ ∝ −E 2 H 00 (r) .
ϕ 2 00 ϕ O objetivo deste trabalho foi oferecer uma revisão simples
` e concisa do método de Kerr-Schild, bem como as diversas
O termo 1/`2 no tensor de Einstein vem do fato da propriedades que motivam a sua aplicação no contexto
solução se comportar assintoticamente como um espaço- da Relatividade Geral.
tempo AdS, o que leva as equações de campo a terem De fato, sua versatilidade motivou estudos com o obje-
uma constante cosmológica; portanto, o tensor de energia- tivo de encontrar generalizações para um número maior
momento deve ser igual ao tensor de Einstein menos o de dimensões, bem como modificações na forma do An-
termo relacionado à constante cosmológica. satz [24, 25] (como, por exemplo, a adição de um vetor
No caso estudado, o tensor eletromagnético será aquele tipo-espaço); ademais, o método tem sido aplicado com
de uma carga pontual em (2+1) dimensões: sucesso na cosmologia de branas [26]. Além disso, é pos-
 Q
 sível entender o método como a deformação na métrica
0 r 0 causada por uma transformação do espaço-tempo; tal
Fµν =  − Q r 0 0 . deformação, por sua vez, gera um grupo contínuo de
0 0 0 transformações que uma dada métrica pode admitir, os
Desta forma, teremos o seguinte tensor de energia-momento: chamados grupos de Kerr-Schild [27,28], cujo estudo pode
levar a um melhor entendimento da natureza matemática
Q2
do método, bem como à construção de um grupo de ob-
 
− 2r 2 0 0
1 
T µν = Q2
− 2r jetos invariantes sob tais transformações e das simetrias

 0 2 0
8π de uma métrica.

Q2
0 0 2r 2

Desse modo, as equações de campo com constante


cosmológica negativa, dadas por:
Agradecimentos
1 Os autores agradecem as discussões esclarecedoras com N.
Gµ ν − = 8πT µ ν , (92)
`2 Zamorano e J. Zapata. E. R. agradece o apoio financeiro
do Programa Unificado de Bolsas da USP.
produzem H(r) = 2E 2 ln(r/r0 ), sendo r0 uma constante
2
Q

introduzida já na solução original de forma a evitar a


divergência da métrica para r → ∞. Dessa maneira, a Referências
métrica assumirá a seguinte forma:
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[2] R.P. Kerr, Phys. Rev. Lett. 11, 237 (1963).
  
r
ds2 = − f (r) − Q2 ln dt2 [3] R.P. Kerr e A. Schild, in: Proc. Sym. in Applied Math
r0
   XVII, editado por R. Finn (American Math. Soc., Provi-
1 Q2 ln rr0 dence, 1965), p. 199.
+  +  dr2 [4] G.C. Debney, R.P. Kerr e A. Schild, J. Math. Phys. 10,
f (r) f (r)2
1842 (1969).
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2Q2 ln rr0 [6] A.H. Taub, Ann. of Physics 134, 326 (1981).
+ r2 dϕ2 − drdt. (93) [7] B. Schutz, A First Course in General Relativity (Cam-
f (r)
bridge University Press, Cambridge, 2009), p. 184.
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  Londres, 1972), p. 357.
−Q2 ln rr0 [9] G.S. Hall, Symmetries and Curvature Structure in Ge-
u(r) = h   i , neral Relativity (World Scientific Publishing Co. Pte.,
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DOI: [Link] Revista Brasileira de Ensino de Física, vol. 41, nº 4, e20180350, 2019

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