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Universidade de São Paulo VOLUME 31

Faculdade de Saúde Pública NÚMERO 4


AGOSTO 1997
p. 370-7

Revista de Saúde Pública


J O U R N A L O F P U B L I C H E A L T H

31
Ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae) em
criadouros naturais e artificiais de área rural
do Norte do Estado do Paraná, Brasil.
V. Coleta de larvas em recipientes artificiais
instalados em mata ciliar
Mosquito (Diptera: Culicidae) ecology of natural and
artificial rural breeding places in horthern Parana, Brazil.
V. Larvae captured in artificial reservoirs
installed in ciliary forest
José Lopes
Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade Estadual de Londrina.

LOPES, José, Ecologia de mosquitos (Diptera:Culicidae) em criadouros naturais e artificiais de área rural do Norte do Estado de
Paraná, Brasil. V. Coleta de larvas em recipientes artificiais instalados em mata ciliar. Rev. Saúde Pública, 31 (4): 370-7, 1997.

© Copyright Faculdade de Saúde Pública da USP. Proibida a reprodução mesmo que parcial sem a devida autorização do Editor Científico.
Proibida a utilização de matérias para fins comerciais. All rights reserved.
370 Rev. Saúde Pública, 31 (4): 370-7, 1997

Ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae)


em criadouros naturais e artificiais de área rural
do Norte do Estado do Paraná, Brasil.
V. Coleta de larvas em recipientes artificiais
instalados em mata ciliar*
Mosquito (Diptera: Culicidae) ecology of natural and artificial
rural breeding places in horthern Parana, Brazil.
V. Larvae captured in artificial reservoirs installed
in ciliary forest

José Lopes
Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade Estadual de Londrina.

Resumo

Introdução A utilização pelos Culicidae de recipientes contendo água para a colocação de


seus ovos, em área antropogênica, pode indicar plasticidade genética que os
direcione evolutivamente no sentido da domiciliação. Nesse sentido, foram
coletadas as diferentes espécies de Culicidae que colonizam recipientes alocados
em mata ciliar, na área rural.

Material e método Foram instalados recipientes de pneu, plástico, lata e bambu, em mata ciliar, em
área rural no Norte do Paraná, Brasil.
Resultados Coletaram-se larvas de Cx. grupo coronator, Cx. declarator, Cx. laticlasper, Cx.
(Melanoconion) secção Spissipes, Cx. tatoi, Tr. compressum, Tr. pallidiventer,
Ae. terrens, Cx. mollis, Cx. bigoti, Hg. leucocelaenus, Cx. eduardoi, Cx. quinque-
fasciatus, Li. durhamii e Toxorhynchites sp. As cinco primeiras espécies foram
específicas de pneus. As duas espécies de Trichoprosopon ficaram restritas a
bambu. Ae. terrens e Cx. mollis foram caletadas em pneu e bambu, Cx. bigoti foi
coletada em pneu, lata e bambu, enquanto que Hg. leucocelaenus só não foi en-
contrada em lata. As quatro últimas espécies foram coletadas em todos os tipos de
recipientes. Cx. quinquefasciatus, Cx. eduardoi, Li. durhamii tiveram signifi-
cante flutuação populacional.

Conclusões O pneu caracterizou-se como o recipiente mais aceito pelos culicídeos. As áreas
onde a mata ciliar esteve mais densa e o locais onde o solo esteve mais úmido
foram os pontos com maior número de capturas. A mata ciliar, mesmo muito
reduzida e alterada, foi suficiente para abrigar várias espécies de culicídeos. As
espécies caputradas podem ser portadoras de plasticidade gênica que as capaci-
tem a colonizar ambientes antropogênicos.
Culicidae. Ecologia de vetores.

* Parte da tese de doutorado apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Entomologia da Universidade Federal do Paraná, em 1992.
Correspondência para/Correspondence to: José Lopes - Caixa Postal 6001 - 86051-970 Londrina, PR - Brasil. Fax: (043) 371-4207
Recebido em 8.7.1996. reapresentado em 19.12.1996. Aprovado em 27.1.1997.
Ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae) Rev. Saúde Pública, 31 (4), 1997 371
Lopes, J.

Abstract

Introduction The use of receptacles containing water for the laying of the Culicidae eggs in
an anthropogenic area, may indicate a genetic plasticity thet leads them evolu-
tionarily towards domiciliation. Thus, the varions species of Culicidae which
colonize the receptables placed in reparian forest were collected for this study.
Material and methods The materials used were: Tires, plastic, can and bamboo receptacles, installed
in a rural area of a reparian forest along a river in Northern Parana, Brazil.

Results The results were obtained by means of the collection of [Link] coronator, Cx.
declarator, Cx. laticlasper, Cx. (Melanoconion), Cx. section Spissipes, Cx.
mollis, Ae. terrens, Tr. compressum, Tr. pallidiventer, Hg. leucocelaenus, Cx.
quinquefasciatus, Li. durhamii and Toxorhynchites sp larvae. The first five spe-
cies were tire specific, while the two Trichoprosopon species were bamboo spe-
cific. Ae. terrens and Cx. mollis were collected both in tires and bamboo, Cx.
bigoti was collected in tires, cans and bamboo, while Hg. leucocelaenus could
only be found in cans. The last four species were collected in all kinds of recep-
tacles. Cx. quinquefasciatus, Cx. eduardoi and Li. durhamii had significant
population fluctuations.
Discussion Tires were characterized as the receptacle most acceptable to the Culicidae.
The areas where the forest was the densest and the places where the soil was
the most humid were the spots with the highest capture register.
Culicidae. Ecology, vectors.

INTRODUÇÃO MATERIAL E MÉTODO

A utilização de recipientes artificiais contendo A presente pesquisa foi realizada na mata ciliar do
água como locais de deposição de ovos pelas fêmeas Ribeirão São Domingos que tem a sua nascente no Muni-
cípio de Cambé e foz no Ribeirão Cafezal, já no Municí-
grávidas de Culicidae pode corresponder a mero
pio de Londrina, Paraná. Essa região caracteriza-se por
oportunismo ou indicar mudanças de hábitos (Beier
plantações de café, pastos artificiais e culturas semestrais,
e col6., 1983; Luz e col.24, 1987). principalmente milho, trigo e soja.
Juntamente com a mudança de hábito por parte do A mata ciliar reduzida está presente em quase toda a
adulto, a sobrevivência e o desenvolvimento das lar- extensão do ribeirão e é caracterizada como mata de rege-
vas, em criadouros artificiais, pode indicar que esses neração, embora ocorram algumas árvores de médio e
mosquitos sejam portadores de adaptação genética. A grande porte. A largura média da mata ciliar nesta região
utilização de recipientes, como criadouros, em área é de 5 m em cada margem (Fig.1). Descrição detalhada da
antropogênica, evidencia plasticidade genética que os mata ciliar pode ser vista em Lopes e col.22 (1995).
A escolha dos diferentes tipos de recipientes para os
direcionam evolutivamente no sentido da
criadouros recaiu sobre lata, pote plástico, bambu e pneu
domiciliação.
(Fig.2). Descrição detalhada desses recipientes pode ser
Estudos relacionados a criadouros artificiais na encontrada em Lopes e col.22 (1995).
área urbana de Londrina-PR foram realizados por Silva Para a instalação dessas armadilhas, foram determina-
e Lopes29 (1985) e Lopes e col21. (1993), quando cap- das cinco estações de coleta ao longo das margens do Ri-
turaram Culex quinquefasciatus, Cx. grupo coronator, beirão São Domingos, distantes 2 km uma da outra. As co-
Cx. mollis, Cx. corniger, Cx. bigoti, Aedes fluviatilis, letas foram quinzenais desde junho de 1988 até junho de
Ae. aegypti, Anopheles argyritarsis, Limatus durhamii, 1989. Para cada local de coleta instalaram-se os recipientes
Toxorhynchites sp e Psorophora cingulata. escolhidos. Todos os criadouros foram instalados em posi-
ção vertical e amarrados ao tronco de uma árvore ao nível
A presente pesquisa teve como objetivo catalo-
do solo. Os recipientes foram preenchidos com água de
gar as espécies de Culicidae que colonizam recipi-
poço. Nas coletas, o conteúdo de cada criadouro foi filtra-
entes alocados na mata ciliar, na área rural. Os resul- do com peneira de coar óleo, de malha de 200 µm de diâ-
tados permitiram ainda inferir sobre as preferências metro e a água foi recolocada no criadouro, cujo volume
pelos tipos de recipientes, variações populacionais, inicial era recomposto com água de poço, caso fosse neces-
sucessão de espécies e outras informações de cunho sário. Para a coleta dos conteúdos dos pneus, foi utilizada
ecológico. uma bomba para retirar gasolina do tanque de autos.
372 Rev. Saúde Pública, 31 (4), 1997 Ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae)
Lopes, J.

Figura 1 - Vista geral da mata ciliar que margeia o Ribeirão Figura 2 - Recipientes utilizados para coleta de larvas.
São Domingos, Municípios de Cambé e Londrina, Paraná. (pneu, bambu, latas e plástico).
Figure 1 - General view of the reparian forest which Figure 2 - Recipients used for larvae gathering.
borders the S. Domingos stream where this research
project was carried out.

No laboratório, as larvas eram contadas e colocadas juntamente com outras espécies, mantendo-se em to-
para criar. As identificações basearam-se nas exúvias das dos os meses do ano. Todavia, os outros tipos de reci-
larvas de quarto instar e nos respectivos adultos. Uma pientes somente foram colonizados por esta espécie,
amostra do material biológico foi encaminhada ao Labo- na primavera e início do verão, justamente quando a
ratório de Entomologia, da Faculdade de Saúde Pública,
densidade populacional atinge seu máximo.
para confirmação das espécies. Os Culicidae coletados
estão depositados na coleção de insetos da Universidade Culex eduardoi embora tenha aparecido nos qua-
Estadual de Londrina. tro tipos de recipientes, mostrou ampla preferência
por pneu estando presente durante todo o ano, com
RESULTADOS pico populacional em outubro, sobrepondo-se a Cx.
quinquefasciatus. Nos outros tipos de recipientes, sua
Coletaram-se 21.003 larvas de Culicidae. As la- presença pode ser considerada ocasional.
tas contribuíram com 6,0%, potes plásticos com Limatus durhamii foi a primeira a colonizar os
8,9%, bambus com 8,8%. A abundância dominante recipientes de plástico e pela distribuição tempo-
foi em pneu, com 76,3% dos espécimens coletados. ral observa-se que esta espécie sucede a Cx. quin-
As espécies Culex grupo coronator, Cx. decla- quefasciatus em todos os tipos de recipientes, mos-
rator, Cx. laticlasper, Cx. (Melanoconion) secção trando maior densidade populacional no verão e
Spissipes sp, e Cx. tatoi só foram coletadas em pneus no outono.
e as duas espécies de Trichoprosopon em bambus. Larvas de Culex mollis foram capturadas em bam-
Culex eduardoi, Cx. quinquefasciatus, Limatus bu e em pneu, enquanto que Cx. laticlasper só foi
durhamii e Toxorhynchites sp, demonstraram maior capturada em pneu e mais freqüentemente em água
plasticidade, colonizando os quatro tipos de recipi- limpa e no inverno. Culex bigoti foi coletada uma
entes. As espécies Culex mollis, Cx. bigoti e Aedes vez em lata e bambu. Sua maior freqüência ocorreu
terrens tiveram preferências por pneus, enquanto que em criadouros de pneu. Haemagogus leucocelaenus
Haemagogus leucocelaenus, por bambu. teve freqüência semelhante nos recipientes de bam-
Culex quinquefasciatus, Cx. eduardoi e Li. bu e pneus, todavia a densidade populacional sem-
durhamii foram as espécies dominantes e juntas pre foi maior quando em bambu.
totalizam 93,5% de todas as larvas coletadas. Culex eduardoi, Cx. bigoti e Cx. laticlasper fo-
As Tabela 1, 2, 3 e 4 mostram as espécies captura- ram mais coletadas na estação 1 que se caracteriza-
das colonizando os diferentes tipos de recipientes e a va por um local de maior umidade, enquanto que Li.
distribuição mensal do número médio de cada espécie. durhamii, Hg. leucocelaenus e Toxorhynchites sp.
Culex quinquefasciatus foi a primeira espécie a mostraram preferências pela estação 4, de coleta,
colonizar os recipientes de lata, bambu e pneu, embo- onde a mata ciliar estava mais desenvolvida quando
ra neste útimo aparecesse no primeiro mês do estudo comparada com a das outras estações.
Ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae) Rev. Saúde Pública, 31 (4), 1997 373
Lopes, J.

Tabela 1 - Média mensal de larvas de Culicidae coletadas colonizando recipientes de lata na mata ciliar do Ribeirão São
Domingos, nos Município de Cambé e Londrina (PR), no período compreendido entre 6/1988 a 6/1989.
Table 1 - Monthly average of Culicidae larvae collected when colonizing can recipients in the reparian forest of the S.
Domingos stream, in the Cambé and Londrina counties (State of Paraná), from 6/1988 to 6/1989.
Espécies Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun.
Culex bigoti 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 1,4 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Cx. eduardoi 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 20,6 31,7 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Cx. quinquefasciatus 0,0 0,0 3,3 0,8 12,7 0,2 25,7 0,1 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Limatus durhamii 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 1,0 3,6 5,7 7,5 3,9 4,1 0,9 0,0
Toxorhynchites sp 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,0 0,0 0,0 0,0

Tabela 2 - Média mensal das larvas de Culicidae coletadas em recipientes de plástico na mata ciliar do Ribeirão São
Domingos, nos Municípios de Cambé e Londrina (PR), no período de 6/1988 a 6/1989.
Table 2 - Monthly average of Culicidae larvae collect in plastic recipients in the reparian forest of the S. Domingos stream, in
the Cambé and Londrina counties (State of Paraná) from 6/1988 to 6/1989.
Espécies Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun.
Culex eduardoi 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 0,0 0,0 0,0 0,3 0,1 0,0
Cx. quinquefasciatus 0,0 0,0 0,0 0,5 13,5 0,1 0,4 0,2 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Haemagogus leucocelaenus 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,1 0,0 0,0
Limatus durhamii 2,6 0,2 0,1 2,0 1,0 8,9 10,7 26,0 48,1 23,2 39,3 6,9 1,9
Toxorhynchytes sp 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,0 0,0 0,0 0,0

Tabela 3 - Média mensal das larvas de Culicidae em recipiente de bambu na mata ciliar do Ribeirão São Domingos, nos
Municípios de Cambé e Londrina (PR), no período de 6/88 a 6/l989.
Table 3 - Monthly average of Culicidae larvae in bamboo recipients in the reparian forest of the S. Domingos stream, in the
Cambé and Londrina counties (State of Paraná) from 06/1988 to 06/1989.
Meses Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun.
Aedes terrens 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 2,9 0,0 0,0 0,8 0,0 0,2
Culex bigoti 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,0
Cx. eduardoi 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 10,8 1,8 0,0
Cx. mollis 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 13,6 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Cx. quinquefasciatus 0,0 0,0 0,0 16,4 0,9 48,7 0,2 17,1 9,5 11,5 0,0 7,0 0,0
Limatus durhamii 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,2 0,8 3,0 4,6 9,5 9,2 3,3 0,2
Haemagogus leucocelaenus 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,4 0,1 4,5 2,3 1,3 0,0 0,1
Toxorhynchites sp 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,3 0,1 0,1 0,0 0,0
Trichoprosopon compressum 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 1,2 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Tr. pallidoventer 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,8 0,0

Tabela 4 - Média mensal de larvas de Culicidae em pneus instalados em mata ciliar do Ribeirão São Domingos, nos
Municípios de Cambé e Londrina (PR), no período de 6/88 a 6/l989.
Table 4 - Monthly average of Culicidae larvae in tires placed in the reparian forest of the S. Domingos stream, in the Cambé
and Londrina counties (State of Paraná) from 6/1988 to 6/1989.
Espécies Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. Jan. Fev. Mar. Abr. Mai.
Ae. terrens 0,0 0,0 0,3 0,2 0,0 0,0 0,5 0,0 0,0 0,7 0,0 0,0
Culex bigoti 0,0 0,8 1,9 1,0 2,1 2,1 2,2 0,6 1,2 1,2 1,7 0,4
Cx. coronator 0,0 0,4 1,4 0,0 0,0 0,1 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Cx. declarator 0,5 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Cx. eduardoi 51,7 33,1 88,3 113,8 135,1 42,1 37,3 7,0 14,5 2,2 5,4 26,8
Cx. laticlasper 14,0 7,0 4,9 0,0 3,6 0,0 0,0 0,0 0,1 0,0 0,0 0,0
Cx. (Melanoconion) sp 0,0 1,4 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 3,0
Cx. mollis 7,0 0,5 3,3 6,7 0,0 0,2 0,0 0,0 0,0 6,1 1,9 4,0
Cx. quinquefasciatus 11,9 3,5 44,6 125,0 110,4 65,5 15,1 20,4 20,3 23,6 0,8 4,0
Cx. tatoi 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,3 0,1 0,0 0,0
Limatus durhamii 4,7 0,6 0,0 1,8 0,8 16,9 12,0 53,0 93,4 97,1 93,4 11,1
Haemagogus leucocelaenus 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 3,6 0,6 0,0 0,0 0,1 0,0 0,4
Toxorhynchites sp 0,0 0,0 0,2 1,0 0,0 0,5 0,0 0,2 0,1 0,2 1,1 0,7
374 Rev. Saúde Pública, 31 (4), 1997 Ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae)
Lopes, J.

Globalizando os resultados obtidos nos quatro Culex quinquefasciatus apresentou pico popula-
diferentes tipos de recipientes para as três espécies cional em setembro e, Cx. eduardoi, em outubro.
mais abundantes, e trabalhando os resultados em Essas flutuações parecem estar relacionadas à tem-
forma de média mensal, transformadas em raiz peratura ambiental que exerce influência sobre a fi-
(x+0,5), aplicou-se o teste de Análise de Variância, siologia da reprodução, já que os criadouros foram
que foi significativo a nível de 5% (P<0,05), indi- mantidos com água durante todo o ano. Barrera e
cando flutuação populacional. O teste de Duncan col.4 (1979) concluíram que as interferências do ho-
separou os meses de novembro, agosto a outubro e mem em recipientes no cemitério alterava o proces-
janeiro a abril como os meses mais produtivos para so de variação populacional.
Cx. quinquefasciatus, Cx. eduardoi e Li. duramhii, Culex quinquefasciatus e Cx. eduardoi mostra-
respectivamente. Na Análise de Regressão Linear ram preferência significativa por pneu, sendo o apa-
feita entre a média mensal de larvas destas espé- recimento nos outros três tipos de recipientes,
cies e os fatores físicos ambientais, temperatura e meramente ocasional. No experimento realizado por
precipitação pluviométrica, os resultados foram não Lopes e col.21 (1993), na área urbana de Londrina-
significativos. PR, a preferência de Cx. quinquefasciatus também
Pelo Teste de Tukey, Cx. eduardoi e Cx. quin- foi por pneus, seguido por tambores, latas, caixas
quefasciatus mostraram preferências significativas d’água, recipientes plásticos e vasos. As altas fre-
pelos recipientes de pneu. Li. durhamii não demos- qüências de Cx. quinquefasciatus verificadas em re-
trou diferenças significativas de preferência entre re- cipientes de plástico não permitiram a caracteriza-
cipiente de plástico e pneu. ção de ocorrências ocasionais.
Segundo Beier e col.6 (1983), a presença de larvas
DISCUSSÃO em buracos de árvores e em pneus, quando estes estão
próximos, está na dependência da abundância popula-
Culex quinquefasciatus, Cx. eduardoi e Li. cional local e da habilidade de colonizar pneus. Assim
durhamii revelaram plasticidade genética suficiente sendo, a variação constante observada na densidade
para torná-las aptas a colonizar os quatro tipos de população de Cx. quinquefasciatus, nos recipientes de
recipientes pesquisados, tendo sido as espécies pre- lata, pode tratar-se de colonização oportunista e a ocor-
dominantes. rência de setembro a janeiro coincide com a época de
A constatação de apenas três espécies dominan- maior densidade populacional dessa espécie. A alta
tes em criadouros artificiais está correlacionado ao densidade populacional nessa época do ano pode ter
observado por Jenkins e Carpenter17 (1946) Mictchell forçado a oviposição em recipientes usualmente pouco
e Rockett25 (1981) e Beier e col.6 (1983), apontaram aceitos. Este mesmo fenômeno pode ter ocorrido nos
que em buraco de árvore, criadouros naturais, uma potes de plástico. Por outro lado, esta hipótese pode
ou duas espécies eram dominantes, reforçando a hi- também ser aplicada a Cx. eduardoi quando apareceu
pótese de que muitas espécies que colonizam recipi- colonizando recipientes de plástico, lata e bambu.
entes podem ter evoluído a partir deste último tipo Estudando a dispersão de Aedes atropalpus,
de criadouro. Nawrocki e Craig Jr.26 (1989) observaram nítida pre-
A flutuação populacional observada para as três ferência por pneu, e que a espécie só passava a colo-
espécies indica que Cx. quinquefasciatus e Cx. nizar outros tipos de recipientes quando a população
eduardoi foram mais ativas reprodutivamente na pri- local se tornava muito alta.
mavera e mantiveram populações representativas no Em recipientes de bambu, Cx. quinquefasciatus
inverno, enquanto que Li. durhamii, espécie abun- apresentou freqüências mais constantes do que em lata
dante no verão, quase desapareceu na estação fria. e pote plástico. Isto demonstra melhor aceitação pelo
Isso pode demonstrar maior resistência das duas pri- bambu, quando comparado aos outros dois tipos de
meiras espécies para variações da temperatura do am- recipientes, mas não caracteriza a condição ideal.
biente, em termos reprodutivos. Resultados pareci- Amerasinghe e Alagoda1 (1984) utilizaram arma-
dos, para Li. durhamii, tinham sido observados por dilha de bambu, e coletaram Cx. quinquefasciatus em
Lopes e col.20 (1987), onde obtiveram flutuação po- freqüências regulares. A estrutura da armadilha se di-
pulacional com maiores densidades, entre janeiro e ferenciava da usada no presente experimento porque
maio, com pico em março. Também foi constatada tinha uma tampa de madeira na abertura superior.
flutuação com aumento da densidade nos meses de Limatus durhamii reproduziu-se preferencialmente
verão, na Região Amazônica, estando correlaciona- em pneu e em pote plástico, mas o aparecimento re-
da com a precipitação (Lopes e col.19, 1985). gular em lata e em bambu demostrou a sua aceitação
Ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae) Rev. Saúde Pública, 31 (4), 1997 375
Lopes, J.

por estes. Resultados semelhantes foram observados Culex laticlasper foi a primeira a colonizar os
por Lopes e col.19 (1985) que demonstraram predo- pneus, concentrando-se nos meses iniciais da pes-
minância de Li. durhamii em recipientes de plástico. quisa, no inverno. Por não aparecer na fase final do
Na Ilha de Marajó-PA, a espécie mais abundante trabalho, que correspondeu à mesma estação no ano
em criadouros artificiais peridomiciliares, a exem- seguinte, pode-se sugerir preferência por águas lim-
plo do aqui observado, foi Li. durhamii (Kumm e pas e pobre em materia orgânica em decomposição.
Novis 18, 1938). Em Jacarepaguá-RJ, não foi coleta- Também poderia não ser capaz de suportar forte pres-
do em criadouros naturais, mas somente em recipi- são de competição com outras espécies.
entes pequenos, médios e grandes (Lourenço-de-Oli- A sua reprodução em pneus, como observado no
veira e col.23, 1986). Lopes e col. 19 (1985) observa- presente trabalho, leva a supor que a sua reprodução
ram a valência ecológica para Li. durhamii coloni- usual se dá em buracos de árvores, já que há várias
zar diferentes tipos de ecótopos, sendo esta espécie publicações mostrando que os mosquitos encontra-
predominante em capoeira e passando a ocupar a ter- dos desenvolvendo-se em pneus têm como criadouro
ceira posição na floresta. primitivo buracos de árvores (Williams 32 , 1962;
As espécies de Cx. eduardoi e Cx. laticlasper que Restifo e Lanzario28 , 1980; Beier e col.6, 1983;
foram mais coletadas na estação 1, podem preferir Andreadis2, 1988; Baumgatner5, 1988; Nawrocki e
áreas mais úmidas, já que esta estação caracterizou- Craig26 Jr., 1989).
se como a nascente do ribeirão, em cujos barrancos Lopes e col.21 (1993), entre muitos recipientes dis-
brotava água em vários pontos. Esta situação pode poníveis, só coletaram Cx. bigoti em pneu. Davis 11
lembrar condições primitivas pantanosas. Li. (1944) somente a encontrou em poças, com ou sem
durhamii, Hg. leucocelaenus e Toxorhynchites sp. vegetação. Kirihara e Ichimeri (1975) coletaram
foram mais freqüentes onde a mata ciliar estendia-se Culex vorax, que também pertence ao subgênero
em largura. Podem assim preferir áreas de maior Lutzia, em recipientes artificiais. Com o presente ex-
sombreamento, característica que pode ser conside- perimento acrescenta-se o achado em lata e bambu.
rada primitiva em relação à domiciliação. Culex declarator aparece na literatura especi-
Culex quinquefasciatus, Cx. eduardoi, Li. durhamii, alizada como sendo comum em criadouros artifici-
Cx. coronator e Cx. mollis foram as espécies que apre- ais e com ampla distribuição no Brasil. Todavia, para
sentaram características euriécias, com adaptações ge- as condições ambientais dos locais examinados no
nético-ecológicas suficientes para lhes garantir maior presente trabalho, apareceu como pouco adaptada.
sobrevivência em ambientes antropogênicos. Pelos dados bibliográficos, aceita-se que esse mos-
Guimarães e col.16 (1985) asseguraram que entre quito mostra características de peridomiciliar urba-
os sabetíneos, Li. durhamii parece ser a espécie me- no (Correia e Ramalho9, 1959; Fize13, 1976; Gomes
lhor adaptada ao convívio urbano. O alto potencial e Forattini15, 1990).
para a domiciliação relaciona-se diretamente com a A adaptabilidade Cx. (Melanoconion) ao ambi-
compatibilidade com diferentes tipos de criadouros, ente, investigado na presente pesquisa, pode ainda
sejam naturais ou artificiais. Os achados da presente estar reduzida a grupos de indivíduos, já que sua fre-
pesquisa corroboram com a tese desses autores. qüência e abundância foram baixas.
Silva e Lopes29 (1985) localizaram Cx. corona- Pelos achados em ecótopos artificiais e pela co-
tor dentro de um cemitério em Londrina-PR e cons- lonização de pneus em área totalmente afastada de
tataram também maiores populações nas estações mata primária e de alagados, pode-se suspeitar de
mais quentes do ano, igualmente ao obtido no pre- uma plasticidade genética por parte dos representan-
sente estudo. Em outro estudo realizado em área mais tes dessas espécies para colonizar mata ciliar.
ampla da cidade de Londrina-PR, Lopes e col.21 Haemagogus leucocelaenus é um aedino encon-
(1993) encontraram esta espécie colonizando gran- trado freqüentemente colonizando internós de bam-
de variedade de recipientes, com destaque para reci- bu e buracos de árvore. No presente experimento foi
pientes metálicos e pneus. coletado preferencialmente em bambu.
Gomes e Forattini15 (1990) afirmaram que Culex Chadee7 (1983) encontrou Haemagogus celeste
mollis apresentava características silváticas, mesmo (Dyar e Shannon) em pneu, nas Ilhas Monos, embora
estando em mata secundária ou residual, mas a sua seja um mosquito conhecido por procriar em buraco
grande mobilidade pode sugerir o desenvolvimento de árvore e bambu (Chadee e col.8, 1981). Esses auto-
evolutivo para adaptação onde o homem mantém ati- res fazem o primeiro relato de Hg. equinus em pneu e
vidades. A aceitação de recipientes artificiais refor- recipiente peridomiciliar, em Tobago-África, junta-
ça esta hipótese. mente com Cx. quinquefasciatus e Li. durhamii.
376 Rev. Saúde Pública, 31 (4), 1997 Ecologia de mosquitos (Diptera: Culicidae)
Lopes, J.

Hg. leucocelaenus encontrado em pote plástico pode ser o principal responsável pelos casos de um único
ser considerado mero acaso, mas as quatro vezes em animal encontrado no criadouro. Trpis30 (1972) tam-
que foi observada em pneu, leva a se admitir a existên- bém encontrou alta freqüência de recipientes com
cia de representantes dessa espécie com valência eco- uma única larva de Tx. brevipalpis, justificada essa
lógica suficiente para colonizar pneu. Mesmo em bam- freqüência pela ação canibalística.
bu, a situação coracterizou-se como condição artifici- Aedes terrens foi pouco freqüente e com densida-
al, pois tratava-se de apenas um internó, aberto na sua de populacional baixa. Em bambu, sempre esteve
parte superior e instalado ao nível do solo, muitas vezes como única espécie colonizadora, mas, em pneu, foi
longe da área de bambuzal ou taquaral. Os resultados observada coexistindo com a maioria das espécies que
encontrados mostram que Hg. leucocelaenus está adap- colonizaram este tipo de recipiente. A espécie é tida
tado a ambientes alterados. como capaz de proliferar em maior freqüência acima
Toxorhynchites sp foi coletado predominantemen- do nível do solo, sendo comumente encontrada em
te em pneu. Este resultado é semelhante ao observa- bambus e buracos de árvores e raramente em bromélias
do para Toxorynchites rutilus rutilus (Coquillett) e poças no solo (Kumm e Novis18, 1938; Davis10, 11, 12,
(Bailey e col.3, 1983). 1944, 1945; Neves e Faria27, 1977; Amerasinghe e
Em lata e pote plástico, os encontros foram ape- Alagoda1, 1984; Lourenço-de-Oliveira e col.23, 1986).
nas de um exemplar, o que pode sugerir ocorrência Trichoprosopon compressum e Tr. pallidiventer
ocasional. Trpis31 (1972), analisando recipientes, en- (Lutz) só foram coletadas em recipientes de bambu,
controu menor freqüência de Toxorynchites brevi- com freqüência e abundância muito baixa. Esses da-
palpis Theobald, em lata. dos são úteis para o registro da ocorrência dessas
Trpis 30 (1972) capturou larvas de Tx. brevipalpis espécies e mostraram também que as mesmas não
em recipientes em área suburbana na África. Focks aceitaram recipientes outros que não os de bambu.
e col.15 (1982) afirmaram que esta espécie, junta- Desta forma, a presença das mesmas em mata ciliar
mente com Toxorynchites amboinensis Doleschall, estaria na dependência da existência desse tipo de
poderia fazer oviposições em áreas abertas e em re- vegetação. Tr. pallidiventer foi coletado duas vezes
cipientes. na estação 4, exatamente onde existia uma moita de
A ocorrência de um ou dois indivíduos foi pre- bambu, e Tr. compressum só foi coletado uma vez,
dominante. A postura de ovos isolados evita o cani- na estação 5, que apresentava predominância de
balismo. Por outro lado, o canibalismo também pode Bambusa, conhecida como vara-de-pescar.

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