DEBATE
MONOPÓLIOS E
Jorge Antonio Pasin
Membro do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura
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D E B ATE
A
literatura e o pensamento econômicos têm, de um modo geral,
uma visão negativa sobre os monopólios e oligopólios, sejam
eles públicos ou privados. Estes dois tipos de estrutura de mer-
cado representariam entraves à performance máxima da eco-
nomia. Modulando o preço das mercadorias pelas quantidades
produzidas, as firmas com poder de mercado prejudicariam a
alocação ideal de recursos, levando ineficiência nos setores em
risco de, no longo prazo, estar em situação inferior a uma outra
estratégia que não maximize em nenhum ponto do tempo. Isso
acontece porque a abdicação de um ganho presente pode ser
uma condição essencial para um nível ou velocidade de desen-
volvimento futuro superior. Um sacrifício vitorioso de dama no
xadrez é um exemplo nítido de planejamento estratégico ven-
cedor.
que se instalam. Além disso, não se deve medir a performance de um merca-
A oposição aos monopólios e oligopólios se faz em diversas do simplesmente tomando-se para análise um determinado
frentes, mas a principal linha de ataque à concentração ponto no tempo. Como se está lidando com um processo orgâ-
mercadológica argumenta que o crescimento de estruturas nico, analisar o que acontece em uma particularidade dele pode
oligopolísticas, ao minar o livre jogo competitivo, seria respon- até esclarecer alguns detalhes a respeito de seus mecanismos
sável por um nível de produção inferior ao que vigoraria em um de funcionamento, mas certamente será inconclusivo sobre sua
ambiente de mais concorrência. Outro argumento é o de que a tendência de longo prazo. Faz-se necessário examinar todo o
taxa média de crescimento do PIB é inferior àquela factível sem processo.
tais imperfeições de mercado. Em outras palavras, criticar o comportamento de um setor
Neste artigo procura-se qualificar ambas as ofensivas, recons- oligopolizado a partir do ângulo míope concernente à observa-
truindo a argumentação schumpeteriana de que o capitalismo ção momentânea, apregoando que tal estrutura de mercado
é, por natureza, um sistema caracterizado pela constante mu- conduz somente a preços altos e a produção reduzida envolve
dança em sua infra-estrutura econômica e estendendo aos efei- o risco de se cometer graves erros de avaliação.
tos a priori os motivadores de investimento propiciados por mer- Na pura abordagem hicksiana, que aufere mudanças no bem-
cados concentrados. Embora uma estrutura de mercado em que estar social por meio de alterações nos preços e nas quantida-
se observa a presença de firmas com poderio oligopolístico ve- des produzidas, desloca-se o foco de atenção para uma análise
nha usualmente a representar, no curto prazo, um nível de pro- sobre como o capitalismo está administrando a sociedade e sua
duto menor em conseqüência dos maiores preços praticados, a infra-estrutura econômica, quando o problema a ser discutido é
longo prazo a assertiva pode não se manter verídica. como o capitalismo cria e destrói essa infra-estrutura. Não que o
Segundo Schumpeter, em seu Capitalism, Socialism and conceito de excedente de Hicks seja inapropriado; equivocado
Democracy, o impulso fundamental que configura e mantém o é o uso que por vezes se faz dele, empregando uma ferramenta
motor capitalista em ação vem de suas inovações, dos novos pro- de estática comparativa em uma análise dinâmica.
dutos, dos novos métodos de produção, organização industrial, No mundo real, a competição que realmente existe é a luta
mercados ou meios de transporte. Tais inovações aflorariam ao pelo novo produto, pela nova tecnologia, pela inovação, que por
sistema como estalos, em arrancos ou saltos. O revolucionar in- sua vez conduzirá a vantagens decisivas em preço ou qualida-
cessante nos alicerces econômicos faria com que a base da socie- de, remodelando as firmas que as possuírem não em suas mar-
dade capitalista estivesse sendo constantemente destruída e gens de lucros ou produção, mas em seus fundamentos mais
substituída por uma nova, criada a partir da primeira. Esse pro- essenciais: suas funções de produção.
cesso de destruição criadora seria então o fato essencial sobre o Um exemplo prático é o fenômeno generalizado do desapa-
capitalismo. É disso que o capitalismo se constituiria, e isso é onde recimento das pequenas quitandas de esquina, que foram per-
tudo que envolve as relações capitalistas teria de viver. dendo lugar para os grandes supermercados. Não foi nada rela-
Uma estratégia — qualquer estratégia, concernente ao âm- cionado à concorrência entre as “vendinhas” que fez com que
bito econômico ou não — que em cada um dos pontos ao lon- esses pequenos estabelecimentos comerciais ficassem frágeis,
go do tempo escolhe utilizar plenamente suas possibilidades mas sim o surgimento de um competidor com uma organiza-
para obter o ganho máximo possível, naquele instante corre o ção completamente nova. Não se pode considerar indiscrimina-
OLIGOPÓLIOS
Forças inovadoras do capitalismo
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damente como saída para uma firma em dificuldades de mer- vido pela redução de custos propiciada pela inovação, que trará
cado apenas uma redução nos custos que faça cair o seu binômio deslocamentos para cima da função de produção, acarretando
preço-custo marginal. Em alguns casos tal abordagem não sur- mudanças para baixo na curva de oferta.
tirá qualquer efeito, como neste exemplo, em que o supermer- É preciso atentar, no entanto, que as barreiras à entrada de
cado vende ao consumidor pelo preço que o quitandeiro com- novas firmas deve ser de cunho exclusivamente econômico, e
pra de seu fornecedor. nunca legal. Monopólios constituídos em lei são um estímulo
Nesse contexto, o centro lógico dos interesses das firmas que ao relaxamento gerencial na medida em que liberam as firmas
desejam sobreviver deve residir no investimento em pesquisa e favorecidas de lutar contra a entrada de novas empresas no
desenvolvimento. As inovações futuras que esse tipo de inver- mercado. Sem a proteção legal, as empresas monopolistas, em
são possibilitará serão a principal arma das empresas para obter concorrência monopolística, ou em mercados oligopolizados
competitividade sempre que a redução de que realmente quiserem manter sua posi-
preços se mostrar necessária. Isso acontece ção de liderança estarão forçadas a operar
porque a estrutura de custos de uma firma a pleno vapor o processo de investimento,
depende fundamentalmente da tecnologia Setores que contam para o bem do qual despesas com pessoal
e do capital possuídos. A destruição criado- improdutivo, má estruturação, desperdício
ra só consegue acontecer por intermédio da com as benesses do e ineficiência interna serão intoleráveis. Sob
inovação, que por sua vez necessita do in- pena da entrada de concorrentes no setor
vestimento para se materializar. monopólio ou e posterior falência empresarial.
Sendo assim, a pujança que no longo Assim, de um modo geral, no curto pra-
prazo pode expandir o produto e fazer de- zo os preços serão tão menores e as quanti-
clinar os preços é feita de algo que a con- oligopólio dades produzidas tão maiores (portanto,
corrência perfeita não pode fornecer, ocu- maior será o nível de bem-estar social) quan-
pada que está na necessidade vital de conseguem ser os to mais próximo da concorrência perfeita
maximizar o lucro momentâneo, única alter- estiver o mercado em questão. Ao mesmo
nativa para sobreviver em um mercado celeiros das tempo, permanecendo os demais fatores
onde o preço não consegue se manter aci- constantes, os preços serão tão maiores e as
ma da linha do custo marginal. quantidades tão menores (e pior o nível de
Quando uma grande empresa em difi- grandes inovações bem-estar) quanto mais se caminhe em di-
culdades necessita mudar o cenário de cur- reção ao monopólio. Entretanto, para o lon-
to prazo, a política de austeridade requerida tecnológicas go prazo, o resultado do jogo pode tender
recai sempre em primeira instância sobre os a se inverter. O bem-estar da sociedade cor-
gastos em pesquisa e desenvolvimento — re o risco de permanecer mais estagnado
pode-se comprovar empiricamente essa proposição analisan- em determinados níveis de preços e quantidades partindo-se
do-se os balancetes de companhias em situação complicada. de uma situação mais próxima à de concorrência perfeita; e
Logo depois, cortam-se os custos com planejamento estraté- terá havido tanto mais chances de evolução na direção de re-
gico. dução dos preços e aumento nas quantidades (e conseqüente
Assim, são principalmente aqueles setores que contam com melhoria no bem-estar), quanto mais concentrado estiver o
as benesses do monopólio ou oligopólio, e que portanto têm setor, devido às maiores possibilidades de investimento.
uma margem de lucro que os protege dos constantes percal- Em alguns casos, basta a existência de uma expectativa de apro-
ços, que conseguem ser os celeiros das grandes inovações tec- priação dos lucros de monopólio advindos de uma situação de
nológicas. A eles é permitido agregar o investimento a seus mercado privilegiada para estimular um investimento. Este efeito
custos, sem correr tanto os riscos de fechar as portas. a priori parece ter ocorrido, por exemplo, na expansão da
Embora a folga no orçamento, causada pela restrição da pro- Ferronorte até a BR-163. Uma vez que os custos de movimenta-
dução ao volume em que a receita marginal coincida com o ção da soja pela rodovia até Paranaguá eram excessivamente al-
custo marginal, permita a apropriação de parte dos exceden- tos, a possibilidade de ganhar o mercado do transporte da com-
tes dos consumidores pelas empresas favorecidas, tal recurso modity estabelecendo preços apenas um pouco abaixo dos gastos
constitui-se ao mesmo tempo em uma garantia de emprego a com o modal rodoviário incitou as inversões na estrada de ferro.
seus trabalhadores mesmo nos períodos de recessão. A em- Nesse caso, a visão do lucro futuro motivou a introdução da ino-
barcação de grande calado tem uma âncora mais sólida con- vação tecnológica — o transporte por ferrovia para a soja Centro-
tra a maré dos ciclos econômicos. Além disso, as melhorias pas- Oeste. A possibilidade de se exercer o poder de mercado, extrain-
síveis de ser introduzidas com a possibilidade de financiamento do lucros de monopólio do transporte da soja pelo modal
à pesquisa e desenvolvimento e no investimento em novas ins- ferrroviário, se afigurou como um elemento permissor do surgi-
talações e máquinas provavelmente reduzirão no futuro os pre- mento de todo um mercado.
ços e aumentarão as quantidades ofertadas. O processo será mo- Uma das lições que se pode tirar dos argumentos e evidências
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aqui listados é que, se na visão estreita do presente interferir custo médio). Esses aspectos são comumente encontrados em
imponderadamente no livre processo econômico em favor da diversas atividades relacionadas à área de infra-estrutura.
concorrência possa parecer sempre a melhor alternativa, um Por suas características, o ramo dos transportes tem muito
pouco de raciocínio estratégico permitirá enxergar que a práti- a aproveitar dos debates acerca dos prós e contras de uma es-
ca monopolística não deve ser tão duramente bombardeada. trutura de mercado concentrada. As rodovias constituem-se,
Simplesmente por ser ela uma alimentadora em potencial da via de regra, em monopólios naturais, pela escassez de cami-
destruição criadora que move o capitalismo. nhos alternativos. Também as ferrovias costumam fazer parte
Além disso, é interessante notar que a adoção de medidas de estruturas de mercado de feições oligopolísticas. Mesmo
restritivas ao livre desenrolar do jogo econômico pode, na reali- os portos, em que pese a sua multiplicidade na costa nacional
dade, não passar de políticas apenas pretensamente neoliberais. que introduz um viés de competitividade, enfrentam situações
Não parece ser muito compatível, seja com os princípios políti- características de mercado concentrado, por conta das gran-
co-econômicos da doutrina, seja com o próprio termo liberal, a des distâncias pré-embarque e pós-desembarque envolvidas.
adoção de impedimentos ao livre jogo competitivo. Esse livre Considere-se a relevância dos transportes para a determina-
jogo de mercado talvez queira determinar, em alguns setores, a ção dos custos de movimentação internos em um país com as
formação de estruturas oligopolísticas e o surgimento de gran- dimensões continentais do Brasil e a importância do custo Bra-
des monopólios. sil para a competitividade dos produtos nacionais e tem-se mo-
É importante considerar ainda o fato de que esse tipo de es- tivação suficiente para o aprofundamento dos debates em tor-
trutura de mercado terá grande facilidade de se instalar em se- no do tema.
tores que exijam expressivos montantes de investimento inicial Não por acaso, tanto o BNDES quanto o CBIE estão engajados
e escala de produção elevada (reflexo da alongada curva de nesta tarefa.
MONOPÓLIO?
SÓ O DE SCHUMPETER
José L. Carvalho
Professor da Escola de Pós-Graduação em Economia/FGV
C
uriosamente, Capitalismo, Socialismo e Democracia é a
obra mais lida e citada do rigoroso cientista social Joseph A.
Schumpeter. Quando jovem ele havia prometido a si mesmo ser
um grande economista, um exímio cavaleiro e o maior amante
de Viena. Dessas promessas, o próprio Schumpeter reconhece,
frustrado, ter sido apenas um cavaleiro medíocre. Sobre a tercei-
ra promessa pouco se sabe, mas não há dúvida de que cumpriu
qualifica seus comentários anteriores sobre o assunto e sugere
estar apenas pretendendo registrar uma tendência. A primeira
edição foi publicada em 1942, na Alemanha de Adolf Hitler.
No fim da Grande Depressão, ocorrência atribuída a uma fa-
lha do capitalismo, Schumpeter escreveu artigos discordando.
Seu argumento baseava-se na impossibilidade do esgotamen-
to das oportunidades inovadoras de investimento que alimen-
a primeira promessa: ser um grande economista. Entretanto, há tam o desenvolvimento do sistema. A origem da destruição do
muitas controvérsias a respeito de seu trabalho teórico. capitalismo para Schumpeter estaria no seu próprio sucesso, o
Acreditando na superioridade da economia de mercado, re- que provocaria uma atmosfera de hostilidade à sua própria or-
ferida com freqüência como capitalismo, Schumpeter previa que dem social.
esse sistema de organização econômica seria substituído pelo No oitavo capítulo ele trata do processo de destruição cria-
socialismo. Comentava que embora soubéssemos que de um dora e caracteriza inovação, o impulso vital que mantém o capi-
modo ou de outro morreríamos, deveríamos lutar sempre para talismo em desenvolvimento, através de quatro eventos: cria-
preservar nossas vidas. Entretanto, Schumpeter não dava a mes- ção de novos bens de consumo, de novos métodos de produção
ma importância a essa observação que seus leitores. Na terceira ou transporte, de novos mercados e de novas formas de organi-
edição do livro adiciona o artigo The March into Socialism, onde zação industrial. Algo novo requer a ação criadora de um em-
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