2.1.2.
Critérios para a selecção de conteúdos de ensino
A concepção de uma escola voltada para a construção de uma cidadania consciente e activa,
oferecendo aos alunos as bases culturais que lhes permitam identificar e posicionar-se frente às
transformações em curso e incorporar-se na vida produtiva e sócio-política torna-se cada vez mais
necessária. Reforça-se, também, a concepção de professor como profissional do ensino que tem
como principal tarefa cuidar da aprendizagem dos alunos, respeitando sua diversidade pessoal, social
e cultural e ligando os saberes teóricos à prática.
É necessário dotar o aluno de capacidade para aprender a relativizar, confrontar e respeitar diferentes
pontos de vista, discutir divergências, exercitar o pensamento crítico e reflexivo, comprometer-se,
assumir responsabilidades. Além disso, é importante prepará-lo para ler criticamente diferentes tipos
de texto, utilizar diferentes recursos tecnológicos, expressar-se e comunicar-se em várias linguagens,
opinar, enfrentar desafios, criar, agir de forma autónoma, diferenciar o espaço público do espaço
privado, ser solidário, cooperativo, conviver com a diversidade, repudiar qualquer tipo de
discriminação e injustiça, isto é, educar para formação de valores.
Faz-se necessário instaurar processos de mudança na escola para que possa responder às novas
tarefas atribuídas a ela. A dinâmica gerada por essas novas tarefas impõe a revisão do trabalho
docente em vigor na tentativa de responder às novas tarefas e aos desafios que incluem o
desenvolvimento de disposição para actualização constante de modo a inteirar-se dos avanços do
conhecimento nas diversas áreas, incorporando-os, bem como aprofundar a compreensão da
complexidade do ato educativo em sua relação com a sociedade.
Esse novo cenário impõe uma urgente revisão nos aspectos essenciais da formação de docentes, tais
como a definição e estruturação dos conteúdos para que respondam às necessidades da actuação dos
professores, os processos formativos que envolvem aprendizagem e desenvolvimento das
competências do professor, a vinculação entre as escolas de formação inicial e os sistemas de ensino
de modo a assegurar-lhes a indispensável preparação profissional.
É comum ouvir professores comentando que sua matéria tem muito conteúdo para ser trabalhado,
que o tempo disponível não é suficiente para se trabalhar todo esse conteúdo, que os alunos não são
capazes de assimilar tudo que é trabalhado na disciplina e que não sabem o que fazer para adequar o
tempo disponível ao conteúdo determinado. Percebe-se que faltou a eles, durante o curso de
licenciatura, fundamentos que lhes auxiliem a seleccionar conteúdos de forma científica, voltados
para a formação integral do aluno, para o perfil do futuro profissional.
O desenvolvimento harmonioso dos indivíduos e das sociedades está embasado na qualidade da
educação que lhes é proporcionada.
O primeiro objectivo da educação é fornecer aos educandos uma formação plena que lhes possibilite
formar sua identidade e construir uma concepção de realidade que integre conhecimentos, valores
éticos e morais permitindo-lhes exercer, de maneira crítica numa sociedade de múltiplos valores, a
liberdade, a tolerância e a solidariedade.
Na educação se transmitem e exercitam os valores que tornam possível a vida em sociedade, o
respeito aos direitos e liberdades fundamentais, formam-se os hábitos de convivência democrática e
respeito mútuo e se prepara para a participação responsável nas diferentes actividades e instâncias
sociais. A maturidade das sociedades é consequência de sua capacidade para integrar, através da
educação, as dimensões individual e colectiva.
O conteúdo trabalhado nas escolas ou o conhecimento que elas possibilitam ao aluno adquirir ocupa
papel importante no processo educativo.
O que é conteúdo e o que é conhecimento?
A noção de conhecimento designa ao mesmo tempo a função teórica do espírito e o resultado dessa
função. Seu objectivo é tornar presente aos sentidos, ou à inteligência, um objecto tentando discerni-lo ou
possuir uma representação sua geralmente adequada. A condição dessa colocação em contacto com o
objecto do pensamento é a distinção do sujeito e do objecto, e o saber decorrente disso só é transmissível
graças ao discurso. (DUROZOI E ROUSSEL, 1996, p. 102)
Emprega-se também o termo conhecimento para designar o ato vital em que um ser espiritual ou
sensitivo, como sujeito cognoscente, se dá conta de um objecto.
Para Aranha e Martins (1998) o conhecimento é o resultado da relação entre o sujeito que conhece e
o objecto a ser conhecido. Pode designar o ato de conhecer quando se estabelece uma relação entre o
ser que conhece e o mundo que é conhecido. Pode, também, se referir ao produto, ao resultado, ao
saber adquirido e acumulado pelo homem.
Para Pedro Demo (1997) o conhecimento moderno está mais ligado aos procedimentos metódicos de
superação dos conteúdos do que aos próprios conteúdos. Exemplifica sua afirmação com a
informática, onde a idéia de produtos e resultados acabados não existe. Essa perspectiva ressalta a
importância do saber pensar e do aprender a aprender. O importante no conhecimento não é o
conceito aprendido mas a forma, os procedimentos utilizados para aprender esse conceito e a
utilização que se faz do conceito aprendido. Saber pensar aplica-se a qualquer conteúdo e implica a
capacidade crítica frente ao próprio saber. Aí está o conhecimento como marca cultural histórica do
ser humano. Saber pensar está perto da sabedoria.
A lógica do saber muito é substituída pelo valor de poder lidar com esse conhecimento, recriando a
realidade em múltiplas formas, abordagens e relações.
O conhecimento não é fim, mas um meio de formação da competência humana, “a propedêutica básica do
saber pensar e do aprender a aprender” (DEMO, 1997, p. 176).
O conteúdo comumente é entendido como um conjunto de assuntos que compõem determinada
matéria ou a relação de temas a serem estudados em uma disciplina.
Os conteúdos, dentro do processo ensino-aprendizagem, têm sido objecto de estudos por parte de
vários autores e, às vezes, até se encontram posições antagónicas sobre o seu papel nesse processo.
Nogueira (2001, p.19) chama os professores de “conteudistas” por se preocuparem com o
cumprimento integral dos conteúdos seleccionados para um determinado ano lectivo em detrimento,
até, do processo de aprendizagem. O conteúdo passa a ser o mais importante e a ele se submetem
professor e alunos.
Conteúdo conceitual é o conhecimento que o professor detém e transmite de forma teórica ao aluno.
Não se discute este tipo de conteúdo mas, sim, o fato de se ficar apenas nessa categoria tratando-o
como fim e não como meio, não o relacionando com o dia-a-dia do aluno, não o tornando
significativo.
Conteúdo procedimental é citado nos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN-como
procedimentos que expressam um saber fazer, que envolvem tomar decisões e realizar uma série de
acções, de forma ordenada e não aleatória, para atingir uma meta. Os conteúdos procedimentais sempre
estão presentes nos projectos de ensino pois realizar uma pesquisa, desenvolver um experimento, fazer
um resumo, construir uma maquete são proposições de ações presentes nas salas de aula. (PCN Apud
NOGUEIRA, 2001, p. 20)