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Nietzsche e Ritschl: Conflitos Filológicos

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Rodrigo Moraes
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preocupa com o silêncio de seus pares, sobretudo o de

Ritschl,
escrevendo-lhe que estranha não ter recebido nenhuma
palavra
a seu respeito, e que esse silêncio o inquieta. Aproveita,
então, para
dizer que O nascimento da tragédia é um manifesto,
cheio de
esperanças para a ciência da Antigüidade e para a
germanidade,
e que pretende com ele agir sobre a jovem geração de
filólogos.9
Ritschl foi o professor que teve mais influência sobre
Nietzsche
em Leipzig, apesar de sua hostilidade à contaminação da
filologia
pela filosofia, pois, seguidor de Wolf, para quem a
filologia
deve dar uma explicação gramatical exata, sem nada de
estética ou
de poética, reduz a ciência da Antigüidade à crítica do
texto.10 Essa
influência é confessada por Nietzsche em carta ao amigo
Paul
Deussen, de 4 de abril de 1867, nesses termos: "Você
não imagina
a que ponto estou pessoalmente ligado a Ritschl, não
posso nem
quero me desligar dele ... o menor de seus julgamentos
reflete tal
bom senso, tal vigor, tal respeito pela verdade que ele se
tornou para
mim uma espécie de consciência científica?' Ritschl foi o
responsável
por sua passagem da teologia para a filologia, depois de
seu primeiro semestre em Bonn; foi quem publicou em
sua revista
seus primeiros trabalhos filológicos: sobre Teógnis, em
1866, e
sobre Diógenes Laércio, em 1867. Além disso, foi
Ritschl quem
conseguiu seu doutorado honoris causa e o indicou para
a cátedra
de filologia da Universidade da Basiléia, declarando
entusiasmado
que, entre os jovens talentos que viu se desenvolver,
jamais conheceu
alguém tão precoce e tão completo quanto Niet7,.sche,
predizendo
inclusive- como se sabe equivocadamente- que ele
figuraria
um dia no primeiro time da filologia alemã. 11 17
18
, "'
), !

Nセ@
l
Ritschl responde a Nietzsche em 14 de fevereiro de
1872,
deixando claro que seu ex-aluno jamais teria nele um
aliado para
sua interpretação da Grécia c sua defesa da importância
da
Grécia para a Alemanha. Dizendo-se velho demais, aos
sessenta
c cinco anos, para seguir caminhos tão novos quanto os
indicados
por Nietzschc e distanciando-se da rclayão estabelecida por
ele entre filologia, arte c filosofia, Ritschl defende na
carta, como
sempre fizera, a interpretação histórica como o âmago da
filologia.
Postura metodológica que o leva a várias criticas de
fundo a
O nascimento da tragédia. Primeiro, a lembrar que um
cientista,
como ele, não pode condenar o conhecimento e ver na
arte a
única força libertadora. Segundo, a salientar que a
salvação do
mundo não vem de um sistema filosófico, no que
reconhece a filosofia
de Schopcnhaucr como a base para a compreensão do
Nascimento da tragédia, mas confessa não ser capaz de
compreendê-
la. Terceiro, a discordar do privilégio que Nietzsche dá à
tragédia grega c da importância que ela teria para a
humanidade,
pois, embora o helenismo seja a eterna fonte da cul tura
universal,
as formas c as forças espirituais de um povo. como o grego,
não podem servir de modelo ou de regra para outros
povos
ou outros períodos. FinaJmente, Ritschl é levado a se
questionar
se as reflexões de Nietzsche poderão realmente servir
como fundamento
para a educação da juventude ou servirão apenas para
cria r um desprezo pela ciência, sem levar a uma
compreensão
mais profunda da arte.
A carta é firme na exposição das discordâncias, mas é
contida
e cordial. A posição de Ritschl, no entanto, é muito mais
rígida,
como se sabe [Link] carta a Vischer escrita um ano depois,
em 2 de
fevereiro de 1873, que evidencia de forma ainda mais
contundente
o quanto sua divergência em relação ao ex-aluno diz
respeito
à contaminação da ftlologia pela arte e pela filosofia:
"Mas
nosso Nietzsche é realmente um caso aflitivo ... t curioso
constatar
como nele duas almas coabitam. Por um lado, o método
mais rigoroso na pesquisa científica ... Por outro lado, o
entusiasmo
religioso por Schopenhauer e pela arte wagneriana, em
uma
[Link]ção delirante, nos excessos de um gênio que vai
até o incompreensível!
Pois quase não é exagero dizer que tanto ele
quanto seus adeptos Rohde e Romundt- sob o domínio
de uma
influência mágica- aspiram a nada menos do que
fundar un1a
nova religião. Deus nos proteja! ... O que mais me
contraria é sua
impiedade em relação a sua própria mãe, no seio da
qual ele foi
criado: a filologia." 12
Mas o distanciamento reservado da carta de Ritschl a
Nietzsche é só o início das reações negativas ao livro.
Pois a resenha
de Rohde, que havia sido enviada à Lirterarische
Zentralblart,
revista especializada em filologia, é recusada, levando
Nietzsche
a escrever a seu amigo Gersdorff que aquela era a
última possibilidade
para que uma voz séria intercedesse a favor de seu livro
em
uma publicação científica, c que agora não esperava
mais nada, a
não ser maldades e idiotices. Essa decepção com seus
contemporâneos
parece, no entanto, apenas o outro lado da
impressionante
confiança no que escreveu. Confiança que se manifesta,
por
exemplo, quando declara ao mesmo Gersdorff que
conta com
um lento e [Link] avanço do livro através dos
séculos, pois é
imposs[vel que as verdades eternas que se expressam
nele pela
primeira vez não tenham eco;11 ou quando escreve a
Ritschl para
agradecer sua "bela carta detalhada" c se diz
convencido de
que serão necessárias várias décadas aos fi lólogos
antes de poderem
entender um livro tão esotérico e cicntlfico.14
A primeira resenha, não publicada, de Rohdc, que
NictLSchc
considerou uma obra-prima por dar conta fielmente do
original,
é muito elucidativa das posições wagncrianas c
schopenhauerianas
do livro. Isso se evidencia quando defende, em forma
de curta
introdução metodológica, que o livro é um novo
caminl10 de
compreensão do segredo estético profundo da tragédia
grega, até
então não desvendado, explicitando que se trata de um
tipo superior
de enfoque histórico, ou da vinculação de
considerações
estéticas e históricas. capaz de dar conhecimento da
essência
eterna da vontade c das faculdades do homem. Mas os
fundamentos
wagnerianos e schopenhauerianos tornam-se ainda
mais
patentes quando a resenha sintetiza o conteúdo do Hvro
a parür
de seus temas principais: o nascimento, a morte e o
renascimento
da tragédia.
A paráfrase que Rohde faz de O nascimento da
tragédia é,
em resumo, a seguinte. Vivendo em um mundo de
tormentos, em
eterno sofrimento, o homem tem como força salvadora
as ima-

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