to dos grandes modernos, como Winckelmann, Lessing,
Goethe,
Schiller, sobre o que é a Antigüidade.
Assim, o principio que possibilita a critica nietzschiana
da
filologia é que esta não é uma ciência autônoma,
devendo estar
em constante interação com a arte e a filosofia. Uma
filologia puramente
científica nos faz perder o "verdadeiro perfume" da
Antigüidade. Ao julgar que a filologia tem sido
indiferente aos
verdadeiros e mais urgentes problemas da vida, e
utilizar-se da
ciência da Antigüidade para pensar filosoficamente,
[Link], já
nesse primeiro momento de sua reflexão, é muito mais
que um
filólogo.
Essa presença da filosofia é tão grande na época em que
escreve
O nascimento da tragédia que, em janeiro de 1871,
Nietzsche
propõe sua candidatura a uma das duas cátedras de
filosofia
da Universidade, que tinha ficado vaga. A proposta é
feita por
carta a seu protetor, o conselheiro Vischer-Bilfinger,
filólogo,
professor e presidente do Conselho da Universidade da
Basiléia,
que havia sido o principal responsável por sua nomeação
como
professor, depois da consulta a seis renomados
acadêmicos alemães,
entre os quais Ritschl, professor de Nietzsche em Bonn e
Leipzig. Ora, nessa carta, Nietzsche confidencia a
Vischer que os
estudos de filologia o interessavam principalmente pelo
que tinham
de significativo para a história da filosofia,
informandolhe
não só que durante seus estudos acadêmicos esteve em
permanente
contato com a filosofia, organizando seus interesses
principais em torno dela, como também que, ao se tornar
professor,
chegou até mesmo a dar cursos sobre temas filosóficos.
E
não deixa de ser curioso o argumento que utiliza para
convencêlo
da importância de sua transferência da cátedra de
filologia para
a de filosofia: a causa da estafa que o afeta regularmente
no
meio de cada semestre é o conflito pessoal entre sua
inclinação à
meditação filosófica e suas múltiplas atividades
cotidianas de
professor de filologia. Nietzsche não ganhará o cargo,
provavelmente
devido à oposição que seu nome suscitaria no outro
professor
de filosofia da Universidade, que havia reagido
negativamente
a suas conferências sobre "O drama musical grego" e
sobretudo "Sócrates e a エイ。ァ←、ゥGセ@ que faz a crítica da
racionalidade
socrática e de seus "efeitos antiartisticos" sobre a
tragédia. 15
16
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Mas, antes de saber que sua solicitação nem foi levada
em consideração,
escreve a Rohde, em 29 de março de 1871, dizendo que
está terminando um pequeno trabalho intitulado
"Origem e objetivo
da tragédia" que lhe pode dar legitimidade como
fllósofo.5
Esse interesse pela filosofia, que vem do tempo de
estudante,
acompanhando seus estudos e escritos filológicos,
consistiu
em algumas leituras de filósofos e historiadores da
filosofia.
Schopenhauer, que lera com entusiasmo em outubro de
1865,
quando estudava filologia em Leipzig, e foi sua
primeira descoberta
da dimensão trágica da existência. A Critica da
fawldade de
julgar, de Kant. Diógenes Laércio, Lange e Kuno
Fischer, que lhe
deram o conhecimento da história da filosofia. Platão e
os filósofos
"pré-platônicos'; sobre quem deu alguns cursos. Essas
leituras
significaram sem dúvida pouco para que lhe fosse
confiada uma
cátedra de filosofia. Elas traem, no entanto, um
interesse tão
grande pelas questões filosóficas que, no momento em
que decide
fazer carreira como professor de filologia, esta já
significa para
ele mais um trabalho do que propriamente uma
vocação. E se
esse interesse. como se sabe, só faz crescer. é ele que leva
Nietzsche,
logo depois de escrever O nascimento da tragédia, e
ainda
como professor de filologia, a começar a abandonar a
temática e
os métodos da filologia, buscando um compromisso
entre sua
paixão pela filosofia e suas obrigações profissionais,
como se nota
pelos cursos que deu em 1873 sobre os filósofos pré-
platônicos,
sobre Platão e sobre a Retórica de Aristóteles.6
I••
O nascimento da tragédia - embora ainda seja pouco
para as exigências
posteriores de seu autor, que na autocrítica de 1886 o
considera
um Uvro "estranho'; "dii!cil'; "problemático" e até
mesmo
"impossível"- é a grande reali1.ação desse projeto,
acalentado há
alguns anos, de utilização da filologia para uma
reflexão filosófica.
Dai por que, temendo pela recepção do livro, antes
mesmo
que este seja publicado, Nietzsche escreve a Rohde -
seu grande
amigo desde 1866, quando ainda estudavam em
Ldpzig, e que na
época em que elabora O nascimento da tragédia ele
considera, de
todos os jovens filólogos que encontrou, de longe o
mais capaz7
-sugerindo que dê sua opinião sobre o livro, pois, diz ele,
"temo
que os ftlólogos, por causa da música, os músicos, por
causa da
filologia, e os filósofos, por causa da música e da
filologia, se recusem
a ler o livro .. ::s Temor que é uma decorrência do que
ele