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Mortalidade Infantil no Brasil nos Anos 80

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Estimativas da mortalidade infantil no Brasil, década

de oitenta: proposta de procedimento metodológico

Estimates of infant mortality in Brazil in the 80's: a proposal for a


methodological procedure

Célia Landmann Szwarcwald e Euclides Ayres de Castilho

Departamento de Informações para a Saúde, Fundação Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro RJ - Brasil

Propõe-se um procedimento para a estimativa da mortalidade infantil, no Brasil, na década de 80, baseado apenas na
distribuição etária dos óbitos registrados, possibilitando o acompanhamento da evolução deste indicador de forma
contínua, ano a ano, em diversas subáreas do País. Analisa-se a distribuição espaço-temporal das principais causas
de óbito e discute-se a sensibilidade do risco de morrer entre os menores de um ano face às condições de vida da
população brasileira, no período de 1979 a 1989.

Mortalidade infantil, tendências. Causa da morte. Técnicas de estimação.

Introdução cada mil nascidos vivos (NV), conforme definição


internacional, o seu cálculo é problemático em
As estatísiticas de mortalidade constituem uma países onde a cobertura das informações de re-
das mais tradicionais informações em estudos de gistro é incompleta.
população. No âmbito da saúde pública, as fre- Diante das limitações das fontes primárias de
qüências das causas de morte e a distribuição informações em grande parte dos países subdesen-
etária dos óbitos têm sido fontes constantes de volvidos, a pesquisa demográfica dedicou-se à for-
análise para caracterizar condições de saúde mulação de técnicas, ditas de mensuração indireta
(Laurenti e col.24, 1985). e baseadas em dados de entrevistas censitárias ou
O interesse em expressar quantitativamente em pesquisas especiais para substituir as estimati-
diferentes situações de mortalidade através de vas clássicas (United Nations45, 1990). Entretanto,
medidas sintetizadoras tem estimulado, ao longo as estimativas assim obtidas referem-se a interva-
do tempo, a proposição das chamadas estatísticas los de tempo irregulares, o que constitui sério em-
de saúde (Hanoluwka21, 1987). Neste sentido, o pecilho para a monitoração da mortalidade.
coeficiente de mortalidade infantil exerce papel O caráter de continuidade, singular aos dados de
fundamental. Desde a constatação de declínio registro, tem encorajado a produção de métodos
acentuado nos países industrializados, é tido como para estimar indicadores de mortalidade mediante o
um dos indicadores mais expressivos da situação ajuste das estatísticas vitais (Sawyer38, 1984). Nos
de saúde e da condição social de uma população últimos trinta anos, vários procedimentos têm sido
(Pollard e col.37, 1974). desenvolvidos baseando-se no simples princípio de
A disponibilidade e a qualidade das estatísticas que se a taxa de sub-registro de óbitos é aproxi-
vitais têm imposto série de restrições para o uso do madamente constante por idade, a distribuição etária
coeficiente de mortalidade infantil no Brasil (Irwin das mortes não é afetada (United Nations44, 1983).
e Oliveira22, 1974; Jorge23, 1983). Dado pelo Com o propósito de caracterizar o comporta-
número de óbitos em menores de um ano para mento da mortalidade infantil no Brasil, na década

Separatas/Reprints: Célia Landman Szwarcwald - Departamento de Informações para a Saúde. Fundação Oswaldo
Cruz/CICT/DIS. Av. Brasil, 4365 - 21045-900 - Rio de Janeiro, RJ - Brasil. Fax: (021) 290-0287 E. mail: CELIA@MALARIA.
[Link]
Recebido em 10.10.1994. Reapresentado em 14.7.1995. Aprovado em 22.8.1995.
de 80, defrontou-se com o problema de estimar 1983, 1984, 1986, 1988,1989, 1990, 1991), foi
este indicador em regiões com grande pre- possível estimar a mortalidade infantil por grandes
cariedade das estatísticas de óbitos. Tentativas de regiões e regiões metropolitanas, no período de
uso das técnicas já existentes não se mostraram 1979 a 1989. A partir das informações do
satisfatórias, sobretudo pelas restrições impostas Subsistema de Informações sobre Mortalidade do
pelos modelos nem sempre válidos para os dados Ministério da Saúde (SIM/MS)26-34 (1982-1985,
brasileiros. Recorreu-se, portanto, ao instrumental 1987, 1988, 1991, 1992), calculou-se a mortalidade
matemático e estatístico para propor um procedi- proporcional segundo principais causas* entre os
mento que possibilitasse mensurar a mortalidade menores de um ano, possibilitando a estimativa de
infantil de forma contínua, ano a ano, nas diversas taxas específicas por causas de morte.
subáreas geográficas do território nacional.
O presente trabalho tem o objetivo principal de
propor procedimento para estimar a mortalidade Estimativas para 1980 pelo Modelo da
infantil no Brasil, na década de 80, a partir das ONU Modificado
informações de óbitos registrados. Fundamenta-se
em representar a mortalidade proporcional por O modelo geral das Nações Unidas (United
idade por meio de indicadores invariantes ao sub- Nations43, 1982) surgiu da necessidade de se cons-
registro de óbitos. truir tábuas-de-vida especificamente para popu-
lações em desenvolvimento. O modelo consiste
em expressar as alterações na curva de mortali-
Metodologia dade (traduzidas pelos logitos das probabilidades
de morte nos grupos etários 0-1, 1-4, 5-9, ...., 80-
O método ora proposto para caracterizar a 84) de uma determinada população em relação a
evolução da mortalidade infantil no Brasil, na déca- uma curva modelo por meio de uma regressão li-
da de 80, foi desenvolvido em duas etapas. near, resultante de uma análise de componentes
Primeiramente, uma aproximação matemática ao principais.
modelo geral das Nações Unidas (United Nations43, Todavia, embora este modelo tenha inúmeras
1982) possibilitou a sua utilização para populações formas de uso para o ajuste das probalidades de
com coberturas não completas das estatísticas morte e para a estimação de parâmetros demográ-
vitais, permitindo a obtenção das estimativas no ano ficos, a sua aplicação direta a dados de óbitos
de 1980 para todas as Unidades da Federação (UF), subenumerados resulta em distorções relevantes
como apresentado na sessão seguinte. de acordo com a magnitude do sub-registro.
Na segunda etapa , para mensuração da morta- A elaboração de um procedimento denominado
lidade infantil durante a década de 80 sem depender de "modelo da ONU modificado - MONUM"**
de informações censitárias, propõe-se procedimen- possibilitou a sua utilização para populações com
to baseado apenas na mortalidade proporcional por estatísticas de mortalidade incompletas. Sob a
idade, fundamentando-se em representar a com- hipótese de sub-registro de mortes aproximada-
posição etária dos óbitos por meio de indicadores mente constante em um certo intervalo etário (e.g.
invariantes ao sub-registro de óbitos. Através de 1-69 anos), a reformulação consiste em ajustar os
uma análise estatística por componentes principais desvios dos logaritmos das taxas observadas de
e dos indicadores construídos nas UFs, no triênio mortalidade por idade em relação a um padrão-
1979-1981, o padrão etário brasileiro de mortali- médio através de uma análise de regressão múltipla.
dade foi expresso por número reduzido de fatores. As estimativas dos coeficientes do MONUM esta-
As estimativas da mortalidade infantil foram belecem a probalidade de morrer no primeiro ano
obtidas quantificando-se os desvios entre a morta- de vida e o grau de cobertura do sistema de registro.
lidade proporcional por idade de cada UF e o Para a aplicação do MONUM nas grandes
padrão nacional. A relação foi obtida por meio de regiões e UFs, por sexo, em 1980, os dados utiliza-
uma regressão logito-linear tendo como variável dos sobre população foram os referidos no censo de
resposta os valores estimados pelo modelo da 1980 (FIBGE6, 1984) e os sobre óbitos, publicados
ONU modificado, e como variáveis independentes nas estatísticas de Registro Civil (FIBGE8, 1981), à
os "scores" padronizados nos três primeiros com-
ponentes principais.
Por meio do método proposto, utilizando-se as * Excluindo-se os óbitos sem definição da causa básica.
"Estatísticas do Registro Civil" (FIBGE7-17, 1981, ** Ver descrição sucinta no Anexo.
exceção da Região Norte , para a qual foram usadas
as informações do Subsistema de Informações
sobre Mortalidade do Ministério da Saúde, por
terem se mostrado mais fidedignas (Szwarcwald41,
1993). Para o ajuste das curvas brasileiras de mor-
talidade por idade à regressão descrita pela equação
(A5) do Anexo, considerou-se o intervalo etário
[1,69] anos e adotou-se o padrão "Chilean", como
modelo médio, por ter sido o que demonstrou a
melhor aderência ao modelo em todas as regiões
estudadas. As probabilidades de morte no primeiro
ano para ambos os sexo foram calculadas através
dos valores obtidos para o sexo feminino e mas-
culino, supondo-se, como habitual, razão de sexo
ao nascimento de 1,05. Para estimar as probabilidades de morte no
Os resultados obtidos pela aplicação do primeiro ano de vida nas Unidades da Federação
MONUM às estatísticas de mortalidade regionais através do MONUM, calculou-se, primeiramente,
evidenciam os contrastes internos (Tabelas l e 2). as taxas médias de mortalidade segundo sexo e
A pior notificação foi obtida para a Região Norte , idade no período 1979-1981. Optou-se por traba-
onde a proporção de óbitos declarados não atingia lhar com as médias trienais com base no ano de
50%, em 1980. A Região Nordeste é a que apre- 1980, para prover maior estabilidade aos coefi-
sentava os maiores níveis de mortalidade infantil, cientes. Os resultados segundo Unidades da
calculada em 122/1.000 NV para ambos os sexos, Federação estão apresentados na Tabela 3.
duas vezes maior que no Centro-Sul. Os achados
para a Região Centro-Oeste apontam para altas
taxas de sub-registro mas risco de morrer no pri- Modelo Baseado na Mortalidade
meiro ano de, vida próximo aos obtidos nas regiões Proporcional por Idade
mais desenvolvidas do País.
A mortalidade infantil para o Brasil, 1980, esti- O procedimento proposto, seguindo as idéias
mada em 83 por 1.000 NV, foi calculada como de Moraes35 (1959) e Guedes e Guedes20 (1973),
sendo a média ponderada das estimativas regio- consiste em aferir níveis de mortalidade por meio
nais, utilizando-se pesos proporcionais ao número da quantificação da curva de mortalidade propor-
corrigido de nascidos vivos* em cada grande cional por idade. A partir dos pressupostos de que
região. o sub-registro de óbitos é aproximadamente cons-
tante segundo a variável idade dentro do intervalo
de l a 69 anos e que o sub-registro de mortes não
varia significativamente por meses de idade dentro
do intervalo 0-1 ano, o princípio do método é
baseado em expressar o padrão etário de morta-
lidade de uma dada população por um conjunto de
indicadores que independem da magnitude do sub-
registro de óbitos.
Fundamentando-se na disponibilidade de
informações de óbitos registrados, publicadas re-
gularmente, construíram-se os seguintes indi-
cadores:

i) Para o primeiro ano de vida

X01=proporção de óbitos de 28 a 59 dias em


relação ao total de óbitos de menores de um
ano.
* Estimativas através de informações censitários pelo método X02=proporção de óbitos de 60-364 dias em relação
de Brass3 (1975). ao total de óbitos de menores de um ano.
total. A rotação dos eixos pelo método varimax
(apresentado em Green19, 1978) determinou uma
nova configuração da matriz de cargas que facili-
tou a interpretação do espaço reduzido (Tabela 4).
As maiores cargas das variáveis referentes aos
óbitos na infância (1-4 anos) e no primeiro ano de
vida foram encontradas no primeiro componente
principal, induzindo a denominá-lo de
"Mortalidade proporcional entre os menores de
um ano". Os sinais negativos correspondentes a
esses grupos etários indicam correlação inversa
com a mortalidade infantil. O segundo compo-
nente, apresentando cargas grandes (em valor
absoluto) correspondentes a quase todos os grupos
etários compreendidos entre 5 e 69 anos, foi
chamado de "Mortalidade proporcional entre 5 e
69 anos". Exibindo cargas negativas para as idades
mais avançadas e positivas entre l e 69 anos, neste
eixo, melhores situações de mortalidade são
traduzidas por coordenadas negativas. O terceiro
fator tem o papel de explicar diferenças na morta-
lidade em adultos jovens. Apresentando as
maiores cargas para os grupos 35-39, 40-44 e 30-
34 anos, foi designado "Mortalidade proporcional
em adultos jovens de 30-44 anos".
ii) Entre 1 e 69 anos A situação de cada UF, em relação ao espaço
reduzido, pode ser dimensionada através dos
Xj = proporção de óbitos no grupo etário Ij em "scores" padronizados obtidos em cada compo-
relação ao total de óbitos entre 1 e 69 anos, nente principal. Os valores médios resultantes, cal-
para j=l,2, ,14 onde I 1 - 4 anos, I2=5-9 culados para as UFs no triênio 1979-1981, foram
anos, , I14=65-69 anos. representados no plano cartesiano formado pelos
dois primeiros fatores (Figura 1). Observando o
Obviamente, de acordo com as suposições ini- gráfico no sentido do círculo trigonométrico, o
ciais, os indicadores X01, X02 e Xj (j=1, ,14)
têm a propriedade de se manter inalterados, qual-
quer que seja o grau de cobertura dos óbitos.
Com o propósito de expressar a mortalidade
proporcional por idade através de um número
reduzido de fatores, realizou-se uma análise
estatística de componentes principais (descrita
em Green19, 1978), considerando-se como con-
junto de variáveis os logaritmos dos dezesseis
indicadores X01, X02 e Xj (j=l,2,...14), denotados
respectivamente por L1,L2, ,L16. Calculados
para as UFs nos anos de 1979, 1980 e 1981, cons-
tituíram uma matriz de 77 observações multivari-
adas. As fontes de informação foram as
Estatísticas do Registro Civil referentes ao triênio
1979-1981 (FIBGE7,9,10, 1981, 1983).
Da análise estatística, foram escolhidos três
fatores que explicaram cerca de 79% da variância

* Para o Estado do Amazonas utilizou-se como fonte de infor-


mações o SIM/MS.
quarto quadrante agrega as unidades com os me- três novos fatores, desvios padronizados em
lhores níveis de mortalidade. Aí localizados estão relação ao padrão, estabelecem as condições de
os Estados das regiões Sul e Sudeste, destacando- mortalidade de uma dada população. Devidamente
se o Rio Grande do Sul seguido de São Paulo e Rio ponderadas e totalizadas em uma medida única
de Janeiro. Opostamente, o aglomerado formado dão origem a um indicador do nível de mortali-
por Paraíba, Ceara, Alagoas, Sergipe, dade da população.
Pernambuco, Rio Grande do Norte e Bahia, no ter- Objetivando encontrar as ponderações dos
ceiro quadrante, expressa as piores condições de componentes principais que resultassem na esti-
mortalidade infantil. Padrões intermediários são mativa da mortalidade infantil, recorreu-se a uma
apresentados para as regiões Norte e Centro-Oeste. regressão múltipla tendo como variável-resposta
Situadas no quadrante esquerdo superior, a os logitos das probabilidades de morte no primeiro
primeira assemelha-se ao Nordeste no tocante à ano de vida, estimadas em cada UF, no triênio
mortalidade infantil, enquanto a segunda, localiza- 1979-81, por meio do modelo da ONU modificado
da à sua direita (com exceção do Mato Grosso), (MONUM) e dispostas na Tabela 3. Os "scores"
aproxima-se das regiões mais desenvolvidas. Vale padronizados médios nos três fatores retidos após
notar a posição do Distrito Federal. Suas coorde- a rotação dos eixos constituíram os vetores inde-
nadas refletem um bom nível em relação à morta- pendentes.
lidade no primeiro ano de vida, mas indicam As estimativas dos coeficientes da regressão
pequenas proporções de óbitos em idosos, estabeleceram a equação de conversão dos
traduzindo a estrutura de população jovem da ca- "scores" nos três eixos principais resultando em
pital do País, em 1980. um algoritmo simples para a mensuração da mor-
Após a análise redutora do espaço multivaria- talidade infantil. Denominado de "MPPI" (modelo
do, os três primeiros componentes principais a partir da mortalidade proporcional por idade), o
podem ser intepretados como sendo uma estrutura procedimento consiste em calcular os indicadores
vetorial capaz de expressar o padrão brasileiro da Lj (j=1,2,...,16) através das informações de re-
mortalidade proporcional por idade, no triênio gistro de óbitos, conforme definição anterior, e a
1979-81. As coordenadas ("scores") obtidas nos seguir multiplicá-los pelas ponderações W j
(j=l,2,....16) dadas na Tabela 5. O somatório dos 1.000 NV, em 1989, representava nível bastante
valores ponderados, o qual denota-se por S, elevado, não só em relação às sociedades desen-
fornece a estimativa de risco de morrer entre os volvidas mas também em relação à população lati-
menores de um ano ( 1q0): no-americana. Segundo dados do Banco Mundial1
(1991), entre 1965 e 1989 a velocidade de
decréscimo foi inferior a de vários países vizinhos
com renda per capita mais baixa e menores taxas
de crescimento econômico. Percebe-se que a série
temporal descrita pela mortalidade infantil entre
Diferentemente do MONUM, que é um mode- 1979 e 1989 não representa um processo uniforme
los mais geral, o MPPI, proposto com base nas de declive. Nos três primeiros anos há um
curvas de mortalidade proporcional dos Estados decréscimo em continuidade à evolução da década
brasileiros, tem aplicação limitada a regiões do ter- de 70. Contudo, entre 1982 e 1984 ocorre inter-
ritório nacional. Todavia, seu uso no País se justi- rupção na tendência de queda com picos de
fica. Baseando-se apenas em dados de óbitos pu- aumento em quase todas as regiões. Ao ano de
blicados regularmente, sem depender de infor- 1985 corresponde a maior variação de descenso,
mações censitárias ou de pesquisas especiais, pos- seguida, porém, de novos acréscimos em 1986.
sibilita o acompanhamento anual dos níveis de Compatíveis com os contrastantes contextos
mortalidade infantil nas diversas subáreas do País, socioeconômicos, as disparidades regionais foram
em um período próximo ao ano de 1980. Através acentuadas. A estagnação econômica e a pre-
do MPPI foi possível estimar a mortalidade infan- cariedade das condições de vida no Nordeste se
til por grandes regiões e regiões metropolitanas, de traduzem pela persistência de taxas ainda muito
1979 a 1989. elevadas. Enquanto as regiões mais desenvolvidas
apresentavam um índice médio de aproximada-
Mortalidade Infantil na Década de 80 mente 50 por 1.000 NV, no período de 1979 a
1989, o Nordeste ultrapassava a taxa média de 100
Ao analisar-se o comportamento da mortali- por 1.000 NV (Tabela 6). Apesar do declínio ter
dade infantil entre 1979 e 1989 constata-se, de alcançado todas as regiões, a tendência da
modo geral, que a evolução foi de descenso, evolução temporal também demonstrou maior
reduzindo-se de 90, em 1979, a 60 por 1.000 NV, fragilidade nas áreas menos favorecidas. Foram o
em 1989 (Tabela 6). Não obstante a redução, Nordeste e o Norte as que apresentaram as
quando comparado a outros países, o Brasil menores taxas de descenso, de 3% ao ano, enquan-
mostrou ritmo lento de declive, e o valor de 60 por to a taxa de variação média para as outras regiões
do País foi de 5% ao ano.
Observando-se o comportamento da mortalidade
infantil nas regiões metropolitanas, foram obtidos,
basicamente, os mesmos resultados (Tabela 7).
Entretanto, as variações, ora de aumento ora de
redução, são bem mais acentuadas. As séries tempo-
rais são marcadas por picos agudos entre 1982 e 1984
em todas as metrópoles, à exceção de Belo Horizonte
que não apresentou alterações na tendência.

Principais Causas de Morte

Entre os óbitos em menores de um ano, no


Brasil, destacam-se as afecções originadas no
período perinatal, as doenças infecciosas intesti-
nais e as infecções respiratórias agudas como
principais causas de mortalidade. Seguidos pelas
deficiências nutricionais e pelas anomalias con-
gênitas, estes fatores explicam quase a totalidade
das mortes no primeiro ano de vida (Tabela 8).
Expressando uma vez mais a situação deficiente
de saneamento, de nutrição, de moradia, de edu-
cação e de saúde em grande parte do território
brasileiro, em 1987, as diarréias ainda explicavam
mais de 25% da mortes com causa definida nas
regiões ao norte do País. O percentual aparente-
mente pequeno atribuído às deficiências nutri-
cionais traduz apenas a subnotificação da desnu-
trição como causa de morte, provavelmente, porque
as doenças associadas a ela são priorizadas pelos
médicos ao atestarem os óbitos (Carvalho4, 1986),
Caracterizando a precariedade da assistência
médica, chama a atenção o elevado percentual de
óbitos em que não foi possível definir a causa da
morte (Tabela 8). Na Região Nordeste, a proporção
de óbitos classificados na categoria "sinais, sintomas
e afecções mal definidas", em 1987, atingia 45%.
A queda da mortalidade infantil verificada na
década de 80 pode ser atribuída em grande parte à
redução dos óbitos por doenças infecciosas intesti-
nais. A implementação do programa de reidratacão
oral, a retomada da prática do aleitamento materno
e a expansão da rede de saneamento contribuíram,
certamente, para o declínio expressivo da taxa por
diarréias, que decresceu à razão de 9% ao ano entre
1979 e 1989. No entanto, irregularidades no com- mação através dos dados do censo de 1980 e da
portamento das taxas por diarréia e deficiência PNAD de 1984 (Simões e Oliveira40, 1986), fez
nutricionais, encontradas persistentemente em todas com que se acreditasse, a princípio, na falta de sen-
as grandes regiões entre 1982 e 1984, merecem con- sibilidade deste coeficiente para indicar uma dete-
templação (Figura 2). Ao serem comparados à rioração da qualidade de vida neste período
invariância da mortalidade infantil por anomalias (Giraldelli e Fernandes18, 1986).
congênitas, durante todo o período analisado, os Investigando as informações anuais do
agravos da mortalidade infantil por doenças associ- Subsistema de Mortalidade do Ministério da Saúde,
adas à subnutrição nos momentos de crise cons- Becker e Lechtig2 (1986) foram os primeiros a
tituem-se em evidências empíricas do paralelismo detectar acréscimos em 1983 e 1984, sobretudo nas
já sobejamente reconhecido entre a conjuntura regiões Norte e Nordeste. Trabalhos posteriores
nutricional e as condições de saúde da população. reafirmaram a importância do acompanhamento
anual da mortalidade infantil, indicando inter-
rupções no processo de queda em diferentes áreas do
Comentários Finais País (Castilho e Szwarcwald5, 1986; Macedo25;
Oliveira36, 1989; Simões39, 1989; Szwarcwald e
Na década de 80, particularmente nos anos ini- col.42, 1989). Nos estudos desta natureza, as maiores
ciais, o Brasil enfrentou uma fase de grave recessão dificuldades residem justamente em obter estimati-
econômica, com taxas de variações negativas no vas fidedignas da mortalidade infantil em regiões do
Produto Interno Bruto (PIB) per capita, depois de País onde ainda há enorme precariedade nos sis-
duas décadas de crescimento contínuo. Embora tenha temas de informações registradas em cartório.
havido certa recuperação econômica a partir de 1985, O procedimento aqui utilizado visou, sobretudo,
o nível de crescimento anual do PEB caiu de 9%, no o aproveitamento do caráter de continuidade dos
período 1965-80, para 3%, entre 1980 e 1989 (Banco dados de registro, buscando retirar deles as infor-
Mundial1,1991). A crise gerou o aumento do desem- mações que, apesar das deficiências do sistema,
prego e a contenção de investimentos em políticas pudessem expressar as distintas situações de morta-
sociais que acabaram por demonstrar influências lidade infantil encontradas no Brasil, nos anos 80.
negativas nos padrões de saúde da população. Sumarizadas em uma medida única por meio de
A continuidade da tendência declinante da procedimentos estatísticos multivariados, as estima-
mortalidade infantil nos primeiros anos da década tivas resultantes foram consideradas bastante satis-
de 80, apontada por métodos indiretos de esti- fatórias se comparadas às obtidas por outras técnicas
(Szwarcwald41, 1993) e possibilitaram identificar os os menores de um ano na Região Nordeste apontou
reflexos da crise econômica na população menor de para a carência de assistência médica, com elevado
um ano em diferentes áreas do território nacional. percentual de óbitos sem definição da causa básica,
Os achados mostraram consistência ao compor- para a desnutrição e falta de saneamento básico, com
tamento esperado para uma fase de desiquilíbrio relevante proporção de mortes por diarréia.
econômico. Apesar da tendência geral de descenso Embora não se tenha estabelecido ainda ne-
entre 1979 e 1989, todas as regiões analisadas, apre- nhuma situação de aclive contínuo, a constatação
sentando variados contextos sociais e econômicos, empírica das flutuações encontradas na série tem-
demonstraram reprodutibilidade dos resultados: poral estudada sugere a hipótese de uma teia de
interrupções na tendência de declínio da mortali- causalidade, onde as condições de vida, determi-
dade infantil no ínicio dos anos 80. Os aumentos nadas pelas variações na economia interagem com
foram associados ao componente tardio, sobretudo os benefícios da transição urbano-industrial da
às doenças relacionadas à fome e à miséria como as sociedade. Os efeitos negativos, desencadeados
diarréias e as deficiências nutricionais. Constatou- pelo agravamento da pobreza, são, certamente,
se, ainda, que o excesso de mortes esteve correla- contrabalançados pelos efeitos intermediadores
cionado negativamente ao nível socioeconômico, como a implementação de políticas sociais e de
sendo mais significativo nas regiões de menor infra-estrutura urbana ao lado dos programas de
desenvolvimento, Norte e Nordeste. prevenção e controle de doenças, acarretando em
O comportamento geral de declínio da morta- alterações na velocidade de decréscimo que esta-
lidade infantil, nos anos 80, pode ser explicada, fun- belecem a não-uniformidade do processo de queda.
damentalmente pelas intermediações do processo Desnecessário insistir que estas explicações
de urbanização da população que acabou por facili- podem não passar de meras especulações sugeridas
tar o acesso às ações e programas de saúde, à pela instabilidade no padrão de declive repetida-
assistência médica e ao abastecimento de água mente observada nas mais diferentes regiões ana-
encanada, além do impacto produzido pela queda lisadas. Evidentemente, outras hipóteses podem ser
contínua da fecundidade desde a década anterior. pertinentes para interpretar as flutuações obser-
Por outro lado, desacelerações nos gradientes de vadas, como até mesmo, a de serem resultantes de
declive, ao lado de picos de acréscimo, são inter- simples aleatoriedade dos processos temporais.
pretadas como prováveis decorrências do referido Em suma, a análise demonstrou que a série
desequilíbrio econômico registrado nesse período. temporal que descreve a evolução da mortalidade
Entre todas as dimensões da problemática da infantil no Brasil nos anos 80 é marcada por nítidas
mortalidade infantil no Brasil, ficou fortemente evi- interrupções na tendência de declínio. Afetada par-
denciada a disparidade espacial no sentido Norte-Sul. ticularmente nas regiões menos favorecidas, onde
Enquanto o Centro-Sul demonstra sinais de similari- os aumentos foram atribuídos sobretudo às doenças
dade aos níveis dos países desenvolvidos, a mortali- relacionadas à subnutrição, o estudo revelou a per-
dade infantil no Nordeste ainda é decrita por um sistência e a acentuação das desigualdades no
padrão muito distante. O perfil de mortalidade entre processo de morte entre os menores de um ano.

Referências Bibliográficas 5. CASTILHO, E.A. & SZWARCWALD, C.L. Crise


econômica: o impacto na mortalidade. Rio de
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2. BECKER, R. A. & LECHTIG, A. Brasil: evolução da 7. FUNDAÇÃO IBGE. Estatísticas do registro civil:
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Abstract
A procedure for the estimation of the infant mortality rate in Brazil, in the 1980's, based only on the age distribution of
registered deaths, is here proposed. Using this technique, it is possible to estimate the probabilities of dying in the first
year of life in a continuous way, year by year, for different regions of the country. The space-time distribution of the
main causes of infant deaths is analysed and the relevance of using this coefficient to express the social and economic
conditions of the Brazilian population from 1979 to 1989 is discussed.

Infant mortality, trends. Cause of death. Estimation techniques.


Anexo

Com o objetivo de construir modelos de mortalidade específicos para populações subdesenvolvidas,


o projeto das Nações Unidas43, (1982) consistiu em analisar um conjunto de tábuas de vida de diferentes
países da América Latina, Ásia e África, traduzidas matematicamente pelos logitos das probabilidades
de morte (logito nqx)* nos grupos etários 0-1, 1-4, ...., 80-84.
O modelo geral da ONU baseou-se em estabelecer que variações na estrutura etária da mortalidade
de uma população em relação à outra, tomada como padrão, são expressas por meio de uma regressão
linear, resultante de uma análise estatística por componentes principais. Considerando-se dois compo-
nentes, o modelo geral da ONU é descrito por:

onde n q x e nqx são, respectivamente, as probalidades de morrer entre as idades x e x+n da popu-
lação em estudo e da população padrão, u l x e u2x coordenadas dos dois primeiros componentes
apresentados na referida publicação - e b1 e b2 parâmetros a serem estimados por procedimentos
de regressão.

Após a estimação dos coeficientes da regressão, são determinados os valores ajustados das pro-
babilidades de morte. Observa-se, porém, que se em uma determinada população existe expressivo
sub-registro de óbitos em todas as faixas etárias, a aplicação direta do procedimento produz estima-
tivas incorretas dos parâmetros do modelo e, em decorrência, ajustes incorretos das probabilidades
de morte.
Com o propósito de incluir parâmetros no modelo que representassem o sub-registro de óbitos por
grupo etário, por meio de transformações matemáticas das funções da tábua de vida, reformulou-se o
modelo geral da ONU, possibilitando descrever os logaritmos das taxas específicas de mortalidade por
uma regressão linear:

naxé o número médio de anos vividos entre as idade x e x+n, e nmx e nmx são, respectivamente, as taxas
centrais de mortalidade da população em estudo e da população padrão.

Por outro lado, representando-se a cobertura dos óbitos registrados no intervalo etário (x,x+n) por
nSx, tem-se:

onde n m' x são as taxas centrais de mortalidade calculadas a partir das informações de registro e nmx são
as verdadeiras taxas.

Substituindo-se a igualdade (A3) no modelo (A2), obtém-se a equação geral do modelo da ONU
modificado, denominado de "MONUM":

Propondo adequados modelos para descrever o comportamento da cobertura nsx por idade, os coefi-
cientes bi são estimados para produzir o melhor ajuste à regressão (A4), possibilitando determinar as
funções da tábua de vida.

* logito nqx = 0.5 log ( n q x (l- n q x )), onde nqx é a probabilidade de morrer entre as idades x e x+n.
Admitindo-se sub-registro aproximadamente invariante em um certo intervalo etário (e.g. 1-69 anos),
isto é, nSx=s, obtém-se um modelo linear:

Neste caso, a cobertura constante s é determinada pelo valor estimado do coeficiente linear da
regressão.

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