Recursos em Espécie: Tipos e Admissibilidade
Recursos em Espécie: Tipos e Admissibilidade
No caso em que o juiz considera o réu como parte Se o processo estiver pronto para julgamento
ilegítima, mas depois reconhece que ele é, de fato, um imediato, o tribunal deve decidir o mérito. O tribunal
também pode decretar a nulidade da sentença se esta
devedor, o autor recorre e alega que o réu não é
apenas amigo do devedor, mas fiador e co-devedor. não for congruente com os fundamentos do pedido,
Se o tribunal concordar que o réu é parte legítima, ele se houver omissão no exame de um dos pedidos, ou
pode decidir, mesmo que o juiz não tenha analisado o se a sentença carecer de fundamentação. Assim, a
abrangência do efeito devolutivo é ampla, permitindo
ao tribunal julgar o mérito, mesmo que o juiz de realizadas pelo juiz de primeiro grau. O entendimento
primeiro grau não o tenha feito ou não tenha é que, geralmente, o tribunal não pode ordenar a
examinado todos os fundamentos apresentados. produção de novas provas, mas pode analisar aquelas
já existentes. Se necessário, a falta de prova pode
levar à anulação da sentença, mas a decisão sobre
como proceder fica a critério do tribunal.
A maioria dos juristas defendia que, de acordo com o Em resumo, a discussão sobre a devolutividade da
Código de 1973, o tribunal deveria devolver a matéria apelação é fundamental para garantir a eficiência do
ao primeiro grau sempre que houvesse a extinção do processo e a proteção dos direitos das partes.
julgamento de mérito. Essa postura visava evitar a
supressão de instâncias, garantindo que o juiz de
primeiro grau tivesse a oportunidade de analisar o A questão discutida envolve a necessidade de
que não foi examinado. Em uma exposição sobre o produção de provas em processos judiciais e a sua
assunto, um desembargador afirmou que o juiz deve relação com a maturidade da causa. Se uma prova é
ter a chance de decidir sobre tudo o que não analisou. essencial para o julgamento, mas não pode ser
Essa posição, porém, gerou reações adversas entre os realizada, isso indica que a causa não está
juízes presentes. completamente madura. Por outro lado, se a prova
pode ser feita, mesmo que a causa esteja apenas
Na elaboração do novo Código de Processo Civil, fiz
"quase madura", o tribunal pode não se sentir à
forte pressão para que o legislador permitisse uma vontade para simplesmente ordenar a produção da
ampliação do efeito devolutivo da apelação. prova e julgar com base nela.
Considero essencial que tudo que foi objeto de
contraditório no primeiro grau seja devolvido, mesmo O artigo 938, parágrafo terceiro, estabelece que,
que o juiz não tenha analisado todos os aspectos. Se reconhecendo a necessidade de produção de prova, o
as partes já discutiram, não há que se reclamar, pois a relator deve converter o julgamento em diligência,
única diferença é que o tribunal examinará as realizando a instrução no tribunal ou no primeiro grau
questões sem que elas passem novamente pelo juiz de jurisdição. Após essa instrução, o tribunal decidirá
de primeiro grau. sobre o recurso.
É importante ressaltar que existem situações em que Existem situações em que é crucial entender se houve
processos podem ser iniciados diretamente no ou não um julgamento de mérito no primeiro grau,
tribunal, ou seja, o legislador pode suprimir um grau pois isso pode afetar a abordagem do tribunal. O
de jurisdição quando isso for conveniente para o código permite que o tribunal julgue, mesmo que o
sistema, visando à celeridade processual. Assim, não juiz de primeiro grau não tenha se pronunciado sobre
se está suprimindo garantias, uma vez que as partes já o mérito. Assim, se a falta de uma prova foi
participaram do contraditório. O tribunal examinará determinante para um erro no julgamento, o tribunal
todas as questões discutidas, mesmo que o juiz não deve considerar essa situação.
tenha feito isso.
O tribunal tem a autoridade para determinar a
A amplitude do efeito devolutivo é atualmente a mais produção de provas e, com base nelas, emitir seu
abrangente possível. O tribunal analisará tudo que foi voto. Essa capacidade está vinculada à regra do artigo
objeto de contraditório, mesmo que não tenha sido 938, que sugere que o tribunal pode, sim, produzir
examinado pelo juiz de primeiro grau. Exemplos provas e não necessariamente devolver o caso ao juiz
incluem a carência da ação ou a nulidade da sentença. de primeiro grau, a menos que isso seja mais prático,
Se o juiz falhou em fundamentar sua decisão, o como no caso de perícias ou audiências de
tribunal suprirá essa falha. testemunhas.
Um ato judicial pode decidir o mérito da lide, que é a É importante destacar que as questões processuais,
controvérsia principal, ou não. Se o juiz acolhe uma como legitimidade de parte ou competência do juiz,
alegação de ilegitimidade de parte, por exemplo, ele não estão diretamente relacionadas ao mérito da
não resolve a questão do mérito, mas profere uma ação. Se um réu alegar que o juiz é incompetente para
sentença que extingue o processo. Assim, mesmo que julgar o caso, ele deve apresentar essa alegação de
não tenha analisado o mérito, o juiz pode encerrar o forma adequada, pois a incompetência relativa pode
processo se acolher certas alegações. ser prorrogada se não for alegada no momento certo.
Durante o desenvolvimento do processo, várias Se o juiz reconhecer a sua incompetência, seja por
questões podem surgir, como a alegação de alegação do réu ou de ofício, ele não extinguirá o
legitimidade ou incompetência do juiz. Após analisar processo, mas determinará que este seja
essas questões, o juiz pode proferir uma decisão que encaminhado ao juiz competente. Caso o segundo juiz
saneia o processo. Se a alegação de ilegitimidade for também negue a sua competência, a questão poderá
acolhida, o juiz extingue o processo; caso contrário, ser levada ao tribunal para resolução.
ele poderá seguir com a análise do mérito.
Esses recursos possuem regulamentação básica na A escolha dos nomes dos recursos no direito
Constituição Federal, o que é importante destacar. processual brasileiro apresenta uma certa falta de
Quando mencionamos tribunais superiores, é comum rigor científico. Na teoria geral dos recursos, é comum
associá-los ao Supremo Tribunal Federal, que julga classificar os recursos em extraordinários e ordinários.
questões constitucionais, e ao Superior Tribunal de Os recursos extraordinários estão previstos na
Justiça, que se dedica a matérias federais Constituição, enquanto os ordinários são regulados
infraconstitucionais. Contudo, essa visão não é por leis infraconstitucionais. Essa classificação,
totalmente precisa, pois o nosso sistema permite que embora tradicional, pode causar confusão,
esses tribunais também decidam sobre outras especialmente porque a Constituição Federal
matérias, não restritas apenas ao direito. apresenta um recurso denominado "ordinário", que,
apesar do nome, está previsto na própria
Ademais, muitos recursos são regulados pela Constituição.
Constituição, e essa estrutura pode parecer ilógica,
pois classifica os recursos não apenas pela sua Historicamente, até a Constituição de 1967, existia
matéria, mas pela intenção de regular a atuação dos apenas o recurso extraordinário, que concentrava
tribunais superiores. Para uma melhor compreensão toda a interpretação da norma constitucional e da
do sistema, é útil dividir a justiça em dois grandes legislação federal no Supremo Tribunal Federal. Com a
grupos: a justiça estadual, focando na justiça comum. Constituição de 1988 e a criação do Superior Tribunal
de Justiça, houve uma divisão desse recurso: o recurso
extraordinário continuou a ser vinculado ao Supremo,
focando em questões constitucionais, enquanto o
A justiça brasileira é composta pela justiça comum
recurso especial passou a tratar de matérias federais
estadual e pela justiça comum federal. Em ambas,
infraconstitucionais.
existe um primeiro e um segundo grau: o primeiro
grau abrange as decisões proferidas pelos juízes, Em relação ao recurso ordinário, sua compreensão é
enquanto o segundo grau é representado pelos facilitada pelo nome utilizado no regimento interno
do Supremo Tribunal Federal, que o denominava Essa situação ilustra um ponto interessante sobre a
"apelação para Tribunal Superior". Assim, o recurso competência jurisdicional em casos que envolvem
ordinário, como mencionado na Constituição, pode estados estrangeiros ou organismos internacionais.
ser entendido como uma forma de apelação para o Quando há uma demanda entre um estado
Superior Tribunal de Justiça ou para o Supremo estrangeiro e uma pessoa física ou jurídica brasileira,
Tribunal Federal, em determinadas circunstâncias, a cabe recurso ordinário ao Superior Tribunal de Justiça.
partir de decisões de primeiro grau. Essa função se A questão que se coloca é quem é o competente para
assemelha à apelação prevista no Código de Processo julgar essa demanda em primeiro grau.
Civil, que permite a interposição de recursos a
tribunais superiores. Por exemplo, imagine que um dos senhores é
proprietário de um imóvel alugado para uma
embaixada. Se essa embaixada não paga o aluguel, a
dúvida é: quem julga essa questão? A resposta é que
Alguém poderia questionar qual é a diferença entre o
o juiz federal de primeiro grau é competente. Se o
recurso ordinário e os recursos especial e caso envolvesse um município brasileiro e um estado
extraordinário, já que ambos são direcionados ao estrangeiro, o julgamento caberia ao STJ. Essa
Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal configuração foi mantida desde a Constituição de
Federal. Em muitos casos, o recurso ordinário é 1967 e repetida na de 1988, o que pode causar
utilizado após uma ação originária em um tribunal,
estranhamento, pois não há menção ao Tribunal
resultando em um acórdão. É importante notar que, Regional Federal (TRF) nesse contexto.
embora o recurso ordinário não seja nem especial
nem extraordinário, ele é caracterizado por permitir o A criação do STJ trouxe algumas confusões,
exame de matérias de fato, enquanto os outros especialmente em relação à divisão de competências.
recursos normalmente se restringem a questões de Por exemplo, no direito do trabalho, há conflitos de
direito. competência entre juízes do trabalho e juízes
estaduais. A lógica sugeriria que um tribunal superior,
A escolha dos termos "ordinário", "especial" e como o STF, deveria decidir esses conflitos, mas, na
"extraordinário" tem um propósito legislativo. O prática, essa responsabilidade recai sobre o STJ.
recurso ordinário foi concebido para permitir uma
análise mais abrangente, incluindo a possibilidade de Dessa forma, a organização do sistema processual não
reexaminar provas. Isso reflete a intenção da se ajustou perfeitamente às novas estruturas criadas,
Constituição de reconhecer que esses tribunais não como o STJ, que não contemplou adequadamente a
atuam apenas como instâncias de revisão jurídica, dinâmica das competências. Isso resultou em um
mas também examinam questões fáticas. modelo que, embora tenha sido importante para a
criação de um tribunal superior, deixou lacunas e
Além disso, a Constituição Federal também
inconsistências na aplicação da legislação,
regulamenta recursos internos dentro do Superior especialmente em casos que envolvem jurisdição
Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, internacional e questões de direito comparado.
que não estão necessariamente relacionados ao
Código de Processo Civil, mas são igualmente
relevantes.
A criação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) foi um
Por fim, a Constituição trouxe um artigo específico rearranjo político mais do que uma resposta a
que estabelece que o recurso ordinário deve ser necessidades práticas. Na época, havia a percepção de
aplicado em casos que envolvam partes como estados que não fazia sentido manter apenas 11 ministros
estrangeiros ou organismos internacionais em litígios responsáveis por toda a interpretação da Constituição
com municípios ou pessoas domiciliadas no Brasil. e das leis federais, uma situação considerada inviável.
Essa inclusão pode parecer complicada, mas serve Por isso, foi estabelecida a necessidade de um novo
para esclarecer situações em que a jurisdição dos tribunal que pudesse lidar com essas questões de
tribunais superiores é requerida. forma mais eficiente.
Os primeiros ministros do STJ eram, em sua maioria, relatos monocráticos são mais comuns. Apesar disso,
desembargadores estaduais, uma vez que não decisões de relatores no STJ e no STF têm se tornado
existiam tribunais regionais federais na época. A mais frequentes do que decisões colegiadas.
composição inicial do STJ, que contava com 33
ministros, foi marcada por um desequilíbrio, já que Outro recurso relevante é o embargos de divergência,
havia 27 ministros oriundos do Tribunal Federal de que têm um papel crucial na uniformização da
Recursos, o único tribunal de segundo grau da Justiça interpretação das leis federais. O STJ é dividido em
Federal em Brasília. Os outros seis ministros eram turmas que podem interpretar a mesma norma de
maneiras distintas. Quando isso ocorre, os embargos
advogados e desembargadores estaduais, o que
refletia um rearranjo político em busca de um suposto de divergência são utilizados para harmonizar essas
equilíbrio entre a Justiça Federal e a Justiça Estadual. interpretações. Esse recurso é de grande importância
para a coerência do sistema, embora esteja regulado
É importante notar que, na primeira posse do STJ, os pelo CPC, não pela Constituição.
27 ministros provenientes do Tribunal Federal de
Recursos tomaram posse no mesmo dia, enquanto os Vale ressaltar que qualquer modificação nos
outros ministros se juntaram ao tribunal no dia parâmetros de cabimento desses recursos exigiria
seguinte. Isso ocorreu para garantir que a presidência uma emenda constitucional, um processo que pode
do STJ fosse ocupada por membros da Justiça Federal, ser desafiador. Por exemplo, se um recurso especial
for julgado pela terceira turma e houver uma
dado que a antiguidade na função determinava que os
primeiros presidentes fossem sempre da esfera divergência em relação à interpretação feita pela
federal. quarta turma, essa questão é levada à segunda sessão
do STJ, que abrange ambas as turmas. Essa dinâmica
Dessa forma, a estrutura inicial do STJ estava destaca a complexidade do sistema e a necessidade
fortemente influenciada por questões políticas e pela de mecanismos que garantam a uniformidade nas
urgência de reorganizar o sistema judiciário, decisões.
refletindo um cenário em que as prioridades práticas
estavam subordinadas a rearranjos institucionais. Vamos imaginar que estou considerando a
divergência entre a terceira turma e a quinta. Neste
caso, quem irá julgar é a Corte Especial, que está
acima das turmas. A primeira e a segunda turmas
Quando discutimos os recursos no âmbito dos
formam a primeira sessão, a terceira e a quarta
tribunais superiores, destacamos o recurso formam a segunda sessão, e a quinta e a sexta
extraordinário e o recurso especial, ambos formam a terceira. Acima delas, temos a Corte
relacionados ao direito infraconstitucional. O recurso Especial, composta por 21 dos 33 ministros, que não
ordinário, que é mais familiar, pode ser entendido realiza julgamentos de primeiro grau, mas atua como
como uma apelação para tribunais superiores,
um órgão especial.
funcionando de maneira semelhante às apelações que
os alunos estudaram. É importante destacar que, apesar de sua posição, a
Corte Especial pode ter ministros mais antigos que
Além desses recursos, existem outros, como os não têm atribuições de julgamento de casos comuns.
embargos de declaração, que podem ser utilizados em
Na próxima semana, o professor Oreste virá para
resposta a decisões do Superior Tribunal de Justiça concluir a discussão sobre os recursos
(STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF). Esses infraconstitucionais. Após isso, teremos a prova. Peço
embargos têm um uso mais restrito e geralmente se desculpas, mas hoje tenho minha última aula em
referem a omissões ou obscuridades nas decisões. outra turma, e após isso nos encontraremos em duas
É importante notar que o Código de Processo Civil semanas.
(CPC) ampliou significativamente os poderes dos
relatores, permitindo mais julgamentos monocráticos.
Contudo, há uma tradição no Estado de São Paulo em
que os desembargadores preferem decidir em
colegiado, ao contrário de outras regiões onde os
AULA 7 – 26 DE AGOSTO específicos, admite-se o mandado de segurança, que
deve ser utilizado de forma excepcional. Para
Hoje vamos concluir a discussão sobre os recursos que impugnar certas decisões, a ação rescisória é uma
abordamos na aula passada. Estávamos examinando
alternativa mais comum e serve para desconstituir a
os recursos disponíveis para impugnar decisões de coisa julgada. Essa ação é uma via autônoma, pois
primeiro grau de jurisdição, que incluem a apelação e requer o início de um novo processo, diferente
o agravo de decisão interlocutória. daquele em que a decisão impugnada foi proferida.
A principal diferença entre a sentença e a decisão É importante notar que os tribunais, geralmente,
interlocutória é que a sentença é a decisão final do
decidem de forma colegiada, ou seja, por um grupo
processo, que decide o mérito da questão, enquanto a de juízes. Embora existam decisões monocráticas do
decisão interlocutória trata de aspectos do processo relator, que são analisadas por uma turma julgadora,
que não envolvem a matéria principal. Por exemplo, a maioria dos recursos internos costuma ser
em um processo em que se pede indenização por
desprovida, levando advogados a preferirem esperar
danos materiais e morais, o juiz pode decidir que os o julgamento completo antes de recorrer.
danos morais são incontroversos e, portanto, julgá-los
procedentes. Esse tipo de decisão é uma decisão No antigo código, se uma decisão colegiada não fosse
interlocutória, pois não encerra o processo, mas unânime, era possível interpor um novo recurso que
decide parcialmente sobre o mérito. seria analisado por mais dois membros da corte.
Atualmente, se ocorrer divergência, a legislação exige
Embora essa decisão não trate do mérito em sua que o julgamento seja estendido, envolvendo mais
totalidade, ela ainda é uma parte importante do dois juízes, para que a decisão seja confirmada ou
julgamento. É fundamental entender que, no curso da modificada. Essa mudança visa garantir maior
fase cognitiva do processo, existem recursos consistência nas decisões judiciais.
específicos que podem ser interpostos, como a
apelação e o agravo de instrumento, que possuem
efeitos diferentes.
O dispositivo que prevê que a questão preliminar
Na apelação, por exemplo, há o efeito devolutivo, que deve ser decidida antes do mérito do recurso tem a
suspende a eficácia da decisão até que o recurso seja função de garantir que problemas que possam
julgado. Em contrapartida, o agravo de instrumento inviabilizar o julgamento sejam analisados antes de se
não possui efeito suspensivo; a decisão proferida entrar no mérito da questão. Se a preliminar for
produz efeitos imediatamente. acatada, pode levar à não consideração do recurso.
Além dos recursos, existem outras formas de Os embargos de declaração são um recurso destinado
impugnação das decisões judiciais, como o mandado a esclarecer contradições, omissões ou obscuridades
de segurança. Este, porém, é considerado um meio em decisões judiciais. Por exemplo, se uma sentença
excepcional e só pode ser utilizado em situações não abordar certos fundamentos ou apresentar
específicas e extraordinárias. Hoje em dia, as afirmações contraditórias, os embargos podem ser
situações em que se admite o mandado de segurança utilizados para corrigir esses vícios. No entanto, é
para impugnar decisões são muito raras. comum que advogados busquem embargos de
declaração como uma forma de ganhar tempo para
Em resumo, é crucial compreender a natureza dos interpor outros recursos, como recursos especiais ou
recursos e suas diferenças, além das vias processuais extraordinários, já que a interposição desses
que podem ser utilizadas para contestar decisões embargos suspende o prazo para outros recursos.
judiciais.
Na prática, muitos embargantes alegam contradições
ou omissões que, na maioria das vezes, não são
reconhecidas pelos juízes ou relatores, que costumam
rejeitar os embargos, afirmando que a decisão estava
A sentença pode ser contestada por meio de recursos clara e sem vícios. Assim, os embargos de declaração
especiais ou extraordinários, mas, em casos não servem para contestar a conclusão do juiz, mas
para esclarecer pontos que efetivamente apresentem para a parte contrária. Isso geralmente indica que a
problemas na decisão. decisão será rejeitada. Se o juiz abre prazo, há uma
esperança de que ele possa reconsiderar a decisão. É
importante que o juiz cumpra rigorosamente esse
Existem duas principais vertentes que prazo de cinco dias; caso não o faça, a alternativa é
descaracterizam a finalidade dos embargos de interpor um mandado de segurança.
declaração: o abuso desses embargos com efeito O parágrafo terceiro do artigo 1024 permite a
protelatório ou infringente e a falta de conversão dos embargos de declaração em agravo de
fundamentação adequada nas decisões que os
instrumento, se o relator entender que este é o
rejeitam. É comum que, ao analisar os embargos, o recurso adequado. Nesse caso, o relator intimará o
juiz reconheça que houve omissão ou que não recorrente para complementar as razões recursais. O
explicou um ponto de forma satisfatória, acolhendo os parágrafo quarto do mesmo artigo deve ser lido e
embargos para corrigir a decisão. No entanto, essa
discutido, pois possui uma importância específica que
descaracterização é frequente e é responsabilidade merece ser explicada.
tanto dos advogados, que muitas vezes abusam dos
embargos, quanto do poder judiciário, que não
examina adequadamente os argumentos
apresentados.
Quando há a interposição de embargos de declaração,
O Código de Processo Civil prevê que os embargos de
declaração podem ser interpostos contra qualquer se o juiz perceber que pode modificar a decisão, ele
decisão judicial, uma ampliação em relação ao código deve conceder um prazo para que a parte contrária se
anterior, que limitava essa possibilidade às sentenças. manifeste. Isso ocorre porque, mesmo que a outra
Atualmente, todas as decisões que contêm conteúdo parte já tenha interposto algum recurso, ela não pode
aguardar o julgamento dos embargos para tomar suas
decisório podem ser objeto de embargos, exceto
despachos que são considerados irrecorríveis. Se um providências. Os embargos de declaração não têm
despacho for teratológico e causar prejuízo, a opção é efeito suspensivo em relação a outros recursos,
interpor um agravo ou um mandado de segurança. exceto para o embargante, que precisa desse prazo
para interpor sua própria ação.
Os embargos de declaração têm como objetivo
Se a parte contrária já tiver interposto um recurso, e o
esclarecer obscuridades, eliminar contradições, suprir
omissões ou corrigir erros materiais em decisões juiz decidir alterar sua decisão com base nos
judiciais. Essa ferramenta processual é fundamental embargos, ele deve dar a essa parte a oportunidade
para garantir que as decisões sejam justas e claras, de se manifestar sobre a nova decisão. A possibilidade
permitindo a correção de falhas que possam de o juiz rever sua decisão em razão dos embargos é
um aspecto importante, e a concessão do prazo para
prejudicar as partes envolvidas.
a parte contrária se manifestar é fundamental nesse
contexto.
O parágrafo único do artigo menciona situações em Além disso, os embargos de declaração normalmente
que a decisão judicial pode ser considerada omissa. não conferem efeito infringente, a menos que a
No artigo 1023, o prazo para a interposição de modificação da sentença ocorra devido à eliminação
embargos de declaração é de apenas cinco dias, sendo de omissões ou contradições. Essas situações de
este o único recurso com um prazo inferior a 15 dias. alteração da decisão são extremamente raras, tendo
Nesse caso, o juiz deve intimar a parte contrária para sido vistas em casos excepcionais ao longo da carreira
se manifestar sobre os embargos no mesmo prazo de de um advogado.
cinco dias, caso o acolhimento dos embargos implique
a modificação da decisão. O parágrafo que trata da revisão da decisão pelo
relator explica que, se a parte já tiver interposto um
É comum que, quando o juiz recebe os embargos de recurso e não houver alteração, o prazo para esse
declaração, ele já decida sobre eles sem abrir prazo recurso permanece válido. Uma questão relevante a
ser considerada é o pré-questionamento. Isso se de provimento do recurso quanto o risco de danos
refere à exigência de que a matéria de direito tenha para a concessão do efeito suspensivo pretendido.
sido analisada em primeira instância, pois recursos
especiais e extraordinários não podem julgar questões
de fato, apenas questões de direito. Se a matéria foi
mencionada, mas não analisada de forma expressa na
decisão recorrida, isso pode gerar dificuldades na O texto discute a redação de dispositivos legais que
análise dos recursos. tratam da suspensão da eficácia de decisões judiciais.
A interpretação sugere que a probabilidade de
provimento do recurso é suficiente para justificar a
suspensão, mas isso pode gerar confusões, uma vez
que a redação não deixa claro que também deve
Antigamente, os tribunais superiores, como o haver risco de dano.
Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal
O parágrafo terceiro menciona que, em casos de
Federal, consideravam que se uma alegação não fosse
examinada, mas também não impugnada no recurso embargos de declaração manifestamente
especial, isso implicava que a questão não havia sido protelatórios, a multa poderá ser aplicada e a
pré-questionada. No entanto, o novo dispositivo interposição de novos recursos ficará condicionada ao
estabelece que elementos mencionados pelo depósito prévio dessa multa. Essa medida visa evitar o
uso excessivo de embargos, mesmo que não sejam
embargante para fins de pré-questionamento são
considerados incluídos no acórdão, mesmo que os necessariamente protelatórios. Se houver dois
embargos de declaração sejam inadmitidos ou embargos considerados protelatórios, novos
rejeitados. Assim, se o juiz não analisou a questão, a embargos não serão aceitos.
parte pode interpor um recurso especial, e o tribunal Além disso, é destacado que, de maneira geral,
não poderá alegar que essa questão não foi pré- nenhum recurso impede a eficácia da decisão, exceto
questionada, pois a omissão do juiz justifica a a apelação, que possui regras específicas. Essa
interposição do recurso. informação é reforçada pelo fato de que o parágrafo
Além disso, os embargos de declaração não possuem primeiro do artigo 1026 repete o que está no
efeito suspensivo e interrompem o prazo para a parágrafo único do artigo 995. Essa similaridade entre
os dispositivos legais indica que a redação do código é
interposição de outros recursos. A eficácia da decisão
pode ser suspensa pelo juiz ou relator, caso se clara e eficaz.
demonstre a probabilidade de provimento do recurso
ou a relevância da fundamentação, especialmente se
houver risco de dano grave ou de difícil reparação.
É comum que advogados solicitem efeito suspensivo A discussão aborda a eficácia das decisões recorridas,
ao interpor embargos, mas a resposta geralmente é tanto monocráticas quanto colegiadas, e a
negativa. Por isso, muitos optam por pedir possibilidade de sua suspensão. É mencionado que a
diretamente ao relator no tribunal, visando a suspensão pode ocorrer a critério do juiz ou do
concessão do efeito suspensivo em caráter relator, se houver probabilidade de provimento do
excepcional. Para isso, é necessário demonstrar a recurso ou se a fundamentação for relevante,
probabilidade de que o recurso seja provido e o risco especialmente em situações que envolvam risco de
de danos irreparáveis. dano grave ou de difícil reparação.
No caso de um juiz manter a decisão, a parte tem um Há uma interpretação que sugere que, ao falar sobre
prazo de 15 dias para apelar. Se não houver tempo, a probabilidade de provimento, o código parece
pode-se solicitar ao juiz a suspensão dos efeitos da enfatizar que o risco de dano se torna a regra
decisão até o julgamento dos embargos. Se o juiz principal. Essa distinção entre os dispositivos é
negar, a parte deve recorrer diretamente ao tribunal. importante, pois implica que, enquanto um código
É essencial que se demonstre tanto a probabilidade pode ser mais rigoroso na exigência do risco de dano,
o outro parece abrir espaço para a probabilidade de assim, o nome continua gerando confusão, o que faz
provimento como um fator suficiente. com que a compreensão do tema seja mais difícil.
Em relação aos recursos, é afirmado que a apelação é Em termos de classificação dos recursos, há os
o único que possui efeito suspensivo, e que essa recursos extraordinários, que são mais complexos e
característica é amplamente reconhecida. A conversa têm um alcance maior, e os recursos ordinários, que
também destaca que questões relevantes serão são infraconstitucionais, ou seja, previstos em
elaboradas em aulas futuras e que os alunos não legislação infraconstitucional. O problema é que o
devem se preocupar com a prova, pois aqueles que recurso ordinário, conforme descrito pela
estudam com dedicação tendem a se sair bem. Constituição, acaba causando confusão, pois a mesma
nomenclatura é utilizada para diferentes tipos de
Por fim, a interação se encerra com um convite para recursos.
futuras discussões e a disponibilidade do professor
para esclarecer dúvidas, mostrando um ambiente Outro ponto importante é que, quando falamos sobre
colaborativo e de apoio ao aprendizado. a apelação, a gravação de instrumento, ou outros
tipos de recurso, como o recurso especial, estamos
AULA 10 DE OUTUBRO nos referindo a conceitos e formas de processamento
Na aula de hoje, vamos começar a tratar dos recursos distintas, mas sob uma denominação comum. No caso
para os tribunais superiores, especificamente o do recurso ordinário constitucional, por exemplo, ele
recurso ordinário, o recurso especial, o recurso pode ter diferentes significados dependendo do
extraordinário e, por último, o recurso de embargos contexto, o que pode gerar confusão entre os alunos.
de declaração.
O professor me passou um material e, ao olhar o Tudo isso, evidentemente, acaba gerando uma
programa, percebi que deveríamos ter avançado um dificuldade maior, pois quando perguntamos sobre o
pouco mais, mas, como não sei se todos
recurso ordinário constitucional, a primeira dúvida é
acompanharam, posso dar uma breve revisão. Quanto sobre sua aplicação, pois a questão pode ser
ao programa de aula, se alguém quiser, pode complexa. Uma observação preliminar que deve ser
consultá-lo no acesso à internet da faculdade. feita é que, no caso do recurso ordinário, há uma
Lembro que, algumas semanas atrás, discutimos os distinção importante na legislação, que não apenas
recursos constitucionais. A Constituição regula os define a possibilidade de recorrer, mas também
recursos para os tribunais superiores, mas não condiciona o cabimento do recurso ao resultado da
detalha todas as formas de acesso a esses tribunais. O demanda.
acesso, na maioria das vezes, se dá por meio de Vou explicar melhor. Quando os senhores estudam o
recursos, ações diretas ou de controle. Entre esses direito processual de forma geral, aprendem que para
recursos, destacamos o recurso ordinário, também
cada decisão há um recurso cabível, com exceção de
conhecido como recurso ordinário constitucional. O alguns casos, como os recursos extraordinário e
motivo do nome é que a doutrina usa o termo especial. Se eu quiser recorrer de matéria
"ordinário" para classificar esse recurso, e ele é constitucional, o recurso cabível é o extraordinário; se
utilizado para diversas finalidades. Porém, a utilização
for de matéria infraconstitucional, o recurso especial.
do termo "ordinário" gera confusão, pois na prática No entanto, a doutrina faz uma distinção importante
existem dois recursos com a mesma denominação, entre eles, pois tratam de temas diferentes.
mas com funções totalmente diferentes.
No caso do recurso ordinário, a Constituição Federal
A confusão é ainda maior porque, no processo traz uma situação peculiar. Não se trata apenas de
trabalhista, existe um recurso ordinário que tem um
uma definição de cabimento do recurso, mas também
objetivo totalmente distinto do recurso ordinário que de uma condicionante ao resultado da demanda. Para
estamos tratando aqui. Para tentar diferenciar, ilustrar isso, vou dar um exemplo: imaginem que
chamamos um de "recurso ordinário funcional" e o entrei com um mandado de segurança no Tribunal de
outro simplesmente de "recurso ordinário". Mesmo Justiça de São Paulo contra ato de um juiz de
competência originária daquele tribunal, e a ordem foi A ideia do sistema é que o recurso ordinário só cabe
parcialmente concedida. Fiz vários pedidos, alguns nas três hipóteses mencionadas, e não em outros
foram concedidos, outros negados. Na parte que foi tipos de recursos. Esses casos envolvem ações
concedida, poderia recorrer por meio de recurso originadas diretamente de tribunais superiores.
extraordinário ou especial. Porém, na parte em que a Assim, aplicam-se as regras gerais de recursos para o
ordem foi concedida, caberia recurso ordinário. Supremo Tribunal Federal, que envolvem decisões de
colegiado. Quando falamos de julgamento de
Esse é um exemplo único no direito brasileiro, em que tribunais superiores, estamos sempre diante de uma
o direito de recorrer, ou melhor, o direito de utilizar
decisão colegiada. Isso significa que, se
uma modalidade de recurso, depende do resultado da eventualmente houver um julgamento monocrático,
demanda. Ou seja, se o impetrante perde, ele tem não cabe recurso ordinário.
direito ao recurso ordinário. Se ele ganha, a parte
contrária não terá direito ao recurso ordinário. Digo isso porque, atualmente, há uma tendência
Alguém poderia questionar que isso parece uma crescente de julgamentos monocráticos nos tribunais
diferença irrelevante, mas há uma diferença superiores. Por exemplo, em um caso de habeas
fundamental, pois o recurso ordinário permite o corpus, se o relator deferir monocraticamente a
reexame de matéria de fato, enquanto o recurso liminar, não cabe recurso ordinário. O recurso só seria
especial e extraordinário não. cabível se a decisão fosse do colegiado. Ou seja, para
recorrer, seria necessário que o colegiado se
Portanto, essa situação representa uma exceção à manifestasse, e, se a decisão do colegiado fosse
ideia de unirrecorribilidade. É a única hipótese no desfavorável, aí sim o recurso ordinário seria cabível.
direito brasileiro em que o recurso é condicionado
pelo resultado da decisão. Não se trata apenas de um Além disso, a Constituição e a legislação tratam das
recurso diferente, mas também de um recurso que hipóteses em que o recurso ordinário é cabível, como
possui um grau de abrangência distinto, permitindo o nos casos de mandado de segurança, mandado de
reexame de matéria fática. injunção ou habeas corpus, com a possibilidade de
recurso ordinário caso a ordem seja denegada. Aqui, é
A partir disso, surge a questão: quando exatamente o importante entender que a interpretação histórica do
recurso ordinário é cabível? Se analisarmos a recurso ordinário implica que, quando a ordem é
Constituição Federal, veremos que a primeira
denegada, não significa que a questão foi analisada no
hipótese de cabimento do recurso ordinário é o mérito. O conceito de “denegação” de ordem não
direcionamento para o Supremo Tribunal Federal. Ou está relacionado ao mérito do caso, mas sim ao fato
seja, o recurso ordinário pode ser interposto de a tutela ter sido negada, sem que a questão tenha
diretamente para o Supremo Tribunal Federal em sido analisada detalhadamente.
algumas situações, como nos casos de mandado de
segurança, habeas corpus e mandado de injunção Portanto, do ponto de vista histórico, quando a
originários de tribunais superiores, como o STJ, o Constituição diz que cabe recurso ordinário em caso
Supremo Tribunal Federal ou até o Superior Tribunal de denegação da ordem, não é necessário que tenha
Militar. ocorrido uma análise do mérito. A denegação pode
ocorrer por não conhecimento do mandado de
Porém, há uma limitação: o recurso ordinário só é segurança ou mandado de injunção, ou até por
cabível nessas hipóteses específicas, e não em outras questões processuais como decadência. O recurso
ações originárias de tribunais superiores. Em outras ordinário, então, seria cabível nessas situações, com
palavras, o recurso ordinário não cabe em qualquer base na interpretação sistemática do direito.
ação originária de um tribunal superior, mas apenas
nas que a Constituição prevê, como o mandado de Em relação ao recurso ordinário, a principal questão
segurança, habeas corpus e mandado de injunção que surge é que, normalmente, em mandado de
originários de tribunais superiores. segurança ou mandado de injunção, cabe liminar, e
esta liminar é julgada pelo colegiado. Caso a liminar
seja deferida ou denegada, o recurso ordinário só
seria cabível na decisão final, após o julgamento
colegiado. Se houver uma decisão parcial, como no agravo de instrumento, que seria julgado pelo TRF. No
caso de uma delegação, o recurso ordinário seria entanto, nesse caso específico, como o recurso
direcionado ao STF ou ao STJ, dependendo da ordinário já está direcionado ao Superior Tribunal de
instância competente, podendo tratar de uma parte Justiça, o entendimento que se consolidou é que o
específica da sentença ou do mandado de segurança. agravo também deve ser dirigido a esse tribunal
superior.
Outra hipótese que gera interesse é o caso em que a
decisão vem de tribunais superiores, como o Superior Essa opção por um sistema processual mais célere e
Tribunal de Justiça, em situações envolvendo um eficaz, que permite "pular" um grau de jurisdição, foi
estado estrangeiro ou uma organização internacional. adotada em situações que envolvem estados
Por exemplo, se houver uma demanda entre um estrangeiros e organismos internacionais. A
estado estrangeiro e uma pessoa física ou jurídica explicação para essa escolha foi justamente a busca
brasileira, a sentença desse caso seria passível de por uma maior efetividade no processo, evitando um
recurso ordinário para o Superior Tribunal de Justiça. nível de morosidade. O objetivo é agilizar a tramitação
Esse tipo de situação é completamente diferente, pois desses casos. A ideia é que, por algum motivo, o
a competência não é relacionada ao tipo de ação, mas sistema processual foi estruturado para ser mais
à natureza das partes envolvidas, com uma distinção rápido nesses tipos de demandas.
em relação aos casos constitucionais em que os
No entanto, alguém pode questionar essa escolha, e a
direitos individuais estão sendo protegidos.
explicação política pode ser uma alternativa. Como o
Portanto, a Constituição prevê o recurso ordinário sistema processual foi construído de forma que as
para casos em que o conflito envolve, de um lado, um demandas envolvendo Estados e organismos
estado estrangeiro ou uma organização internacional, internacionais sigam um tratamento diferenciado, o
e, do outro, uma pessoa física ou jurídica brasileira. recurso ordinário para o Superior Tribunal de Justiça é
Nessas situações, o recurso ordinário caberia ao parte desse desenho processual. A explicação pode
Superior Tribunal de Justiça. estar relacionada a uma decisão política ou uma
escolha legislativa de tornar mais eficiente o
Existem alguns aspectos interessantes nesse sistema julgamento de tais questões.
processual. O primeiro deles é que, por força da
Constituição Federal, essas demandas no direito Em relação às características do recurso ordinário, o
brasileiro tramitam perante a justiça federal. O que prazo é de 15 dias, como ocorre com a maioria dos
torna isso ainda mais curioso é que essas ações recursos no sistema processual brasileiro. O
tramitam na justiça federal em primeiro grau de procedimento é similar ao da apelação, com as partes
jurisdição. Por exemplo, se um consulado de um apresentando suas razões. No entanto, há uma
determinado país realiza uma compra e não paga, o questão importante sobre o recurso adesivo. O Código
fornecedor pode entrar com uma ação de cobrança. de Processo Civil prevê que o recurso adesivo só cabe
Essa ação será ajuizada na justiça federal, e o nas apelações. A dúvida que surge é se seria possível
julgamento ocorrerá em primeiro grau, ou seja, será aplicar a mesma lógica ao recurso ordinário. A
uma sentença de um juiz federal. doutrina, no entanto, esclarece que não cabe recurso
adesivo no recurso ordinário, porque, em casos de
Porém, uma exceção à regra geral surge nesse caso: mandado de segurança, o recurso só é cabível para a
em vez de o recurso caber ao Tribunal Regional parte que perdeu, não para a parte vencedora.
Federal (TRF), o recurso será um recurso ordinário
dirigido ao Superior Tribunal de Justiça. Ou seja, há Portanto, a parte que perdeu a demanda tem o direito
uma situação inusitada, em que o recurso "pula" um de interpor o recurso ordinário, e a parte vencedora
grau de jurisdição, o que a doutrina chama de recurso não pode recorrer. Isso exclui a possibilidade de
per saltum. Essa situação levanta uma questão recurso adesivo, que normalmente seria utilizado pela
interessante: se, por exemplo, o juiz federal proferir parte vencedora para aderir ao recurso interposto
uma decisão interlocutória, como uma tutela de pela parte contrária. A parte que tem o direito ao
urgência, o que acontece? No Código de Processo recurso ordinário é sempre a parte que perdeu.
Civil, para tutelas de urgência, normalmente caberia o
O Código de Processo Civil traz uma regra que se A devolutividade, por outro lado, é uma questão
aplica ao recurso ordinário. O artigo 1028, por importante no recurso ordinário. No caso de um
exemplo, trata das hipóteses de cabimento desse pedido, a devolutividade se refere ao que o
recurso. Ele estabelece que o recurso ordinário segue recorrente deseja que seja reexaminado, sendo uma
as mesmas regras de admissibilidade e procedimento regra geral no sistema processual. A grande diferença
da apelação, conforme o Regimento Interno do no recurso ordinário é que tanto o STJ quanto o STF
tribunal. Isso significa que, por analogia, as podem revisar a matéria de fato e de direito, algo que
disposições que se aplicam à apelação também se não ocorre no recurso especial ou extraordinário, que
aplicam ao recurso ordinário nas hipóteses em que ele possuem limitações no âmbito de revisão.
é cabível. Dessa forma, seguindo a interpretação do
colega, a admissão do recurso ordinário seria regulada Embora haja algumas limitações cognitivas, como no
pela mesma lógica que rege a apelação, com exceções caso de mandado de segurança, essas limitações não
são impostas pelo tipo de recurso, mas sim pela
nos casos específicos previstos na legislação.
própria natureza do mandado de segurança. O mais
importante a ser entendido é que, no recurso
ordinário, o STJ e o STF atuam como cortes de
Teoricamente, da sentença do juiz federal de primeiro segundo grau de jurisdição, não como cortes
grau, pouco importa quem ganha ou quem perde, constitucionais ou de revisão.
pois, nessas situações, cabe recurso ordinário para o
Superior Tribunal de Justiça (STJ). Se uma das partes Uma questão interessante a ser analisada é o artigo
recorrer, a outra, no prazo das contrarrazões, também 13, parágrafo 3º, que trata da possibilidade de
pode interpor o recurso ordinário, que se configura julgamento imediato no segundo grau, quando o
como um recurso constitucional na forma adesiva. No processo estiver em condições de ser julgado. Esse
entanto, o recurso especial não cabe nesse tipo de dispositivo permite que o tribunal de segunda
processo. O que é interessante aqui é que, ao interpor instância, ao reformar a sentença, possa decidir o
o recurso ordinário, ele pode envolver tanto matéria mérito da causa, mesmo que o juiz de primeiro grau
de fato quanto de direito, abrangendo aspectos que tenha cometido falhas. Esse julgamento pode ocorrer
normalmente seriam tratados por um recurso em nome da efetividade do processo, sem a
especial. necessidade de reenvio para o juiz de primeira
instância.
O Superior Tribunal de Justiça, nesse contexto, atua
como uma instância revisora, mas sem as limitações A explicação para isso é simples: estamos lidando com
típicas do recurso especial, como o pré- direitos e garantias individuais, e, portanto, até os
questionamento. O recurso extraordinário, por sua tribunais superiores devem poder revisar essas
vez, só cabe após a decisão do STJ. Ou seja, enquanto questões. No entanto, é necessário entender que isso
o recurso ordinário é interposto para o STJ como se aplica a um contexto específico, como em ações
instância de revisão, a partir da decisão desse envolvendo direitos fundamentais. A questão
tribunal, poderia haver a possibilidade de um recurso levantada sobre se as hipóteses se aplicam a
extraordinário ao Supremo Tribunal Federal (STF). entidades de direito público ou privado é relevante,
pois, dependendo do caso, o entendimento do STJ
Em relação ao efeito suspensivo, a regra geral é que pode variar. No entanto, como é uma situação pouco
ele estará presente no recurso ordinário, salvo frequente, a aplicação desses conceitos deve ser
exceções previstas no Código de Processo Civil ou em cuidadosamente analisada.
legislação extravagante. Um exemplo disso seria em
ações locatícias, como despejo de uma embaixada, Em relação ao entendimento do STJ, é importante
que, assim como nas locações comuns, não possuem refletir sobre a frequência com que esse tribunal lida
efeito suspensivo. Portanto, em casos em que o com questões desse tipo. Não é algo comum no
recurso ordinário não se aplica a essas situações, o cotidiano dos tribunais, e por isso não seria fácil
efeito suspensivo também não se aplica, uma vez que encontrar uma decisão que padronize completamente
a apelação nesses casos também não tem esse efeito. a abordagem. O entendimento do STJ pode, sim,
variar, e a construção de um juízo sobre a matéria exemplo. A apelação tem a finalidade de permitir à
dependerá das especificidades do caso em questão. parte vencida uma ampla revisão de fato e de direito
da decisão tomada em primeira instância, com a
Me parece lógico que, no sistema, se houver uma
possibilidade de reanálise detalhada da matéria. Já os
hipótese de reexame necessário, não há diferença se recursos extraordinário e especial não visam essa
o processo tramita na justiça federal ou na justiça revisão ampla, mas sim examinar questões específicas
estadual. O reexame necessário ocorre relacionadas à correta aplicação do direito.
independentemente da esfera, em razão da pessoa
envolvida. Ou seja, se estou na justiça federal por
Esses recursos, também conhecidos como recursos de
coincidência, porque é um organismo internacional ou sobreposição, têm a finalidade de garantir que o
um estado estrangeiro, a parte contrária continua direito, mais do que a lei, seja aplicado corretamente
tendo o direito ao reexame necessário. Se o município no caso concreto. A doutrina de Piero Calamandrei,
estivesse demandando uma pessoa comum na justiça
um renomado autor italiano, ajuda a esclarecer essa
estadual, também haveria o reexame necessário. função. Calamandrei, em sua obra clássica sobre o
A questão do reexame necessário pode se complicar recurso de cassação no direito italiano, afirmou que o
em alguns casos, especialmente em situações objetivo desse tipo de recurso era assegurar a
envolvendo municípios, devido às imunidades que integridade do direito, zelando pela correta aplicação
esses casos podem envolver. Um exemplo e pela uniformidade na interpretação das normas. No
interessante seria um estado estrangeiro que é Brasil, podemos traçar um paralelo com os recursos
proprietário de um imóvel no Brasil e se recusa a extraordinário e especial, que buscam assegurar a
pagar o IPTU. Nesse caso, a situação seria complicada, correta aplicação do direito federal e da Constituição
pois, embora o não pagamento gere embargos, o Federal.
processo envolve uma complexidade maior por conta
das questões de imunidade e as regras específicas. Esses recursos não têm a finalidade de revisar o
mérito do caso, como ocorre na apelação, mas de
Seguindo as regras da apelação, a questão do garantir que o direito seja aplicado corretamente,
reexame necessário se mantém consistente, mas assegurando a uniformidade na interpretação das leis
pode haver nuances conforme o tipo de parte federais. Essa função é essencial para o nosso sistema
envolvida. Alguma dúvida sobre isso? Caso contrário, jurídico, e foi uma preocupação desde a elaboração
nos encontramos na semana que vem. da primeira Constituição Republicana, quando se
buscou inspiração no modelo americano para a
criação de uma Corte Suprema e de um recurso para
AULA 24 DE OUTUBRO ela.
Na aula de hoje, vamos tratar dos recursos
extraordinário e especial, que são temas amplos e O recurso extraordinário, em particular, foi inspirado
importantes dentro do direito processual. Embora eu na figura do recurso utilizado nos Estados Unidos,
não tenha a intenção de examinar todos os detalhes e sendo criado para o Supremo Tribunal Federal, com a
procedimentos, abordarei aspectos fundamentais função de revisar decisões que envolvam questões
como o conceito, a função, a origem, os requisitos de constitucionais. Já o recurso especial, que surgiu com
admissibilidade desses recursos e, especialmente, a a Constituição de 1988, destina-se a revisar decisões
valoração dos precedentes, que é um tema de grande que tratam de matérias infraconstitucionais,
relevância atualmente. geralmente de direito federal.
É importante destacar que tanto o recurso A função desses recursos, portanto, é essencialmente
extraordinário quanto o recurso especial são de uniformização da interpretação e aplicação do
considerados formas extraordinárias de impugnação. direito, sem a necessidade de reanalisar os fatos do
Eles têm uma função muito específica no caso. Em termos doutrinários, essa função é chamada
ordenamento jurídico e não devem ser confundidos de "função nomofilática", que é um termo usado para
com os recursos ordinários, como a apelação, por descrever a tarefa de garantir que o direito seja
interpretado de forma uniforme. Essa função visa federais. Dessa forma, os recursos extraordinário e
assegurar que as leis sejam aplicadas de maneira especial estabelecem a possibilidade de o STF e o STJ
consistente, evitando interpretações divergentes que exercerem seus papéis como guardiões da
possam gerar insegurança jurídica. Constituição e das leis federais, garantindo que a
interpretação e a aplicação do direito sejam feitas de
O papel do Supremo Tribunal Federal (STF) é zelar maneira uniforme e consistente.
pelo respeito à Constituição, exercendo uma função
nomofilática, ou seja, sendo um "amigo" da norma, Ao analisar as hipóteses de cabimento desses
recursos, podemos compreender melhor a dinâmica
preservando-a e garantindo a uniformidade na sua
interpretação e aplicação. O Supremo é o guardião da que envolve o recurso extraordinário e o recurso
Constituição, enquanto o Superior Tribunal de Justiça especial. O artigo 102, inciso III, da Constituição,
(STJ) desempenha o papel de garantir o respeito à lei estabelece que compete ao Supremo Tribunal Federal
julgar, por meio de recurso extraordinário, causas
federal.
decididas em única ou última instância quando a
A Constituição define claramente as competências de decisão recorrida contrariar a Constituição, declarar
cada um desses tribunais. O artigo 102 estabelece que inconstitucionalidade de tratado ou de lei federal,
o Supremo Tribunal Federal é o responsável por zelar julgar válida lei ou ato de governo local contestado
pela Constituição, enquanto o artigo 105 atribui ao STJ em face da Constituição, entre outras situações. Isso
a responsabilidade pela interpretação e aplicação reforça a ideia de que o recurso extraordinário é
correta da lei federal. No caso do recurso destinado a discutir questões constitucionais de
extraordinário, o objeto de análise está relacionado à relevância para o sistema jurídico como um todo.
Constituição, e no recurso especial, à legislação
federal.
Em todas as situações discutidas, o que está em jogo é
Ao abrir os artigos 102 e 105 da Constituição, é
possível observar essas atribuições. O recurso uma questão fundamental, até mesmo na última
extraordinário, conforme o artigo 102, é cabível delas, que se refere ao artigo 102, inciso III, letra "d",
quando houver decisões em última instância que da Constituição Federal. Este dispositivo trata da
contrariem ou não apliquem corretamente a análise da validade de uma lei local contestada em
face de uma lei federal. Ou seja, temos um conflito
Constituição. Já o recurso especial, conforme o artigo
105, é cabível quando houver desrespeito ou legislativo entre a lei de uma entidade federativa,
aplicação incorreta da lei federal. como um município ou estado, e a lei federal. A
questão em debate, nesse caso, envolve a
Esse sistema de recursos extraordinários e especiais competência legislativa da entidade federativa para
não deve ser visto como uma mera instância de editar determinada norma. Portanto, mesmo nessas
apelação. O objetivo não é fazer com que o STF e o STJ situações, o Supremo Tribunal Federal atua na
se tornem um novo grau de jurisdição, mas sim preservação da Constituição, garantindo a
permitir que esses tribunais exerçam a função de uniformidade na interpretação e aplicação das
interpretar e aplicar corretamente a Constituição e a normas constitucionais.
lei federal. Calamandrei, ao tratar dos recursos de
cassação, dizia que a insatisfação da parte com a Por outro lado, o artigo 105, inciso III, da Constituição,
decisão não é apenas para atender a seu interesse, trata do recurso especial, que compete ao Superior
mas sim para servir ao sistema jurídico, permitindo Tribunal de Justiça (STJ) julgar. Esse recurso é cabível
que os tribunais exerçam o seu papel de guardiões da quando uma decisão recorrida contraria ou nega
vigência a tratado ou lei federal, ou quando julga
Constituição e das leis.
válido ato de governo local em face de lei federal. No
A citação de Barbosa Moreira e Pontes de Miranda é fundo, o que está em discussão no recurso especial é
emblemática, pois resume a finalidade dos recursos uma questão de direito federal de natureza
extraordinário e especial. O objetivo é assegurar a infraconstitucional, ou seja, está em jogo a correta
integridade, a validade, a autoridade e a uniformidade interpretação e aplicação da lei federal, além da
na interpretação da Constituição Federal e das leis uniformidade na sua interpretação.
Essas hipóteses de cabimento dos recursos recurso não será aceito, pois falta o pré-
extraordinário e especial têm implicações questionamento, ou seja, a discussão da questão no
importantes. Por exemplo, não cabe recurso especial tribunal inferior. O pré-questionamento é essencial
ou extraordinário para exame de questões de fato, porque está diretamente relacionado à hipótese de
uma vez que a finalidade desses recursos não é revisar cabimento do recurso, conforme estabelecido na
fatos, mas sim analisar a aplicação do direito, seja ele Constituição, para que haja realmente uma violação
constitucional ou infraconstitucional. O direito, neste do direito federal ou constitucional.
contexto, não se limita apenas às normas jurídicas em
sentido estrito, mas envolve a interpretação dessas
normas. O pré-questionamento também é uma consequência
Outro aspecto relevante é a exigência de e um desdobramento do perfil dos recursos especial e
esgotamento das instâncias ordinárias antes de extraordinário. Eles só serão viáveis se a matéria
federal ou constitucional tiver sido examinada na
interpor o recurso. Isso significa que não se pode
recorrer diretamente ao STJ ou ao Supremo sem antes decisão recorrida. Isso significa que é preciso que a
esgotar as possibilidades de recurso nas instâncias matéria tenha sido discutida pelo tribunal inferior
locais. Se uma decisão monocrática for tomada no para que o recurso seja admissível. Esse aspecto será
tribunal de justiça, por exemplo, é necessário que se abordado com mais detalhes posteriormente, mas já
vale destacar sua importância ao discutir as hipóteses
interponha um agravo interno para que a decisão seja
analisada por um colegiado, antes de recorrer ao de cabimento desses recursos, pois ele ilustra o papel
tribunal superior. O recurso extraordinário ou especial desses institutos.
só pode ser interposto após o esgotamento das Outro ponto importante é o efeito devolutivo desses
possibilidades de recurso na instância local. recursos. Quando interpondo uma apelação, o efeito
devolutivo é amplo, ou seja, o tribunal de segunda
Além disso, não cabe recurso especial ou
extraordinário para examinar a aplicação de leis instância pode reexaminar todas as questões de fato e
locais, como as relativas ao direito tributário ou ao de direito que sejam relevantes para a pretensão
serviço público, caso haja uma interpretação recursal. Isso permite ao tribunal revisar amplamente
inadequada dessas leis. O objetivo desses recursos a decisão, analisando se a lei foi bem aplicada, se
houve provas suficientes ou se houve alguma
não é buscar a justiça da decisão, mas garantir a
uniformidade na aplicação da lei federal e o respeito à irregularidade processual. Já no recurso especial ou
Constituição. A ideia não é corrigir possíveis injustiças, extraordinário, o efeito devolutivo é limitado, pois o
mas assegurar que a aplicação do direito seja feita de exame se restringe apenas à questão de direito
forma uniforme e correta. federal ou constitucional, sem se aprofundar nas
questões fáticas ou processuais. Isso ocorre porque o
Outro ponto importante é o pré-questionamento, que perfil desses recursos é restrito à interpretação do
significa que, para interpor um recurso especial ou direito, e não ao exame de fatos.
extraordinário, a questão de direito federal ou
constitucional precisa ter sido previamente discutida Por isso, esses recursos são conhecidos como recursos
de "estrito direito" e de "fundamentação vinculada",
pelo tribunal local. Não basta apenas que o recurso
invoque uma violação da lei federal ou da ou seja, a parte que recorre precisa fundamentar seu
Constituição. O tribunal local deve ter examinado pedido estritamente nas hipóteses previstas na
previamente a matéria. Isso decorre da natureza do Constituição, como a violação de norma constitucional
recurso, que visa discutir a violação do direito federal ou de lei federal. Isso limita o alcance do recurso e
impede que ele seja utilizado de maneira ampla, para
ou constitucional, e para isso é necessário que o
tribunal local tenha abordado essas questões. revisar toda a decisão.
Na prática, é comum ver recursos especiais ou Agora, do ponto de vista prático, é fundamental
extraordinários mal interpostos, muitas vezes sem entender como preparar um recurso especial ou
que o tribunal local tenha analisado a questão de extraordinário. Não adianta esperar até o último
momento, quando o acórdão do tribunal for
direito federal ou constitucional. Nesses casos, o
publicado, para tentar interpor o recurso com base unirrecorribilidade, que estabelece que não cabem
em uma ideia que surja de última hora. O sucesso de dois recursos contra a mesma decisão.
um recurso especial ou extraordinário não depende
Se o acórdão envolve tanto questões de direito
apenas de apresentar um bom argumento no
momento do recurso, mas de preparar o processo ao federal quanto constitucional, é possível impugnar a
longo de todo o trâmite. Ou seja, desde a petição decisão por meio de ambos os recursos, sendo
inicial, passando pela contestação, manifestações necessário recorrer aos tribunais superiores — o
finais, memoriais, até mesmo nos recursos e Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo
Tribunal Federal (STF). Caso apenas um dos recursos
contrarrazões, deve-se sempre provocar o tribunal
para que ele examine as questões relevantes de seja interposto, pode ser que a decisão se mantenha,
direito, principalmente as de natureza federal ou caso o fundamento constitucional seja suficiente para
constitucional. Isso garante que, caso a decisão do sustentá-la. Nesse caso, o recurso especial, por
exemplo, pode ser rejeitado, pois a decisão pode se
tribunal inferior não aborde esses pontos, seja
possível recorrer aos tribunais superiores. apoiar em uma questão constitucional não
impugnada.
É importante notar que não basta alegar uma violação
da lei federal ou constitucional após o acórdão, como Além disso, mesmo que o recurso especial seja aceito
muitos tentam fazer com os chamados "embargos de pelo STJ, a decisão pode ser mantida. Por isso, é
importante entender que, mesmo após o recurso
pré-questionamento". Esses embargos são usados
para tentar forçar o tribunal a analisar uma questão especial, não adianta tentar interpor o recurso
que não foi discutida, mas eles não são suficientes extraordinário como uma segunda tentativa de
para viabilizar o recurso. O pré-questionamento deve revisão, já que a questão constitucional precisa ser
ocorrer antes, durante o trâmite do processo, para abordada desde o início.
que a questão relevante seja analisada desde o início. Para interpor ambos os recursos, o prazo é de 15 dias,
O tribunal só poderá ser "obrigado" a analisar uma e a interposição deve ser feita de forma
questão que não foi discutida se houver omissão ou concomitante, ou seja, ao mesmo tempo. O
inovação indevida no acórdão, ou seja, quando o procedimento envolve a interposição do recurso
tribunal tratar de um ponto que não foi previamente perante a presidência da respectiva seção do tribunal
levantado ou discutido pelas partes. local, que fará um exame preliminar para decidir se o
Portanto, é essencial compreender que o recurso recurso será aceito. Caso o recurso seja admitido, ele
especial ou extraordinário não é uma ferramenta para será enviado aos tribunais superiores; caso contrário,
revisar toda a decisão, mas para garantir que a a decisão do presidente da seção pode ser contestada
interpretação do direito, seja ele constitucional ou por meio de um agravo interno.
infraconstitucional, esteja sendo feita corretamente. A O agravo interno é utilizado quando o presidente do
preparação antecipada do processo é a chave para a tribunal local nega seguimento ao recurso, seja
viabilidade desses recursos. porque o entendimento do tribunal local seguiu o que
foi decidido pelo STF ou pelo STJ, seja por falta de pré-
questionamento ou ausência de questão federal.
Se surgir um acordo, existe uma situação em que é Nesse caso, o agravo é encaminhado ao tribunal
possível interpor embargos. No entanto, há uma superior correspondente, seja o STJ ou o STF, para
questão que ocorre com frequência e que vale a pena uma análise mais aprofundada.
comentar, mesmo que não seja o foco principal do
momento. Trata-se da omissão no julgamento. Quanto à sequência do exame dos recursos, a lógica é
que o recurso especial seja analisado primeiro,
Quando o acórdão de um tribunal de justiça, por
exemplo, trata de questões de direito federal e seguido pelo recurso extraordinário. No entanto, o
constitucional, a parte vencida deve recorrer tanto ao Código de Processo Civil de 2015 introduziu uma regra
recurso especial quanto ao recurso extraordinário. de racionalidade. Caso, ao analisar o recurso especial,
Esta é a única exceção ao princípio da o STJ perceba que a questão envolvida é
constitucional e não de direito federal, o recurso será
encaminhado ao STF, que poderá então decidir se é submeter a questão à Corte Especial, composta por 33
uma questão constitucional ou se remete o caso de ministros, que emitirá um acórdão reconhecendo ou
volta ao STJ. Da mesma forma, se apenas o recurso não a inconstitucionalidade.
extraordinário for interposto, mas o STF entender que
a questão é de direito federal, ele poderá remeter o Há também a questão das súmulas, que ajudam a
caso ao STJ para análise. entender a aplicação dos recursos. Por exemplo, a
Súmula 279 do STF estabelece que não cabe recurso
Essa troca de vista e remessa entre os tribunais extraordinário para reexame de provas. Já a Súmula 7
superiores visa garantir que a matéria seja tratada do STJ diz que não cabe recurso especial para
pelo tribunal competente, seja o STJ ou o STF, reexame de fatos ou provas. A Súmula 282 do STF fala
conforme o tipo de questão envolvida no recurso. sobre o pré-questionamento, estabelecendo que não
cabe recurso extraordinário quando não há a
ventilação da questão federal na decisão recorrida. A
A possibilidade de fungibilidade entre o recurso Súmula 211 do STJ trata da inadmissibilidade do
especial e o recurso ordinário permite que ambos recurso especial quando uma questão não foi
sejam processados em sequência, mas a lógica é que apreciada pelo tribunal, mesmo após oposição de
primeiro se analisa o recurso especial e, em seguida, o embargos de declaração.
extraordinário. Ambos os recursos devem ser O Código de Processo Civil atual trouxe uma solução
remetidos aos tribunais superiores, com o recurso
para esse caso, considerando que a matéria
especial sendo julgado primeiro. Quando o Supremo apresentada nos embargos de declaração é, para
Tribunal Federal recebe um recurso especial, ele todos os fins, considerada pré-questionada, mesmo
poderá julgar como ordinário, e ainda poderá haver que não tenha sido analisada expressamente pelo
recurso extraordinário contra a decisão do STJ no caso tribunal. Isso visa mitigar a aplicação da Súmula 211,
de recurso especial interposto.
permitindo que o recurso seja admitido, mesmo que a
Sobre a decisão de segundo grau, se estiver questão não tenha sido discutida diretamente no
fundamentada em uma questão estadual, não poderá acórdão.
ser analisada superiormente apenas pela alegação de Além disso, a Súmula 283 do STF estabelece que o
violação da lei local. Isso significa que, se a questão se recurso extraordinário não será admitido se não
refere à aplicação incorreta da legislação estadual,
abordar todos os fundamentos da decisão. Em um
não cabem recursos especiais ou extraordinários. caso em que a decisão do tribunal se baseia em mais
Porém, se a lei estadual conflitar com uma norma de um fundamento, o recurso deve impugnar todos
federal, poderá caber recurso especial ou esses fundamentos. Caso contrário, o recurso será
extraordinário. Vale ressaltar que não cabe recurso inadmitido, pois a parte recorrente não está
especial ou extraordinário para reexame de provas,
demonstrando efetivo interesse em que a decisão seja
como no caso de discutir o que uma testemunha ou reformada. O Supremo e o STJ não são órgãos para
perito disseram, mas é possível questionar a aplicação emitir opiniões gerais sobre questões de direito, mas
das normas de direito probatório, como quando o sim para revisar decisões que envolvem fundamentos
tribunal exige uma prova desnecessária para
legais e determinar a reforma ou anulação de uma
comprovar a vigência de uma lei federal. decisão quando necessário.
O controle de constitucionalidade é outro aspecto Esse entendimento sobre a impugnação de todos os
importante. O Supremo Tribunal Federal realiza fundamentos das decisões é crucial para a efetividade
controle concentrado de constitucionalidade, mas dos recursos especiais e extraordinários.
também pode fazer controle incidental, o que ocorre
quando julga ações originárias. O STJ também exerce
controle incidental de constitucionalidade, assim
como os tribunais locais e até o juiz de primeiro grau, Vamos falar um pouco sobre os filtros. Até agora,
se necessário. Quando o STJ precisa declarar a estamos acompanhando bem o raciocínio. O artigo
inconstitucionalidade de uma norma, ele deve 102, parágrafo 3º, da Constituição, trata da
repercussão geral no recurso extraordinário, e foi
introduzido pela Emenda Constitucional 45 de 2004. O Supremo Tribunal Federal tem a função de garantir
Ele estabelece que, para que o recurso extraordinário a correta interpretação e aplicação da Constituição, e
seja admitido, o recorrente deve demonstrar a o Superior Tribunal de Justiça deve zelar pela correta
repercussão geral das questões constitucionais interpretação da legislação federal. Para isso, é
envolvidas no caso, conforme os termos da lei, para necessário que esses tribunais julguem um número
que o tribunal examine a admissão do recurso, reduzido de casos, mas com grande qualidade e com
podendo recusá-lo com base na manifestação de dois uma função paradigmática, ou seja, estabelecendo
terços de seus membros. precedentes para serem seguidos por todos os
tribunais do país.
De forma semelhante, no artigo 105 da Constituição,
alterado pela Emenda Constitucional 125 de 2022, o As reformas constitucionais, como a Emenda
parágrafo segundo trata do recurso especial, que Constitucional 45/2004 e a Emenda Constitucional
exige a demonstração da relevância das questões de 125/2022, visaram dar mais efetividade a essa função
direito federal discutidas no caso, também conforme dos tribunais superiores. Elas introduziram a exigência
a lei. O recurso só será admitido se obtiver a da repercussão geral no recurso extraordinário e a
manifestação de dois terços dos membros do órgão relevância das questões no recurso especial, com o
competente para o julgamento. O parágrafo terceiro objetivo de garantir que os tribunais superiores se
detalha situações em que se presume a relevância, concentrem nas questões mais relevantes e, assim,
como em ações penais, ações de improbidade consigam uniformizar a interpretação do direito.
administrativa, ações cujo valor ultrapasse 500
salários mínimos, ações que possam gerar Com esses filtros, o intuito foi também tornar viável o
inelegibilidade, ou ainda quando o acórdão recorrido trabalho dos tribunais, que não podem lidar com
contrariar a jurisprudência dominante do STJ, entre centenas de milhares de processos por ano de forma
eficaz. Isso se alinha a uma lógica mais ampla de
outras situações previstas em lei.
gestão desses recursos, pois não seria possível, por
É importante observar que há um projeto de lei, o exemplo, que cada ministro julgasse dezenas de
Projeto de Lei 3804 de 2023, que visa regulamentar milhares de processos individualmente. Em outros
essas matérias, mas a definição da relevância das sistemas jurídicos, como o americano, há filtros
questões federais ainda não foi totalmente semelhantes. O sistema americano, por exemplo, é
disciplinada. discricionário, o que significa que, para um recurso ser
apreciado pela Suprema Corte, ele precisa passar por
No que diz respeito à repercussão geral no recurso um filtro de certificação, o que ajuda a controlar a
extraordinário, essa questão está regulamentada no quantidade de casos que chegam à corte e garantir
Código de Processo Civil. No entanto, de uma maneira que ela só se ocupe das questões mais relevantes.
mais sistêmica, a realidade do direito brasileiro é
muito peculiar. O Brasil é, sem dúvida, o país com a Esses filtros são fundamentais para que os tribunais
maior quantidade de processos, tanto em números superiores cumpram sua função de uniformização e
absolutos quanto proporcionais, se comparado a interpretação das normas jurídicas, garantindo uma
outras nações, incluindo até a China. A quantidade de justiça mais eficiente e condizente com as
litígios no Brasil é enorme, e isso também se reflete necessidades do país.
no volume de processos nos tribunais superiores.
Esses filtros foram criados para dar maior A função de uniformização da interpretação e
transparência e fundamentação às decisões, aplicação do direito, embora tenha a intenção de ser
permitindo que o tribunal selecionasse casos com vinculante, gera discussões, especialmente sobre sua
critérios objetivos, mesmo que não totalmente constitucionalidade e até mesmo questões filosóficas.
rígidos. A introdução de um quórum qualificado de Alguns argumentam que isso poderia eliminar a
rejeição, com dois terços dos membros do tribunal, autonomia da função judicial, mas eu penso que não.
também visava tornar mais rigoroso o processo de Dizer que o juiz deve observar o entendimento fixado
admissão dos recursos, garantindo que apenas os sobre uma questão de direito não significa que ele
casos de maior relevância econômica, política, jurídica tenha que julgar de uma forma específica sobre o caso
ou social fossem analisados pelos tribunais superiores. em si, mas apenas que ele deve seguir a interpretação
Isso evita que questões menores, como disputas correta da norma para aquela questão. Essa
sobre multas de trânsito ou indenizações irrelevantes, abordagem busca racionalizar o funcionamento do
cheguem à Suprema Corte ou ao Superior Tribunal de sistema judicial.
Justiça, que devem se concentrar nos grandes temas
constitucionais e federais. Entretanto, há outra discussão importante sobre a má
aplicação do precedente, que é um problema sério.
A repercussão geral, por exemplo, exige que a Trabalhar com precedentes exige uma análise
questão constitucional discutida tenha uma relevância profunda e um respeito por parte dos tribunais
que ultrapasse o interesse das partes envolvidas no superiores, o que nem sempre acontece na prática.
caso, impactando a sociedade de forma mais ampla. O
Essas são questões que ainda precisam ser discutidas questão da sustentação oral em agravos regimentais.
e aprimoradas dentro do sistema. A legislação ordinária federal permite a sustentação
oral, mas o Supremo Tribunal Federal manteve o
AULA 31 DE OUTUBRO
entendimento de que no STF não seria cabível. O
Hoje, trataremos do recurso extraordinário, e, a partir fundamento do STF é que seu regimento interno não
dele, abordaremos os embargos de divergência. permite a sustentação oral, o que implica que o
Quando falamos sobre o recurso extraordinário, a regimento se sobrepõe à lei federal. Há uma discussão
primeira observação que faço é de caráter histórico. sobre a aplicação desse entendimento,
Na Constituição de 1967, com a emenda de 1969, o
principalmente em relação à Constituição de 1988, e
Supremo Tribunal Federal (STF) era responsável pela eu tenho certa dificuldade em encontrar esse
interpretação não só da Constituição Federal, mas dispositivo explícito, mas essa é a interpretação
também da legislação federal. Assim, existia um único seguida pelo STF.
recurso, o recurso extraordinário, que abrangia tanto
questões constitucionais quanto infraconstitucionais. Quando a Constituição de 1967 deu ao Supremo o
poder de fazer com que seu regimento interno tivesse
Com a Constituição de 1988 e a criação do Superior força de lei federal, nos anos 1980, o regimento do
Tribunal de Justiça (STJ), houve uma divisão nas Supremo foi alterado e foi incluída a chamada
matérias e, consequentemente, nos recursos. De um
"arguição de relevância". Em última análise, a
lado, surgiu o recurso especial, que será estudado no arguição de relevância significava que o Supremo só
âmbito do STJ e trata de legislação federal julgaria um caso se a questão tivesse uma importância
infraconstitucional. Do outro, ficou o recurso jurídica que transcendesse o mero interesse das
extraordinário, que trata de questões constitucionais partes. Esse mecanismo foi criado por uma razão bem
e é destinado ao STF. É interessante observar que,
clara: o volume de recursos extraordinários era
apesar dessa divisão e das mudanças profundas no imenso, com 11 mil recursos, e o STF precisaria
sistema constitucional promovidas pela Constituição examinar matérias constitucionais e
de 1988, o papel do Supremo Tribunal Federal não infraconstitucionais de todo o país. Evidentemente,
alterou substancialmente. O STF continuou a ser o isso gerava um grande acúmulo de processos, e o
principal intérprete da Constituição Federal.
Supremo Tribunal Federal enfrentava dificuldades
significativas em termos de tempo e prazo para julgar.
Na prática, o Brasil manteve, até hoje, o chamado Naquela época, os processos eram físicos, não havia
controle misto de constitucionalidade. Isso significa processos digitais, nem inteligência artificial ou outras
que a constitucionalidade pode ser verificada de tecnologias que facilitassem o trabalho. Isso torna
forma concentrada, pelo STF, quando ele julga ações
evidente a enorme sobrecarga do Supremo naquele
diretas de inconstitucionalidade (ADIs), ou de forma período.
difusa, quando qualquer juiz do país analisa a
constitucionalidade de uma lei. Embora, em última O Supremo Tribunal Federal (STF) instituiu a admissão
instância, as partes possam recorrer ao Supremo
de relevância como uma barreira no acesso ao
Tribunal Federal, que é o intérprete natural da tribunal. Essa mudança surgiu com a Constituição de
Constituição, a diferença do nosso sistema é que 1988, que, ao criar a possibilidade de um recurso
qualquer juiz pode fazer o controle difuso, enquanto o extraordinário, inicialmente não previu um
controle concentrado ocorre diretamente por meio mecanismo de filtro. De forma popular, a situação
das ações originárias no STF.
passou a ser vista como a "crônica de uma morte
anunciada", pois tínhamos uma Constituição com
Outro ponto importante é que, rapidamente, se centenas de artigos, com tudo considerado
percebeu um erro na Constituição de 1967 e 1969, constitucional, e um STF composto por 11 ministros,
que dizia que o regimento interno do Supremo sem um filtro adequado para processar tantas
Tribunal Federal tinha status de lei federal. Embora
demandas. A situação ficou insustentável, como já
esse dispositivo não tenha sido mantido na havia sido previsto na época, e, de fato, o volume de
Constituição de 1988, o Supremo, por vezes, continua
adotando essa postura. Um exemplo recente é a
recursos extraordinários aumentou ou provas, isso significa que ele se concentra
consideravelmente. exclusivamente na análise de questões jurídicas e
Em pouco tempo, o STF passou a lidar com uma carga constitucionais. No caso do recurso extraordinário, o
excessiva de processos, com ministros emitindo uma tribunal não examina a matéria fática do caso, mas
média de 20.000 votos por ano. Isso gerava uma sim se a decisão do tribunal inferior está em
verdadeira sobrecarga, que, mesmo com o afã de conformidade com a Constituição.
possibilitar o acesso ao Supremo, tornava-se
humanamente impossível para os ministros
realizarem a análise detalhada de todos os casos. O No recurso extraordinário, o Supremo Tribunal
que ocorreu foi uma pressão para garantir o acesso à Federal (STF) não revisa fatos nem provas, mas isso
Justiça, mas sem considerar as limitações materiais do não significa que ele deixa de examinar os fatos do
tribunal. Isso gerou críticas, incluindo alguns caso. Quando afirmamos que não há revisão de fatos
escândalos envolvendo a atuação de assessores no ou provas, estamos dizendo que o STF parte do
Superior Tribunal de Justiça. Apesar disso, é pressuposto de que os fatos, como apresentados no
importante reconhecer que em nenhum país do acórdão, são verdadeiros, com uma presunção
mundo os tribunais superiores aceitam todos os absoluta. O STF não vai reavaliar os fatos ou investigar
recursos sem algum tipo de filtro, e o Brasil era uma se o que foi relatado no julgamento é verdadeiro ou
exceção. não. Portanto, embora o tribunal analise os fatos, ele
O exemplo da Itália ilustra bem como outros países não realiza uma nova valoração ou reexame deles.
criaram mecanismos de barreira para o acesso aos
tribunais constitucionais. Na Itália, para atuar na Corte Outro ponto importante é que o recurso
Constitucional, o advogado precisa pagar uma alta extraordinário só pode ser interposto depois de
taxa anual, o que restringe o número de advogados esgotadas as instâncias ordinárias. Ou seja, é
que podem efetivamente atuar nesse nível. Esse tipo necessário que todos os recursos infraconstitucionais
de filtro é econômico, mas tem o mesmo efeito de sejam julgados antes de se levar a questão ao STF. Se,
restringir o acesso. No Brasil, a ausência de um filtro por exemplo, uma decisão for tomada de forma
na Constituição de 1988 levou à necessidade de criar monocrática pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, é
um mecanismo no Supremo, o que foi feito necessário interpor um recurso para provocar o
inicialmente com a arguição de relevância, que julgamento colegiado. Caso a decisão seja do juiz de
limitava a admissão de recursos extraordinários primeiro grau, é preciso que se recorra para o
apenas às questões jurídicas que tivessem grande segundo grau antes de poder levar a questão ao STF.
importância. Não é possível interpor um recurso extraordinário
Percebendo o erro, com a Emenda Constitucional 45, diretamente sem que os recursos infraconstitucionais
foi reintroduzido o conceito de repercussão geral, que tenham sido utilizados.
funciona de forma semelhante à arguição de
relevância, mas com características mais específicas. A Alguém poderia questionar sobre a necessidade de
ideia básica é que o recurso extraordinário só é interpor embargos de declaração antes de recorrer ao
admitido quando a questão constitucional discutida STF, mas a questão é que o embargo de declaração
ultrapassa o interesse individual das partes tem um limite de cabimento: ele só pode ser usado
envolvidas. Esse conceito de relevância é essencial para corrigir omissões, obscuridades ou contradições
para garantir que o Supremo não se sobrecarregue no julgamento. Se, por exemplo, um acórdão do TJ de
com questões que não tenham impacto significativo São Paulo é claro e não apresenta esses vícios, não há
para a sociedade. necessidade de embargo de declaração, podendo-se
É importante destacar que o STF, ao julgar um recurso recorrer diretamente ao recurso extraordinário.
extraordinário, atua como intérprete da Constituição
Federal. Seu papel não é reavaliar os fatos ou as Um outro requisito importante, que foi tratado
provas do caso, mas sim garantir que a Constituição especificamente no Código de Processo Civil de 2015,
seja aplicada corretamente em casos concretos. diz respeito ao pré-questionamento. A Constituição de
Quando afirmamos que o Supremo não revisa fatos 1988 não menciona explicitamente o pré-
questionamento, o que foi uma mudança em relação No contexto da Constituição Federal, é importante
à Constituição de 1967, que tratava disso no seu observar que ela garante direitos e garantias
regimento interno, conferindo ao STF um controle individuais, mas muitos desses direitos são
mais rígido. A ausência de um termo explícito sobre o regulamentados por normas infraconstitucionais,
pré-questionamento na Constituição de 88 como o Código de Processo Civil e o Código de
inicialmente dificultou a interposição do recurso Processo Penal. Por exemplo, o direito à defesa está
extraordinário, mas o STF passou a adotar uma garantido pela Constituição, mas a regulamentação
interpretação para contornar essa lacuna. desse direito se dá por normas infraconstitucionais.
Portanto, se a violação for relacionada a um direito
O artigo 103 da Constituição de 1988, especificamente infraconstitucional, o recurso cabível seria o recurso
no seu inciso 3º, exige que o recorrente demonstre a especial, e não o extraordinário. O recurso
repercussão geral das questões constitucionais extraordinário só é cabível quando a violação se dá de
discutidas no caso, para que o recurso seja admitido forma direta à Constituição Federal, ou seja, quando
pelo STF. A decisão sobre a admissibilidade do recurso há uma afronta direta ao texto constitucional.
extraordinário pode ser rejeitada por manifestação de
dois terços dos ministros do tribunal. Assim, esse O Supremo Tribunal Federal, ao consolidar sua
requisito de repercussão geral é um mecanismo que jurisprudência, passou a admitir o recurso
extraordinário apenas em casos em que a violação é
atua como um filtro, para garantir que o Supremo só
examine questões de relevância constitucional que direta à Constituição, sem a necessidade de
transcendam o interesse particular das partes interpretação ou regulamentação infraconstitucional.
envolvidas no processo. Por exemplo, a coisa julgada é um princípio
constitucional, mas sua regulamentação é feita pela
legislação infraconstitucional, portanto, a violação de
O cabimento do recurso extraordinário está coisa julgada não justifica um recurso extraordinário,
relacionado a causas que envolvem uma violação mas sim um recurso especial.
direta da Constituição Federal. Para que o recurso Portanto, o recurso extraordinário só pode ser
extraordinário seja admitido, é necessário que a interposto quando há uma afronta direta ao texto da
matéria constitucional tenha sido expressamente Constituição, sem a intermediação de normas
examinada no acórdão recorrido. Isso significa que a infraconstitucionais. Isso significa que, se a violação
questão constitucional deve ser obrigatoriamente for apenas reflexa ou indireta, como no caso de
abordada no julgamento. Caso isso não ocorra, a direitos regulamentados por leis infraconstitucionais,
parte interessada deve interpor embargos de o recurso adequado seria o especial e não o
declaração, alegando a omissão do tribunal. Se os extraordinário.
embargos forem rejeitados e o acórdão continuar sem
examinar a questão constitucional, pode-se então Em relação às hipóteses de cabimento do recurso
recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). extraordinário, a Constituição Federal estabelece que
ele é cabível quando houver uma contrariedade direta
Entretanto, existe uma complicação importante à Constituição. Essa é a hipótese mais comum de
quando a violação à Constituição ocorre no momento cabimento do recurso extraordinário, mas também é
do julgamento, como por exemplo, quando a violação a mais difícil, pois a parte deverá demonstrar que a
não foi previamente prevista. Nesse caso, a solução decisão do tribunal contrariou explicitamente o texto
mais conservadora seria que a parte embargasse o constitucional. Em outras palavras, a parte
acórdão e alegasse que, durante o julgamento, a interessada deve mostrar que o seu direito, garantido
Constituição foi violada. Isso é necessário porque a pela Constituição, não foi reconhecido no julgamento.
violação à Constituição não pode ser alegada de Assim, o recurso extraordinário só será admitido
forma indireta, ou seja, não cabe recurso quando houver uma clara afronta à Constituição
extraordinário por uma violação reflexa da Federal, e não apenas uma interpretação contrária a
Constituição. normas infraconstitucionais.
A primeira hipótese de cabimento do recurso União já possuía uma legislação federal sobre o tema.
extraordinário é a mais ampla e a mais aberta. Ela O Supremo Tribunal Federal foi responsável por
envolve a declaração de inconstitucionalidade de um resolver essa controvérsia, e o dispositivo na
tratado ou de uma lei federal, o que ocorre quando o Constituição foi inserido para garantir que, em caso
tribunal, ao julgar um caso, reconhece que a norma é de conflito, o tribunal que deveria decidir seria o
inconstitucional. Nesse tipo de situação, o recurso Supremo.
extraordinário pode ser interposto de forma objetiva,
ou seja, basta demonstrar que houve o Por fim, a última hipótese que devemos considerar é a
de que o recurso extraordinário também pode ser
reconhecimento da inconstitucionalidade. Isso ocorre
porque é considerado uma situação excepcional: interposto quando há um conflito sobre a aplicação de
normalmente, presume-se que as leis e os tratados normas federais e estaduais em determinadas
são constitucionais, e o Supremo Tribunal Federal só situações. A discussão sobre qual lei deve ser aplicada
– a estadual ou a federal – envolve uma questão de
precisa se preocupar em analisar um caso quando há
uma decisão que afasta essa presunção, declarando a competência legislativa, que é de responsabilidade do
inconstitucionalidade de uma norma. Supremo Tribunal Federal, e é isso que justifica a
possibilidade de interpor um recurso extraordinário
Por outro lado, não cabe recurso extraordinário nessa situação. Se houver a violação de uma norma
quando o tribunal reconhece a constitucionalidade de federal em favor da aplicação de uma norma estadual,
uma lei federal. Essa é uma hipótese que se baseia em o recurso especial será cabível, mas se a questão
um texto literal da Constituição, que restringe a envolver a competência legislativa, o Supremo é
admissibilidade do recurso a situações em que há uma quem deve decidir.
violação direta à Constituição. A decisão que
reconhece a constitucionalidade de uma lei federal Agora, vamos passar para a questão da repercussão
geral, que trata da relevância das questões
não gera, por si só, o cabimento do recurso
extraordinário, pois o Supremo, em sua função, deve constitucionais para a admissão do recurso
se preocupar com a excepcionalidade da declaração extraordinário.
de inconstitucionalidade e não com o contrário. A repercussão geral, como mencionei, foi introduzida
A segunda hipótese de cabimento do recurso pelo artigo 45 e está regulada no Código de Processo
Civil. O principal objetivo da repercussão geral é
extraordinário diz respeito à validação de leis ou atos
de governo local que são contestados em face da limitar a atuação do Supremo Tribunal Federal aos
Constituição Federal. Essa hipótese é inserida na casos que tenham um efeito além do caso específico,
Constituição para resolver controvérsias sobre a ou seja, aqueles que envolvem questões de relevância
constitucionalidade de leis estaduais ou municipais para a sociedade como um todo. Se o problema em
questão for meramente de interesse de uma parte,
em relação à Constituição, ou até mesmo em face de
uma lei federal. Essa inclusão foi feita para resolver sem um impacto mais amplo, não cabe recurso
divergências jurisprudenciais e tem o objetivo de extraordinário. Por exemplo, uma disputa sobre
definir de forma clara qual tribunal deve analisar o questões como o direito de construir uma sacada ou
instalar algo em um apartamento pode ser importante
caso. Quando há um confronto entre uma lei local e
uma norma federal, o recurso extraordinário será para as partes envolvidas, mas não gera relevância
utilizado, pois trata-se de um problema de suficiente para ser tratada pelo Supremo Tribunal
competência legislativa, ou seja, o Supremo Tribunal Federal.
Federal é responsável por decidir a matéria. A ideia, portanto, é que o Supremo examine apenas
questões que transcendam o interesse individual e
Além disso, essa disposição na Constituição surgiu
como resposta a um debate jurídico que existia, que envolvam uma relevância econômica, política,
especialmente em relação ao julgamento de matérias social ou jurídica mais ampla. O Supremo é o
nos juizados especiais criminais. Por exemplo, havia responsável por avaliar se existe essa repercussão
divergências sobre quais crimes poderiam ser geral, e não o juiz ou o presidente do tribunal de
instância inferior. Apenas os ministros do Supremo,
processados nesses juizados, uma vez que alguns
estados aplicavam suas próprias leis, enquanto a por meio de um colegiado, têm essa atribuição. Em
regra, dois terços dos membros da corte devem uniformização da jurisprudência nos tribunais
concordar com a existência de repercussão geral para superiores. Como já discutido em aulas anteriores, o
que o recurso extraordinário seja admitido. O relator objetivo do Supremo Tribunal Federal é interpretar a
sozinho não pode rejeitar um recurso extraordinário Constituição Federal e o objetivo do Superior Tribunal
alegando falta de repercussão geral, a menos que a de Justiça é interpretar a legislação federal. Não há
matéria já tenha sido previamente analisada. dúvida quanto a isso, mas é importante frisar que a
principal missão desses tribunais é garantir que a
Em relação aos casos em que se presume a interpretação da Constituição e das leis federais seja
repercussão geral, há algumas hipóteses que já são
harmonizada em todo o país.
tratadas como relevantes pela própria jurisprudência.
Por exemplo, quando o tribunal declara a Os tribunais, no entanto, são compostos por várias
inconstitucionalidade de um tratado ou de uma lei turmas ou seções, o que pode gerar divergências na
federal, presume-se que há repercussão geral, pois a
interpretação das normas. No Supremo, por exemplo,
decisão tem impacto para toda a sociedade. O mesmo é possível que a Primeira Turma interprete a
se aplica aos casos em que há violação de uma súmula Constituição de forma diferente da Segunda Turma. O
vinculante ou de uma jurisprudência consolidada do mesmo ocorre no Superior Tribunal de Justiça, onde
Supremo, como, por exemplo, em julgamentos que turmas ou sessões diferentes podem ter
criam precedentes importantes.
interpretações divergentes. Portanto, para garantir a
A ideia da repercussão geral é evitar abusos e garantir uniformização da interpretação da Constituição e da
que o Supremo Tribunal Federal só julgue questões legislação federal, existe o recurso de embargos de
que realmente tenham uma relevância para o divergência, que visa harmonizar os entendimentos
conjunto da sociedade. No entanto, apesar dessa dentro dos próprios tribunais.
barreira, ainda há um grande número de processos
que chegam ao Supremo. Isso ocorre porque o No entanto, com a introdução do Código de Processo
Supremo faz um controle rigoroso sobre a Civil de 2015, o recurso de embargos de divergência
repercussão geral e só admite os recursos que perdeu parte de sua importância. Isso aconteceu
realmente se encaixam nos critérios estabelecidos. porque o novo código criou outros mecanismos de
Quando a repercussão geral é reconhecida, todos os uniformização de jurisprudência, como o julgamento
casos semelhantes ficam suspensos no país, pois a de recursos extraordinários e especiais com
decisão tomada pelo Supremo será vinculante para repercussão geral, o recurso repetitivo e a assunção
todos os outros processos relacionados ao tema. de competência. Esses mecanismos permitem que a
jurisprudência seja uniformizada já nas etapas
Portanto, a repercussão geral serve como uma forma anteriores do processo, o que diminui a necessidade
de otimizar a atuação do Supremo, restringindo os de embargos de divergência como uma ferramenta de
casos que chegam à corte e priorizando aqueles de harmonização.
relevância nacional. Isso é feito para evitar que o
Supremo seja sobrecarregado com questões Hoje, a tendência do sistema é que a jurisprudência
meramente individuais, ao mesmo tempo em que seja uniformizada já durante o julgamento do recurso
garante que os recursos extraordinários sejam extraordinário ou do recurso especial. Isso faz com
utilizados apenas para questões que realmente que os embargos de divergência tenham um alcance
afetem a sociedade de maneira ampla. mais limitado, embora ainda sejam previstos pelo
ordenamento jurídico. Ou seja, eles continuam
existindo, mas com uma aplicação cada vez mais
AULA 14 DE NOVEMBRO restrita.
Na aula de hoje, vamos falar sobre os embargos de
divergência. Esse recurso, que já está praticamente Além disso, uma questão importante que surge em
obsoleto, tem perdido sua importância ao longo do relação aos embargos de divergência é a sua
tempo. Antigamente, os embargos de divergência fundamentação. No sistema jurídico brasileiro, vigora
tinham uma função crucial no sistema, que era a a dialeticidade, ou seja, não basta apenas recorrer de
uma decisão; é necessário fundamentar o recurso, embargos de divergência quando a divergência
demonstrando os erros da decisão recorrida. No caso envolve a interpretação do Código de Processo Civil,
dos embargos de divergência, não basta afirmar que a por exemplo, pois isso se trata de uma interpretação
interpretação da Constituição ou da lei federal feita de lei federal, não constitucional. Contudo, se a
pelo órgão julgador está equivocada. É necessário divergência envolver questões constitucionais, como o
demonstrar que outro órgão, em julgamento distinto, contraditório, a interposição de embargos de
interpretou a mesma norma de maneira diferente e divergência é possível.
que a interpretação correta é a do outro órgão. Isso
exige uma argumentação mais detalhada, Outro ponto relevante é que, tanto no Supremo
evidenciando a divergência real entre os julgados e Tribunal Federal quanto no Superior Tribunal de
buscando harmonizar a jurisprudência com base nas Justiça, pode-se encontrar decisões que, embora no
interpretações divergentes. final digam "não conheço o recurso", na
fundamentação enfrentam o mérito, interpretando a
Constituição ou a lei federal. A dúvida que pode surgir
No caso do Supremo Tribunal Federal, para interpor é se é possível interpor embargos de divergência
embargos de divergência, o recorrente deve contra uma decisão que, embora tenha negado
argumentar que a decisão da Primeira Turma está conhecimento ao recurso, tenha analisado a questão
equivocada, apresentando os motivos pelos quais a de mérito. A resposta é sim, é possível interpor
decisão está errada, e demonstrar que a Segunda embargos de divergência, desde que se encontre um
Turma interpreta a Constituição de maneira diferente, paradigma que justifique a divergência e que tenha
sendo essa a interpretação correta. O mesmo sido analisada a questão de mérito, mesmo que a
princípio se aplica ao Superior Tribunal de Justiça, em conclusão tenha sido de não conhecimento.
que, caso a Primeira Turma tenha dado uma decisão
equivocada, deve-se apresentar os motivos pelos Além disso, com as mudanças nas composições dos
quais a decisão deve ser reformada, mostrando que tribunais superiores, é natural que surjam alterações
outra turma do mesmo tribunal interpretou a lei nos entendimentos. Suponhamos que uma decisão
federal de forma distinta e corretamente. Portanto, tenha sido tomada pela Primeira Turma, mas o
não basta simplesmente afirmar que a decisão está recorrente não concorde com a decisão e busque um
errada; é necessário evidenciar que outra turma paradigma de sentido contrário. Se os únicos
adotou uma interpretação diferente, e essa paradigmas encontrados forem da própria Primeira
interpretação é a correta. Turma, em princípio, não seria cabível a interposição
de embargos de divergência, pois não haveria
A fundamentação dos embargos de divergência, divergência entre órgãos diferentes. Contudo, os
conforme a doutrina, deve seguir o que se chama tribunais superiores passaram a entender que, com a
"cortejo analítico". Isso significa que, ao fundamentar reforma do Código de Processo Civil de 2015, se
os embargos, é preciso analisar a decisão recorrida e houver alteração em mais da metade da composição
trazer um paradigma, ou seja, um exemplo de da turma, a mudança de entendimento dessa mesma
situações iguais que foram julgadas de forma distinta, turma já pode ser suficiente para a interposição dos
com a aplicação da lei de maneira diferente. A decisão embargos de divergência. Portanto, mesmo dentro da
paradigma será aquela que se entende como correta. mesma turma, se houver mudança substancial na
Em outras palavras, a fundamentação nos embargos composição, os embargos de divergência devem ser
de divergência é vinculada, ou seja, o recurso não admitidos.
pode ser interposto por qualquer motivo, mas apenas
quando houver divergência na interpretação entre os
órgãos do mesmo tribunal. Houve uma mudança significativa no entendimento
sobre a admissibilidade dos embargos de divergência.
A partir de agora, se houver uma mudança na
No caso do Supremo Tribunal Federal, a situação se
torna mais complexa, pois envolve matéria composição de mais da metade da turma, é possível
constitucional. Assim, não é possível interpor interpor embargos de divergência, o que antes não
seria admitido. No entanto, existe uma questão que
gera controvérsia, especialmente nos tribunais divergência não afetar a essência do julgamento, os
superiores: se uma decisão tiver mais de um embargos não têm razão de existir.
fundamento e houver divergência apenas em relação
É possível, também, que decisões monocráticas em
a um desses fundamentos, será possível recorrer por
meio de embargos de divergência? tribunais superiores sejam desafiadas por meio de
embargos de divergência, mas, para isso, é necessário
A resposta, para nós, é sim, desde que aquele que o julgamento seja colegiado, ou seja, que o
fundamento seja suficiente para alterar o julgamento. recurso tenha sido analisado por mais de um juiz. Os
Caso contrário, se o fundamento não for suficiente embargos de divergência não podem ser utilizados em
para alterar a decisão, os embargos de divergência decisões monocráticas, pois o recurso agravo é o
não seriam cabíveis, pois o reexame de apenas um instrumento adequado nesse caso. O mesmo se aplica
fundamento não modificaria o resultado do aos recursos ordinários: não cabe embargos de
julgamento. Contudo, essa interpretação não é divergência contra decisões oriundas de recursos
pacífica. No Superior Tribunal de Justiça, há decisões ordinários, pois a legislação fala expressamente em
que afirmam que é necessário que haja um conflito de recursos especiais ou extraordinários, e o recurso
interpretação para que os embargos de divergência ordinário tem outra natureza.
sejam admitidos, desde que a devolutividade seja
total, ou seja, que a divergência tenha o poder de Por fim, em caso de divergência em um julgamento de
recurso ordinário, a única possibilidade de revisão
alterar o julgamento. No entanto, há outra linha de
entendimento que defende que a devolutividade está seria por meio de embargos de declaração, já que os
vinculada ao objeto da divergência. Se a divergência embargos de divergência não se aplicam nesse tipo de
não for suficiente para alterar a decisão, não caberiam recurso. Isso ocorre porque os embargos de
embargos de divergência. divergência visam uniformizar o entendimento de
matérias federais e constitucionais, não abrangendo
Um exemplo que ilustra bem essa discussão ocorreu todas as matérias possíveis de serem tratadas nos
recentemente, quando o Superior Tribunal de Justiça tribunais superiores.
analisou um caso sobre a prescrição. A relatora e o
ministro divergiram sobre a interpretação do Código
Civil em relação ao fato que iniciaria o prazo de Nessas hipóteses, me pareceria que deveria caber,
prescrição. A relatora entendeu que o prazo mas a jurisprudência tem facilitado, limitando-se aos
começaria a contar a partir do "conhecimento do recursos especiais e extraordinários. Quanto aos
fato", enquanto outro ministro considerava que o demais recursos ou ações autônomas, não é cabível.
prazo se contaria a partir do "fato". A questão gerou Em relação ao processamento, é interessante notar
divergência entre as turmas, e a dúvida era se que ele é regido pelos regimentos internos, enquanto
caberiam embargos de divergência para solucionar o Código de Processo Civil pouco trata do tema. Na
essa diferença. Se um dos fundamentos fosse prática, o recurso é interposto no prazo de 15 dias, e
suficiente para alterar a conclusão do julgamento, todos os demais recursos têm caráter preparatório.
poderiam ser interpostos embargos, mas se ambos os Ele é direcionado ao relator do acórdão recorrido, que
fundamentos fossem igualmente válidos para a faz o exame da admissibilidade formal. Se for
decisão, a divergência não alteraria o resultado, e os admitido, o recurso é distribuído ao novo relator.
embargos não seriam cabíveis.
É interessante observar que, no caso do Supremo
Os embargos de divergência têm como objetivo Tribunal Federal, o processo é relativamente simples,
harmonizar a interpretação das leis, mas é importante já que os julgamentos ocorrem entre turmas ou entre
lembrar que o julgamento em questão deve sempre a turma e o plenário. No caso do Superior Tribunal de
ser concreto. Não estamos tratando de uma ação Justiça, o processo é mais complexo, pois ele possui
direta de inconstitucionalidade ou uma ação mais órgãos: a primeira e segunda turmas formam a
declaratória de constitucionalidade, onde a decisão primeira sessão; a terceira e quarta, a segunda sessão;
pode afetar um grande número de casos. Nos e a quinta e sexta, a terceira sessão. Além disso, existe
embargos de divergência, estamos lidando com o o órgão da Corte Especial, que julga em determinadas
julgamento de um caso específico. Portanto, se a
situações. Quem vai julgar os embargos de
divergência depende do acórdão paradigma. Se for a
primeira turma com a segunda, por exemplo, o
julgamento é feito pela primeira sessão, que reúne os
membros das duas turmas. Caso seja a primeira turma
com a terceira, a Corte Especial será responsável pelo
julgamento.