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Recursos em Espécie: Tipos e Admissibilidade

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Recursos em Espécie – Bedaque Além dos embargos à execução, outras ações

autônomas de impugnação incluem a ação rescisória,


AULA 1 – 8 DE AGOSTO que é bastante comum, e o mandado de segurança.
Certamente, a disciplina que estudaremos neste Vale ressaltar que, no atual sistema processual, são
semestre é a de recursos em espécie, focando em dois raras as situações em que o mandado de segurança é
meios principais de impugnação das decisões judiciais. aceito para contestar decisões judiciais. Sua principal
Primeiramente, é importante entender a diferença função é proteger direitos ameaçados por atos
entre recursos e ações autônomas de impugnação. Os administrativos, e a jurisprudência admite sua
recursos são interpostos dentro da mesma relação utilização contra decisões judiciais apenas em casos
processual em que a decisão recorrida foi proferida, excepcionais, como decisões consideradas
enquanto as ações autônomas geram um novo teratológicas ou patológicas.
processo. Outras ações autônomas de impugnação também
Iniciaremos com o estudo dos recursos, que são podem ser mencionadas, embora sejam
classificados com base na natureza da decisão extremamente raras. No direito penal, existem
recorrida. As principais decisões judiciais são as algumas situações onde ações podem ser interpostas
interlocutórias e as sentenças proferidas em primeiro contra decisões judiciais que são vistas como
grau. Também temos as decisões de segundo grau, inexistentes ou que violam garantias fundamentais.
que podem ser monocráticas ou colegiadas. As
Hoje, começaremos a examinar os meios de
decisões monocráticas são proferidas por um único impugnação mais comuns, focando nos recursos. É
relator, enquanto as decisões colegiadas, chamadas fundamental identificar a adequação do recurso, já
de acórdãos, são tomadas por um grupo de juízes. que existem diferentes tipos, como embargos de
Em relação a essas decisões, existem recursos declaração, agravos e apelações. Um dos requisitos
específicos, como o agravo interno contra decisões para a admissibilidade dos recursos é a adequação, ou
monocráticas e os recursos especiais e extraordinários seja, saber qual recurso é apropriado em cada
contra acórdãos. Além disso, qualquer decisão circunstância. Este será o primeiro ponto que
judicial, tanto de primeiro quanto de segundo grau, abordaremos, começando com a apelação e, em
permite a interposição de embargos de declaração. seguida, discutindo as decisões interlocutórias e os
Esses embargos têm a função de esclarecer omissões agravos.
ou erros materiais. No entanto, é importante destacar
que, caso a decisão esteja correta, o juiz pode
responder que não há necessidade de alteração. Em primeiro grau de jurisdição, há três recursos
possíveis: apelação, agravo de instrumento e
Assim, vamos nos aprofundar nas diferentes embargos de declaração. Exceto pelos embargos de
modalidades de recursos e suas particularidades ao
declaração, que podem ser utilizados contra qualquer
longo do semestre. decisão judicial, os demais recursos têm restrições
específicas. Para saber qual recurso cabe em cada
situação, é necessário identificar o tipo de decisão.
Os embargos de declaração são frequentemente
utilizados por advogados para ganhar tempo e A legislação brasileira, especialmente o Código de
possibilitar a interposição do recurso adequado. No 2015, trouxe mudanças para reduzir as dúvidas sobre
entanto, muitas vezes esses embargos são mal a escolha do recurso apropriado. Contra uma
interpretados, tanto por advogados quanto por juízes. sentença, cabe apelação. Já em relação às decisões
É importante distinguir entre os recursos e as ações interlocutórias, a possibilidade de interposição de
autônomas de impugnação. Um exemplo de ação agravo depende da natureza da decisão, sendo
autônoma é o embargos à execução, que pode ser necessária a análise se é cabível ou não.
visto como uma forma de intervenção de terceiros. O agravo de instrumento é restrito a situações
expressamente previstas, ao contrário do que ocorria
no Código anterior, que permitia agravo contra
qualquer decisão interlocutória. A admissibilidade dos especifica que uma decisão interlocutória não encerra
recursos está relacionada à presença de requisitos o processo, pois este pode continuar para o
específicos, como legitimidade e interesse. cumprimento da sentença, que, diferentemente do
que ocorria no código anterior, não requer um novo
É importante diferenciar o mérito do recurso, que se processo.
refere a aspectos processuais, do mérito do litígio em
primeira instância, que envolve a questão central da
causa. A ausência de requisitos processuais pode levar
à extinção do processo sem julgamento de mérito. A Houve uma mudança no conceito de sentença, que
agora não encerra o processo, mas sim a fase
possibilidade jurídica do pedido, antes uma condição
da ação, agora é considerada um aspecto do mérito cognitiva do mesmo. Isso resolve a questão das
no novo Código. decisões que julgam parcialmente o mérito,
permitindo que o processo continue após uma
Quando um pedido é julgado como juridicamente decisão sobre uma parte do pedido, como, por
impossível, a decisão será de improcedência, e a exemplo, a condenação por danos materiais,
ausência de condições para a ação implica que o enquanto se aguarda a apuração de danos morais.
processo será encerrado sem análise do mérito. As Nesse caso, a decisão é considerada interlocutória e
decisões que se referem ao mérito tornam-se permite a interposição de agravo.
imutáveis, ou seja, não podem ser discutidas
No contexto do Código anterior, existia a ideia de que
novamente em outro processo. Isso significa que, se
um pedido for negado, a situação de direito material a sentença encerrava o processo, mas o legislador
se torna definitiva. atual esclareceu que a sentença encerra apenas a fase
cognitiva, independentemente de seu conteúdo. Uma
decisão interlocutória, por sua vez, não encerra essa
fase, mesmo que envolva julgamento parcial do
Para que o juiz, em primeiro grau, possa julgar o
mérito. Assim, é possível recorrer dessa decisão por
mérito de um caso, é essencial a presença de meio das vias adequadas.
requisitos de admissibilidade, que incluem
pressupostos processuais e condições da ação. Esses Com a nova legislação, a admissibilidade do agravo de
requisitos também se aplicam ao tribunal, que só instrumento foi restringida a situações específicas, ao
pode julgar o mérito do recurso se todos os critérios contrário do que ocorria anteriormente, quando
de admissibilidade estiverem atendidos, como qualquer decisão interlocutória era passível de
interesse recursal, tempestividade, preparo, agravo. O Código atual estabelece um rol taxativo de
legitimidade e cabimento. Caso algum desses hipóteses em que o agravo é cabível, conforme o
requisitos esteja ausente, o tribunal não conhecerá do artigo 1025. Essa mudança reflete uma opção do
recurso. legislador para tornar o processo mais claro e
limitado, evitando confusões sobre quais decisões
O agravo de instrumento é um recurso cível cabível podem ser atacadas.
contra certas decisões interlocutórias, enquanto a
apelação é utilizada contra sentenças. O Código atual Além disso, qualquer situação que não esteja prevista
permite que o juiz julgue parcialmente o mérito, o que nas hipóteses específicas do Código ou em legislação
é uma inovação. Ao fazer isso, o juiz emite uma esparsa não será admissível para agravo. A atividade
decisão que encerra a fase cognitiva do processo em processual, portanto, foi mitigada para garantir uma
relação à parte do mérito decidida, mas o processo maior clareza nas situações em que cabe recurso, o
pode continuar para o julgamento do restante. que ajuda a evitar questionamentos desnecessários.

A definição de sentença, segundo o Código, é o ato


que encerra a fase de conhecimento do processo.
Portanto, uma decisão que julga parcialmente o
mérito também põe fim à fase cognitiva, embora O artigo 1025 do Código de Processo Civil estabelece
possa gerar confusão, pois pode ser vista como uma um rol taxativo de hipóteses para a admissibilidade do
decisão interlocutória. No entanto, a legislação atual
agravo de instrumento. No entanto, essa taxatividade apelação ou nas contrarrazões. Isso significa que,
é considerada "mitigada" pelo Superior Tribunal de mesmo que a decisão interlocutória não esteja
Justiça, que, em julgamentos repetitivos, admitiu prevista nas hipóteses de recurso imediato, ela ainda
situações excepcionais nas quais é possível interpor pode ser contestada posteriormente, sem que haja
agravo mesmo que a hipótese não esteja prevista no preclusão.
referido artigo ou em outro dispositivo do código.
Essa abordagem visa evitar danos irreparáveis às Se uma decisão interlocutória prejudicial não estiver
partes, levando à ideia de que existem exceções à coberta pelas hipóteses de recurso, a parte afetada
pode levantá-la na apelação contra a sentença final.
regra da taxatividade.
Isso gera um debate sobre a eficácia da taxatividade
Com relação ao recurso de apelação, ele é um dos mitigada, pois a ausência de um recurso imediato não
principais recursos previstos no Código e está disposto impede que a questão seja discutida mais adiante. A
no artigo 994, inciso I. A sentença é definida como o ideia é que, se a decisão interlocutória causar danos
ato pelo qual o juiz encerra a fase cognitiva do significativos, a parte não deve ser penalizada pela
processo. Essa fase inclui a fase postulatória, onde se falta de um recurso imediato, podendo questionar a
propõe a demanda e se formula o pedido, seguida da decisão quando recorrer da sentença.
fase instrutória, onde o juiz analisa se todos os
requisitos processuais estão em ordem para que o Portanto, mesmo que uma decisão interlocutória não
seja passível de recurso imediato, ainda é possível
processo prossiga.
impugná-la em um momento posterior, evitando que
A cognição do juiz pode ser classificada em exauriente a parte fique prejudicada por prazos e limitações
e sumária. A cognição exauriente envolve um exame processuais. Essa flexibilidade busca equilibrar a
completo dos fatos e do direito, resultando em um necessidade de celeridade com a proteção dos
juízo de certeza, enquanto a cognição sumária se direitos das partes envolvidas.
limita a aspectos específicos, resultando em um juízo
de probabilidade do direito, como no caso de tutelas
provisórias de urgência. Se você se encontrar em uma situação em que não
Assim, ao compreender esses conceitos, fica claro que pode aguardar anos para resolver um problema
a apelação é um recurso que permite revisar decisões judicial, é necessário interpor um agravo. Caso o
tribunal não conheça o agravo, pode-se entrar com
de primeiro grau, podendo abarcar tanto a análise de
mérito quanto questões processuais. um recurso especial. Se o recurso especial não for
admitido, é possível agravar a decisão de
inadmissibilidade. No entanto, mesmo que o agravo
seja aceito, a análise pelo Superior Tribunal de Justiça
Na fase cognitiva, o juiz tem a oportunidade de (STJ) pode demorar muito, o que pode resultar em
conhecer as provas e as alegações apresentadas pelas
uma solução tardia e, em alguns casos, o processo de
partes. Inicialmente, esse conhecimento pode ser primeiro grau já pode ter sido encerrado.
superficial, especialmente em situações que envolvem
pedidos de tutelas provisórias, mas a tendência é que Em relação à apelação, é importante entender que,
a fase cognitiva se aprofunde, permitindo uma análise antes de discutir a correção da sentença, é possível
mais completa das questões envolvidas. A produção apresentar uma preliminar. Essa preliminar pode
de provas é uma parte essencial dessa fase, e a abordar matérias que não foram adequadamente
decisão final do juiz, que é a sentença, encerra essa examinadas pelo juiz de primeira instância e que, por
etapa do processo. isso, precisam ser reavaliadas pelo tribunal. A
legislação prevê que questões resolvidas na fase de
A apelação é o recurso cabível contra a sentença, que
conhecimento que não comportam agravo não devem
marca o término da fase cognitiva. O artigo 1009 do ser consideradas preclusas e podem ser trazidas à
Código de Processo Civil estabelece que, em relação tona na apelação.
às questões resolvidas na fase de conhecimento, se a
decisão não permitir agravo de instrumento, essas Ao interpor uma apelação, o tribunal examina
questões devem ser suscitadas em preliminar de primeiramente se os requisitos de admissibilidade
estão presentes. Se um recurso de apelação não adesivo segue as mesmas regras do prazo da apelação
contiver os requisitos necessários, ele poderá não ser principal. Assim, é crucial que as partes estejam
conhecido. O apelado, por sua vez, será intimado para atentas aos prazos e condições para garantir a
apresentar contrarrazões. Se o apelado decidir efetividade de seus direitos.
interpor uma apelação adesiva, isso acontece quando
ele quer contestar a decisão, mesmo que não tenha
recorrido inicialmente, com o intuito de garantir que O prazo para a apelação adesiva é o mesmo da
sua posição seja considerada em função do recurso da apelação principal, ou seja, o apelado será intimado a
outra parte. apresentar contrarrazões no prazo de 15 dias. Isso se
Em resumo, a apelação é uma ferramenta crucial para deve ao fato de que o interesse em interpor a
a revisão de decisões, permitindo que questões não apelação adesiva surge somente após a intimação
resolvidas adequadamente possam ser discutidas e para contrarrazões, quando a parte toma
conhecimento do recurso interposto pela parte
reexaminadas em grau superior, garantindo assim o
direito de ampla defesa e a busca pela justiça. contrária.

O artigo 997, parágrafo segundo, do Código de


Processo Civil estabelece que o recurso adesivo é
O recurso adesivo é utilizado quando uma sentença é subordinado e independente, aplicando-se a ele as
parcialmente favorável a uma das partes. Nesse caso, mesmas regras da apelação. Isso significa que as
a parte que não interpõe apelação inicialmente está partes devem seguir as mesmas normas quanto aos
satisfeita com a decisão, mas, ao saber que a parte requisitos de admissibilidade e julgamento.
contrária recorre, decide também apelar para
aumentar sua vantagem. A apelação adesiva permite A terminologia do recurso adesivo pode gerar
que essa parte busque uma decisão mais favorável, confusão, pois pode-se pensar que a parte está
apenas aderindo ao recurso principal. Na verdade, a
como, por exemplo, um valor maior do que o
concedido na sentença. parte que interpõe o recurso adesivo busca um
resultado que não havia inicialmente solicitado, mas
Para ilustrar, suponha que um juiz condene uma parte que agora é pertinente devido à ação da outra parte.
a pagar R$ 90,00, enquanto ela havia solicitado R$
100,00. Se a parte condenada apela para reduzir o O juiz tem a função de verificar a admissibilidade do
recurso, que inclui a análise dos requisitos
valor, a parte que foi beneficiada pode apresentar um
recurso adesivo para pleitear a diferença de R$ 10,00. necessários, como a tempestividade e o preparo. Se
Isso serve como um incentivo para que a parte que já esses requisitos não estiverem presentes, o tribunal
obteve parte do que queria não sinta a necessidade não conhecerá do recurso, ou seja, não analisará o
de recorrer imediatamente, mas sim em resposta à mérito. Caso os requisitos sejam atendidos, o tribunal
admite o recurso e, em seguida, procede ao
ação da outra parte.
julgamento do mérito.
É importante destacar que, no processo civil, a
possibilidade de interposição de apelação adesiva não Esses conceitos são fundamentais para quem atua na
obsta o trânsito em julgado da decisão anterior. Isso área do direito, pois revelam a compreensão do
sistema processual. Na próxima aula, continuaremos
significa que, mesmo que a parte perca o prazo para
apelar, ainda pode apresentar um recurso adesivo discutindo os efeitos dos recursos e sua importância
enquanto a decisão não tiver transitado em julgado. no processo judicial.

Em contraste, no processo penal, uma vez que o prazo


para recorrer expire, a decisão se torna definitiva. AULA 2 – 15 DE AGOSTO
Portanto, a figura do recurso adesivo não existe nesse
contexto. No processo civil, ambos os recursos – a Hoje, abordaremos a apelação, que é um recurso
apelação principal e o recurso adesivo – podem ser cabível contra decisões judiciais, especificamente as
julgados na mesma sessão, mas são interpostos em sentenças. A sentença é o ato que encerra um
momentos distintos. O prazo para interpor o recurso processo, mas, conforme a nova sistemática do
Código de 2015, esse encerramento não significa que alguém pede o reconhecimento de propriedade de
todas as atividades jurisdicionais se finalizam. A um imóvel baseado em posse prolongada, essa
sentença pode, na verdade, ser apenas um passo sentença é declaratória. Isso porque, mesmo antes da
dentro de um processo que pode continuar a sentença, a pessoa já pode ser considerada
depender de novas intervenções judiciais. proprietária do bem, e a sentença apenas confirma
essa propriedade, retroagindo à data em que a posse
Antigamente, segundo o Código de 1973, a sentença foi iniciada.
era o ato final do processo. Se a sentença exigisse
alguma atividade judicial posterior, isso não era É importante distinguir entre o plano processual e o
considerado, e o processo se encerrava com a direito material. O Código Civil estabelece que a
decisão. Entretanto, algumas sentenças, como as propriedade é adquirida, primeiramente, através do
condenatórias, podem exigir uma nova atividade registro do documento que formaliza a transação.
jurisdicional caso a parte condenada não cumpra Apenas após o registro do contrato de compra e
imediatamente o que foi determinado. Por outro lado, venda, a pessoa se torna efetivamente proprietária do
sentenças declaratórias e constitutivas, em regra, não imóvel. Outro modo de aquisição de propriedade é
requerem essa atividade adicional, pois elas por meio da usucapião, que também deve ser
reconhecem um direito que já existe, sem a registrado para que os direitos sejam reconhecidos
necessidade de um novo ato para sua efetivação. formalmente.

Portanto, é importante entender a natureza das


sentenças e suas consequências no processo judicial.
Enquanto as sentenças condenatórias O Código Civil estabelece que a propriedade pode ser
frequentemente demandam a execução da decisão, adquirida por meio da usucapião, que ocorre quando
as sentenças declaratórias e constitutivas, ao o ocupante de um imóvel completa o prazo previsto
para se tornar proprietário. Assim que esse prazo é
reconhecer um direito, não necessitam de
complementação adicional, pois a declaração por si só cumprido, a pessoa já é considerada proprietária,
já transforma a situação jurídica em questão. Essa mesmo que isso ainda não tenha sido formalmente
compreensão é crucial para evitar complicações reconhecido. A sentença que reconhece a usucapião,
desnecessárias no andamento processual. portanto, não é constitutiva, pois a propriedade já
existia antes dela. Essa sentença serve para eliminar
qualquer dúvida sobre a existência da propriedade,
sendo necessária sua registrabilidade no cartório.
Se afirmo que o réu é pai do autor, estou proferindo
uma sentença declaratória que reconhece a existência Voltando ao conceito de sentença, ela é o ato pelo
dessa relação jurídica. Nesse caso, a declaração é qual o juiz encerra a fase cognitiva do processo. É
suficiente para que o autor registre a paternidade no importante compreender essa definição, pois o novo
cartório, não havendo necessidade de nova atividade sistema processual distingue que a sentença não
jurisdicional. Por outro lado, se condeno o réu a pagar encerra o processo, mas apenas essa fase específica.
uma quantia ao autor e ele não realiza o pagamento, No caso de sentenças condenatórias, o processo
o autor terá que retornar ao Judiciário para solicitar a prossegue dentro do mesmo trâmite, sem
execução dessa sentença. Isso envolve atos como necessidade de um novo processo, na fase de
penhoras e vendas de bens para garantir que o valor cumprimento de sentença.
seja recebido, tudo isso agora é feito dentro do
mesmo processo, na fase de cumprimento de A definição de sentença foi cuidadosamente
sentença. elaborada para evitar confusões que ocorriam no
código anterior, onde situações não eram claras e
Por exemplo, uma sentença que reconhece alguém geravam a interposição de recursos inadequados.
como filho deve ser registrada no cartório. Se o Para corrigir isso, existe o princípio da fungibilidade,
cartório encontrar algum vício ou dúvida em relação que permite que o Judiciário aceite um recurso
ao documento, essa questão pode ser levada ao juiz equivocado, desde que não seja um erro grosseiro e
para decisão. Quanto à natureza da sentença, se haja dúvida sobre o recurso cabível.
Os requisitos para a admissibilidade de um recurso ação. Para fazer essa análise, o juiz examina a relação
incluem a tempestividade, a legitimidade e o preparo. de direito material, mesmo que rapidamente, pois
É essencial que os recorrentes entendam esses isso pode impedir que ele avance para a deliberação
requisitos, além de conhecerem as especificidades do sobre o mérito.
processo.
No processo, existe uma distinção entre o mérito e
aspectos processuais. O juiz pode fazer uma análise
preliminar do mérito, mas isso não o autoriza a decidir
A apelação é um recurso cabível contra a sentença, sobre a questão de direito material. Apenas quem faz
que é a decisão proferida em primeira instância pelo
parte da relação jurídica controvertida tem direito ao
juiz, encerrando a fase cognitiva do processo. Essa exame do mérito. Essa cognição sumária permite que
fase é denominada "cognitiva" porque envolve a o juiz delibere apenas sobre aspectos limitados da
análise e o conhecimento dos fatos e do direito por situação.
parte do juiz. Na fase cognitiva, o juiz se debruça
principalmente sobre o mérito, que é o assunto A análise do mérito no processo é semelhante à que
central da questão judicial. ocorre em tutelas provisórias. Nessa situação, o juiz
examina se o direito pleiteado é verossímil e se há
O mérito, tecnicamente chamado de "lide", refere-se risco de dano. Assim, ele não afirma que a parte tem
ao conflito de interesses qualificado pela pretensão razão, mas que há uma aparência de direito que
de uma das partes. A pretensão é o que se deseja
precisa ser tutelada para evitar prejuízos.
obter no plano material, e seu exercício pode gerar
conflitos se houver resistência da outra parte. Por É fundamental entender a diferença entre os
exemplo, se uma pessoa afirma que um celular é seu e fenômenos do direito material e os processuais para
outra pessoa discorda, há um conflito de interesses compreender plenamente o processo judicial. A
que caracteriza a lide. apelação é o recurso cabível contra a sentença, que é
o ato que encerra a fase cognitiva do processo. Essa
O juiz deve, primeiramente, conhecer esses aspectos fase pode prosseguir, levando à execução, agora
do mérito, mas também pode deparar-se com chamada de cumprimento de sentença.
questões processuais que antecedem essa análise.
Essas questões, chamadas de "preliminares", são
essenciais para determinar se o processo pode seguir
O exame do recurso de apelação é regulado pelo
adiante. Exemplos de questões preliminares incluem a
verificação da legitimidade das partes e a Código de Processo Civil, especificamente no artigo
admissibilidade do pedido. 994, que o considera o primeiro recurso previsto. A
teoria geral de recursos distingue três tipos de
Assim, o juiz examina essas questões processuais pronunciamentos judiciais em primeira instância:
antes de chegar ao mérito. Se não houver obstáculos, despacho, decisão interlocutória e sentença. O
ele poderá então decidir sobre o conflito apresentado. recurso cabível contra a sentença é a apelação,
Portanto, a compreensão das fases do processo é enquanto o despacho, em regra, é irrecorrível, exceto
crucial para entender a atuação do juiz, que deve em casos onde se possa interpor embargos de
olhar atentamente tanto para os aspectos processuais declaração, caso o despacho seja omisso ou gere
quanto para o mérito do caso. dúvida.

Existem decisões em segundo grau que também são


irrecorríveis, como aquelas que não conhecem o
O juiz deve analisar o mérito do processo para recurso por razões previamente estabelecidas, como
determinar a legitimidade das partes envolvidas. A teses do Supremo Tribunal Federal. O recurso é
legitimidade é definida pela relação jurídica existente
fundamentado no princípio do duplo grau de
entre elas. Por exemplo, se uma pessoa pede o jurisdição, que gera debate na doutrina sobre sua
divórcio e a sogra está envolvida no pedido, o juiz natureza constitucional. Há quem defenda que a
precisa verificar se essa sogra é casada com o réu. irrecorribilidade de determinadas decisões possa ser
Caso contrário, ela não pode ser parte legítima na
inconstitucional, já que decisões que não admitem Em princípio, a apelação produz dois efeitos
recurso limitam o acesso à justiça. principais: o efeito suspensivo, que significa que a
apelação suspende a eficácia do ato impugnado, e
A irrecorribilidade visa reduzir o número de recursos,
outro efeito que será discutido posteriormente. O
mas pode causar confusão quando surgem dúvidas efeito suspensivo é crucial, pois impede que a decisão
sobre a possibilidade de recorrer. O parágrafo contestada produza efeitos enquanto a apelação é
primeiro do artigo 1009 do Código oferece uma analisada.
solução para esse problema, permitindo que questões
irrecorríveis sejam examinadas como preliminares na
apelação. Além disso, o artigo 1010 estabelece os
requisitos formais da apelação, que deve incluir a O efeito suspensivo da apelação significa que, ao
exposição dos fatos e do direito, bem como as razões interpor um recurso, os efeitos da decisão impugnada
do pedido. são suspensos. Isso ocorre a partir do momento em
que o relator recebe o recurso. A apelação impede a
O conceito de apelação adesiva foi mencionado, mas parte apelada de executar a sentença,
não explicado em detalhes. Essa figura é relevante, independentemente de ser uma decisão declaratória
embora raramente encontrada na prática. ou constitutiva.

A eficácia da decisão fica suspensa durante o prazo


recursal, que atualmente é de 15 dias úteis, podendo
se estender em situações específicas. Portanto,
A apelação adesiva é um recurso que permite à parte enquanto o prazo para a interposição da apelação não
contrária, que não recorreu inicialmente, aproveitar a expira, o efeito suspensivo já está em vigor. Isso
oportunidade de contestar a decisão, caso a outra implica que, mesmo que a apelação ainda não tenha
parte interponha apelação. Isso ocorre porque, sido formalmente apresentada, a existência do direito
mesmo que a decisão não tenha sido totalmente de recorrer suspende os efeitos da sentença.
favorável, a parte que se sentiu razoavelmente É importante notar que nem todas as apelações têm
satisfeita pode optar por não recorrer. Entretanto, se efeito suspensivo. A ideia inicial do Código era que a
a parte contrária apelou, o direito à apelação renasce, apelação não concedesse esse efeito, mas, devido à
permitindo que essa parte também apresente suas pressão da OAB, essa disposição foi alterada,
razões.
permitindo que a maioria das apelações suspenda a
O legislador introduziu essa possibilidade para eficácia da decisão apelada.
estimular a não interposição de recursos, buscando Por fim, em um cenário em que um tribunal leva
reduzir o número de apelações e promovendo a muito tempo para julgar uma apelação, há uma
conformidade com decisões que, embora não preocupação com a possibilidade de que a execução
inteiramente favoráveis, são consideradas razoáveis.
provisória da sentença ocorra antes do julgamento, o
Se, por outro lado, a parte contrária não concorda, ela que pode causar prejuízos irreparáveis às partes. Essa
pode recorrer para reivindicar aquilo que considera situação levanta discussões sobre a necessidade de se
justo. considerar a urgência e as circunstâncias específicas
Uma peculiaridade da apelação é que, em certos ao lidar com os efeitos da apelação.
casos, aspectos podem ser analisados exclusivamente
pelo relator, que tem a autoridade de tomar decisões
monocráticas. Isso ocorre com a distribuição imediata
do recurso ao relator, embora essa imediatidade não
seja absoluta. O relator pode decidir sobre o processo,
incluindo questões como tutela provisória e o não O exemplo apresentado sugere que, em situações de
conhecimento de recursos inadmissíveis, conforme demora no julgamento da apelação, o juiz poderia, de
especificado no artigo 932 do Código de Processo ofício, retirar o efeito suspensivo e determinar a
Civil. produção de efeitos da sentença. A questão levantada
é se, diante de um vício processual, o tribunal poderia A decisão parcial é uma decisão própria, pois permite
prosseguir com o processo sem que isso causasse que o processo prossiga para a análise da parte não
prejuízo. A regra fundamental do processo é que não decidida. O Código de Processo Civil prevê que, contra
há nulidade sem prejuízo. a decisão que julga parcialmente o mérito, é cabível
agravo de instrumento, conforme disposto no artigo
Se, por acaso, o juiz decidir manter os efeitos da 105.
sentença enquanto a apelação está pendente e isso
não causar danos, seria razoável relevar o vício e A parte que se sentir prejudicada pela decisão pode
permitir o prosseguimento. No entanto, na prática, interpor um agravo e solicitar efeito suspensivo, com
isso é improvável, pois o apelante certamente base no risco de dano grave que poderá sofrer caso a
recorrerá ao tribunal para afirmar que a decisão está execução da sentença se inicie imediatamente.
violando o código. Importante ressaltar que nem todas as apelações
possuem efeito suspensivo. Em casos em que o
Um caso específico foi mencionado, em que um juiz
recurso não confere esse efeito, é possível pleitear
ignorou uma determinação do tribunal e continuou medidas de urgência, como a tutela provisória.
com a execução de uma sentença extinta, gerando a
necessidade de um recurso imediato. Essa situação Por fim, a tutela provisória pode ser concedida de
evidencia que, na maioria dos casos, as decisões do forma liminar, mas é importante entender que a
tribunal devem ser respeitadas, especialmente liminar é uma medida de urgência que deve ser
quando já há atos constritivos. fundamentada e não pode ser concedida de forma
genérica.
Além disso, a conversa abordou a natureza das
decisões interlocutórias e como elas devem ser
atacadas. O entendimento é que decisões parciais de
mérito são tratadas como interlocutórias e, portanto, Em uma aula sobre o processo civil, discutiu-se o
conceito de julgamento parcial de mérito. O juiz pode
cabem recursos específicos. Assim, a terminologia e a
classificação das decisões são fundamentais para a decidir sobre uma parte da pretensão do autor
correta interposição de recursos. quando esta é incontroversa ou se refere apenas a
questões de direito que podem ser decididas
Por fim, a discussão enfatiza que a agilidade e o antecipadamente. Por exemplo, se um autor pede
cumprimento das decisões judiciais são essenciais indenização por danos materiais e morais, o juiz pode
para a eficácia do processo, e qualquer desvio nesse reconhecer os danos materiais, enquanto a análise
sentido pode levar a prejuízos que devem ser dos danos morais requer mais investigação.
evitados.
No início do processo, o juiz pode conceder uma
medida liminar, que pode incluir a suspensão de
efeitos de uma decisão interlocutória, mesmo que o
recurso não tenha efeito suspensivo automático. O
O julgamento parcial de mérito ocorre quando o juiz Código de Processo Civil estabelece que, em algumas
decide sobre uma parte da pretensão do autor, situações, o apelante pode solicitar a suspensão dos
considerando que essa parte é incontroversa ou se efeitos da decisão se houver risco de dano grave e a
refere apenas a questões de direito que podem ser probabilidade de sucesso do recurso for alta.
decididas antecipadamente. Por exemplo, em um O professor mencionou o artigo 102, que lista
caso em que o autor pede indenização por danos situações em que a apelação não concede efeito
materiais e morais, se os danos materiais estão suspensivo, como decisões sobre tutela provisória,
suficientemente provados, o juiz pode julgar essa alimentos, ou quando se extingue o processo sem
parte do pedido. No entanto, se os danos morais
resolução do mérito. Nesses casos, o apelado pode
dependem de prova, o processo deve continuar para solicitar o cumprimento provisório da decisão logo
examinar essa questão. após a publicação da sentença.
Por fim, foi introduzido o conceito de efeito por três desembargadores. O resultado desse
devolutivo da apelação, que significa que, ao interpor julgamento é chamado de acórdão.
um recurso, a decisão é devolvida ao tribunal para
Reiteramos que a regra geral é que o recurso de
nova análise. A abrangência dessa devolução, no
entanto, será discutida mais detalhadamente na apelação possui efeito suspensivo, exceto nas
próxima aula, onde também se abordará o que hipóteses previstas no artigo 102 do Código. Nesses
significa a ausência de condições de ação, como casos, a apelação não suspende os efeitos da
interesse e legitimidade. sentença, permitindo a execução provisória,
especialmente em sentenças condenatórias. Assim, a
execução pode prosseguir, visto que a sentença já
produz efeitos, mesmo que provisórios, devido à
Em uma próxima aula, será discutido o conceito de possibilidade de recurso que pode modificar a
"carecimento de ação" e a importância da decisão.
legitimidade das partes no processo civil. Quando um
juiz decide que o autor é carecedor da ação por falta Agora, antes de abordarmos o segundo efeito da
de legitimidade, isso encerra a fase cognitiva do apelação, que é o efeito devolutivo, quero discutir
processo. A apelação interposta nesse caso terá tanto algumas questões sobre os argumentos que as partes
efeito suspensivo quanto efeito devolutivo. apresentaram no primeiro grau de jurisdição, mas que
não foram examinados pelo juiz. O autor, ao propor a
O efeito devolutivo implica que a decisão do juiz é
demanda, elabora um pedido de tutela jurisdicional,
"devolvida" ao tribunal para nova análise. No exemplo que precisa ser analisado com atenção.
mencionado, se o juiz conclui que o autor não é parte
legítima, ele encerra a discussão sobre o mérito da
ação. Assim, a apelação não poderá examinar
aspectos que o juiz não analisou, uma vez que o
processo foi considerado inválido desde o início. Para obter o resultado desejado em um pedido
Para aprofundar esses conceitos, o professor judicial, o autor deve elaborar a petição inicial com
recomenda que os alunos busquem materiais e cuidado. Primeiramente, é necessário descrever as
manuais sobre o tema, além de artigos que discutam partes envolvidas e, em seguida, apresentar a causa
o efeito devolutivo da apelação. O objetivo é de pedir, que se refere aos fundamentos do pedido.
esclarecer essas questões na próxima aula. A causa de pedir é dividida em dois aspectos: a causa
remota e a causa próxima. A causa remota diz
respeito ao contexto jurídico que motivou a ação,
AULA 3 – 22 DE AGOSTO enquanto a causa próxima é a qualificação jurídica dos
fatos apresentados. Por exemplo, ao mover uma ação
Na aula anterior, iniciamos o estudo sobre os efeitos de investigação de paternidade, o autor deve alegar
da apelação, focando especialmente no efeito
que o réu é pai dele, o que requer a descrição de fatos
suspensivo. Observamos que a maioria dos recursos relevantes.
não possui esse efeito, sendo a apelação uma
exceção, exceto nas hipóteses legais que discutimos É fundamental que o advogado exponha ao juiz a
anteriormente. O efeito suspensivo implica que o ato relação entre o réu e a mãe do autor, apresentando
impugnado não produz efeitos enquanto a apelação detalhes sobre o relacionamento que justifiquem a
está pendente. afirmação da paternidade. Isso pode incluir
informações sobre a convivência do casal, o tipo de
É importante destacar que o efeito suspensivo não se relacionamento que mantiveram e qualquer outra
origina da interposição da apelação, mas sim da evidência que suporte a alegação de que o réu teve
própria recorribilidade, que impede a eficácia da
relações com a mãe do autor, levando ao nascimento
sentença ainda não apelada. A apelação prolonga esse do autor.
efeito até que o tribunal decida sobre o recurso,
geralmente em um julgamento colegiado, composto
Esses fatos constituem a causa de pedir remota, exigibilidade desse direito. Já a decadência implica a
enquanto a causa de pedir próxima se refere ao perda do próprio direito, sendo mais abrangente. É
enquadramento jurídico dessa situação, conforme importante distinguir entre essas duas matérias.
disposto no Código Civil. É essencial que o advogado Embora a prescrição seja considerada uma questão de
narre a história de forma clara e completa para mérito, a alegação deve ser feita antes de outros
fundamentar adequadamente o pedido de pontos de mérito.
reconhecimento da paternidade.
Exemplos de questões preliminares legítimas incluem
a ilegitimidade das partes e a litispendência. A
incompetência do juiz também é uma questão
O autor deve descrever detalhadamente os fatos preliminar, mas é relevante notar que o juiz pode
relevantes na petição inicial, de modo a fundamentar reconhecer sua incompetência de ofício em casos de
seu pedido. Após apresentar a narrativa e a competência absoluta. No entanto, se a
qualificação jurídica, ele formula o pedido, por
incompetência for relativa, ele deve esperar que a
exemplo, solicitando o reconhecimento da parte alegue essa questão.
paternidade. Se a causa for uma indenização por ato
ilícito, não basta afirmar que o réu cometeu o ato; é Quando um juiz reconhece a incompetência, a
necessário descrever os fatos que caracterizam essa consequência não é a extinção do processo, mas a
ilicitude. remessa dos autos ao juiz competente. Existem,
porém, preliminares que podem gerar a extinção do
O juiz, ao analisar a petição inicial, deve verificar se processo, como a ilegitimidade, a coisa julgada e a
está adequada. Caso a inicial apresente problemas, litispendência. Nessas situações, o juiz pode extinguir
como irregularidades, pode ser classificada como o processo sem examinar o mérito.
"inédita" ou "defeituosa". Se for corrigível, o juiz
determinará sua correção. Uma vez regular, o juiz cita Idealmente, essas questões deveriam ser resolvidas
o réu, que toma conhecimento da demanda e no início do processo, pois muitas vezes o juiz já pode
apresenta sua defesa, geralmente por meio de uma identificar a ausência de condições necessárias para a
contestação. ação ao examinar a inicial. Se um juiz extinguir o
processo por ilegitimidade do autor e o tribunal, em
Na contestação, o réu deve alegar todos os recurso, reconhecer a legitimidade da parte, ele deve
argumentos que possam inviabilizar o pedido do
determinar a continuidade do processo, considerando
autor. Isso inclui questões preliminares, que são fatos a posição do autor.
jurídicos que podem impedir a análise do mérito da
ação. Exemplos de questões preliminares incluem a É fundamental que o juiz analise cuidadosamente a
prescrição, que é o decurso de um prazo que extingue inicial, pois, em alguns casos, ele pode não ter lido
a pretensão do autor. adequadamente os argumentos apresentados,
levando a conclusões errôneas sobre a legitimidade
É importante destacar que a prescrição, embora das partes.
relacionada ao mérito, não deve ser confundida com
questões processuais. A prescrição refere-se à perda
do direito material de reivindicar uma obrigação, e
O juiz, ao analisar uma contestação, pode identificar
não ao direito de ação em si, que é garantido
constitucionalmente e não pode ser perdido. Assim, que uma das partes é ilegítima. Em alguns casos, pode
enquanto o autor pode não ter mais a pretensão de ocorrer que, durante o processo, o juiz decida deixar
reivindicar algo devido à prescrição, ele ainda mantém as questões preliminares para serem analisadas
o direito de agir em juízo. apenas ao final. Isso pode levar a um longo período de
produção de provas, como perícias e testemunhas.
Após esse tempo, o juiz pode concluir que o réu,
considerado parte ilegítima por ser amigo do devedor,
A prescrição refere-se à perda da possibilidade de não é realmente a parte errada, levando à extinção do
exigir um direito devido ao decurso do tempo, processo sem julgamento de mérito.
resultando na extinção da pretensão, que é a
O autor, por sua vez, recorre, argumentando que não mérito, uma vez que houve produção de provas e
é apenas amigo do devedor, mas que, como fiador, contraditório.
assumiu responsabilidade solidária no contrato de
Portanto, o tribunal pode afastar a preliminar
fiança. Portanto, ele reivindica ser considerado co-
devedor, o que modificaria a situação. Assim, ao levantada pelo juiz e decidir sobre o mérito da
interpor a apelação, o tribunal deve reavaliar a questão, já que o processo permitiu uma discussão
legitimidade do réu. Se o tribunal reconhecer que o adequada. Essa concordância entre os participantes
réu é, de fato, parte legítima, deve devolver os autos da discussão, independente de suas origens,
demonstra que a rivalidade entre os estados não se
ao primeiro grau para que o juiz examine o caso
adequadamente. aplica sempre na prática.

É importante observar que, dependendo da situação,


o tribunal pode decidir julgar o mérito diretamente,
caso a causa esteja madura. A devolução dos autos ao
poder judiciário implica que a matéria será analisada Para que o tribunal possa julgar diretamente em
novamente, não pelo mesmo juiz, mas por um órgão segunda instância, é necessário que a causa esteja
de segundo grau, que tem a função de revisar madura. Isso significa que já houve a produção de
decisões de primeira instância. provas e discussão adequada entre as partes. Quando
se afirma que a causa está madura, isso permite ao
tribunal afastar a alegação de carência ou
Com a interposição da apelação, o processo é ilegitimidade e adentrar no mérito da questão. Há, no
devolvido ao tribunal, e surge a questão da entanto, um debate sobre se o tribunal pode ignorar a
abrangência desse efeito devolutivo, especialmente ausência de exame do mérito pelo juiz de primeiro
em casos em que o juiz extinguiu o processo sem grau.
analisar o mérito. O efeito devolutivo pode ser Se o juiz não analisou o mérito, o tribunal pode
considerado sob duas vertentes: a extensão e a decidir, por sua própria iniciativa, examinar a questão
profundidade. ou, em contrapartida, devolver o processo ao juiz para
A extensão se refere à limitação dos pedidos que este o faça. Essa discussão envolve o princípio da
analisados pelo tribunal. Por exemplo, se o autor dupla instância, que garante ao autor a oportunidade
de que sua matéria seja analisada em duas etapas do
pleiteou indenização por danos morais e materiais, e
o juiz indeferiu ambos, mas o autor recorre apenas processo. Se o juiz já teve a chance de avaliar, mas
em relação aos danos materiais, o tribunal se limitará optou por não fazê-lo, o tribunal pode decidir julgar o
a avaliar esse pedido, presumindo que o autor desistiu mérito.
da pretensão sobre os danos morais. No que diz respeito ao efeito devolutivo da apelação,
o artigo 13 do Código de Processo Civil estabelece que
A profundidade, por sua vez, diz respeito à matéria
discutida e às provas apresentadas no primeiro grau. a matéria impugnada deve ser analisada pelo tribunal,
Isso inclui todos os fatos, as decisões do juiz e os abrangendo todas as questões discutidas no processo,
fundamentos apresentados. O tribunal deve mesmo aquelas não resolvidas. Quando o pedido ou a
defesa tem mais de um fundamento e o juiz acolhe
considerar o que foi debatido durante o processo,
mesmo que o juiz tenha inicialmente deixado apenas um, a apelação devolve ao tribunal o
questões em aberto. conhecimento dos demais.

No caso em que o juiz considera o réu como parte Se o processo estiver pronto para julgamento
ilegítima, mas depois reconhece que ele é, de fato, um imediato, o tribunal deve decidir o mérito. O tribunal
também pode decretar a nulidade da sentença se esta
devedor, o autor recorre e alega que o réu não é
apenas amigo do devedor, mas fiador e co-devedor. não for congruente com os fundamentos do pedido,
Se o tribunal concordar que o réu é parte legítima, ele se houver omissão no exame de um dos pedidos, ou
pode decidir, mesmo que o juiz não tenha analisado o se a sentença carecer de fundamentação. Assim, a
abrangência do efeito devolutivo é ampla, permitindo
ao tribunal julgar o mérito, mesmo que o juiz de realizadas pelo juiz de primeiro grau. O entendimento
primeiro grau não o tenha feito ou não tenha é que, geralmente, o tribunal não pode ordenar a
examinado todos os fundamentos apresentados. produção de novas provas, mas pode analisar aquelas
já existentes. Se necessário, a falta de prova pode
levar à anulação da sentença, mas a decisão sobre
como proceder fica a critério do tribunal.

A maioria dos juristas defendia que, de acordo com o Em resumo, a discussão sobre a devolutividade da
Código de 1973, o tribunal deveria devolver a matéria apelação é fundamental para garantir a eficiência do
ao primeiro grau sempre que houvesse a extinção do processo e a proteção dos direitos das partes.
julgamento de mérito. Essa postura visava evitar a
supressão de instâncias, garantindo que o juiz de
primeiro grau tivesse a oportunidade de analisar o A questão discutida envolve a necessidade de
que não foi examinado. Em uma exposição sobre o produção de provas em processos judiciais e a sua
assunto, um desembargador afirmou que o juiz deve relação com a maturidade da causa. Se uma prova é
ter a chance de decidir sobre tudo o que não analisou. essencial para o julgamento, mas não pode ser
Essa posição, porém, gerou reações adversas entre os realizada, isso indica que a causa não está
juízes presentes. completamente madura. Por outro lado, se a prova
pode ser feita, mesmo que a causa esteja apenas
Na elaboração do novo Código de Processo Civil, fiz
"quase madura", o tribunal pode não se sentir à
forte pressão para que o legislador permitisse uma vontade para simplesmente ordenar a produção da
ampliação do efeito devolutivo da apelação. prova e julgar com base nela.
Considero essencial que tudo que foi objeto de
contraditório no primeiro grau seja devolvido, mesmo O artigo 938, parágrafo terceiro, estabelece que,
que o juiz não tenha analisado todos os aspectos. Se reconhecendo a necessidade de produção de prova, o
as partes já discutiram, não há que se reclamar, pois a relator deve converter o julgamento em diligência,
única diferença é que o tribunal examinará as realizando a instrução no tribunal ou no primeiro grau
questões sem que elas passem novamente pelo juiz de jurisdição. Após essa instrução, o tribunal decidirá
de primeiro grau. sobre o recurso.

É importante ressaltar que existem situações em que Existem situações em que é crucial entender se houve
processos podem ser iniciados diretamente no ou não um julgamento de mérito no primeiro grau,
tribunal, ou seja, o legislador pode suprimir um grau pois isso pode afetar a abordagem do tribunal. O
de jurisdição quando isso for conveniente para o código permite que o tribunal julgue, mesmo que o
sistema, visando à celeridade processual. Assim, não juiz de primeiro grau não tenha se pronunciado sobre
se está suprimindo garantias, uma vez que as partes já o mérito. Assim, se a falta de uma prova foi
participaram do contraditório. O tribunal examinará determinante para um erro no julgamento, o tribunal
todas as questões discutidas, mesmo que o juiz não deve considerar essa situação.
tenha feito isso.
O tribunal tem a autoridade para determinar a
A amplitude do efeito devolutivo é atualmente a mais produção de provas e, com base nelas, emitir seu
abrangente possível. O tribunal analisará tudo que foi voto. Essa capacidade está vinculada à regra do artigo
objeto de contraditório, mesmo que não tenha sido 938, que sugere que o tribunal pode, sim, produzir
examinado pelo juiz de primeiro grau. Exemplos provas e não necessariamente devolver o caso ao juiz
incluem a carência da ação ou a nulidade da sentença. de primeiro grau, a menos que isso seja mais prático,
Se o juiz falhou em fundamentar sua decisão, o como no caso de perícias ou audiências de
tribunal suprirá essa falha. testemunhas.

Quando se trata de produção de provas, há a questão Em minha experiência, frequentemente solicitava a


de saber se o tribunal pode determinar a realização de produção de provas quando necessário, e muitos
perícias ou a produção de provas que não foram acordos refletem essa prática. Há, no entanto, um
entendimento de que a decisão do tribunal sobre a
produção de prova pode ter implicações,
especialmente se a parte interessada não agir de A proposta de alteração no sistema de recursos não
foi aprovada porque o Superior Tribunal de Justiça
maneira diligente, levando à preclusão.
(STJ) não concordou, alegando que isso poderia
Em resumo, a produção de provas é um aspecto aumentar o número de recursos. Muitos recursos
crucial na avaliação da maturidade da causa, e o especiais não são aceitos na origem, e quem interpõe
tribunal possui a flexibilidade de determinar a um recurso especial geralmente busca, no mínimo,
produção dessas provas para garantir um julgamento que ele seja examinado, mesmo que tenha intenções
justo e eficaz. de protelar a decisão.

É fundamental discutir o efeito devolutivo da


apelação, considerando dois aspectos: a extensão e a
Na aula passada, discutimos a complexidade do profundidade desse efeito. A extensão diz respeito
sistema jurídico e como ele pode dificultar mais do
aos pedidos formulados e quais deles foram
que facilitar a resolução de questões. O debate surgiu analisados na sentença. Se uma parte apela apenas de
sobre a utilização da taxatividade mitigada e a dois capítulos de uma decisão que abrange três, o
preclusão em casos de preliminares, o que considero capítulo não impugnado transita em julgado, pois não
um absurdo. A preclusão refere-se à perda do direito cabe mais recurso sobre ele.
de praticar um ato processual, como a interposição de
um recurso, que deve ser feito dentro de um prazo A profundidade se refere ao que foi discutido no
específico, como os 15 dias para apelação. Se a parte processo, incluindo os argumentos e os pedidos. Se o
não agir nesse período, perde o direito de apelar, juiz não analisou um pedido, o código estabelece que,
resultando em preclusão. desde que a parte impugne os fundamentos, o
tribunal pode examinar essa questão. Portanto,
No entanto, a preclusão pode ser mais flexível em
mesmo que o juiz não tenha julgado um pedido ou
certos casos. Por exemplo, se uma parte não contesta fundamento, o tribunal ainda pode considerar a
dentro do prazo, pode contestar no dia seguinte. Isso questão.
contrasta com o recurso de apelação, que não será
conhecido se não for interposto a tempo. Se um réu O exame do efeito devolutivo da apelação deve ser
não contesta, ele se torna "réu rebelde", e os fatos realizado à luz da extensão e profundidade, levando
alegados pelo autor são considerados verdadeiros. em conta tudo o que foi discutido no contraditório. Se
um juiz rejeita um argumento, mas não analisa outro,
Fui um defensor dessa abordagem ao elaborar o o que foi discutido será devolvido ao tribunal para
código, acreditando que seria benéfico para a justiça. nova apreciação, conforme o artigo 13 do código.
Além disso, é importante que o juiz de primeiro grau
faça uma análise de admissibilidade dos recursos, Quando falamos em extensão, estamos nos referindo
embora isso nem sempre ocorra. O presidente do aos capítulos da sentença que correspondem a cada
tribunal, por sua vez, pode examinar a admissibilidade pedido. Para que um capítulo seja devolvido, é
de recursos especiais. necessário impugná-lo; caso contrário, ele transita em
julgado. É importante que todos compreendam essa
Na comissão que trabalhou na reformulação do
dinâmica, pois ela é crucial na análise da
código, propusemos que, uma vez interposto o admissibilidade e do efeito devolutivo da apelação. As
recurso especial, o processo fosse enviado aulas continuarão até a metade do bimestre, após o
diretamente ao Tribunal Superior, onde a que será feita a transição para o professor
admissibilidade seria analisada de forma mais responsável por finalizar a matéria.
eficiente. Isso reduziria a carga de trabalho nos
tribunais inferiores e agilizaria a análise dos recursos,
já que muitos deles não são aceitos inicialmente. Essa
mudança facilitaria a justiça, permitindo que os casos AULA 4 – 29 DE AGOSTO
fossem examinados de maneira mais direta e eficaz.
Em uma situação hipotética, um juiz questiona se, É importante entender que o efeito suspensivo da
após ganhar uma apelação no tribunal, é possível apelação não decorre da simples interposição do
exigir o cumprimento dessa decisão imediatamente. A recurso, mas sim da própria possibilidade de recorrer.
dúvida gira em torno do momento em que esse Se um recurso especial for interposto, ele deverá
cumprimento pode ser requerido, especialmente passar por um juízo de admissibilidade, que é
considerando a possibilidade de interposição de examinado inicialmente pelo tribunal de origem. No
recursos superiores, como o recurso especial ou caso em questão, o tribunal decidiu que a guarda da
extraordinário, que geralmente não possuem efeito criança deveria ficar com o pai. Quando a mãe
suspensivo automático. interpõe um recurso especial, a expectativa é que a
admissibilidade desse recurso seja reavaliada.
O debate destaca que, se a parte recorrente não
solicitar o efeito suspensivo ao interpor o recurso, a A possibilidade de admissibilidade pode ser afetada
decisão pode ser executada imediatamente. No por regras como a Súmula 7, que estabelece que o
entanto, é importante lembrar que, mesmo após a Superior Tribunal de Justiça não reexamina fatos e
publicação do acórdão, a possibilidade de embargos provas, apenas questões de direito. Portanto, se o
de declaração pode influenciar essa eficácia, já que recurso se basear em reavaliações fáticas, é provável
esses embargos, embora não tenham efeito que não seja admitido. Se o recurso não for aceito, a
suspensivo, podem integrar a decisão. parte deve considerar quais medidas poderá tomar a
seguir.
O exemplo apresentado envolve a guarda de um filho.
O tribunal decide que a guarda deve ficar com o pai, e
a mãe recorre. A questão é se o pai pode retirar a
criança imediatamente. A resposta é que ele pode, Se um recurso não for admitido pelo tribunal, a parte
pois a decisão é eficaz desde a sua prolação, dado que pode recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ),
que também pode inadmitir o recurso. Essa dinâmica
os recursos não têm efeito suspensivo.
é importante para entender situações práticas
Assim, se uma decisão judicial é imediatamente eficaz relacionadas aos recursos e seus efeitos. A apelação,
e não há impedimentos legais, a parte pode exigir seu em geral, é o único recurso que, por regra, tem efeito
cumprimento, a menos que a parte recorrente solicite suspensivo. Contudo, a lei especifica que o recurso
expressamente o efeito suspensivo, impedindo a não impede a eficácia da decisão, exceto quando há
execução da decisão. Em resumo, a eficácia imediata previsão legal expressa.
da decisão permite que o cumprimento ocorra, a
menos que se estabeleçam contrariedades por meio O efeito devolutivo se refere à devolução ao juiz de
dos recursos interpostos. primeiro grau da matéria recorrida. Essa devolução
ocorre quando a parte interpõe apelação, solicitando
a reavaliação de uma decisão. Embora a terminologia
possa causar confusão, a ideia é que a questão é
A situação hipotética envolve uma apelação cujo devolvida ao sistema judiciário para ser analisada por
provimento foi negado pelo tribunal. O recurso de outro órgão jurisdicional.
apelação foi desprovido, mas isso não gera
preocupação, pois a decisão é imediatamente eficaz. Esse efeito não se limita à matéria em si, mas também
Para essa decisão, a parte pode interpor embargos de abrange os fundamentos da decisão. Por exemplo, se
declaração ou recurso especial, ambos sem efeito uma parte alegar que um réu cometeu um ato ilícito
suspensivo. Caso a parte considere que a eficácia por negligência e imprudência, e o juiz de primeira
imediata da decisão pode causar um dano irreversível, instância rejeitar ambas as alegações, ao interpor a
pode solicitar ao presidente da sessão do tribunal um apelação, a parte pode contestar apenas um dos
efeito suspensivo para esses recursos. Se não obtiver fundamentos, como a velocidade do veículo. Neste
o efeito suspensivo, pode exigir o cumprimento caso, o tribunal avaliará a questão da velocidade, mas
imediato da decisão, uma vez que os recursos cabíveis não reexaminará o fundamento da negligência, a
não possuem esse efeito. menos que tenha sido devidamente argumentado.
Assim, o efeito devolutivo permite que apenas as
partes da decisão que foram especificamente sofreu muito emocionalmente por causa de um carro,
contestadas sejam revistas. isso não justifica o pedido, pois o valor sentimental
não é considerado para fins de reparação. Por
exemplo, se o juiz nega tanto os danos materiais
quanto os morais, a parte que apela deve focar
apenas nos danos materiais, já que obteve vitória em
Se um recurso for interposto, ele deve abranger todos um dos capítulos da decisão.
os aspectos relacionados à culpabilidade e à
condenação da parte. Assim, a devolução ao tribunal Se, em apelação, a parte menciona apenas negligência
envolve não apenas a análise da matéria em si, mas e não traz à tona a questão da imprudência, isso não
também dos fundamentos que sustentam a decisão. impede que o tribunal examine a imprudência, pois
Por exemplo, se uma parte alega que o réu cometeu ambas estão interligadas no mesmo capítulo da
um ato ilícito por negligência e imprudência, e o juiz sentença. Assim, o efeito devolutivo permite uma
de primeira instância rejeita ambas as alegações, o análise completa.
tribunal deve examinar ambos os fundamentos, pois O novo Código de Processo Civil é mais abrangente
estão interligados. em sua profundidade. Ele permite que o tribunal
Segundo o artigo 13, a apelação devolve ao tribunal o analise questões prejudiciais, como a prescrição, e
conhecimento da matéria impugnada, e todas as pode até determinar a produção de provas, o que é
questões suscitadas no processo, mesmo que não um indicativo de que toda matéria discutida deve ser
tenham sido solucionadas, devem ser apreciadas pelo considerada, desde que esteja relacionada ao mesmo
tribunal. Assim, se a parte recorre afirmando que não capítulo da decisão.
estava em excesso de velocidade, o tribunal deve Quando um juiz considera que o autor da ação é
considerar todos os elementos apresentados, ilegítimo, ele não analisa o mérito da questão. Essa
inclusive a questão da negligência relacionada ao
ilegitimidade pode levar a uma decisão de carência da
estado dos pneus do veículo. ação. O juiz pode afirmar que, embora a parte tenha o
No entanto, é importante notar que, se a parte não direito constitucional de ação, ela não possui o direito
argumentou sobre um determinado aspecto durante processual de propor a demanda porque não é a parte
as contrarrazões, pode haver complicações no legítima. Assim, se o autor apela, o tribunal não deve
contraditório. Se a parte não teve a oportunidade de examinar o mérito se não houve contraditório, ou
se manifestar sobre um fundamento que não foi seja, se não houve uma contestação adequada por
claramente levantado, isso pode dificultar a parte do réu.
apreciação do caso. Por fim, se o juiz indeferir a inicial de forma liminar e
O efeito devolutivo deve ser analisado tanto em sua considerar a carência da ação, o tribunal deve
extensão quanto em sua profundidade. Se uma parte respeitar a falta de contraditório, a menos que o réu
pede a condenação por danos materiais e morais, e o tenha contestado a legitimidade do autor durante o
juiz decide a favor dos danos materiais, isso resulta processo, o que permitiria uma análise mais ampla do
em dois capítulos distintos na sentença. Cada pedido caso.
deve ser avaliado com atenção, pois a negação de um
A discussão gira em torno da legitimidade do autor
pedido não implica automaticamente na negação do para pleitear uma indenização. O juiz, ao analisar a
outro. É fundamental que a análise judicial leve em inicial e a contestação, percebe que o autor não é o
consideração todos os fundamentos e elementos legítimo proprietário do veículo e, por isso, julga o
apresentados, garantindo, assim, uma decisão justa e processo sem resolução do mérito. O tribunal, nesse
abrangente.
caso, pode examinar a questão da legitimidade, mas é
essencial que a análise tenha sido feita a partir da
inicial.
Não cabe a indenização por danos morais quando não
há prejuízo além dos materiais. Se alguém alega que Se o autor afirma ser o proprietário do carro e que
sofreu danos, o juiz deve verificar a veracidade dessa
afirmação. Caso se prove que o autor não é o dono, o considerado o legítimo proprietário do carro, mesmo
juiz declarará a ação como carecedora, pois apenas o que não tenha formalizado isso judicialmente.
proprietário pode reivindicar indenização.

O juiz precisa distinguir entre a legitimidade e o


mérito da ação. A ilegitimidade deve ser analisada à O juiz, ao analisar a inicial, pode solicitar a juntada de
luz da inicial; se o autor disser que não é o dono do documentos que comprovem a propriedade do
carro, ele não tem legitimidade para processar. Se, ao veículo. Se o autor afirma ter adquirido o carro por
contrário, o autor afirmar ser o dono e, usucapião, mas não apresenta a documentação
necessária, o juiz pode determinar que ele a junte em
posteriormente, for provado que não é, essa questão
deve ser tratada como mérito, ou seja, se ele um prazo de 15 dias, sob pena de extinção do
realmente tem ou não o direito de reivindicar. processo. Se o autor não cumprir essa determinação,
o juiz pode extinguir a ação sem julgamento de
É importante destacar que, ao julgar a legitimidade, o mérito, considerando a falta de documentação como
juiz não decide sobre o mérito. A análise da um caso de inépcia, ou seja, a inicial não está
legitimidade deve ser feita com base na relação de completa e, portanto, não atende aos requisitos
direito apresentada na inicial, sem a necessidade de legais.
uma investigação aprofundada sobre os fatos.
Portanto, o foco está na verificação da propriedade do É fundamental que o autor prove sua legitimidade
para propor a ação. A ausência de documentos que
veículo e na possibilidade do autor de pleitear a
indenização. comprovem a propriedade pode levar à conclusão de
que a inicial é inepta. O exame das condições da ação,
como legitimidade e interesse, aproxima-se da análise
do mérito, pois o juiz precisa avaliar a existência de
O exame da legitimidade do autor em uma ação de fundamentos que sustentem a demanda.
indenização depende de provas que confirmem sua
propriedade sobre o bem em questão. Se houver uma Além disso, o juiz pode conceder tutelas liminares
discussão sobre a titularidade do carro, é necessário para evitar danos ao autor enquanto o processo se
analisar a situação mais a fundo, utilizando desenrola. Essas decisões, que muitas vezes ocorrem
documentos, testemunhos e perícias. Se o autor sem a audiência da parte contrária, são consideradas
afirma ser o dono do veículo, mas não apresenta urgentes para proteger os direitos do suposto titular.
prova documental, o juiz pode solicitar que ele
emende a inicial. Caso o autor não consiga apresentar É importante que, em questões de concursos, se
a documentação, o juiz poderá considerar a ação compreenda a diferença entre o exame superficial
como carecedora e julgá-la sem resolução do mérito. (cognição sumária) e o exame profundo do mérito. O
estudo dos requisitos da apelação e outros recursos é
Se o autor alega ser o proprietário, mas não fornece essencial para a compreensão do sistema jurídico,
prova, isso pode resultar na extinção do processo. A embora nem todos os alunos tenham tido a
falta de documentação não significa automaticamente oportunidade de cursar essa disciplina.
que ele não é o dono, pois o autor poderia
argumentar que adquiriu o carro por meio de
usucapião. A posse prolongada, mesmo sem um Foi sugerido que disciplinas optativas fossem
documento formal, pode conferi-lo a propriedade. incluídas, mas defendo a importância de disciplinas
No caso de usucapião, a propriedade é adquirida após obrigatórias, como Teoria Geral dos Recursos. Sem
o cumprimento do prazo estipulado pela lei, esse conhecimento, um advogado pode se limitar a
independentemente da existência de uma sentença atuar apenas em primeira instância e não
compreender os aspectos essenciais dos recursos,
que reconheça essa propriedade. Assim, uma
sentença declaratória de usucapião apenas confirma como o efeito devolutivo.
um direito que já existia, pois a regra geral é que a É fundamental lembrar que a apelação deve ser
propriedade se adquire por registro ou por usucapião. interposta dentro do prazo de 15 dias, que não é
Portanto, uma vez cumprido o prazo, o autor já é
contado em dias úteis, podendo levar de 20 a 25 dias, recorrer. Portanto, o apelante deve ter um interesse
dependendo do calendário. A legitimidade para legítimo, ou seja, uma possibilidade de obter uma
recorrer à apelação é restrita às partes do processo, decisão mais favorável no segundo grau.
mas também pode incluir terceiros prejudicados cuja
situação jurídica seja impactada pela decisão, mesmo Assim, se o juiz concedeu um valor inferior ao
que não tenham participado do processo. solicitado, o apelante pode recorrer, pois há a
possibilidade de melhorar sua situação. É importante
No que diz respeito aos consórcios, existe uma também estar ciente de que existem requisitos
distinção entre consórcio necessário e facultativo. O adicionais que podem não ser comuns, mas que são
consórcio é necessário quando a decisão afeta a relevantes para a análise do recurso.
esfera jurídica de alguém que deveria ter sido parte
do processo. Por exemplo, em uma obrigação
solidária, um credor pode processar um dos Um requisito importante, embora pouco comum, na
devedores, e os outros podem intervir no processo, apelação é a inexistência de fatos impeditivos ou
seja de forma necessária ou facultativa. extintivos ao direito de recorrer. Por exemplo, se uma
A prescrição e a decadência são conceitos sentença de curatela for proferida e o autor
importantes. A prescrição impede a exigibilidade de posteriormente manifestar concordância com essa
um direito, mas não extingue a obrigação em si. decisão, isso pode ser considerado um fato extintivo
do direito de apelação. O mesmo se aplica ao
Assim, uma obrigação pode ser cumprida
voluntariamente mesmo após a prescrição, mas o pagamento espontâneo de uma obrigação, que
devedor não poderá exigir devolução de valores impede a interposição do recurso.
pagos, pois a obrigação ainda existe, mesmo que não Além disso, é importante destacar que negócios
seja mais exigível. Essa distinção é crucial para a jurídicos processuais podem resultar na extinção do
prática jurídica. processo sem julgamento de mérito. Por exemplo, as
partes podem acordar em não interpor recurso contra
uma decisão. Essa renúncia ao direito de recorrer é
A prescrição afeta a exigibilidade da pretensão, um fato impeditivo, enquanto a aceitação da
enquanto a decadência atinge o próprio direito. Em sentença, após sua prolação, é um fato extintivo do
uma situação de solidariedade entre três devedores, o direito de apelação.
autor pode propor a ação apenas contra um deles, e
os outros dois podem intervir no processo, pois a Se uma parte renuncia ao direito de recorrer antes da
decisão afetará sua esfera jurídica. Contudo, a sentença, isso constitui um fato impeditivo. Por outro
condenação dos co-devedores só poderá ocorrer se lado, se concorda com a sentença após sua prolação e
eles participarem do processo antes da sentença. Se ainda interpõe recurso, isso extingue o seu direito de
recorrer. Assim, a diferença entre renúncia e
não intervierem, poderão apresentar recurso
posteriormente como terceiros interessados. aceitação está no momento em que cada ato é
realizado.
O Ministério Público pode atuar em processos civis
apenas em situações previstas em lei, geralmente A questão do recurso adesivo também é relevante. Se
uma parte renunciou ao direito de recorrer e a outra
quando há interesse público, como na defesa de
incapazes. Nesse contexto, ele atua como um parte interpôs apelação, a parte que renunciou pode,
representante dos interesses do incapaz e não pode em teoria, interpor um recurso adesivo. O recurso
contestar decisões que favoreçam essa parte. adesivo ocorre quando uma parte que não tinha mais
direito de recorrer se aproveita da interposição de um
Para que uma apelação seja conhecida, é necessário recurso pela parte contrária para manifestar seu
observar alguns requisitos: a legitimidade das partes, próprio interesse.
a tempestividade da interposição, a apresentação do
preparo, salvo exceções de isenção, e o interesse na Esse recurso é importante porque pode ampliar a
reforma da decisão. O interesse é fundamental; se a possibilidade de discussão e modificar a sentença,
decisão foi favorável ao apelante, não faz sentido garantindo que a parte que renunciou inicialmente
tenha a oportunidade de apresentar suas O parágrafo 4 do artigo em questão permite que, após
considerações e, possivelmente, obter um resultado a instrução e o contraditório, se o juiz verificar e
mais favorável. Portanto, o recurso adesivo surge decretar a prescrição, o tribunal possa examinar
como uma possibilidade de reviver o direito de outras questões de mérito. Isso se relaciona ao que o
recorrer diante de uma nova situação processual. artigo 485 já estabelece sobre os casos em que o juiz
não resolverá o mérito. Assim, mesmo que o juiz não
tenha analisado integralmente o mérito, se ele já se
O atual Código de Processo Civil trouxe mudanças manifestou sobre parte dele, o tribunal pode avaliar
significativas em relação aos recursos, incluindo a as demais questões relevantes.
extinção de modalidades anteriores, como o agravo Embora o artigo mencione essa possibilidade, a
retido do Código de 1973. Agora, o agravo de questão central é se o tribunal poderia agir dessa
instrumento apresenta um rol taxativo de decisões forma independentemente de tal disposição. A
agraváveis. É fundamental que os estudantes
resposta é que, pelo princípio do efeito devolutivo, o
compreendam o efeito devolutivo da apelação, que tribunal já teria a competência para examinar o
foi ampliado, permitindo que o tribunal analise mérito, desde que houve contraditório e prova em
questões que o juiz de primeira instância não relação a esses aspectos.
examinou, desde que tenha havido contraditório.
Além disso, é importante destacar que o artigo 104
No entanto, essa ampliação do efeito devolutivo
permite que questões fáticas não levantadas em
gerou críticas, uma vez que pode ser vista como uma primeira instância possam ser analisadas em apelação,
supressão de instância, retirando do juiz de primeira desde que a parte demonstre que não o fez por
instância a oportunidade de decidir sobre questões motivo de força maior. Um exemplo de força maior
importantes do mérito. Alguns processualistas seria uma parte que, devido a um acidente grave, não
defendem que isso prejudica as partes ao suprimir o
conseguiu interpor o recurso. Na próxima aula,
duplo grau de jurisdição, um direito considerado abordaremos o agravo de instrumento, introduzindo
constitucional por muitos. O Código, por sua vez, suas noções básicas.
reconhece essa supressão em situações muito
específicas, onde algumas decisões são irrecorríveis.

Uma atenção especial deve ser dada ao parágrafo 4


do artigo 13, que menciona que, ao reformar a
sentença que reconhece decadência ou prescrição, o AULA 5 – 12 DE SETEMBRO
tribunal deve julgar o débito sem remeter o processo Na aula de hoje, vamos examinar o agravo de
ao juiz de primeira instância, se possível. Isso levanta instrumento, continuando a discussão sobre os atos
uma crítica sobre a diferença entre os parágrafos 3 e 4 do juiz em primeiro grau. Os principais tipos de atos
do mesmo artigo. Enquanto o parágrafo 3 exige que o são: despacho, decisão interlocutória e sentença. O
processo esteja em condições de imediato despacho é um ato que visa organizar o processo, não
julgamento, o parágrafo 4 usa a expressão "se possuindo conteúdo decisório, enquanto a decisão
possível", indicando uma exigência menor em relação interlocutória e a sentença possuem tal conteúdo e
à maturidade da causa. Essa distinção sugere que a decidem questões relevantes.
situação processual do parágrafo 4 não precisa estar
tão desenvolvida quanto a do parágrafo 3, levantando A decisão interlocutória se refere a aspectos
questões sobre a efetividade e a justiça no processuais, que não estão diretamente ligados ao
julgamento. mérito do processo. O mérito, por sua vez, é a análise
do objeto da lide, que é a disputa entre as partes.
Quando uma das partes não está satisfeita com a
resolução de um conflito, ela pode recorrer ao
Judiciário, exercendo seu direito de ação, que é uma
garantia constitucional.
O juiz, ao julgar a lide, trata do mérito e toma uma condenação que requer a continuidade do processo
decisão. Contudo, se ele identifica a falta de algum para garantir o pagamento coercitivo.
requisito essencial para a ação, como a legitimidade
Portanto, a extinção do processo não é uma regra
ou o interesse, ele pode proferir uma decisão
interlocutória que determina a extinção do processo, geral; ela pode ocorrer em determinadas situações,
mas não encerra o mesmo. Isso porque o processo mas se a parte não cumprir a decisão, o processo
pode continuar, especialmente quando a parte prossegue para garantir a execução da sentença. Em
vencida não cumpre a sentença, o que pode exigir a resumo, mesmo que o juiz não examine o mérito, ele
pode decidir extinguir o processo, mas isso não
fase de execução.
significa que o processo esteja necessariamente
Dessa forma, é fundamental entender que as decisões encerrado, especialmente quando há condenações a
interlocutórias abordam questões processuais e serem cumpridas.
podem impactar o desenvolvimento do processo,
enquanto a sentença é que efetivamente resolve o
mérito da lide. O juiz, antes de prosseguir com o saneamento do
processo, deve decidir as questões levantadas na
contestação, que não se relacionam diretamente ao
mérito. Se ele acolher uma alegação de natureza
processual que impeça o julgamento do mérito, essa
Após proferir uma sentença, que pode ou não julgar o
decisão será considerada uma sentença e encerrará a
mérito da questão, o juiz pode ainda necessitar do fase cognitiva do processo.
prosseguimento do processo para garantir que a
decisão seja cumprida. Por exemplo, se um juiz Caso o juiz rejeite a alegação de ilegitimidade do réu,
condena uma parte a pagar R$ 10.000, e essa parte por exemplo, ele deverá prosseguir com a fase
não cumpre a decisão, inicia-se uma nova fase do instrutória, que faz parte da fase cognitiva do
processo, a fase de cumprimento de sentença, que processo. A rejeição da alegação é uma decisão
busca garantir a execução da decisão de forma interlocutória, pois não encerra o processo, mas
coercitiva. permite que ele avance.

Um ato judicial pode decidir o mérito da lide, que é a É importante destacar que as questões processuais,
controvérsia principal, ou não. Se o juiz acolhe uma como legitimidade de parte ou competência do juiz,
alegação de ilegitimidade de parte, por exemplo, ele não estão diretamente relacionadas ao mérito da
não resolve a questão do mérito, mas profere uma ação. Se um réu alegar que o juiz é incompetente para
sentença que extingue o processo. Assim, mesmo que julgar o caso, ele deve apresentar essa alegação de
não tenha analisado o mérito, o juiz pode encerrar o forma adequada, pois a incompetência relativa pode
processo se acolher certas alegações. ser prorrogada se não for alegada no momento certo.

Durante o desenvolvimento do processo, várias Se o juiz reconhecer a sua incompetência, seja por
questões podem surgir, como a alegação de alegação do réu ou de ofício, ele não extinguirá o
legitimidade ou incompetência do juiz. Após analisar processo, mas determinará que este seja
essas questões, o juiz pode proferir uma decisão que encaminhado ao juiz competente. Caso o segundo juiz
saneia o processo. Se a alegação de ilegitimidade for também negue a sua competência, a questão poderá
acolhida, o juiz extingue o processo; caso contrário, ser levada ao tribunal para resolução.
ele poderá seguir com a análise do mérito.

Se uma sentença condena o autor ao pagamento de


honorários advocatícios e esse pagamento não é
realizado, a parte pode exigir o cumprimento dessa
obrigação através de um processo de execução. Nesse
caso, o processo não é extinto, pois ainda há uma O conflito de jurisdição pode ser classificado como
positivo ou negativo. O conflito positivo ocorre
quando dois juízes se consideram competentes para O novo código instituiu um mecanismo que exige a
julgar o mesmo caso, embora essa situação seja resolução da questão da desconsideração antes de
bastante rara. Em geral, o que se observa é o conflito um terceiro ser admitido como réu no processo,
negativo, que se dá quando nenhum juiz se considera garantindo assim o contraditório e a ampla defesa. As
competente. decisões interlocutórias relacionadas a esses
incidentes podem ser objeto de agravo.
Quando um juiz decide acolher ou rejeitar uma
alegação de incompetência, ele profere uma decisão Além disso, outras hipóteses de agravo incluem a
interlocutória, que não encerra a fase cognitiva do rejeição do pedido de gratuidade da justiça e a
processo. Esse tipo de decisão pode ser objeto de exclusão de consortes, que diz respeito à legitimidade
recurso por meio de agravo de instrumento. de um dos participantes em um processo. Se surgirem
questões sobre a legitimidade, o juiz pode excluir um
O artigo 105 do Código de Processo Civil estabelece as consorte, mas isso não encerra o processo, apenas a
hipóteses de decisões interlocutórias passíveis de
fase cognitiva.
agravo. Uma dessas hipóteses inclui decisões que
versam sobre o mérito do processo, o que pode O processo pode se estender por muitos anos no
parecer contraditório, já que as decisões Brasil, e o que se discute aqui é a dinâmica dessas
interlocutórias geralmente tratam de questões decisões. A admissão ou inadmissão de intervenção
processuais. No entanto, a legislação permite que o de terceiros também é uma questão relevante. Um
juiz julgue o mérito de forma parcial, sem encerrar a terceiro interessado pode solicitar sua inclusão no
fase cognitiva do processo. processo, argumentando que o resultado pode afetá-
lo de forma favorável ou negativa. A figura do terceiro
Além disso, existem outras situações em que cabe interessado é fundamental para garantir que todos os
agravo de instrumento, como na rejeição de afetados por uma decisão judicial possam ser ouvidos.
alegações de convenção de arbitragem e em
incidentes de desconsideração da personalidade
jurídica. Este último se refere ao fenômeno em que,
em determinados casos, a personalidade jurídica de No contexto processual, existem diferentes formas
uma empresa pode ser desconsiderada para que se pelas quais terceiros podem participar de um
acesse o patrimônio pessoal dos sócios, processo. Uma dessas formas é a assistência, onde um
terceiro se apresenta para defender seus interesses.
especialmente em situações que envolvem fraude.
Além da assistência, há outras modalidades de
A desconsideração da personalidade jurídica é uma intervenção, como a denunciação da lide. Neste caso,
ferramenta legal que permite responsabilizar os um terceiro é chamado para integrar a relação
sócios por dívidas da empresa quando se verifica que processual, especialmente quando ele pode ser
a autonomia entre a pessoa jurídica e os sócios foi responsável por uma obrigação que está sendo
utilizada de forma indevida. Assim, em determinadas discutida.
circunstâncias, os sócios podem ser responsabilizados
pelas obrigações da empresa. A denunciação da lide é um mecanismo que permite
que a parte condenada chame um terceiro ao
processo, para que ele possa responder por uma
obrigação que, em última análise, poderá ser dele.
As decisões sobre a desconsideração da personalidade Isso se relaciona ao direito de regresso, onde a pessoa
jurídica visam permitir que uma dívida de uma pessoa condenada tem o direito de buscar o ressarcimento
jurídica seja respondida por seus sócios, de quem realmente deveria responder pela dívida.
especialmente quando se alega que houve fraude. Se
o juiz acolhe essa alegação, ele desconsidera a Outro conceito importante é o chamamento ao
autonomia da pessoa jurídica e autoriza que o sócio processo. Isso ocorre quando, em uma obrigação
seja incluído no processo. Antes da entrada em vigor solidária, um credor pode convocar todos os
do Código de 2015, essa inclusão era feita sem um codevedores para que respondam juntos pela dívida.
incidente prévio, o que violava o direito de defesa do Dessa forma, se um dos devedores não pagar, o
sócio, que se tornava réu sem ser ouvido.
credor pode exigir o pagamento da totalidade da para a parte. Essa abordagem é conhecida como
dívida de qualquer um dos codevedores. taxatividade mitigada.

Por fim, a concessão ou revogação do efeito


suspensivo em embargos à execução é uma hipótese
que permite que a execução de uma sentença seja O Código de Processo Civil de 2015 introduziu o
suspensa até que o mérito da questão seja julgado. princípio da instrumentalidade do processo, que
Isso significa que, ao solicitar efeito suspensivo, o enfatiza a finalidade do processo em resolver o mérito
devedor busca impedir que a execução avance até das ações, em vez de se perder em questões
processuais. Este princípio é frequentemente
que a disputa sobre a obrigação seja decidida.
discutido e, embora alguns ainda o questionem, ele
reflete a ideia de que o foco do processo deve ser o
julgamento das questões substantivas.

Outro princípio relevante é o da primazia do


Os embargos à execução são um recurso utilizado
julgamento de mérito, que é uma evidência da
pelo executado para contestar a legitimidade da natureza do processo, já que seu objetivo principal é
cobrança de um crédito. Embora esses embargos chegar a uma decisão sobre o conteúdo da ação, em
sejam apresentados no âmbito do processo de vez de apenas analisar aspectos processuais. Contudo,
execução, eles possuem uma natureza cognitiva, pois historicamente, muitos processualistas têm se
o juiz deve analisar se o título é válido e se a dívida
concentrado em extinções de ações sem um
realmente existe. O objetivo principal dos embargos é julgamento de mérito, o que é uma crítica à prática
discutir a existência do crédito. processual.
Embora os embargos normalmente não tenham efeito Dentro desse contexto, a taxatividade mitigada,
suspensivo, o embargante pode solicitar ao juiz que reconhecida pelo Superior Tribunal de Justiça, permite
conceda essa suspensão, impedindo que a execução
que algumas decisões, embora não explicitamente
prossiga até que os embargos sejam julgados. Se o juiz mencionadas no rol do artigo 105, possam ser
concordar com o pedido, isso pode ser contestado por passíveis de agravo. Isso ocorre especialmente em
meio de um agravo, já que se trata de uma decisão situações que envolvem decisões repetitivas, onde
interlocutória. uma tese jurídica é estabelecida e se torna vinculante
Além disso, a redistribuição do ônus da prova é um para os demais juízes.
aspecto importante. O ônus da prova refere-se à Por exemplo, se um juiz rejeitar uma alegação de
obrigação de uma parte demonstrar a veracidade das incompetência, essa decisão normalmente não está
alegações feitas no processo. O autor, ao propor a listada como passível de agravo. No entanto, é
ação, tem o ônus de provar o fato constitutivo de seu possível argumentar que a questão da incompetência
direito. Se o réu contesta, ele pode não apenas negar
deveria ser abrangida pela mitigação, considerando os
o fato, mas também apresentar fatos novos que potenciais danos irreparáveis que uma decisão
modifiquem ou extingam a exigibilidade da ação. incorreta poderia causar. A rejeição de uma alegação
Nesse caso, o ônus da prova se inverte, cabendo ao de incompetência pode ser crítica, pois, se o juiz
réu demonstrar a inexistência do fato constitutivo.
continuar a conduzir o processo, a parte que fez a
As decisões que envolvem a inversão do ônus da alegação pode perder a oportunidade de contestar
prova podem ser objeto de agravo. O legislador essa decisão posteriormente.
estabelece um rol de situações passíveis de agravo, Assim, a discussão sobre a viabilidade de agravar
mas esse rol não é exaustivo. O Superior Tribunal de decisões que não estão expressamente no rol legal é
Justiça adota a interpretação de que a lista não é
complexa e merece atenção, especialmente quando
taxativa, permitindo a possibilidade de agravos em se considera o impacto que essas decisões podem ter
situações não explicitamente mencionadas, sobre as partes envolvidas.
especialmente quando há risco de danos irreparáveis
A discussão gira em torno da possibilidade de recorrer O presidente do tribunal é responsável pela análise da
de decisões judiciais que não estão explicitamente admissibilidade de recursos, como os especiais e
previstas no rol de situações passíveis de agravo. extraordinários. Caso ele negue a admissibilidade, a
Quando um juiz rejeita uma alegação de decisão pode ser contestada por meio de um agravo,
incompetência, por exemplo, essa decisão, segundo a que deve ser dirigido a um órgão superior, como o
legislação, não pode ser contestada por meio de Superior Tribunal de Justiça ou o Supremo Tribunal
agravo, uma vez que não foi incluída no rol de Federal. Essa é uma das situações em que cabe agravo
recursos disponíveis. Assim, se uma parte não contra a decisão do presidente da sessão, que é
recorreu imediatamente, pode se ver em uma comum em tribunais como o de São Paulo.
situação complicada anos depois, caso o tribunal
reconheça que o juiz realmente não tinha Além disso, o relator, a quem o recurso foi distribuído,
competência. também pode decidir sobre a admissibilidade de
forma monocrática. Isso pode ocorrer tanto em
A questão se torna ainda mais problemática quando recursos de apelação quanto em recursos especiais ou
se considera que, após cinco anos de processo, um extraordinários. O relator tem a competência de
tribunal pode anular as decisões tomadas, o que resolver a admissibilidade e, em casos excepcionais,
representa um grande prejuízo. Nesse contexto, o até o mérito do recurso.
conceito de taxatividade mitigada gera incertezas,
Na prática, muitos relatores evitam decidir
pois permite interpretações amplas e depende da
análise do caso concreto. O Superior Tribunal de monocraticamente sobre a inadmissibilidade, pois isso
Justiça já indicou que o rol de situações passíveis de costuma gerar agravos internos que serão
agravo não é exaustivo, complicando ainda mais a reexaminados por um colegiado. Para evitar essa
prática processual. duplicidade de decisões e a prolongação do processo,
muitos preferem não analisar o mérito
Além disso, as decisões interlocutórias, que não individualmente e deixar que a decisão seja tomada
encerram a fase cognitiva do processo, são pelo órgão colegiado. O agravo de instrumento, que
frequentemente passíveis de agravo de instrumento. se refere a decisões interlocutórias de primeiro grau,
Essas decisões podem tratar de matérias processuais agora é interposto diretamente ao tribunal,
ou mesmo questões relacionadas ao mérito, mas o eliminando a necessidade de que o juiz de primeira
importante é que não finalizam o processo. O instância decida sobre a admissibilidade. Isso
legislador também permite que certas decisões sejam simplifica o processo e evita a transferência de
tomadas monocraticamente, ou seja, por um único responsabilidade ao juiz de primeira instância.
magistrado, especialmente em relação à
inadmissibilidade de recursos.

A inadmissibilidade de um recurso se refere à falta de


requisitos essenciais, como tempestividade e O código manteve a estrutura anterior em relação ao
legitimidade, enquanto o não seguimento se relaciona recurso especial e ao extraordinário, estabelecendo
a decisões específicas em recursos especiais ou que esses recursos devem ser interpostos
extraordinários. Para interpor esses recursos, é diretamente no tribunal, evitando a análise prévia na
necessário seguir uma técnica processual específica e instância inferior. No entanto, essa abordagem foi
dirigir o pedido ao tribunal competente. rejeitada pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo
Portanto, o sistema processual enfrenta desafios com Supremo Tribunal Federal, que insistem em que a
a taxatividade das decisões e a clareza em relação aos admissibilidade deve ser analisada na origem. Essa
estrutura é considerada necessária para evitar um
recursos disponíveis, demandando uma análise
cuidadosa das situações em que os direitos das partes acúmulo excessivo de processos.
podem ser afetados. Atualmente, há um grande número de funcionários
dedicados à análise de recursos especiais e ordinários
nos tribunais, o que poderia ser otimizado se essa
responsabilidade fosse concentrada no Superior
Tribunal de Justiça. Muitas decisões de Tribunais de Justiça e pelos Tribunais Regionais
admissibilidade são genéricas e poderiam ser melhor Federais. Essas instâncias analisam recursos
tratadas com a centralização desse trabalho. Embora relacionados às sentenças e decisões interlocutórias.
a legislação tenha tentado eliminar a análise de
admissibilidade na origem, essa proposta foi revogada Para garantir a harmonização do sistema nacional,
rapidamente, restabelecendo a necessidade de que os existem dois órgãos de cúpula: o Superior Tribunal de
recursos sejam inicialmente analisados nos tribunais Justiça (STJ) e o Supremo Tribunal Federal (STF). O STJ,
inferiores. em regra, examina normas infraconstitucionais,
enquanto o STF se ocupa de matérias constitucionais.
Por fim, foi informado que a próxima aula está É importante destacar que não há uma sobreposição
marcada, assim como uma prova intermediária para o de competências entre eles, pois cada um atua em
dia 3 de outubro. esferas distintas, embora ambos estejam
subordinados à Constituição.

A Constituição Federal define a composição e as


competências do STF e do STJ, indicando as matérias
AULA 6 – 19 DE SETEMBRO que cada tribunal deve julgar. Embora a Constituição
trate da competência, ela também estabelece os
O professor anterior abordou os recursos instrumentos que esses tribunais utilizarão para
infraconstitucionais, como os embargos de declaração resolver as questões apresentadas. Dentro desse
e o agravo de instrumento, e, ao que tudo indica, contexto, temos três grandes recursos constitucionais:
estava prestes a discutir a apelação. Nesta aula, será o recurso extraordinário, o recurso especial e o
tratada a parte relacionada aos recursos para os recurso ordinário.
tribunais superiores, focando nos recursos
constitucionais.

Esses recursos possuem regulamentação básica na A escolha dos nomes dos recursos no direito
Constituição Federal, o que é importante destacar. processual brasileiro apresenta uma certa falta de
Quando mencionamos tribunais superiores, é comum rigor científico. Na teoria geral dos recursos, é comum
associá-los ao Supremo Tribunal Federal, que julga classificar os recursos em extraordinários e ordinários.
questões constitucionais, e ao Superior Tribunal de Os recursos extraordinários estão previstos na
Justiça, que se dedica a matérias federais Constituição, enquanto os ordinários são regulados
infraconstitucionais. Contudo, essa visão não é por leis infraconstitucionais. Essa classificação,
totalmente precisa, pois o nosso sistema permite que embora tradicional, pode causar confusão,
esses tribunais também decidam sobre outras especialmente porque a Constituição Federal
matérias, não restritas apenas ao direito. apresenta um recurso denominado "ordinário", que,
apesar do nome, está previsto na própria
Ademais, muitos recursos são regulados pela Constituição.
Constituição, e essa estrutura pode parecer ilógica,
pois classifica os recursos não apenas pela sua Historicamente, até a Constituição de 1967, existia
matéria, mas pela intenção de regular a atuação dos apenas o recurso extraordinário, que concentrava
tribunais superiores. Para uma melhor compreensão toda a interpretação da norma constitucional e da
do sistema, é útil dividir a justiça em dois grandes legislação federal no Supremo Tribunal Federal. Com a
grupos: a justiça estadual, focando na justiça comum. Constituição de 1988 e a criação do Superior Tribunal
de Justiça, houve uma divisão desse recurso: o recurso
extraordinário continuou a ser vinculado ao Supremo,
focando em questões constitucionais, enquanto o
A justiça brasileira é composta pela justiça comum
recurso especial passou a tratar de matérias federais
estadual e pela justiça comum federal. Em ambas,
infraconstitucionais.
existe um primeiro e um segundo grau: o primeiro
grau abrange as decisões proferidas pelos juízes, Em relação ao recurso ordinário, sua compreensão é
enquanto o segundo grau é representado pelos facilitada pelo nome utilizado no regimento interno
do Supremo Tribunal Federal, que o denominava Essa situação ilustra um ponto interessante sobre a
"apelação para Tribunal Superior". Assim, o recurso competência jurisdicional em casos que envolvem
ordinário, como mencionado na Constituição, pode estados estrangeiros ou organismos internacionais.
ser entendido como uma forma de apelação para o Quando há uma demanda entre um estado
Superior Tribunal de Justiça ou para o Supremo estrangeiro e uma pessoa física ou jurídica brasileira,
Tribunal Federal, em determinadas circunstâncias, a cabe recurso ordinário ao Superior Tribunal de Justiça.
partir de decisões de primeiro grau. Essa função se A questão que se coloca é quem é o competente para
assemelha à apelação prevista no Código de Processo julgar essa demanda em primeiro grau.
Civil, que permite a interposição de recursos a
tribunais superiores. Por exemplo, imagine que um dos senhores é
proprietário de um imóvel alugado para uma
embaixada. Se essa embaixada não paga o aluguel, a
dúvida é: quem julga essa questão? A resposta é que
Alguém poderia questionar qual é a diferença entre o
o juiz federal de primeiro grau é competente. Se o
recurso ordinário e os recursos especial e caso envolvesse um município brasileiro e um estado
extraordinário, já que ambos são direcionados ao estrangeiro, o julgamento caberia ao STJ. Essa
Superior Tribunal de Justiça e ao Supremo Tribunal configuração foi mantida desde a Constituição de
Federal. Em muitos casos, o recurso ordinário é 1967 e repetida na de 1988, o que pode causar
utilizado após uma ação originária em um tribunal,
estranhamento, pois não há menção ao Tribunal
resultando em um acórdão. É importante notar que, Regional Federal (TRF) nesse contexto.
embora o recurso ordinário não seja nem especial
nem extraordinário, ele é caracterizado por permitir o A criação do STJ trouxe algumas confusões,
exame de matérias de fato, enquanto os outros especialmente em relação à divisão de competências.
recursos normalmente se restringem a questões de Por exemplo, no direito do trabalho, há conflitos de
direito. competência entre juízes do trabalho e juízes
estaduais. A lógica sugeriria que um tribunal superior,
A escolha dos termos "ordinário", "especial" e como o STF, deveria decidir esses conflitos, mas, na
"extraordinário" tem um propósito legislativo. O prática, essa responsabilidade recai sobre o STJ.
recurso ordinário foi concebido para permitir uma
análise mais abrangente, incluindo a possibilidade de Dessa forma, a organização do sistema processual não
reexaminar provas. Isso reflete a intenção da se ajustou perfeitamente às novas estruturas criadas,
Constituição de reconhecer que esses tribunais não como o STJ, que não contemplou adequadamente a
atuam apenas como instâncias de revisão jurídica, dinâmica das competências. Isso resultou em um
mas também examinam questões fáticas. modelo que, embora tenha sido importante para a
criação de um tribunal superior, deixou lacunas e
Além disso, a Constituição Federal também
inconsistências na aplicação da legislação,
regulamenta recursos internos dentro do Superior especialmente em casos que envolvem jurisdição
Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal, internacional e questões de direito comparado.
que não estão necessariamente relacionados ao
Código de Processo Civil, mas são igualmente
relevantes.
A criação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) foi um
Por fim, a Constituição trouxe um artigo específico rearranjo político mais do que uma resposta a
que estabelece que o recurso ordinário deve ser necessidades práticas. Na época, havia a percepção de
aplicado em casos que envolvam partes como estados que não fazia sentido manter apenas 11 ministros
estrangeiros ou organismos internacionais em litígios responsáveis por toda a interpretação da Constituição
com municípios ou pessoas domiciliadas no Brasil. e das leis federais, uma situação considerada inviável.
Essa inclusão pode parecer complicada, mas serve Por isso, foi estabelecida a necessidade de um novo
para esclarecer situações em que a jurisdição dos tribunal que pudesse lidar com essas questões de
tribunais superiores é requerida. forma mais eficiente.
Os primeiros ministros do STJ eram, em sua maioria, relatos monocráticos são mais comuns. Apesar disso,
desembargadores estaduais, uma vez que não decisões de relatores no STJ e no STF têm se tornado
existiam tribunais regionais federais na época. A mais frequentes do que decisões colegiadas.
composição inicial do STJ, que contava com 33
ministros, foi marcada por um desequilíbrio, já que Outro recurso relevante é o embargos de divergência,
havia 27 ministros oriundos do Tribunal Federal de que têm um papel crucial na uniformização da
Recursos, o único tribunal de segundo grau da Justiça interpretação das leis federais. O STJ é dividido em
Federal em Brasília. Os outros seis ministros eram turmas que podem interpretar a mesma norma de
maneiras distintas. Quando isso ocorre, os embargos
advogados e desembargadores estaduais, o que
refletia um rearranjo político em busca de um suposto de divergência são utilizados para harmonizar essas
equilíbrio entre a Justiça Federal e a Justiça Estadual. interpretações. Esse recurso é de grande importância
para a coerência do sistema, embora esteja regulado
É importante notar que, na primeira posse do STJ, os pelo CPC, não pela Constituição.
27 ministros provenientes do Tribunal Federal de
Recursos tomaram posse no mesmo dia, enquanto os Vale ressaltar que qualquer modificação nos
outros ministros se juntaram ao tribunal no dia parâmetros de cabimento desses recursos exigiria
seguinte. Isso ocorreu para garantir que a presidência uma emenda constitucional, um processo que pode
do STJ fosse ocupada por membros da Justiça Federal, ser desafiador. Por exemplo, se um recurso especial
for julgado pela terceira turma e houver uma
dado que a antiguidade na função determinava que os
primeiros presidentes fossem sempre da esfera divergência em relação à interpretação feita pela
federal. quarta turma, essa questão é levada à segunda sessão
do STJ, que abrange ambas as turmas. Essa dinâmica
Dessa forma, a estrutura inicial do STJ estava destaca a complexidade do sistema e a necessidade
fortemente influenciada por questões políticas e pela de mecanismos que garantam a uniformidade nas
urgência de reorganizar o sistema judiciário, decisões.
refletindo um cenário em que as prioridades práticas
estavam subordinadas a rearranjos institucionais. Vamos imaginar que estou considerando a
divergência entre a terceira turma e a quinta. Neste
caso, quem irá julgar é a Corte Especial, que está
acima das turmas. A primeira e a segunda turmas
Quando discutimos os recursos no âmbito dos
formam a primeira sessão, a terceira e a quarta
tribunais superiores, destacamos o recurso formam a segunda sessão, e a quinta e a sexta
extraordinário e o recurso especial, ambos formam a terceira. Acima delas, temos a Corte
relacionados ao direito infraconstitucional. O recurso Especial, composta por 21 dos 33 ministros, que não
ordinário, que é mais familiar, pode ser entendido realiza julgamentos de primeiro grau, mas atua como
como uma apelação para tribunais superiores,
um órgão especial.
funcionando de maneira semelhante às apelações que
os alunos estudaram. É importante destacar que, apesar de sua posição, a
Corte Especial pode ter ministros mais antigos que
Além desses recursos, existem outros, como os não têm atribuições de julgamento de casos comuns.
embargos de declaração, que podem ser utilizados em
Na próxima semana, o professor Oreste virá para
resposta a decisões do Superior Tribunal de Justiça concluir a discussão sobre os recursos
(STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF). Esses infraconstitucionais. Após isso, teremos a prova. Peço
embargos têm um uso mais restrito e geralmente se desculpas, mas hoje tenho minha última aula em
referem a omissões ou obscuridades nas decisões. outra turma, e após isso nos encontraremos em duas
É importante notar que o Código de Processo Civil semanas.
(CPC) ampliou significativamente os poderes dos
relatores, permitindo mais julgamentos monocráticos.
Contudo, há uma tradição no Estado de São Paulo em
que os desembargadores preferem decidir em
colegiado, ao contrário de outras regiões onde os
AULA 7 – 26 DE AGOSTO específicos, admite-se o mandado de segurança, que
deve ser utilizado de forma excepcional. Para
Hoje vamos concluir a discussão sobre os recursos que impugnar certas decisões, a ação rescisória é uma
abordamos na aula passada. Estávamos examinando
alternativa mais comum e serve para desconstituir a
os recursos disponíveis para impugnar decisões de coisa julgada. Essa ação é uma via autônoma, pois
primeiro grau de jurisdição, que incluem a apelação e requer o início de um novo processo, diferente
o agravo de decisão interlocutória. daquele em que a decisão impugnada foi proferida.
A principal diferença entre a sentença e a decisão É importante notar que os tribunais, geralmente,
interlocutória é que a sentença é a decisão final do
decidem de forma colegiada, ou seja, por um grupo
processo, que decide o mérito da questão, enquanto a de juízes. Embora existam decisões monocráticas do
decisão interlocutória trata de aspectos do processo relator, que são analisadas por uma turma julgadora,
que não envolvem a matéria principal. Por exemplo, a maioria dos recursos internos costuma ser
em um processo em que se pede indenização por
desprovida, levando advogados a preferirem esperar
danos materiais e morais, o juiz pode decidir que os o julgamento completo antes de recorrer.
danos morais são incontroversos e, portanto, julgá-los
procedentes. Esse tipo de decisão é uma decisão No antigo código, se uma decisão colegiada não fosse
interlocutória, pois não encerra o processo, mas unânime, era possível interpor um novo recurso que
decide parcialmente sobre o mérito. seria analisado por mais dois membros da corte.
Atualmente, se ocorrer divergência, a legislação exige
Embora essa decisão não trate do mérito em sua que o julgamento seja estendido, envolvendo mais
totalidade, ela ainda é uma parte importante do dois juízes, para que a decisão seja confirmada ou
julgamento. É fundamental entender que, no curso da modificada. Essa mudança visa garantir maior
fase cognitiva do processo, existem recursos consistência nas decisões judiciais.
específicos que podem ser interpostos, como a
apelação e o agravo de instrumento, que possuem
efeitos diferentes.
O dispositivo que prevê que a questão preliminar
Na apelação, por exemplo, há o efeito devolutivo, que deve ser decidida antes do mérito do recurso tem a
suspende a eficácia da decisão até que o recurso seja função de garantir que problemas que possam
julgado. Em contrapartida, o agravo de instrumento inviabilizar o julgamento sejam analisados antes de se
não possui efeito suspensivo; a decisão proferida entrar no mérito da questão. Se a preliminar for
produz efeitos imediatamente. acatada, pode levar à não consideração do recurso.

Além dos recursos, existem outras formas de Os embargos de declaração são um recurso destinado
impugnação das decisões judiciais, como o mandado a esclarecer contradições, omissões ou obscuridades
de segurança. Este, porém, é considerado um meio em decisões judiciais. Por exemplo, se uma sentença
excepcional e só pode ser utilizado em situações não abordar certos fundamentos ou apresentar
específicas e extraordinárias. Hoje em dia, as afirmações contraditórias, os embargos podem ser
situações em que se admite o mandado de segurança utilizados para corrigir esses vícios. No entanto, é
para impugnar decisões são muito raras. comum que advogados busquem embargos de
declaração como uma forma de ganhar tempo para
Em resumo, é crucial compreender a natureza dos interpor outros recursos, como recursos especiais ou
recursos e suas diferenças, além das vias processuais extraordinários, já que a interposição desses
que podem ser utilizadas para contestar decisões embargos suspende o prazo para outros recursos.
judiciais.
Na prática, muitos embargantes alegam contradições
ou omissões que, na maioria das vezes, não são
reconhecidas pelos juízes ou relatores, que costumam
rejeitar os embargos, afirmando que a decisão estava
A sentença pode ser contestada por meio de recursos clara e sem vícios. Assim, os embargos de declaração
especiais ou extraordinários, mas, em casos não servem para contestar a conclusão do juiz, mas
para esclarecer pontos que efetivamente apresentem para a parte contrária. Isso geralmente indica que a
problemas na decisão. decisão será rejeitada. Se o juiz abre prazo, há uma
esperança de que ele possa reconsiderar a decisão. É
importante que o juiz cumpra rigorosamente esse
Existem duas principais vertentes que prazo de cinco dias; caso não o faça, a alternativa é
descaracterizam a finalidade dos embargos de interpor um mandado de segurança.
declaração: o abuso desses embargos com efeito O parágrafo terceiro do artigo 1024 permite a
protelatório ou infringente e a falta de conversão dos embargos de declaração em agravo de
fundamentação adequada nas decisões que os
instrumento, se o relator entender que este é o
rejeitam. É comum que, ao analisar os embargos, o recurso adequado. Nesse caso, o relator intimará o
juiz reconheça que houve omissão ou que não recorrente para complementar as razões recursais. O
explicou um ponto de forma satisfatória, acolhendo os parágrafo quarto do mesmo artigo deve ser lido e
embargos para corrigir a decisão. No entanto, essa
discutido, pois possui uma importância específica que
descaracterização é frequente e é responsabilidade merece ser explicada.
tanto dos advogados, que muitas vezes abusam dos
embargos, quanto do poder judiciário, que não
examina adequadamente os argumentos
apresentados.
Quando há a interposição de embargos de declaração,
O Código de Processo Civil prevê que os embargos de
declaração podem ser interpostos contra qualquer se o juiz perceber que pode modificar a decisão, ele
decisão judicial, uma ampliação em relação ao código deve conceder um prazo para que a parte contrária se
anterior, que limitava essa possibilidade às sentenças. manifeste. Isso ocorre porque, mesmo que a outra
Atualmente, todas as decisões que contêm conteúdo parte já tenha interposto algum recurso, ela não pode
aguardar o julgamento dos embargos para tomar suas
decisório podem ser objeto de embargos, exceto
despachos que são considerados irrecorríveis. Se um providências. Os embargos de declaração não têm
despacho for teratológico e causar prejuízo, a opção é efeito suspensivo em relação a outros recursos,
interpor um agravo ou um mandado de segurança. exceto para o embargante, que precisa desse prazo
para interpor sua própria ação.
Os embargos de declaração têm como objetivo
Se a parte contrária já tiver interposto um recurso, e o
esclarecer obscuridades, eliminar contradições, suprir
omissões ou corrigir erros materiais em decisões juiz decidir alterar sua decisão com base nos
judiciais. Essa ferramenta processual é fundamental embargos, ele deve dar a essa parte a oportunidade
para garantir que as decisões sejam justas e claras, de se manifestar sobre a nova decisão. A possibilidade
permitindo a correção de falhas que possam de o juiz rever sua decisão em razão dos embargos é
um aspecto importante, e a concessão do prazo para
prejudicar as partes envolvidas.
a parte contrária se manifestar é fundamental nesse
contexto.

O parágrafo único do artigo menciona situações em Além disso, os embargos de declaração normalmente
que a decisão judicial pode ser considerada omissa. não conferem efeito infringente, a menos que a
No artigo 1023, o prazo para a interposição de modificação da sentença ocorra devido à eliminação
embargos de declaração é de apenas cinco dias, sendo de omissões ou contradições. Essas situações de
este o único recurso com um prazo inferior a 15 dias. alteração da decisão são extremamente raras, tendo
Nesse caso, o juiz deve intimar a parte contrária para sido vistas em casos excepcionais ao longo da carreira
se manifestar sobre os embargos no mesmo prazo de de um advogado.
cinco dias, caso o acolhimento dos embargos implique
a modificação da decisão. O parágrafo que trata da revisão da decisão pelo
relator explica que, se a parte já tiver interposto um
É comum que, quando o juiz recebe os embargos de recurso e não houver alteração, o prazo para esse
declaração, ele já decida sobre eles sem abrir prazo recurso permanece válido. Uma questão relevante a
ser considerada é o pré-questionamento. Isso se de provimento do recurso quanto o risco de danos
refere à exigência de que a matéria de direito tenha para a concessão do efeito suspensivo pretendido.
sido analisada em primeira instância, pois recursos
especiais e extraordinários não podem julgar questões
de fato, apenas questões de direito. Se a matéria foi
mencionada, mas não analisada de forma expressa na
decisão recorrida, isso pode gerar dificuldades na O texto discute a redação de dispositivos legais que
análise dos recursos. tratam da suspensão da eficácia de decisões judiciais.
A interpretação sugere que a probabilidade de
provimento do recurso é suficiente para justificar a
suspensão, mas isso pode gerar confusões, uma vez
que a redação não deixa claro que também deve
Antigamente, os tribunais superiores, como o haver risco de dano.
Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal
O parágrafo terceiro menciona que, em casos de
Federal, consideravam que se uma alegação não fosse
examinada, mas também não impugnada no recurso embargos de declaração manifestamente
especial, isso implicava que a questão não havia sido protelatórios, a multa poderá ser aplicada e a
pré-questionada. No entanto, o novo dispositivo interposição de novos recursos ficará condicionada ao
estabelece que elementos mencionados pelo depósito prévio dessa multa. Essa medida visa evitar o
uso excessivo de embargos, mesmo que não sejam
embargante para fins de pré-questionamento são
considerados incluídos no acórdão, mesmo que os necessariamente protelatórios. Se houver dois
embargos de declaração sejam inadmitidos ou embargos considerados protelatórios, novos
rejeitados. Assim, se o juiz não analisou a questão, a embargos não serão aceitos.
parte pode interpor um recurso especial, e o tribunal Além disso, é destacado que, de maneira geral,
não poderá alegar que essa questão não foi pré- nenhum recurso impede a eficácia da decisão, exceto
questionada, pois a omissão do juiz justifica a a apelação, que possui regras específicas. Essa
interposição do recurso. informação é reforçada pelo fato de que o parágrafo
Além disso, os embargos de declaração não possuem primeiro do artigo 1026 repete o que está no
efeito suspensivo e interrompem o prazo para a parágrafo único do artigo 995. Essa similaridade entre
os dispositivos legais indica que a redação do código é
interposição de outros recursos. A eficácia da decisão
pode ser suspensa pelo juiz ou relator, caso se clara e eficaz.
demonstre a probabilidade de provimento do recurso
ou a relevância da fundamentação, especialmente se
houver risco de dano grave ou de difícil reparação.

É comum que advogados solicitem efeito suspensivo A discussão aborda a eficácia das decisões recorridas,
ao interpor embargos, mas a resposta geralmente é tanto monocráticas quanto colegiadas, e a
negativa. Por isso, muitos optam por pedir possibilidade de sua suspensão. É mencionado que a
diretamente ao relator no tribunal, visando a suspensão pode ocorrer a critério do juiz ou do
concessão do efeito suspensivo em caráter relator, se houver probabilidade de provimento do
excepcional. Para isso, é necessário demonstrar a recurso ou se a fundamentação for relevante,
probabilidade de que o recurso seja provido e o risco especialmente em situações que envolvam risco de
de danos irreparáveis. dano grave ou de difícil reparação.

No caso de um juiz manter a decisão, a parte tem um Há uma interpretação que sugere que, ao falar sobre
prazo de 15 dias para apelar. Se não houver tempo, a probabilidade de provimento, o código parece
pode-se solicitar ao juiz a suspensão dos efeitos da enfatizar que o risco de dano se torna a regra
decisão até o julgamento dos embargos. Se o juiz principal. Essa distinção entre os dispositivos é
negar, a parte deve recorrer diretamente ao tribunal. importante, pois implica que, enquanto um código
É essencial que se demonstre tanto a probabilidade pode ser mais rigoroso na exigência do risco de dano,
o outro parece abrir espaço para a probabilidade de assim, o nome continua gerando confusão, o que faz
provimento como um fator suficiente. com que a compreensão do tema seja mais difícil.

Em relação aos recursos, é afirmado que a apelação é Em termos de classificação dos recursos, há os
o único que possui efeito suspensivo, e que essa recursos extraordinários, que são mais complexos e
característica é amplamente reconhecida. A conversa têm um alcance maior, e os recursos ordinários, que
também destaca que questões relevantes serão são infraconstitucionais, ou seja, previstos em
elaboradas em aulas futuras e que os alunos não legislação infraconstitucional. O problema é que o
devem se preocupar com a prova, pois aqueles que recurso ordinário, conforme descrito pela
estudam com dedicação tendem a se sair bem. Constituição, acaba causando confusão, pois a mesma
nomenclatura é utilizada para diferentes tipos de
Por fim, a interação se encerra com um convite para recursos.
futuras discussões e a disponibilidade do professor
para esclarecer dúvidas, mostrando um ambiente Outro ponto importante é que, quando falamos sobre
colaborativo e de apoio ao aprendizado. a apelação, a gravação de instrumento, ou outros
tipos de recurso, como o recurso especial, estamos
AULA 10 DE OUTUBRO nos referindo a conceitos e formas de processamento
Na aula de hoje, vamos começar a tratar dos recursos distintas, mas sob uma denominação comum. No caso
para os tribunais superiores, especificamente o do recurso ordinário constitucional, por exemplo, ele
recurso ordinário, o recurso especial, o recurso pode ter diferentes significados dependendo do
extraordinário e, por último, o recurso de embargos contexto, o que pode gerar confusão entre os alunos.
de declaração.

O professor me passou um material e, ao olhar o Tudo isso, evidentemente, acaba gerando uma
programa, percebi que deveríamos ter avançado um dificuldade maior, pois quando perguntamos sobre o
pouco mais, mas, como não sei se todos
recurso ordinário constitucional, a primeira dúvida é
acompanharam, posso dar uma breve revisão. Quanto sobre sua aplicação, pois a questão pode ser
ao programa de aula, se alguém quiser, pode complexa. Uma observação preliminar que deve ser
consultá-lo no acesso à internet da faculdade. feita é que, no caso do recurso ordinário, há uma
Lembro que, algumas semanas atrás, discutimos os distinção importante na legislação, que não apenas
recursos constitucionais. A Constituição regula os define a possibilidade de recorrer, mas também
recursos para os tribunais superiores, mas não condiciona o cabimento do recurso ao resultado da
detalha todas as formas de acesso a esses tribunais. O demanda.
acesso, na maioria das vezes, se dá por meio de Vou explicar melhor. Quando os senhores estudam o
recursos, ações diretas ou de controle. Entre esses direito processual de forma geral, aprendem que para
recursos, destacamos o recurso ordinário, também
cada decisão há um recurso cabível, com exceção de
conhecido como recurso ordinário constitucional. O alguns casos, como os recursos extraordinário e
motivo do nome é que a doutrina usa o termo especial. Se eu quiser recorrer de matéria
"ordinário" para classificar esse recurso, e ele é constitucional, o recurso cabível é o extraordinário; se
utilizado para diversas finalidades. Porém, a utilização
for de matéria infraconstitucional, o recurso especial.
do termo "ordinário" gera confusão, pois na prática No entanto, a doutrina faz uma distinção importante
existem dois recursos com a mesma denominação, entre eles, pois tratam de temas diferentes.
mas com funções totalmente diferentes.
No caso do recurso ordinário, a Constituição Federal
A confusão é ainda maior porque, no processo traz uma situação peculiar. Não se trata apenas de
trabalhista, existe um recurso ordinário que tem um
uma definição de cabimento do recurso, mas também
objetivo totalmente distinto do recurso ordinário que de uma condicionante ao resultado da demanda. Para
estamos tratando aqui. Para tentar diferenciar, ilustrar isso, vou dar um exemplo: imaginem que
chamamos um de "recurso ordinário funcional" e o entrei com um mandado de segurança no Tribunal de
outro simplesmente de "recurso ordinário". Mesmo Justiça de São Paulo contra ato de um juiz de
competência originária daquele tribunal, e a ordem foi A ideia do sistema é que o recurso ordinário só cabe
parcialmente concedida. Fiz vários pedidos, alguns nas três hipóteses mencionadas, e não em outros
foram concedidos, outros negados. Na parte que foi tipos de recursos. Esses casos envolvem ações
concedida, poderia recorrer por meio de recurso originadas diretamente de tribunais superiores.
extraordinário ou especial. Porém, na parte em que a Assim, aplicam-se as regras gerais de recursos para o
ordem foi concedida, caberia recurso ordinário. Supremo Tribunal Federal, que envolvem decisões de
colegiado. Quando falamos de julgamento de
Esse é um exemplo único no direito brasileiro, em que tribunais superiores, estamos sempre diante de uma
o direito de recorrer, ou melhor, o direito de utilizar
decisão colegiada. Isso significa que, se
uma modalidade de recurso, depende do resultado da eventualmente houver um julgamento monocrático,
demanda. Ou seja, se o impetrante perde, ele tem não cabe recurso ordinário.
direito ao recurso ordinário. Se ele ganha, a parte
contrária não terá direito ao recurso ordinário. Digo isso porque, atualmente, há uma tendência
Alguém poderia questionar que isso parece uma crescente de julgamentos monocráticos nos tribunais
diferença irrelevante, mas há uma diferença superiores. Por exemplo, em um caso de habeas
fundamental, pois o recurso ordinário permite o corpus, se o relator deferir monocraticamente a
reexame de matéria de fato, enquanto o recurso liminar, não cabe recurso ordinário. O recurso só seria
especial e extraordinário não. cabível se a decisão fosse do colegiado. Ou seja, para
recorrer, seria necessário que o colegiado se
Portanto, essa situação representa uma exceção à manifestasse, e, se a decisão do colegiado fosse
ideia de unirrecorribilidade. É a única hipótese no desfavorável, aí sim o recurso ordinário seria cabível.
direito brasileiro em que o recurso é condicionado
pelo resultado da decisão. Não se trata apenas de um Além disso, a Constituição e a legislação tratam das
recurso diferente, mas também de um recurso que hipóteses em que o recurso ordinário é cabível, como
possui um grau de abrangência distinto, permitindo o nos casos de mandado de segurança, mandado de
reexame de matéria fática. injunção ou habeas corpus, com a possibilidade de
recurso ordinário caso a ordem seja denegada. Aqui, é
A partir disso, surge a questão: quando exatamente o importante entender que a interpretação histórica do
recurso ordinário é cabível? Se analisarmos a recurso ordinário implica que, quando a ordem é
Constituição Federal, veremos que a primeira
denegada, não significa que a questão foi analisada no
hipótese de cabimento do recurso ordinário é o mérito. O conceito de “denegação” de ordem não
direcionamento para o Supremo Tribunal Federal. Ou está relacionado ao mérito do caso, mas sim ao fato
seja, o recurso ordinário pode ser interposto de a tutela ter sido negada, sem que a questão tenha
diretamente para o Supremo Tribunal Federal em sido analisada detalhadamente.
algumas situações, como nos casos de mandado de
segurança, habeas corpus e mandado de injunção Portanto, do ponto de vista histórico, quando a
originários de tribunais superiores, como o STJ, o Constituição diz que cabe recurso ordinário em caso
Supremo Tribunal Federal ou até o Superior Tribunal de denegação da ordem, não é necessário que tenha
Militar. ocorrido uma análise do mérito. A denegação pode
ocorrer por não conhecimento do mandado de
Porém, há uma limitação: o recurso ordinário só é segurança ou mandado de injunção, ou até por
cabível nessas hipóteses específicas, e não em outras questões processuais como decadência. O recurso
ações originárias de tribunais superiores. Em outras ordinário, então, seria cabível nessas situações, com
palavras, o recurso ordinário não cabe em qualquer base na interpretação sistemática do direito.
ação originária de um tribunal superior, mas apenas
nas que a Constituição prevê, como o mandado de Em relação ao recurso ordinário, a principal questão
segurança, habeas corpus e mandado de injunção que surge é que, normalmente, em mandado de
originários de tribunais superiores. segurança ou mandado de injunção, cabe liminar, e
esta liminar é julgada pelo colegiado. Caso a liminar
seja deferida ou denegada, o recurso ordinário só
seria cabível na decisão final, após o julgamento
colegiado. Se houver uma decisão parcial, como no agravo de instrumento, que seria julgado pelo TRF. No
caso de uma delegação, o recurso ordinário seria entanto, nesse caso específico, como o recurso
direcionado ao STF ou ao STJ, dependendo da ordinário já está direcionado ao Superior Tribunal de
instância competente, podendo tratar de uma parte Justiça, o entendimento que se consolidou é que o
específica da sentença ou do mandado de segurança. agravo também deve ser dirigido a esse tribunal
superior.
Outra hipótese que gera interesse é o caso em que a
decisão vem de tribunais superiores, como o Superior Essa opção por um sistema processual mais célere e
Tribunal de Justiça, em situações envolvendo um eficaz, que permite "pular" um grau de jurisdição, foi
estado estrangeiro ou uma organização internacional. adotada em situações que envolvem estados
Por exemplo, se houver uma demanda entre um estrangeiros e organismos internacionais. A
estado estrangeiro e uma pessoa física ou jurídica explicação para essa escolha foi justamente a busca
brasileira, a sentença desse caso seria passível de por uma maior efetividade no processo, evitando um
recurso ordinário para o Superior Tribunal de Justiça. nível de morosidade. O objetivo é agilizar a tramitação
Esse tipo de situação é completamente diferente, pois desses casos. A ideia é que, por algum motivo, o
a competência não é relacionada ao tipo de ação, mas sistema processual foi estruturado para ser mais
à natureza das partes envolvidas, com uma distinção rápido nesses tipos de demandas.
em relação aos casos constitucionais em que os
No entanto, alguém pode questionar essa escolha, e a
direitos individuais estão sendo protegidos.
explicação política pode ser uma alternativa. Como o
Portanto, a Constituição prevê o recurso ordinário sistema processual foi construído de forma que as
para casos em que o conflito envolve, de um lado, um demandas envolvendo Estados e organismos
estado estrangeiro ou uma organização internacional, internacionais sigam um tratamento diferenciado, o
e, do outro, uma pessoa física ou jurídica brasileira. recurso ordinário para o Superior Tribunal de Justiça é
Nessas situações, o recurso ordinário caberia ao parte desse desenho processual. A explicação pode
Superior Tribunal de Justiça. estar relacionada a uma decisão política ou uma
escolha legislativa de tornar mais eficiente o
Existem alguns aspectos interessantes nesse sistema julgamento de tais questões.
processual. O primeiro deles é que, por força da
Constituição Federal, essas demandas no direito Em relação às características do recurso ordinário, o
brasileiro tramitam perante a justiça federal. O que prazo é de 15 dias, como ocorre com a maioria dos
torna isso ainda mais curioso é que essas ações recursos no sistema processual brasileiro. O
tramitam na justiça federal em primeiro grau de procedimento é similar ao da apelação, com as partes
jurisdição. Por exemplo, se um consulado de um apresentando suas razões. No entanto, há uma
determinado país realiza uma compra e não paga, o questão importante sobre o recurso adesivo. O Código
fornecedor pode entrar com uma ação de cobrança. de Processo Civil prevê que o recurso adesivo só cabe
Essa ação será ajuizada na justiça federal, e o nas apelações. A dúvida que surge é se seria possível
julgamento ocorrerá em primeiro grau, ou seja, será aplicar a mesma lógica ao recurso ordinário. A
uma sentença de um juiz federal. doutrina, no entanto, esclarece que não cabe recurso
adesivo no recurso ordinário, porque, em casos de
Porém, uma exceção à regra geral surge nesse caso: mandado de segurança, o recurso só é cabível para a
em vez de o recurso caber ao Tribunal Regional parte que perdeu, não para a parte vencedora.
Federal (TRF), o recurso será um recurso ordinário
dirigido ao Superior Tribunal de Justiça. Ou seja, há Portanto, a parte que perdeu a demanda tem o direito
uma situação inusitada, em que o recurso "pula" um de interpor o recurso ordinário, e a parte vencedora
grau de jurisdição, o que a doutrina chama de recurso não pode recorrer. Isso exclui a possibilidade de
per saltum. Essa situação levanta uma questão recurso adesivo, que normalmente seria utilizado pela
interessante: se, por exemplo, o juiz federal proferir parte vencedora para aderir ao recurso interposto
uma decisão interlocutória, como uma tutela de pela parte contrária. A parte que tem o direito ao
urgência, o que acontece? No Código de Processo recurso ordinário é sempre a parte que perdeu.
Civil, para tutelas de urgência, normalmente caberia o
O Código de Processo Civil traz uma regra que se A devolutividade, por outro lado, é uma questão
aplica ao recurso ordinário. O artigo 1028, por importante no recurso ordinário. No caso de um
exemplo, trata das hipóteses de cabimento desse pedido, a devolutividade se refere ao que o
recurso. Ele estabelece que o recurso ordinário segue recorrente deseja que seja reexaminado, sendo uma
as mesmas regras de admissibilidade e procedimento regra geral no sistema processual. A grande diferença
da apelação, conforme o Regimento Interno do no recurso ordinário é que tanto o STJ quanto o STF
tribunal. Isso significa que, por analogia, as podem revisar a matéria de fato e de direito, algo que
disposições que se aplicam à apelação também se não ocorre no recurso especial ou extraordinário, que
aplicam ao recurso ordinário nas hipóteses em que ele possuem limitações no âmbito de revisão.
é cabível. Dessa forma, seguindo a interpretação do
colega, a admissão do recurso ordinário seria regulada Embora haja algumas limitações cognitivas, como no
pela mesma lógica que rege a apelação, com exceções caso de mandado de segurança, essas limitações não
são impostas pelo tipo de recurso, mas sim pela
nos casos específicos previstos na legislação.
própria natureza do mandado de segurança. O mais
importante a ser entendido é que, no recurso
ordinário, o STJ e o STF atuam como cortes de
Teoricamente, da sentença do juiz federal de primeiro segundo grau de jurisdição, não como cortes
grau, pouco importa quem ganha ou quem perde, constitucionais ou de revisão.
pois, nessas situações, cabe recurso ordinário para o
Superior Tribunal de Justiça (STJ). Se uma das partes Uma questão interessante a ser analisada é o artigo
recorrer, a outra, no prazo das contrarrazões, também 13, parágrafo 3º, que trata da possibilidade de
pode interpor o recurso ordinário, que se configura julgamento imediato no segundo grau, quando o
como um recurso constitucional na forma adesiva. No processo estiver em condições de ser julgado. Esse
entanto, o recurso especial não cabe nesse tipo de dispositivo permite que o tribunal de segunda
processo. O que é interessante aqui é que, ao interpor instância, ao reformar a sentença, possa decidir o
o recurso ordinário, ele pode envolver tanto matéria mérito da causa, mesmo que o juiz de primeiro grau
de fato quanto de direito, abrangendo aspectos que tenha cometido falhas. Esse julgamento pode ocorrer
normalmente seriam tratados por um recurso em nome da efetividade do processo, sem a
especial. necessidade de reenvio para o juiz de primeira
instância.
O Superior Tribunal de Justiça, nesse contexto, atua
como uma instância revisora, mas sem as limitações A explicação para isso é simples: estamos lidando com
típicas do recurso especial, como o pré- direitos e garantias individuais, e, portanto, até os
questionamento. O recurso extraordinário, por sua tribunais superiores devem poder revisar essas
vez, só cabe após a decisão do STJ. Ou seja, enquanto questões. No entanto, é necessário entender que isso
o recurso ordinário é interposto para o STJ como se aplica a um contexto específico, como em ações
instância de revisão, a partir da decisão desse envolvendo direitos fundamentais. A questão
tribunal, poderia haver a possibilidade de um recurso levantada sobre se as hipóteses se aplicam a
extraordinário ao Supremo Tribunal Federal (STF). entidades de direito público ou privado é relevante,
pois, dependendo do caso, o entendimento do STJ
Em relação ao efeito suspensivo, a regra geral é que pode variar. No entanto, como é uma situação pouco
ele estará presente no recurso ordinário, salvo frequente, a aplicação desses conceitos deve ser
exceções previstas no Código de Processo Civil ou em cuidadosamente analisada.
legislação extravagante. Um exemplo disso seria em
ações locatícias, como despejo de uma embaixada, Em relação ao entendimento do STJ, é importante
que, assim como nas locações comuns, não possuem refletir sobre a frequência com que esse tribunal lida
efeito suspensivo. Portanto, em casos em que o com questões desse tipo. Não é algo comum no
recurso ordinário não se aplica a essas situações, o cotidiano dos tribunais, e por isso não seria fácil
efeito suspensivo também não se aplica, uma vez que encontrar uma decisão que padronize completamente
a apelação nesses casos também não tem esse efeito. a abordagem. O entendimento do STJ pode, sim,
variar, e a construção de um juízo sobre a matéria exemplo. A apelação tem a finalidade de permitir à
dependerá das especificidades do caso em questão. parte vencida uma ampla revisão de fato e de direito
da decisão tomada em primeira instância, com a
Me parece lógico que, no sistema, se houver uma
possibilidade de reanálise detalhada da matéria. Já os
hipótese de reexame necessário, não há diferença se recursos extraordinário e especial não visam essa
o processo tramita na justiça federal ou na justiça revisão ampla, mas sim examinar questões específicas
estadual. O reexame necessário ocorre relacionadas à correta aplicação do direito.
independentemente da esfera, em razão da pessoa
envolvida. Ou seja, se estou na justiça federal por
Esses recursos, também conhecidos como recursos de
coincidência, porque é um organismo internacional ou sobreposição, têm a finalidade de garantir que o
um estado estrangeiro, a parte contrária continua direito, mais do que a lei, seja aplicado corretamente
tendo o direito ao reexame necessário. Se o município no caso concreto. A doutrina de Piero Calamandrei,
estivesse demandando uma pessoa comum na justiça
um renomado autor italiano, ajuda a esclarecer essa
estadual, também haveria o reexame necessário. função. Calamandrei, em sua obra clássica sobre o
A questão do reexame necessário pode se complicar recurso de cassação no direito italiano, afirmou que o
em alguns casos, especialmente em situações objetivo desse tipo de recurso era assegurar a
envolvendo municípios, devido às imunidades que integridade do direito, zelando pela correta aplicação
esses casos podem envolver. Um exemplo e pela uniformidade na interpretação das normas. No
interessante seria um estado estrangeiro que é Brasil, podemos traçar um paralelo com os recursos
proprietário de um imóvel no Brasil e se recusa a extraordinário e especial, que buscam assegurar a
pagar o IPTU. Nesse caso, a situação seria complicada, correta aplicação do direito federal e da Constituição
pois, embora o não pagamento gere embargos, o Federal.
processo envolve uma complexidade maior por conta
das questões de imunidade e as regras específicas. Esses recursos não têm a finalidade de revisar o
mérito do caso, como ocorre na apelação, mas de
Seguindo as regras da apelação, a questão do garantir que o direito seja aplicado corretamente,
reexame necessário se mantém consistente, mas assegurando a uniformidade na interpretação das leis
pode haver nuances conforme o tipo de parte federais. Essa função é essencial para o nosso sistema
envolvida. Alguma dúvida sobre isso? Caso contrário, jurídico, e foi uma preocupação desde a elaboração
nos encontramos na semana que vem. da primeira Constituição Republicana, quando se
buscou inspiração no modelo americano para a
criação de uma Corte Suprema e de um recurso para
AULA 24 DE OUTUBRO ela.
Na aula de hoje, vamos tratar dos recursos
extraordinário e especial, que são temas amplos e O recurso extraordinário, em particular, foi inspirado
importantes dentro do direito processual. Embora eu na figura do recurso utilizado nos Estados Unidos,
não tenha a intenção de examinar todos os detalhes e sendo criado para o Supremo Tribunal Federal, com a
procedimentos, abordarei aspectos fundamentais função de revisar decisões que envolvam questões
como o conceito, a função, a origem, os requisitos de constitucionais. Já o recurso especial, que surgiu com
admissibilidade desses recursos e, especialmente, a a Constituição de 1988, destina-se a revisar decisões
valoração dos precedentes, que é um tema de grande que tratam de matérias infraconstitucionais,
relevância atualmente. geralmente de direito federal.

É importante destacar que tanto o recurso A função desses recursos, portanto, é essencialmente
extraordinário quanto o recurso especial são de uniformização da interpretação e aplicação do
considerados formas extraordinárias de impugnação. direito, sem a necessidade de reanalisar os fatos do
Eles têm uma função muito específica no caso. Em termos doutrinários, essa função é chamada
ordenamento jurídico e não devem ser confundidos de "função nomofilática", que é um termo usado para
com os recursos ordinários, como a apelação, por descrever a tarefa de garantir que o direito seja
interpretado de forma uniforme. Essa função visa federais. Dessa forma, os recursos extraordinário e
assegurar que as leis sejam aplicadas de maneira especial estabelecem a possibilidade de o STF e o STJ
consistente, evitando interpretações divergentes que exercerem seus papéis como guardiões da
possam gerar insegurança jurídica. Constituição e das leis federais, garantindo que a
interpretação e a aplicação do direito sejam feitas de
O papel do Supremo Tribunal Federal (STF) é zelar maneira uniforme e consistente.
pelo respeito à Constituição, exercendo uma função
nomofilática, ou seja, sendo um "amigo" da norma, Ao analisar as hipóteses de cabimento desses
recursos, podemos compreender melhor a dinâmica
preservando-a e garantindo a uniformidade na sua
interpretação e aplicação. O Supremo é o guardião da que envolve o recurso extraordinário e o recurso
Constituição, enquanto o Superior Tribunal de Justiça especial. O artigo 102, inciso III, da Constituição,
(STJ) desempenha o papel de garantir o respeito à lei estabelece que compete ao Supremo Tribunal Federal
julgar, por meio de recurso extraordinário, causas
federal.
decididas em única ou última instância quando a
A Constituição define claramente as competências de decisão recorrida contrariar a Constituição, declarar
cada um desses tribunais. O artigo 102 estabelece que inconstitucionalidade de tratado ou de lei federal,
o Supremo Tribunal Federal é o responsável por zelar julgar válida lei ou ato de governo local contestado
pela Constituição, enquanto o artigo 105 atribui ao STJ em face da Constituição, entre outras situações. Isso
a responsabilidade pela interpretação e aplicação reforça a ideia de que o recurso extraordinário é
correta da lei federal. No caso do recurso destinado a discutir questões constitucionais de
extraordinário, o objeto de análise está relacionado à relevância para o sistema jurídico como um todo.
Constituição, e no recurso especial, à legislação
federal.
Em todas as situações discutidas, o que está em jogo é
Ao abrir os artigos 102 e 105 da Constituição, é
possível observar essas atribuições. O recurso uma questão fundamental, até mesmo na última
extraordinário, conforme o artigo 102, é cabível delas, que se refere ao artigo 102, inciso III, letra "d",
quando houver decisões em última instância que da Constituição Federal. Este dispositivo trata da
contrariem ou não apliquem corretamente a análise da validade de uma lei local contestada em
face de uma lei federal. Ou seja, temos um conflito
Constituição. Já o recurso especial, conforme o artigo
105, é cabível quando houver desrespeito ou legislativo entre a lei de uma entidade federativa,
aplicação incorreta da lei federal. como um município ou estado, e a lei federal. A
questão em debate, nesse caso, envolve a
Esse sistema de recursos extraordinários e especiais competência legislativa da entidade federativa para
não deve ser visto como uma mera instância de editar determinada norma. Portanto, mesmo nessas
apelação. O objetivo não é fazer com que o STF e o STJ situações, o Supremo Tribunal Federal atua na
se tornem um novo grau de jurisdição, mas sim preservação da Constituição, garantindo a
permitir que esses tribunais exerçam a função de uniformidade na interpretação e aplicação das
interpretar e aplicar corretamente a Constituição e a normas constitucionais.
lei federal. Calamandrei, ao tratar dos recursos de
cassação, dizia que a insatisfação da parte com a Por outro lado, o artigo 105, inciso III, da Constituição,
decisão não é apenas para atender a seu interesse, trata do recurso especial, que compete ao Superior
mas sim para servir ao sistema jurídico, permitindo Tribunal de Justiça (STJ) julgar. Esse recurso é cabível
que os tribunais exerçam o seu papel de guardiões da quando uma decisão recorrida contraria ou nega
vigência a tratado ou lei federal, ou quando julga
Constituição e das leis.
válido ato de governo local em face de lei federal. No
A citação de Barbosa Moreira e Pontes de Miranda é fundo, o que está em discussão no recurso especial é
emblemática, pois resume a finalidade dos recursos uma questão de direito federal de natureza
extraordinário e especial. O objetivo é assegurar a infraconstitucional, ou seja, está em jogo a correta
integridade, a validade, a autoridade e a uniformidade interpretação e aplicação da lei federal, além da
na interpretação da Constituição Federal e das leis uniformidade na sua interpretação.
Essas hipóteses de cabimento dos recursos recurso não será aceito, pois falta o pré-
extraordinário e especial têm implicações questionamento, ou seja, a discussão da questão no
importantes. Por exemplo, não cabe recurso especial tribunal inferior. O pré-questionamento é essencial
ou extraordinário para exame de questões de fato, porque está diretamente relacionado à hipótese de
uma vez que a finalidade desses recursos não é revisar cabimento do recurso, conforme estabelecido na
fatos, mas sim analisar a aplicação do direito, seja ele Constituição, para que haja realmente uma violação
constitucional ou infraconstitucional. O direito, neste do direito federal ou constitucional.
contexto, não se limita apenas às normas jurídicas em
sentido estrito, mas envolve a interpretação dessas
normas. O pré-questionamento também é uma consequência
Outro aspecto relevante é a exigência de e um desdobramento do perfil dos recursos especial e
esgotamento das instâncias ordinárias antes de extraordinário. Eles só serão viáveis se a matéria
federal ou constitucional tiver sido examinada na
interpor o recurso. Isso significa que não se pode
recorrer diretamente ao STJ ou ao Supremo sem antes decisão recorrida. Isso significa que é preciso que a
esgotar as possibilidades de recurso nas instâncias matéria tenha sido discutida pelo tribunal inferior
locais. Se uma decisão monocrática for tomada no para que o recurso seja admissível. Esse aspecto será
tribunal de justiça, por exemplo, é necessário que se abordado com mais detalhes posteriormente, mas já
vale destacar sua importância ao discutir as hipóteses
interponha um agravo interno para que a decisão seja
analisada por um colegiado, antes de recorrer ao de cabimento desses recursos, pois ele ilustra o papel
tribunal superior. O recurso extraordinário ou especial desses institutos.
só pode ser interposto após o esgotamento das Outro ponto importante é o efeito devolutivo desses
possibilidades de recurso na instância local. recursos. Quando interpondo uma apelação, o efeito
devolutivo é amplo, ou seja, o tribunal de segunda
Além disso, não cabe recurso especial ou
extraordinário para examinar a aplicação de leis instância pode reexaminar todas as questões de fato e
locais, como as relativas ao direito tributário ou ao de direito que sejam relevantes para a pretensão
serviço público, caso haja uma interpretação recursal. Isso permite ao tribunal revisar amplamente
inadequada dessas leis. O objetivo desses recursos a decisão, analisando se a lei foi bem aplicada, se
houve provas suficientes ou se houve alguma
não é buscar a justiça da decisão, mas garantir a
uniformidade na aplicação da lei federal e o respeito à irregularidade processual. Já no recurso especial ou
Constituição. A ideia não é corrigir possíveis injustiças, extraordinário, o efeito devolutivo é limitado, pois o
mas assegurar que a aplicação do direito seja feita de exame se restringe apenas à questão de direito
forma uniforme e correta. federal ou constitucional, sem se aprofundar nas
questões fáticas ou processuais. Isso ocorre porque o
Outro ponto importante é o pré-questionamento, que perfil desses recursos é restrito à interpretação do
significa que, para interpor um recurso especial ou direito, e não ao exame de fatos.
extraordinário, a questão de direito federal ou
constitucional precisa ter sido previamente discutida Por isso, esses recursos são conhecidos como recursos
de "estrito direito" e de "fundamentação vinculada",
pelo tribunal local. Não basta apenas que o recurso
invoque uma violação da lei federal ou da ou seja, a parte que recorre precisa fundamentar seu
Constituição. O tribunal local deve ter examinado pedido estritamente nas hipóteses previstas na
previamente a matéria. Isso decorre da natureza do Constituição, como a violação de norma constitucional
recurso, que visa discutir a violação do direito federal ou de lei federal. Isso limita o alcance do recurso e
impede que ele seja utilizado de maneira ampla, para
ou constitucional, e para isso é necessário que o
tribunal local tenha abordado essas questões. revisar toda a decisão.

Na prática, é comum ver recursos especiais ou Agora, do ponto de vista prático, é fundamental
extraordinários mal interpostos, muitas vezes sem entender como preparar um recurso especial ou
que o tribunal local tenha analisado a questão de extraordinário. Não adianta esperar até o último
momento, quando o acórdão do tribunal for
direito federal ou constitucional. Nesses casos, o
publicado, para tentar interpor o recurso com base unirrecorribilidade, que estabelece que não cabem
em uma ideia que surja de última hora. O sucesso de dois recursos contra a mesma decisão.
um recurso especial ou extraordinário não depende
Se o acórdão envolve tanto questões de direito
apenas de apresentar um bom argumento no
momento do recurso, mas de preparar o processo ao federal quanto constitucional, é possível impugnar a
longo de todo o trâmite. Ou seja, desde a petição decisão por meio de ambos os recursos, sendo
inicial, passando pela contestação, manifestações necessário recorrer aos tribunais superiores — o
finais, memoriais, até mesmo nos recursos e Superior Tribunal de Justiça (STJ) e o Supremo
Tribunal Federal (STF). Caso apenas um dos recursos
contrarrazões, deve-se sempre provocar o tribunal
para que ele examine as questões relevantes de seja interposto, pode ser que a decisão se mantenha,
direito, principalmente as de natureza federal ou caso o fundamento constitucional seja suficiente para
constitucional. Isso garante que, caso a decisão do sustentá-la. Nesse caso, o recurso especial, por
exemplo, pode ser rejeitado, pois a decisão pode se
tribunal inferior não aborde esses pontos, seja
possível recorrer aos tribunais superiores. apoiar em uma questão constitucional não
impugnada.
É importante notar que não basta alegar uma violação
da lei federal ou constitucional após o acórdão, como Além disso, mesmo que o recurso especial seja aceito
muitos tentam fazer com os chamados "embargos de pelo STJ, a decisão pode ser mantida. Por isso, é
importante entender que, mesmo após o recurso
pré-questionamento". Esses embargos são usados
para tentar forçar o tribunal a analisar uma questão especial, não adianta tentar interpor o recurso
que não foi discutida, mas eles não são suficientes extraordinário como uma segunda tentativa de
para viabilizar o recurso. O pré-questionamento deve revisão, já que a questão constitucional precisa ser
ocorrer antes, durante o trâmite do processo, para abordada desde o início.
que a questão relevante seja analisada desde o início. Para interpor ambos os recursos, o prazo é de 15 dias,
O tribunal só poderá ser "obrigado" a analisar uma e a interposição deve ser feita de forma
questão que não foi discutida se houver omissão ou concomitante, ou seja, ao mesmo tempo. O
inovação indevida no acórdão, ou seja, quando o procedimento envolve a interposição do recurso
tribunal tratar de um ponto que não foi previamente perante a presidência da respectiva seção do tribunal
levantado ou discutido pelas partes. local, que fará um exame preliminar para decidir se o
Portanto, é essencial compreender que o recurso recurso será aceito. Caso o recurso seja admitido, ele
especial ou extraordinário não é uma ferramenta para será enviado aos tribunais superiores; caso contrário,
revisar toda a decisão, mas para garantir que a a decisão do presidente da seção pode ser contestada
interpretação do direito, seja ele constitucional ou por meio de um agravo interno.
infraconstitucional, esteja sendo feita corretamente. A O agravo interno é utilizado quando o presidente do
preparação antecipada do processo é a chave para a tribunal local nega seguimento ao recurso, seja
viabilidade desses recursos. porque o entendimento do tribunal local seguiu o que
foi decidido pelo STF ou pelo STJ, seja por falta de pré-
questionamento ou ausência de questão federal.
Se surgir um acordo, existe uma situação em que é Nesse caso, o agravo é encaminhado ao tribunal
possível interpor embargos. No entanto, há uma superior correspondente, seja o STJ ou o STF, para
questão que ocorre com frequência e que vale a pena uma análise mais aprofundada.
comentar, mesmo que não seja o foco principal do
momento. Trata-se da omissão no julgamento. Quanto à sequência do exame dos recursos, a lógica é
que o recurso especial seja analisado primeiro,
Quando o acórdão de um tribunal de justiça, por
exemplo, trata de questões de direito federal e seguido pelo recurso extraordinário. No entanto, o
constitucional, a parte vencida deve recorrer tanto ao Código de Processo Civil de 2015 introduziu uma regra
recurso especial quanto ao recurso extraordinário. de racionalidade. Caso, ao analisar o recurso especial,
Esta é a única exceção ao princípio da o STJ perceba que a questão envolvida é
constitucional e não de direito federal, o recurso será
encaminhado ao STF, que poderá então decidir se é submeter a questão à Corte Especial, composta por 33
uma questão constitucional ou se remete o caso de ministros, que emitirá um acórdão reconhecendo ou
volta ao STJ. Da mesma forma, se apenas o recurso não a inconstitucionalidade.
extraordinário for interposto, mas o STF entender que
a questão é de direito federal, ele poderá remeter o Há também a questão das súmulas, que ajudam a
caso ao STJ para análise. entender a aplicação dos recursos. Por exemplo, a
Súmula 279 do STF estabelece que não cabe recurso
Essa troca de vista e remessa entre os tribunais extraordinário para reexame de provas. Já a Súmula 7
superiores visa garantir que a matéria seja tratada do STJ diz que não cabe recurso especial para
pelo tribunal competente, seja o STJ ou o STF, reexame de fatos ou provas. A Súmula 282 do STF fala
conforme o tipo de questão envolvida no recurso. sobre o pré-questionamento, estabelecendo que não
cabe recurso extraordinário quando não há a
ventilação da questão federal na decisão recorrida. A
A possibilidade de fungibilidade entre o recurso Súmula 211 do STJ trata da inadmissibilidade do
especial e o recurso ordinário permite que ambos recurso especial quando uma questão não foi
sejam processados em sequência, mas a lógica é que apreciada pelo tribunal, mesmo após oposição de
primeiro se analisa o recurso especial e, em seguida, o embargos de declaração.
extraordinário. Ambos os recursos devem ser O Código de Processo Civil atual trouxe uma solução
remetidos aos tribunais superiores, com o recurso
para esse caso, considerando que a matéria
especial sendo julgado primeiro. Quando o Supremo apresentada nos embargos de declaração é, para
Tribunal Federal recebe um recurso especial, ele todos os fins, considerada pré-questionada, mesmo
poderá julgar como ordinário, e ainda poderá haver que não tenha sido analisada expressamente pelo
recurso extraordinário contra a decisão do STJ no caso tribunal. Isso visa mitigar a aplicação da Súmula 211,
de recurso especial interposto.
permitindo que o recurso seja admitido, mesmo que a
Sobre a decisão de segundo grau, se estiver questão não tenha sido discutida diretamente no
fundamentada em uma questão estadual, não poderá acórdão.
ser analisada superiormente apenas pela alegação de Além disso, a Súmula 283 do STF estabelece que o
violação da lei local. Isso significa que, se a questão se recurso extraordinário não será admitido se não
refere à aplicação incorreta da legislação estadual,
abordar todos os fundamentos da decisão. Em um
não cabem recursos especiais ou extraordinários. caso em que a decisão do tribunal se baseia em mais
Porém, se a lei estadual conflitar com uma norma de um fundamento, o recurso deve impugnar todos
federal, poderá caber recurso especial ou esses fundamentos. Caso contrário, o recurso será
extraordinário. Vale ressaltar que não cabe recurso inadmitido, pois a parte recorrente não está
especial ou extraordinário para reexame de provas,
demonstrando efetivo interesse em que a decisão seja
como no caso de discutir o que uma testemunha ou reformada. O Supremo e o STJ não são órgãos para
perito disseram, mas é possível questionar a aplicação emitir opiniões gerais sobre questões de direito, mas
das normas de direito probatório, como quando o sim para revisar decisões que envolvem fundamentos
tribunal exige uma prova desnecessária para
legais e determinar a reforma ou anulação de uma
comprovar a vigência de uma lei federal. decisão quando necessário.
O controle de constitucionalidade é outro aspecto Esse entendimento sobre a impugnação de todos os
importante. O Supremo Tribunal Federal realiza fundamentos das decisões é crucial para a efetividade
controle concentrado de constitucionalidade, mas dos recursos especiais e extraordinários.
também pode fazer controle incidental, o que ocorre
quando julga ações originárias. O STJ também exerce
controle incidental de constitucionalidade, assim
como os tribunais locais e até o juiz de primeiro grau, Vamos falar um pouco sobre os filtros. Até agora,
se necessário. Quando o STJ precisa declarar a estamos acompanhando bem o raciocínio. O artigo
inconstitucionalidade de uma norma, ele deve 102, parágrafo 3º, da Constituição, trata da
repercussão geral no recurso extraordinário, e foi
introduzido pela Emenda Constitucional 45 de 2004. O Supremo Tribunal Federal tem a função de garantir
Ele estabelece que, para que o recurso extraordinário a correta interpretação e aplicação da Constituição, e
seja admitido, o recorrente deve demonstrar a o Superior Tribunal de Justiça deve zelar pela correta
repercussão geral das questões constitucionais interpretação da legislação federal. Para isso, é
envolvidas no caso, conforme os termos da lei, para necessário que esses tribunais julguem um número
que o tribunal examine a admissão do recurso, reduzido de casos, mas com grande qualidade e com
podendo recusá-lo com base na manifestação de dois uma função paradigmática, ou seja, estabelecendo
terços de seus membros. precedentes para serem seguidos por todos os
tribunais do país.
De forma semelhante, no artigo 105 da Constituição,
alterado pela Emenda Constitucional 125 de 2022, o As reformas constitucionais, como a Emenda
parágrafo segundo trata do recurso especial, que Constitucional 45/2004 e a Emenda Constitucional
exige a demonstração da relevância das questões de 125/2022, visaram dar mais efetividade a essa função
direito federal discutidas no caso, também conforme dos tribunais superiores. Elas introduziram a exigência
a lei. O recurso só será admitido se obtiver a da repercussão geral no recurso extraordinário e a
manifestação de dois terços dos membros do órgão relevância das questões no recurso especial, com o
competente para o julgamento. O parágrafo terceiro objetivo de garantir que os tribunais superiores se
detalha situações em que se presume a relevância, concentrem nas questões mais relevantes e, assim,
como em ações penais, ações de improbidade consigam uniformizar a interpretação do direito.
administrativa, ações cujo valor ultrapasse 500
salários mínimos, ações que possam gerar Com esses filtros, o intuito foi também tornar viável o
inelegibilidade, ou ainda quando o acórdão recorrido trabalho dos tribunais, que não podem lidar com
contrariar a jurisprudência dominante do STJ, entre centenas de milhares de processos por ano de forma
eficaz. Isso se alinha a uma lógica mais ampla de
outras situações previstas em lei.
gestão desses recursos, pois não seria possível, por
É importante observar que há um projeto de lei, o exemplo, que cada ministro julgasse dezenas de
Projeto de Lei 3804 de 2023, que visa regulamentar milhares de processos individualmente. Em outros
essas matérias, mas a definição da relevância das sistemas jurídicos, como o americano, há filtros
questões federais ainda não foi totalmente semelhantes. O sistema americano, por exemplo, é
disciplinada. discricionário, o que significa que, para um recurso ser
apreciado pela Suprema Corte, ele precisa passar por
No que diz respeito à repercussão geral no recurso um filtro de certificação, o que ajuda a controlar a
extraordinário, essa questão está regulamentada no quantidade de casos que chegam à corte e garantir
Código de Processo Civil. No entanto, de uma maneira que ela só se ocupe das questões mais relevantes.
mais sistêmica, a realidade do direito brasileiro é
muito peculiar. O Brasil é, sem dúvida, o país com a Esses filtros são fundamentais para que os tribunais
maior quantidade de processos, tanto em números superiores cumpram sua função de uniformização e
absolutos quanto proporcionais, se comparado a interpretação das normas jurídicas, garantindo uma
outras nações, incluindo até a China. A quantidade de justiça mais eficiente e condizente com as
litígios no Brasil é enorme, e isso também se reflete necessidades do país.
no volume de processos nos tribunais superiores.

Ao comparar o desempenho de cortes em outros


países, como os Estados Unidos ou mesmo a O processo de admissão de recursos em tribunais
Alemanha, percebe-se que o Brasil se destaca em superiores envolve uma análise criteriosa, e nos
sistemas jurídicos de outros países também existem
termos de volume de processos. A Suprema Corte
Americana, por exemplo, julga apenas algumas filtros semelhantes aos que temos no Brasil. Na
dezenas de processos por ano. O Supremo Tribunal Suprema Corte americana, por exemplo, o exame dos
Federal brasileiro, por sua vez, lida com centenas de recursos é discricionário. Não é o juiz da Corte quem
milhares de casos. Isso gera uma sobrecarga nos faz essa análise, mas sim seus assessores. Eles avaliam
quais casos devem ser examinados e quais serão
tribunais superiores, o que pode distorcer o seu papel.
descartados. Isso demonstra a importância de um recurso, então, será admitido quando a matéria
filtro no processo, que é algo que outros sistemas discutida tiver implicações significativas, não apenas
jurídicos também utilizam, como o direito alemão. para os envolvidos diretamente, mas para a sociedade
como um todo. Já a relevância da questão federal no
O direito alemão é uma referência importante para o recurso especial foi regulamentada de maneira mais
Brasil, especialmente nas áreas de direito civil, casuística, com exemplos de situações específicas que
processual e penal. O sistema jurídico alemão adota o podem ser tratadas, mas também com a possibilidade
recurso extraordinário denominado "revision", que só de ampliar o rol de hipóteses através da legislação.
é admitido quando se demonstra a "significação
fundamental" e a "possibilidade de desenvolvimento Esses filtros, além de promoverem uma melhor gestão
do direito". Essa análise é feita pela Corte, que decide da grande massa de recursos que chegam aos
se o caso tem relevância suficiente para ser julgado. tribunais superiores, permitem que o Supremo
Essa abordagem é semelhante ao que ocorre no Tribunal Federal e o Superior Tribunal de Justiça
Brasil, onde a relevância da questão federal ou a exerçam seu papel de forma mais qualificada. O STJ
repercussão geral são consideradas critérios para a deve ser o guardião da legislação federal, enquanto o
admissibilidade do recurso. STF tem a responsabilidade de proteger a
Constituição. Quando uma decisão é tomada em um
No Brasil, ao longo do tempo, foi se amadurecendo a recurso com repercussão geral ou relevância, ela tem
necessidade de criar filtros para a admissibilidade dos
um efeito paradigmático, ou seja, estabelece um
recursos. Antes da Constituição de 1988, o sistema de entendimento que deverá ser seguido pelos demais
arguição de relevância era pouco transparente, sem órgãos judiciais no julgamento de casos semelhantes.
justificativas claras para a decisão de examinar ou não Além disso, os recursos em andamento podem ser
os casos. Durante o regime militar, esse sistema foi suspensos até que o entendimento seja fixado, e
criticado por sua falta de fundamentação e por ser
novas ações propostas devem seguir esse
opaco, o que gerava incertezas sobre como as entendimento.
decisões eram tomadas. A Constituição de 1988, por
sua vez, eliminou essa prática e instituiu um novo Esses mecanismos ajudam a filtrar os casos que
sistema de filtros, com a criação da repercussão geral realmente merecem a atenção dos tribunais
para o recurso extraordinário e a relevância da superiores, garantindo maior eficiência e qualidade na
questão federal no recurso especial. aplicação do direito.

Esses filtros foram criados para dar maior A função de uniformização da interpretação e
transparência e fundamentação às decisões, aplicação do direito, embora tenha a intenção de ser
permitindo que o tribunal selecionasse casos com vinculante, gera discussões, especialmente sobre sua
critérios objetivos, mesmo que não totalmente constitucionalidade e até mesmo questões filosóficas.
rígidos. A introdução de um quórum qualificado de Alguns argumentam que isso poderia eliminar a
rejeição, com dois terços dos membros do tribunal, autonomia da função judicial, mas eu penso que não.
também visava tornar mais rigoroso o processo de Dizer que o juiz deve observar o entendimento fixado
admissão dos recursos, garantindo que apenas os sobre uma questão de direito não significa que ele
casos de maior relevância econômica, política, jurídica tenha que julgar de uma forma específica sobre o caso
ou social fossem analisados pelos tribunais superiores. em si, mas apenas que ele deve seguir a interpretação
Isso evita que questões menores, como disputas correta da norma para aquela questão. Essa
sobre multas de trânsito ou indenizações irrelevantes, abordagem busca racionalizar o funcionamento do
cheguem à Suprema Corte ou ao Superior Tribunal de sistema judicial.
Justiça, que devem se concentrar nos grandes temas
constitucionais e federais. Entretanto, há outra discussão importante sobre a má
aplicação do precedente, que é um problema sério.
A repercussão geral, por exemplo, exige que a Trabalhar com precedentes exige uma análise
questão constitucional discutida tenha uma relevância profunda e um respeito por parte dos tribunais
que ultrapasse o interesse das partes envolvidas no superiores, o que nem sempre acontece na prática.
caso, impactando a sociedade de forma mais ampla. O
Essas são questões que ainda precisam ser discutidas questão da sustentação oral em agravos regimentais.
e aprimoradas dentro do sistema. A legislação ordinária federal permite a sustentação
oral, mas o Supremo Tribunal Federal manteve o
AULA 31 DE OUTUBRO
entendimento de que no STF não seria cabível. O
Hoje, trataremos do recurso extraordinário, e, a partir fundamento do STF é que seu regimento interno não
dele, abordaremos os embargos de divergência. permite a sustentação oral, o que implica que o
Quando falamos sobre o recurso extraordinário, a regimento se sobrepõe à lei federal. Há uma discussão
primeira observação que faço é de caráter histórico. sobre a aplicação desse entendimento,
Na Constituição de 1967, com a emenda de 1969, o
principalmente em relação à Constituição de 1988, e
Supremo Tribunal Federal (STF) era responsável pela eu tenho certa dificuldade em encontrar esse
interpretação não só da Constituição Federal, mas dispositivo explícito, mas essa é a interpretação
também da legislação federal. Assim, existia um único seguida pelo STF.
recurso, o recurso extraordinário, que abrangia tanto
questões constitucionais quanto infraconstitucionais. Quando a Constituição de 1967 deu ao Supremo o
poder de fazer com que seu regimento interno tivesse
Com a Constituição de 1988 e a criação do Superior força de lei federal, nos anos 1980, o regimento do
Tribunal de Justiça (STJ), houve uma divisão nas Supremo foi alterado e foi incluída a chamada
matérias e, consequentemente, nos recursos. De um
"arguição de relevância". Em última análise, a
lado, surgiu o recurso especial, que será estudado no arguição de relevância significava que o Supremo só
âmbito do STJ e trata de legislação federal julgaria um caso se a questão tivesse uma importância
infraconstitucional. Do outro, ficou o recurso jurídica que transcendesse o mero interesse das
extraordinário, que trata de questões constitucionais partes. Esse mecanismo foi criado por uma razão bem
e é destinado ao STF. É interessante observar que,
clara: o volume de recursos extraordinários era
apesar dessa divisão e das mudanças profundas no imenso, com 11 mil recursos, e o STF precisaria
sistema constitucional promovidas pela Constituição examinar matérias constitucionais e
de 1988, o papel do Supremo Tribunal Federal não infraconstitucionais de todo o país. Evidentemente,
alterou substancialmente. O STF continuou a ser o isso gerava um grande acúmulo de processos, e o
principal intérprete da Constituição Federal.
Supremo Tribunal Federal enfrentava dificuldades
significativas em termos de tempo e prazo para julgar.
Na prática, o Brasil manteve, até hoje, o chamado Naquela época, os processos eram físicos, não havia
controle misto de constitucionalidade. Isso significa processos digitais, nem inteligência artificial ou outras
que a constitucionalidade pode ser verificada de tecnologias que facilitassem o trabalho. Isso torna
forma concentrada, pelo STF, quando ele julga ações
evidente a enorme sobrecarga do Supremo naquele
diretas de inconstitucionalidade (ADIs), ou de forma período.
difusa, quando qualquer juiz do país analisa a
constitucionalidade de uma lei. Embora, em última O Supremo Tribunal Federal (STF) instituiu a admissão
instância, as partes possam recorrer ao Supremo
de relevância como uma barreira no acesso ao
Tribunal Federal, que é o intérprete natural da tribunal. Essa mudança surgiu com a Constituição de
Constituição, a diferença do nosso sistema é que 1988, que, ao criar a possibilidade de um recurso
qualquer juiz pode fazer o controle difuso, enquanto o extraordinário, inicialmente não previu um
controle concentrado ocorre diretamente por meio mecanismo de filtro. De forma popular, a situação
das ações originárias no STF.
passou a ser vista como a "crônica de uma morte
anunciada", pois tínhamos uma Constituição com
Outro ponto importante é que, rapidamente, se centenas de artigos, com tudo considerado
percebeu um erro na Constituição de 1967 e 1969, constitucional, e um STF composto por 11 ministros,
que dizia que o regimento interno do Supremo sem um filtro adequado para processar tantas
Tribunal Federal tinha status de lei federal. Embora
demandas. A situação ficou insustentável, como já
esse dispositivo não tenha sido mantido na havia sido previsto na época, e, de fato, o volume de
Constituição de 1988, o Supremo, por vezes, continua
adotando essa postura. Um exemplo recente é a
recursos extraordinários aumentou ou provas, isso significa que ele se concentra
consideravelmente. exclusivamente na análise de questões jurídicas e
Em pouco tempo, o STF passou a lidar com uma carga constitucionais. No caso do recurso extraordinário, o
excessiva de processos, com ministros emitindo uma tribunal não examina a matéria fática do caso, mas
média de 20.000 votos por ano. Isso gerava uma sim se a decisão do tribunal inferior está em
verdadeira sobrecarga, que, mesmo com o afã de conformidade com a Constituição.
possibilitar o acesso ao Supremo, tornava-se
humanamente impossível para os ministros
realizarem a análise detalhada de todos os casos. O No recurso extraordinário, o Supremo Tribunal
que ocorreu foi uma pressão para garantir o acesso à Federal (STF) não revisa fatos nem provas, mas isso
Justiça, mas sem considerar as limitações materiais do não significa que ele deixa de examinar os fatos do
tribunal. Isso gerou críticas, incluindo alguns caso. Quando afirmamos que não há revisão de fatos
escândalos envolvendo a atuação de assessores no ou provas, estamos dizendo que o STF parte do
Superior Tribunal de Justiça. Apesar disso, é pressuposto de que os fatos, como apresentados no
importante reconhecer que em nenhum país do acórdão, são verdadeiros, com uma presunção
mundo os tribunais superiores aceitam todos os absoluta. O STF não vai reavaliar os fatos ou investigar
recursos sem algum tipo de filtro, e o Brasil era uma se o que foi relatado no julgamento é verdadeiro ou
exceção. não. Portanto, embora o tribunal analise os fatos, ele
O exemplo da Itália ilustra bem como outros países não realiza uma nova valoração ou reexame deles.
criaram mecanismos de barreira para o acesso aos
tribunais constitucionais. Na Itália, para atuar na Corte Outro ponto importante é que o recurso
Constitucional, o advogado precisa pagar uma alta extraordinário só pode ser interposto depois de
taxa anual, o que restringe o número de advogados esgotadas as instâncias ordinárias. Ou seja, é
que podem efetivamente atuar nesse nível. Esse tipo necessário que todos os recursos infraconstitucionais
de filtro é econômico, mas tem o mesmo efeito de sejam julgados antes de se levar a questão ao STF. Se,
restringir o acesso. No Brasil, a ausência de um filtro por exemplo, uma decisão for tomada de forma
na Constituição de 1988 levou à necessidade de criar monocrática pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, é
um mecanismo no Supremo, o que foi feito necessário interpor um recurso para provocar o
inicialmente com a arguição de relevância, que julgamento colegiado. Caso a decisão seja do juiz de
limitava a admissão de recursos extraordinários primeiro grau, é preciso que se recorra para o
apenas às questões jurídicas que tivessem grande segundo grau antes de poder levar a questão ao STF.
importância. Não é possível interpor um recurso extraordinário
Percebendo o erro, com a Emenda Constitucional 45, diretamente sem que os recursos infraconstitucionais
foi reintroduzido o conceito de repercussão geral, que tenham sido utilizados.
funciona de forma semelhante à arguição de
relevância, mas com características mais específicas. A Alguém poderia questionar sobre a necessidade de
ideia básica é que o recurso extraordinário só é interpor embargos de declaração antes de recorrer ao
admitido quando a questão constitucional discutida STF, mas a questão é que o embargo de declaração
ultrapassa o interesse individual das partes tem um limite de cabimento: ele só pode ser usado
envolvidas. Esse conceito de relevância é essencial para corrigir omissões, obscuridades ou contradições
para garantir que o Supremo não se sobrecarregue no julgamento. Se, por exemplo, um acórdão do TJ de
com questões que não tenham impacto significativo São Paulo é claro e não apresenta esses vícios, não há
para a sociedade. necessidade de embargo de declaração, podendo-se
É importante destacar que o STF, ao julgar um recurso recorrer diretamente ao recurso extraordinário.
extraordinário, atua como intérprete da Constituição
Federal. Seu papel não é reavaliar os fatos ou as Um outro requisito importante, que foi tratado
provas do caso, mas sim garantir que a Constituição especificamente no Código de Processo Civil de 2015,
seja aplicada corretamente em casos concretos. diz respeito ao pré-questionamento. A Constituição de
Quando afirmamos que o Supremo não revisa fatos 1988 não menciona explicitamente o pré-
questionamento, o que foi uma mudança em relação No contexto da Constituição Federal, é importante
à Constituição de 1967, que tratava disso no seu observar que ela garante direitos e garantias
regimento interno, conferindo ao STF um controle individuais, mas muitos desses direitos são
mais rígido. A ausência de um termo explícito sobre o regulamentados por normas infraconstitucionais,
pré-questionamento na Constituição de 88 como o Código de Processo Civil e o Código de
inicialmente dificultou a interposição do recurso Processo Penal. Por exemplo, o direito à defesa está
extraordinário, mas o STF passou a adotar uma garantido pela Constituição, mas a regulamentação
interpretação para contornar essa lacuna. desse direito se dá por normas infraconstitucionais.
Portanto, se a violação for relacionada a um direito
O artigo 103 da Constituição de 1988, especificamente infraconstitucional, o recurso cabível seria o recurso
no seu inciso 3º, exige que o recorrente demonstre a especial, e não o extraordinário. O recurso
repercussão geral das questões constitucionais extraordinário só é cabível quando a violação se dá de
discutidas no caso, para que o recurso seja admitido forma direta à Constituição Federal, ou seja, quando
pelo STF. A decisão sobre a admissibilidade do recurso há uma afronta direta ao texto constitucional.
extraordinário pode ser rejeitada por manifestação de
dois terços dos ministros do tribunal. Assim, esse O Supremo Tribunal Federal, ao consolidar sua
requisito de repercussão geral é um mecanismo que jurisprudência, passou a admitir o recurso
extraordinário apenas em casos em que a violação é
atua como um filtro, para garantir que o Supremo só
examine questões de relevância constitucional que direta à Constituição, sem a necessidade de
transcendam o interesse particular das partes interpretação ou regulamentação infraconstitucional.
envolvidas no processo. Por exemplo, a coisa julgada é um princípio
constitucional, mas sua regulamentação é feita pela
legislação infraconstitucional, portanto, a violação de
O cabimento do recurso extraordinário está coisa julgada não justifica um recurso extraordinário,
relacionado a causas que envolvem uma violação mas sim um recurso especial.
direta da Constituição Federal. Para que o recurso Portanto, o recurso extraordinário só pode ser
extraordinário seja admitido, é necessário que a interposto quando há uma afronta direta ao texto da
matéria constitucional tenha sido expressamente Constituição, sem a intermediação de normas
examinada no acórdão recorrido. Isso significa que a infraconstitucionais. Isso significa que, se a violação
questão constitucional deve ser obrigatoriamente for apenas reflexa ou indireta, como no caso de
abordada no julgamento. Caso isso não ocorra, a direitos regulamentados por leis infraconstitucionais,
parte interessada deve interpor embargos de o recurso adequado seria o especial e não o
declaração, alegando a omissão do tribunal. Se os extraordinário.
embargos forem rejeitados e o acórdão continuar sem
examinar a questão constitucional, pode-se então Em relação às hipóteses de cabimento do recurso
recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF). extraordinário, a Constituição Federal estabelece que
ele é cabível quando houver uma contrariedade direta
Entretanto, existe uma complicação importante à Constituição. Essa é a hipótese mais comum de
quando a violação à Constituição ocorre no momento cabimento do recurso extraordinário, mas também é
do julgamento, como por exemplo, quando a violação a mais difícil, pois a parte deverá demonstrar que a
não foi previamente prevista. Nesse caso, a solução decisão do tribunal contrariou explicitamente o texto
mais conservadora seria que a parte embargasse o constitucional. Em outras palavras, a parte
acórdão e alegasse que, durante o julgamento, a interessada deve mostrar que o seu direito, garantido
Constituição foi violada. Isso é necessário porque a pela Constituição, não foi reconhecido no julgamento.
violação à Constituição não pode ser alegada de Assim, o recurso extraordinário só será admitido
forma indireta, ou seja, não cabe recurso quando houver uma clara afronta à Constituição
extraordinário por uma violação reflexa da Federal, e não apenas uma interpretação contrária a
Constituição. normas infraconstitucionais.
A primeira hipótese de cabimento do recurso União já possuía uma legislação federal sobre o tema.
extraordinário é a mais ampla e a mais aberta. Ela O Supremo Tribunal Federal foi responsável por
envolve a declaração de inconstitucionalidade de um resolver essa controvérsia, e o dispositivo na
tratado ou de uma lei federal, o que ocorre quando o Constituição foi inserido para garantir que, em caso
tribunal, ao julgar um caso, reconhece que a norma é de conflito, o tribunal que deveria decidir seria o
inconstitucional. Nesse tipo de situação, o recurso Supremo.
extraordinário pode ser interposto de forma objetiva,
ou seja, basta demonstrar que houve o Por fim, a última hipótese que devemos considerar é a
de que o recurso extraordinário também pode ser
reconhecimento da inconstitucionalidade. Isso ocorre
porque é considerado uma situação excepcional: interposto quando há um conflito sobre a aplicação de
normalmente, presume-se que as leis e os tratados normas federais e estaduais em determinadas
são constitucionais, e o Supremo Tribunal Federal só situações. A discussão sobre qual lei deve ser aplicada
– a estadual ou a federal – envolve uma questão de
precisa se preocupar em analisar um caso quando há
uma decisão que afasta essa presunção, declarando a competência legislativa, que é de responsabilidade do
inconstitucionalidade de uma norma. Supremo Tribunal Federal, e é isso que justifica a
possibilidade de interpor um recurso extraordinário
Por outro lado, não cabe recurso extraordinário nessa situação. Se houver a violação de uma norma
quando o tribunal reconhece a constitucionalidade de federal em favor da aplicação de uma norma estadual,
uma lei federal. Essa é uma hipótese que se baseia em o recurso especial será cabível, mas se a questão
um texto literal da Constituição, que restringe a envolver a competência legislativa, o Supremo é
admissibilidade do recurso a situações em que há uma quem deve decidir.
violação direta à Constituição. A decisão que
reconhece a constitucionalidade de uma lei federal Agora, vamos passar para a questão da repercussão
geral, que trata da relevância das questões
não gera, por si só, o cabimento do recurso
extraordinário, pois o Supremo, em sua função, deve constitucionais para a admissão do recurso
se preocupar com a excepcionalidade da declaração extraordinário.
de inconstitucionalidade e não com o contrário. A repercussão geral, como mencionei, foi introduzida
A segunda hipótese de cabimento do recurso pelo artigo 45 e está regulada no Código de Processo
Civil. O principal objetivo da repercussão geral é
extraordinário diz respeito à validação de leis ou atos
de governo local que são contestados em face da limitar a atuação do Supremo Tribunal Federal aos
Constituição Federal. Essa hipótese é inserida na casos que tenham um efeito além do caso específico,
Constituição para resolver controvérsias sobre a ou seja, aqueles que envolvem questões de relevância
constitucionalidade de leis estaduais ou municipais para a sociedade como um todo. Se o problema em
questão for meramente de interesse de uma parte,
em relação à Constituição, ou até mesmo em face de
uma lei federal. Essa inclusão foi feita para resolver sem um impacto mais amplo, não cabe recurso
divergências jurisprudenciais e tem o objetivo de extraordinário. Por exemplo, uma disputa sobre
definir de forma clara qual tribunal deve analisar o questões como o direito de construir uma sacada ou
instalar algo em um apartamento pode ser importante
caso. Quando há um confronto entre uma lei local e
uma norma federal, o recurso extraordinário será para as partes envolvidas, mas não gera relevância
utilizado, pois trata-se de um problema de suficiente para ser tratada pelo Supremo Tribunal
competência legislativa, ou seja, o Supremo Tribunal Federal.
Federal é responsável por decidir a matéria. A ideia, portanto, é que o Supremo examine apenas
questões que transcendam o interesse individual e
Além disso, essa disposição na Constituição surgiu
como resposta a um debate jurídico que existia, que envolvam uma relevância econômica, política,
especialmente em relação ao julgamento de matérias social ou jurídica mais ampla. O Supremo é o
nos juizados especiais criminais. Por exemplo, havia responsável por avaliar se existe essa repercussão
divergências sobre quais crimes poderiam ser geral, e não o juiz ou o presidente do tribunal de
instância inferior. Apenas os ministros do Supremo,
processados nesses juizados, uma vez que alguns
estados aplicavam suas próprias leis, enquanto a por meio de um colegiado, têm essa atribuição. Em
regra, dois terços dos membros da corte devem uniformização da jurisprudência nos tribunais
concordar com a existência de repercussão geral para superiores. Como já discutido em aulas anteriores, o
que o recurso extraordinário seja admitido. O relator objetivo do Supremo Tribunal Federal é interpretar a
sozinho não pode rejeitar um recurso extraordinário Constituição Federal e o objetivo do Superior Tribunal
alegando falta de repercussão geral, a menos que a de Justiça é interpretar a legislação federal. Não há
matéria já tenha sido previamente analisada. dúvida quanto a isso, mas é importante frisar que a
principal missão desses tribunais é garantir que a
Em relação aos casos em que se presume a interpretação da Constituição e das leis federais seja
repercussão geral, há algumas hipóteses que já são
harmonizada em todo o país.
tratadas como relevantes pela própria jurisprudência.
Por exemplo, quando o tribunal declara a Os tribunais, no entanto, são compostos por várias
inconstitucionalidade de um tratado ou de uma lei turmas ou seções, o que pode gerar divergências na
federal, presume-se que há repercussão geral, pois a
interpretação das normas. No Supremo, por exemplo,
decisão tem impacto para toda a sociedade. O mesmo é possível que a Primeira Turma interprete a
se aplica aos casos em que há violação de uma súmula Constituição de forma diferente da Segunda Turma. O
vinculante ou de uma jurisprudência consolidada do mesmo ocorre no Superior Tribunal de Justiça, onde
Supremo, como, por exemplo, em julgamentos que turmas ou sessões diferentes podem ter
criam precedentes importantes.
interpretações divergentes. Portanto, para garantir a
A ideia da repercussão geral é evitar abusos e garantir uniformização da interpretação da Constituição e da
que o Supremo Tribunal Federal só julgue questões legislação federal, existe o recurso de embargos de
que realmente tenham uma relevância para o divergência, que visa harmonizar os entendimentos
conjunto da sociedade. No entanto, apesar dessa dentro dos próprios tribunais.
barreira, ainda há um grande número de processos
que chegam ao Supremo. Isso ocorre porque o No entanto, com a introdução do Código de Processo
Supremo faz um controle rigoroso sobre a Civil de 2015, o recurso de embargos de divergência
repercussão geral e só admite os recursos que perdeu parte de sua importância. Isso aconteceu
realmente se encaixam nos critérios estabelecidos. porque o novo código criou outros mecanismos de
Quando a repercussão geral é reconhecida, todos os uniformização de jurisprudência, como o julgamento
casos semelhantes ficam suspensos no país, pois a de recursos extraordinários e especiais com
decisão tomada pelo Supremo será vinculante para repercussão geral, o recurso repetitivo e a assunção
todos os outros processos relacionados ao tema. de competência. Esses mecanismos permitem que a
jurisprudência seja uniformizada já nas etapas
Portanto, a repercussão geral serve como uma forma anteriores do processo, o que diminui a necessidade
de otimizar a atuação do Supremo, restringindo os de embargos de divergência como uma ferramenta de
casos que chegam à corte e priorizando aqueles de harmonização.
relevância nacional. Isso é feito para evitar que o
Supremo seja sobrecarregado com questões Hoje, a tendência do sistema é que a jurisprudência
meramente individuais, ao mesmo tempo em que seja uniformizada já durante o julgamento do recurso
garante que os recursos extraordinários sejam extraordinário ou do recurso especial. Isso faz com
utilizados apenas para questões que realmente que os embargos de divergência tenham um alcance
afetem a sociedade de maneira ampla. mais limitado, embora ainda sejam previstos pelo
ordenamento jurídico. Ou seja, eles continuam
existindo, mas com uma aplicação cada vez mais
AULA 14 DE NOVEMBRO restrita.
Na aula de hoje, vamos falar sobre os embargos de
divergência. Esse recurso, que já está praticamente Além disso, uma questão importante que surge em
obsoleto, tem perdido sua importância ao longo do relação aos embargos de divergência é a sua
tempo. Antigamente, os embargos de divergência fundamentação. No sistema jurídico brasileiro, vigora
tinham uma função crucial no sistema, que era a a dialeticidade, ou seja, não basta apenas recorrer de
uma decisão; é necessário fundamentar o recurso, embargos de divergência quando a divergência
demonstrando os erros da decisão recorrida. No caso envolve a interpretação do Código de Processo Civil,
dos embargos de divergência, não basta afirmar que a por exemplo, pois isso se trata de uma interpretação
interpretação da Constituição ou da lei federal feita de lei federal, não constitucional. Contudo, se a
pelo órgão julgador está equivocada. É necessário divergência envolver questões constitucionais, como o
demonstrar que outro órgão, em julgamento distinto, contraditório, a interposição de embargos de
interpretou a mesma norma de maneira diferente e divergência é possível.
que a interpretação correta é a do outro órgão. Isso
exige uma argumentação mais detalhada, Outro ponto relevante é que, tanto no Supremo
evidenciando a divergência real entre os julgados e Tribunal Federal quanto no Superior Tribunal de
buscando harmonizar a jurisprudência com base nas Justiça, pode-se encontrar decisões que, embora no
interpretações divergentes. final digam "não conheço o recurso", na
fundamentação enfrentam o mérito, interpretando a
Constituição ou a lei federal. A dúvida que pode surgir
No caso do Supremo Tribunal Federal, para interpor é se é possível interpor embargos de divergência
embargos de divergência, o recorrente deve contra uma decisão que, embora tenha negado
argumentar que a decisão da Primeira Turma está conhecimento ao recurso, tenha analisado a questão
equivocada, apresentando os motivos pelos quais a de mérito. A resposta é sim, é possível interpor
decisão está errada, e demonstrar que a Segunda embargos de divergência, desde que se encontre um
Turma interpreta a Constituição de maneira diferente, paradigma que justifique a divergência e que tenha
sendo essa a interpretação correta. O mesmo sido analisada a questão de mérito, mesmo que a
princípio se aplica ao Superior Tribunal de Justiça, em conclusão tenha sido de não conhecimento.
que, caso a Primeira Turma tenha dado uma decisão
equivocada, deve-se apresentar os motivos pelos Além disso, com as mudanças nas composições dos
quais a decisão deve ser reformada, mostrando que tribunais superiores, é natural que surjam alterações
outra turma do mesmo tribunal interpretou a lei nos entendimentos. Suponhamos que uma decisão
federal de forma distinta e corretamente. Portanto, tenha sido tomada pela Primeira Turma, mas o
não basta simplesmente afirmar que a decisão está recorrente não concorde com a decisão e busque um
errada; é necessário evidenciar que outra turma paradigma de sentido contrário. Se os únicos
adotou uma interpretação diferente, e essa paradigmas encontrados forem da própria Primeira
interpretação é a correta. Turma, em princípio, não seria cabível a interposição
de embargos de divergência, pois não haveria
A fundamentação dos embargos de divergência, divergência entre órgãos diferentes. Contudo, os
conforme a doutrina, deve seguir o que se chama tribunais superiores passaram a entender que, com a
"cortejo analítico". Isso significa que, ao fundamentar reforma do Código de Processo Civil de 2015, se
os embargos, é preciso analisar a decisão recorrida e houver alteração em mais da metade da composição
trazer um paradigma, ou seja, um exemplo de da turma, a mudança de entendimento dessa mesma
situações iguais que foram julgadas de forma distinta, turma já pode ser suficiente para a interposição dos
com a aplicação da lei de maneira diferente. A decisão embargos de divergência. Portanto, mesmo dentro da
paradigma será aquela que se entende como correta. mesma turma, se houver mudança substancial na
Em outras palavras, a fundamentação nos embargos composição, os embargos de divergência devem ser
de divergência é vinculada, ou seja, o recurso não admitidos.
pode ser interposto por qualquer motivo, mas apenas
quando houver divergência na interpretação entre os
órgãos do mesmo tribunal. Houve uma mudança significativa no entendimento
sobre a admissibilidade dos embargos de divergência.
A partir de agora, se houver uma mudança na
No caso do Supremo Tribunal Federal, a situação se
torna mais complexa, pois envolve matéria composição de mais da metade da turma, é possível
constitucional. Assim, não é possível interpor interpor embargos de divergência, o que antes não
seria admitido. No entanto, existe uma questão que
gera controvérsia, especialmente nos tribunais divergência não afetar a essência do julgamento, os
superiores: se uma decisão tiver mais de um embargos não têm razão de existir.
fundamento e houver divergência apenas em relação
É possível, também, que decisões monocráticas em
a um desses fundamentos, será possível recorrer por
meio de embargos de divergência? tribunais superiores sejam desafiadas por meio de
embargos de divergência, mas, para isso, é necessário
A resposta, para nós, é sim, desde que aquele que o julgamento seja colegiado, ou seja, que o
fundamento seja suficiente para alterar o julgamento. recurso tenha sido analisado por mais de um juiz. Os
Caso contrário, se o fundamento não for suficiente embargos de divergência não podem ser utilizados em
para alterar a decisão, os embargos de divergência decisões monocráticas, pois o recurso agravo é o
não seriam cabíveis, pois o reexame de apenas um instrumento adequado nesse caso. O mesmo se aplica
fundamento não modificaria o resultado do aos recursos ordinários: não cabe embargos de
julgamento. Contudo, essa interpretação não é divergência contra decisões oriundas de recursos
pacífica. No Superior Tribunal de Justiça, há decisões ordinários, pois a legislação fala expressamente em
que afirmam que é necessário que haja um conflito de recursos especiais ou extraordinários, e o recurso
interpretação para que os embargos de divergência ordinário tem outra natureza.
sejam admitidos, desde que a devolutividade seja
total, ou seja, que a divergência tenha o poder de Por fim, em caso de divergência em um julgamento de
recurso ordinário, a única possibilidade de revisão
alterar o julgamento. No entanto, há outra linha de
entendimento que defende que a devolutividade está seria por meio de embargos de declaração, já que os
vinculada ao objeto da divergência. Se a divergência embargos de divergência não se aplicam nesse tipo de
não for suficiente para alterar a decisão, não caberiam recurso. Isso ocorre porque os embargos de
embargos de divergência. divergência visam uniformizar o entendimento de
matérias federais e constitucionais, não abrangendo
Um exemplo que ilustra bem essa discussão ocorreu todas as matérias possíveis de serem tratadas nos
recentemente, quando o Superior Tribunal de Justiça tribunais superiores.
analisou um caso sobre a prescrição. A relatora e o
ministro divergiram sobre a interpretação do Código
Civil em relação ao fato que iniciaria o prazo de Nessas hipóteses, me pareceria que deveria caber,
prescrição. A relatora entendeu que o prazo mas a jurisprudência tem facilitado, limitando-se aos
começaria a contar a partir do "conhecimento do recursos especiais e extraordinários. Quanto aos
fato", enquanto outro ministro considerava que o demais recursos ou ações autônomas, não é cabível.
prazo se contaria a partir do "fato". A questão gerou Em relação ao processamento, é interessante notar
divergência entre as turmas, e a dúvida era se que ele é regido pelos regimentos internos, enquanto
caberiam embargos de divergência para solucionar o Código de Processo Civil pouco trata do tema. Na
essa diferença. Se um dos fundamentos fosse prática, o recurso é interposto no prazo de 15 dias, e
suficiente para alterar a conclusão do julgamento, todos os demais recursos têm caráter preparatório.
poderiam ser interpostos embargos, mas se ambos os Ele é direcionado ao relator do acórdão recorrido, que
fundamentos fossem igualmente válidos para a faz o exame da admissibilidade formal. Se for
decisão, a divergência não alteraria o resultado, e os admitido, o recurso é distribuído ao novo relator.
embargos não seriam cabíveis.
É interessante observar que, no caso do Supremo
Os embargos de divergência têm como objetivo Tribunal Federal, o processo é relativamente simples,
harmonizar a interpretação das leis, mas é importante já que os julgamentos ocorrem entre turmas ou entre
lembrar que o julgamento em questão deve sempre a turma e o plenário. No caso do Superior Tribunal de
ser concreto. Não estamos tratando de uma ação Justiça, o processo é mais complexo, pois ele possui
direta de inconstitucionalidade ou uma ação mais órgãos: a primeira e segunda turmas formam a
declaratória de constitucionalidade, onde a decisão primeira sessão; a terceira e quarta, a segunda sessão;
pode afetar um grande número de casos. Nos e a quinta e sexta, a terceira sessão. Além disso, existe
embargos de divergência, estamos lidando com o o órgão da Corte Especial, que julga em determinadas
julgamento de um caso específico. Portanto, se a
situações. Quem vai julgar os embargos de
divergência depende do acórdão paradigma. Se for a
primeira turma com a segunda, por exemplo, o
julgamento é feito pela primeira sessão, que reúne os
membros das duas turmas. Caso seja a primeira turma
com a terceira, a Corte Especial será responsável pelo
julgamento.

A Corte Especial não é a reunião das duas sessões,


mas um órgão distinto. O que é interessante nesse
caso é que os ministros que participaram do
julgamento original podem não participar do
julgamento dos embargos, já que eles não podem
fazer parte da Corte Especial. Pode acontecer de
apenas alguns deles integrarem a Corte Especial.
Nesse cenário, é feito um novo exame de
admissibilidade pelo relator e pela turma julgadora,
que decide sobre a admissibilidade e o mérito.

Quanto à prova, a matéria que será cobrada envolve


recursos para os tribunais superiores, substitutivas,
entre outros tópicos. As provas começam na próxima
semana, e alguns alunos já terão exames nessa data.

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