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Impactos do Turismo no Aquecimento Global

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Impactos do Turismo no Aquecimento Global

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Capítulo 6

Direito Ambiental
Turismo e aquecimento global:
deslocamento dos turistas como fonte de
impacto

Resumo
O turismo está ligado diretamente ao local onde esta
Autora: atividade acontece, e dependente de todos os
acontecimentos nessa área. Os impactos causados pelo
Paloma de Sousa Regala turismo podem afetar a própria atividade e também
Universidade Federal da Paraíba podem influenciar nas mudanças climáticas, que por sua
vez pode influenciar na demanda turística. Este artigo
tem um intuito de analisar a relação entre o turismo e as
mudanças climáticas, a partir de um apanhado de órgãos
ambientais e turístico além de autores que tratam de
turismo e meio ambiente. Para tanto foi feita uma
pesquisa bibliográfica e documental. A partir dos dados
obtidos foi possível perceber que o turismo influência nas
mudanças climáticas e é influenciado por elas, sendo
assim necessários repensar formas sustentáveis, para o
desenvolvimento turístico. aquecimento

Palavras-chave: Mudanças climáticas; Turismo


sustentável; Impactos.

DOI:

Como citar este capítulo:


REGALA, Paloma de Sousa. Turismo e
aquecimento global: deslocamento dos
turistas como fonte de impacto. In: NUNES,
Matheus Simões (Org.). Estudos em Direito
Ambiental: Territórios, racionalidade e
decolonialidade. Campina Grande: Editora
Licuri, 2022, p. 100-117.
Turismo e aquecimento global Regala, 2022

INTRODUÇÃO

O crescimento econômico é a base da economia mundial, e hoje com o embasamento


de diversos estudos, notícias e a própria percepção do que está acontecendo com nosso
meio ambiente, percebe-se que é essencial desacelerar o crescimento e tentar equilibrar
atividades humanas com proteção ambiental, pois existe uma necessidade vital do ser
humano para com os elementos ambientais, como água, ar e a biodiversidade em geral. A
realidade é que estamos na contramão da preservação, são diversas notícias que temos
sobre aquecimento global, desmatamento, poluição de aquíferos entre outras
degradações ambientais.
A sustentabilidade surge de uma necessidade de mudanças do modelo de crescimento
econômico, para que o futuro não seja ‘catastrófico’ para a existência humana e de outros
seres vivos, pois a produção e consumo ultrapassam os limites ecológicos saudáveis para
o meio ambiente. (LEFF, 2011, p22) diz que “O discurso dominante da sustentabilidade
promove um crescimento econômico sustentável, eludindo as condições ecológicas e
termodinâmicas que estabelecem limites e condições à apropriação e transformação
capitalista da natureza.” Devemos lembrar que a sustentabilidade - a proteção ambiental,
a diminuição da degradação do meio ambiente e a erradicação da pobreza - não é um
retrocesso, e sim evolução considerando a existência humana.
Os encontros internacionais que tratavam do meio ambiente, no passado, já nos
alertavam sobre possíveis problemas se não diminuíssemos o crescimento econômico.
Como por exemplo a conferência das Nações unidas realizada em Estocolmo (conferência
mundial sobre meio ambiente) em 1972, que levou os “olhares” mais cuidadosos ao meio
ambiente e trouxe discussões acerca de preservação ambiental a nível mundial, e a eco92,
no Rio de Janeiro em 1992, que trouxe o conceito de turismo sustentável, que foi
mundialmente colocado em discussões pela primeira vez. Devemos ter o entendimento
de que um crescimento da atividade turística sem levar em consideração os limites
ambientais, pode ser desastroso inclusive para a própria atividade.
Leff (2011), diz que a degradação ambiental se manifesta como sintoma de uma crise
de civilização, marcada pelo modelo de modernidade regido pelo predomínio do
desenvolvimento da razão tecnológica sobre a organização da natureza. A questão
Ambiental problematiza as próprias bases de produção.

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 101


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

O turismo é uma atividade econômica e social, apesar de tratado por muitos como
isoladamente econômico, é debatido por Beni (2019), e Ruschmann (2016), que dizem que
o turismo é um processo humano apesar da atividade ser econômica, a partir daí, já
começamos as interrelações complexas turísticas. Esta atividade promove impactos seja
positivo ou negativo na área de ocorrência. Pode-se adaptar modelos de crescimento
econômico e tentar formar um modelo mais equilibrado, pois é uma necessidade diante
de toda a realidade ambiental que nos é trazida. É importante ressaltar que o turismo
sustentável vem como uma forma de equiparar o desenvolvimento sociocultural,
ambiental e econômico.
O turismo está ligado diretamente ao local onde a atividade acontece, e está
intimamente dependente de todos os acontecimentos nessa área. Os impactos causados
pelo turismo podem afetar a própria atividade e também podem influenciar nas mudanças
climáticas, que por sua vez pode influenciar na demanda turística.
Este artigo tem um intuito de analisar a relação entre o turismo e as mudanças
climáticas, a partir de um apanhado de órgãos ambientais e turístico além de autores que
tratam de turismo, impactos e meio ambiente. Ainda existem poucas produções nestes
termos - turismo e mudanças climáticas, - e o artigo traz uma abordagem mais ampla.
Para tanto foi feito um apanhado bibliográfico sobre tais temas.

Turismo e as interrelações

O turismo envolve uma gama de elementos e participações, essa atividade


econômica (gera renda, lucro e participa do resultado de 10% do PIB e 10% dos empregos
globais (NAÇÕES UNIDAS BRASIL, 2019) 1 , interage com o meio ambiente (ambiente onde
é realizado), com o social (considerando os locais, turistas, trabalhadores etc.) e com a
cultura (o contato com a forma de viver em uma localidade, seu patrimônio e sua
identidade).
Barreto (2003, p.132) quando trata da abrangência do turismo faz a seguinte
colocação:
A ciência do turismo abrange o estudo de impactos sociais e ambientais, a
relação entre o turista e a população residente, a análise da legislação,
criação de modelos matemáticos para cálculos de fluxos turísticos,
pesquisa de opinião de residentes, metodologia da pesquisa aplicada ao

1
[Link]

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 102


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

planejamento de turismo, estudo de modelos de ensino de turismo,


planejamento e criação de novos produtos turísticos (novos núcleos,
eventos pacotes, tours), elaboração de teorias sobre a forma como
acontece o fenômeno turístico (motivações para viajar, preferências do
consumidos, analise do efeito multiplicador, etc.).

Beni (2019), com base na teoria geral de sistema, considera que o turismo não deve
ser desenvolvido com seus elementos isolados, assim facilitando o estudo sistêmico do
turismo. Ele diz que a divisão do sistema em componentes é para facilitar a análise de
algumas informações, pois são diversas interrelações tanto dentro dos conjuntos de
subsistema, como entre eles.
O turismo quando sustentável desenvolve suas interrelações e seu sistema turístico,
considerando o equilíbrio do desenvolvimento do tripé da sustentabilidade que envolve o
desenvolvimento econômico, sociocultural e ambiental, tornando-o um turismo
responsável, no qual a partir desse, se busca diminuir os impactos negativos, causados por
esta atividade.
Para Ruschmann (2016), os agentes responsáveis pelo desenvolvimento turístico,
não devem se preocupar só com a oferta turística, mas também com a população local,
turistas, meio ambiente e com o sociocultural, e afirma que as regiões e localidades assim
como os equipamentos ligados ao turismo devem ter responsabilidade com o meio
ambiente e com o social. Ruschmann (2008, p.27) afirma que:

O estado deve cumprir seu papel, principalmente no que se refere a


aplicação das leis ambientais e ao zelo pelo seu cumprimento, porém, é
essencial que as coletividades dos locais turísticos, assim como os outros
agentes de seu desenvolvimento contribuam igualmente para a proteção
dos atrativos naturais que estimulam o afluxo dos turistas.

O turismo é multidisciplinar e interdisciplinar, o desenvolvimento ideal deve


acontecer de forma sustentável e holística.
O turismo funcional acontece de forma sistêmica, onde as diversas áreas se
interrelacionam e devem ser analisadas em conjunto e não separadamente. (RUSCHMANN
2016, BENI 2019; BARRETTO 2003). Vários outros setores estão interligados indiretamente
com o turismo, sejam relacionados a questões hídricas, transporte, produções culturais e
entretenimento, gastronomia, agricultura, etc.

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 103


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

Turismo e Meio Ambiente

Ruschumann diz que o meio ambiente é a “matéria prima” do turismo e que a


situação de vida nos centros urbanos está levando a turistas buscarem regiões com
paisagens naturais e afirma (2008, p.19) que:

O contato com a natureza constitui, atualmente, uma das maiores


motivações das viagens de lazer e as consequências do fluxo em massa de
turistas para esses locais- extremamente sensíveis, tais como praias,
montanhas – devem necessariamente ser avaliadas e seus efeitos negativos,
evitados, antes que esse valioso patrimônio da humanidade se degrade
irremediavelmente.

Ruschmann (2016) e Beni (2019), consideram que os responsáveis pelo


desenvolvimento do turismo têm consciência da importância ambiental, e dizem que é de
responsabilidades desses criar melhores formas de administrar, promover e criar melhores
condições no futuro, e que o desenvolvimento para o turismo sustentável versa no
equilíbrio e responsabilidade com as bases que o fazem existir.
Na própria dinâmica do turismo, ambientes degradados ou pouco organizados não
são uma opção de procura pela demanda. O que se deve considerar é que o turismo de
massa – “se refere a produção de turismo organizado industrialmente, que apoia o
movimento de grande número de pessoas” (COOPER, 2011, p. 39) -, não é suportado em
ambientes naturais, e podem ser prejudiciais a outros tipos de ambientes também, e com
o crescimento turístico, seja em caráter nacional ou internacional, é necessário o
planejamento e atenção com esses espaços, para que esses não sejam degradados, e
também para que turistas e comunidade local, possam sempre desfrutá-los.
O turismo que traz contato com a natureza tem crescido, dados da Braztoa (2022,
p. 49), informa que, segundo os especialistas, em 2022, as tendências serão produtos
relacionados à natureza e ao turismo rural.. Este dado nos mostra o quanto a busca por
áreas naturais - à medida que ela vai sendo degradada – é crescente. Segundo Ruschman
(2016) as pessoas tentam cada vez mais sair dos centros urbanos “de concreto” para
relaxar e aproveitar a natureza. É essencial para o turismo, a boa condição do espaço
onde ele acontece, portanto, é necessário preservar e minimizar os impactos tanto porque
é a base de sua existência, quanto para suavizar efeitos globais de mudanças climáticas.

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 104


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

Grimm (2012) reporta quatro aspectos essenciais no sistema de turismo, que podem
ser impactados, em algum nível, devido às mudanças climáticas, são eles: o espaço
geográfico turístico, a demanda turística, a oferta turística e os agentes do sistema.

Crise planetária e turismo

Quando se trata de fenômenos atmosféricos é importante compreender os conceitos


de clima e tempo, os quais tratam de escalas temporais distintas, onde: O tempo se refere
a um estado atmosférico momentâneo, em curtos períodos, que podem ser hora ou dia; O
clima, é um período um pouco mais prolongado, são analises sucessivas de registros do
tempo (normalmente são analisados por um período de 30 anos); Dentro da climatologia
a variabilidade climática, é importante para entender o quão próximo uma variável está
do referencial climático, trata-se de analises mensais, anuais ou de décadas, são
instabilidades climáticas que saem do corriqueiro, mas não representam uma mudança
permanente, diferente de mudanças Climáticas.
É sabido que as modificações climáticas e alguns acontecimentos tem causas
naturais. Geologicamente sempre passamos por períodos glaciais (mais frios) e
interglaciais (mais quentes), o que chama atenção para mudanças climáticas é que o ser
humano está acelerando o processo que seria natural e demoraria muito mais tempo. As
Nações Unidas em uma campanha sobre mudanças climáticas ([Link]
br/175180-o-que-sao-mudancas-climaticas ) diz que:

As mudanças climáticas são transformações a longo prazo nos padrões de


temperatura e clima. Essas mudanças podem ser naturais, como por meio
de variações no ciclo solar. Mas, desde 1800, as atividades humanas têm
sido o principal impulsionador das mudanças climáticas, principalmente
devido à queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás. (s.d
e n.p).

Muito se fala sobre a crise planetária e o desequilíbrio socioambiental tem atingido


aspectos e valores muito preocupantes (BATANOLLI, 201), mas pouco se faz no intuito de
minimizar ações causadoras de tal crise, apesar de reconhecer quão graves problemas
pode gerar no futuro. Quando se trata de aquecimento global logo é considerado o acordo
de Paris, que traz em sua essência a meta de que o aquecimento fique abaixo de 2°C.

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 105


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

Houve um aumento de aproximadamente 1°C, induzido pelo homem em 2017,


considerando os níveis pré industriais. Em algumas regiões e estações do ano já foi
percebido um aquecimento maior que essa média, e acontece com mais intensidade na
terra do que nos oceanos. IPCC2. Em 2023 acontecerá a revisão das metas do acordo de
Paris onde se buscará esforços para mantê-lo no limite de 1,5°C. As Nações Unidas
afirmam que3
Em uma série de relatórios da ONU, milhares de cientistas e analistas de
governos concordaram que limitar o aumento da temperatura global a não
mais que 1,5 °C nos ajudaria a evitar os piores impactos climáticos e a
manter um clima habitável. No entanto, com base nos atuais planos
climáticos nacionais, o aquecimento global deverá atingir cerca de 3,2 °C
até o final do século.

E diz também que não só lidaremos com aumentos de temperaturas, “as


consequências das mudanças climáticas agora incluem, entre outras, secas intensas,
escassez de água, incêndios severos, aumento do nível do mar, inundações, derretimento
do gelo polar, tempestades catastróficas e declínio da biodiversidade”. Nunes (2022,
p.139) alerta que:

Para enfrentar o aquecimento global e atingir o objetivo de contê-lo abaixo


de 2,0º C acima dos níveis pré-industriais, como proposto pelo Acordo de
Paris, é fundamental que a noção dos limites permeie a organização da
vida, encontrando amparo não apenas na racionalidade ambiental, mas
também no pensamento econômico.

Uma das principais causas do aquecimento global é o aumento do efeito estufa,


que se trata de um fenômeno natural que serve para regular a temperatura, mas quando
existe um aumento nos gases que provocam o efeito estufa, desregulariza-o, causando o
aquecimento na terra (aumento da temperatura). O INPE (2022), traz a seguinte
informação:
O entendimento científico de como a mudança climática, causada pelas
emissões humanas de gases de efeito estufa, influencia as fortes chuvas. À
medida que a atmosfera se torna mais quente, ela pode conter mais água,
aumentando o risco de chuvas torrenciais. Com mais emissões de gases de
efeito estufa e aumento contínuo da temperatura, os episódios de chuvas
fortes se tornarão ainda mais comuns e intensos.
Por que devemos nos preocupar com o efeito estufa (em grandes proporções gerada
pelo ser humano)? Porque ele gera aquecimento global, causando o derretimento das

2
[Link] relatório especial sobre aquecimento global de 1,5°
3
[Link]

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 106


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

geleiras que libera uma grande quantidade de CO2 - liberando gases acumulados que
estavam congeladas, - além de aumentar o nível dos mares e acidificar oceanos e causar
alguns cenários catastróficos no sentido de eventos climáticos, e com isso podendo causar
secas e enchentes prejudicando inclusive a produção alimentar mundial. E por que
devemos nos preocupar com o aquecimento global? Os motivos são os mais diversos, entre
eles, está o risco para a sobrevivência da espécie humana.
Grimm (2018) reporta, a partir de um quadro impactos que podem ser gerados a
partir do aumento de temperatura a 2 e a 3ºC (Figura 1).

Tabela 1 – Previsão de impactos que podem ser gerados a partir do aumento de


temperatura a 2 e a 3ºC (GRIMM, 2018).
Setores Impacto 2ºC Impacto 3ºC
Declinio da produção das colheitas 600 milhões de pessoas adicionais podem
em regiões tropicais (50% dos estar vivendo em risco de fome. nordeste
cereais, 25% de milho e 10% de soja). brasileiro será uma das regiões mais
Agricultura Aumento dos preços mundiais dos afetadas do mundo. É provável que a
Alimentos alimentos. O soja). Aumento das produção agrícola de altas latitudes
desigualdades e conflitos pela aumente.
escassez de alimentos e água.
Centro-Oeste e Nordeste brasileiro
sofrerão queda da produção agrícola.
Potencial decréscimo de 20 a 30% na 1 a 4 bilhões de pessoas sofrerão escassez
disponibilidade de água em algumas de água. Migrações ocasionadas pela seca
regiões, por exemplo, o sul da África provocando instabilidade socioeconómica
Água e o Mediterrâneo. De 600 milhões a 3 e política. A Caatinga se tornará mais árida
bilhões e a Amazônia sofrerá períodos intensos de
de pessoas ameaçadas pela escassez seca.
de água.
— 90 a 200 milhões de pessoas Mais de 300 milhões de pessoas correrão o
correrão risco de contrair malária ou risco de serem contaminadas por malária
Saúde outras doenças transmissíveis por e 5 a 6 milhões pela dengue.
Humana insetos ou água. Altas taxas de
diarreia e subnutrição em países
de baixa renda.
60% de perda de gelo no Ártico Perda total do gelo oceânico durante o
durante o verão. Groelândia verão no Ártico. Perda
derretimento completo e completa da camada de gelo da
Geleiras irreversível. Diminuição de 25% ou Groelândia e das geleiras da
mais do gelo oceânico.
Antártida com aquecimento de 3ºC por
vários séculos.

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 107


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

Tabela 1 – Continuação.
Setores Impacto 2ºC Impacto 3ºC
15 a 40% de espécies enfrentando Começo do colapso da floresta Amazônica:
perigo de extinção. Perda de 95% da perdas de mais de 10% das espécies de
maioria dos corais, impactos sobre a peixe; de 22% de zonas úmidas nas costas.
pesca comercial e de subsistência. 50% espécies em perigo de extinção,
Risco de alteração permanente dos incluindo 25 a 60% de mamíferos, 30 a 40%
Ecossistema
sumidouros para fonte de carbono pássaros e 15 a 70% de borboletas do sul
(Amazônia). Grande porção de África. Risco de 88% de transformação de
Tundra e metade das florestas floresta para sistema não florestais.
boreais pode desaparecer. Possível perda e extinção de espécies
dependente de gelo.
Aumento do nível do mar e Aumento do nível do mar, inundações
inundações costeiras poderá colocar costeiras e stress hídrico
Mares e em risco 25 a 50 milhões de pessoas. colocarão em risco 180 milhões de
oceanos Altos custos de recuperação. pessoas. Centenas de milhares
terão que migrar.
Aumento na frequência e Aumento na frequência e intensidade de
intensidade de inundações, clima incêndios, secas, tempestades, ondas de
secas, tempestades, ondas de calor, calor. Perdas socioeconômicas
ciclones tropicais e outros eventos principalmente para países e regiões mais
Eventos
extremos. Sul e sudeste do Brasil pobres do mundo. Reduções máximas nas
extremos
vulneráveis a estes eventos. estações (primavera e verão) na umidade
relativa, incremento da insolação
provocando perdas para certas
modalidades de turismo.
Desconforto pela alta temperatura, Redução de áreas turísticas com
provocando diminuição da demanda comprometimento do setor de turismo de
em muitos destinos turísticos de sol inverno (neve). Diminuição da demanda
e praia. Novos destinos podem surgir implicará perda econômica para destinos
Turismo
principalmente em Unidades de
de montanha (derretimento da neve);
Conservação, implicando
costeiro (subida do mar, branqueamento e
superlotação nessas áreas e impactos
mortalidade de recifes de coral).
ecológicos.

A atividade turística existe essencialmente em espaços, que estão ligados a um


clima, e este influencia na busca pelos destinos turísticos, além de outras motivações,
como a busca por uma vivência, uma estrutura, um tipo de experiência específica etc.
Quando há uma alteração climática ou de tempo, por exemplo, em uma região, quando
acontecem tragédias ou situações relacionadas a catástrofes (enchentes,
desmoronamentos, chuvas excessivas etc), traz a tendência de afastar a demanda
turística, por isso é tão importante que a atividade turística foque na preservação
ambiental e diminuição de impactos negativos, para que não influencie em seu próprio
desaparecimento ou interrupção desta atividade. Ruschmann (2016) diz que cenários
diferentes afetam o espaço onde acontece o turismo ou podem ocasionar fuga dos turistas
para determinada destinação turística.

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 108


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

A interação entre o clima e o turismo apresenta duas vertentes. Por um


lado, o turismo afeta o clima e é responsável por 5% das emissões dos gases
com efeito de estufa. Por outro lado, o clima – aquecimento global - e as
condições do tempo são os principais fatores promotores do turismo e do
recreio ao ar livre, conjuntamente com a natureza e a paisagem
(MATZARAKIS, 2008, p. 01, tradução nossa Apud Grimm, 2012, p.61).

No Nordeste em Maio de 2022 aconteceram fenômenos relacionados a fortes chuvas


que estão interligados as mudanças climáticas. O INPE (2022, n.p) trouxe uma matéria
sobre um estudo que diz que:

Os autores estimaram que a chuva foi cerca de 20% mais intensa do que
teria sido sem o aquecimento causado pelo homem, embora não tenham
sido capazes de quantificar o quanto a mudança climática fez com que o
evento fosse muito mais provável devido à falta de registros climáticos
locais de longo prazo e limitações nos modelos climáticos, que não são
capazes de simular com precisão os eventos naquela região em tão pequena
escala.

Para Grimm (2012), as mudanças climáticas não é previsível ou assume um padrão


esperado, não reportando uma dimensão linear. Dessa maneira, os possíveis caoses em
todos os lugares da Terra não podem ser claramente previstos.
Mas possíveis consequências poderão atingir tanto áreas frias com gelo, que podem
mudar sua rotina turística pelo aumento do calor, quanto em regiões com bastante sol
que podem ser afetadas por tempestades e chuvas em períodos que não aconteciam antes,
isso pode acarretar impacto na economia principalmente de lugares mais vulneráveis e
com pouca organização turística.
Considerando os recursos e a crise planetária–deve-se repensar uma implementação
real das ideias do desenvolvimento sustentável, tanto em atividades turísticas quanto em
outras atividades econômicas. Principalmente se analisarmos e tivermos contatos com
dados do IPCC, Nações Unidas, OMT, entre outros diversos órgão ambientais. IPCC (s.d,
n.d4)

Se todas as emissões antrópicas (incluindo as relacionadas a aerossóis)


fossem reduzidas a zero imediatamente, qualquer aquecimento além do
1°C já experimentado provavelmente seria inferior a 0,5°C nas próximas
duas a três décadas e provavelmente menor que 0,5°C em uma escala de
tempo de um século, devido aos efeitos opostos de diferentes processos e
fatores climáticos.

4
[Link]

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 109


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

Nunes (2022) afirma que nas condições ambientais atuais, o mínimo de contribuição
para a emissão de CO2 contribui para intensificar o quadro atual de mudanças climáticas.

Impactos ambientais

A visão holística no turismo é necessária pois sabe-se que inserido no turismo há um


vasto campo de elementos e interrelações, onde, para se construir um turismo
responsável, equilibrado e sustentável é necessário que todos esses elementos se
“comuniquem” e sejam desenvolvidos equilibradamente.
Ruschmann (2016) afirma que não existe no Brasil uma metodologia específica para
avaliação de impactos ambientais na área do turismo. Ela diz que os impactos econômicos
(mais objetivos e quantitativos) são relativamente mais fáceis de serem medidos do que
os impactos naturais e culturais que terminam sendo analise e avaliações mais subjetivas.
Ruschmann (2008, p.42).

A crescente preocupação dos governos com os impactos ambientais do


desenvolvimento turístico desordenado tem direcionado os investimentos
para implementação de um turismo qualitativo ou para a recuperação das
destinações ambientalmente comprometidas, visando à manutenção da sua
atratividade e, consequentemente, da rentabilidade econômica.

Diversos impactos entre positivos e negativos são “acometidos” pelo turismo. Os


impactos são as modificações ocasionadas nas localidades receptoras relacionadas ao
turismo. As formas como acontecem e intensidades podem acarretar mudanças
irreversíveis. Eles podem ocorrer de formas diversas. Mesmo com tipos de turismo
semelhantes acontecendo em regiões diferentes, podem ocasionar impactos diferentes,
pois depende de toda interrelação, gestão, fiscalização e ação dos que praticam e
oferecem a atividade - Gestão pública, privada, comunidade local e turistas.
Ruschmann (2016), Barretto (2003) trazem em suas discussões, sobre até que nível
o ambiente suporta determinada atividade turística, pois ele tem um limite para começar
a deteriorar. E colocam como opções para minimizar o impacto que pode ser causado, o
estudo de capacidade de carga turística e a organização e planejamento turístico, usadas
como forma de preservar principalmente ambientes naturais utilizados pelo turismo.

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 110


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

Quando não há planejamento turístico existe um sério risco de diversos tipos de


impactos negativos acometerem as regiões, esses podem ser em níveis locais e globais,
sendo importante ressaltar que os impactos locais também podem afetar ou serem
considerados globais. As Nações Unidas (2019), ressalta que o setor sofre ameaças de
impactos diretos ou indiretos, onde os fenômenos do clima podem gerar efeitos negativos
nos custos de seguro e preocupações com segurança, escassez de água, impacto na
biodiversidade e danos ativos a atrações em destinos.
Assim, há uma relação recíproca entre turismo e mudanças climáticas, onde
alterações climáticas podem ser desfavorável para atividades turísticas e, em contra
partida, o turismo pode gera impactos no ambiente que podem contribuir para o efeito
das mudanças climáticas, tais como o aumento da geração de resíduos (GRIMM, 2012).
Alguns impactos negativos que são gerados pela própria atividade, que influenciam, em
pequena ou larga escala para as mudanças climáticas, são: Poluição, desmatamento
degradação de aquíferos, aumento de resíduos, congestionamento, entre outros. Este
autor, ainda relaciona alguns impactos que podem afetar as atividades turísticas, algumas
delas são:
- Temperaturas mais quentes, alterando a sazonalidade esperada pelos turistas e
transmissão de doenças contagiosas.
- Elevação do nível do mar, o que pode alterar o branqueamento de corais e
afetando a estética do turismo que envolve mergulho ou essas áreas.
- Precipitação reduzida e aumento da evaporação, o que pode causar escassez na
região.
- Diminuição da camada de neve, alterando a paisagem em destinos onde a neve é
uma das atrações.
O início da pandemia em 2020 representou uma diminuição significativa na
atividade turística e segundo a OMT (2022, s/p):

enquanto o turismo internacional se recupera, o turismo doméstico


continuará impulsionando a recuperação do setor em um número
crescente de destinos. As viagens domésticas são alimentadas pela
procura de destinos mais próximos de casa e com baixa densidade
populacional, uma vez que os turistas procuram atividades ao ar
livre, produtos baseados na natureza e turismo rural.

Estudos em Direito Ambiental: Territórios, racionalidade e decolonialidade | 111


Turismo e aquecimento global Regala, 2022

Segundo Ruschmann (2016) muitos turistas por passarem pouco tempo, não
entendem que impactam o meio ambiente. Os impactos mesmo que causados em pequenas
escalas - considerando que a visitação é frequente - se tornam prejudiciais, sejam esses
em escala local ou globais. O deslocamento, é um exemplo, que causa um grande
impacto, e que todos os turistas utilizam algum meio para se locomoverem, e sendo ele
com queima de combustível, já é um impacto considerável. La Torre (1997, p19) afirma
que o Turismo:

É um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e


temporário de indivíduos ou grupo de pessoas que, fundamentalmente por
motivos de recreação, descanso, cultural ou saúde, saem do seu local de
residência habitual para outro, no qual não exercem nenhuma atividade
lucrativa, nem remunerada, gerando múltiplas inter-relações de
importância social, econômica e cultural.

Para que o deslocamento aconteça são usados na maioria das vezes transportes
como carros, ônibus, avião entre outros. As Nações unidas (2019) trazem o seguinte dado
com relação ao movimento de turistas, “chegada de turistas internacionais aumentou de
770 milhões em 2005 para 1,2 bilhão em 2016 e devem alcançar 1,8 bilhão em 2030.” E
que “As emissões relacionadas ao transporte do turismo devem representar 5,3% de todas
as emissões de CO2 provocadas pelo homem até 2030.”
O Relatório sobre “Mudanças Climáticas e Turismo - Respondendo aos Desafios
Globais", feito pela Organização Mundial do Turismo (OMT), o Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambiente (PNUMA) e a Organização Meteorológica Mundial (OMM), traz os
seguintes dados na Figura 2.
A Figura 2 traz a realidade atual da emissão CO2 dos subsetores do turismo. O
cenário proposto nessa Figura (à direita), é para o caso de continuarmos a projeção do
desenvolvimento do turismo atual e crescente. A OMT (2008) afirma que se as eficiências
tecnológicas forem alcançadas para todos os modos de transporte, acomodações e
atividades, isso pode resultar em 38% menos emissões.
A OMT (2008) no relatório já citado, diz que existem formas estratégicas de mitigar
a emissão de co2, são elas através da redução do uso de energia (considera esse o aspecto
mais essencial entre as ações de mitigação, que seriam a partir de adaptações dos
operadores turísticos, e na mudança no uso de transportes, como por exemplo a troca de
carro por ônibus e trem, etc), também cita a melhora da eficiência energética; O aumento
do uso de energias renováveis; E sequestro de carbono.

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Figura 2 Contribuição dos subsetores turísticos para emissão de CO2 (Figura à esquerda) e
Comparação das emissões atuais causadas por viagem do turismo e projeções das emissões
para o ano de 2035, sobre a ascensão de um cenário dos negócios atuais (Figura à direita).
Fonte: OMT (2008, p. 34).

Planejamento do turismo

O planejamento é uma ferramenta que nos permite conhecer a situação atual,


analisar, avaliar e estabelecer condições favoráveis para alcançar os objetivos, utilizando
de forma eficiente recursos disponíveis.
Segundo Ruschmann (2008) os problemas futuros podem ser solucionados ou
evitados a partir de um bom planejamento. Beni (2019) diz que se o turismo for bem
planejado estará de acordo com preceitos do turismo sustentável evitando desequilíbrios.
Barretto (2005) acredita que nem sempre os planejamentos turísticos tem
resultados exatamente como esperados, mas que ao menos se aproximam do que é o ideal.
É necessário acompanhamento da atividade pelos setores envolvidos para assim saber
como anda o desenvolvimento do turismo. A autora afirma que o planejamento tem
definições comuns que se compilam em 2 ideias “de complexidade (sistema, processo,
mecanismo), e a da ação voltada para o futuro.” (2005, p. 30).
Ruschmann (2008) enfatiza que esse planejamento é essencial para o turismo se
desenvolver com equilíbrio e harmonia entre suas atividades e os recursos naturais,
culturais e sociais das regiões. Ele ainda reitera que o planejamento turístico desses locais

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requer um processo metodológico que garantirá o sucesso das ações e decisões. O


planejamento é essencial para organizar as ações de mínimo impacto, através dele
também pode-se buscar formas de diminuir emissão de CO2, unindo a atividade do turismo
à atividades econômicas que estão ligadas a produção especifica para o turismo. BARRETO
(2005, p.31) afirma que:

O planejamento requer especialistas, pessoas com conhecimento do


problema a ser resolvido ou com disposição para obter esse conhecimento
mediante pesquisa; que não sejam dogmáticos, que saibam trabalhar em
equipes interdisciplinares, que tenham paciência, tolerância e que saibam
admitir erros.

São necessárias políticas para que seja colocado em prática o planejamento. O setor
público e representantes (do turismo) a nível mundial devem ser responsáveis pelas
políticas e ações voltadas ao turismo e a população, que vai suprir necessidades e bem
estar no que se refere ao social e ambiental. Mas sabendo-se que turismo é uma rede, as
parcerias são necessárias tanto com o trade turístico, quanto com entidades e setores que
possam de alguma forma estar ligados ao turismo.
Para que se obtenha maior eficiência no desenvolvimento do planejamento é
necessário que os setores de interesse e que estão interligados com a atividade turística,
estejam sempre cientes dos processos e ações, sabendo que essas devem ser realizadas
de forma participativa.

CONCLUSÕES

Este artigo traz o entendimento de que a atividade turística faz parte de um sistema
e deve ser desenvolvida de forma holística, unindo todas as partes do sistema para que
haja a prática do turismo organizado. E assim poder ser praticado um turismo sustentável,
minimizando impactos negativos, pois a atividade turística, mesmo de forma indireta,
causa impactos que estão diretamente ligados as mudanças climáticas. É essencial o
planejamento turístico responsável e sustentável, para que evitemos tantas mudanças que
podem afetar a existência da própria atividade turística, e influenciar o aumento do
aquecimento global.
A partir dos dados obtidos na revisão bibliográfica, foi possível perceber que o
turismo influencia nas mudanças climáticas e é influenciado por elas, sendo assim

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Turismo e aquecimento global Regala, 2022

necessário repensar formas sustentáveis, para o desenvolvimento turístico. Conseguimos


perceber que as mudanças climáticas estão sendo aceleradas pela indução humana, a
partir do aquecimento global.
Devemos estar atentos e começar a pensar neste tipo de turismo responsável e
sustentável, que é essencial, e descartar o crescimento econômico (que pensa
exclusivamente no lucro, e na produção ilimitada, esquecendo outros elementos que
devem ser considerados), antes que os resultados sejam irreversíveis e catastróficos a
toda biodiversidade - incluindo o hommo sapiens. Portanto é necessário pensar a forma
de desenvolvimento do turismo pincipalmente em áreas naturais.
Os diversos órgãos e autores citados, mostram que o turismo está ligado a este
grande impacto (aquecimento global), afinal quem mais produz esta crise é a produção e
consumo ilimitado, e o turismo – que é uma atividade social e econômica, além de gerar
impactos locais ao meio ambiente de forma considerada “de menor impacto” -, está ligado
também a um dos maiores emissores de dióxido de carbono (a queima de combustíveis
fósseis) a partir do deslocamento de pessoas entre localidades, que é necessário para que
aconteça o turismo.
O turismo pode ser um aliado na preservação ambiental e no desenvolvimento
social, econômico e cultural equilibrado, mas para isso é necessário que a atividade seja
bem planejada. É necessário a busca de um ponto de equilíbrio, para que o turismo não
seja a causa de sua degradação, nem o gerador de grandes impactos planetários

REFERÊNCIAS

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Paulo, 2019.

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