Há muito tempo, quando exibir uma coroa acima da cabeça e posar com cetros dourados em cerimônias
suntuosas ainda eram considerados sinônimos de imponência e autoridade, o rei Béan de Hadramiel
aguardava impacientemente pela chegada da praga em seus domínios. A majestade percorria a câmara
régia a uma velocidade de se dar inveja no mais ágil dos cavaleiros. Tinha medo de que se permanecesse
parado, acabasse refém da loucura. Seu povo definitivamente não podia lidar com um governante fora de
si.
Na esperança de revigorar-se com o abraço da brisa fresca, o rei correu para a sacada, contudo, a
serenidade do momento foi encerrada inesperadamente pela presença devastadora de um nevoeiro
anômalo. Se espalhava depressa e trazia consigo uma visão terrível: dezenas de figuras encapuzadas que
se moviam feito almas penadas em meio à névoa violenta, seguindo junto dela para a entrada do castelo.
Ele se dirigiu até a porta e, dispensando quaisquer formalidades exigidas no protocolo da realeza, resolveu
abri-la sozinho, apenas para confirmar que parte da neblina já havia engolido os aposentos inferiores,
estendendo-se em seguida para os andares mais acima. Emergindo de surpresa à sua frente, o fenômeno
nebuloso provou-se poderoso o bastante para deixá-lo brevemente cego.
Assim que a bruma pálida desapareceu, Béan se deparou com um corredor ilustrado pela presença da
morte. Centenas de cadáveres estavam largados no chão frio, posicionados um acima do outro. Ele sentiu
as pernas sacudirem feito chocalho, ameaçando ceder. E enquanto enfrentava a mudança repentina no
padrão de sua respiração, usou uma técnica mental ensinada a ele nas aulas de combate para reservar
força e correr o mais rápido possível até o final do corredor, de encontro à saída.
Passou reto pelos corpos, vislumbrando um ou dois olhos, desbotados e retorcidos. Pelas vestimentas,
deduziu que boa parte deles se tratava de guardas ou funcionários domésticos. Isso pouco lhe importava.
Tocou a porta fabricada com obsidiana pura e a puxou para trás, escancarando-a. Outra onda de ar
acompanhada pela névoa o atingiu, desta vez carregada de poeira, e gargalhadas de uma velha caquética
inundaram a passagem para a escadaria, reproduzindo ecos amedrontadores por todos os cantos do
palácio.
O rosto do rei transformou-se numa caricatura incomum, mesclando ansiedade, tensão e medo.
Sim, era verdade. Ele estava borrado de medo.
De repente três das nove tochas anexadas à parede pedregosa iluminaram o corredor, e Béan imaginou
que algo tentava lhe propor alguma coisa. Ele concordou com a cabeça e seguiu, esperando chegar vivo e
são ao andar de baixo.
Ao pisar no salão, o rei se ajoelhou atrás de seu majestoso trono e retirou de lá uma espada de aço, gigante
e reluzente, nunca antes usada. Ele a ergueu com ambas as mãos, buscando por qualquer anomalia em
cada recanto que ainda não havia sido afetado pela névoa. Murmúrios começaram a preencher o salão, e
estes pareciam ser reproduzidos pela mesma senhora de risada apavorante. O som de passos pesados
combinou-se à corrente de sussurros espectrais, e o que soava como uma confusão macabra, evoluiu para
uma união fantasmagórica de ruídos guturais e inumanos, dignos de uma peça de horror dirigida pelo
espantoso Diabolaidd, o contador de estórias oficial de Hadramiel, que surgia ocasionalmente no reino,
para assustar as crianças enxeridas nas feiras e convenções da aldeia Falta-Fogo.
Mas a concretude da situação em nada remetia à morbidez frívola dos contos e peças roteirizadas pelo
escritor, levando o rei a crer que o mal que enfrentava era bastante real e palpável.
O chão abaixo de seus pés mergulhou-o por completo na fantasia sombria que se desenhava em seus
pensamentos há algum tempo, quebrando a sequência do natural e tomando uma forma intangível e
insubstancial ao abocanhar as pernas desprotegidas do rei. Ele gritou, e tentou usar a espada para se
manter estável, o que não funcionou. Em uma última tentativa desesperada, gritou o nome de Barbatus,
seu mago, três vezes, alto e fortemente, para que os apelos pudessem ser escutados do lado de fora do
castelo. E para seu espanto, ele não obteve nenhuma resposta.
A silhueta que reconheceu como sendo de uma dos encapuzados que transitavam pela neblina mais cedo,
materializou-se próximo a um amontoado de névoa, no canto da sala do trono.
O rei engoliu em seco.
— Quem é você? O que quer de mim? — berrou, manchando sua barba ruiva de saliva e suor.
A figura riu. A mesma risada rouca e desgastada de antes.
— De você mesmo, não quero nada. Nem um fio de cabelo sequer — respondeu, os olhos dourados
vibrando com a quantidade exorbitante de magia proibida que borbulhava dentro dela, implorando para
escapar dentre seus dedos e agarrar o rei, podendo assim sufocá-lo até que encontrasse o caminho para a
morte. — O que eu desejo é muito mais.
O som dos sapatos da feiticeira ecoava como chicotadas à medida que ela caminhava pelo salão,
movimentando sua longa capa para ocultar o rosto.
— Dê-me sua filha. Dê-me sua filha e todos os problemas deste reino serão exterminados. Dê-me ela e
passará de rei, para imperador. Pense comigo — disse, esperando fisgá-lo com as falsas promessas. —
Você será o detentor do mundo, o Guardião de Chaves, pioneiro promissor de uma nova era de riquezas e
expansões territoriais bem sucedidas.
A bruxa usou sua magia para idealizar uma projeção azulada no ar. Nela, podia ser vista a planta do
continente perdido de Atlântida, esquecido faz muitos anos pelos integrantes reais da União Nobre.
— Pode ser você o primeiro a executar a primeira viagem para lá! — exclamou, a voz cheia de malícia
dominando a mente fragilizada do rei.
Ele fechou os olhos, imaginando.
Civilizações trabalhando em fortalezas tão grandes que seriam capazes de tocar as terras dos Skapari.
Criaturas mágicas contribuindo para a ascensão e o avanço da raça humana, além de reservas de comida
para o resto da eternidade. Palácios estonteantes, ruas douradas, e água, água de verdade passeando por
rios e córregos, além de um mar estável e uma floresta repleta de lagos cristalinos, guardados por ninfas e
dríades de diferentes espécies e encarnações. A promessa de um recomeço era, de fato, arrebatadora.
Recordou-se da filha. A pequena princesinha de cabelos acobreados e olhos azuis. Lembrou também da
mãe dela, já falecida, e desejou que ela estivesse ali para salvá-lo e dizer que não, que aquilo era loucura.
Mas Cora não estava mais lá havia oitenta eclipses. E, como um mortal, jamais teria a habilidade e o
controle necessários para se comunicar com os desencarnados.
Não fazia ideia de quem era aquela mulher. De como ela havia conseguido burlar os sigilos mágicos
desenhados à mão por Barbatus e Lineanne. Mas a oferta era irrecusável.
Ao selar o acordo com a bruxa, conseguiria trazer Cora de volta, restaurando a ordem e o equilíbrio em
Hadramiel. Imaginou-a retornando do leito sepulcral, provocando as leis do tempo e da magia, o mundo à
sua volta florescendo outra vez, e a praga sendo expurgada do planeta para sempre.
E quanto aos filhos, à sua filha, bem, ele poderia gerar mais herdeiros de qualquer forma.
O rei respirou fundo.
— A princesa… você pode levá-la. — falou. — Mas além de tudo o que me prometeu, também quero o
poder para reanimar minha falecida esposa.
A bruxa o confrontou com o olhar, passando a língua nos lábios sangrentos e se aproximando dele a
passos lentos e calculados.
— Feito! Concedo-lhe o direito de lançar a Moeda de Eurídice no poço espectral mais próximo. — foi
como se sua voz abandonasse a natureza jovial e sedutora, deixando-se ser consumida por uma entonação
demoníaca.
As pernas do rei foram regurgitadas pelo solo, lançando-o aos pés da bruxa. Ela agarrou o dedo indicador
dele e o espetou com uma agulha quase invisível de tão fina e prateada. Ao terminar, deixou o homem
para trás sem nem mesmo olhá-lo uma última vez. Estava tão ansiosa para reclamar seu prêmio que não
conseguia mais esperar.
Subiu a imensa escadaria e chegou até o corredor, onde a neblina ainda se fazia presente em muitas partes.
Com um único gesto, fez a névoa se dissipar por completo, o que revelou entradas alternativas para outros
cômodos do castelo. Seguindo as instruções extraídas da mente do guarda encarregado dos portões pouco
antes de matá-lo com um derrame infligido por meios mágicos, a bruxa chegou à série de quartos que
seriam reservados à família real.
Uma luz forte e dourada era emanada de dentro do último dos aposentos. Os olhos da bruxa brilharam
feito safira amarela, e quase que hipnotizada, ela seguiu seu caminho. Ao entrar, se deparou com a figura
angelical da princesa de Hadramiel pairando no ar, cercada por uma insígnia mágica que a protegia como
um escudo místico. As madeixas ruivas, quase cor de rosa, flutuavam no ar, padronizadas de maneira a
parecerem pequenos pedaços encaracolados de algodão-doce. Encantada, a bruxa tentou tocá-la, mas foi
violentamente repelida com um raio de energia lilás que a fez voar para fora do cômodo com uma
brutalidade esmagadora.
Aquela não era mais a princesa de Hadramiel.
A bruxa tentou pôr-se de pé, mas uma força muito maior do que ela e seu poder somados a mantinham
fixa a ele. A princesa saiu do quarto, ainda levitando, e a encarou no fundo dos olhos, ambas as mãos
delineadas por auréolas celestiais, a magia angelical em sua mais pura essência.
Antes que pudesse pensar em lutar, a bruxa sentiu um forte golpe afetar a sua região pulmonar, drenando
todo o ar armazenado nele. Em sua mente, passaram a ser replicadas imagens medonhas de grupos de
homens e mulheres encapuzados sendo arrastados por léguas de distância, totalmente reféns de uma
comitiva aterrorizante que cavalgava em corceis ornamentados com máscaras negras e selas feitas de
ossos que ela identificou como sendo de seres humanos. O céu acima deles ganhava coloração
castanho-avermelhada, e posteriormente iniciava uma chuva intensa de mesma cor, manchando a flora e a
fauna com tanta intensidade que podia se ouvir até mesmo o lamento da terra pelas vidas perdidas durante
o desastre. A bruxa tinha certeza de que estava embarcando no inferno muito mais cedo do que deveria, e
só a ideia de receber a sentença por todas as almas reivindicadas em prol de seu poder, a faziam
estremecer ainda mais.
Implorou para ser levada de uma vez, mas a tortura ainda não havia acabado.
Usando magia, a garotinha conseguiu atingir aquela que agora classificaria como a sua primeira vítima,
revirando o suco gástrico reservado em seu estômago e em seguida movendo-o até a região afetada do
pulmão, para depois simplesmente atirá-lo em outra área bem mais acima, a boca. A erosão dentária
severa provocada pelo ato ceifou as últimas chances da bruxa de proferir um feitiço ou encantamento que
a livrasse do sofrimento. Seu destino e objetivos foram aniquilados e perderam-se entre o colapso físico e
mental que a levou à óbito.
— Você não é bem-vinda aqui. Nenhum de vocês é bem-vindo aqui! — disse a princesa, um pouco antes
de desencadear uma explosão que corroeu metade do castelo.